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Novo Banco, velhas histórias

Longe vão os tempos de 2015.

Mas não será demais recordar, apesar do esforço de omissão que a comunicação social do regime, que o Banco Espírito Santo foi alvo de aplicação de uma medida de resolução em Agosto desse ano, por decisão do Banco de Portugal quando confrontado com 2 factos: a indisponibilidade do Governo para apoiar com capital emprestado o BES e a igual indisponibilidade para ponderar a nacionalização da instituição.

O Orçamento do Estado para 2019 ainda comporta uma verba de 850 milhões para capitalizações do NOVO BANCO, entidade bancária resultante da liquidação do BES e da segregação dos seus melhores activos. Quando essa resolução foi tomada pelo Governo PSD/CDS, em plena aplicação de um programa de assalto e exploração aos portugueses, foram empenhados 4,9 mil milhões de euros num banco privado sob um vasto conjunto de ilusões difundidas, quer pelo Governo, quer pela comunicação social de serviço.

Diziam que o estado português iria reaver todo o dinheiro gasto e que eventualmente ainda viria a lucrar. Diziam que eram os bancos quem ia pagar a despesa do fundo de resolução. O Banco de Portugal chegou a afirmar ter avaliado uma hipótese de nacionalização do BES que poderia ter custos na ordem dos 5 a 7 mil milhões de euros, mas que tal hipótese foi liminarmente rejeitada por Maria Luís Albuquerque por motivos alheios ao seu custo e estritamente relacionados com a sua visceral rejeição por qualquer ideologia que se aproxime sequer da salvaguarda do interesse público. Aversão essa tão bem expressa nas suas opções profissionais logo após ter sido demitida pelos portugueses do cargo de Ministra das Finanças, optando por entregar os seus préstimos à Arrow Global – empresa que se dedica precisamente à gestão de dívida e que participa em operações coma dívida pública portuguesa e talvez até com activos do BES já que é certo que os NPL* não serão negócio que lhe passe ao lado.

O Governo PS não se deixou ficar atrás e não quis criar ansiedade aos “mercados”, assim optando por cumprir religiosamente o plano do anterior Governo apesar de as contas terem sido mal feitas. Ou seja, o anterior governo assumiu o compromisso de vender o Novo Banco partindo do pressuposto que o custo da sua resolução havia sido 4,9 mil milhões de euros e que tais recursos seriam recuperados no processo de venda. Ora, não apenas o custo do Novo Banco não se ficou pelos 4,9 mil milhões, como o processo de venda implicou ainda mais perdas. Alguns meses depois da aplicação da medida de resolução pelo BdP e pelo Governo PSD/CDS, o Governo PS decidiu converter obrigações em capital, assim capitalizando o Novo Banco, revelando um custo superior ao anunciado pelo Governo PSD/CDS e, como tal não bastasse, o PS acaba firmando um compromisso de venda do Novo Banco a uma entidade bancária desconhecida e sem ligações ao mercado português ou à economia nacional, a custo zero e com a garantia de disponibilidade de mais 3,98 mil milhões do estado português para a capitalização do banco.

O Governo PS decidiu, livre e conscientemente, cumprir um compromisso do anterior governo, apesar de não estarem minimamente cumpridos os pressupostos em que esse compromisso fora forjado. Ou seja, não iriam ser 4,9 mil milhões de euros gastos e um valor maior recuperado, mas sim 4,9 mil mais mil de obrigações consumidas mais 3,98 mil milhões de garantias na venda e sem nenhum tostão recuperado. Passamos assim de uma conta zero ou positiva para uma conta de 9 mil milhões negativos. Nesse contexto, o actual Governo teria tido todas as justificações para reverter o negócio assumido por Passos e Portas e, mais do que isso, teria também todas as condições, nomeadamente as de apoio social e de apoio institucional. O PCP sempre deixou claro o seu apoio à nacionalização e o BE acabou por vir a declarar também esse apoio um pouco mais tarde.

O crime foi levado a cabo a 3 mãos. As do costume. PSD e CDS prepararam e desferiram o primeiro golpe e o PS veio terminar o trabalho contra os portugueses e a favor dos grandes grupos económicos da finança. Neste momento, além da palavra de membros do Governo, não temos absolutamente nenhuma garantia de que os activos do Novo Banco não estão a ser limpos através da Lone Star. Não sabemos, nem temos como saber, se a Lone Star não está a vender dívidas junto do Novo Banco aos próprios devedores ou a alguém por estes. Por outras palavras, não temos como saber se não são os próprios devedores do BES que agora lucram com a rapina do Novo Banco, paga por fundos públicos, extorquidos a todos os portugueses através dos Orçamentos do Estado. Orçamentos do Estado que continuam a ser instrumentos de assalto à riqueza nacional, apesar de conterem em aspectos limitados algumas fórmulas de melhor distribuição da riqueza e da fiscalidade. Ou seja, apesar de alguns elementos de progresso – que, no cômputo geral do orçamento, mais não representam que migalhas – o Orçamento do Estado mantém a sua função primordial de garantir as relações sociais e de assegurar a extorsão da riqueza nacional, mantendo intocável o privilégio dos banqueiros, agiotas e especuladores internacionais através do pagamento escrupuloso do serviço da dívida.

Olhar para a história do Novo Banco mostra-nos com grande clareza que, no que toca às opções de fundo, PS, PSD e CDS, afinam pelo mesmo diapasão e servem as mesmas classes e que a única diferença sensível entre a intervenção de cada um desses partidos é a correlação de forças constituída a cada momento, dentro e fora do parlamento. O reverso da medalha dessa relação é que, por vezes, ela implica que uns e outros podem, em determinados contextos, aplicar programas semelhantes ou praticamente iguais com diferentes graus de apoio social.

O que sabemos sobre o Novo Banco é, contudo, revelador dos crimes cometidos, ora por uns, ora por outros: do que supostamente seria uma operação lucrativa, passámos a um prejuízo (para já!) de pouco menos de 9 mil milhões de euros e um prejuízo potencial acima desse valor; que a nacionalização não foi equacionada por opção ideológica apesar de os estudos apontarem um custo para o estado inferior ao da resolução. Sabemos que PSD e CDS desenharam um plano e que PS o cumpriu sem resistência.

* NPL – Non-performing loans: créditos contraídos junto de uma instituição e parcial ou totalmente incobráveis, cobertos por garantias fictícias ou garantias entretanto depreciadas.

Não Sr. Presidente, não temos nada que agradecer a Passos Coelho! Nada!

Vindo do lado do PS não espanta, mas é necessário mesmo assim repudiar os circunstancialismos mentirosos. Ainda que, além de palmos de terra, os portugueses tenham o hábito de deitar elogios para cima dos esquifes, não se pode aceitar tal “rito” vindo de um presidente da AR. Enquanto foi deputado ou primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho nunca “serviu a causa pública”! Nunca!

Pelo contrário, no exercício das suas funções, atacou sempre e o mais que pôde o Estado e os serviços públicos. Pugnou pelas privatizações de serviços essenciais, beneficiou o grande capital privado, condenou o povo a quatro anos de precariedade, cortou pensões, apoios e reformas, arruinou a vida de muita gente, desgraçou milhares de pequenas e médias empresas, foi peão da banca, dos banqueiros, da senhora Merkel e do BCE.

Foi, enquanto era ainda deputado, o cidadão que “se esqueceu” de pagar 5 anos de contribuições à Segurança Social, e enquanto primeiro-ministro o responsável que protegeu banqueiros enquanto mandava os jovens emigrar. O país nada deve, nem nenhuma consideração deve ter por Passos Coelho ou qualquer governante PSD/CDS do anterior governo. Foram anos negros que não serão branqueados, nem esquecidos! Nem mesmo que este PS queira ajudar a que isso aconteça, o que, pelos vistos, parece ser o caso!

Off-Shores – a sangria contínua

Já não recordo o dia, mas durante uma das audições da Comissão de Inquérito à gestão do Banco Espírito Santo e do Grupo Espírito Santo, quando confrontado com perguntas sobre o recurso a advogados para operações de “engenharia fiscal” e uso de contas e empresas fictícias sedeadas em paraísos fiscais off-shore, o banqueiro que estava sentado como depoente responde à pergunta: “e são normais honorários desta ordem?” (julgo que tinham sido 5 milhões pagos à sociedade em que trabalhava Ana Bruno – advogada) – da seguinte forma: “se pagámos esses honorários à advogada é porque ela nos fez poupar muito mais em despesas fiscais.” A citação é feita de memória, mas anda perto das palavras utilizadas.

Isto demonstra bem como os grupos monopolistas e grandes grupos económicos e financeiros manipulam as brechas da lei, usam e abusam de empresas e veículos fictícios, fazem circular capital, créditos, pagamentos, para cortar nas suas responsabilidades fiscais. A tese de que o capitalista ajuda a desenvolver o país desmorona-se se olharmos para as contas do primeiro capitalista que apanharmos. Na verdade, à primeira oportunidade, os grupos económicos e os seus homens de mão, colocam toda a riqueza amassada no país, fora dele. Não há espaço para ingenuidades nem canduras: uma empresa ou uma conta sedeada em off-shore não é ilegal e muitas das utilizações que lhe são dadas não são ilegais, mas não deixam de ser um recurso claro para escapar a dois mecanismos fundamentais: o da supervisão e fiscalização à origem dos capitais e o da fuga e evasão fiscal. Ou seja, ninguém coloca o dinheiro numa conta off-shore só porque os euros se dão melhor em clima tropical, como o das Bahamas – território para onde sabemos agora ter sido feita a transferência de mais de 4 mil milhões de euros correspondente à venda da PT Portugal. Ninguém coloca o dinheiro nas Ilhas Virgens Britânicas só porque se sente melhor com o dinheiro no meio do mar. A verdade é que esses territórios são uma zona livre de regras e assumem o compromisso com os seus “clientes” de não partilhar a informação das suas contas com os órgãos de supervisão dos países de origem do capital.

Ficámos a saber que durante o mandato do Governo PSD/CDS; o mesmo Governo que entrava pela casa adentro das famílias para verificar facturas, que roubava salários e pensões, que aumentava a carga fiscal sobre os trabalhadores, que privatizava tudo e mais alguma coisa, que ia encontrar dinheiro nas pensões dos nossos velhos, que atirou milhares de portugueses para a pobreza, incluindo crianças e idosos, que retirou aos jovens uma boa parte da sua esperança de viver no seu próprio país; deixou passar por entre as gotas da chuva 10 mil milhões de euros em transferências para off-shores. E deixou deliberadamente passar sem conhecimento do público um total de 27 mil milhões de euros para esses territórios. Num momento em que as casas das pessoas eram penhoradas por dívidas ao fisco, os senhores do dinheiro deste país, andavam a pegar em tudo o que tinham, conseguido à custa do trabalho dos outros – e a colocar em territórios onde não se pagam impostos e não há forma de saber o que lá se passa com o dinheiro.

Se há coisa que hoje sabemos é que o off-shore, não sendo ilegal, está na base de todas as ilegalidades praticadas no âmbito do sistema financeiro e da especulação mundial, é uma ferramenta determinante no branqueamento de capitais, na evasão fiscal e no financiamento do terrorismo. Quem quer cumprir as suas obrigações fiscais e declarar os rendimentos integralmente e contribuir para o desenvolvimento do seu país, não põe o seu dinheiro em lugares onde lhe garantem que segredo mesmo que o dinheiro tenha origem no tráfico de droga, de armas ou de seres humanos.

A distância vai-nos neutralizando a revolta e os tempos de um Governo que nos assaltava, usando o Estado e a lei como armas dão lugar a uma recordação dolorosa que a própria comunicação social trata de ir apagando da nossa memória colectiva, mas não podemos esquecer o que PS/PSD/CDS nos fizeram na sua aliança e compromisso com os grandes poderosos do mundo, sob a capa do FMI, BCE e UE. Enquanto aos portugueses trabalhadores era exigido que trabalhassem para entregar o dinheiro aos patrões – e ao Estado que por sua vez entregava a outros patrões por via dos juros da dívida – e a outros portugueses era negado o direito ao trabalho para que os salários baixassem, aos patrões era permitido que escoassem a riqueza (27 mil milhões de euros em 4 anos!!!) para onde quisessem, deixando de fora da receita fiscal e do investimento essa riqueza que os próprios trabalhadores tinham gerado.

Não podemos perdoar.

E não podemos enlear-nos na trama jurídica com que PSD e CDS querem agora justificar ou distrair-nos do essencial. Ah e tal que aumentaram a pena de prisão para crimes relacionados com branqueamento de capitais… E quantos estão presos? Quantas das celas das cadeias deste país estão ocupadas com milionários, ou poderosos, ou corruptos?

Ao contrário do que nos querem fazer crer, o off-shore não é uma anormalidade do capitalismo, não é uma doença do capitalismo, uma fuga às regras, os off-shores são apenas um sintoma. O capitalismo é que é a doença que nos aliena do que produzimos e até das nossas vidas. Desliga-nos do nosso próprio trabalho porque entrega os seus frutos a outrém.

Se é possível introduzir regras que limitem o recurso a off-shores como propõe desde há muito o PCP? É. Mas em momento algum podemos desligar a introdução dessas regras de uma transformação social, de uma alteração no exercício do poder e na natureza burguesa do Estado como o conhecemos. Só a alteração, as alterações, o aumento do vigor e a conquista gradual da hegemonia dos trabalhadores na condução dessas alterações, podem ditar regras que limitem os privilégios dos ricos e ditem a felicidade dos pobres.

Não é vingança que me faz afirmar que o povo não deve nada a Paulo Núncio, Maria Luís Albuquerque, Portas e Passos e que eles quem nos deve o dobro o dobro do que ajudaram a roubar. Não, não é vingança. É amor aos que, em Portugal e no mundo, vivem do seu próprio trabalho e vivem vidas inteiras a empobrecer.

Deste Governo PS, sem falsas expectativas, resta-nos saber que nenhum governo, por mais comprometido que esteja com os poderosos, é imune à força do povo.

Da Amnésia da JSD Lisboa

Comecemos por fazer uma citação: “Quando um país enfrenta um nível elevado de desemprego, a medida mais sensata que se pode tomar [sobre a subida do Salário Mínimo Nacional] é exactamente a oposta” – Pedro Passos Coelho, 6 de Março de 2013. Sim, esse mesmo Pedro Passos Coelho. O líder do partido que está no canto inferior direito do cartaz que se queixa… dos baixos salários. O governante que, nos últimos anos, mais atacou os salários dos portugueses, mais agravou os impostos sobre os rendimentos do trabalho, mais desprezou a situação social dos jovens do país, que mais os insultou e apoucou convidando-os a emigrar ou a aproveitar as “oportunidades” do desemprego!

Esqueceu-se a própria JSD de quando vinha a público defender a tese peregrina – e completamente idiota! – de que os prolongamentos dos contratos a prazo poderiam salvar 1100 empregos por dia?

A lata da JSD Lisboa parece, de facto, proporcional ao grau de nervosismo evidente na liderança do partido. Se não for, porém, uma questão de ter ou não ter lata, maior ou menor vergonha na cara, pergunta-se: será esquecimento? Não se recordam os jotas laranjinhas de o que foi a anterior governação PSD/CDS em matéria de salários, pensões e impostos? Não se lembram que foi o PSD quem propôs contratos a termo sem limite de renovações? Não se recordam da maravilhosa medida de “estímulo” do governo PSD/CDS em 2014 que promovia oito horas de trabalho diário em troca de um valor abaixo do salário mínimo nacional? Esqueceram-se dos chumbos sucessivos às propostas de aumento do valor de salário mínimo que esteve sempre na cauda da União Europeia? Esqueceu-se a própria JSD de quando vinha a público defender a tese peregrina – e completamente idiota! – de que os prolongamentos dos contratos a prazo poderiam salvar 1100 empregos por dia? Esqueceu-se a JSD de quando partilhava artigos de jornais que diziam e, passo a citar, que “a flexibilidade laboral é a janela de oportunidade para mais jovens entrarem no mercado de trabalho”?

Que se passa na mente dos laranjinhas deste país? Já lá vigora a mesma desorientação e desespero dos correligionários mais crescidos? Estamos perante a assunção clara do desnorte do PSD, de alto a baixo? A resposta talvez seja, porém, mais fácil. Esta gente toma, de facto, o povo português por parvo. E fá-lo desde muito cedo, como se vê. Foram responsáveis directos por uma política desastrosa… e queixam-se da “situação”. Não é uma questão de ter ou não ter lata. Já é só pura e dura perversão.

Tira a nossa bandeira da tua lapela

Em 1387, já no rescaldo revolução portuguesa de que nos escreve António Santos no post anterior, uma boa parte da nobreza nacional ainda mantinha lealdade a Castela a pretexto dos interesses de Portugal. A lealdade a Beatriz de Portugal não era a lealdade a Portugal, apesar do nome. Passos Coelho é um dos filhos dessa nobreza traidora, que usando Portugal na lapela, não sendo leal a Castela, não é leal à nossa bandeira.

Bem sei que é coisa que parece de menor importância, mas a pose de Passos Coelho, com a bandeira portuguesa na lapela em forma de pin, provoca-me uma repulsa visceral. É claro que a bandeira nacional é de todos, é um símbolo nacional e ninguém é dono dos símbolos nacionais. Ninguém menos o povo. São do povo os símbolos nacionais, porque, mesmo quando não resultam do povo, são por ele apropriados.

E provoca-me repulsa porque Passos Coelho sabe que a única ponta de patriotismo que pode mostrar é a bandeira portuguesa na lapela, o mesmo pin que ostentava enquanto condenava milhões de portugueses à miséria e ao empobrecimento, o mesmo pin que passeava pelas reuniões em que prestava servil vassalagem a Merkel e o mesmo que usava enquanto lampeiro vendia a riqueza dos portugueses a grupos económicos alemães, chineses, brasileiro. Porque um patriota não precisa de bandeira ao peito enquanto vende os interesses do país, um patriota defende o seu povo sem precisar de usar o verde o vermelho ao peito, porque estão no seu coração e nos seus actos.

Passos persiste na postura de Primeiro-Ministro espoliado da sua legitimidade divina para governar. Amuado como um rei que julgava que o seu reinado era direito decretado pelos astros, usa a nossa bandeira, apropria-se de um símbolo de todos, ainda sem perceber que já não passa de sobranceria espúria, nacionalismo bafiento e ridícula ofensa ao povo que em boa hora correu com ele do Governo.

A bandeira será livre e de todos, é certo. E é por isso mesmo que a utilização da bandeira por um barão da destruição do país, para esconder a sua verdadeira bandeira, é uma usurpação, uma apropriação que conspurca o símbolo nacional com que de mais anti-patriótico existe que é, como Passos fez, governar contra o seu povo.

Passos, tira a nossa bandeira da tua lapela.

#passostiraopin #tiraanossabandeiradatualapela

Miró como punhos

Um membro da aristocracia espanhola pediu ao antigo BPN um empréstimo de vários milhões de euros e deu como garantia uma colecção de obras de arte da autoria de Miró. Como um dos créditos que levaram o BPN à falência era esse, a “nacionalização” do BPN integrou a colecção num perímetro de activos que resultavam do antigo BPN. Esses activos estão, ainda hoje, ao cuidado de duas empresas públicas: a PARVALOREM e a PARUPS, dirigidas politicamente pelo Governo a quem prestam contas.

Durante o mandato do Governo PSD/CDS, essas empresas tinham ordens para esconder dos portugueses a existência dessa colecção e para a venderem o quanto antes. O Governo e as empresas montaram todo um esquema ilegal de exportação das obras para Inglaterra, onde seriam vendidas em leilão, podendo gerar um retorno de 30 a 50 milhões de euros. O BPN custou ao Estado português qualquer coisa como 6 a 7 mil milhões de euros até este momento e pode chegar a 9 mil milhões segundo algumas estimativas. Facilmente se percebe que os 30 a 50 milhões com que PSD e CDS justificavam a urgência da venda não passam de uns miseráveis 0,05% do valor total da dívida do BPN.

O que PSD e CDS nunca disseram foi que essa dívida do BPN também podia ser compensada com cobrança de créditos e não disseram porque essa preocupação não existiu em momento nenhum. Na verdade, as empresas de gestão de dívida, como a Arrow Global, para a qual trabalha Maria Luís Albuquerque limparam boa parte das dívidas por cobrar no BPN, tal como no Banif e certamente em muitos outros bancos.

A insignificância dos valores previstos com a venda da colecção Miró que hoje está exposta em Serralves, como resultado de uma longa luta em que o PCP desempenhou um papel absolutamente fundamental, deixa bem claro que os objectivos do Governo PSD e CDS não eram financeiros, mas políticos e ideológicos. Em momento algum um governo como aquele podia sequer equacionar abrir as portas da arte ao povo.

Apesar de nunca ter tornado pública a existência da colecção, o trabalho das comissões de inquérito permitiu saber que estavam em Portugal e mais tarde, os artistas e galeristas iniciaram uma manifestação de intervenção democrática exemplar, reunindo milhares de assinaturas para uma petição em poucos dias, reunindo artistas das mais diversas expressões artísticas e das várias escolas estéticas. Os primeiros subscritores da petição organizaram iniciativas nas galerias, nos bares, nos palcos das cidades e ampliaram a preocupação de um nicho a uma reivindicação de muitos milhares de pessoas. O Governo não queria os 30 ou 50 milhões, queria acima de tudo impedir que os portugueses pudessem ver o que os cofres da Caixa Geral de Depósitos encerravam. A arte, para os sabujos que governaram Portugal durante 4 anos, à margem da Lei Constitucional, é um incómodo, um luxo das elites que não pode ser apropriado pelas massas. O risco, o risco é demasiado grande. Claro que não se esperaria que em cada português que visitasse os Miró’s nascesse um súbito revolucionário, mas o caminho da arte e da cultura é o caminho da Humanidade e o caminho da Humanidade é o progresso e isso é coisa que não se pode tolerar numa União Europeia das multinacionais, num país dos monopólios com um Governo de títeres.

Miró criou as obras patentes em Serralves ao longo de toda a sua vida, é uma colecção com importante diversidade e espelho das várias fases da criação do pintor. Desde os anos 20 aos anos 80 do século passado, a Casa de Serralves mostra um valioso espólio artístico de um dos mais importantes artistas da península ibérica e do mundo. Miró não era, apesar da proximidade, um surrealista propriamente dito, mas a acção do Governo PSD/CDS, contra as pessoas, escondendo a arte a todo o custo, a tentativa de exportação ilegal das obras para outro país, anda muito próxima de surreal.

Não posso descrever como me senti ao poder, finalmente, ver as obras de que tanto falei e em que tanto o Grupo Parlamentar do Partido Comunista Português se empenhou, com compromisso pessoal dos seus membros, com iniciativas legislativas e com presenças em todos os momentos da luta. A finalidade da arte não é valer milhões, é inspirar milhões, é acrescentar sinapses às sinapses que já existem, é abrir horizontes que ainda não podemos vislumbrar porque cada iteração na arte é um salto no desconhecido.

A finalidade da arte é a partilha. PSD e CDS tentaram impedi-la de chegar a nós. Nós, os portugueses demonstrámos que preferimos arredar do poder quem de nós arreda o futuro. E o que é mais importante é que, cada visita àquela exposição, cada um dos milhares que espera na fila, cada um que caminha por entre os liquidâmbares daquela Alameda é, ainda hoje, um golpe de luta que se desfere no rosto de Passos Coelho, Paulo Portas, PSD, CDS e todos os seus mais pequenotes serventuários. Derrotado em Outubro, o Governo PSD e CDS continua a ser esbofeteado de “luva branca”, aos milhares de estalos, por todos os que levantam o rosto para contemplar um Miró. Ali, a arte continua a ser um acto de resistência e contemplá-la, permitir que ela respire para fora das telas e das tapeçarias e venha contaminar de cores e formas todos os que ali não estão, continua a ser um acto revolucionário.

E é isso que conta. Mas não deixa de ser inspirador saber que é também um acto de ajuste de contas com quem quis manter-nos na escuridão.

Nunca um português chegou tão longe

Quando visitávamos a aldeia da minha mãe, em Trás-os-Montes, o meu tio fazia sempre questão de apontar quem era o senhor que era pai do doutor, fosse o doutor juiz, médico, enfermeiro, professor, engenheiro, arquitecto, advogado ou outra coisa qualquer. Era o retrato de um país ainda com o fascismo cravado na mente, das aparências, da subalternização, mesmo quando já estávamos no final da década de 80 e a entrar nos anos 90. Era aquela reverência saloia que permanecia numa zona do país onde a electricidade ainda só chegava ao centro da aldeia. Os restos de um país com as contas em dia, porque naquele tempo é que era bom.

Quando Durão Barroso encontrou um país de tanga e fugiu depois de deixá-lo todo nu, rumo à presidência da UE, o saloiismo que veio novamente à tona. Nunca um português tinha chegado tão longe, um cargo tão importante, a ajuda que poderia dar ao país, afinal, era um português. E o prestígio para a nação? Tantos comentadores, artigos nos jornais, peças de rádio e tv que explicaram a fuga rumo a um tacho melhor como sendo um ponto de viragem nas relações do país com a UE. E o prestígio? Já falei no prestígio?

Faltou explicar que Barroso era nascido em Portugal mas tem a nacionalidade que a esmagadora maioria dos líderes europeus sempre teve: o capital. Sem pátria, claro, porque vai andando de bolso em bolso sem nunca sair dos bolsos dos mesmos, num círculo que se fecha quando alguém que exerceu um cargo político passa para o sector financeiro. Paga-se tudo.

Barroso sabe-o e percebeu-o logo em 2003, quando serviu de mordomo à Cimeira das Lajes, que abriu caminho à invasão do Iraque em busca das armas de destruição massiva. Ao lado de Bush, Blair e Aznar, Portugal entrava no mapa da guerra. Barroso associou um país inteiro à morte de mais de meio milhão de pessoas. E, ainda hoje, continuamos à procura das armas que abriram caminho a mais uma guerra, mesmo quando já toda a gente questionava a sua existência, incluindo Hans Blix, responsável da ONU naqueles anos. Toda a gente sabe quem ganhou. Os interesses geoestratégicos, a máquina de guerra dos EUA que precisava de novo impulso, o petróleo, a necessidade de manter em guerra uma zona do globo e a instalação de um governo-fantoche. Treze anos depois, o Iraque continua destruído.

A semana de Kadhim Sharif al-Jabouri e Blair

O nome dirá pouco a quase toda a gente, mas a imagem correu mundo. Kadhim era o homem da marreta que destruía a estátua de Saddam, depois de o ditador ter matado 14 dos seus 15 familiares. Passados 13 anos, apesar do sofrimento por que passou ao ver a maioria da sua família morta, Kadhim afirma que “Bush e Blair são mentirosos. Eles
destruíram o Iraque, mandaram-nos de volta à estaca zero, de volta à
Idade Média”, diz Kadhim, revoltado. “Se eu fosse um criminoso, iria
matá-los com as minhas próprias mãos
.
Kadhim já não vive em Bagdade. Tal como milhões de refugiados, fugiu da capital iraquiana para Beirut, no Líbano. Bagdade deixou de ser segura a todos os níveis, especialmente depois do aparecimento do Estado Islâmico, que só este ano já realizou oito atentados terroristas no Iraque. Kadhim esquece Aznar e Barroso. E o nosso mal é tantas vezes a memória, seja em que parte do globo for. Mas foi este Iraque que Barroso ajudou a destruir. 
Também nesta semana ficámos a conhecer as primeiras conclusões do Chilcot Report, que acusa Tony Blair de ter sido imprudente e não ter esgotado todas as possibilidades de evitar uma guerra pelo petróleo que ainda hoje faz vítimas. Mas isso não é problema para Blair. Nem as empresas petrolíferas que representa nem a financeira JP Morgan parecem preocupadas com isso. Continuará a ser pago a peso de ouro.
Barroso promovido
Também nesta semana ficámos a saber que Durão Barroso será promovido, com o cargo de presidente não-executivo da Goldman Sachs. Aquele banco que esteve na origem da crise de 2008. Lembram-se? Não é caso único, claro. É uma família de iluminados, basta recordar que, em Agosto de 2014, o filho de Durão Barroso foi contratado pelo Banco de Portugal sem qualquer concurso, por ser um caso de “comprovada e reconhecida competência profissional”. Os favores pagam-se e foi assim com Álvaro Santos Pereira, que rumou à OCDE, com Maria Luís Albuquerque, na Arrow, e Portas, na Mota-Engil.

E daqui temos a prova que se Roma não paga a traidores, Bruxelas e todo o poder financeiro que lhe está associado, paga. Bem e para a vida toda. Aguardemos, pois, o discorrer de todos os méritos de Durão Barroso, o excelente trabalho que fez numa UE em desagregação, o peso dos mortos que devia ter na consciência, se a tivesse, a espinha direita em direcção ao seu umbigo. Voltemos agora às declarações de grandiosidade saloia, de ver como aquele é o Durão, o senhor doutor que é presidente de tudo e mais alguma coisa, que matou e continua a matar milhares de pessoas. Mas é doutor.

Pornocracia

As perdas com a venda do Efisa podem aumentar mais 80 milhões de euros, se somarmos o prejuízo com que o banco foi vendido. O Estado pode sair a perder mais de 130 milhões de euros. O suficiente para construir dois hospitais.

A soberba europeia que grassa por entre as elites e contamina como uma doença infantil toda a “esquerda moderna” tolera com impressionante bonomia a corrupção institucionalizada que vive no genoma do capitalismo. Se um presidente africano tem um primo dono de uma empresa é uma ditadura, uma oligarquia, o terceiro-mundo em todo o seu esplendor.

Já se um gestor bancário – como por exemplo, este – trabalhava num banco onde o Presidente da República e a sua filha Patrícia lucraram 360 milhões, e que terminou nacionalizado porque a pandilha de banqueiros – que por acaso eram amigos e colegas de trabalho e de governo do actual Presidente da República – o roubou até deixar uma conta de mais de 6 mil milhões de euros para os portugueses pagarem, vai depois trabalhar para o Estado numa empresa para gerir o banco falido, agora nacionalizado, e usa o seu mandato como gestor ao serviço do Estado para vender o banco, com um prejuízo de 130 milhões de euros para as contas públicas, a um outro banco para o qual pode ir trabalhar de seguida, então não há ditadura nenhuma.

E a estória não acaba aí. Então o ex-Ministro das Finanças que dirigiu o orçamento durante uma intervenção do FMI em Portugal, sai do Governo e vai trabalhar precisamente para o FMI, isto antes de ser condecorado por relevantes serviços à nação pelo Presidente da República que manteve ligado à máquina um Governo que governou ao serviço do estrangeiro e dos especuladores e agiotas que assaltaram sem pudor a riqueza nacional, produzida pelos trabalhadores portugueses que, como bons vampiros, foram convidados a entrar pelo PS, PSD e CDS, que são, no caso, não vítimas, mas cúmplices.

E depois ainda temos uma ex-Ministra das Finanças que impôs aos portugueses a “austeridade” como forma de vida, enquanto desviava milhares de milhões de euros para alimentar os lucros dos bancos alemães e franceses, e de fundos abutres um pouco por todo o mundo. Certamente, Marcelo irá a tempo de ainda condecorar por relevantes serviços prestados à nação esta dama do capitalismo, esta senhora de rigor e idoneidade inquestionáveis que, tal como Salazar, não tirava para si um tostão.

Mas a História não é madrasta para quem presta relevantes serviços à nação de Cavaco Silva, de Passos Coelho e Paulo Portas – que é como quem diz a grande burguesia e os grandes grupos económicos, verdadeira pátria de PSD e CDS e, já agora, também do PS onde não faltam casos similares – e eis que a oportunidade de complementar o pequeno salário de deputada com um rendimento extra, vai finalmente permitir a Maria Luís Albuquerque uma poupançazita. Também já merecia, coitadita, depois de tanto esforço e fingimento, ter de andar a passar-se por patriota, fazer discursos lamechas de apelo à paz social e à complacência das vítimas.

Como dizia um camarada, Maria Luís Albuquerque “não mudou de patrão, a diferença é que agora vem na folha de vencimentos”. E ainda há quem questione a posição da senhora, só visto – malditos comunistas que ainda estou para perceber como é possível sequer entrarem na casa da democracia.

O que é mais engraçado é que continuamos a fingir que isto são casos isolados, “bad apples” do sistema e das democracias e a ignorar que o capitalismo é corrupção em si mesmo, que o capitalismo é a institucionalização da corrupção e da promiscuidade. Dirão os mais atentos: “Ah e tal, mas no socialismo e nas experiências de construção do socialismo também há e houve corrupção” e di-lo-ão certo! A grande diferença é que no socialismo a corrupção é uma anormalidade, um elemento que mina o sistema. E no capitalismo, a corrupção institucionalizada, legalizada, normalizada, é o cerne do funcionamento do sistema.

É que, julgar a legitimidade pela lei não é bom critério quando são os criminosos que a escrevem.