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A revolução tem voz de mulher

Avessas à ideia de que a guerra é coisa de homens, combateram durante mais de meio século nas selvas e montanhas da Colômbia. São milhares, representam quase metade dos integrantes da mais importante guerrilha latino-americana e lutam pela paz e pela justiça social. As combatentes das FARC-EP levam a revolução na voz, são feministas e não têm dúvidas. Não há poder que se possa tomar sem a participação das mulheres.

Guerrilheiras farianas

São três da tarde. Dentro do jeep resiste-se à inclemência do calor e aos sobressaltos da estrada de terra batida. Ao longe, entre as montanhas de Santa Marta e a cordilheira andina, vê-se o primeiro de um número infindável de postos de controlo do exército. Só acabam um quilómetro antes do acampamento das FARC. Centenas de soldados depois e com gincana à mistura, surge a primeira mulher armada e não pertence às forças armadas colombianas. É guerrilheira.

Atrás do sorriso da combatente fariana, há uma autêntica cidade levantada à força dos braços de quem constrói a luta de todos os dias. É Tatu, outra «camarada», como se tratam todos aqui, que fica responsável por mostrar o acampamento. Caminhando pelas ruas dos que projectam o futuro de um mundo melhor, não se fica indiferente ao formigueiro humano que faz palpitar este pedaço de floresta. E também à quantidade de mulheres.

Sentada, ao lado da kalashnikov, no cambuche onde dorme todas as noites, Tatu conta ao Sermos Galiza por que decidiu entrar muito jovem nas FARC: «Eu via a vida das mulheres à minha volta e sentia que não queria aquilo. Não me queria sentir obrigada a ter um marido, a ter filhos, a levar uma vida miserável em que a minha opinião não contasse para nada». Para a guerrilheira de 35 anos as FARC eram um espaço de liberdade. «Eu via-as poderosas, combativas e conscientes do que queriam. A minha entrada foi uma questão de tempo», explica.

Também Maria quer que se saiba por que entrou na organização guerrilheira. Enquanto limpa uma pequena casa, quase em ruínas, a única existente no acampamento, a combatente que leva uma t-shirt desportiva do Junior Barranquilla conta a sua história. Explica que entrou nas FARC há 17 anos e que «não tinha outra opção». A miséria e a pobreza traçaram o caminho: «a minha família não tinha condições económicas e decidi lutar por um país com oportunidades para todos». Maria espera que o filho pequeno não tenha de viver o mesmo e mostra-se expectante com o processo de paz. Gostava de poder estudar comunicação social e desenho gráfico mas não deixa lugar para dúvidas: «Naturalmente, continuarei a participar na luta política porque muda a forma mas não muda o objectivo de construir uma Colômbia justa, socialista e soberana».

«Olhe, jornalista, estou a ler este livro. Fixe o nome: Últimas notícias da guerra. É de um colega seu, Jorge Enrique Botero», quem o diz é um homem vestido à civil que prefere não ser identificado. Soubera que alguém andava a interrogar por que aderiam as mulheres às FARC e meteu conversa: «Esta é a história verídica de uma guerrilheira que fugiu de casa ainda adolescente. A mãe era dona de um bordel numa pequena aldeia e o padrasto tentara violá-la várias vezes. Uma noite, esperou-o na cama e esfaqueou-lhe a barriga. Depois escapou-se e entrou nas FARC». Com ar sério, deu a sua opinião de que para muitas mulheres a entrada na guerrilha não é uma opção. «É talvez a única via para fugir de uma vida miserável num bordel ou a apanhar pancada do marido. E aqui sentem que lutam para que todas as mulheres não tenham de fazer essa escolha. O mundo tem de saber isto», rematou.

«Tente violá-la»

Os oligarcas mandam, os jornalistas apontam e os soldados disparam. Durante anos, o conflito que se travou nas montanhas despertou a guerra mediática para forjar uma opinião pública que sustentasse a ofensiva brutal que se desatou contra este grupo armado sobretudo na última década e meia. A mais importante das ideias veiculadas sobre as FARC foi a de que se tratava de um grupo de narcotraficantes e isso permitiu isolar a guerrilha internacionalmente. Mas outra das informações frequentemente veiculadas em reportagens acusava-os de tratar brutalmente as mulheres. Desde supostos haréns de guerrilheiras que tinham de fazer favores sexuais a comandantes, a violações e abortos forçados.

Inty Maleywa é provavelmente uma das artistas mais conhecidas das FARC. Os seus traços ilustram muitos dos desenhos que retratam o imaginário guerrilheiro e a sensibilidade das suas mãos já encheram exposições em vários pontos do país. Ao contrário da maioria das mulheres e homens, camponeses, que se tornaram guerrilheiros pela sua condição de miséria, explica que estudou na universidade e que depois decidiu pegar nas armas.

Questionada sobre os haréns e as violações, o rosto de Inty fecha-se e a voz endurece. Fixa os olhos e conta a história de um jornalista que há anos lhe fez a mesma pergunta. «Está a ver aquela guerrilheira ali ao fundo com uma kalashnikov? Vá e tente violá-la», respondeu-lhe deixando-o calado. É que para a artista plástica não faz sentido algum acreditar em tal mentira. «Mas se fossemos violadas e maltratadas alguma vez nos dariam armas para as mãos? É um absurdo. A violação nas FARC está prevista no regulamento interno com o fuzilamento para quem a cometer.»

Não sabe se são os homens no poder ou se são os homens nas redacções, ou ambos, que não conseguem aceitar que milhares de mulheres colombianas tenham decidido entregar, livremente, a sua vida à luta por um mundo diferente. É que aqui, explica, não há diferenças entre elas e eles. Anedoticamente, lembra quando a mãe foi a um acampamento visitá-la pela primeira vez. «Chegou e abriu a minha mochila. Queria saber se era verdade que nós estávamos obrigadas a levar a roupa dos comandantes», ri-se.

8 de Março

Meia centena de guerrilheiras vestiu o melhor dos sorrisos para desfilar de fuzil ao ombro. São mulheres que marcham sob a orientação de três videógrafas. O objectivo é lançarem uma mensagem à Colômbia e ao mundo no Dia Internacional da Mulher. Enganam-se várias vezes e riem-se muito. A mais velha das combatentes olha para a câmara e explica a importância da participação das mulheres na vida política e social do país e a urgência de se somarem à luta pela paz com justiça social. Em coro, terminam o vídeo com um grito de punho cerrado: «Que vivam as mulheres!»

Fechada num automóvel que acaba de chegar ao acampamento, Virgínia tenta fugir do ruído para gravar. «É a minha voz que vai aparecer no vídeo», explica enquanto limpa o suor da testa. A combatente de 26 anos revela que é de Barranquilla e que estudou filosofia na universidade. Durante vários anos deu aulas como professora em diferentes institutos. Agora, é uma das locutoras da rádio clandestina Cadena Radial Bolivariana. «Comecei a fazer militância estudantil e ganhei consciência política para os problemas do país. Um dia descobriram que colaborava com as FARC e tive de vir para as montanhas», conta.

Para as FARC, o 8 de Março não é uma data qualquer. É uma das mais importantes do calendário. Todos os anos, mesmo nos tempos mais duros, celebram a data e este não é excepção. Enquanto dezenas de guerrilheiros ensaiam um espectáculo de cumbia, outros preparam uma obra de teatro que retrata a opressão que vivem as mulheres.

A meio ano da data em que se prevê a entrega total das armas à ONU, há guerrilheiras que não tiveram outra opção senão pegar em armas no princípio da adolescência. Na Colômbia, sete de cada dez mulheres sofreram ou vão sofrer algum tipo de agressão na sua vida. Segundo a Defensoria del Pueblo, em cada dia, 38 são violadas. Só nos últimos cinco anos, 8 mil mulheres foram assassinadas revela o Centro de Referencia Nacional de Violencia. São números assustadores. A transição para a vida civil pode representar um duro embate para estas guerrilheiras que cresceram longe da realidade em que qualquer mulher pode ser vítima de assassinato, violação e de agressão.

Até para homens guerrilheiros como Yesid que não serão alvo dessa barbárie. No seu cambuche, escreve um texto sobre a luta feminista e explica que é para expor num painel que vai estar à disposição para todos os materiais que estejam relacionados com o tema. «Também vou participar na peça de teatro, vou fazer de mulher», revela. Questionado sobre se se sente cómodo para assumir o papel de mulher, o jovem guerrilheiro responde com um olhar interrogativo: «Como assim? Por que não havia de me sentir cómodo?».

[reportagem publicada no jornal Sermos Galiza]

Se Trump atacar a Coreia do Norte, de que lado estás?

Para quem ainda não tenha reparado nas gaivotas em terra, vivemos o início da mais profunda crise do capitalismo em um século. Não sei se será a última, mas será certamente a pior. Os sintomas mais óbvios são os sinais exteriores da nossa decadência moral, cultural e política. Não é preciso ser marxista para entender que há aqui algo novo.

Um exemplo pessoal: há poucos anos trabalhava na redacção de um jornal em que me pediam para publicar uma notícia a cada 20 minutos. Quando fiz notar ao meu director que esse tempo não bastava para conhecer a realidade, verificar a informação, contrastar fontes, ler, pensar e escrever uma peça com cabeça tronco e membros, ele, um jornalista conhecido das televisões com décadas de experiência, riu-se: «Essa merda era há cinquenta anos!». Afinal, o meu trabalho era roubar notícias às agências e às redes sociais, dar uma volta ao texto para que não se notasse a origem (citar a Lusa custa dinheiro) e inventar títulos provocadores de cliques. Não durei muito tempo no posto, mas percebi que aquele director, ao contrário de mim, entendia o espírito da época.

A famigerada crise do jornalismo é somente o arrasto de outra grande crise: da mesma forma que a comunicação social é arrastada pela rapidez da Internet, pelo algoritmo do Facebook ou pela impaciência dos accionistas, também a obscenidade de Trump e a desumanidade com que a União Europeia trata os refugiados são o efeito de arrasto de algo maior. Algo mais profundo. Da mesma forma que, 500 anos antes de o Império Romano desabar, já era notória a sua decadência artística e moral, também nós nos devemos questionar com intrépida insistência o que sucederia se amanhã chegassem os Hunos.

Estamos em 2017 e a Lena das Cartas vende conselhos jurídicos, consultas de psicologia e poções mágicas contra todas as maleitas aos idosos que queiram marcar o 760 760 760

A nossa cultura caminha a passos largos para uma barbárie a que somos cada vez mais insensíveis. Estamos em 2017 e a Lena das Cartas vende conselhos jurídicos, consultas de psicologia e poções mágicas contra todas as maleitas aos idosos que queiram marcar o 760 760 760. Estamos em 2017 e o PSD e o CDS-PP juram estar preocupados com os baixos salários, a precariedade e o valor das rendas das casas. Estamos em 2017 e alguém acaba de partilhar, com dolorosa credulidade, uma notícia sobre um indiano que, bebendo só água, viveu até aos 265 anos. Estamos em 2017 e um patrão pode despedir um trabalhador só porque sim, só porque não. Estamos em 2017 e um deputado ao Parlamento Europeu acaba de defender que as mulheres devem ganhar menos do que os homens. Estamos em 2017 e o Canal História está e emitir um documentário sobre a ligação dos nazis aos extraterrestres. Estamos em 2017 e há sacos-cama a 2000 euros em Fátima para celebrar a aparição de um fantasma com poderes mágicos. Estamos em 2017 e o imperialismo derruba Estados soberanos na Síria, na Ucrânia, na Líbia, nas Honduras, sem que ninguém saiba lá muito bem o que se passou mesmo. Estamos em 2017 e o nosso feed de Facebook está cheio de gatinhos. Estamos em 2017 e, apesar do desenvolvimento exponencial da produtividade do trabalho, da ciência e da tecnologia, o salário mínimo não chega a 600 euros.

Pergunto novamente: o que aconteceria se os Hunos chegassem amanhã? A decadência moral e política da nossa sociedade não revelam somente a fragilidade do sistema económico e político em que vivemos, são um testemunho vivo de que, quebrando-se os frágeis fios que sustentam a bizarria, regressamos facilmente a um estado de violência endémica, em que se mata um tipo por dá cá aquela palha. Rápida e implacavelmente, como a cegueira inexplicável que Saramago imaginou.

Nos EUA, vanguarda da cultura mundial e respectiva decadência, a chegada dos Hunos é, há muito tempo, um topos literário. Mas, ao contrário de Saramago, a obsessão contemporânea com o fim do mundo, com o colapso da civilização e com a sobrevivência no estado de natureza, reveste-se de um carácter individualista, reaccionário e ultra-conservador. Séries de televisão como The Walking Dead, e reality shows como Os Últimos Habitantes do Alasca ou Aventura à Flor da Pele ilustram o fascínio popular pelo mais que inevitável fim do mundo com a ideia de um recomeço idílico: uma vida mais simples mas violenta; um mundo mais verdadeiro mas de dolorosos retrocessos civilizacionais.

Quem são os Hunos? A cada dia que passa, torna-se mais claro que a crise do capitalismo é tão profunda que qualquer espantalho pode fazer as vezes de Alarico. O capital não tem, pura e simplesmente, soluções novas para os velhos problemas. Resta-lhe, portanto, a velha receita: destruir a produção, aumentar a exploração e fazer a guerra. Num tempo em que as bombas nucleares nas mãos de Trump têm uma capacidade de destruição mil vezes superior às de Hiroxima e Nagasaki, é urgente que não acreditemos que o Império só vai ruir por causa dos Hunos. Não nos deixarmos manipular pela propaganda de guerra é o primeiro passo para evitar uma guerra de consequência imprevisíveis.

É urgente que todos nos comprometamos que, por mais ou menos que gostemos dos Hunos em questão, não admitiremos a guerra por quaisquer pretextos. Seja na Coreia do Norte, no Irão, na Bielorrússia, no Zimbábue, ou na Argélia, estaremos contra a guerra imperialista e do lado da resistência.

Armas de intoxicação massiva


Qual é a diferença entre um terrorista em Paris, um saqueador em Palmira ou um sanguinário em Aleppo? É que se ele estiver em Aleppo, na grande imprensa, não terá nenhum destes adjectivos e será apenas um “rebelde” ou um “insurgente”, provavelmente acrescentarão ainda que é “moderado”. É o que tem acontecido.

A grande comunicação social construiu uma gigantesca e sinistra distopia mediática em que um mercenário de guerra fanatizado é apresentado como um “rebelde moderado” que luta por liberdade e democracia  ao passo que simultaneamente um soldado sírio que arrisca a própria vida pela libertação de uma cidade do seu país se vê transformado num carniceiro contra o seu próprio povo capaz de bombardear o vigésimo-sétimo “último hospital para crianças” de Aleppo.

Nos últimos dias, aproximando-se a derrota militar em Aleppo dos terroristas do daesh/al-qaeda/al-nusra entre outros mercenários animados pelos incansáveis e mal-disfarçados apoios de países e organizações como os EUA, UE, Turquia, Israel ou Arábia Saudita, os níveis de intoxicação mediática atingiram patamares absolutamente insuportáveis, pela natureza e cadência. Desta vez também, por exemplo, através de videos de “mensagem final” que chegaram às redes sociais e televisões nos últimos dias.

Se por um lado é verdade que uma análise atenta desmonta facilmente estas sucessivas farsas, por outro lado, através das brutais armas de intoxicação massiva que o capital e o imperialismo têm ao seu dispor para a sua difusão, as aldrabices, as mistificações e manipulações de toda a ordem e feitio acabam por atingir os seus fins em larga escala.

Independentemente de casos de guerra, em que populações civis sequestradas são utilizadas como escudos humanos pelos miseráveis terroristas que insistem em comportar-se como cobardes até à última, e que objectivamente colocam em causa vidas civis, a verdade é que os interesses do império e do capital nestas sucessivas acções de intoxicação mediática à escala global visam a diabolização dos libertadores e o seu isolamento e, naturalmente, criar condições políticas que para já dificultem novas reconquistas, que impeçam o restabelecimento da ordem e a reconstrução do país, bem como preparar no futuro novas escaladas belicistas.

Além dos tradicionais meios e formas de conformação de realidade e intoxicação, de facto hoje por força de novos meios tecnológicos e do seu acesso massificado em vastas áreas do mundo, importa acompanhar e denunciar estas “novas” vertentes da intoxicação até porque são elas próprias muitas vezes causa ou meio difusor para as tradicionais fontes de manipulação de massas. Por exemplo, estes videos que iniciaram a sua circulação em redes sociais rapidamente(esse seria seu objectivo) foram utilizados em televisão ganhando ainda maior projecção. E sim, estes são só um exemplo.

Intoxicação de guerra

Nos últimos dias, na devastada cidade síria de Aleppo, tem ganho progressivo espaço mediático o emocionante caso de uma menina de nome Bana Alabed, de sete anos de idade apenas, e que por via da rede social twitter, vem partilhando preocupações, apelos políticos e outras mensagens sobre o seu dia-a-dia na guerra.
O caso é que Bana é uma ficção. Bana é um produto tóxico inventado num qualquer laboratório ao serviço da guerra mediática, é uma ficção do império colocada ao seu serviço político e cuja divulgação percorreu as redes e meios da moda(primeiro nas redes sociais, seguida por uma rápida e global divulgação nos órgãos de comunicação social de “referência”).
Estórias como esta sempre houve e, francamente, não valeriam grande atenção não se dera o caso desta Bana ter tido honras de
Telejornal da RTP, e veja-se com atenção toda esta peça. Tornando-se em mais um caso, que se soma a tantos outros, de manipulação sobre a guerra na Síria na RTP. Sendo que Bana é, ainda por cima, uma boneca particularmente mal montada.

Aleppo está em guerra há mais de 4 anos, é uma cidade tomada, saqueada e devastada pelos sucessivos grupos terroristas(animados, financiados e munidos por EUA/NATO/UE, pela Turquia entre outras potências regionais) do Daesh à Al-Nusra, dos “rebeldes” aos “insurgentes”, dos “jihadistas” aos “jihadistas moderados”, entre outras mutações nominativas que estes grupos vão assumindo…mas importa que é uma cidade absolutamente destruída. Assim, estranha-se na vida de Bana:

1- como vive e se mantém a viver na cidade, numa zona “controlada pelos rebeldes”?

2- como se mantém ligada constantemente à internet sabendo-se que por lá não existem elementos civilizacionais básicos como a electricidade ou água?

3- como tem e para que tem uma criança de 7 anos um telefone de tecnologia 3G em zona de guerra?
4- como podem neste cenário existir redes de telemóvel e internet?

5- como fala e escreve tão correctamente em inglês uma criança síria de 7 anos(4 deles em guerra)?
6- porque nunca em 415 mensagens escreveu ou falou na sua língua nativa?

7- como sabe ela os nomes de diversos presidentes como Putin(ela ao Assad liga pouco) ou Obama e ainda instituições como o Tribunal Penal Internacional(com sete anos apenas ela já conhece o TPI)?

8- como conhece e porque já se corresponde via twitter com outras crianças “vítimas” de Putin como os pequenos ucranianos e arménios Vadim Dovganyuk e Elena Hagoyan?

9- é notável a pontualidade nos bombardeamentos e o talento cinematográfico de sua mãe(que não a protege, antes a filma à janela enquanto ocorre um bombardeamento);

Esta contagem rápida de situações estranhas podia continuar com muito mais questões. Mas o mais relevante, agora, não é a personagem Bana, mas sim a relevância dada pela RTP a esta aldrabice pegada.

É absolutamente lamentável que as senhoras “jornalistas” Ana Rita Freitas e Sara Cravina, como duas baratas tontas tenham editado e reproduzido uma peça cujos dados não são delas(antes são de alguém que os inventou, que construiu as imagens e  uma narrativa que elas devoraram) e sobre os quais não fizeram qualquer fact-checking, qualquer verificação sobre a sua veracidade. Assim, acefalamente, para adjectivar por baixo, no mínimo, assinaram e mandaram para o ar na estação televisiva de serviço público, em pleno Telejornal(entre outros espaços de “informação” em televisão do grupo RTP), 2 minutos de mentira e intoxicação pura.

A direcção de informação da RTP desde o início da guerra na Síria, em 2012, tem tido um linha editorial perfeitamente enquadrada com a “informação” e opinião construídas e formatadas por agências e outros veículos de produção de conteúdos para os mass media internacionais, que naturalmente servem os objectivos políticos e de narrativa mediática do império, dos EUA/NATO/UE, distribuindo todo esse material desinformativo e objectivamente tóxico por este mundo fora.

O director de informação da RTP, o ascendente ainda que curto, mal formado e patusco, Paulo Dentinho, já esteve na Síria e entrevistou pessoalmente Al-Assad, conheceu aquela realidade, a de uma guerra já desenvolvida e cujos traços essenciais nos planos militar e mediático eram notórios, sendo, portanto, indesculpável a opção editorial da RTP e da sua direcção de informação. Este director e esta direcção, nesta opção que fazem, colocam-se no papel de cúmplices em toda a intoxicação que se serve regularmente aos tele-espectadores sobre a guerra na Síria, sendo este ridículo caso de Bana apenas mais um triste episódio.

Ei-los que chegam*

São esquisitos, baixos e com bigodes e barbas. Chegam, na esmagadora maioria, homens. Elas, quando vêm, cobrem os cabelos com panos e não usam saia acima do joelho. Muitas são proibidas pelos maridos de cortarem o cabelo. Por vezes, eles ameaçam-nas com uma chapada ou um murro; elas, subservientes, baixam a cabeça e colam as mãos ao ventre. Trazem com eles uma paixão fervorosa pela religião. Usam colares com o símbolo das suas crenças e são capazes de dar mais do que têm para que o seu local de culto, na sua terra natal, tenha um relógio ou um telhado novo. Rezam, pelo menos, de manhã e à noite. Se puder ser, ao final da tarde, cumprem mais um ritual.

Chegam sem falar uma palavra da nossa língua. Parece que fogem de uma guerra qualquer lá no país deles, da fome e da miséria. Não têm, por isso, noção de amor à nação. Fogem em vez de defenderem o seu país e lutarem por uma vida melhor lá, na terra deles, vêm para aqui sujar o nosso país com a sua imundície. Atravessam países inteiros a pé ou à boleia para chegarem aqui. Pagam milhares para saírem do seu país e vêm ficar na miséria. Alguns têm muitos filhos, muito mais do que aquilo a que estamos habituados. Deixam-nos sozinhos ou com os irmãos mais velhos, que não vão à escola. Mas são muito trabalhadores.

Bem, na verdade, não roubam exactamente o nosso trabalho, porque aqui há leis que não nos permitem trabalhar 18 horas diárias, embora isso exista e dê jeito a alguns patrões. Mas de certeza que nos roubam qualquer coisa. São diferentes de nós e isso causa-nos má impressão.

Não são muito limpos, cospem para o chão e as suas maneiras em público deixam muito a desejar. Vivem em bairros de lata que mais parecem campos de refugiados. Não sei como conseguem. Se é para viverem na miséria, mais valia ficarem na terra deles.


Diário de um Parisiense,1969

*Embora pudesse ser um relato verdadeiro, demonstrativo da nossa estupidez colectiva, este
texto é ficção. É da minha autoria. Não está em mais lado nenhum que não no
blogue nem é excerto de coisa alguma.



* Foto de  Gérald Bloncourt (http://bloncourtblog.net/2014/07/l-immigration-portugaise.html)

Trivela de Quaresma

“Amigo,
Imagina que eras tu com o teu filho nos braços que tinhas de deixar o teu país, escondido, a fugir da guerra e da fome, desesperado por encontrar um sítio no mundo onde pudesses recomeçar e dar ao teu filho tudo aquilo a que ele tem direito.
Agora que imaginaste, vê a realidade do que se está a passar na Europa.
As crianças que fogem da guerra também são nossas crianças, também elas têm direito de ter um futuro e construir um mundo melhor.
Não podemos ficar indiferentes a este problema, está nas nossas mãos impedir isto”

 Ricardo Quaresma, 29/8/2015