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Com o que sonha o Cristiano Ronaldo?

Cristiano Ronaldo não sonha, certamente, com comprar o carro ou a casa que sempre quis. Pode ficar assegurado o leitor: o sonho do  melhor jogador de futebol do mundo não é nada material. Ao contrário do que se possa achar, Cristiano Ronaldo não sonha com milhões de euros, mulheres bonitas nem ilhas privadas. Estamos em condições de afirmar com segurança que o CR7 já tem todas as copas, ligas, campeonatos, botas de ouro e bolas de ouro que poderia desejar.

Será que quando Cristiano Ronaldo chega a casa se põe a ler Kafka, sentado num sofá de 50 mil euros, enquanto mastiga o fel das inquietudes filosóficas sobre o absurdo da existência?

E mesmo sendo abstracto o sonho que o move, não é por isso algo mais comum: podemos também assegurar o leitor de que Ronaldo já tem todo o reconhecimento, fama e adoração possíveis de concentrar na auto-estima de um único ser humano. Não lhe faltará, por outro lado, liberdade: Cristiano Ronaldo já é, individualmente, mais livre de fazer no mundo tudo o que lhe couber no tempo que ainda lhe sobra. Faltar-lhe-á naturalmente a privacidade, mas também não é esse o sonho de Cristiano Ronaldo.

Com o que sonha, então, um homem que já é infinitamente rico, idolatrado, bonito, bom naquilo que faz, livre, saudável e jovem?

Pode parecer uma pergunta estúpida mas, se se prestar atenção, já somos obrigados a conhecer tantos e tão irrelevantes detalhes sobre a vida de Cristiano Ronaldo que mais vale debruçarmo-nos sobre o que realmente importa.

Agora o leitor pode até rir-se, mas é provável que Cristiano Ronaldo sonhe ser imortal. Nada de mais: apenas um sonho à escala da vida que leva. Talvez por isso lhe parecerá tão desproporcional a você, que mora no terceiro andar de um prédio e guarda cupões de descontos mas, lá está, o leitor também não tem museus e estátuas dedicados à sua vida.

Mas Cristiano Ronaldo seguramente saberá que nunca será imortal. Eis a contradição: a divindade com prazo de validade. Será que quando Cristiano Ronaldo chega a casa se põe a ler Kafka sentado num sofá de 50 mil euros, enquanto mastiga o fel das inquietudes filosóficas sobre o absurdo da existência? Ou será que, pelo contrário, mete no máximo o Wizkid, que está em primeiro lugar do Top+, enquanto bebe o melhor champanhe do mercado e vê os melhores desenhos animados do mercado na melhor televisão do mercado?

Seria simples se o português mais famoso do mundo fosse só esta caricatura, edonista de bolas e átomos, mas Cristiano Ronaldo no fundo é tão humano como nós e, para complicar as coisas, assume publicamente, causas justas e sonhos normais. «Quero ser o melhor pai do mundo», disse recentemente numa entrevista. O problema aqui não é não só que Cristiano Ronaldo parte com uma enorme vantagem sobre todos os outros pais na corrida ao título de melhor pai do mundo; o problema é que o melhor pai do mundo não aceitaria um mundo tão injusto para os outros pais; o problema é que não é possível ser um bom pai, olhando com indiferença para os filhos dos outros.

E escusa de me recordar quantos milhões doou Cristiano Ronaldo a que causas. Não está aqui em causa a bondade de Cristiano Ronaldo nem a utilidade de distribuir a caridade em sacos de restos, entrançando harmoniosamente o biscoito ético com a reprodução da própria injustiça.

Mas afinal qual é o teu problema com o CR7?

Nenhum. O meu problema é convencermos a nossa juventude a querer ser como o Cristiano Ronaldo e a emular os seus sonhos. O meu problema é atomizarmo-nos nos nossos sonhos individuais, na impossibilidade de os atingir e no culto de uma imortalidade breve e ilusória, sem História nem sentido social. Por outras palavras, é urgente temperar o nosso enorme YOLO contemporâneo com um bocadinho de Memento Mori medieval.

Numa sociedade obcecada com o sentido da vida, com a procura da felicidade e que põe os olhos e a fé em cada movimento do Cristiano Ronaldo, da tabacaria, sem metafísica, é no mínimo estranho que a ideia da morte não seja convite bastante para nos fazer reflectir sobre o sentido histórico e social da nossa própria existência.

Longe do mundo e à deriva da História, presos num Truman Show de pobreza e injustiça, qualquer sonho é vão se não se apoiar na razão. Até mesmo os sonhos de Cristiano Ronaldo. Não se trata de renunciar à individualidade, mas sim de galgar socialmente, historicamente, os nosso limites biológicos, integrando-os numa história que dê razão ao que, em última análise, só para os religiosos pode ter sentido.

Que sonho devemos, então, colectivamente procurar? O sonho de sermos seres humanos cultos. Culto não no sentido pretensioso, mas na acepção do cultivo da humanidade, como plasmado na definição de Bento de Jesus Caraça:

«O que é o homem culto? É aquele que:
1.º Tem consciência da sua posição no cosmos e, em particular, na sociedade a que pertence;
2.º Tem consciência da sua personalidade e da dignidade que é inerente à existência como ser humano;
3.º Faz do aperfeiçoamento do seu ser interior a preocupação máxima e fim último da vida.
Ser-se culto não implica ser-se sábio; há sábios que não são homens cultos e homens cultos que não são sábios; mas o que o ser culto implica, é um certo grau de saber, aquele que precisamente que fornece uma base mínima para a satisfação das três condições enunciadas.»*

Não poderemos sonhar livremente enquanto não compreendermos a posição que ocupamos no mundo em que vivemos. Como Cristiano Ronaldo, podemos saltar, dançar, gritar e correr à vontade dentro do barco, que ele continuará a navegar inexoravelmente ao mesmo azimute. É preciso aprender a enfiar a mão na água, para lhe alterar um pouco o rumo e para que, um dia, os nossos netos deitem mão ao leme.

É que por mais que estejamos convencidos de que vivemos no éter, acima dos assuntos do mundo, independentes dos sonhos alheios, é neste mundo que vivemos. Por estarmos vivos estamos desafiados a transformá-lo. E mesmo que sejamos o Cristiano Ronaldo, um dia, quando menos se espera, morre-se uma morte estúpida, como são estúpidas todas as mortes, e alguém há-de dizer que (como Baltasar) não pôde subir às estrelas, se à terra pertencia.

*Bento de Jesus Caraça, no seu texto «A cultura integral do indivíduo» (conferência proferida na União Cultural « Mocidade Livre», em 25 de Maio de 1933)

Fascismo americano: as raízes de uma nação sob deus*

Ao avesso do tradicional ramerrão eleitoral da direita portuguesa que, de quatro em quatro anos, prega um discurso tacticamente moderado nos mais empedernidos candidatos conservadores, a antecipação do escrutínio presidencial estado-unidense dá azo a uma invulgar competição de reaccionarismo entre os dirigentes do Partido Republicano.

Ao passo que para o PS, PSD ou mesmo CDS-PP, um acesso de frontalidade equivaleria a cometer harakiri político, nos EUA, os homens que se perfilam para a nomeação republicana assumem as mais virulentas declarações de guerra ao progresso como um trunfo mediático.


Arca de Noé da Direita Americana




O senador do Texas, Ted Cruz, inaugurou a campanha às primárias republicanas com um desafio aos outros candidatos: «Todos vão dizer que “Eu sou o homem mais conservador que alguma vez viveu”, mas falar é fácil. Digam-me antes o que defenderam e pelo que lutaram», rematou.


Estava lançado o mote para uma bizarra corrida de pureza ideológica em que o pódio pertence aos titulares das melhores credenciais religiosas, aos currículos estaduais que abonarem a favor da destruição das funções sociais do Estado e aos paladinos do racismo, homofobia e da xenofobia: uma verdadeira arca de Noé.

Entre os 15 principais candidatos à nomeação, cinco, John Kasich, Ben Carson, Rick Perry, Rick Santorum e Mike Huckabee, garantem ter sido escolhidos por deus; Já Jeb Bush (irmão de George W.) prometeu «pôr um ponto final» no Medicare, o único programa de saúde pública que disponibiliza serviços mínimos à população mais carenciada; por seu turno, Ted Cruz não tem pejo em denunciar uma «guerra contra a masculinidade» e promete proibir o aborto, mesmo nos caso de violação ou perigo de vida para as mulheres; Não ficando atrás, Scott Walker, que promete encerrar o Departamento de Educação (equivalente ao ministério), perguntava-se, em jeito de campanha: «Se fui capaz de acabar com cem mil sindicalistas no Wisconsin, o que é que acham que sou capaz de fazer a nível internacional?». 

Malgrado o sestro, asinino e boçal, de que se fazem acompanhar estas declarações, o reaccionarismo republicano não é, de todo, uma reacção psicossomática, mas sim o bilhete de entrada na liça política. Prova disto é Donald Trump, a quem as sondagens elevaram ao primeiro lugar entre os republicanos depois de ter dito que os «mexicanos são violadores e criminosos», para prometer expulsar todos os imigrantes ilegais.

O fantasma de João Calvino

Na verdade, o reaccionarismo norte-americano insere-se numa longa tradição de «política de pretexto», em que o capitalismo cria um quadro cultural e psicológico favorável ao seu desenvolvimento, uma ideologia nacionalista que reclama obediência e ameaça com uma gradação moral maniqueísta e implacável. Neste processo, que não é contínuo, os antagonismos económicos são acompanhados, na vida social, pela desconexão entre o futuro e o progresso e entre a realidade e a moralidade.

Os ardentes fundamentalistas religiosos que, ao longo do século XVII, colonizaram o que viria a ser os Estados Unidos produziram, para consumo interno, uma narrativa moral que pretendia unificar a sociedade e justificar o status quo. De acordo com o calvinismo, a mais influente das seitas protestantes entre os «peregrinos» originais, o destino dos homens está, à partida, traçado por deus. Deste modo os homens e as mulheres já estão condenados, à nascença, ao paraíso ou ao inferno, pelo que nenhuma acção pode alterar o rumo pré-destinado, nem mesmo a exploração, o genocídio ou a crueldade: começa a nascer o pretexto para «uma nação escolhida por deus». Esta relação dialéctica entre a moralidade e a economia foi o alvo certeiro da obra de Max Webber, A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, mas, ao contrário do que é insinuado pelo autor, não só não foi a ética que pariu o capitalismo, como a forragem espiritual do capitalismo foi, historicamente, um pretexto.

O mercado de Wall Street

A infra-estrutura económica do capitalismo norte-americano, assente sob o trabalho forçado de quatro milhões de escravos africanos, gerou, ao longo do séc. XIX, contradições que acabariam por conduzir à guerra civil de 1861-1865. Longe de ser uma batalha ética pela libertação dos escravos, nas origens do conflito estiveram discrepâncias económicas entre a indústria do Norte e o modo de produção esclavagista no Sul.

Sangrenta para os trabalhadores, a guerra civil criou importantes fracturas entre as classes dominantes que se mantêm até aos nossos dias. Não é curiosidade histórica que Wall Sreet, centro nevrálgico da banca, tenha começado por ser um mercado de escravos. Com efeito, durante a guerra, a alta finança do Norte nunca deixou de apoiar a Confederação, mas soube lucrar com o seu ocaso. JP Morgan Chase ou Lehman Brother foram, de resto, os principais investidores das plantações de escravos mas adaptaram-se com ligeireza à nova «liberdade». Não pôr todos os ovos no mesmo cesto é, como ser verificará mais tarde, o adágio eterno da facção mais radical do capital estado-unidense.

A inspiração de Hitler
Para suturar as profundas feridas da guerra civil e controlar a maré de progressos sociais e lutas de classe que floresceram espontaneamente durante a era da Reconstrução, a aristocracia do Sul e os capitalistas do Norte pactuaram um conceito de nação dogmático e moralista. A partir da última década do séc. XIX, «ser americano» começa a implicar a adesão a uma ideologia nacionalista, a subscrição de uma moral cristã e capitalista, o reconhecimento da natureza divina da nação, bem como a obediência cega às leis e aos símbolos nacionais. A nova narrativa moral sobre o nacionalismo foi o pretexto ideal para uma escalada de perseguição dos sindicatos que se formavam sob a influência do socialismo e que desembocou, em 1886, na revolta de Haymarket, cuja violenta repressão daria mais tarde origem ao 1.º de Maio, Dia Internacional do Trabalhador.
Surge assim, em 1892, a obrigação de repetir diariamente o juramento de bandeira em todas as escolas públicas. Originalmente, as crianças faziam a saudação romana enquanto repetiam: «Juro obediência à bandeira dos EUA e à república que ela representa, uma nação, sob deus, indivisível, com liberdade e justiça para todos». Depois, gritavam em uníssono: «Um país! Uma Língua! Uma Bandeira!».

É também durante esta época que, nos EUA, nascem os primeiros programas de eugenia do mundo, destinados a exterminar os indivíduos «geneticamente inferiores». Em resposta às ideias marxistas que chegavam da Europa, magnatas como Andrew Carnegie e John Rockefeller investiram milhões na promoção do pretexto de que a pobreza e o crime eram o corolário de «genes inferiores». Em 1907 os Estados de Washington, Connecticut, Califórnia, Virgínia, Nevada, Iowa, Nova Jersey, Nova Iorque e Indiana operavam programas para a esterilização forçada de pobres, nativos americanos, doentes mentais e presidiários. Foi nos EUA que a Alemanha nazi bebeu a inspiração para o seu próprio programa eugenia e, desde o primeiro Congresso Internacional de Eugenia, em 1911, cientistas alemães tornaram-se alunos assíduos dos centros americanos de esterilização em massa.

A primeira ameaça vermelha

A Revolução Bolchevique de 1917, porventura o acontecimento mais relevante da História humana, é interpretado pela burguesia norte-americana como uma ameaça indirecta ao ethos nacionalista do pós-guerra civil e ao próprio poderio da sua classe. A Revolução de Outubro mostrara que os trabalhadores podiam viver melhor gerindo, eles mesmos, a sociedade, sem necessidade de exploradores, racismo, deuses ou discriminação sexual.

Após uma tentativa frustrada de sufocar, via invasão militar, a jovem revolução, o capital estado-unidense lançou uma campanha doméstica de histeria anti-comunista para evitar que a fagulha de Petrogrado incendiasse as planícies americanas. Entre 1917 e 1920, milhares de sindicalistas, comunistas e anarquistas da International Workers of the World foram assassinados, deportados ou, simplesmente, desapareceram.

Também para os afro-americanos, a Revolução de Outubro foi uma janela de esperança. A escravatura fora substituída por um novo sistema de opressão racista, mais adequado às novas condições económicas e através do encarceramento massivo, da discriminação salarial e da segregação, os antigos escravos continuavam a ser brutalmente oprimidos. No entanto, como fez notar o presidente Woodrow Wilson, «negros americanos a regressar do estrangeiro seria o melhor meio para conduzir o bolchevismo para a América».

Para responder às organizações de classe operária que os negros formavam por todo o país, o capital respondeu com três instrumentos. Por um lado, foram levado a cabo dezenas de massacres que culminaram com o Verão Vermelho de 1919, que registou matanças de negros em 34 cidades. Por outro, acelerou-se o processo de gestação de um nacionalismo cada vez mais intolerante, moralista, dogmático e agressivo, que se impôs na educação pública, nos meios de comunicação social e através da propaganda. Finalmente, foi criada uma poderosa organização fascista de massas, o Ku Klux Klan.

O KKK, que em 1924 atingiu quatro milhões e meio de membros, representava a materialização do pretexto nacionalista. Sem surpresas, só uma organização fascista, altamente violenta e ao serviço das classes dominantes do Sul, poderia garantir a obediência a uma moralidade cada vez menos ética.

A violência exercida pelo KKK e quejandos sobre negros, sindicalistas e comunistas permitiu ao patronato manter baixos níveis salariais e reduzir para metade, em apenas cinco anos, ao longo dos anos 20, a percentagem de trabalhadores sindicalizados nos EUA.

A cultura do fascismo

Nos anos 30, apesar de um significativo passo atrás na economia com o New Deal de Franklin Roosevelt, o reaccionarismo norte-americano continua a ganhar expressão com o chamado «americanismo», a primeira tentativa de organizar a ideologia moral do nacionalismo americano.

O americanismo, promovido por homens como Henry Ford, defendia a preservação da cultura e valores americanos de influências estrangeiras e procurava equiparar o comunismo com o judaísmo. Ford, que se dedicava à publicação de literatura anti-semita desde os anos 20, é um exemplo claro da aproximação cultural da ideologia nacional americana ao fascismo.

Nos anos 30, receoso de sindicatos nas suas fábricas, Ford começou a conceder aos trabalhadores a possibilidade de trabalhar cinco dias por semana e oito horas por dia, desde que vivessem vidas «de acordo com a moral nacional» e com a religião.

O famoso Departamento de Sociologia de Ford levava a cabo buscas domiciliárias na casa dos operários para garantir que viviam «vidas regradas» de acordo com a moral do patrão. A Liga de Protecção Americana, que chegou aos 250 mil membros nos anos 30, garantia a vigilância e delação dos costumes dos trabalhadores, expondo não só os «imorais» como os «traidores» e, claro, os «comunistas».

Nazis e americanos, uma história de amor

Ao longo dos anos 30, as pontes económicas e culturais entre a Alemanha Nazi e os Estados Unidos da América não pararam de se desenvolver, ao ritmo dos negócios de empresas como a General Motors, a IBM ou a Coca-Cola. Na verdade, o fascismo tornou-se extremamente popular na América da década de 30: em 1934, o Departamento de Estado classificava a vitória do Partido Fascista, por 99,8%, no «referendo» de 1934 como uma «demonstração da popularidade incontestável do fascismo» e, em 1937, elogiava o mesmo regime por ter «substituído o caos pela ordem, a anarquia pela disciplina e a bancarrota pela solvência».

O embaixador dos EUA na Alemanha Nazi, William Dodd, escrevia, em 1937, que «uma clique de industriais dos EUA está determinada em substituir a nossa democracia por um Estado fascista. No meu posto em Berlim pude verificar como algumas das famílias que mandam no nosso país são próximas do regime nazi. […] Certos industriais americanos tiveram muito a ver com a chegada dos regimes fascistas ao poder na Alemanha e em Itália. Ajudaram o fascismo a chegar ao poder e agora estão a ajudá-lo a manter-se lá».


As famílias de que Dodd falava eram, nem mais nem menos que os Hearst, os Kennedy, os Lindbergh, os Rockefeller, os DuPont e os Bush. Entre as empresas, distinguem-se nomes como a Coca-Cola, a General Electric e a Exxon, entre muitas outras. Como prova o crescimento em quase 50% dos investimentos norte-americanos na Alemanha até ao começo II Guerra Mundial, ao contrário do desinvestimento verificado no resto da Europa, o capital estado-unidense repetiu a receita da guerra civil: financiar os amigos sem se comprometer politicamente. Mesmo durante a guerra, as relações comerciais e financeiras mantiveram-se clandestinamente, em alguns casos com requintes de malvadez, como é o caso da IBM de Thomas Watson, pessoalmente galardoado por Hitler por ter produzido e emprestado à Alemanha máquinas, feitas à medida, para contar e seriar as vítimas do holocausto. O patrão da IBM que expressou «a mais alta estima por Hitler, o seu país e o seu povo», esperava que as máquinas fossem devolvidas «quando os alemães acabassem».

A casa de Hitler nas montanhas



No entanto, para a construção do reaccionarismo americano, o fundamental foi a acção da Hearst Publications, o maior grupo de imprensa do mundo. Se, hoje em dia, o grupo Hearst detém 300 revistas, 50 jornais e 31 canais de televisão, nos anos 30 era ainda mais poderoso, controlando dois terços de todo o mercado editorial dos EUA. O seu dono, William Hearst, um reconhecido nazi, não foi só o fundador do conceito de imprensa sensacionalista, como foi também o inventor de alguns dos mitos anti-comunistas mais antigos.

Em 1937 a Revista Fortune, propriedade de Hearst, escrevia: «O bom jornalista deve reconhecer no fascismo as boas virtudes da raça. Entre elas, a disciplina, o dever, a coragem, a glória, o sacrifício».

Já na Reader’s Digest, também de Hearst, lia-se: «A forma como Hitler conquistou os corações dos alemães é tão completa que mesmo que os camisas castanhas desaparecessem continuaria a ser o homem mais poderoso da Alemanha: Hitler é reconhecido por toda a intelligentsia política como um homem extraordinário, um profeta. […] Não encontrei um único alemão que sonhasse com a possibilidade de uma guerra. A verdade é que a mente dos nazis está concentrada em problemas internos e não vai querer ser incomodada com assuntos estrangeiros durante muito tempo».

Entretanto, em 1938, a Better Homes and Gardens, do mesmo dono, dava ao prelo: «Hitler é um homem de bom gosto e a sua casa na montanha mostra como é simpático, humilde e acessível».

A História provou que o III Reich financiava directamente a máquina de propaganda de Hearst, mas nem todas mentiras nazis morreram com Hitler. Uma delas, criada pelo Ministério Alemão da Propaganda em 1934 vive até aos nossos dias: o «holodomor», a ideia que os bolcheviques empurraram deliberadamente a Ucrânia para a fome. Foram os tablóides de Hearst, a pedido dos nazis e com fontes nazis que criaram esse mito.

A segunda ameaça vermelha

A declaração de guerra aos nazis foi um processo complexo e extremamente contraditório. Tal e qual como na guerra civil, a entrada dos EUA na II Guerra Mundial resultou da pugna pelo poder político entre diferentes sectores do grande capital monopolista. Como sintetizou o Secretário de Guerra, Henry Stimson, «se vais entrar numa guerra ou preparar-te para uma guerra num país capitalista, tens de deixar que as empresas façam dinheiro com a guerra ou não vai funcionar». Nesta esteira, é sintomático que todas as empresas atrás referidas tenham sido indemnizadas pelos EUA por todos os estragos provocados às suas propriedades na Alemanha, incluindo em bases militares nazis. Merece ainda destaque a contratação, em massa, de cientistas e oficiais nazis pelos EUA, após a guerra para liderar missões científicas ou como «caçadores de comunistas» dispersos pelo mundo.

Anti-comunismo sem comunistas

Terminada a Guerra, começa a maior caça às bruxas de todos os tempos nos EUA: a segunda ameaça vermelha. Entre 1947 e 1957, o chamado Macartismo, em referência ao senador Joseph McCarthy, embutiu na cultura da direita americana os últimos elementos anti-comunistas, ultra-conservadores, racistas e radicalmente nacionalistas.

O violento anti-comunismo dos anos 50 é singular porque dispensa a existência de uma verdadeira ameaça comunista, ideologia que, nessa década, representava, nos EUA, uma minoria com pouca influência política. Sobressai, mais uma vez, a ideologia americanista como um pretexto para alavancar objectivos económicos de classe.

Da mesma forma que, na década de 50, bastava aos afro-americanos o fantasma do comunismo para precipitar os direitos civis, também aos capitalistas bastava esse espectro para desencadear a repressão. Com efeito, a segunda vaga anti-comunista, não teve como principal alvo dirigentes comunistas, sindicalistas, operários e camponeses, mas principalmente os agentes culturais, os intelectuais, os estudantes e os artistas.

América Anti-intelectual

O McCartismo marcou de forma indelével o significado de «ser americano» porque intrelaçou de forma inexpugnável as ideias de comunismo, traição e intelectualidade. Se, até 1920, o comunista era um imigrante europeu, barbudo e selvagem, agora, nos anos 50, o comunista era representado na propaganda como um professor culto e sofisticado que, através de perigosos argumentos, consegue lavar o cérebro de americanos leais à nação.

O resultado da política de perseguição de académicos, escritores e intelectuais que, mesmo sem serem comunistas, questionavam e ousavam pensar instituiu uma alergia geracional à cultura que se mantém nos nossos dias, a par de um anti-intelectualismo que perdura na política como atestado de patriotismo.


Actividades anti-americanas

O Comité das Actividades Anti-Americanas, HUAC nas siglas em inglês, cuja vida de terror se prolongou entre os anos 30 e os anos 70, foi a pedra-de-toque na instalação de um ambiente de permanente ansiedade anti-comunista: a acusação de 324 trabalhadores do espectáculo, adicionados à infame Lista Negra, e a condenação de dez profissionais do cinema foram o suficiente para obrigar Hollywood inteira a entrar numa competição indigna para mostrar quem era mais anti-comunista, mais conservador, mais nacionalista, ou, numa palavra, mais americano.

Durante os anos cinquenta, o nacionalismo americano tornou-se também sinónimo de militarismo, sexismo, homofobia e apoio incondicional ao conceito de «tropas».

O sonho americano

O actual reaccionarismo da direita estado-unidense é o produto cultural de dois séculos de desenvolvimento de capitalismo. Ao contrário da maioria dos Estados capitalistas desenvolvidos, os EUA nunca abandonaram uma noção de nação que incorpora elementos fascistas. Na verdade, ao longo destes 200 anos, a definição da ideologia americana, ou americanista, foi crescendo, até se transformar, hoje em dia, numa fina película super-estrutural muito semelhante ao fascismo, que filtra a percepção da realidade vivida por milhões de estado-unidenses.

Mais do que mero ersatz da histeria anti-comunista dos anos cinquenta, o nacionalismo estado-unidense mantém-se como um instrumento de luta de classes ao serviço do grande capital e um elemento unificador nacional que se estende da extrema-direita do Partido Republicano ao centro do Partido Democrata.

Na actualidade, a ideologia americanista é um pretexto para justificar o belicismo, a tortura, a espionagem e a repressão policial. Por outro lado, permite manter a opressão económica e social dos afro-americanos, fechar alternativas políticas ao capitalismo bicéfalo e, ao mesmo tempo, convencer os trabalhadores de que no «sonho americano», ao contrário de todos os outros países, é possível enriquecer trabalhando arduamente. Nesta perspectiva individualista, os trabalhadores que não enriquecem devem-se culpar unicamente a si próprios, aos seus genes, à sua inteligência, à sua falta de fé, ou à sua força de vontade, mas nunca ao seu patrão.

*Versão parcial de um texto originalmente publicado no Caderno Vermelho n.º23 – Revista do Sector Intelectual de Lisboa do PCP

O implacável rugir do motor da História

Implacável. Ainda mal arrefeceu o corpo da União Soviética e já o edifício do capitalismo europeu mostra brechas em todas as paredes: o ministro alemão das Finanças, Wolfgang Schäuble, que insiste em empurrar a Grécia para fora do euro à bruta, já choca com a chanceler Angela Merkel, que teima em fazer do povo helénico um engenho de escravos moderno, que por sua vez choca, aliás à guisa de todas as grandes guerras europeias, com a posição francesa, que já teme pelas consequências políticas de desligar a ficha do doente terminal, que não é a mesma da Comissão Europeia, que aposta forte num resgate usurário comparticipado por toda a UE, que choca com os interesses do capital britânico, que não quer o mesmo Euro que o Syriza deseja, que por seu turno foi partido ao meio, como as águas do Mar Vermelho, as esperanças do Bloco de Esquerda ou a coerência do Podemos, que também já veio dizer que não quer renegociar coisíssima nenhuma.

Há dez, vinte anos, quando os comunistas falavam da morte do Euro e condenavam a União Europeia, havia sempre algum imbecil, pós-moderno e bem-citado, que atirava um «anti-europeísta» e dizia qualquer coisa sobre o norte da Europa. Mas quem, neste ano do Senhor de 2015, veja o que vai pelo velho continente, não pode deixar de ouvir o implacável rugir do motor da História. É o som do fim da velha e caduca social democracia, do retorno do fascismo e também do regresso do socialismo, nos termos ousados em que Lenine o plasmou no mundo, como única solução para quem trabalha.

E, mesmo em Portugal, a percepção do mundo que o momento político está a parir não voltará nunca mais ao vocabulário de António Guterres: não se falará mais em «pelotão da frente» nem em «europeísmo», nem tão pouco em «democracia europeia». As ferida são demasiado profundas e já todos compreendemos que não se tira a carne da boca da fera com palavras mansas. O referendo grego provou-o taxativamente.

A Grécia abriu a caixa de Pandora: a confusão reina da direita neoliberal à esquerda social-democrata. As fracturas, que até agora pareciam superficiais tornam-se letais e violentas; o futuro tem a marca de uma incerteza violenta; os velhos nacionalismos vomitam novos fascismos: as premissas dos comunistas provam-se acertadas com os mais terríveis exemplos: é este, meus caros, o implacável espírito do tempo. É esta a luta final.

Resposta às perguntas do Canal de História

«Será isto uma prova da existência de uma raça pré-histórica de gigantes?» corte para animação em 3d «E terão esses gigantes construído… as pirâmides do Egipto?!» imagens de arquivo de pirâmide sob efeitos de pós-produção de filme barato de terror «E será que os lendários gigantes não eram seres humanos deformados, mas extra-terrestres vindos do espaço?» sequência rápida de fotografias de obras de arte antiga, de várias civilizações…

Tantas perguntas, tão poucas respostas, diria Brecht. Acabo de assistir a isto no National Geographic Channel. Podia ser só má televisão, mas é muito mais do isso, é a liberdade de fazer as mais absurdas e perigosas perguntas, a despeito de milhares de anos de respostas dadas, pensadas e trabalhadas, intoxicando as futuras gerações com fumos digitais da formidável nova idade das trevas.

Os canais de televisão estado-unidenses que antes passavam documentários, hoje passam reality shows. Onde antes se podia ouvir historiadores, agora apre(e)nde-se sobre camiões, armas e outras curiosidades. Alguns exemplos revestem-se de óbvia transcendência cultural, dizendo mais sobre a sociedade em que vivemos, que volumes de sociologia: apenas sobre prisões, temos, actualmente, a liberdade de escolher entre «Mulheres atrás das grades», «Presos no estrangeiro», «Prisões americanas», «Fugas da prisão», «Prisões de alta segurança» e «Prisões: bastidores». Mas, ponto de ordem à mesa, se eventualmente parecer trocista esta singela ideia, de ter a liberdade de escolher o programa sobre prisões, desenganemo-nos… que os tipos que mandam nisto têm mais inteligência que sentido de humor.

Afinal que sociedade livre é esta, que vive obcecada por estar presa? Entretanto, nestes mesmos canais, são zero os programas sobre literatura. É que dá-se que o formato do reality show evadiu-se, já há mais de uma década, dos matadouros de inteligência onde eram guardados, assaltando de supetão toda a televisão e a internet das massas. E como as consequências desta transformação vão muito além do óbvio, debrucemo-nos sobre alguns exemplos vívidos. O reality show não se compadece de método, nem estudos nem tampouco pode aguardar por conclusões científicas: exige permanentemente mais acção e novas descobertas, sempre e agora. Em virtude desta pressa, os programas sobre a vida selvagem que antigamente nos mostravam o resultado, longamente arquitectado de semanas de estudo e trabalho de campo, reclamam agora uma violação, violenta e imprevisível, da ordem das coisas: onde estava o documentário onde se observava a vida de uma serpente, insuspeita da presença das câmaras, agora assiste-se (sim, assiste-se) a um marialva que perturba a serpente no seu habitat natural, forçando-a a engoli-lo vivo, num fato especial produzido para o efeito, para gáudio ou náusea do público. A ciência dá lugar à aventura e o cientista cede passagem ao explorador, normalmente um labrego simpático com indisfarçáveis matizes jingoistas.

O reality show, por outro lado, não tem quaisquer pretensões históricas ou científicas, embora fale de história e de ciência. É apenas entretenimento, esgrime num sorriso amarelo. E isso dá-lhe o direito de mentir, deturpar, confundir e alienar-nos a todos. Vejamos outro exemplo: quem experimentar, a qualquer hora do dia, passar a correr entre o National Geographic, o Canal de História ou o Discovery Channel, entre outros possíveis, encontrará certamente pelo menos um programa sobre compras e vendas. Num, compram-se antiguidades que são, depois, vendidas em segunda mão, noutro, seguimos o quotidiano de uma família que opera uma loja de penhores, noutro ainda, acompanhamos o trabalho das pessoas que compram armazéns repletos de coisas perdidas ou abandonadas. À superfície, pode parecer que isto terá pouco de ideológico, para além do claro endeusamento do dinheiro e do insinuado fetiche com o comércio, mas, novamente, é muito mais do que isso. É que, surpresa das surpresas, os protagonistas destes reality shows comentam as coisas que compram e vendem, dão apontamentos históricos, tecem comentários políticos e procuram resumir tudo, de Darwin à revolução francesa passando pela URSS, em burlescas aulas de quatro a dez segundos.

À medida que o capitalismo retira ao ensino público todas as faculdades democráticas e culturais dispensáveis à produção, são, progressivamente, estes veículos os principais formadores ideológicos, filosóficos e históricos das massas. Que defesas tem um adolescente que, ligando o CANAL DE HISTÓRIA, escute um «autor» a dizer-lhe que Hitler teve contacto com extra-terrestres? Que contraditório tem o documentário que explica que o holocausto aconteceu por uma qualquer mania, crença ou desgosto pessoal de Hitler? Que televisão protege a História que o Canal de História destrói?

E desiludam-se os que acham que este efeito «dica da semana» só se debruça politicamente sobre a História recente. Voltemos ao exemplo anterior: o National Geographic dá palco a dois «investigadores» dos EUA, por sinal de origem portuguesa, que «investigam», sempre num registo «em directo», a possibilidade de uma fabulosa raça de gigantes ter construído algumas estruturas em pedra com muitas centenas de anos. A premissa é simples (e semelhante à das pirâmides terem sido construídas por extra-terrestres): os povos não-europeus e não-brancos nunca poderiam ter construído semelhante coisa, não tinham os conhecimentos nem a inteligência que, nesse tempo, só os brancos europeus detinham. E assim, a partir da falsificação de História tão longínqua quanto o Antigo Egipto, reforça-se e legitima-se o poder da classe dominante.

Reality shows sobre prospectores de ouro, pescadores de atum e motoristas de pesados, documentários sobre extra-terrestres, nazis em bases lunares e monstros mitológicos escondidos nos esgotos: é este o conhecimento que o capitalismo quer para as massas; é com esta História que os donos dos meios de produção nos querem esmaecer; é nesta nova era medieval que nos querem cegar. Destruir o capitalismo, até à sua última estrutura, não é apenas o interesse dos trabalhadores de todos os países, é o interesse vital do nosso milenar património de ciência conhecimento e da própria inteligência humana.

«A função social da terra só se cumpre com as mãos de quem a trabalha»*

Há 40 anos, os trabalhadores agrícolas do Sul do País tomaram a decisão de romper com séculos de opressão baseada na propriedade das terras. Extensas herdades de uma minoria agrária com poder económico e político conviviam com a pobreza e a miséria da maioria do proletariado agrícola. Com Abril, encerraram-se as portas da brutalidade fascista e pôde semear-se nos campos aquilo a que Álvaro Cunhal chamou “a mais bela conquista da Revolução”. À conversa com alguns dos protagonistas da Reforma Agrária, percorremos os caminhos do passado sem perder de vista o presente e o futuro de uma aspiração inscrita na história da luta dos trabalhadores portugueses.


António Gervásio desempenhou como dirigente do PCP e destacada figura da luta agrícola um papel importante. Também Manuel Vicente, então presidente do Sindicato dos Trabalhadores Agrícolas do Distrito de Évora, e Rogério Arraiolos, da Unidade Colectiva de Produção Pedro Soares, de Montemor-o-Novo.

A Reforma Agrária não surgiu apenas com a Revolução de Abril. Qual era a situação dos campos do Alentejo antes da ocupação das terras?

Manuel Vicente (MV) – A Reforma Agrária resulta de uma série de lutas de resistência dos próprios trabalhadores agrícolas. Era a necessidade de acabar com aquela repressão, com o medo e a exploração. Viviam-se tempos difíceis de muito desemprego e trabalhos sazonais. Às vezes, para fazer o mesmo trabalho e os mesmos horários, os patrões baixavam os salários para metade. E aquele que questionasse começava a ser visto como agitador. Era uma exigência anterior à Revolução e não se pode ignorar o papel do PCP junto dos operários agrícolas. Nesse sentido, as lutas foram-se desenvolvendo numa acumulação de forças e consciência de classe.

António Gervásio (AG) – Uma das questões fulcrais era a concentração e posse da propriedade face ao proletariado agrícola que não tinha senão a sua força de trabalho. Muitos nem um quintal tinham. O trabalhador agrícola dos campos do Sul não queria a terra para ser um pequeno agricultor. Queria ser operário. Queria a terra para a trabalhar e não para ficar com ela. Este foi o baluarte da resistência antifascista. Disso foi exemplo a conquista das oito horas de trabalho em pleno fascismo. Era um desafio atrevido e conquistaram-no.

Em que condições se decidiu avançar com a Reforma Agrária?

Rogério Arraiolos (RA) – O abandono das terras e o despedimento dos trabalhadores precipitaram essa necessidade.

AG – Em 1974, os agrários do Sul despediram os trabalhadores depois de rejeitarem os contratos colectivos de trabalho fruto da Revolução. Então, começaram a fazer as ações de sabotagem. Deixaram o gado morrer à fome e à sede, destruíram as culturas e esvaziaram as barragens. Inclusive, fugiram com gado e máquinas para Espanha e para o Norte. Em fevereiro de 1975, em Évora, realizámos, então, a I Conferência dos Trabalhadores Agrícolas com a participação de quatro mil delegados eleitos pelos operários agrícolas. Foi uma experiência muito rica com quatro painéis de debate, com milhares de convidados, militares de Abril, políticos, técnicos, delegações estrangeiras.

Isso foi em Évora.

AG – Sim, ao longo do dia juntaram-se 30 mil pessoas em Évora para saber o que se tinha decidido na Conferência. Foi bonito. As conclusões foram integralmente lidas para esse mar de gente. A principal decisão: ocupar as terras incultas dos latifúndios. A reação foi incrível com gente a saltar, palmas, gritos. E não houve qualquer hesitação porque as conclusões estavam assentes numa discussão muito alargada. “Avante com a Reforma Agrária” era a palavra de ordem e até junho desse ano foram ocupados cerca de 500 mil hectares de terras.

E como levaram essa palavra de ordem à prática?

RA – Primeiro decidia-se o que se ocupava, juntava-se um grupo de malta e falava-se com os trabalhadores daquela zona. “Estão dispostos ou não?”, perguntava-se. Naquela altura todos estavam dispostos. Informávamos o MFA, avançávamos para o terreno e aquilo passava a ser dos trabalhadores. Então, fazia-se um inventário do que havia e formava-se uma comissão de trabalhadores.

MV – Normalmente, havia sempre a tentativa de reunir as forças com o MFA e um técnico. Fazia-se o levantamento das herdades e ficava tudo registado. Se havia ou não ferramentas, máquinas, etc. Esta foi a concretização da maior aspiração do proletariado agrícola e uma resposta à descapitalização dos campos do Alentejo fruto da sabotagem dos agrários. Acabava o medo do patrão e começava a vida democrática.

RA – Uma noite, fui chamado ao Couço onde se concentravam centenas de pessoas para discutir como avançar para a ocupação de terras. Precisavam de alguém de uma cooperativa e foi por isso que me chamaram. O que dali resultou foi que nessa mesma noite formaram dez grupos para de manhã estarem em dez pontos da freguesia e ocuparem as terras.

Houve solidariedade de outros setores da população e de outras zonas do País?

AG – A solidariedade foi um grande aspecto na Reforma Agrária. Nos primeiros tempos, vinham milhares de pessoas ver e ajudar. Chegavam jovens que traziam as suas ferramentas para trabalhar e dar o seu contributo. Havia solidariedade entre cooperativas. Também de técnicos, músicos e médicos que vinham dar apoio clínico. Havia solidariedade com agricultores do Norte. Vendia-se feno e palha a preços solidários. Empresas da região de Lisboa como a Mague, a Sorefame, a Siderurgia Nacional e o Arsenal forneceram máquinas às cooperativas.

E a solidariedade internacional?

AG – Em parte, a Reforma Agrária mecanizou-se rapidamente graças ao esforço solidário de países então socialistas. A União Soviética ofereceu 250 máquinas. A RDA, a Bulgária, a Checoslováquia e a Roménia também cederam tratores e alfaias. Vinham técnicos desses países conhecer o nosso processo. A mecanização da Reforma Agrária significou, de facto, a modernização da agricultura e resultou em grandes avanços.

Na prática, o que significou a Reforma Agrária para o proletariado agrícola?

AG – Só aqui em Montemor-o-Novo foram criadas 25 Unidades Colectivas de Produção (UCP). No total eram 550 que reuniam cerca de 75 mil hectares, quatro mil trabalhadores, 253 propriedades expropriadas. Na prática, a Reforma Agrária acabou com a maioria dos latifúndios. Em Avis, por exemplo, a estrela do processo era a UCP 1.º de Maio que tinha 11 mil hectares, centenas de trabalhadores e era a mais modernizada e avançada. Nos começos de 1976, fizeram um balanço e estavam ocupados um milhão e 145 mil hectares. Ou seja, correspondia a 50 mil postos de trabalho. O flagelo do desemprego tinha acabado. Quando se realizou a I Conferência da Reforma Agrária, em outubro de 1976, a área semeada chegava a 139%, o gado tinha aumentado 112%, as máquinas e alfaias 169% e a área de regadio 126%.

RA – Passámos a ter trabalho assegurado, alimentação como não tínhamos nas nossas casas, passámos a ter casas de banho, por exemplo.

AG – A Reforma Agrária teve uma adesão grande e melhorou consideravelmente a vida dos trabalhadores, muitos começaram a ter televisões, frigoríficos, máquinas de lavar a roupa, automóveis. As férias, os salários, os transportes entre a casa e o trabalho e, claro, as estruturas sociais como as padarias, os lagares, as hortas coletivas. Tudo isso foram conquistas da Revolução e da Reforma Agrária.

Como escolhiam os nomes das UCP?

AG – Ao princípio falava-se de herdade colectiva e não soava bem. Surgiu o nome Unidade Coletiva de Produção que foi bem aceite. Depois o Governo só aceitava UCP/Cooperativa Agrícola. Então, para se distinguirem, cada UCP começou a adotar um nome diferente. Grito da Revolução, Muralha de Aço, Vitória do Povo, Coração da Revolução, Catarina Eufémia, Álvaro Cunhal, Custou Mas Foi, Fidel Castro, foram alguns dos nomes escolhidos.

Como “morre” o processo da Reforma Agrária?

AG – O I Governo Constitucional do PS, dirigido por Mário Soares, e António Barreto, ministro da Agricultura foram os que iniciaram a ofensiva contra a Reforma Agrária. Contavam acabar com isto em poucos meses mas aguentámos 14 anos. Esta ofensiva arrastou-se dia e noite numa luta heroica e corajosa dos trabalhadores rurais. Oito anos depois dos ataques, tinham roubado 700 mil hectares de terra, descaracterizaram as terras, roubaram a cortiça e 122 mil máquinas e alfaias agrícolas, destruíram 220 UCP, arruinaram edifícios e acabaram com albufeiras, espancaram dois mil trabalhadores e assassinaram o Casquinha e o Caravela.

Qual é a herança da Reforma Agrária?

MV – As terras foram ocupadas não para substituir agrários por outros agrários. A terra tem uma função social e só a cumpre com as mãos de quem a trabalha. Esse ensinamento é uma das heranças da Reforma Agrária. Devemos defender uma nova Reforma Agrária porque a terra deve ser de quem trabalha. Há terras abandonadas, mato, animais que morrem à fome e nós a comer o que vem do estrangeiro. Se nos fecharem as fronteiras, só podemos comer mato e silvas. Destruíram, espancaram e mataram mas a Reforma Agrária nunca mais perderá a sua voz.

AG – Foi uma experiência muito rica. Não conseguiríamos pôr o Alentejo a produzir nem repovoá-lo sem uma Reforma Agrária. A nossa foi um produto da realidade que tínhamos. A Reforma Agrária avançou com a força dos trabalhadores e com o apoio do MFA. Quando a correlação de forças mudou, a Reforma Agrária estancou. Foram avanços rápidos, organizados e serenos que assustaram a reação que estava contra a Revolução e que desejava a integração capitalista europeia.

MV – Não nos esqueçamos que a Reforma Agrária modificou radicalmente a propriedade da terra no Sul de Portugal que tinha séculos de existência.

AG – A destruição da Reforma Agrária foi a destruição da agricultura e dos campos do Sul. A população é maioritariamente idosa, a juventude desapareceu quando o trabalho acabou. O nosso Alentejo sofreu uma transformação brutal. A Reforma Agrária do futuro não vai ser igual à do passado e há-de ser produto dos que a fizerem. Mas isso só pode acontecer com a derrota da direita e das suas políticas.

*Entrevista publicada na edição de Maio do jornal A Voz do Operário