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A Síria aqui tão perto

Foto de bombardeamento saudita no Iémen, já partilhado
nas redes sociais como sendo em Goutha, na Síria

Woodrow Wilson, depois do final da I Grande Guerra, considerava que os Estados deviam ter em conta a Opinião Pública nas tomadas de decisão. Aliás, deveria ser a Opinião Pública a definir o caminho dos Estados. À parte de outros contributos para uma tentativa de reorganização do Sistema Internacional, o então presidente dos EUA esqueceu uma parte essencial sobre o que é a Opinião Pública, como se forma, quem a forma e com que meios.


Quase 100 anos depois, fica clara a insuficiência do pensamento, mas mantém relevância na análise da realidade internacional. A Opinião Pública é formada, informada e enformada, essencialmente, pela classe dominante, que controla o poder económico e os agentes que formam Opinião Pública, que por sua vez controlam os Estados, sendo os seus interesses antagónicos com os da Opinião Pública, que os assume, por paradoxal que possa parecer. Os dias de hoje deixam isso a nu. A manipulação da Opinião Pública atingiu dimensões inimagináveis há 100 anos. É por isso que os interesses dominantes atribuem diferentes graus de valor àquilo que chega e como chega à Opinião Pública e que, por conseguinte, a forma.

Daqui podemos verificar as diferenças de tratamento da crise na Venezuela, que nos chega como governamental, de sistema político e económico, mas na Colômbia e México são ciclos económicos e vagas de criminalidade, nas Honduras ou no Haiti a crise chega-nos como humanitária.

É por isto que, por vezes, abordamos a questão Síria, com toda a tragédia e complexidade que a envolve, pegando em imagens de Aleppo antes da libertação como sendo da Goutha. E, desvalorizando esse facto, assumimos que é trágico na mesma, porque as imagens não devem ser muito diferentes. Mas, no entanto, a normalização de imagens deslocadas da realidade que pretende retratar, é também uma forma de manipulação da Opinião Pública.

Habituámo-nos à violência em Gaza, por exemplo, a cujas fotografias de Aleppo também poderiam corresponder. Mas dura há tantos anos que já entra na nossa realidade como norma. Em Gaza é assim porque é assim.

Isto para dizer que a Opinião Pública que formamos a partir do que recebemos nos chega, não raras vezes, de forma a que resulte na seletividade do choque.


No Iémen, como na Síria, há uma tragédia humanitária que dura desde 2015, com mais de 9.245 mortos e 52.800 feridos. Entre as vítimas civis, 5.558 são mortais e 9.065 são feridos. Até 14 de Dezembro de 2017. Cerca de 75% da população necessita de assistência humanitária, incluindo mais de 11 milhões que necessitam de assistência imediata para sobreviverem – aumentou um milhão desde Junho de 2017. Há 8,4 milhões em risco de morrer à fome e a vida de 400.000 crianças com menos de cinco anos está em risco.

A diferença substancial no que concerne à perceção que chega à Opinião Pública, é que a intervenção no Iémen, com vista a depor o governo, é composta por EUA, Reino Unido, França e Arábia Saudita. O lado ocidental da perceção, portanto. Por incrível que pareça, sim, a visão saudita é também a que interessa ao Ocidente.

Tal como na Síria que tem, no entanto, uma diferença.Em 2009, Assad decide tornar a Síria uma plataforma de passagem de um oleoduto para abastecer a Europa. Iniciar-se-ia no Qatar, passaria pela Arábia Saudita, Síria, Jordânia e entraria na Europa pela Turquia. Este era o plano inicial. No entanto, surgiu uma segunda proposta, que passaria pelo Irão, Iraque, Síria, Chipre e Grécia, que deixaria de fora Qatar, Arábia Saudita, Turquia e Jordânia.

E é esta a raiz do problema e da perceção que nos chega, na formação da Opinião Pública. Um oleoduto que deixaria de fora os países do Médio Oriente com relações próximas com os EUA e os seus aliados, perdendo o controlo da sua distribuição, perante uma segunda hipótese, que permitiria abastecer a Europa a partir de outros países menos recetivos às interferência externas.

São estas razões que fazem com que Goutha, na Síria, nos pareça tão perto, e Sanaa, no Iémen, nos pareça tão distante.

Evolução perigosa no Iémene

A situação no Iémene está em grande aceleração, ameaçando expandir-se de um conflito nacional para um guerra regional no Médio Oriente, região de grande interesse do imperialismo, representando portanto um potencial perigo para a paz não só na região mas com com efeitos globais.

O conflito nacional envolve duas frentes independentes contra o governo: uma protagonizada pelo Ansar al-Sharia (afiliado ao Al-Qaeda da Peninsula Árabe), possivelmente em aliança com o Estado Islâmico; e os houthis, grupo xiita (mais especificamente zaídi) cujo nome deriva do seu líder Hussein al-Houthi.

O grupo sunita Ansar al-Sharia conduz uma campanha separatista do Iémene do Sul, tendo protagonizado inúmeros ataques terroristas, incluindo um ataque suicida ao palácio presidencial, em 2012, no dia que o Presidente Hadi assumiu funções, resultando na morte de 26 guardas republicanos, e três meses mais tarde outro ataque que matou 96 soldados em Sana. Este grupo tem sido o principal alvo dos inúmeros ataques dos EUA no Iémene, desde 2009, usando aviões não pilotados, incluindo um ataque supostamente sobre um campo terrorista que atingiu uma vila, matando mais de 60 civis, incluindo 28 crianças. Ataques que persistiram depois da derrube de Saleh, tendo o novo presidente, Abd Rabbuh Mansur Hadi recebdi grande apoio por parte dos EUA.

Os houthis, grupo minoritário no Iémene, com base no norte, tem vindo a combater o governo desde 2004, acusando-o de opressão durante o regime da República e durante a guerra entre 2004-2010, e por se terem sentido excluídos do processo político de transição desde o golpe (apoiado pelos EUA) que substituiu o presidente Saleh por um governo transitório liderado por Hadi, um governo frágil, corrupto e ineficaz (a taxa de pobreza é acima dos 50%).

Adam Baron defende que existe uma componente ideológica ao movimento, de fortalecimento do zaidismo face às ideologias influenciadas pela Arábia Saudita e a influência dos EUA sobre este país. Os houthis ganharam ascensão, logrando vir a participar no Conselho de Diálogo Nacional, iniciativa apoiada pelas NU para formar a nova constituição. Mas tensões entre os houthis e outras facções cresceram e resultou no colapso do processo. Em meados de 2014 realizaram manifestações contra o governo em torno do cancelamento de subsídios de combustível que os afectou brutalmente. Os protestos evoluíram para confrontos militares e em Setembro os houthis controlavam a capital do país, Sana. O sucesso da sua campanha militar deve-se em parte devido à grande fragilidade do governo e das forças militares.

Obrigaram então Hadi a formar um governo de unidade, mas recusaram-se a participar no governo tendo continuado a aplicar pressão, bombardeando a residência presidencial, prendendo o presidente e forçando a demissão do governo em Janeiro deste ano. Dissolveram então o parlamento, declararam um Comité Revolucionário liderado por al-Houthi, e declaram uma constituição em Fevereiro. Aparentemente os houthis estabeleceram uma aliança com o ex-presidente Saleh, tendo apelado para a eleição do seu filho, Ahmed Ali Abdullah Saleh, como futuro líder do Iémene.

Hadi fugiu para Aden, no sul do país, donde rescindiu a sua demissão e declarando Arden como capital. Em Março, Hadi foi forçado a fugir do país para a Arábia Saudita, país que considera os houthis (xiitas) como posto avançado do Irão e Hezbollah, e logo uma ameaça nas sua fronteiras. Nessa altura retiraram-se também as tropas especiais e corpo diplomático dos EUA.

Esta semana a Arábia Saudita formou uma coligação militar com os Emiratos Árabes, Kuwait, Catar, Bahrein, Jordânia, Marrocos, Sudão, Egipto, e Paquistão (e apoio logístico e de inteligência por parte dos EUA) e iniciaram já uma campanha militar com ataques aéreos sobre o Iémene não tendo excluindo a possibilidade de envio de tropas terrestres, usando tropas sauditas e egípcias.

Há 6 meses, o Presidente Obama descrevia a situação no Iémene como um caso de sucesso no combate ao terrorismo, testemunho de que os EUA continua a possuir um nível de inteligência e compreensão da complexidade do Médio Oriente muitíssimo carente, ofuscada pela seu foco do terrorismo e protecção dos seus aliados de circunstância que garantam seu domínio regional.