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BE ataca Venezuela

«Não me custa nada condenar a falta de democracia na Venezuela.» afirmou, hoje, no JN, Mariana Mortágua, deputada do BE. Há uma semana, quando o PCP apresentou votos de solidariedade com os povos da Venezuela, Brasil e Colômbia, o deputado bloquista Paulino Ascenção afirmava que o seu partido rejeitava “qualquer abuso da força ao nível interno ou através de ingerência externa” e que condenava “qualquer limitação à liberdade de expressão e à livre determinação do povo da Venezuela”. Ou seja, o BE alimentava o peditório de que o governo venezuelano abusa da força e limita a liberdade de expressão.

Num momento particularmente grave na Venezuela, a par do Brasil, em que se tenta legitimar o derrube de Nicolás Maduro, o BE sobe ao muro da traição para dar força aos que já executaram um golpe fascista, entretanto derrotado pelo povo, em 2002. No parlamento europeu, os eurodeputados do BE aliaram-se à direita e abriram caminho à invasão na Líbia e, desde então, tentam repetidamente convencer-nos de que não fizeram nada disso. A haver uma agressão contra Caracas legitimada por uma opinião pública contaminada pelas Marianas Mortágua e Paulinos Ascenção de todo o mundo que saibam os deputados do BE que o criminoso não é só o que dispara. É também o que aponta.

É também curioso que os que dizem defender o legado de Salvador Allende conseguem ao mesmo tempo condenar a revolução bolivariana e Nicolás Maduro porque são, supostamente, os responsáveis pelo caos económico na Venezuela. É que quem tem pelo menos dois dedos de testa e um conhecimento mínimo da história sabe que também houve caos económico no Chile durante o governo da Unidade Popular fruto da mesma estratégia de sabotagem, desabastecimento e bloqueio promovidos pelos grandes grupos económicos, em conjunto com a direita e os Estados Unidos.

Também curiosamente, o BE continua calado sobre a maior deportação de seres humanos desde a 2ª Guerra Mundial que leva o carimbo do Syriza. A polícia de choque do regime grego desaloja milhares de refugiados dos campos e nem uma só palavra sobre o assunto dos amigos do peito de Alexis Tsipras.

A luta é dos trabalhadores e só ela conquista direitos

A situação na Grécia tem sido elemento noticioso essencialmente por questões humanitárias e pelas condições em que os refugiados têm chegado às suas várias ilhas.

Mas há algo que tem passado ao lado dos meios de comunicação social. Desde a tomada de posse do governo Syriza, a luta dos trabalhadores tem sido intensa, reiterada e tem enchido as ruas gregas com as reivindicações a que se aliam estudantes, reformados, movimentos sociais anti-racistas e antifascistas, numa unidade e solidariedade que tem chegado de vários países e de trabalhadores dos sectores privado e público. E intensa solidariedade também da PAME e dos trabalhadores com os refugiados, que têm estado ao lado destes, com distribuição de alimentos, abrigos e com a exigência de uma política que os respeite e dignifique como seres humanos.

48 horas de Greve Geral, nos dias 6 e 7 de Maio, convocadas pela maior central sindical grega – a PAME – contra as medidas antissociais promovidas pelos grupos de negociação do governo grego como a União Europeia e o FMI.

Anos, como em Portugal, de ataque aos direitos dos trabalhadores a fim de promover o grupo das multinacionais, cortes salariais, despedimentos, roubo de direitos da segurança social, nas pensões, privatização na saúde e educação, a precariedade, etc. As novas medidas impostas pelo terceiro «memorando» que atacam essencialmente os jovens e os pensionistas.

Têm sido as lutas contínuas dos trabalhadoras gregos que têm conseguido conter as medidas antissociais, como sempre foram as lutas dos trabalhadores que permitiram os avanços e impediram retrocessos em todo o mundo, mesmo quando as condições de luta se revelam difíceis e tantas vezes põem mesmo em causa as suas vidas.

No dia 1º de Maio, esse dia em que relembramos que a luta pelas 8 horas de trabalho, 8 horas de lazer e 8 horas para o que nos apetecer, luta que custou a vida de operários em Chicago, enforcados por exigirem o que hoje ainda nós exigimos, ecoaram na Alameda, em Lisboa algumas palavras que devem servir de compromisso e exigência:


Não desistimos e não claudicámos! Pelo contrário denunciámos o roubo organizado, lutámos, resistimos e combatemos a poderosa ofensiva ideológica com que nos tentaram intoxicar e anestesiar.
(…)
Não se estranha por isso que o Presidente do PSD tenha afirmado que este ano não há razões para celebrar o 1º de Maio. Para ele poderá não haver, mas para nós existem razões acrescidas para dizer que valeu a pena lutar, que Maio está na rua e a luta continua pela valorização do trabalho e dos trabalhadores, por um Portugal com futuro.
Este é o tempo de concretizar a esperança e lutar pela mudança!
(…)
O cumprimento das promessas credibiliza os políticos e a política e reforça a democracia.
(…)
Mas, nesta nova fase é preciso ir mais longe. Há muito caminho para fazer, um conjunto vasto de problemas para resolver e uma luta que não pode parar!

Este é um processo que tem, necessariamente, de evoluir quanto antes na resposta às necessidades dos trabalhadores, do povo e do país, sob pena de se transformar o sentimento positivo que hoje se sente um pouco por todo o lado, em desilusão e contestação. Este é um processo de mudança que não pode nem deve ficar estagnado ou fazer marcha-atrás.

E para que não haja marcha atrás, a luta, como sempre, foi e é o único caminho. E a luta também se faz da solidariedade internacionalista com todos os povos que lutam na Europa e no mundo contra o capitalismo, o imperialismo, as alianças burguesas dos governos europeus, os ditames da UE e da Comissão Europeia que queres os povos obedientes e calados.

Mas, como dizia o sindicalista irlandês Jim Larkin (Big Jim), em 1916: The great only appear great because we are on our knees. Let us rise! Os grandes só parecem grandes porque estamos de joelhos. Ergamo-nos!

Lista de Sindicatos que já se solidarizaram com a Greve Geral na Grécia:

Itália (USB), Turquia (Naklyat-Is, Sosyal Is), Suécia (SEKO Klubb 111), Catalunha (INTERSINDICAL-CSC), Espanha (CSU, Central Sindical Unitaria de Pensionistas y Jubilados, AST Alternativa Sindical De Trabajadores), Dinamarca (3F Youth), Palestina (Jawwal Union, AST Alternativa Sindical De Trabajadores), Áustria (Left Bloc), República Checa (Trade Union Association of Moravia, Silesia and Bohemia, OSCMS), Iraque (Federation of Workers’ Councils and Unions in Iraq), Paquistão (APFUTU), País Basco (LAB), África do Sul (NEHAWU), Federação Internacional de Educação– FISE, FSM, UIS de Pensionistas e Aposentados de la FSM, UIS de Serviços Públicos da FSM, UIS de Transporte da FSM, Federação Sindical Mundial, FSM, Chipre-SYXKA PEO, Albania-OSNP Patos, Italia-SGB, Gambia-Gambia Labour Congress, Portugal-CGTP-IN.

Ao sabor da brisa mediática

Até hoje, nas suas relações internacionais, jamais o BE havia tido um governo de um partido que coincidisse com a sua linha política. Timidamente e muito pontualmente, mostrou-se solidário com alguns governos que na América Latina avançavam com políticas progressistas. Nunca vimos este partido organizar actos contra o golpe na Venezuela, Equador ou Bolívia. Com Cuba jamais mostrou o mais pequeno gesto de empatia e não se sabe qual é a sua posição sobre o bloqueio contra a pátria de José Martí.

Nas suas posições sobre questões internacionais, o BE preferiu quase sempre deslizar ao sabor das marés imposta pelo mediatismo. Desde considerar simpática a candidatura de Barack Obama e de François Hollande, a não ter qualquer posição crítica sobre as manifestações em Kiev que levaram o fascismo ao poder com a consequente ilegalização do Partido Comunista da Ucrânia e a guerra contra a insurreição no Leste do país. Sobre a Líbia, é sobejamente conhecido o papel que tiveram os eurodeputados do BE na resolução que abriu as portas à agressão que conduziu aquele país à Idade Média e à brutalização das mulheres.

As críticas e o mal-estar gerado mudaram a sua postura em relação à Síria. Não apelou a uma intervenção externa e moderou o seu discurso em relação ao governo de Bashar al-Assad mas pouco ou nada ouvimos sobre o que pensa dos supostos rebeldes financiados e treinados pelos Estados Unidos, União Europeia, Turquia e Arábia Saudita. Entrevistou, há dias, em Lisboa, ao lado de um monumento com a estrela de David, uma investigadora síria que defende o derrube de Bashar al-Assad.

É curioso, pois, que quando chega ao poder, pela primeira vez, um partido da mesma família política do BE, se dá uma das maiores traições à esquerda das últimas décadas na Europa. O BE tinha apoiado e feito campanha pelo Syriza mas quando chegou ao governo e rasgou tudo o que havia prometido os portugueses tiveram de se retratar. Vários dirigentes que antes eram amigos de Alexis Tsipras fingiam distanciar-se. Os dirigentes do BE sentiram-se obrigados, por diversas vezes, a desmarcar-se das decisões políticas do Syriza mas, na verdade, nunca deixaram de estar ao lado do Syriza.

Esta semana, Marisa Matias voltou à Grécia para um encontro do Partido da Esquerda Europeia onde esteve presente o mesmo Alexis Tsipras que nos dias anteriores havia estado como observador num encontro dos socialistas europeus. O mesmo que aperta a mão ao genocida Nethanyau enquanto firma acordos com Israel. Uma vez mais, as palavras dizem uma coisa, as acções mostram outra. Foi assinado um documento conjunto contra a expulsão de refugiados da União Europeia ao mesmo tempo que Tsipras encabeça um dos governos que pede a deportação rápida de milhares de pessoas que fogem da guerra.

É certo que o BE não tem culpa pelo que decide ou não o Syriza mas este é o mesmo partido que tentou por diversas vezes obrigar o PCP a condenar o regime angolano. Quem conhece as posições do PCP sobre Angola sabe que nunca escondeu as diferenças que existem entre o que os comunistas portugueses defendem e aquilo que defende o governo angolano e o MPLA. Mas o respeito pela soberania do povo angolano sem ingerências externas é um princípio que o PCP defende de forma inquestionável.

Quando saltou o tema de Luaty Beirão para as manchetes dos jornais portugueses, o BE tentou aproveitar-se do caso e chegou a acusar uma vez mais o PCP de não estar à altura dos acontecimentos mesmo quando os comunistas haviam apresentados moções em defesa da salvaguarda dos direitos dos vários grevistas de fome. Sabendo que é forte a empatia ideológica entre o BE e o Syriza, a relação de proximidade de anos, os comícios conjuntos tanto na Grécia como em Portugal, a solidariedade mútua durante as campanhas eleitorais, sabendo de tudo isso, quando é que o BE vai condenar o regime grego pela expulsão de milhares de refugiados para a Turquia?

O implacável rugir do motor da História

Implacável. Ainda mal arrefeceu o corpo da União Soviética e já o edifício do capitalismo europeu mostra brechas em todas as paredes: o ministro alemão das Finanças, Wolfgang Schäuble, que insiste em empurrar a Grécia para fora do euro à bruta, já choca com a chanceler Angela Merkel, que teima em fazer do povo helénico um engenho de escravos moderno, que por sua vez choca, aliás à guisa de todas as grandes guerras europeias, com a posição francesa, que já teme pelas consequências políticas de desligar a ficha do doente terminal, que não é a mesma da Comissão Europeia, que aposta forte num resgate usurário comparticipado por toda a UE, que choca com os interesses do capital britânico, que não quer o mesmo Euro que o Syriza deseja, que por seu turno foi partido ao meio, como as águas do Mar Vermelho, as esperanças do Bloco de Esquerda ou a coerência do Podemos, que também já veio dizer que não quer renegociar coisíssima nenhuma.

Há dez, vinte anos, quando os comunistas falavam da morte do Euro e condenavam a União Europeia, havia sempre algum imbecil, pós-moderno e bem-citado, que atirava um «anti-europeísta» e dizia qualquer coisa sobre o norte da Europa. Mas quem, neste ano do Senhor de 2015, veja o que vai pelo velho continente, não pode deixar de ouvir o implacável rugir do motor da História. É o som do fim da velha e caduca social democracia, do retorno do fascismo e também do regresso do socialismo, nos termos ousados em que Lenine o plasmou no mundo, como única solução para quem trabalha.

E, mesmo em Portugal, a percepção do mundo que o momento político está a parir não voltará nunca mais ao vocabulário de António Guterres: não se falará mais em «pelotão da frente» nem em «europeísmo», nem tão pouco em «democracia europeia». As ferida são demasiado profundas e já todos compreendemos que não se tira a carne da boca da fera com palavras mansas. O referendo grego provou-o taxativamente.

A Grécia abriu a caixa de Pandora: a confusão reina da direita neoliberal à esquerda social-democrata. As fracturas, que até agora pareciam superficiais tornam-se letais e violentas; o futuro tem a marca de uma incerteza violenta; os velhos nacionalismos vomitam novos fascismos: as premissas dos comunistas provam-se acertadas com os mais terríveis exemplos: é este, meus caros, o implacável espírito do tempo. É esta a luta final.

Este texto não é sobre a Grécia

Nem sobre Portugal, ou Alemanha. Também não é sobre austeridade, nem sobre resultados de referendos.

Na verdade, ao falar-se de União Europeia, excluem-se os povos que alimentam esse projecto imperialista, entre os quais o Grego, o Português, o Alemão. Porque falar de União Europeia não é falar de Europa, que é um continente, um vasto conjunto de países, que cá continuarão muito após o colapso do projecto de espoliação que é a União Económica e Monetária e a União Política.

Este texto não é sobre austeridade porque “austeridade” é a capa sob a qual se esconde o capitalismo. O capitalismo não é austero porque austeridade pressupõe rigor e contenção no uso de recursos. O capitalismo é o inverso disso: é a destruição dos recursos naturais e a exploração do trabalho, com desperdício incalculável. O capitalismo, que agora dá pelo pomposo nome de “austeridade”, faz produzir o dobro do que todos os habitantes globo inteiro necessitariam para viver, mas deita fora metade do que produz e mesmo assim um hemisfério do planeta morre de fome. O capitalismo esbanja os recursos para os concentrar nas mãos dos seus privilegiados. Enquanto metade da população da terra sofre de mal-nutrição ou carências no plano da saúde, higiene e acesso à água, uma outra metade consome o suficiente para suportar um planeta inteiro e ainda deita fora diariamente uma parte igual.

Dessa metade de privilegiados, em que nos incluímos apesar de não termos tido opção, apenas um punhado de indivíduos abocanha a riqueza gerada, vivendo na opulência obscena dos milionários a quem nenhuma fortuna satisfaz. Para que esses milhões se concentrem nas mãos de menos de 1% da população terrestre é preciso destruir os recursos comuns e apropriar-se do trabalho dos outros mais de 99%. Mesmo neste contexto, o capitalismo desperdiça milhões e milhões de trabalhadores, votando-os ao desemprego para garantir baixos custos de trabalho e a total precarização das relações laborais.

O capitalismo é desperdício. Austeridade é o eufemismo, tal como Estado Novo o era para o fascismo.

Ora, desde o princípio que a Benelux, a União do Carvão e do Aço, depois a CEE, agora UEM e a UE, são estruturas de mercados capitalistas, são tratados e acordos entre classes dominantes de diversos países que, por mero acaso, ocupam o solo europeu. Aqueles que agora dizem que a “Europa falhou”, que “a Alemanha destruiu a Europa”, como muito se lê por parte dos que, dizendo-se de esquerda, sempre defenderam a estrutura mais de direita que existe no continente: a União Europeia, estão na verdade, a cumprir o seu papel de sempre.

Em primeiro lugar, a “Europa” não é a “União Europeia”, porquanto um corresponde a uma soma de povos e a um espaço geográfico e outro a um conjunto de tratados entre capitalistas que usurparam estados e decidiram mercados.

Em segundo lugar, aqueles que agora vêm chorar pela “europa” (que é na verdade a “União Europeia”), estão apenas a absolver-se a si próprios de terem durante décadas dado a cobertura política “de esquerda” de que o capitalismo sempre precisou para seduzir os povos da Europa com uma União de liberdade, fraternidade e amizade quando na verdade ia impondo uma União de exploração e acumulação.

A derrota do Governo grego nas negociações com a União e o Eurogrupo não é uma derrota da união europeia (a que agora essa “esquerda” chama “Europa”), antes uma vitória dessa estrutura anti-democrática. A derrota do Governo grego é o triunfo dessa União Europeia, não é o triunfo da Alemanha, não é o triunfo da França, nem de qualquer outro país: é o do capitalismo.

Vir agora chorar pela “Europa” cumpre apenas o ritual da defesa da estrutura de direita que, passo a passo, vai fazendo marchar o capitalismo sobre os povos.

Dizer que a “Europa” perdeu, ou que a “Alemanha destruiu o sonho europeu” iliba o Governo grego ante as cedências que aceitou em prol dessa “Europa”;

Limpa o passado dos partidos “de esquerda” que sempre foram “europeístas” (ou seja, pró-capitalistas) porque ao invés de reconhecer que este é o projecto que sempre defenderam, afirmam estar derrotado esse “projecto” humanista e internacionalista que – como se vê – nunca existiu. Ou seja, não foram o BE, a SYRIZA, o PS, o PASOK e os seus semelhantes que andaram a mentir aos povos sobre a União Europeia, mas foi a União Europeia que, como se de repente, se converteu num feudo do grande capital;

Oculta igualmente o verdadeiro papel da União, colocando o problema no comportamento de um país ou de um ou outro líder, fazendo crer que o problema não é estrutural, mas conjuntural. Como se a União Europeia não fosse precisamente isto e como se não fosse precisamente para isto que foi criada: assegurar o aprofundamento da exploração do trabalho pelo capital, independentemente da geografia que lhe sirva de quartel-general.

Por todo o mundo – e aqui em Portugal não se vê excepção – os comentadores e fazedores de opinião, os dirigentes da “esquerda moderna”, da “esquerda livre”, da “esquerda de confiança”, da “esquerda democrática”, da “esquerda moderada”, se desdobram em desculpas esfarrapadas sobre uma tal “Europa” destroçada para não assumirem as responsabilidades de terem desde o início defendido afinal uma “união europeia de regressão, opressora, sem transparência, anti-democrática e absoluta e ferozmente neo-liberal”. Em nada moderna, livre, de confiança, democrática ou moderada.

Nem mesmo perante o colapso da mentira, a burguesia reconhece o falhanço do capitalismo, seja burguesia de “esquerda”, seja de “direita”.

Senão o quê?

Não está tempo para sermos ingénuos: o governo grego traiu o
seu povo e mostrou cabalmente que os únicos referendos vinculativos que o
Syriza reconhece votam-se nas reuniões do Eurogrupo.
Pouco interessa quais eram as intenções de Tsipras ou dos
seus seguidores. Não se trata de escamotear as pressões, ingerências e
chantagens de que foi alvo o governo e o povo helénicos, mas de enfrentar a
realidade como ela é: este governo assumiu promessas que não cumpriu, convocou
um referendo que não respeitou e acaba de assinar o maior retrocesso social das
últimas décadas.

O governo de Tsipras aumenta a idade da reforma, sobe
brutalmente os impostos para os trabalhadores, injecta o erário público nos
bancos privados e transforma a Grécia, com a hipoteca de 50 mil milhões em
activos, num protectorado de Bruxelas. Não criticar o governo que assina estas
medidas anti-populares, sob qualquer pretexto, é toda uma declaração de
intenções do que se quer para Portugal e para a Europa.
Sim, é verdade que houve quem não se tivesse deixado enganar
pelo cavalo de Tróia: uns tentaram cavalgá-lo mas houve outros que se
abstiveram de festejos. E desengane-se quem atribua a desconfiança a qualquer
sectarismo: Tsipras não capitulou por ser um líder fraco, os seus negociadores
não atiraram a toalha ao chão por não saberem negociar nem o Syriza traiu pela grandeza
das forças que contra ele se investiram.
Tsipras traiu porque, reconhecidamente, não vê qualquer caminho
fora do Euro e da União Europeia. E, como em qualquer negociação em que se
enfrentam interesses antagónicos, há que antecipar a pergunta que, mais tarde
ou mais cedo, o outro lado há-de fazer: «senão o quê?».
Isto serve tanto para uma reivindicação laboral ( «se não
cedem fazemos greve!»), como para uma guerra («se não cedem atacamos»), como
para as negociações com os credores da dívida. O problema é que Atenas foi
pedir a Bruxelas o que Bruxelas não quer nem precisa de dar. E, quando Bruxelas perguntou «Se não o quê?», o Syriza respondeu: «senão nada».

Bem-vindos ao «pelotão da frente»

Ano da desgraça de mil novecentos e oitenta e seis. No dia primeiro do mês Janeiro, Portugal é formalmente anexado a uma grande corporação capitalista, que para levar a cabo o seu desejo de domínio e monopólio europeu e mundial, necessita, como é normal neste ciclo, de fiéis serventuários. Atribuem-nos milhões para adoçar a boca e que são gastos como sabemos. Abate-se a produção nacional, sequestra-se a nossa capacidade económica, aniquila-se grande parte da nossa independência financeira, social e também política. Prometem-nos a «modernidade», a «solidariedade» e a oportunidade «imperdível» de entrarmos num «pelotão da frente» que, é preciso recordar a jactância, faria de nós «um grande, moderno e avançado país». Depois de anos de desbragada ilusão, o doloroso definhamento histórico salta à vista. Um retrocesso cujos indicadores sociais e políticos só encontram comparação em períodos de catástrofe, ou de pós-guerra. A realidade, essa teimosa, essa persistente, mostra-nos todos os dias – como o PCP na altura isoladamente afirmava – o grande sarilho, a grande tragédia, a grande farsa em que PS, PSD e CDS nos meteram.

É hoje bem mais nítido que esta União Europeia é tudo menos uma união «dos 27». É apenas uma união «dos 3». Do Deustche Bank, do BCE e do FMI.

A União Europeia presta-se hoje, perante o resto mundo, a um papel que a deveria envergonhar. Todavia, bem sabemos que o capital não tem moral, nem ética, especialmente quando agoniza. Como foi fácil, afinal, que ditames financeiros e económicos pusessem a nu a falsidade da apregoada solidariedade entre estados-membros. Como é fácil descartar um país e um povo inteiro, que, aparentemente, parece estar a cometer um “crime” de desobediência às regras definidas por burocratas da alta finança, só porque a vontade do seu governo difere da vontade de organismos não eleitos. Como é fácil manter os igualmente frágeis (como Portugal) aninhados e submissos, enquanto se espezinham os semelhantes que lutam contra a miséria que lhe querem impor. Difícil, senão impossível, é continuar a propalar a existência de “democracia” no seio desta União, feição ou característica que nunca teve, nem nunca terá.

É hoje bem mais nítido que esta União Europeia é tudo menos uma união «dos 27». É apenas uma união dos «3». Do Deustche Bank, do BCE e do FMI. Nada mais importa para além disso. As decisões, os mandos e desmandos partem da cúpula, sendo que os demais, em submissão, limitam-se a cumprir as ordens e a readaptar, se necessário, o discurso para esconder essa obediência. No meio de tudo isto sofrem os povos, sejam gregos ou portugueses, que com sacrifício continuam, sabe-se lá até quando, a alimentar um sistema que os ignora e maltrata. Uns sempre no topo, outros sempre de rastos. É esta a «modernidade». É este o «progresso». É este o chamado «pelotão da frente».

O Bloco de Esquerda mente: o KKE não apelou à abstenção

Numa notícia publicada no Esquerda.net, o Bloco de Esquerda acusa o Partido Comunista Grego de apelar à abstenção no referendo convocado para dia 5 no país helénico.

Trata-se de uma mentira ignóbil que não nasce de qualquer problema de tradução mas de uma contradição política inultrapassável: o que o Bloco de Esquerda defende para a Grécia é o compromisso com aquilo que diz combater em Portugal – a austeridade.

O que na verdade diz o Partido Comunista Grego é que tanto o plano do Syriza como o ultimato de Bruxelas devem ser rejeitados pelo povo. Ao contrário de apelar à abstenção, o KKE propôs que o escrutínio incida sobre duas perguntas, uma relativa à última proposta de acordo dos credores da dívida grega e uma segunda sobre o rompimento com a União Europeia.

Para o BE, esta é uma postura inaceitável porque revê no governo do Syriza legitimidade bastante para fazer cumprir a premissa-chave do programa eleitoral com que foi eleito: rejeitar o programa de ajustamento. É claro que o referendo é desnecessário e oportunista: a vontade do povo grego é soberana e as promessas não se referendam, cumprem-se.

Claro que para os bloquistas, que votaram a favor de empréstimos usurários contra o povo grego, que vêem na União Europeia um aliado dos trabalhadores e que não concebem uma Europa liberta das amarras do euro, quem rejeita mais cedências, apela à abstenção.

Para quando uma rectificação?