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Pornocracia

As perdas com a venda do Efisa podem aumentar mais 80 milhões de euros, se somarmos o prejuízo com que o banco foi vendido. O Estado pode sair a perder mais de 130 milhões de euros. O suficiente para construir dois hospitais.

A soberba europeia que grassa por entre as elites e contamina como uma doença infantil toda a “esquerda moderna” tolera com impressionante bonomia a corrupção institucionalizada que vive no genoma do capitalismo. Se um presidente africano tem um primo dono de uma empresa é uma ditadura, uma oligarquia, o terceiro-mundo em todo o seu esplendor.

Já se um gestor bancário – como por exemplo, este – trabalhava num banco onde o Presidente da República e a sua filha Patrícia lucraram 360 milhões, e que terminou nacionalizado porque a pandilha de banqueiros – que por acaso eram amigos e colegas de trabalho e de governo do actual Presidente da República – o roubou até deixar uma conta de mais de 6 mil milhões de euros para os portugueses pagarem, vai depois trabalhar para o Estado numa empresa para gerir o banco falido, agora nacionalizado, e usa o seu mandato como gestor ao serviço do Estado para vender o banco, com um prejuízo de 130 milhões de euros para as contas públicas, a um outro banco para o qual pode ir trabalhar de seguida, então não há ditadura nenhuma.

E a estória não acaba aí. Então o ex-Ministro das Finanças que dirigiu o orçamento durante uma intervenção do FMI em Portugal, sai do Governo e vai trabalhar precisamente para o FMI, isto antes de ser condecorado por relevantes serviços à nação pelo Presidente da República que manteve ligado à máquina um Governo que governou ao serviço do estrangeiro e dos especuladores e agiotas que assaltaram sem pudor a riqueza nacional, produzida pelos trabalhadores portugueses que, como bons vampiros, foram convidados a entrar pelo PS, PSD e CDS, que são, no caso, não vítimas, mas cúmplices.

E depois ainda temos uma ex-Ministra das Finanças que impôs aos portugueses a “austeridade” como forma de vida, enquanto desviava milhares de milhões de euros para alimentar os lucros dos bancos alemães e franceses, e de fundos abutres um pouco por todo o mundo. Certamente, Marcelo irá a tempo de ainda condecorar por relevantes serviços prestados à nação esta dama do capitalismo, esta senhora de rigor e idoneidade inquestionáveis que, tal como Salazar, não tirava para si um tostão.

Mas a História não é madrasta para quem presta relevantes serviços à nação de Cavaco Silva, de Passos Coelho e Paulo Portas – que é como quem diz a grande burguesia e os grandes grupos económicos, verdadeira pátria de PSD e CDS e, já agora, também do PS onde não faltam casos similares – e eis que a oportunidade de complementar o pequeno salário de deputada com um rendimento extra, vai finalmente permitir a Maria Luís Albuquerque uma poupançazita. Também já merecia, coitadita, depois de tanto esforço e fingimento, ter de andar a passar-se por patriota, fazer discursos lamechas de apelo à paz social e à complacência das vítimas.

Como dizia um camarada, Maria Luís Albuquerque “não mudou de patrão, a diferença é que agora vem na folha de vencimentos”. E ainda há quem questione a posição da senhora, só visto – malditos comunistas que ainda estou para perceber como é possível sequer entrarem na casa da democracia.

O que é mais engraçado é que continuamos a fingir que isto são casos isolados, “bad apples” do sistema e das democracias e a ignorar que o capitalismo é corrupção em si mesmo, que o capitalismo é a institucionalização da corrupção e da promiscuidade. Dirão os mais atentos: “Ah e tal, mas no socialismo e nas experiências de construção do socialismo também há e houve corrupção” e di-lo-ão certo! A grande diferença é que no socialismo a corrupção é uma anormalidade, um elemento que mina o sistema. E no capitalismo, a corrupção institucionalizada, legalizada, normalizada, é o cerne do funcionamento do sistema.

É que, julgar a legitimidade pela lei não é bom critério quando são os criminosos que a escrevem.

A «Resolução» de Passos no PSD

Banif. Pois claro. Tinha de haver uma muito boa razão para o gangue direitista não querer largar o poder tão cedo. Tinha de haver ali qualquer coisinha a «salvaguardar» a todo o custo, mesmo estando os dois partidos em minoria na Assembleia da República. Tinha de haver lixo – e que lixo! – debaixo do tapete. Havia que continuar a esconder o crime e a abafar o odor a cadáver com mais quatro anos de PAF. Tudo debaixo da total complacência e “cooperação institucional” de alguém que, sem dúvida informado em detalhe desta tramoia – Cavaco Silva – tem sido arredado das culpas e do leque de responsáveis pelo desastre que os contribuintes, mais uma vez, vão ser chamados a pagar. Será uma pena se ninguém o chamar, ou se ninguém o interrogar formalmente, na anunciada e mais que justificada comissão de inquérito ao caso Banif.

E de repente, com o desnudar do crime Banif, é de esperar que da parte da trupe laranja se oiçam menos «desejos» de novas eleições para o «ano novo».

Mas hoje ficámos ainda a saber que, ao que todos os sinais indicam, não é só o BANIF que está a ser alvo de «resolução». Ao que parece, há agora duas pedras no sapato do agitadiço vespeiro do PSD, do qual de resto, o acagaçado CDS já fugiu a toda a brida. A questão é que essas “pedras” incómodas não se tratam de meros e descartáveis deputados madeirenses, mas sim de duas das principais figuras do último governo PSD/CDS: Maria Luís Albuquerque e Pedro Passos Coelho. Viu quem quis, a ex-ministra esteve no debate desta manhã em isolamento total. E em silêncio, também. E não se lhe conhece doença contagiosa alguma, a não ser a maleita da vergonha, de que de forma evidente o vespeiro parece querer agora afastar-se. Já Pedro Passos Coelho, que anteontem afirmou que se estivesse no governo não teria feito diferente de o que fez o PS, foi olimpicamente desautorizado pela sua bancada parlamentar, que ao invés da aprovação, resolveu abster-se.

MLA em estado de «isolamento total»

Ora, numa época propícia a «resoluções de ano novo», parece certo que, no interior do PSD, Passos Coelho (MLA acaba por ser uma irrelevância em matéria partidária) está em vias de ser posto à venda a qualquer Santander. E de repente, com o desnudar do crime Banif, é de esperar que por parte da trupe laranja se oiçam menos «desejos» de novas eleições para o «ano novo». Se calhar, agora que fica mais uma vez provado, com estrondo, que o anterior governo fez igual ou pior que os executivos que o precederam, é melhor que se lixem mesmo as eleições, não vá o último dos últimos argumentos – o de ter mais votos… – ir rapidamente pelo cano abaixo.

PS: Nada medida do possível, umas boas festas a todos.

Diário de luta

Escrevo a precisamente quinze minutos de se iniciar a sessão plenária da Assembleia da República que discute, pelo segundo dia, o programa apresentado por PSD e CDS, Passos e Portas, na sequência da sua indigitação por um Presidente da República que não tolera o seu próprio povo. Felizmente, o sentimento é cada vez mais mútuo e só é pena que tenha enganado tanta gente durante tanto tempo.

Escrevo porque é bastante provável que durante a sessão de hoje, as quatro moções de rejeição do programa do Governo, apresentadas por PS, PCP, BE e PEV sejam discutidas e tenham aprovação, provocando a queda do Governo mais reaccionário de que eu tenho memória.

Mas essencialmente para vos dizer isto: há dentro desta Assembleia que hoje reúne um grupo de deputados que esteve sempre do lado da luta dos trabalhadores, que não hesitou um segundo, que não sucumbiu ao charme do capitalismo travestido de falsos internacionalismos, um grupo de homens e mulheres comunistas que durante décadas trouxeram para dentro da Assembleia os problemas do seu próprio povo. Mas há muitos outros. E há dezenas e dezenas de deputados que ao longo da história da nossa instituição parlamentar – sejam do PS, PSD ou CDS – sempre se posicionaram contra os trabalhadores e ao lado dos monopólios.

Para os que se perguntam: “para que serve a luta?”

Deixo eu a seguinte questão: “que fariam hoje as dezenas de deputados do PS se não fosse a luta de milhares, milhões de portugueses, durante os últimos anos contra a austeridade, contra a política de direita?”

Achas mesmo que é o parlamento que está a derrubar o Governo PSD/CDS?

Então subestimas-te.

O Governo-Zombie

Foi hoje conhecido o tal “governo sólido” que Passos Coelho prometeu para os próximos quatro anos. E há, de resto, uma mão cheia de novidades. Não nas vontades, nem nas políticas, evidentemente, mas sim na simbologia que carrega quer a continuidade de uns, quer a entrada de outros. De “boas” referências do passado, a novas e redobradas garantias a mortos-vivos do governo anterior, esta “lista vip” de ministros e ministérios é bem ilustrativa da “ameaça” que seria ter esta direita durante mais quatro anos no poder. Após toda uma legislatura de uma política de monstruosidades, eis-nos agora perante um governo-zombie, que tem essa mais-valia anunciada de se esvair em cinzas já no próximo nascer do sol.

No espaço de poucos dias, para não dizer meia dúzia de horas, Fernando Negrão passou de “pessoa mais indicada para presidente da Assembleia da República” a “pessoa mais indicada para Ministro da Justiça”.

Comecemos pela continuidade do vice-primeiro-ministro. Se dúvidas houvesse de que Paulo Portas continua a ter o PSD preso por uma trela, sequestrado aos seus próprios caprichos, tácticas e aspirações, e de que a velha chantagem da demissão irrevogável continua a ser o pesadelo maior de Pedro Passos Coelho, elas ficam desfeitas ao vermos que o “motorista” de um “táxi” continua a conduzir o camião TIR. Ao manter-se como “vice”, Portas não substituiu, como seria expectável, o mais “substituível” de todos os ministros, Rui Machete, mesmo depois das trapalhadas gigantes e da forma vergonhosa como Machete “geriu” o Ministério dos Negócios Estrangeiros.

E que dizer de Mota Soares, que chegou aparatosamente de Vespa mas que ao fim de poucos dias se rendera à “simplicidade” de um Audi topo de gama? É fácil de perceber. É que o tempo passa a voar. E muito provavelmente, apesar dos valentes esforços de última hora, ainda não houve tempo para distribuir todos os tachos que trará em carteira.

No que concerne à pasta da Justiça, temos como ministro alguém que, para o PSD e para Pedro Passos Coelho, parece pura e simplesmente estar acima dos comuns mortais. No espaço de poucos dias, para não dizer meia dúzia de horas, Fernando Negrão passou de “pessoa mais indicada para presidente da Assembleia da República” a “pessoa mais indicada para Ministro da Justiça”. O que aliás reflecte, diga-se, a forma muito “sólida”, “atempada” e muito “bem pensada” como Passos Coelho terá por certo formado este governo.

O novo Ministro da Administração Interna, como é apanágio da verborreia direitista, chega pejado de “belíssimas referências”. Eu próprio destaco uma delas: João Calvão da Silva foi um dos três juristas que atestaram a idoneidade do banqueiro Ricardo Espírito Santo Salgado. Cito: «Calvão da Silva considerou a “liberalidade” (14 milhões de euros) recebida pelo banqueiro do construtor José Guilherme se enquadrava no “bom princípio geral de uma sociedade que quer ser uma comunidade – comum unidade –, com espírito de entreajuda e solidariedade.» Que melhor figura para este governo que não alguém que já chega com “bons serviços prestados” no que concerne à bajulação de banqueiros?

Novidade ainda é a “recuperação” do Ministério da Cultura, resgatado de uma secretaria de Estado que, nesse âmbito, não fez rigorosamente nada de útil nestes últimos quatro anos, antes pelo contrário. De repente, a direita que elogiava o fim de um ministério que na sua bitola só servia como “sorvedouro” de dinheiros públicos – a cultura, de resto, sempre lhes causou “urticária” -, já é coisa digna de pasta própria, de ministro próprio e, em teoria, de política própria. O pior é que, para acompanhar o triste ramalhete, é nomeada para ministra a ex-secretária de estado Teresa Morais, jurista de formação, uma nulidade total e absoluta em matéria cultural, que nos últimos anos não fez mais que acompanhar ministros enquanto abanava solenemente a cabeça à medida que “encaixava” e “escrevinhava” as valentes sacudidelas da oposição.

Para terminar em beleza, nada como uma boa escolha para um dos ministérios mais delicados de toda uma governação. Para a Saúde, Passos Coelho promove a Ministro o «tal» secretário de estado que viu no caos das urgências e entre macas amontoadas nos corredores de centros hospitalares sem capacidade de resposta, nada mais que um conjunto de «pessoas muito bem instaladas e bem deitadas».

Mas estas e outras “tragédias” têm uma atenuante, algo que nos faz respirar fundo e pensar que nem tudo é sombras, nem tudo é mau. A mais-valia deste executivo-zombie é a sua durabilidade. É que este podia, de facto, ser um governo para quatro anos. Felizmente, é só uma fantasia de Halloween.

“É matar os radicais”, disse o moderado!

Mas quando nos julgarem bem seguros, Cercados de bastões e fortalezas, Hão-de ruir em estrondo os altos muros, E chegará o dia das surpresas*

Nos últimos dias assistimos sem surpresa a uma escalada de “alertas” sobre a possibilidade da chegada ao poder de uns “perigosos partidos extremistas e radicais”. O PCP, esse partido até aqui elogiado pela direita por organizar manifestações “com todo o respeito pelas regras democráticas”, passou rapidamente a partido “da desordem”, do “caos”, do velho e regressado “papão” que não tem um programa “suficientemente aceitável” para governar o nosso país. Contudo, antes que os comunistas chegassem hipoteticamente ao poder, bastou esperar pelo início da noite de ontem para ver efectivamente o radicalismo e o extremismo tomarem conta – uma vez mais – da cena política nacional, e pela voz do próprio Presidente da República. “É matar os radicais”, lá disse o moderado!

A hierarquia das prioridades do presidente ficou clara: em primeiro lugar a NATO, em igual plano a União Europeia e a seguir os partidos, mas só os “bons”. Nem soberania ou independência, nem democracia, muito menos povo.

Depois de tantas semanas de alusões iradas ao comunismo e ao PREC, às pseudo-ditaduras, aos medos e às guerras infernais que povoam os preconceitos e a cartilha néscia dos ignorantes, a direita acabou por ter direito a um discurso parcial e ideologicamente comprometido feito à sua medida. A hierarquia das prioridades do presidente ficou clara: em primeiro lugar a NATO, em igual plano a União Europeia e a seguir os partidos, mas só os “bons”. Nem soberania ou independência, nem democracia, muito menos povo. Primeiro os grandes interesses, primeiro a beligerância imperialista e capitalista, e depois os partidos que lhes são e serão fiéis. O povo há-de ser sempre manso e subordinado, crêem eles, como tem sido até aqui. Cavaco só não propôs já a ilegalização do PCP e BE porque pareceria muito mal, seria demasiado escandaloso. Mas tudo no seu pensamento e na sua retórica aponta para esse desejo íntimo, essa vontade oculta, esse objectivo contido há décadas, de afastar de vez esse “incómodo” dos comunistas em Portugal. Nem o aparelho repressivo e persecutório de Salazar cumpriu essa “tarefa”, quanto mais agora um minguado, fraco e passageiro presidente eleito no fundo pelos resquícios do antigamente.

É importante que se perceba que esta gente – esta direita institucional, esta direita do poder, estes tipos que foram e são eleitos pelo PSD e pelo CDS – é gente que já não se mede nem mede as consequências do que diz. Esta gente – é esta e não outra – não tem qualquer tipo de respeito pelos conceitos basilares da democracia. Esta gente é agressiva, é violenta e fá-lo sob uma aparência enganadora. Contudo, esta mesma direita tem tremido como varas verdes nos últimos dias, tem arranhado paredes e urinado pelas calcinhas abaixo. Esta direita, mergulhada num “grande cagaço” – roubando a histórica expressão de Varela Gomes –, usa cargos políticos e institucionais – das autarquias à presidência da república – para procurar ganhar as pessoas pelo medo, pelas ameaças e pela chantagem. E isso pode vigorar por dias, meses ou anos, com efeitos e consequências. Mas um dia será o último. O respeito, a calma, a via legal e política existe e existirá… mas só enquanto for possível. Só enquanto for possível.

* – José Saramago.

Luzes, Sombras e «Ganhar Sempre»

O cenário pouco depois das projecções não podia ser mais ameaçador. Marco António Costa e Nuno Melo, de braços no ar, reaparecidos, saídos do buraco onde estavam há semanas, davam vivas à coligação. Na TVI estava Miguel Relvas, o doutor, outra aparição, ufano, de peito cheio e sem vergonha na cara, a dar lições de política e de moral. Perguntassem-me por acaso, há um ano, se veria como possível este cenário e estes figurantes, de semblante vitorioso, numas próximas legislativas, por certo teria de responder algo como isto: «Não brinquem comigo. Isso seria mau demais para ser verdade.» Em boa verdade, as coisas não eram tão luminosas quanto nos pareciam fazer crer.

Os que “ganham sempre” são os banqueiros, os grandes grupos económicos e financeiros, os monopolistas, os interesses instalados, os caciques corruptos, os que são sempre poupados aos sacrifícios e que escapam sempre à justiça.

De facto, um governo que passara anos a ludibriar, a iludir, a criar artifícios, a negar realidades, não podia deixar de ser aquilo que sempre foi. Por trás do circo montado com o sempre precioso embalo da comunicação social e seus comentadores, havia uma coligação de dois partidos que tinha tido, afinal, menos votos que o PSD sozinho há quatro anos. Talvez nunca saibamos com exactidão o que seria do CDS se concorresse sozinho no continente, mas sabemos algo que a comunicação social curiosamente não está a sublinhar: na Madeira, onde concorreu sozinho, o CDS passou de 19101 votos (1 deputado) para 7536 (0 deputados), enquanto que nos Açores a hecatombe foi de 10944 votos (0 deputados) para 3654 votos (e em coligação com o PPM).

Mas se, por um lado, havia os grandes e ufanos vitoriosos, havia por outro que apontar os consequentes derrotados. Noticiou-se uma catástrofe para a CDU, futebolizou-se a coisa, como é normal, repetindo-se a todo o momento que a CDU tinha sido “ultrapassada” pelo BE, como se “a classificação”, em si mesma, tivesse relevância para o verdadeiro fundamento e objectivo desta eleição. Houve até quem afirmasse – e isso vem até na primeira página do JN – que a CDU passou “a 4ª força política”, no que só pode ser visto como assomo de ignorância e de má-fé, dado que a CDU já era a 4ª força política, sendo que, à sua “frente”, desde 2011, em vez do Bloco tinha o CDS. Então mas, afinal de contas, numas eleições que visam eleger deputados e uma assembleia, como ficou a CDU? Isso não interessa nada. Eles “ganham sempre”. O que importa é repetir, de forma acrítica e descerebrada, mesmo que em rigor nada seja dito nesse sentido, que a CDU “ganha sempre”. Dizer que “a CDU diz que ganha sempre” é a grande e verdadeira “cassete” das noites eleitorais. Quanto aos factos, aumentar o número de deputados e o número de votos, naquele que foi o melhor resultado desde há 16 anos, isso só pode ser uma clara e inequívoca “derrota” da CDU. É uma “catástrofe”. Mas não esquecer: eles “dizem que ganham sempre”, “eles ganham sempre”… e siga a rusga.

À parte estas “brincadeiras” e além de toda a espuma da noite eleitoral, a verdade é que há de facto quem “ganhe sempre” por estes dias, pelo menos enquanto PS, PSD ou CDS puderem e tiverem condições e votos para governar. Os que “ganham sempre” são os banqueiros, os grandes grupos económicos e financeiros, os monopolistas, os interesses instalados, os caciques corruptos, os que são sempre poupados aos sacrifícios e que escapam sempre à justiça. Esses sim, com PS, PSD ou CDS esses “ganham sempre”. Hoje os agiotas continuam a banquetear-se com a nossa dívida crescente. Hoje os desempregados continuam de futuro incerto e com a vida penhorada. Hoje os salários e as pensões continuam em níveis miseráveis. O país continua pior, o povo continua sacrificado.

Da parte da CDU, o que dizíamos antes, repetimos agora. Não há qualquer solução nem resposta aos problemas ou anseios de quem sofre nos partidos que nos trouxeram até aqui. Não há nada de positivo a esperar de PS, PSD e/ou CDS. Só a luta coerente do povo e dos trabalhadores, uma luta que tem de ser mais persistente, mais presente, mais comprometida, mais militante pode fazer frente ao situacionismo da desgraça e só uma mudança efectiva pode conduzir à construção de um país mais justo e mais próspero. Para esta grande luta que hoje, como sempre, continua, podem contar com a CDU.

PàF, PuM e Costa, o rei sol

Da figura sisuda e altiva, de homem que parece vestir a pele da cega e, digo eu para este contexto, insensível justiça, do paternalista que dizia ao povo, a quem por determinação constitucional deveria caber o poder político, entre breves e poupados sorrisos, para não ser piegas, ou que, secundado por membros do seu governo, falava de emigração como vantagem competitiva ou de desemprego como oportunidade, da pessoa que chegou a afirmar, quase sem pestanejar, “Que se lixem as eleições, o que interessa é Portugal”, como se lhe coubesse a ele ditar os interesses de Portugal e aos que elegem coisa nenhuma, já pouco resta. Passos Coelho agora já não oferece enxadas a quem o desafia, ouve e diz “pois, pois” aparentando interesse, olha para o recibo da pensão de um homem e até simula espanto, fala de regras fiscais que determinam cortes como se não tivesse sido seu autor, abranda caminhadas e pára para ouvir as “pieguices” das pessoas anteriormente julgadas como incapazes para decidir o que convinha ao país, não encolhe os ombros, não vá a populaça achar que ele é o verdugo que os castiga e ignora, e até, causando assombro nas massas, dobra-se para beijar velhinhas num lar, exibe um crucifixo, do qual diz não se conseguir separar, e afirma que tem fé nas pessoas. Uma fé súbita que até suscitou do seu correligionário e antigo apoiante, Ângelo Correia, a piadola “nunca é tarde para se converter”.

Mas Passos Coelho é orgulhoso e não pode dar, pelo menos inteiramente, o dito por não dito e lá vai dizendo que valeu a pena o sacrifício, que não se pode deitar tudo a perder e entregar o país nas mãos de outros, a coligação PàF, nome de sonoridade, no mínimo, palerma, pior seria PuM (Portugal, uma Miséria), igualmente palerma mas um pouco mais certa, é, segundo esta espécie de moderno aspirante a messias, a única que está apta a governar. Deixam no ar a ideia de melhorias vindouras, de um Portugal resiliente. Contudo, apesar dos milhares de vezes em que, de todas as partes do dito arco da governabilidade, presidente da República incluído, ouvimos sonoros apelos ao consenso, a PàF, pasme-se, quer governar sozinha, reclama a maioria absoluta dos votos, a maioria absoluta dos resultados, a maioria absoluta do poder. A fé nos portugueses resume-se à fé nos portugueses que votam PàF. E lá volta à baila a estimadíssima estabilidade governativa, algo que, aos democratíssimos olhos dos pafs, mas também de outro ocupante do tal arco, o PS, é incompatível com o tal consenso.

Bem tenta o PS disfarçar a sua sede absolutista e António Costa até vai dizendo que sabe lançar pontes e unir o país, que “um governo de maioria absoluta pelo qual o líder dos socialistas se tem batido não representaria um menor esforço de concertação”, mas não deixa de dizer, pela boca de dirigentes seus que votar CDU ou BE é como votar na direita. Curiosamente, o Livre fica de fora desta conversa. E lá voltamos nós ao doce e todavia perigoso mundo das aparências, Costa como político bonacheirão, sábio e sensato. Mas a oportuna, ou inoportuna dependendo de quem beneficia, memória mostra-nos que o Gandhi da Mouraria foi ministro, durante anos, foi odiado pelo povo, individualmente e por atacado junto com o seu governo de José Sócrates, é responsável por despedimentos, pela degradação de serviços públicos, responsável pela liquidação de direitos, responsável por cortes nos rendimentos e responsável por privatizações, e foi, até há pouco tempo, presidente da Câmara Municipal de Lisboa, deste modo responsável pela degradação dos serviços municipais, sobretudo no que respeita à recolha de lixo e saneamento, responsável pelo estado das ruas da cidade capital, responsável pelo aumento das rendas municipais, responsável pelo estado do património municipal, responsável pela falta de fiscalização das actividades comerciais. António Costa é o homem que compra apoios em troca de favores, é o homem que quis ver o PCP fora dos órgãos da Área Metropolitana de Lisboa, é o homem que disse que o PCP e o BE são meros partidos de protesto, é o homem que, no dia das eleições autárquicas, disse, sem o mínimo pudor, que os presidentes das Juntas de Freguesia de Lisboa, eleitos pelo PS, eram os seus representantes nas freguesias, assim de chofre, sem se lembrar que a representação faz-se por eleição e não por nomeação, que o tempo dos poderes locais nomeados já lá vai, que é ao povo da freguesia que o presidente da Junta deve representar perante o presidente da Câmara e não o contrário. Olho para Costa e vejo-o ostentando uma farta cabeleira barroca, rechonchudo e vestido de brocados e folhos, qual iluminado do séc. XVIII, qual rei sol. A campanha do PS é Costa, Costa, Costa, mas isso o jornal Expresso não consegue ver.

Temem os mui responsáveis, sérios, preocupados e detentores da credencial, passada pela divina entidade do capital, que os atesta como aptos a governar, não a incapacidade para se entenderem nas mui responsáveis, sérias e preocupadas opções políticas que pretendem para o país, mas a reacção dos piegas, alvos de fé mas inaptos para definir os interesses do país. Já o duro Ulrich nos veio dizer que o que é preciso é estabilidade, receia que um governo com todo o arco do poder dentro dele deixe demasiada gente de fora, que quando chegue a hora do “aguenta, aguenta” essa gente olhe à sua volta e veja quem são os únicos que estão com ela do lado de fora. O capital teme que os “líderes da oposição” sejam os comunistas, que o ciclo do ora-agora-governo-eu-ora-agora-governas-tu seja rompido.

Crónicas de viagem – a milícia do autocarro 712

Tudo o que vou relatar, aconteceu. Cheguei ao trabalho ainda me tremiam as mãos de incredulidade com o que tinha acabado de se passar.

Enquanto esperava o autocarro (mais uma vez, o 712), vi-o a parar em frente a uma escola. Começaram a sair pessoas a correr e uma delas parou ao meu lado e disse «Isto nunca me aconteceu…Meu deus, vai entrar? Cuidado com a criança». A criança estava ao meu lado num carrinho de bebé e outra pessoa disse o mesmo. Perguntei o que se passava e a senhora diz-me que estava um maluco à porrada no autocarro. Perguntei logo se já tinham chamado a polícia (parecia-me lógico, em vez de ser o motorista a parar o autocarro e a enfrentar a situação).

O autocarro pára à minha frente e vejo seis fiscais da Carris, 5 deles enormes (muito altos e dois deles altos e muito gordos). Vejo um jipe da GNR a chegar que passou a escoltar o autocarro. Entrei convencida que o «maluco» estaria dentro do autocarro, mas só via fiscais a barrar passagens. Pela conversa apercebi-me de que o «maluco» estaria numa paragem à frente por ter deixado a mochila dentro do autocarro.

Perguntei a um dos fiscais se os passageiros tinham sido agredidos, ao que me respondeu «Não, fomos nós». Ora, isto começou a parecer-me estranho. Chegados à paragem ouço «Não abras a porta!». Vejo uma pessoa acercar-se do autocarro. Um jovem alto bateu à porta e disse «Por favor devolvam-me a mochila, tenho que ir trabalhar». E seguiu-se este diálogo:

– Não damos mochila nenhuma. Identifique-se.
– Não me identifico nada, a não ser que a PSP me peça identificação. Devolvam-me a mochila.
– Não senhor. O senhor quer andar de autocarro tem que pagar.
– Ouça, já lhe disse que o meu passe tem dinheiro. Não tenho culpa que a máquina não esteja a funcionar.
– Identifique-se.
– Aliás, eu tentei sair do autocarro, este senhor é que me barrou a saída e agrediu-me. Dê-me a mochila que eu estou atrasado para o trabalho.
– Não damos mochila nenhuma.
– Com esta palhaçada estão a deixar aquelas pessoas todas [apontou para uma paragem cheia de gente] à vossa espera! Quero a minha mochila, vocês não podem fazer isto.
– Esteja calado!
– Eu não tenho dinheiro para pagar nenhuma multa, eu tinha dinheiro no passe, dê-me a minha mochila ou é preciso ser a mal?

[Estava um GNR e um PSP a assistir a tudo, sem se manifestarem]

Nisto, não consegui ficar calada ao ver seis fiscais a ameaçarem o homem e a ficarem com os seus pertences. Levanto-me do banco e dirijo-me à porta.

– Sou advogada. Vocês não podem fazer isto. Está ali a PSP e a GNR podem tomar conta da ocorrência e identificar este senhor. Têm que lhe dar a mochila.
– É o quê? Esteja mas é calada, não sabe nada.
– Os senhores não podem fazer isto, não são agentes da autoridade.
– Não sabe nada, vá mas é estudar.

Um dos fiscais vira-se para trás, empurra-me e grita «Saia daqui».

Insisto.

– Não são agentes da autoridade. Façam o favor de devolver a mochila.

O fiscal continua a empurrar-me em direcção às traseiras do autocarro e pergunto se ele me vai agredir ou expulsar.

Insisto.

– Não podem fazer isto.
– Não devolvemos nada, cale-se.

Nisto vou buscar a mochila. Sou agarrada no braço pelo mesmo fiscal que me projecta para o banco do lado. O senhor «maluco» entra no autocarro e pega na sua mochila e esse fiscal que me agarrou e o mais alto deles todos acercam-se dele para lhe bater e eu meto-me no meio. O GNR entra e diz «Calma, calma» e nada faz.

Peço ao fiscal que se identifique e digo-lhe que ele não pode agir assim. Ouço um «esteja calada» e o mais alto vocifera insultos. Um deles diz que por ser advogada não tenho autoridade nenhuma, ao que respondo que é verdade, somos dois. Mas como cidadã tenho o dever de defender pessoas quando vejo os seus direitos a serem violados.

Nisto saem todos do autocarro, que fecha as portas e arranca. Apanha as pessoas da paragem e ao virar-me para trás começo a ser violentamente insultada por todos os passageiros que permaneceram em silêncio todo o tempo.

«Não viu o que ele fez, estavam crianças! Não viu! Ele a atirar carrinhos do Lidl, se fosse consigo… Ainda o foi defender?»

Respondi que todos têm direitos e que os fiscais não podem identificar pessoas, ficar com os seus pertences e agredi-las.

– Podem, podem. Não viu o que ele fez! Estavam crianças!
– Minha senhora, estava a PSP e a GNR. Não podemos fazer justiça pelas próprias mãos.
– Ai não? Ele é que estava a fazer. E os fiscais têm razão. Ele merecia.
– Minha senhora, todos temos direitos. Mesmo os que cometem crimes.
– Você deve ser boa, deve.
– Nem imagina.

Pausa:
Portanto, um passageiro, que tinha o passe carregado e a máquina não obliterou, é abordado por seis fiscais. Explica. Querem passar-lhe multa. Pede para sair do autocarro. Bloqueiam-lhe a passagem e agridem-no. Responde com agressões. 6 fiscais agridem-no de volta. As pessoas saem do autocarro em pânico. As que ficam, acham que os fiscais têm razão, deviam ficar com a mochila dele e agredi-lo. As autoridades são chamadas, assistem e deixam que os fiscais continuem a exercer violentamente a sua inexistente autoridade.

Maluco! Maluco! Gritam as pessoas assustadas. Maluco!

Fim da pausa.

O senhor da frente disse-me que não respondesse a mais nada. Ouço uma passageira que tinha entrado a dizer:

– As pessoas não têm dinheiro para pagar o passe. Está muito caro. Ele já tinha saído do autocarro, não podem ficar com as coisas dele!

O senhor da frente diz-me: estão todos muito exaltados. Isto vai piorar. E os julgamentos são públicos. Sou advogado há 52 anos, sei bem o que está a sentir. Mas isto vai piorar. Por isso lhe disse que tivesse calma. Estava descorada. Logo hoje, que até tinha posto um bocadinho de blush.

É isto que esta política está a criar: desespero, violência, abusos de autoridade, linchamentos públicos. A razão deixa de existir. A solidariedade nem vê-la. O outro é sempre culpado. É sempre o que ameaça a nossa segurança, o nosso emprego, o nosso bem-estar. Não interessa que história há ali. Ganha o que tiver mais força. Sabendo disto não consigo deixar de sentir desprezo. Pela atitude dos fiscais e pela atitude das pessoas que prontamente me insultaram e pediam sangue. Pensei que talvez votassem na direita e achassem que assim é que se está bem. Que precisamos de intervenções musculadas contra os patifes que não têm dinheiro. Perguntava-me quando uma coisa destas iria acontecer. Foi hoje. Esperava, sinceramente, outra resposta por parte dos passageiros. Mas o capitalismo sabe demasiado bem o que faz. E as evidências estão aí.

*Foto – Police Athletic League, Stanley Kubrick