All posts tagged: Ideologia

Fascistas, filhos da…

Da imprensa, filhos da imprensa. Que é como quem diz filhos do ventre podre do capitalismo que sempre os pare e os amamenta com o leite azedo do ódio em momentos de crise e falta de capacidade do próprio sistema económico. Incapaz de produzir as condições económicas para a satisfação das necessidades dos trabalhadores, confrontado com o crescente descrédito e descontentamento, por vezes falham os seus mecanismos de controlo ideológico de massas.

A educação viciada, a informação manipulada, o entretenimento degradante como cultura dominante, os presidentes palhaços, as falsas soluções reformistas, esbarram no limite imposto pelas condições materiais de vida dos trabalhadores. A história do capitalismo é a história do desenvolvimento dos meios de produção acompanhada pela concentração da riqueza. O empobrecimento relativo redunda, inevitavelmente, no empobrecimento absoluto. Portugal e muitos outros países ditos “democráticos”, “ocidentais” ou “desenvolvidos” são um exemplo claro disso. Apesar de períodos de empobrecimento apenas relativo (aumento do fosso entre os mais pobres – que melhoram muito ligeira e gradualmente as suas condições de vida – e os mais ricos – que melhoram rápida e drasticamente as suas obscenas fortunas), o regime de acumulação capitalista acaba por impor aos trabalhadores o empobrecimento absoluto (perda de condições materiais), enquanto acentua o enriquecimento de uma minúscula elite.

Essa elite, contudo, domina os meios de comunicação social, a produção de conteúdos, o próprio Estado e os seus instrumentos. Ao ver-se incapaz de manter o contentamento nas massas trabalhadoras e nas camadas mais empobrecidas da pequena-burguesia, essa elite aposta no plano B: o da violência como forma de manutenção da sua ordem.

A conversão da social-democracia em fascismo é um processo, gradual, mas também com saltos qualitativos. Não é possível, porque existe uma realidade concreta de luta e de unidade entre os trabalhadores, impor a ditadura fascista de um momento para o outro. Mas é possível criar o caldo de cultura que se torna permissivo ou até fértil para o surgimento e ascensão do fascismo.

A aposta na criminalização da política, no descrédito das instituições democráticas – com o apoio dos seus próprios protagonistas -;

a aposta no sentimento de insegurança das populações – com jornais e canais de televisão concentrados explicitamente na divulgação do crime e na sua exaltação -;

a hostilização constante do movimento sindical e da luta dos trabalhadores, aliada ao silenciamento de importantes lutas, particularmente as de massas;

a substituição dos segmentos de notícias pelos de opinião, com opinadores escolhidos a dedo e que cacarejam as mesmas estafadas teses e ideias, um após outro após outro;

a contaminação de notícias com a falsificação, ou mesmo a invenção de notícias com vista a criar um determinado sentido de opinião pública;

o alinhamento total com os ditadores de extrema-direita e a promoção das suas opções políticas, apesar de um cínico desalinhamento com os comportamentos das personagens – como bem vemos no Brasil, nos Estados Unidos da América e até com as Filipinas, em que a boçalidade das figuras é criticada apenas como camuflagem mediática, enquanto que simultaneamente todas as suas opções são defendidas, como se os problemas desses tiranos fosse a forma e não o conteúdo;

a alimentação sistemática de abordagens racistas, por um lado, ou desacreditadoras das polícias e dos tribunais, por outro, assim criando a sensação de revolta contra as minorias que surgem como protegidas perante as polícias, quando a verdade demonstra que nem os polícias são intrinsecamente racistas, nem as minorias são intrinsecamente criminosas, mas iludindo a acção do sistema capitalista que, de facto, cria uma estrutura de poder racista e classista (independentemente das orientações dos seus agentes de campo) e económica e culturalmente segregadora perante os pobres e as minorias.

a atenção desproporcionada às aspirações da pequena-burguesia que se vê como progressista, mas que defende o entorpecimento das massas, a escravização das mulheres pelo proxenetismo, e que desvia lutas profundamente justas para movimentos inócuos e desligados da questão fundamental, que é política e de classe;

a busca incansável pelo ódio à representatividade popular – já debilitada e enviesada – com a promoção do fim da democracia como fonte de corrupção;

entre muitos outros mecanismos.

E não nos referimos aqui à vara que grunhe nos jornais assumidamente alt-right ou assumidos agentes mediáticos do neo-liberalismo mas fascizante e que visam pouco mais do que manter contente aquela fatia de fiéis seguidores que se vem de cada vez que um lemos esteves qualquer vomita o seu anticomunismo mais simplório.

Referimo-nos aos grandes jornais, ditos independentes, aos grandes canais de televisão ditos sérios, incluindo os públicos que, sendo ninho para sabujos e serventuários dos grandes grupos económicos, se dedicam afoitamente a mentir, deturpar, manipular e ocultar.

São os comentários aparentemente inocentes de pivots de telejornal, é a linguagem cunhada de ideologia em todas as colunas de jornal, é a competição constante entre quem consegue criar o mais degradante concurso de televisão, são as notícias que pintam terroristas como rebeldes libertadores e os trabalhadores que lutam como potenciais terroristas, são as notícias que criam personalidades onde antes não havia sequer um tumbleweed, são as promoções de visões dogmáticas e idealistas dos vários aspectos da vida, que retiram da esfera da reflexão e da ciência a opinião das massas e a colocam na esfera da crença, irracional e religiosa.

A comunicação social portuguesa, com a grande ajuda dos sucessivos governos PS, PSD e CDS, está a fazer o frete ao grande capital: cria o caldo de cultura que está apto a receber as sementes do fascismo e o desprezo pela democracia – ao invés de entender a insuficiência do regime “democrático” e a necessidade de o aprofundar, uma parte da população compreensivelmente desiludida é conduzida para abominar a pouca democracia que tem, guiada pelos pseudo-ideólogos da comunicação social e da academia. O caldo de cultura está a consolidar-se e só encontra travão na luta organizada dos trabalhadores e dos revolucionários.

Dirão que também os movimentos chamados identitários fazem esse trabalho. Direi que, acaso como já sucede em alguns casos, sejam desligados da luta mais vasta pela superação do capitalismo e pela organização férrea do proletariado, tornam-se enfeites, divisões, e até reaccionários. As lutas pelos justos motivos sexuais, emancipatórios, raciais, ambientais, e outros, se não for afluente do rio caudaloso da luta operária, torna-se numa barragem, numa drenagem desse grande rio pelo simples facto de alimentarem a ilusão de que o capitalismo precisa de ajustes e não de destruição. No momento da ascensão de uma força fascista apoiada pelo grande capital, tais movimentos sucumbirão se não forem parte da luta pelo fim do capitalismo, engolidos pela repressão da ditadura violenta dos monopólios.

A comunicação social está a fazer esse trabalho de sapa dos grupos monopolistas: cria primeiro o grande reservatório de massas tolerantes ao fascismo e mais tarde fará surgir a força política que os representa. Os portugueses têm resistido e, mesmo neste contexto adverso, têm derrotado os ensaios da comunicação social e desprezado os venturas e outros palhacitos que se acham capazes de ser homens fortes da demagogia fascista quando mais não são que fracos oportunistas. Essa realidade, como todas, não é estática. Os primeiros a serem abatidos e perseguidos quando uma força fascista se posiciona no poder, são os comunistas. Por maioria de razão, esses são os primeiros e os últimos a fazer-lhe frente. Mas nunca sozinhos.

PCPorquê?

Para lá do campeonato das bandeirinhas entre quem conseguiu o quê nos orçamentos do estado e nos debates parlamentares e outras dimensões da vida institucional e política nacional, há todo um verdadeiro conjunto de motivos para apoiar o PCP e as estruturas eleitorais em que participa, como a CDU.

Mais do que apoiar o PCP por ter a bancada parlamentar mais interventiva, por ter o grupo parlamentar mais jovem, por ser o autor da esmagadora maioria das propostas que vão fazendo furor, desde o fim das taxas moderadoras ao fim das propinas, por ser o autor da exigência de renegociação da dívida, por ter sido o primeiro partido a propor a limitação da utilização de animais selvagens em circos, por ter sido o primeiro e propor o fim do abate de animais errantes e a sua esterilização, por ter sido o primeiro a propor a água pública, a revogação da lei das rendas, o controlo público da banca, mais do que apoiar o PCP por ter sido primeiro a exigir o aumento do orçamento da cultura para 1% do Orçamento do Estado, e o primeiro e único a propor a responsabilização do Estado pelo financiamento da produção cinematográfica, por ter sido o partido que defendeu desde o início o fim das provas globais e exames nacionais, a descriminalização do consumo de drogas, a redução de impostos para trabalhadores e o aumento de impostos para os grandes lucros, o único que ainda defende que a um posto de trabalho permanente deve corresponder um contrato de trabalho efectivo, sobram-me motivos.

É que nesta corrida pelo protagonismo que é o circo da democracia parlamentar, apesar de haver bons e fortes motivos para apoiar o PCP, a verdade é que a batalha está inquinada porque o campo está inclinado. Se nos limitamos à disputa de ver quem chegou primeiro aonde – e devemos travá-la – estamos à partida a travar o combate que nos é mais difícil. Não se trata de desvalorizar as conquistas e as propostas concretas do PCP, mas trata-se essencialmente de destacar esse partido do pântano que é o panorama partidário nacional. O PCP apresenta propostas e combate para a sua aprovação e concretização no actual contexto político, mas não é neste contexto político que propõe que essas propostas se consolidem e sejam verdadeira e plenamente concretizadas.

É verdade que apoio eleitoralmente o PCP porque o PCP não precisa fingir estar presente nas lutas dos trabalhadores, nem ir a correr atrás de uma greve para se apropriar das suas conquistas. O PCP já lá está, não precisa fingir. O PCP tem esse património tremendo, que todos os militantes conhecem, que é o de ser aquele a quem se dirigem os trabalhadores quando são ofendidos nos seus direitos. Quantas vezes, não estamos em tarefas do PCP, mesmo dentro dos centros de trabalho, e trabalhadores que nunca votaram PCP – quem sabe não lhe eram até avessos – vêm pedir informações ou apoio sobre ofensas a que foram sujeitos nos locais de trabalho?

É verdade que apoio o PCP e a CDU porque são titulares desse vasto capital de propostas pontuais e concretas, ao longo da história da democracia portuguesa. São incontáveis as propostas já copiadas e apropriadas por outros. Esse combate será sempre hostil ao PCP. A simpatia da comunicação social com que contam os restantes, jamais nos abençoará. Enquanto BE, PSD, CDS e PS apoiaram a ascensão e tomada do poder pelos nazis na Ucrânia, apoiaram os bombardeamentos na Líbia e mantiveram a postura de agressão à Síria e ninguém lhes pediu contas, fizeram-se constantes acusações ao PCP pelas suas posições sobre esses mesmos países. Acusações essas que nunca geraram um tempo de antena para explicações que representasse um milésimo do tempo de antena que as próprias acusações tiveram.

Isso é igualmente verdade para as diversas questões do dia-a-dia: ainda há bem pouco tempo, o BE propôs o fim das provas nacionais e foi notícia por todo o lado sem referir uma única vez que o PCP já tinha proposto isso há muito. O PS aventou o fim das propinas – apesar de sempre ter sido contra essa medida e de ser autor de grande parte da legislação que as aumenta e faz cobrar – e foi notícia durante dias sem que um único órgão de comunicação social tenha noticiado que essa é uma proposta de há muito do PCP.

Nessa disputa da afirmação das diferenças, não podemos descansar. Mas atermo-nos a ela é entrar na dança que nos condena. É que se a diferença do PCP para os restantes partidos é apenas ser autor moral de muitas propostas que hoje são moda, e ser pioneiro e ter razão antes do tempo, então essa diferença talvez não compense que se abdique de votar numa coisa da moda, bonitinha e simpática como o BE e o PS, cuja imagem é constantemente limpa e melhorada pelos próprios órgãos de comunicação social, detidos pelos mesmos interesses que controlam esses partidos. Se o BE acaba por propor o mesmo que o PCP, para quê votar num partido que é vendido como um partido envelhecido, retido na URSS, amigo da oligarquia angolana, próximo da dinastia norte-coreana, companheiro de ditadores latino-americanos?

É evidente que nada disso é verdade, mas isso que importa para uma comunicação social que inventou as notícias falsas mas que agora se escandaliza com as “fake news”? É evidente que nada disso é verdade, mas isso que importa para o bando de imbecis que discute comunismo apenas com um argumento chamado “gulag” mas que é o mesmo que discute Salazar como o homem “que morreu pobre” e que fala de nazismo para dizer “que nem tudo foi mau”?

Podemos enlear-nos nesse debate sem fim e disputar a autoria das propostas mais avançadas. E devemos. Mas não é por ganhar essa batalha que eu voto na CDU, para votar PCP.

É porque o PCP é o único que não sucumbe à ditadura do marketing televisivo (que para esse partido seria suicídio), que não define as suas posições em função da simpatia que receberão da comunicação social dos grandes grupos económicos, que não hesita em defender o que considera justo independentemente do acolhimento mediático e das redes sociais. Aquele que prefere empenhar-se em explicações atrás de explicações, para justificar um voto ou uma posição menos demagógica porque prefere perder votos a falar verdade do que ganhar votos a dizer mentiras. É o único partido que existe além das suas bancadas institucionais, que tem células, organizações de base, que não serve apenas para debates mas também para dinamizar, organizar e dirigir as lutas colectivas e não para satisfazer ambições políticas de indivíduos.

É o único partido que realiza reuniões pela noite adentro para debater as condições em que vivem os portugueses e como é possível ultrapassar as dificuldades e resolver os problemas em vez de passar reuniões a debater quem será o líder da concelhia, o presidente da distrital e o candidato a deputado, ou pior, a fazer jogos de bastidores para promover este ou aquele militante a chefe, falsificando eleições, pagando quotas em barda, ou prometendo favores.

Mas também é por mais do que isso. É porque o PCP é o único que apresenta as suas propostas com um fito de transformação, um projecto vasto e maior, que coloca o interesse dos trabalhadores acima do interesse dos grandes grupos económicos nacionais ou internacionais. É porque é o único que, independentemente de apresentar propostas que já são copiadas por outros, o faz integrando essas propostas num projecto de ruptura com a política actual, de degradação e afundamento nacional. É o único partido que é capaz de combater PSD e CDS e ao mesmo tempo afirmar que o rumo actual é um rumo de continuidade com a linha política desses partidos, que é capaz de afirmar sem medo que este rumo, do Governo minoritário do PS, é um rumo de desastre e de subordinação do interesse nacional. É o único partido capaz de afirmar, distante de deslumbramentos como os de todos os restantes federalistas convictos (apesar de se autodenominarem “europeístas”) que o próprio projecto da União Europeia é um projecto de estímulo à ascensão dos nacionalismos de extrema-direita e de concentração do poder político e económico. É o único capaz de continuar a afirmar que é urgente a recuperação da soberania monetária como instrumento para a recuperação de outras dimensões da soberania e é o único que coloca o confronto entre o trabalho e o capital no centro de todas as restantes questões políticas.

Apoiar o PCP não é apenas defender um partido que é pioneiro nas propostas que consideramos justos, porque isso, outros, mesmo que tardiamente, podem mostrar-se interessados em fazer e copiar, mas é apoiar e defender um partido que afirma orgulhosamente as suas marcas distintivas, que valoriza o trabalho colectivo, a solidariedade, a cooperação, que desmonta os fundamentos da ideologia dominante e das suas imposições e que se candidata a eleições para o parlamento europeu e para a assembleia da república, não apenas com a intenção de fazer uns brilharetes com propostas nas capas dos jornais (que mesmo quando merece, não tem), mas com a muito mais funda intenção de utilizar esses espaços para denunciar o esgotamento do modelo capitalista de democracia, para denunciar os interesses que se movem por detrás de cada grupo parlamentar, refém dos grupos económicos, contaminado pelas corrupções sistémicas, legais e ilegais. O PCP dignifica os parlamentos em que participa porque demonstra que não são do povo, mas sim dos grupos económicos. É por ser a excepção, contra todas as forças mais obscuras ou declaradas, que conto com o PCP.

No 104º aniversário do nascimento de Álvaro Cunhal

Cumprem-se os 104 anos do nascimento de Álvaro Cunhal.

Não há homenagens justas que não passem por dar o que temos todos os dias para a construção do socialismo e para a superação revolucionária do capitalismo. Esse compromisso que cada um de nós assume individualmente e cumpre também colectivamente é a forma mais digna de honrar todos quantos deram a sua vida pela luta dos povos, pela emancipação dos trabalhadores e pelo comunismo. Contudo, hoje a minha luta passa por escrever estas palavras que, não sendo de homenagem, são de assinalamento de uma data e de valorização de um contributo teórico e prático que tendo sido determinante em várias fases da vida do Partido Comunista Português e do próprio Povo Português, é hoje ainda muito importante.

É impossível contar a história do século XX português sem falar do PCP e é impossível falar do PCP do século XX sem falar de um conjunto de dirigentes e das suas características pessoais e políticas. Dentre esses militantes, por motivos vários, mas principalmente pela data que assinalo, destaca-se Álvaro Cunhal. O seu compromisso constante com a causa do proletariado português, a sua dedicação ao fortalecimento do movimento comunista internacional e o seu empenho, físico e moral, na concretização do projecto político que é o comunismo elevam Álvaro Cunhal a uma dimensão heroica no sentido mais humano do termo.

A sua participação na reorganização de 40, ainda dirigida por Bento Gonçalves, que sucede a reorganização de 29 e que dá ao PCP a sua verdadeira natureza marxista-leninista, combatendo concepções anarquizantes e aventureiras foi certamente um elemento da sua formação política. Álvaro Cunhal tinha então menos de 30 anos e a reorganização construiu o PCP como o conhecemos durante as fases mais decisivas da sua História enquanto partido e isso sucede na presença de Álvaro Cunhal que tinha então tarefas de direcção do Partido, onde teve a oportunidade de concretizar as novas orientações resultantes da reorganização. A reorganização de 40 não foi apenas uma reconfiguração orgânica do PCP. Foi também uma reconfiguração ideológica e prática, com a adopção de instrumentos de análise mais concretos e com a tomada de medidas objectivas para a defesa do PCP. A adopção do marxismo-leninismo como ideologia do Partido e a integração do centralismo democrático juntamente com as medidas conspirativas foram elementos centrais do partido que nascera em 1921 mas que só muito depois ganha a maturidade de um verdadeiro partido revolucionário.

Antes de 1940-43, o PCP não tinha defesas activas contra os métodos fascistas do Governo. O fascismo, inteiramente assumido com a forma corporativista de Estado em 1933 e com a transposição da Carta del Lavoro para a Constituição Portuguesa, tomava medidas cada vez mais drásticas e violentas para garantir a supressão de movimentos democráticos e, principalmente, para liquidar a organização comunista, incluindo liquidar fisicamente os seus militantes e dirigentes. A reorganização de 40 dá ao PCP mecanismos para se adaptar à repressão e violência fascistas. Mas o que mais transforma o PCP nos anos 40, juntamente com esses dois elementos – o ideológico e organizativo – é a sua postura ante as massas. O PCP, com contributo de Álvaro Cunhal, inicia um novo ciclo político de intervenção, destinado a agitar e a organizar a luta nos locais de trabalho, em torno de objectivos o mais concretos possível. De um partido muito proclamatório, com laivos de aventureirismo e alguns tiques de clube de debate político, passa a um grande partido nacional, ancorado nas necessidades concretas do Povo Português. De um partido que opunha o comunismo ao fascismo principalmente no plano teórico, reservando a actividade revolucionária a uma porção mais consciente da sociedade, o PCP passa a partido intimamente ligado às massas e ao proletariado. O proletariado português começa finalmente a ser o reservatório de quadros do PCP e ao mesmo tempo o seu objecto de luta. As grandes greves de 43 e 44 mostram os primeiros frutos de um Partido que mudou a sua consigna para “paz, pão, liberdade” introduzindo na luta pelo socialismo e o comunismo os elementos concretos das preocupações e anseios dos trabalhadores.

A partir desse momento, o fascismo começou a deparar-se com um partido indestrutível. Porque se era possível um destruir um grupo de quadros revolucionários, estudiosos e voluntariosos, mas isolados, deixa de ser possível destruir uma organização revolucionária que emana das aspirações do próprio povo. A partir desse momento, só esmagando todos os trabalhadores portugueses se esmagaria o PCP.

A sua prisão em 1949 não priva o partido da sua actividade nem do seu estudo e contributo teórico e uma boa parte da sua obra artística e política é construída no período entre 1949 e 1960. A sua fuga em 3 de Janeiro de 1960 representa um momento importante na vida do Partido. Se o V Congresso do PCP, realizado durante a prisão de Álvaro Cunhal, em 57, consolidou o desvio de direita que vinha afectando a actividade do PCP, a fuga da prisão de Álvaro Cunhal representou um decisivo momento na sua identificação e correcção.

É verdade que entre os grandes contributos de Álvaro Cunhal para o PCP e para o Povo Português se contam inúmeros actos. A participação na reorganização de 40, a intensa produção teórica, a criação de um partido nacional, a ligação do PCP às massas, a construção da orientação do PCP para a revolução democrática e nacional, o Rumo à Vitória, o contributo para o combate e denúncia da extrema-direita e do radicalismo pequeno-burguês de fachada socialista, a natureza colectiva do trabalho de direcção do PCP, entre outros, destaco a correcção do desvio de direita que torna possível a adopção da orientação contida no “rumo à vitória” como orientação para a acção do PCP e faz regressar o PCP ao trabalho revolucionário, assumindo novamente o levantamento nacional, popular e militar, como resposta para o derrubamento do fascismo. Antes da correcção do desvio, o PCP estava enleado em formulações oportunistas e em ilusões políticas que concebiam o trabalho de intervenção do PCP como forma de construir a “solução pacífica para a superação do problema político português”.

A correcção do desvio de direita, com o contributo absolutamente determinante de Álvaro Cunhal, foi um momento central na vida do PCP. Na vida do PCP, para o papel que se lhe exigia na altura e na vida do PCP até aos dias de hoje. Foi feita com a apresentação de um informe* ao Comité Central, aprovado ainda em 1960 e mais tarde ratificado com as novas orientações no VI Congresso, em 1961. O PCP estava num posicionamento que conduziria à sua instrumentalização por uma burguesia que aguardava o melhor momento para proceder às alterações formais de regime, deixando intactas as relações sociais. O PCP estava apostado na aceleração da desagregação natural do fascismo ao invés de preparar o proletariado português para a tomada do Poder e para a alteração material das relações de produção. A forma como desde cedo, Álvaro Cunhal combateu a secundarização do proletariado na luta pela democracia, também se traduz na defesa que fez da participação dos comunistas nos sindicatos fascistas, desde a sua fascização em 1933/34.

O acerto das posições de Álvaro Cunhal, aplicadas ao momento histórico que viveu e em que participou, está comprovado pela História: a revolução sucedeu porque o fascismo se desagregou, verdade, mas não como consequência apenas das suas contradições senão também da acção revolucionária do PCP, que também se manifestava na participação do PCP no movimento antifascista mais alargado. Mas mais do que isso, Abril não foi apenas uma troca de caras porque o proletariado organizado, munido de uma central sindical em que participavam os comunistas, foi capaz de assaltar as ruas portugueses 5 dias depois do 25 de Abril de 1974 e de demonstrar qual era a força hegemónica da revolução.

Abril foi a confirmação das teses e contributos de Álvaro Cunhal, mas principalmente o que lhe sucedeu: as conquistas políticas além das alterações formais de regime, as alterações no modo de produção e a ameaça do capitalismo como modo de produção dominante. Independentemente dos golpes posteriormente desferidos contra essas conquistas, com o ardil e traição do Partido Socialista, as teses confirmaram-se adequadas e correctas. A força do PCP, contudo, não se decreta, constrói-se. E só com essa força se prepara e se faz a revolução. Honrar Cunhal não é fazer a Revolução nos nossos dias, é garantir que enquanto vivemos tudo fizemos para que ela venha a acontecer. Antes que a barbárie que alastra tome por inteiro o mundo.

* Álvaro Cunhal, Obras Escolhias, “Edições Avante!”, Outubro de 2008, tomo II

PCP, depósito moral da política portuguesa

Um comunista, ao contrário de um membro do PS, do PSD ou do CDS-PP, vive sob um código moral que não precisa de ser escrito nem dito, mas que todos esperam que cumpra. Um comunista não lixa o colega de trabalho, sente, por instinto, repulsa pelo luxo e faz da humildade uma bandeira verdadeira. De um comunista até os membros de outros partidos todos esperam generosidade, seriedade e verdade. Se alguém do PS se cruza com uma injustiça e vira a cara para não ver, está no seu direito, não era nada com ele. Se um comunista fizesse o mesmo, alguém no café diria «é muito comunista, é muito comunista, mas pode ver um gajo na merda e está-se a cagar». E diria bem. Porque ser comunista não é só ser membro de um partido e lutar por um mundo novo: é aceitar voluntariamente o dever formidável de ser o exemplo vivo, militante, pessoal, diário e tangível da superioridade desse ideal. É por isso que já ninguém se surpreende quando um ministro do PS vai trabalhar para uma empresa que privatizou mas nos chocaríamos se um militante comunista exigisse ser tratado por «doutor». Os comunistas julgam-se por critérios superiores.

A superioridade moral dos comunistas não tem qualquer segredo nem os militantes do PCP são seres humanos diferentes dos outros. Mas num país em que todos os partidos abdicaram da ideologia (pelo menos abertamente), só o PCP defende um ideal nomeável com que se possa confrontar os seus militantes. Ninguém, em nenhuma circunstância, ao balcão de nenhum café, diria algo semelhante a «Já viste? Esse gajo, tanta conversa sobre a social-democracia… Transferiu a massa toda para um offshore nas Bahamas!» ou «Que vergonha! Uma gaja que se diz neo-liberal e tem os trabalhadores com salários em atraso!». Já os comunistas têm um ideal que até a direita associa a princípios elementares de justiça.

É por esta razão que, não sendo diferentes dos outros seres humanos, é tão raro, e por isso surpreendente, conhecer militantes comunistas mentirosos, sobranceiros, corruptos, carreiristas ou oportunistas. No PCP não há empregos, confortáveis tachos nem altos voos políticos: só há trabalho militante e sacrifícios pessoais que, tão grandes que são, só os suporta quem lhes ama a razão e os consegue fazer com um sorriso. Sem esperar nada em troca, a não ser a alegria cheia de nos sabermos parte da luta pelo que é justo.

Uma noite em Kilkenny, ou porque é que a esperança não é para ter, é para manter

“The Hole in the Wall”, Kilkenny, Irlanda

Eu e ela andámos pela Irlanda. Passámos em Kilkenny – passem por lá que vale a pena. A noite foi passada num pub, claro, chamado “The Hole in the Wall“, que está aberto desde meados do séc.XVI! Nesse pub, nessa mesma noite, não estava muita gente, mas havia de tudo, e por ordem cronológica do contacto que tivemos com eles: o jovem barman irlandês; um dentista norte-irlandês católico e que emigrou para o sul; um casal suíço; o dono irlandês do pub e conceituado médico cardiologista; dois casais de norte-americanos que vivem perto de Kansas City.

E a conversa teve vários desenvolvimentos, todos quiseram saber novas de Portugal, todos tinham queixas do sistema político actual, todos tinham a cabeça meio baralhada nos conceitos, nas escolhas e nas prioridades. Mas vamos por partes, ou melhor, por personagens.

– o jovem barman irlandês: o que tenho a realçar é que não sabia o que eram os PIIGS e que, sendo músico e pelos vistos putativo maestro, não conhecia fado, o Chico Buarque e a Elis Regina.

– o dentista norte-irlandês católico e que emigrou para o sul: emigrou para o sul porque se sentia excluído na Irlanda do Norte. Disse qualquer coisa sobre se sentir um negro na África do Sul em tempo de apartheid. Disse também que vivemos em fascismo, que a Merkel isto e aquilo, mas depois, mais tarde, disse também que só gostava de dois políticos, Donald Trump e Vladimir Putin.

E como pessoa que sentiu a segregação religiosa na pele, achou por bem afirmar que há quem diga que Paris em 2050 e Londres em 2070, serão cidades islâmicas e que ele não quer viver em cidades islâmicas. Conclusão, é preciso mesmo expulsar os árabes do continente europeu.

– o casal suíço: entre eles falavam alemão, ele chamava-se Roberto (que pronunciou num italiano impecável), ela chamava-se Laure (que pronunciou num francês impecável). Mantiveram-se a noite toda a falar entre eles, pouco interagindo com os restantes. O alemão permite manter a distância, seja isso bom ou mau…

– o dono irlandês do pub e conceituado médico cardiologista: foi médico do corredor de Fórmula 1, Eddie Irvine, inventou um medicamento qualquer para o coração. Um cérebro. E a conversa ia bem, quando no início da noite disse que o pub não era dele, era do banco, que andávamos todos a trabalhar para pagar aos bancos. Até aqui tudo normal, é um facto indesmentível, o que se faz quanto a isso é que nos pode distanciar.

Não sei se estamos muito ou pouco distantes, mas esta mesma pessoa, que durante a noite mostrou ser bom anfitrião, a certa altura elogiou Donald Trump, dizendo que ele tem coragem de dizer coisas que os políticos nem sempre dizem, e que espera que para lá de as dizer, ele as faça. E quais são essas coisas? Dificultar a entrada de estrangeiros nos EUA, ora pois…

– os dois casais de norte-americanos que vivem perto de Kansas City: vamos subdividir em casal 1 e homem 2 (o homem do casal 2, sendo que não ouvi nada da mulher 2, a não ser cantar).

O casal 1 quer muito visitar Portugal. A filha dela esteve cá há pouco tempo (pela conversa a surfar no Alentejo) e adorou, prometeu também voltar. Adoram vinho, demos conselhos.

Quanto ao resto. Não gostam muito do Trump, mas também não gostam da Hillary. ainda assim talvez votem Trump, porque ele não é mentiroso, porque até é um homem de sucesso e porque não pode ser um monstro tão grande se gosta tanto, e demonstra, da mulher e dos filhos.

E sobre Bernie Sanders? Bem, esse é apelidado de socialista – ficámos sem perceber se para eles isso era bom ou mau -, mas na verdade até nem é, porque depois entra em contradição sobre alguns temas. Mas captou muito eleitorado jovem porque defende o acesso às universidades de forma gratuita. E o casal 1 concorda que o que se paga para tirar um curso nos EUA é absurdo. Um médico, por exemplo, tem de pagar cerca de 260.000$, fazendo com que, tendo recorrido a um empréstimo, chegue aos 30 e poucos anos com meio milhão de dólares de dívida ao banco. Mas o casal 1 continua a preferir o Trump…bem, o homem 1 balançou um pouco…

E um outro lado, menos comum e mais agradável. O casal 1 e o homem 2 afirmaram que detestam a arrogância norte-americana que os faz não estudar outras línguas, que os faz dizer que os EUA são o melhor país do Mundo e o resto é paisagem. Não gostam do complexo de superioridade, é isso. Positivo. Dizem que gostavam imenso de aprender outras línguas, de visitar outros países, era a primeira vez que saíam dos EUA e notaram logo que os irlandeses são gente muito, muito simpática. E são.

Disseram ainda que das coisas que tinham mais pena por viverem no Kansas, era a dificuldade de contacto com pessoas de outros países, porque quase nenhum turista vai visitar a cidade deles.

Conclusões: e porque é que vos conto este encontro nocturno? Porque ele não me sai da cabeça, porque sempre que dizem que só em Portugal é que acontece isto ou aquilo, cada vez me arrepio mais. Quando me disserem que só neste país é que há falta de activismo por causas, só neste país é que há um desconhecimento grande a nível político e ideológico, tomarei aquela noite como um belo barómetro.

É claro que há alheamento, desinformação, falta de cultura política, falta de prática democrática, alienação, mas isso acontece em todas as partes do globo. Nesta conversa estavam presentes pessoas com cursos superiores, com profissões que normalmente associamos a um certo nível intelectual, mas as baboseiras que saíram daquelas bocas foram similares às baboseiras que muita gente com graus académicos muito básicos diz.

Não é a academia que forma a solidariedade entre as pessoas e os povos, a academia americana não conseguiu travar um movimento recente de jovens estudantes universitários que acha que certos livros devem ser pura e simplesmente banidos das bibliotecas universitárias, sugerindo até eventos com fogueiras bem vivas e alimentadas pelas suas páginas. Não é a academia que elimina todos os preconceitos mais básicos e animais de alguns seres humanos, nem é ela que vai fazer com que abdiquemos do pequeno quintal que conquistámos durante anos.

O Mundo não é um lugar bonito, nem pacífico, e na maior parte do seu território e nas cabeças de muita gente, não está sequer a caminhar no sentido do progresso e da modernidade. O Mundo é mesmo um lugar estranho, que vive de equilíbrios muito precários, de constante luta por recursos e ideias de putativas sociedades ideais.

O ser humano está cheio de contradições, seja em Portugal, na Irlanda, na Suíça ou nos EUA. Mas o que me assustou mais naquela noite, foi mesmo a constatação de que não caminhamos para uma sociedade que queira paz, caminhamos para uma sociedade que se deixa levar na cantiga do cada um por si e se cada um não consegue o que quer a culpa é do outro. Depois é só escolher quem é o outro, se é o vizinho, ou se é o refugiado ou imigrante que nos entra pelo país e pela cabeça dentro aos trambolhões sem que os nossos Estados se preocupem em combater a xenofobia crescente. Internacionalismo não rimará nunca com racismo.

No dia em que os seres humanos perceberem que a luta é mesmo entre o fundo e o topo da pirâmide, o que o médico irlandês vai perceber é que se andamos todos a trabalhar para os bancos então o que é preciso não é expulsar quem vem para o nosso país, é lutar contra os bancos dos seus países de origem. O que os norte-americanos que acham incrível o custo da educação no seu país vão fazer, é provavelmente juntarem-se e começarem por acabar com o sistema de bipartidarismo que os oprime. O que o dentista norte-irlandês católico vai fazer é voltar para o Ulster e em conjunto com os seus pares protestantes libertar o país do imperialismo capitalista britânico.

No dia em que os seres humanos perceberem, deixa de haver pirâmide, porque a base deixa de suportar o bruto peso do topo.

Terá o idealismo raízes no materialismo? (ou "O pateta que insiste")

Confesso que tenho muita dificuldade em discernir qualquer linha de pensamento dos arrazoados simplistas com que José Rodrigues dos Santos insiste em fundamentar uma atoarda que lhe terá saído mal. Das duas uma, ou JRS é ignorante ao ponto de insistir porque julga que tem razão, ou JRS está profundamente comprometido com a linhagem teórica do revisionismo histórico em curso que tenta a todo custo aproximar o marxismo do fascismo. Ou ambas, que é uma coisa que JRS ainda não alcançou: a dialéctica.
Tendo em conta o caudal de argumentos desconexos, que traz consigo, como uma torrente, a lama de uma arrogância típica dos ignorantes, é muito difícil estruturar uma resposta que possa abarcar todos os aspectos daquilo a que JRS – não sei se como jornalista que cultiva a imparcialidade, se como escritor de ficção, se como investigador e historiador – se tenta referir sem apresentar uma única fonte que sustente as suas “provas”. Não deixa de ser curioso que um jornalista e escritor aponte como fonte para uma tese tão estapafúrdia como “o fascismo tem origem no marxismo” as suas próprias reflexões num livro de ficção. Sobre isso, para quem faz jornalismo e investigação, julgo que é tão básico como perceber que não se pode usar como fonte o veículo, por ser uma informação cuja confirmação se torna circular. Faz-me lembrar Paulo de Morais quando, durante os trabalhos da comissão de inquérito do BES, afirmava que a Comissão de Inquérito não sabia quem eram os beneficiários dos créditos do BES Angola porque não queria, sendo que ele já sabia. Instado pela Comissão a fazer chegar os documentos e provas que pudessem comprová-lo, Paulo de Morais envia os seus próprios artigos de opinião publicados na imprensa portuguesa. Ora, interagir com alguém que não compreende o ridículo dessa operação, torna-se demasiado penoso.

Mas, no caso, o marxismo merece o exercício de paciência e o esforço para que não restem dúvidas sobre a falsidade da tese de JRS.
Vejamos o que diz JRS, portanto:
1. Que alguns políticos se terão sentido incomodados com a sua afirmação de que “o fascismo tem origem no marxismo”e que recorreram, sem argumentos, ao insulto baixo.

Sobre isto, não sei a que políticos se refere e, à parte as reflexões sobre o termo “político” usado por JRS, eu sinto inserir-me nos “políticos” que se sentiram incomodados, porque me provoca incómodo, não que alguém possa dizer tamanhos disparates, mas que esse alguém seja um jornalista com carteira e um escritor muito lido, cuja credibilidade foi construída como um produto e é, por isso, uma ilusão de massas. Mas não deixa de ser uma “fonte credível” para um vasto conjunto de pessoas, pelo menos para todas quantas reputam como boa a literatura produzida pelo autor com uma chancela – por mais falsa que seja – de idoneidade e seriedade, até sob uma capa de uma certa cientificidade. Tendo em conta que não vi mais “políticos” a reagir ao jornalista, suponho que pelo menos eu seja visado neste seu desabafo, para o que, importa dizer, dispõe de espaço num jornal nacional. Em primeiro lugar, eu dei-me ao trabalho de traduzir “A doutrina do Fascismo” de Mussolini, para poder usar como fonte e base para o que dizia. E sim, é verdade que deduzi que JRS fosse um ignorante e escrevi-o. Daí a dizer que não utilizei argumentos quando publiquei as próprias frases de Mussolini que compõem um capítulo da obra “A doutrina do Fascismo” que se chama “A rejeição do marxismo”, julgo que tem de fazer um caminho só mais curto do que aquele que JRS tem de percorrer até poder discutir marxismo e fascismo, não como escritor de ficção, mas como político, filósofo ou mesmo historiador. Sim, porque JRS faz chacota e amesquinha a ciência política, arvorando-se em investigador, em pensador político e filósofo.
2. Que o marxismo se via como uma ciência “tão científico, na sua opinião, como a física de Newton”. JRS não compreende que o materialismo se opõe ao idealismo. Aqui começa o deslize de compreensão de JRS que acaba por se transformar na grandiosa conclusão própria de que “muito pouca gente sabe, mas é verdade”, “o facto de que o fascismo é um movimento que tem origem marxista”. Na verdade, Marx e Engels usavam a abordagem científica, materialista da História da Humanidade. O que JRS desconhece – mas bastava ter lido uma brochurazita sobre marxismo – é que o marxismo usa o método científico para estudar a realidade, mas em caso algum espera da realidade um comportamento linear. Aliás, o marxismo, com a utilização do método científico na construção dos seus fundamentos compreende muito bem quais são as forças que devem actuar para motivar as transformações sociais. O que JRS afirma “A ideia era simples: ao feudalismo sucede-se o capitalismo, cujas contradições levarão inevitavelmente os proletários à revolução que conduzirá ao comunismo. Nesta visão a história é teleológica e determinista. Não é preciso ninguém fazer nada, pois a revolução do proletariado é inevitável.” manifesta uma tremenda falta de compreensão sobre o marxismo para quem acha que pode sequer debatê-lo. Pelo contrário, quem resume o marxismo desta forma, não apenas demonstra ignorância, mas também que não cumpre os mínimos para um debate sério sobre o tema em que, por mais cacetada que leve, insiste.

Em nenhum momento, em forma alguma, Marx ou Engels terão dito ou escrito qualquer coisa semelhante à que JRS usa para definir o marxismo. Isso, por si só, é revelador.
3. JRS tenta dar alguma cientificidade aos seus delírios, chamando ao debate um monte de gente que ninguém conhece e assim tentando construir uma legitimidade e credibilidade pelo impacto. “Epá, o tipo deve saber muito disto.” Vamos lá então: em primeiro lugar, JRS confunde movimento com ideologia, acção política com doutrina. E fá-lo desajeitadamente e provavelmente sem se aperceber do erro que comete. É que, se por um lado é verdade e correcto dizer-se que o movimento fascista tem origem na instrumentalização dos movimentos operários, já é absurdo dizer que o fascismo tem origem marxista. E porquê? É verdade que perante a ascensão do proletariado enquanto classe revolucionária, as burguesias dominantes tentam condicionar o crescimento da luta e dar-lhe um carácter conservador e reaccionário. É, portanto, verdade, que o movimento operário e reivindicativo esteve na origem do crescimento do fascismo, porque o fascismo cresce precisamente pela manipulação desse movimento. Quanto mais divisões, mais alheamento, mais religiosidade, o fascismo pôde introduzir no movimento operário, mais o conseguiu tornar reaccionário. Ora, começa a perceber-se um primeiro patamar do problema de JRS: começa por confundir movimento operário com marxismo. Adiante, no seu artigo, vai mesmo confundir o conceito de socialismo dos anos 20 com marxismo.
4. Depois da gloriosa tirada que resume “Das Kapital” em três frases, JRS tenta dizer-nos que há duas grandes correntes no pensamento marxista que importam para a ligação entre o fascismo e o marxismo: a visão de Sorel e a visão de Bauer. Aproveita para dizer que o bolchevismo nasce com a perspectiva soreliana, assim desvalorizando Lenine. JRS diz que é Sorel que traça o destino do partido bolchevique ao definir, no seu livro “Reflexões sobre a violência” a vanguarda e a violência como fórmulas revolucionárias. Infelizmente para JRS, já Marx, uns bons 60 anos antes falava da eventual necessidade de violência e Lenine, 6 anos antes de Sorel escrever o livro que JRS diz ter sido a base da acção bolchevique, escreve o conhecido “Que fazer?”, obra na qual Lenine define com relativa precisão a necessidade de organizar política e socialmente o proletariado. Curiosamente, o anarquista Sorel é citado como fonte inspiradora, não por Lenin, mas por Mussolini. Começa bem, JRS.
5. Adiante, JRS diz: “Recorde-se que Marx e Engels consideravam que o capitalismo era uma fase necessária e imprescindível da história humana e que sem capitalismo nunca haveria comunismo. Os bolcheviques renegaram esta parte do marxismo quando preconizaram que na Rússia era possível passar diretamente de uma sociedade feudal para o comunismo, mas neste ponto os fascistas mantiveram-se marxistas ortodoxos ao aceitar que o capitalismo teria mesmo de ser temporariamente cultivado em Itália.” e consegue introduzir dois enganos. O primeiro é o de que os bolcheviques renegaram esta parte do marxismo. Com isto, JRS demonstra ignorar o escopo da NEP (nova política económica) e a persistência de várias práticas inerentes ao capitalismo na economia russa e soviética, assim decidida precisamente por terem os bolcheviques compreendido que a organização capitalista da economia potenciava, transitoriamente e para aquele contexto, melhores condições para o desenvolvimento das forças produtivas e para a superação do feudalismo e do atraso tecnológico da Russia. O segundo é o de dizer que defender o capitalismo é ser “marxista ortodoxo”. Pelo simples facto de que a consideração marxista sobre o papel do capitalismo era uma constatação de factos e não uma defesa do capitalismo. O marxismo não defende que o capitalismo deve preceder o socialismo por motivos morais, o marxismo identifica esse nexo como factual no fluxo da história. Mas numa perspectiva “marxista ortodoxa”, o que seria de esperar seria a defesa do capitalismo como fase transitória para o socialismo. Ora, é precisamente isso que o fascismo nega. O fascismo não afirma como objectivo, em fase alguma da sua história, a abolição da propriedade privada dos meios de produção. Pelo contrário, o fascismo advoga a iniciativa privada e abomina o colectivismo. Ao longo de todos os discursos de Mussolini está presente essa visão, bem como na obra fundadora do fascismo enquanto doutrina “A doutrina do Fascismo”.
6. Sobre o nome do NSDAP, Partido Nacional-Socialista da Alemanha que JRS usa como prova máxima da sua tese abjecta, importa dizer duas coisas: em primeiro lugar, o socialismo não é o marxismo, o conceito de socialismo e a sua utilização naquela altura estava longe de ser meramente marxista. O socialismo é um modelo de organização da economia que não é fundado por Marx, nem por Engels. Aliás, Marx e Engels começam os estudo do capitalismo precisamente para compreender como se pode construir o socialismo, já conceptualizado muitos anos antes pelos socialistas utópicos. Em segundo lugar, a utilização do termo “socialista” no nome do NSDAP é o aproveitamento oportunista do momento histórico, económico e social que a Alemanha vivia naquela altura. É preciso relembrar JRS de que as eleições quase tinham sido vencidas pelo Partido Comunista Alemão e que o contexto era de ascensão do proletariado e que, por isso mesmo, Hitler não teria as mesmas hipóteses caso não tivesse optado por parasitar esse sentimento?

Infelizmente para os povos de todo o mundo, nem Hitler nem Mussolini tinham qualquer simpatia pelo socialismo sequer, muito menos pelo marxismo.
Mas JRS comete um erro fundamental que, no seu desenvolvimento, o faz confundir “movimento” com “doutrina”; “socialismo” com “marxismo”; “Ciência” com “método científico”; “dialéctica” com “determinismo”. É que JRS está no campo filosófico do idealismo: dos que preferem ter como facto tudo o que não é possível negar, a crença, a ideia. E os marxistas estão do lado oposto: no campo filosófico do materialismo: dos que preferem ter como facto aquilo que podem confirmar.
Curiosamente, JRS está no mesmo campo filosófico que Mussolini, o do idealismo.
O que é grave, não é que JRS tenha ideias próprias. Ainda bem que as tem. O que é grave é que amesquinhe quem dedica a vida aos estudos sérios, com cientificidade, com método. O que é grave é que não se aperceba do respeito que deve a quem o lê e o que é grave é que não perceba que a ligação entre marxismo e fascismo que ele estabelece não é matéria de facto, é matéria de opinião. E o que é grave é que uma pessoa que entra em nossa casa como imparcial jornalista seja, na verdade, um cruzado político que, como bom cruzado, porta o estandarte da religião. No caso, a anti-comunista.

Erro de paralaxe

O erro de paralaxe é o erro que corresponde à aparente variação de posição de um determinado objecto em função da posição do observador. Na política, todos somos afectados por esse erro. Cada um de nós, combatendo ou não esse efeito, interpreta o mundo e os fenómenos políticos em função da perspectiva, do posicionamento político, da posição de classe social que integra ou com que se identifica. Mesmo podendo separar os campos de interpretação em duas grandes áreas de perspectiva: a idealista e a materialista, dentro de cada uma dessas áreas, cabem interpretações várias de um mesmo fenómeno.

Uma vez, ouvi uma rapariga dizer que era contra a despenalização da interrupção voluntária da gravidez porque só engravida quem quer, que hoje há muita informação e muito acesso aos métodos contraceptivos mais variados, que há consultas de planeamento familiar gratuitas e que na escola se aprende tudo quanto é necessário para fazer um planeamento ponderado da gravidez. Não concordei. Contudo, se olhasse à minha volta apenas, para o grupo de pessoas nos quais me insiro, praticamente todas aquelas considerações seriam válidas. Entre a juventude urbana e informada, descendente de professores e professoras, com acesso a educação e acompanhamento familiar em casa, com acesso a escola de qualidade e com centros de saúde com trabalho de proximidade na comunidade e consultas de planeamento familiar bem próximas de casa, todas as premissas da rapariga eram válidas: só engravida quem quer e, como tal, só aborta quem se desleixa.

Uma vez, num determinado contexto, defendi a legalização do consumo de drogas leves. O meu argumento fundamental assentava na liberdade do indivíduo e na capacidade de gerir o consumo de forma inteligente e sem prejudicar a sua vida social, laboral e familiar. Para o universo de jovens que eu conhecia, isso era uma realidade aparentemente material – que só mais tarde vim a compreender tratar-se de uma ilusão. Que há muita informação, que se um jovem adulto quer fumar um pof em casa descansado, deve ter acesso a droga de qualidade e a adquiri-la numa loja com regras e com garantias e certificado de origem. Na verdade, à minha volta, todo o consumo de drogas parecia informado, livre e divertido.

Uma outra vez ainda, disseram-me que a prostituição deveria ser regulamentada. Que quem quer prostituir-se deve ter direito a fazê-lo e que só se prostitui quem quer. Que assim, regulamentada a profissão, seria mais digno para quem decide prostituir-se e que seria mais higiénico para quem quer usar o serviço. É uma questão de liberdade individual, diziam-me! Que se eu quero vender o meu corpo, sou livre de o fazer e o Estado tem de respeitar a minha opção. Que eu sou informado e que até posso gostar de me prostituir e que quero é ter direitos como os restantes trabalhadores. E mais, quero pagar impostos e regularizar o mercado e o negócio das carnes e do acto sexual livre e consentido, pois só assim se combate o mercado ilícito e degradante da prostituição de rua. Tendo em conta o universo de pessoas em que me insiro, praticamente todas estas premissas se verificam.

Não faz muito tempo, ouvi argumentar que devíamos regulamentar o “negócio jurídico” da gestação de substituição. Por motivos óbvios, se uma pessoa quer ter um filho para ajudar um casal amigo que não pode, por motivos médicos, ter filhos, então essa pessoa deve ser livre de o fazer. Que é um avanço para as mulheres, uma exaltação da sua autonomia e liberdade. Tendo em conta o grupo de pessoas com quem me relaciono, praticamente todas estas considerações são válidas.

Portanto, numa visão centrada no “eu” e na minha experiência, na minha vida, nos meus conhecimentos e na minha capacidade cultural, social e económica de dar resposta às questões com que me deparo ao longo da vida é adequado afirmar que: não devemos despenalizar o aborto porque só aborta quem quer; não devemos proibir o mercado da droga porque somos todos suficientemente conscientes para fazer um consumo regrado de drogas leves; devemos regulamentar a prostituição porque só se prostitui quem quer; devemos criar um “negócio jurídico” para que uma mulher possa ser gestante de um filho do qual abdica antes de o conceber.

Quando se fazem leis, contudo, há uma questão que tem de prevalecer: a de que elas não se aplicarão apenas ao meu grupo de amigos, nem apenas a uma elite cultural ou social ou económica. As leis que se produzem não são exclusivas para os jovens, nem para os idosos, nem para os cultos, nem para os incultos, nem para os pobres, nem para os ricos. E, como tal, assumir uma posição sobre uma lei comportará um risco de erro tanto maior quanto mais presente for a componente individual da análise. O pior que posso fazer para interpretar uma questão política é pensar apenas em que medida se aplica a mim a referida questão. Em todos os referidos casos, a lei servir-me-ia: eu tenho informação suficiente para fazer uma vida sexual sem risco de gravidez e, acaso a gravidez sucedesse seria por erro meu; tenho informação suficiente e uma vida profissional e familiar que me permitem consumir drogas recreativas sem que isso represente a minha alienação social e cultural, sem que isso implique a degradação da minha saúde e sem representar um risco para a saúde pública; tenho condições económicas para recorrer à prostituição apenas e só se essa for a minha livre e consciente vontade.

Contudo, vejamos agora como se aplica a lei no concreto, em cada realidade e situação concreta e facilmente todos aceitamos que afinal nem tudo é tão simples quanto parece e que analisar a realidade colectiva à luz da minha experiência pessoal, não é mais do que, afinal, egoísmo involuntário.

Se é válido dizer para o meu grupo de amigos que só engravida quem quer, já para uma adolescente da periferia, de uma família pobre, sem acompanhamento familiar, sem escola ou em situação de insucesso ou abandono escolar, sem acesso a serviços de saúde, a coisa muda ligeiramente de figura.

Se é válido dizer que tenho condições para fumar uma ganza sem pôr em causa a minha vida toda e sem que isso signifique qualquer alienação do mundo cultural, social e político em que vivo, já diferente é dizer que o acesso livre a drogas para os jovens das pequenas localidades desertificadas, onde não há nada com que ocupar os tempos, onde não há oferta cultural, nem trabalho, nem nada, lhes permite conscientemente definir os seus limites no consumo de drogas, independentemente de serem leves ou pesadas – aliás, o que são drogas leves e pesadas?

Da mesma maneira, parece-me perfeitamente adequado dizer que eu só me prostituo se quiser. Aliás, em boa verdade, nada na lei em vigor me proíbe de o fazer e de pagar impostos por esse trabalho. O que a lei proíbe é o proxenetismo e o tráfico de seres humanos. Mas adiante, poder-se-á dizer o mesmo de uma mulher toxicodependente, caída no desemprego e no desamparo social? Poder-se-á dizer que uma pessoa enredada numa teia de extorsão e agressão, de chantagem e violência, de droga e de fome, só se prostitui porque quer?

Igualmente se pode dizer com relativa certeza que uma mulher do meu grupo de amigos tem condições para ser gestante de um filho para ajudar um casal de amigos que não pode ter filhos. A questão é que a lei aprovada não diz lá que é para os meus amigos. É para toda a gente e abre, melhor escancara, a porta para o aluguer do corpo humano. E se, por um lado, é certo que as minhas amigas não precisam de dinheiro ao ponto de alugarem a barriga, já o mesmo não se poderá certamente dizer de quem passa fome. É verdade que a lei proíbe o pagamento de qualquer valor pelo aluguer da barriga, mas coloca-se a questão mais simples de todas: como se prova o não pagamento de algo? A lei aprovada por proposta do BE, apresentada como um grande avançao, pode bem ser um alívio para um grupo de pessoas, mas pode vir a ser um perigoso e degradante mecanismo para muitas outras mulheres que serão obrigadas a abdicar de todos os direitos sobre um filho antes mesmo de o conceberem.

Este erro de perspectiva coloca-se também ao contrário. E também nos prejudica, a nós comunistas, e fecha-nos. Se entendermos a visão e a perspectiva do outro como uma forma deliberada de egoísmo ou de idealismo, se entendermos que só a nossa visão das coisas está correcta, como que por magia, ou por iluminação reservada a uma seita. Se não compreendermos que entre as massas, o idealismo é dominante e que a abordagem individualista dos problemas sociais não resulta da vontade de cada, mas da própria cultura dominante, se não percepcionarmos que a indisponibilidade para compreender a nossa forma de abordar e interpretar os problemas não resulta de uma má-vontade, mas de uma concepção distinta do mundo, então estamos a desistir de alargar, estamos a capitular por nos recusarmos a compreender que as barreiras existem e que nos cabe a nós ultrapassá-las. Ou contamos que seja a doutrina dominante a fazê-lo?

Se somos nós, comunistas, revolucionários, que estamos em período de resistência e de acumulação de forças, está nas nossas mãos, apenas nas nossas mãos, romper o cerco com que a cultura dominante nos isola. E de cada vez que hostilizamos quem pensa que pensa pela sua própria cabeça só porque não pensa como nós, de cada vez que interpretamos a dificuldade de compreender a nossa mensagem como “ignorância”, como “adormecimento” ou “alienação”, estamos a fechar uma porta.

E nós, comunistas, revolucionários, queremos essas portas escancaradas de par em par.

As regras do jogo

Se aceitarmos fazer uma partida de xadrez a jogar com 16 peões de pedras pretas contra um adversário que joga com o conjunto regular de pedras brancas, não podemos gritar surpreendidos “ah, mas tu tens uma dama!” quando os nossos peões tombarem às investidas da táctica adversária.

Assim é connosco, comunistas, que aceitámos participar numa luta nas conhecidas e não fáceis condições que o domínio dos grandes grupos económicos nos impõe. Quando decidimos, cada um, individualmente, iniciar o nosso percurso nesta marcha pelo futuro, já sabíamos que o presente não nos daria tréguas, já sabíamos que as forças do colectivo a que nos estávamos a ligar não tinham amparo nos jornais, nem nas televisões, nem nas rádios. Quando nos comprometemos com a luta dos comunistas, já sabemos que dependemos estritamente das forças do nosso colectivo.

Os comunistas não se queixam da falta de atenção que a comunicação social lhes dá. Os comunistas denunciam a propriedade e a missão da comunicação social, não para justificar as insuficiências do seu colectivo partidário, mas para ilustrar o quão poderosas são as forças do inimigo.

Os comunistas também não se iludem quanto à “inteligência” colectiva do povo e dos eleitores. Não se trata de haver gente que anda a dormir. Pelo contrário, o sinal de que os portugueses estão acordados é o facto de responderem aos estímulos que recebem. Quinze anos de estímulos a entrar pelas nossas casas adentro, fazendo de um líder do PSD, repentinamente, o Sr. Professor. Muitas horas de estímulos a menorizar e secundarizar outros candidatos, entre os quais, o comunista Edgar Silva.

A questão é relativamente simples: algum de nós seria comunista se em algum momento das nossas vidas não tivéssemos conhecido o Partido? Se em algum momento não nos tivéssemos cruzado com o PCP, ou com os seus militantes ou materiais de difusão e divulgação, teríamos desse partido a imagem que nos é oferecida por terceiros. Isso faria de nós “gente adormecida”, “burra”, menos inteligente?

Não, faria de nós gente. Gente como toda a gente. Que é o que somos.

Tivemos a “sorte”, a vida permitiu-nos, o Partido conseguiu, no nosso caso, romper as barreiras, furar o cerco, e chegar a nós. De uma forma ou de outra.

São assim as regras do jogo em que decidimos participar, voluntariamente porque a vida nos mostrou um caminho que entendemos como compulsivo por força da consciência social. E nessas regras, somos os peões de pedras pretas contra todo um arsenal. Não dependemos de convencer o adversário da nossa bondade, mas de redobrar os nossos esforços, melhorar a táctica, defender sem cedência a estratégia, unir as forças. Levar o Avante! a quem nunca o viu. Organizar na defesa dos seus interesses quem nunca lutou. Levantar primeiro a cara perante as injustiças. Ser o exemplo junto dos colegas de trabalho.

Romper o cerco, com as regras que aceitámos à partida. Até que pelos trabalhadores sejam feitas novas regras. Até que a ditadura dissimulada dos monopólios seja suplantada pela democracia dos trabalhadores.