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Os derrotados de todos os dias

«Das eleições acabadas, do resultado previsto, saiu o que tendes visto: muitas obras embargadas. Mas não por vontade própria, porque a luta continua, pois é dele a sua história e o povo saiu à rua». A letra é do Zeca mas a história é de todos: quando contei o resultado das eleições ao meu pai, que se aproxima gentilmente dos 88 anos, ele disse-me que já viu pior. Recordei-lhe que, em eleições para o Parlamento Europeu, o escrutínio de domingo devolveu o pior resultado da CDU, com a perda de metade dos votos em relação a 2014. «Já vi pior», insistiu. E já viu mesmo.

É fácil perdermos a perspectiva na espuma dos dias e esquecermo-nos de como eram as derrotas há apenas meio século, meia-dúzia de dias à escala da História e ontem para mulheres e homens como o meu pai.

Durante o fascismo, o meu pai era jornalista da Capital e militante do PCP. Lembra-se da prisão, da tortura, do medo que sentiu no isolamento e de quase morrer sem assistência médica. O meu pai lembra-se de achar que a vida dele tinha chegado ao fim. Lembra-se de, quando foi preso, pensar que os dois filhos e a mulher tinham ficado sem qualquer sustento. O meu pai lembra-se dos camaradas que foram assassinados.

Então, quando lhe falo na perda de um euro-deputado, o meu pai lembra-me do Comité Central estar praticamente todo preso. Quando lhe leio o Expresso a declarar o óbito do PCP, ele lembra-me de que os jornais, já nos anos 50 e 60, anunciavam o fim do PCP a cada redada policial. Quando lhe desabafo que os nossos militantes se estafaram a trabalhar nesta campanha, ele lembra-me das gerações de comunistas que lutaram até ao fim das suas forças sem chegar a ver o 25 de Abril.

E o meu pai não é um herói. Não é um Álvaro, nem um Jaime Serra, nem um Sérgio Vilarigues, nem um Blanqui Teixeira, nem um António Dias Lourenço. O meu pai é um militante como outros milhares, um trabalhador reformado, um homem bom que aprendeu a ler, a escrever e a pensar.


O que distingue o PCP de todos os outros partidos é a sociedade totalmente nova, mais justa, por que lutam os comunistas. E o socialismo é uma corrida de resistência e distância longa, potencialmente mais longa do que o nosso tempo de vida. Não espanta, pois, que nas mais amargas noites eleitorais haja quem tome a alegria comunista por desfasamento da realidade. Mas não se trata de dificuldade na admissão da derrota, mas de uma perspectiva, histórica e democrática, que vai para além do momento do voto.

A campanha eleitoral dos comunistas dura a vida toda. Com mais ou menos votos, nos parlamentos e fora deles, na manhã seguinte lá estão os comunistas, nas comissões de trabalhadores, nos sindicatos, nas greves, nas estações de comboios, nos tribunais, na conversa com os colegas, com ou sem eleições, legal ou clandestinamente. Quem teve as unhas arrancadas não desanima com eleições.

O mau resultado do PCP será alvo, estou certo, da devida análise no seu seio. Milhares de militantes, em cada organização, em cada freguesia, em cada local de trabalho, terão oportunidade de discutir franca, e lealmente, tudo o que pode ser feito, para chegar às próximas legislativas com um resultado diferente, não porque crescer nas eleições burguesas seja em si uma vitória, mas porque esses resultados são necessários ao fortalecimento da luta dos trabalhadores e à divulgação das propostas comunistas.

Ontem ajudei uma amiga a chegar ao sindicato pela primeira vez: os patrões têm em curso uma campanha terrorista de assédio moral para a pressionarem a aceitar um salário mais baixo, um contrato que não corresponde às suas funções e a retirada de direitos. A derrota eleitoral da CDU não impressiona  quem está, todos os dias, com os que são derrotados todos os dias. Os trabalhadores não são só derrotados nas eleições: são derrotados quando o patrão pode impor horários livremente, quando têm de aceitar um salário com que não se consegue sobreviver, quando têm de comer e calar porque têm medo de não ser renovados. Essa é a derrota a que importa pôr termo.

Soube hoje que esta amiga se sindicalizou e que, pela primeira vez, não vai baixar os braços perante a injustiça. Esta é uma vitória que, sabendo-a uma partícula no oceano, enche-me de esperança para continuar a luta, até à vitória, sempre.

Arrume a sua inteligência: o Observador tem um artigo para si

Por que razão nos espanta ainda o Observador? Por que motivo nos abalançamos ainda, cheios de pasmo ou indignação, sobre “conteúdos” que nem sabemos muito bem se na verdade são escritos se vomitados? Lamento, mas não tenho resposta. Sei que me senti hoje particularmente “brindado” com a partilha ostensiva de um artigo que é meio textual e meio fotográfico e cujo título efectivamente promete: «Arrume os livros de História. Há 20 factos históricos que não nos ensinam na escola».

Lá prometer, promete, mas como diria um famoso sketch «vai-se a ver e aquilo é só estupidez». Ou pior. Ora, que factos históricos tão relevantes serão afinal esses que, na óptica do Observador, ou de quem escreveu tão reluzente pérola, nos obrigarão a «arrumar os livros de História»? Que nos terão escondido os professores e historiadores até hoje? Que novas descobertas científicas terão ocorrido entretanto? Que novos e reveladores documentos, inéditas teses, revolucionários ensaios nos estarão aqui escapar? Podemos desconfiar, podemos pensar até no crivo censório do antigo regime – causa maior da ignorância histórica actual – ou podemos mesmo não saber o que faltará de tão relevante ao nosso conhecimento sobre o passado e ao ponto de termos que deitar ao lixo, ou «arrumar», todos os nossos “livros de História”. Podemos não saber, mas o Observador sabe.


E então, de entre 20, cá vai disto: «Adolf Hitler era um artista, pintava quadros»; «foi Hugo Boss que desenhou os fatos nazis»; «houve um papa que escreveu um “best seller” erótico»; «a sociedade e estilo no Irão já foram semelhantes aos que existem no Ocidente»; «Kim Jong Il escreveu seis óperas»; «O Argentavis magnificens foi uma ave de rapina, provavelmente a maior que já viveu na Terra»; «Há uma maior diferença temporal entre o tiranossauro rex e estegossauro do que entre o tiranossauro rex e a actualidade», etc. Há outros “factos” mais, para além destes, mas desde já pergunto: só assim, apenas com a leitura destes sete, quantas bibliotecas já não terão sido imediatamente destruídas por Portugal e pelo mundo fora? Todas! Eu próprio acabo de despachar Herculano, Mattoso, Hobsbawm, Febvre, Bloch e por aí fora. A mim não me apanham mais nessa. Densos volumes que versam sobre supostos acontecimentos do passado da humanidade, mas que não têm uma única palavra, uma única referênciazinha, sobre corte & costura de tipos que se dedicavam à carnificina de judeus e oposicionistas.

Bem, há que acordar para a realidade. O Observador acaba de matar toda a pretensa grande historiografia de referência mundial com um artigo sobre aves de rapina, óperas coreanas e o estilo do Irão. «Arrume os livros de História», já! De nada importa que gerações inteiras de portugueses saibam zero sobre a Revolução Francesa e suas repercussões a nível global. De nada importa que a Idade Média continue a ser o porco no espeto das feiras “medievais”. De nada importa que os portugueses saibam pouco ou nada sobre participação portuguesa na Primeira Guerra Mundial. De nada importa que a História de Portugal continue a ser, para muitos, a vida dos reis e os achados dos navegadores. Para quê, se houve um Papa que decidiu escrever uma novela erótica?

Apocalipse: RTP


Acabo de assistir a «O Demónio», o primeiro episódio da mini-série «Apocalipse: Estaline». Durante uma hora, Isabelle Clarke dedica o seu «documentário» a convencer-nos de que Estaline foi o que o título diz: um demónio. Veja-se: «Lénine e um punhado de homens lançaram a Rússia no caos. (…) Como os cavaleiros do Apocalipse, os bolcheviques semeiam morte e destruição para se manterem no poder. Continuarão durante 20 anos, até os alemães chegarem às portas de Moscovo». Estaline surge como um «louco», «sexualmente insaciável» e com uma «mentalidade próxima dos tiranos do Médio Oriente» [sic] que só Hitler pode parar. Num frenesim anacrónico, o espectador é levado de «facto» em «facto» sem direito a perguntas nem a explicações. Para trás e para a frente, dos anos quarenta para o final do século XIX, de 10 milhões de mortos na guerra civil russa para 5 milhões de mortos no «holodomor: a fome organizada por Estaline», o puzzle está feito para ser impossível de montar. Ao narrador basta descrever o que, a julgar pelas imagens de arquivo, é aparentemente indesmentível: «os camponeses ucranianos, vítimas das fomes estalinistas abençoam os invasores alemães. Mais tarde serão enforcados pelos estalinistas. As conjugação das imagens de arquivo colorizadas é tão brutal e convincente que somos tentados a concordar com as palavras do narrador: «Estaline declarou guerra ao seu próprio povo». São os «factos alternativos» de Trump aplicados à História.

Só há dois problemas. Primeiro: Isabelle Clarke, a autora, admite que «Apocalipse: Estaline» não é História nem tem pretensões de querer sê-lo. Vou repetir, a autora admite que aquilo que fez não tem nada a ver com História. Podia terminar aqui. Mas, em segundo lugar, será que a RTP, canal público pago por todos nós para cumprir a missão de educar e informar, sabia que estava a comprar ficção em vez de História?

Claramente a História, enquanto ciência social, passe a inelutável normatividade a que estamos presos, é icompatível com a a calúnia e a propaganda ou, numa palavra, a demonização. «Apocalise: Estaline – O Demónio» não disfarça a demonização, disfarça a ficção.

Então, o que é «Apocalipse, Estaline»? Recentemente, explodiu nas televisões americanas um novo tipo de «documentário» a que chamam docufiction. Exemplos recentes são «Sereias: o cadáver encontrado» ou «Megalodon, o tubarão monstro vive». Em ambos, o documentário da Discovery Channel dá a palavra a cientistas, investigadores, professores e biólogos que explicam a descoberta científica de sereias, no primeiro caso e de um tubarão jurássico, no segundo. Durante uma hora, o espectador assiste a filmagens convincentes dos míticos criptídos e ouve especialistas, identificados como tal, debater as possíveis explicações para as descobertas serôdias. No final, em letra de efeitos secundários de bula de medicamento, admite-se, para quem ainda estiver a ver, que era tudo a fingir: os especialistas eram actores, as imagens eram fabricadas. «Apocalipse, Estaline» faz algo parecido: no final ficamos a saber a que «historiadores» foi beber inspiração: a romancista Svetlana Alexievitch, uma versão actualizada de Alexander Soljenitsyne; Robert Service, o mais proselitista e criticado dos historiadores-pop contemporâneos ou Pierre Rigoulot, um ex-trotskista transformado em neocon apoiante de Bush e fã confesso da guerra do Iraque. Trata-se contudo de menções honrosas e agradecimentos. Mas de onde vêm as citações? Onde foi buscar os números? Quais são as fontes? Raquel Varela coraria de vergonha alheia.

Não se trata de admirar ou condenar Estaline, trata-se de não sermos tomados por parvos. «Apocalipse: Estaline» não é ficção nem História: é uma falsificação estupidificante e tóxica para o público. Como os novos «documentários» sobre sereias e tubarões jurássicos, que confundem ciência com ficção, a RTP acabou de confundir História com propaganda nazi.

A revolução esquecida de 1383

Neste dia, no ano de 1383, começava em Lisboa a primeira revolução burguesa do mundo. Revolução, pela mesma razão que ninguém ousaria chamar «interregno» à Revolução Francesa nem «crise» ao 25 de Abril. Burguesa, porque, ainda que pavorosa aos próprios netos, inaugurou definitivamente o poder dos «homens honrados pela fazenda». E, à semelhança da revolução francesa ou do 25 de Abril, a revolução portuguesa de 1383-1385 também foi condenada ao olvido e à mentira­­ – com a diferença, no entanto, de mais séculos de avanço.

Há 633 anos, a regente Leonor Teles, numa fuga desesperada para Alenquer, prometia esmagar a Revolução queimando Lisboa com «mau fogo», ará-la a carros de bois e encher tonéis com as línguas das mulheres revolucionárias. A redoma de silêncio que cobriu a Revolução quase faz crer que se cumpriu o vaticínio de Leonor. Porque se calaram as vozes de 1383? Quem mandou cortar as línguas dos sublevados de Lisboa?

Compreende-se o desconforto que a Revolução inspira na actual classe dominante: a geração de Soares dos Santos, Américo Amorim e Ricardo Salgado tem mais em comum com os senhores feudais parasitários que, em 1383 se passaram para o lado de Castela do que com a burguesia revolucionária de Álvaro Pais, Gil Fernandes e Álvaro Coitado, construtores conscientes do capitalismo embrionário a que Fernão Lopes chama a Sétima Idade do Mundo «na qual se levantou outro mundo novo e nova geração de gentes, porque filhos de homens de tão baixa condição».

Mas o ódio de morte que, ainda hoje, o capital tem à Revolução de 1383-1385 é mais profundo que a degradação histórica de uma burguesia avinagrada pelos séculos. O que mais assusta os novos senhores das novas glebas é esta inegável verdade histórica: a primeira revolução burguesa do mundo não foi feita pela burguesia, mas pelos trabalhadores. Sob a liderança de ricos mercadores e «homens de cabedal», quem derrubou a velha ordem foram os miseráveis cabaneiros e a «malta das vinhas» sem terra nem pão; foram os braceiros, cabreiros e ovelheiros enlouquecidos pela fome; foram os menestrais das cidades em luta contra os salários tabelados; foram os mancebos e pastores indignados com a Lei das Sesmarias. Foram, como escreve Fernão Lopes, os «ventres ao sol».

Mesmo passados seis séculos, os poderosos ainda engolem em seco ao recordar as imagens de Martinho, Bispo de Lisboa, a voar da torre da Sé e devorado pelos cães; do fidalgo Nuno Rodrigues de Vasconcelos, morto por mulheres lideradas por Margarida Anes, uma humilde adeleira; do senhor Pai Rodrigues, perseguido por fojos e brenhas por centenas de populares; do triste fim da Abadessa de Évora, nua no meio da praça, a suplicar pela vida aos antigos servos… De Norte a Sul, o povo respondia com formidável violência ao quotidiano das violências dos seus senhores: o trabalho até à inanição, as agulhas de albardeiro espetadas nas línguas dos que protestassem; os açoites no pelourinho por dá cá aquela palha; os infinitos serviços pessoais obrigatórios; a polé para os que fugiam à servidão.


De  quem for o reino levá-lo-á

Fernão Lopes escreveu que «Castela era contra Portugal e Portugal contra si mesmo», ou seja, estamos diante de uma revolução social que desencadeia uma intervenção militar externa. Contudo, muitos historiadores não quiseram nunca ver este «Portugal contra si mesmo», preferindo apresentar uma nação monolítica unida contra o inimigo castelhano. De acordo com esta a perspectiva idealista, na raiz da «crise sucessória» estão as circunstâncias da morte de D. Fernando. Já velho, sem descendência e tísico, o filho de D. Pedro, o Cru, é seduzido por uma mulher casada, de origem nobre, cujos «cabelos ruivos parecia que ardiam» e cuja beleza só era ultrapassada pela inteligência: D. Leonor Teles. Deste casamento, feito às escondidas em Leça do Balio enquanto a nova Rainha mandava matar quem protestava, nascerá uma única criança: Beatriz, logo prometida a D. Juan, rei de Castela, nos tratados de Salvaterra de Magos. Teria sido esta estúpida decisão que desencadeou a revolução. Nada mais equivocado

Álvaro Cunhal, porventura o primeiro a compreender a Revolução de 1383, é taxativo: «Os historiadores burgueses têm apresentado sempre o casamento da filha única de D. Fernando com o rei de Castela, em 1383, como «erro» de um rei inconstante e imprevidente. A verdade é ter sido tal casamento uma manobra política da nobreza, manobra maduramente reflectida e de efeitos cuidadosamente previstos e desejados. (…) Sentindo o terreno a fugir-lhe debaixo dos pés, incapaz de suster com os seus recursos próprios o movimento revolucionário ascendente, a nobreza procura deliberadamente a entrada em acção contra a revolução ascendente, do aparelho militar da aristocracia territorial de além fronteiras. Nessa sua política, a nobreza de então seguiu o caminho que sempre têm seguido as classes dominantes quando sentem em perigo a sua existência. Ante a ameaça de serem desapossadas dos seus privilégios as classes parasitárias preferiram sempre a uma vitória das forças nacionais progressivas, a dominação do seu país por um estado estrangeiro que abafe a revolução e lhes mantenha esses privilégios».

Com efeito, a Revolução de 1383, como qualquer revolução, não foi concebida por acidente. É o resultado da pressão que, ao longo de toda a primeira dinastia, as classes laboriosas e a burguesia exerciam junto do poder central para aliviar a canga do feudalismo. A sociedade portuguesa vinha prenhe de revolução há séculos, só ainda ninguém tinha dado por isso. E ainda assim, durante todo o reinado de D. Fernando, a nova sociedade fremia, no ventre da antiga.

Ventres ao sol

O Portugal do séc. XIV é uma enorme gafaria de todas as pestes onde não entra a luz. É a idade do sebo humano em todas as coisas. É o tempo da magia e da superstição. Trata-se a dores de dentes com esterco de porco, leite de cadela, fígado de doninha, carne de cobra cozida depois de muito vergastada, raiz de aipo trazida ao pescoço, grão de sal envolvido numa teia de aranha… A sabedoria clássica é um vulto acoitado nas mourarias. Sucedem-se as ondas de loucura e de fome, cada uma pior que a anterior até se comer a sementeira e todos os animais e a hipoteca do futuro. É o fim do mundo que vem de Oriente nas patas de Tamerlão. Mas este é também o tempo de sonhos maiores que a vida, que vêem além de todas as fronteiras históricas. De Inglaterra chegam camponeses refugiados do exército camponês de Wat Tyler, que organizaram greves, puseram cerco à Torre de Londres e recitam de memória passagens de Jonh Ball «Quando Adão cavava e Eva fiava, quem era então o Senhor? Desde o início dos tempos todos os Homens foram criados iguais, e a nossa opressão e servidão veio pela opressão injusta de homens maus (…) Por isso exorto-vos! Chegou o tempo de sacudir o jugo da servidão e recuperar a liberdade». De França chegam ainda os rumores da Grande Jacquerie: com o Palais Royale cercado por dezenas de milhares de pobres; o rei a enfiar na tola o chapéu vermelho e azul dos revoltosos para pisgar-se disfarçado; Guillaume Cale traído e coroado «rei dos pobres» com uma coroa em brasa.

Este é também o tempo de todas as heresias. Begardos, beguinos, fraticelli, lolardos, cátaros, adamitas, taboritas, orebitas ou utraquistas, já vão sendo relaxados por apóstatas ou replaspos, cismáticos ou nefandos. E todos ardem da mesma forma no fogo do Senhor.

No contexto da Guerra dos Cem Anos, cada partido e cada classe escolhe o cisma que mais convém: a nobreza ultra-montana alinha com o anti-papa de Avinhão Clemente VII. A grande burguesia portuguesa alia-se aos seus principais parceiros comerciais: flamencos, prazentins e ingleses do papa Urbano VI.

Burgueses que arroteiam uma courela e servos que a trabalham sobrevivem ambos apertados numa tenaz de humilhações, impostos e obrigações de todas as talhes e feições: são açougagens e brancagens, ajudadeiras e fossadeiras, mealharias e anadarias, montados e mordomados, foragens e portagens, jeiras e corveias, tostões e capitações, jugadas e talhadas, salaios, lombos, dízimos, alcavalas, censos, relegos, anudúvas, banalidades… É caso para se perguntar: ó terra jugadeira, ó terra reguengueira, quanto do teu sal é suor dos servos de Portugal?

Contra este mundo, a 6 de Dezembro de 1383, enquanto o complô burguês liquida o conde Andeiro nos passos da rainha, Álvaro Pais cavalga pela cidade aos brados, «Acorramos ao Mestre, amigos! Acorramos ao Mestre, ca filho é d’el-rei D. Pedro!». Do povo de Lisboa, a burguesia não pretendia mais que a legitimação do assassinato para depois encontrar uma solução moderada: casar o mestre com a rainha ou simplesmente esperar pela libertação de João de Portugal. Este filho de D. Pedro gozava de uma imensa popularidade e surgia como a alternativa óbvia ao rei de Castela mas estava a ferros em Castela desde que Leonor o convencera a matar a própria esposa e sua própria irmã, Maria Teles, prometendo-lhe a mão de D. Beatriz. Mas, consumado o crime, foi denunciado por D. Leonor e obrigado a fugir para Castela, onde acaba agrilhoado. Leonor vencera outra vez.

Mas o povo de Lisboa, mesmo que já houvesse rádios para mandá-lo ficar em casa, não se satisfaz com os planos da burguesia e força-a a transformar o golpe de Estado numa Revolução, forçando depois os homens bons a assumi-la e levá-la até às últimas consequências. É o povo que impede o Mestre de fugir para Inglaterra. É o povo que aclama o Mestre. É o povo que mata o alto burguês Álvaro da Veiga que, com medo das repercussões, se recusa a sair à rua para aclamar o Mestre. É o tanoeiro Afonso Eanes Penedo que, quando os burgueses têm medo de assumir a revolução desembainha a espada «Que estaes vós outros assim cuidando, e que não outorgaes o que outorgaram quantos aqui estão? E como? ainda vós duvidaes de tomar o Mestre por regedor destes reinos, e que tome cargo de defender esta cidade e a vós outros todos? Parece que não sois vós outros verdadeiros portuguezes! (…) Eu em esta cousa não tenho mais aventurado que esta garganta, e quem esto não ha mister que o pague pela sua, ante que d’aqui parta.» Ou seja, aqueles que não têm mais nada a perder que a garganta, descobrem que só assim, com lâminas contra gargantas, é que se convencem aqueles que tudo têm a perder».

Os trabalhadores sabiam que perdendo a aposta acabariam como acabam sempre os camponeses das revoltas falhadas: enforcados pelos chaparros até ao Algarve. É daí que vem a coragem de Aljubarrota e a ferocidade com que se perseguem os grandes fidalgos «e os meudos corriam apoz elles e buscavam-nos e prendiam-nos tão de vontade que parecia que lidavam pela fé». Como um rastilho, a revolução incendeia a terra. Por todas as partes ouvem-se palavras de ordem de «Arraial! Arraial! Mestre de Avis, Rei de Portugal»

Aquello que vosso nom he

Álvaro Pais, cérebro da Revolução, cedo compreende o que tem nas mãos, como demonstra o profético conselho que dá ao Mestre: «senhor, fazee per esa guisa: daae aquello que vosso nom he, e prometee o que nom teemdes, e perdoaae a quem vos nom errou». A revolução distribui entre burgueses, mesteirais e camponeses a terra dos senhores feudais (daae aquello que vosso nom he), promete uma sociedade completamente nova (prometee o que nom teemdes) e indulta todos os que queiram combater do seu lado (perdoaae a quem vos nom errou).

Mas o povo vai mais longe e, nalgumas partes do país, não espera pela revolução burguesa. Em Évora, o povo, liderado por Gonçalo Eanes, cabreiro e Vicente Anes, alfaiate, massacra a nobreza e expulsa a burguesia sob o pretexto de obrigá-los a ir para Lisboa ajudar o Mestre. Quando o conde de Viana tenta «tomar mantimentos contra a vontade dos seus donos (…) «juntaram-se contra ele os das aldeias e comarcas de redor. Emborilando-se eles com eles remessaram-lhe o cavalo e caiu com ele em terra; e foi um vilão rijamente que chamavam de alcunha Caspirre e cortou-lhe a cabeça e assim morreu». No Montenegro (Chaves) improvisa-se uma reforma agrária; em Rio de Onor o povo organiza-se numa comuna; nas Corvelinas institui-se que ali só entram trabalhadores; Em Elvas, os fidalgos entrincheirados no castelo fazem sair um camponês com as mãos decepadas cortadas ao pescoço. Em resposta, os revolucionários fazem o mesmo a dois fidalgos. Por todo o Alentejo a insurreição popular vai ganhando contornos de Jacquerie até o próprio Nuno Álvares Pereira ter de intervir militarmente e mostrar aos camponeses que ainda terão de esperar mais seiscentos anos. Ainda assim, quem disse que o povo é sereno não sabe quem foi Caspirre.

Desesperado, resta ao caquéctico Portugal feudal pedir ajuda a Castela, que entra pela Guarda aglutinando a alta nobreza portuguesa. Ficam temporariamente esquecidas as Guerras Fernandinas: esta é uma guerra de classe. A própria Leonor, contrariada, entrega o regimento ao rei de Castela, danando assim os Tratados de Salvaterra. Mas a Aleivosa tem uma última carta na manga: casar-se com Pedro de Trastamara (primo do rei de Castela), convencê-lo a matar o rei, fugir para Coimbra e governar Castela e Portugal. O plano, contudo, é descoberto e Leonor irá passar os seus últimos dias presa num convento em Tordesilhas.

A guerra intensifica-se. Lisboa é cercada duas vezes, uma das quais durante cinco meses sujeitando a cidade a uma brutal poliorcética de fome e terror. Mas o povo não cede. Na Batalha dos Atoleiros, em Abril de 84, as forças portuguesas, com apenas 1500 homens, derrubam um exército espanhol nutrido de 5000 soldados sem sofrer uma única baixa. No ano seguinte, Aljubarrota dará o golpe final.


Conta Fernão Lopes que «n’aquelle tempo Arraia meuda, os grandes escarnendo dos pequenos chamando-lhe povo do Messias de Lisboa que cuidavam que os haviam de remir da sujeição d’el-rei de Castella. Os pequenos aos grandes depois que cobraram coração, que se juntavam todos em um, chamavam-Ihe traidores scismaticos que tinham da parte dos castellãos por darem o reino a cujo não era. E nenhum por grande que fosse era ouzado de contradizer a estos nem falar por si nenhuma cousa, por que sabia que como falasse morte má tinha logo prestes, sem nenhum mais puder ser bom. E era maravilha de ver que tanto esforço dava Deus n’elles, e tanta cuvardice nos outros que os castellos que os antigos reis por longos tempos, jazendo sobre elles com força de armas, não podiam tomar, os povos meudos, mal armados e sem capitão, com os ventres ao sol, ante de meio dia os filhavam por força».

Voltemos a Lisboa, há tantos meses cercada pelas tropas de Castela que já não se sabe se ainda lá dentro há vivos. Então, do castelo de Palmela, os revolucionários acendem uma fogueira tão grande que pudesse ser vista pelos resistentes de Lisboa. É o povo que, em delírios de fome e aos gritos pelas ruelas, diz ver as chamas na lonjura. É o povo que, só vivo de comer cadáveres, e ervas daninhas, sobe ao castelo e São Jorge e, em resposta, acende outro fogo tão alto e luminoso que não chega só a Palmela lá na outra banda, mas tão imenso que, hoje mesmo e tantos anos depois, olhando da perspectiva certa pode-se ver como ainda arde.

Bibliografia:
Lopes, Fernão – Crónica de D. João I
Cunhal, Álvaro – As Lutas de Classes em Portugal nos fins da Idade Média,
Borges Coelho, António – A Revolução de 1383
Cortesão, Jaime – Os factores demográficos na formação de Portugal
Ilustrração principal:
Bep Boatella – What happened in the “Grande Jacquerie”
Outras pinturas:
Álvaro Cunhal – Óleo sobre tela
Jaime Martins Barata – Fresco no Palácio de Justiça de Fronteira
Jean Wavrin – Crónica de Inglaterra
Anónimos

Com o que sonha o Cristiano Ronaldo?

Cristiano Ronaldo não sonha, certamente, com comprar o carro ou a casa que sempre quis. Pode ficar assegurado o leitor: o sonho do  melhor jogador de futebol do mundo não é nada material. Ao contrário do que se possa achar, Cristiano Ronaldo não sonha com milhões de euros, mulheres bonitas nem ilhas privadas. Estamos em condições de afirmar com segurança que o CR7 já tem todas as copas, ligas, campeonatos, botas de ouro e bolas de ouro que poderia desejar.

Será que quando Cristiano Ronaldo chega a casa se põe a ler Kafka, sentado num sofá de 50 mil euros, enquanto mastiga o fel das inquietudes filosóficas sobre o absurdo da existência?

E mesmo sendo abstracto o sonho que o move, não é por isso algo mais comum: podemos também assegurar o leitor de que Ronaldo já tem todo o reconhecimento, fama e adoração possíveis de concentrar na auto-estima de um único ser humano. Não lhe faltará, por outro lado, liberdade: Cristiano Ronaldo já é, individualmente, mais livre de fazer no mundo tudo o que lhe couber no tempo que ainda lhe sobra. Faltar-lhe-á naturalmente a privacidade, mas também não é esse o sonho de Cristiano Ronaldo.

Com o que sonha, então, um homem que já é infinitamente rico, idolatrado, bonito, bom naquilo que faz, livre, saudável e jovem?

Pode parecer uma pergunta estúpida mas, se se prestar atenção, já somos obrigados a conhecer tantos e tão irrelevantes detalhes sobre a vida de Cristiano Ronaldo que mais vale debruçarmo-nos sobre o que realmente importa.

Agora o leitor pode até rir-se, mas é provável que Cristiano Ronaldo sonhe ser imortal. Nada de mais: apenas um sonho à escala da vida que leva. Talvez por isso lhe parecerá tão desproporcional a você, que mora no terceiro andar de um prédio e guarda cupões de descontos mas, lá está, o leitor também não tem museus e estátuas dedicados à sua vida.

Mas Cristiano Ronaldo seguramente saberá que nunca será imortal. Eis a contradição: a divindade com prazo de validade. Será que quando Cristiano Ronaldo chega a casa se põe a ler Kafka sentado num sofá de 50 mil euros, enquanto mastiga o fel das inquietudes filosóficas sobre o absurdo da existência? Ou será que, pelo contrário, mete no máximo o Wizkid, que está em primeiro lugar do Top+, enquanto bebe o melhor champanhe do mercado e vê os melhores desenhos animados do mercado na melhor televisão do mercado?

Seria simples se o português mais famoso do mundo fosse só esta caricatura, edonista de bolas e átomos, mas Cristiano Ronaldo no fundo é tão humano como nós e, para complicar as coisas, assume publicamente, causas justas e sonhos normais. «Quero ser o melhor pai do mundo», disse recentemente numa entrevista. O problema aqui não é não só que Cristiano Ronaldo parte com uma enorme vantagem sobre todos os outros pais na corrida ao título de melhor pai do mundo; o problema é que o melhor pai do mundo não aceitaria um mundo tão injusto para os outros pais; o problema é que não é possível ser um bom pai, olhando com indiferença para os filhos dos outros.

E escusa de me recordar quantos milhões doou Cristiano Ronaldo a que causas. Não está aqui em causa a bondade de Cristiano Ronaldo nem a utilidade de distribuir a caridade em sacos de restos, entrançando harmoniosamente o biscoito ético com a reprodução da própria injustiça.

Mas afinal qual é o teu problema com o CR7?

Nenhum. O meu problema é convencermos a nossa juventude a querer ser como o Cristiano Ronaldo e a emular os seus sonhos. O meu problema é atomizarmo-nos nos nossos sonhos individuais, na impossibilidade de os atingir e no culto de uma imortalidade breve e ilusória, sem História nem sentido social. Por outras palavras, é urgente temperar o nosso enorme YOLO contemporâneo com um bocadinho de Memento Mori medieval.

Numa sociedade obcecada com o sentido da vida, com a procura da felicidade e que põe os olhos e a fé em cada movimento do Cristiano Ronaldo, da tabacaria, sem metafísica, é no mínimo estranho que a ideia da morte não seja convite bastante para nos fazer reflectir sobre o sentido histórico e social da nossa própria existência.

Longe do mundo e à deriva da História, presos num Truman Show de pobreza e injustiça, qualquer sonho é vão se não se apoiar na razão. Até mesmo os sonhos de Cristiano Ronaldo. Não se trata de renunciar à individualidade, mas sim de galgar socialmente, historicamente, os nosso limites biológicos, integrando-os numa história que dê razão ao que, em última análise, só para os religiosos pode ter sentido.

Que sonho devemos, então, colectivamente procurar? O sonho de sermos seres humanos cultos. Culto não no sentido pretensioso, mas na acepção do cultivo da humanidade, como plasmado na definição de Bento de Jesus Caraça:

«O que é o homem culto? É aquele que:
1.º Tem consciência da sua posição no cosmos e, em particular, na sociedade a que pertence;
2.º Tem consciência da sua personalidade e da dignidade que é inerente à existência como ser humano;
3.º Faz do aperfeiçoamento do seu ser interior a preocupação máxima e fim último da vida.
Ser-se culto não implica ser-se sábio; há sábios que não são homens cultos e homens cultos que não são sábios; mas o que o ser culto implica, é um certo grau de saber, aquele que precisamente que fornece uma base mínima para a satisfação das três condições enunciadas.»*

Não poderemos sonhar livremente enquanto não compreendermos a posição que ocupamos no mundo em que vivemos. Como Cristiano Ronaldo, podemos saltar, dançar, gritar e correr à vontade dentro do barco, que ele continuará a navegar inexoravelmente ao mesmo azimute. É preciso aprender a enfiar a mão na água, para lhe alterar um pouco o rumo e para que, um dia, os nossos netos deitem mão ao leme.

É que por mais que estejamos convencidos de que vivemos no éter, acima dos assuntos do mundo, independentes dos sonhos alheios, é neste mundo que vivemos. Por estarmos vivos estamos desafiados a transformá-lo. E mesmo que sejamos o Cristiano Ronaldo, um dia, quando menos se espera, morre-se uma morte estúpida, como são estúpidas todas as mortes, e alguém há-de dizer que (como Baltasar) não pôde subir às estrelas, se à terra pertencia.

*Bento de Jesus Caraça, no seu texto «A cultura integral do indivíduo» (conferência proferida na União Cultural « Mocidade Livre», em 25 de Maio de 1933)

Fascismo americano: as raízes de uma nação sob deus*

Ao avesso do tradicional ramerrão eleitoral da direita portuguesa que, de quatro em quatro anos, prega um discurso tacticamente moderado nos mais empedernidos candidatos conservadores, a antecipação do escrutínio presidencial estado-unidense dá azo a uma invulgar competição de reaccionarismo entre os dirigentes do Partido Republicano.

Ao passo que para o PS, PSD ou mesmo CDS-PP, um acesso de frontalidade equivaleria a cometer harakiri político, nos EUA, os homens que se perfilam para a nomeação republicana assumem as mais virulentas declarações de guerra ao progresso como um trunfo mediático.


Arca de Noé da Direita Americana




O senador do Texas, Ted Cruz, inaugurou a campanha às primárias republicanas com um desafio aos outros candidatos: «Todos vão dizer que “Eu sou o homem mais conservador que alguma vez viveu”, mas falar é fácil. Digam-me antes o que defenderam e pelo que lutaram», rematou.


Estava lançado o mote para uma bizarra corrida de pureza ideológica em que o pódio pertence aos titulares das melhores credenciais religiosas, aos currículos estaduais que abonarem a favor da destruição das funções sociais do Estado e aos paladinos do racismo, homofobia e da xenofobia: uma verdadeira arca de Noé.

Entre os 15 principais candidatos à nomeação, cinco, John Kasich, Ben Carson, Rick Perry, Rick Santorum e Mike Huckabee, garantem ter sido escolhidos por deus; Já Jeb Bush (irmão de George W.) prometeu «pôr um ponto final» no Medicare, o único programa de saúde pública que disponibiliza serviços mínimos à população mais carenciada; por seu turno, Ted Cruz não tem pejo em denunciar uma «guerra contra a masculinidade» e promete proibir o aborto, mesmo nos caso de violação ou perigo de vida para as mulheres; Não ficando atrás, Scott Walker, que promete encerrar o Departamento de Educação (equivalente ao ministério), perguntava-se, em jeito de campanha: «Se fui capaz de acabar com cem mil sindicalistas no Wisconsin, o que é que acham que sou capaz de fazer a nível internacional?». 

Malgrado o sestro, asinino e boçal, de que se fazem acompanhar estas declarações, o reaccionarismo republicano não é, de todo, uma reacção psicossomática, mas sim o bilhete de entrada na liça política. Prova disto é Donald Trump, a quem as sondagens elevaram ao primeiro lugar entre os republicanos depois de ter dito que os «mexicanos são violadores e criminosos», para prometer expulsar todos os imigrantes ilegais.

O fantasma de João Calvino

Na verdade, o reaccionarismo norte-americano insere-se numa longa tradição de «política de pretexto», em que o capitalismo cria um quadro cultural e psicológico favorável ao seu desenvolvimento, uma ideologia nacionalista que reclama obediência e ameaça com uma gradação moral maniqueísta e implacável. Neste processo, que não é contínuo, os antagonismos económicos são acompanhados, na vida social, pela desconexão entre o futuro e o progresso e entre a realidade e a moralidade.

Os ardentes fundamentalistas religiosos que, ao longo do século XVII, colonizaram o que viria a ser os Estados Unidos produziram, para consumo interno, uma narrativa moral que pretendia unificar a sociedade e justificar o status quo. De acordo com o calvinismo, a mais influente das seitas protestantes entre os «peregrinos» originais, o destino dos homens está, à partida, traçado por deus. Deste modo os homens e as mulheres já estão condenados, à nascença, ao paraíso ou ao inferno, pelo que nenhuma acção pode alterar o rumo pré-destinado, nem mesmo a exploração, o genocídio ou a crueldade: começa a nascer o pretexto para «uma nação escolhida por deus». Esta relação dialéctica entre a moralidade e a economia foi o alvo certeiro da obra de Max Webber, A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, mas, ao contrário do que é insinuado pelo autor, não só não foi a ética que pariu o capitalismo, como a forragem espiritual do capitalismo foi, historicamente, um pretexto.

O mercado de Wall Street

A infra-estrutura económica do capitalismo norte-americano, assente sob o trabalho forçado de quatro milhões de escravos africanos, gerou, ao longo do séc. XIX, contradições que acabariam por conduzir à guerra civil de 1861-1865. Longe de ser uma batalha ética pela libertação dos escravos, nas origens do conflito estiveram discrepâncias económicas entre a indústria do Norte e o modo de produção esclavagista no Sul.

Sangrenta para os trabalhadores, a guerra civil criou importantes fracturas entre as classes dominantes que se mantêm até aos nossos dias. Não é curiosidade histórica que Wall Sreet, centro nevrálgico da banca, tenha começado por ser um mercado de escravos. Com efeito, durante a guerra, a alta finança do Norte nunca deixou de apoiar a Confederação, mas soube lucrar com o seu ocaso. JP Morgan Chase ou Lehman Brother foram, de resto, os principais investidores das plantações de escravos mas adaptaram-se com ligeireza à nova «liberdade». Não pôr todos os ovos no mesmo cesto é, como ser verificará mais tarde, o adágio eterno da facção mais radical do capital estado-unidense.

A inspiração de Hitler
Para suturar as profundas feridas da guerra civil e controlar a maré de progressos sociais e lutas de classe que floresceram espontaneamente durante a era da Reconstrução, a aristocracia do Sul e os capitalistas do Norte pactuaram um conceito de nação dogmático e moralista. A partir da última década do séc. XIX, «ser americano» começa a implicar a adesão a uma ideologia nacionalista, a subscrição de uma moral cristã e capitalista, o reconhecimento da natureza divina da nação, bem como a obediência cega às leis e aos símbolos nacionais. A nova narrativa moral sobre o nacionalismo foi o pretexto ideal para uma escalada de perseguição dos sindicatos que se formavam sob a influência do socialismo e que desembocou, em 1886, na revolta de Haymarket, cuja violenta repressão daria mais tarde origem ao 1.º de Maio, Dia Internacional do Trabalhador.
Surge assim, em 1892, a obrigação de repetir diariamente o juramento de bandeira em todas as escolas públicas. Originalmente, as crianças faziam a saudação romana enquanto repetiam: «Juro obediência à bandeira dos EUA e à república que ela representa, uma nação, sob deus, indivisível, com liberdade e justiça para todos». Depois, gritavam em uníssono: «Um país! Uma Língua! Uma Bandeira!».

É também durante esta época que, nos EUA, nascem os primeiros programas de eugenia do mundo, destinados a exterminar os indivíduos «geneticamente inferiores». Em resposta às ideias marxistas que chegavam da Europa, magnatas como Andrew Carnegie e John Rockefeller investiram milhões na promoção do pretexto de que a pobreza e o crime eram o corolário de «genes inferiores». Em 1907 os Estados de Washington, Connecticut, Califórnia, Virgínia, Nevada, Iowa, Nova Jersey, Nova Iorque e Indiana operavam programas para a esterilização forçada de pobres, nativos americanos, doentes mentais e presidiários. Foi nos EUA que a Alemanha nazi bebeu a inspiração para o seu próprio programa eugenia e, desde o primeiro Congresso Internacional de Eugenia, em 1911, cientistas alemães tornaram-se alunos assíduos dos centros americanos de esterilização em massa.

A primeira ameaça vermelha

A Revolução Bolchevique de 1917, porventura o acontecimento mais relevante da História humana, é interpretado pela burguesia norte-americana como uma ameaça indirecta ao ethos nacionalista do pós-guerra civil e ao próprio poderio da sua classe. A Revolução de Outubro mostrara que os trabalhadores podiam viver melhor gerindo, eles mesmos, a sociedade, sem necessidade de exploradores, racismo, deuses ou discriminação sexual.

Após uma tentativa frustrada de sufocar, via invasão militar, a jovem revolução, o capital estado-unidense lançou uma campanha doméstica de histeria anti-comunista para evitar que a fagulha de Petrogrado incendiasse as planícies americanas. Entre 1917 e 1920, milhares de sindicalistas, comunistas e anarquistas da International Workers of the World foram assassinados, deportados ou, simplesmente, desapareceram.

Também para os afro-americanos, a Revolução de Outubro foi uma janela de esperança. A escravatura fora substituída por um novo sistema de opressão racista, mais adequado às novas condições económicas e através do encarceramento massivo, da discriminação salarial e da segregação, os antigos escravos continuavam a ser brutalmente oprimidos. No entanto, como fez notar o presidente Woodrow Wilson, «negros americanos a regressar do estrangeiro seria o melhor meio para conduzir o bolchevismo para a América».

Para responder às organizações de classe operária que os negros formavam por todo o país, o capital respondeu com três instrumentos. Por um lado, foram levado a cabo dezenas de massacres que culminaram com o Verão Vermelho de 1919, que registou matanças de negros em 34 cidades. Por outro, acelerou-se o processo de gestação de um nacionalismo cada vez mais intolerante, moralista, dogmático e agressivo, que se impôs na educação pública, nos meios de comunicação social e através da propaganda. Finalmente, foi criada uma poderosa organização fascista de massas, o Ku Klux Klan.

O KKK, que em 1924 atingiu quatro milhões e meio de membros, representava a materialização do pretexto nacionalista. Sem surpresas, só uma organização fascista, altamente violenta e ao serviço das classes dominantes do Sul, poderia garantir a obediência a uma moralidade cada vez menos ética.

A violência exercida pelo KKK e quejandos sobre negros, sindicalistas e comunistas permitiu ao patronato manter baixos níveis salariais e reduzir para metade, em apenas cinco anos, ao longo dos anos 20, a percentagem de trabalhadores sindicalizados nos EUA.

A cultura do fascismo

Nos anos 30, apesar de um significativo passo atrás na economia com o New Deal de Franklin Roosevelt, o reaccionarismo norte-americano continua a ganhar expressão com o chamado «americanismo», a primeira tentativa de organizar a ideologia moral do nacionalismo americano.

O americanismo, promovido por homens como Henry Ford, defendia a preservação da cultura e valores americanos de influências estrangeiras e procurava equiparar o comunismo com o judaísmo. Ford, que se dedicava à publicação de literatura anti-semita desde os anos 20, é um exemplo claro da aproximação cultural da ideologia nacional americana ao fascismo.

Nos anos 30, receoso de sindicatos nas suas fábricas, Ford começou a conceder aos trabalhadores a possibilidade de trabalhar cinco dias por semana e oito horas por dia, desde que vivessem vidas «de acordo com a moral nacional» e com a religião.

O famoso Departamento de Sociologia de Ford levava a cabo buscas domiciliárias na casa dos operários para garantir que viviam «vidas regradas» de acordo com a moral do patrão. A Liga de Protecção Americana, que chegou aos 250 mil membros nos anos 30, garantia a vigilância e delação dos costumes dos trabalhadores, expondo não só os «imorais» como os «traidores» e, claro, os «comunistas».

Nazis e americanos, uma história de amor

Ao longo dos anos 30, as pontes económicas e culturais entre a Alemanha Nazi e os Estados Unidos da América não pararam de se desenvolver, ao ritmo dos negócios de empresas como a General Motors, a IBM ou a Coca-Cola. Na verdade, o fascismo tornou-se extremamente popular na América da década de 30: em 1934, o Departamento de Estado classificava a vitória do Partido Fascista, por 99,8%, no «referendo» de 1934 como uma «demonstração da popularidade incontestável do fascismo» e, em 1937, elogiava o mesmo regime por ter «substituído o caos pela ordem, a anarquia pela disciplina e a bancarrota pela solvência».

O embaixador dos EUA na Alemanha Nazi, William Dodd, escrevia, em 1937, que «uma clique de industriais dos EUA está determinada em substituir a nossa democracia por um Estado fascista. No meu posto em Berlim pude verificar como algumas das famílias que mandam no nosso país são próximas do regime nazi. […] Certos industriais americanos tiveram muito a ver com a chegada dos regimes fascistas ao poder na Alemanha e em Itália. Ajudaram o fascismo a chegar ao poder e agora estão a ajudá-lo a manter-se lá».


As famílias de que Dodd falava eram, nem mais nem menos que os Hearst, os Kennedy, os Lindbergh, os Rockefeller, os DuPont e os Bush. Entre as empresas, distinguem-se nomes como a Coca-Cola, a General Electric e a Exxon, entre muitas outras. Como prova o crescimento em quase 50% dos investimentos norte-americanos na Alemanha até ao começo II Guerra Mundial, ao contrário do desinvestimento verificado no resto da Europa, o capital estado-unidense repetiu a receita da guerra civil: financiar os amigos sem se comprometer politicamente. Mesmo durante a guerra, as relações comerciais e financeiras mantiveram-se clandestinamente, em alguns casos com requintes de malvadez, como é o caso da IBM de Thomas Watson, pessoalmente galardoado por Hitler por ter produzido e emprestado à Alemanha máquinas, feitas à medida, para contar e seriar as vítimas do holocausto. O patrão da IBM que expressou «a mais alta estima por Hitler, o seu país e o seu povo», esperava que as máquinas fossem devolvidas «quando os alemães acabassem».

A casa de Hitler nas montanhas



No entanto, para a construção do reaccionarismo americano, o fundamental foi a acção da Hearst Publications, o maior grupo de imprensa do mundo. Se, hoje em dia, o grupo Hearst detém 300 revistas, 50 jornais e 31 canais de televisão, nos anos 30 era ainda mais poderoso, controlando dois terços de todo o mercado editorial dos EUA. O seu dono, William Hearst, um reconhecido nazi, não foi só o fundador do conceito de imprensa sensacionalista, como foi também o inventor de alguns dos mitos anti-comunistas mais antigos.

Em 1937 a Revista Fortune, propriedade de Hearst, escrevia: «O bom jornalista deve reconhecer no fascismo as boas virtudes da raça. Entre elas, a disciplina, o dever, a coragem, a glória, o sacrifício».

Já na Reader’s Digest, também de Hearst, lia-se: «A forma como Hitler conquistou os corações dos alemães é tão completa que mesmo que os camisas castanhas desaparecessem continuaria a ser o homem mais poderoso da Alemanha: Hitler é reconhecido por toda a intelligentsia política como um homem extraordinário, um profeta. […] Não encontrei um único alemão que sonhasse com a possibilidade de uma guerra. A verdade é que a mente dos nazis está concentrada em problemas internos e não vai querer ser incomodada com assuntos estrangeiros durante muito tempo».

Entretanto, em 1938, a Better Homes and Gardens, do mesmo dono, dava ao prelo: «Hitler é um homem de bom gosto e a sua casa na montanha mostra como é simpático, humilde e acessível».

A História provou que o III Reich financiava directamente a máquina de propaganda de Hearst, mas nem todas mentiras nazis morreram com Hitler. Uma delas, criada pelo Ministério Alemão da Propaganda em 1934 vive até aos nossos dias: o «holodomor», a ideia que os bolcheviques empurraram deliberadamente a Ucrânia para a fome. Foram os tablóides de Hearst, a pedido dos nazis e com fontes nazis que criaram esse mito.

A segunda ameaça vermelha

A declaração de guerra aos nazis foi um processo complexo e extremamente contraditório. Tal e qual como na guerra civil, a entrada dos EUA na II Guerra Mundial resultou da pugna pelo poder político entre diferentes sectores do grande capital monopolista. Como sintetizou o Secretário de Guerra, Henry Stimson, «se vais entrar numa guerra ou preparar-te para uma guerra num país capitalista, tens de deixar que as empresas façam dinheiro com a guerra ou não vai funcionar». Nesta esteira, é sintomático que todas as empresas atrás referidas tenham sido indemnizadas pelos EUA por todos os estragos provocados às suas propriedades na Alemanha, incluindo em bases militares nazis. Merece ainda destaque a contratação, em massa, de cientistas e oficiais nazis pelos EUA, após a guerra para liderar missões científicas ou como «caçadores de comunistas» dispersos pelo mundo.

Anti-comunismo sem comunistas

Terminada a Guerra, começa a maior caça às bruxas de todos os tempos nos EUA: a segunda ameaça vermelha. Entre 1947 e 1957, o chamado Macartismo, em referência ao senador Joseph McCarthy, embutiu na cultura da direita americana os últimos elementos anti-comunistas, ultra-conservadores, racistas e radicalmente nacionalistas.

O violento anti-comunismo dos anos 50 é singular porque dispensa a existência de uma verdadeira ameaça comunista, ideologia que, nessa década, representava, nos EUA, uma minoria com pouca influência política. Sobressai, mais uma vez, a ideologia americanista como um pretexto para alavancar objectivos económicos de classe.

Da mesma forma que, na década de 50, bastava aos afro-americanos o fantasma do comunismo para precipitar os direitos civis, também aos capitalistas bastava esse espectro para desencadear a repressão. Com efeito, a segunda vaga anti-comunista, não teve como principal alvo dirigentes comunistas, sindicalistas, operários e camponeses, mas principalmente os agentes culturais, os intelectuais, os estudantes e os artistas.

América Anti-intelectual

O McCartismo marcou de forma indelével o significado de «ser americano» porque intrelaçou de forma inexpugnável as ideias de comunismo, traição e intelectualidade. Se, até 1920, o comunista era um imigrante europeu, barbudo e selvagem, agora, nos anos 50, o comunista era representado na propaganda como um professor culto e sofisticado que, através de perigosos argumentos, consegue lavar o cérebro de americanos leais à nação.

O resultado da política de perseguição de académicos, escritores e intelectuais que, mesmo sem serem comunistas, questionavam e ousavam pensar instituiu uma alergia geracional à cultura que se mantém nos nossos dias, a par de um anti-intelectualismo que perdura na política como atestado de patriotismo.


Actividades anti-americanas

O Comité das Actividades Anti-Americanas, HUAC nas siglas em inglês, cuja vida de terror se prolongou entre os anos 30 e os anos 70, foi a pedra-de-toque na instalação de um ambiente de permanente ansiedade anti-comunista: a acusação de 324 trabalhadores do espectáculo, adicionados à infame Lista Negra, e a condenação de dez profissionais do cinema foram o suficiente para obrigar Hollywood inteira a entrar numa competição indigna para mostrar quem era mais anti-comunista, mais conservador, mais nacionalista, ou, numa palavra, mais americano.

Durante os anos cinquenta, o nacionalismo americano tornou-se também sinónimo de militarismo, sexismo, homofobia e apoio incondicional ao conceito de «tropas».

O sonho americano

O actual reaccionarismo da direita estado-unidense é o produto cultural de dois séculos de desenvolvimento de capitalismo. Ao contrário da maioria dos Estados capitalistas desenvolvidos, os EUA nunca abandonaram uma noção de nação que incorpora elementos fascistas. Na verdade, ao longo destes 200 anos, a definição da ideologia americana, ou americanista, foi crescendo, até se transformar, hoje em dia, numa fina película super-estrutural muito semelhante ao fascismo, que filtra a percepção da realidade vivida por milhões de estado-unidenses.

Mais do que mero ersatz da histeria anti-comunista dos anos cinquenta, o nacionalismo estado-unidense mantém-se como um instrumento de luta de classes ao serviço do grande capital e um elemento unificador nacional que se estende da extrema-direita do Partido Republicano ao centro do Partido Democrata.

Na actualidade, a ideologia americanista é um pretexto para justificar o belicismo, a tortura, a espionagem e a repressão policial. Por outro lado, permite manter a opressão económica e social dos afro-americanos, fechar alternativas políticas ao capitalismo bicéfalo e, ao mesmo tempo, convencer os trabalhadores de que no «sonho americano», ao contrário de todos os outros países, é possível enriquecer trabalhando arduamente. Nesta perspectiva individualista, os trabalhadores que não enriquecem devem-se culpar unicamente a si próprios, aos seus genes, à sua inteligência, à sua falta de fé, ou à sua força de vontade, mas nunca ao seu patrão.

*Versão parcial de um texto originalmente publicado no Caderno Vermelho n.º23 – Revista do Sector Intelectual de Lisboa do PCP

O implacável rugir do motor da História

Implacável. Ainda mal arrefeceu o corpo da União Soviética e já o edifício do capitalismo europeu mostra brechas em todas as paredes: o ministro alemão das Finanças, Wolfgang Schäuble, que insiste em empurrar a Grécia para fora do euro à bruta, já choca com a chanceler Angela Merkel, que teima em fazer do povo helénico um engenho de escravos moderno, que por sua vez choca, aliás à guisa de todas as grandes guerras europeias, com a posição francesa, que já teme pelas consequências políticas de desligar a ficha do doente terminal, que não é a mesma da Comissão Europeia, que aposta forte num resgate usurário comparticipado por toda a UE, que choca com os interesses do capital britânico, que não quer o mesmo Euro que o Syriza deseja, que por seu turno foi partido ao meio, como as águas do Mar Vermelho, as esperanças do Bloco de Esquerda ou a coerência do Podemos, que também já veio dizer que não quer renegociar coisíssima nenhuma.

Há dez, vinte anos, quando os comunistas falavam da morte do Euro e condenavam a União Europeia, havia sempre algum imbecil, pós-moderno e bem-citado, que atirava um «anti-europeísta» e dizia qualquer coisa sobre o norte da Europa. Mas quem, neste ano do Senhor de 2015, veja o que vai pelo velho continente, não pode deixar de ouvir o implacável rugir do motor da História. É o som do fim da velha e caduca social democracia, do retorno do fascismo e também do regresso do socialismo, nos termos ousados em que Lenine o plasmou no mundo, como única solução para quem trabalha.

E, mesmo em Portugal, a percepção do mundo que o momento político está a parir não voltará nunca mais ao vocabulário de António Guterres: não se falará mais em «pelotão da frente» nem em «europeísmo», nem tão pouco em «democracia europeia». As ferida são demasiado profundas e já todos compreendemos que não se tira a carne da boca da fera com palavras mansas. O referendo grego provou-o taxativamente.

A Grécia abriu a caixa de Pandora: a confusão reina da direita neoliberal à esquerda social-democrata. As fracturas, que até agora pareciam superficiais tornam-se letais e violentas; o futuro tem a marca de uma incerteza violenta; os velhos nacionalismos vomitam novos fascismos: as premissas dos comunistas provam-se acertadas com os mais terríveis exemplos: é este, meus caros, o implacável espírito do tempo. É esta a luta final.

Resposta às perguntas do Canal de História

«Será isto uma prova da existência de uma raça pré-histórica de gigantes?» corte para animação em 3d «E terão esses gigantes construído… as pirâmides do Egipto?!» imagens de arquivo de pirâmide sob efeitos de pós-produção de filme barato de terror «E será que os lendários gigantes não eram seres humanos deformados, mas extra-terrestres vindos do espaço?» sequência rápida de fotografias de obras de arte antiga, de várias civilizações…

Tantas perguntas, tão poucas respostas, diria Brecht. Acabo de assistir a isto no National Geographic Channel. Podia ser só má televisão, mas é muito mais do isso, é a liberdade de fazer as mais absurdas e perigosas perguntas, a despeito de milhares de anos de respostas dadas, pensadas e trabalhadas, intoxicando as futuras gerações com fumos digitais da formidável nova idade das trevas.

Os canais de televisão estado-unidenses que antes passavam documentários, hoje passam reality shows. Onde antes se podia ouvir historiadores, agora apre(e)nde-se sobre camiões, armas e outras curiosidades. Alguns exemplos revestem-se de óbvia transcendência cultural, dizendo mais sobre a sociedade em que vivemos, que volumes de sociologia: apenas sobre prisões, temos, actualmente, a liberdade de escolher entre «Mulheres atrás das grades», «Presos no estrangeiro», «Prisões americanas», «Fugas da prisão», «Prisões de alta segurança» e «Prisões: bastidores». Mas, ponto de ordem à mesa, se eventualmente parecer trocista esta singela ideia, de ter a liberdade de escolher o programa sobre prisões, desenganemo-nos… que os tipos que mandam nisto têm mais inteligência que sentido de humor.

Afinal que sociedade livre é esta, que vive obcecada por estar presa? Entretanto, nestes mesmos canais, são zero os programas sobre literatura. É que dá-se que o formato do reality show evadiu-se, já há mais de uma década, dos matadouros de inteligência onde eram guardados, assaltando de supetão toda a televisão e a internet das massas. E como as consequências desta transformação vão muito além do óbvio, debrucemo-nos sobre alguns exemplos vívidos. O reality show não se compadece de método, nem estudos nem tampouco pode aguardar por conclusões científicas: exige permanentemente mais acção e novas descobertas, sempre e agora. Em virtude desta pressa, os programas sobre a vida selvagem que antigamente nos mostravam o resultado, longamente arquitectado de semanas de estudo e trabalho de campo, reclamam agora uma violação, violenta e imprevisível, da ordem das coisas: onde estava o documentário onde se observava a vida de uma serpente, insuspeita da presença das câmaras, agora assiste-se (sim, assiste-se) a um marialva que perturba a serpente no seu habitat natural, forçando-a a engoli-lo vivo, num fato especial produzido para o efeito, para gáudio ou náusea do público. A ciência dá lugar à aventura e o cientista cede passagem ao explorador, normalmente um labrego simpático com indisfarçáveis matizes jingoistas.

O reality show, por outro lado, não tem quaisquer pretensões históricas ou científicas, embora fale de história e de ciência. É apenas entretenimento, esgrime num sorriso amarelo. E isso dá-lhe o direito de mentir, deturpar, confundir e alienar-nos a todos. Vejamos outro exemplo: quem experimentar, a qualquer hora do dia, passar a correr entre o National Geographic, o Canal de História ou o Discovery Channel, entre outros possíveis, encontrará certamente pelo menos um programa sobre compras e vendas. Num, compram-se antiguidades que são, depois, vendidas em segunda mão, noutro, seguimos o quotidiano de uma família que opera uma loja de penhores, noutro ainda, acompanhamos o trabalho das pessoas que compram armazéns repletos de coisas perdidas ou abandonadas. À superfície, pode parecer que isto terá pouco de ideológico, para além do claro endeusamento do dinheiro e do insinuado fetiche com o comércio, mas, novamente, é muito mais do que isso. É que, surpresa das surpresas, os protagonistas destes reality shows comentam as coisas que compram e vendem, dão apontamentos históricos, tecem comentários políticos e procuram resumir tudo, de Darwin à revolução francesa passando pela URSS, em burlescas aulas de quatro a dez segundos.

À medida que o capitalismo retira ao ensino público todas as faculdades democráticas e culturais dispensáveis à produção, são, progressivamente, estes veículos os principais formadores ideológicos, filosóficos e históricos das massas. Que defesas tem um adolescente que, ligando o CANAL DE HISTÓRIA, escute um «autor» a dizer-lhe que Hitler teve contacto com extra-terrestres? Que contraditório tem o documentário que explica que o holocausto aconteceu por uma qualquer mania, crença ou desgosto pessoal de Hitler? Que televisão protege a História que o Canal de História destrói?

E desiludam-se os que acham que este efeito «dica da semana» só se debruça politicamente sobre a História recente. Voltemos ao exemplo anterior: o National Geographic dá palco a dois «investigadores» dos EUA, por sinal de origem portuguesa, que «investigam», sempre num registo «em directo», a possibilidade de uma fabulosa raça de gigantes ter construído algumas estruturas em pedra com muitas centenas de anos. A premissa é simples (e semelhante à das pirâmides terem sido construídas por extra-terrestres): os povos não-europeus e não-brancos nunca poderiam ter construído semelhante coisa, não tinham os conhecimentos nem a inteligência que, nesse tempo, só os brancos europeus detinham. E assim, a partir da falsificação de História tão longínqua quanto o Antigo Egipto, reforça-se e legitima-se o poder da classe dominante.

Reality shows sobre prospectores de ouro, pescadores de atum e motoristas de pesados, documentários sobre extra-terrestres, nazis em bases lunares e monstros mitológicos escondidos nos esgotos: é este o conhecimento que o capitalismo quer para as massas; é com esta História que os donos dos meios de produção nos querem esmaecer; é nesta nova era medieval que nos querem cegar. Destruir o capitalismo, até à sua última estrutura, não é apenas o interesse dos trabalhadores de todos os países, é o interesse vital do nosso milenar património de ciência conhecimento e da própria inteligência humana.