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Se a mulher já pode decidir, o Estado desistiu de proteger – os casos da IVG em Portugal

– 11 anos depois da publicação da Lei que finalmente alterou a criminalização da Interrupção Voluntária da Gravidez – apesar dos recuos que a direita retrógrada tentou forçar mas a luta derrotou – não servem apenas os relatórios numéricos da Direcção Geral de Saúde ou as suas análises quantitativas.

Se é certo que servem para provar cabalmente que o número de interrupções não só não tem vindo a aumentar, como o número de complicações pós-IVG tem vindo a diminuir muito significativamente, é também certo que a monitorização das políticas – coisa que inexiste em Portugal – compreende uma avaliação qualitativa. Isto é: como são tratadas as mulheres? Em que condições interrompem a gravidez? Que serviços são postos à sua disposição e qual é a sua avaliação desses serviços? Qual o papel dos profissionais? Que avaliação fazem os profissionais? Que avaliação fazem as mulheres?

Pois, aqui é que tudo começa a falhar e aquilo que deveria ser um avanço civilizacional e o respeito pelos direitos das mulheres muitas vezes é um pesadelo e continua a por em risco a saúde da mulher.

Dois exemplos, duas histórias de vida, duas experiências, uma a norte outra a sul:

A, descobre que está grávida. Solteira, com emprego precário, não tem condições para ter um filho. Consulta a página da DGS onde constam os estabelecimentos oficiais e os nomes dos médicos coordenadores e responsáveis pelos serviços. Ali consta a informação: centro de saúde. Aquele em que todos a conhecem. Telefona e pede para falar com a médica responsável de acordo com o site da DGS. A médica aposentou-se há 5 anos, não há coordenador e esse serviço já não está disponível porque os médicos são todos objectores de consciência.
– “O que faço?”
– “Tente no hospital”.

Liga para o hospital. “Só temos consultas às terças, agora só para a semana”. “Mas eu preciso de saber o tempo de gravidez por causa dos prazos.”. “Pois isso é um problema seu, quer marcar para a próxima terça-feira?”. “…Sim”.

Dez semanas, ao fim de dez semanas (e não 12 como sempre propôs o PCP), passa a ser ilegal.

Chega terça-feira, primeira consulta. Fica a saber-se o tempo de gravidez e supostamente a mulher tem direito a todas as informações previstas na legislação. Pois bem, a médica diz, você tem um curso superior, sabe ler, assine aqui em como foi informada. E tem que marcar uma consulta na psiquiatria.
Ela pergunta quando, a médica responde quando houver. Então e os prazos? Pois, quando houver. Chega a casa destroçada. Imediatamente lhe digo que a consulta é facultativa (poucos meses depois da revogação da consulta obrigatória imposta pela direita bafienta) e que deve ligar e marcar de imediato a interrupção por causa dos prazos. Insiste que a médica disse ser obrigatória. Insisto que deve pedir o nome da médica para fazer queixa à Ordem dos Médicos e ao hospital. E nos olhos dela.. desespero. Faço a chamada e marco a nova consulta para a interrupção. “Só às terças”. Pois, já sei. A primeira toma é no hospital. A segunda é em ambulatório. Em casa. Não assisti. Perguntei só no fim como estava. Destruída.

B., engravida. Quer ter filhos, não tem condições financeiras nem familiares. O pai culpa-a e diz que tem que interromper. Marcam a primeira consulta e são informados de tudo. Bem tratados. Ele diz-lhe que trate do assunto e vai embora a cantar. Ela fica sozinha a enfrentar uma gravidez desejada mas impossível.

Segunda consulta: junto das grávidas felizes. Primeira toma medicamentosa. Entra em pânico, não quer. Está ali só. São as enfermeiras que vêm em seu socorro. Que a acalmam. Que a ajudam e confortam. Várias horas depois toma o comprimido. Segunda toma dali a dois dias. Em casa. Não sabem se estará sozinha, acompanhada, nada.

Felizmente não está sozinha. Eu ligo à A. para saber como é. O que se sente. “Entras em trabalho de parto. Dói e perdes muito sangue. Nunca se deve estar sozinho. São cólicas horríveis durante horas. No fim, acabas por voltar ao normal devagarinho e a dor vai desaparecendo. Ficas exausta. Fisica e emocionalmente”.

B. perde demasiado sangue. Tem demasiadas dores. Não tem em casa nada que tenha sido recomendado no hospital (fraldas, pensos de maternidade, etc) além de brufen (????) e um antibiótico. Tudo é demasiado doloroso. Tudo é demasiado.

O dia passa e B. tem que ir trabalhar no dia seguinte. Não consegue. Mas ninguém passou nenhuma declaração ou «baixa» para que pudesse recuperar. Cabe-lhe só a si. Dias depois ainda está exausta e em baixo. Precisa de acompanhamento psicológico. Tem que o pagar com um salário que já não chega para o dia a dia.

Estas são duas histórias que se replicam, com diferentes matizes pelo país. Mulheres sozinhas deixadas a si mesmas.

Não, a segunda toma não pode ser em ambulatório. Se o for, tem que existir uma linha ou um profissional de saúde que possa acompanhar. Análises gratuitas imediatamente a seguir e acompanhamento psicológico e de planeamento familiar regular e reiterado.

Não, a mulher não pode ser mandada para casa sem os cuidados médicos, medicamentosos e outros. Não, a mulher não pode ter uma ivg sozinha. Não, um médico, ainda que objector de consciência não pode tecer comentários ou criticar e muito menos dizer «tem formação superior, assine». Não, um médico não pode protelar (nem o SNS) impedindo o cumprimento dos prazos.

As mulheres, a pulso e com muita, muita, muita luta conquistaram um direito fundamental, um direito humano. O Estado tem que o garantir. A todo o custo. Mude-se, pois a Portaria (não a lei) determinando claramente as obrigações do SNS perante a mulher e penalizações para os profissionais que a não cumpram.

São direitos fundamentais. E os direitos fundamentais não se adiam, não se contornam, não se evitam. Cumprem-se e fazem-se cumprir. E é mais do que tempo de respeitar as mulheres que tomam esta decisão, em toda a sua complexidade, em todos os seus direitos. Já.

A Alvorada das mulheres (parte II) #centenário19172017

Depois do primeiro texto, que pode ser lido aqui, continuo o breve e modesto contributo sobre a reflexão e luta das mulheres no quadro da revolução que abalou o mundo. O caminho e os seus construtores que levaram a uma das mais belas transformações na vida das mulheres no início do século XX.

I – A reflexão comunista e a situação da mulher antes da Revolução (2ª parte)

A situação da classe trabalhadora na Inglaterra, de Engels, escrito em 1844, aborda, pela primeira vez, o tema da introdução da máquina e a substituição de homens trabalhadores por mulheres e crianças como um complemento salarial.

A reflexão e análise de Engels expuseram as condições a que as mulheres eram submetidas: longas horas de posições ergonomicamente desadequadas, trabalhadoras lactantes cujo leite das mamas caía sobre as máquinas, as diversas doenças profissionais desenvolvidas, as multas aplicadas caso parassem para descansar. Ao mesmo tempo coloca pela primeira vez a contradição da produção capitalista com a estabilidade familiar/pessoal, introduzindo a questão dos efeitos da industrialização na família.

“Se  a   supremacia da   mulher   sobre   o  homem,  inevitavelmente   provocada   pelo  sistema   fabril,  é inumana ,  a   do  homem   sobre   a   mulher,  tal  como  existia   antes,  também   o era.”

Friedrich Engels, A situação da classe  trabalhadora na Inglaterra. Estão lançadas as bases para, partindo da uma «divisão natural» do trabalho em que às mulheres cabia a casa, questionar o futuro dessa divisão social.

Ainda nos seus primeiríssimos artigos na Gazeta Renana, em 1842, Marx assumiu a defesa da mulher, particularmente quanto ao direito do divórcio, rejeitando a ideia que que o casamento devia deveria ser indissolúvel.

N’A Ideologia Alemã (1846), Marx e Engels afirmam que “Esta divisão do trabalho, que implica todas estas contradições e repousa, por sua vez, sobre a divisão natural do trabalho na família e sobre a separação da sociedade em famílias isoladas e opostas umas às outras, esta divisão do trabalho implica, ao mesmo tempo, a repartição do trabalho e de seus produtos, distribuição desigual, na verdade, tanto quanto à quantidade como quanto à qualidade; onde a mulher e os filhos são os escravos do homem. A escravidão certamente muito rudimentar e latente na família é a primeira propriedade que, aliás, corresponde já plenamente aqui à definição dos economistas modernos segundo a qual ela é a livre disposição da força de trabalho de outro”.

Engels afirma que para que a emancipação da mulher seja uma realidade esta necessita de se incorporar no trabalho produtivo em larga escala social e que o trabalho doméstico não a ocupe além de uma medida insignificante. Em 1891, o Programa de Erfurt estabelece explicitamente que o Partido social-democrata alemão deveria lutar “por direitos e deveres iguais de todos, sem exceção de sexo ou de raça” e pelo “sufrágio universal igual, direto e secreto para todos os membros do império com mais de vinte anos, sem distinção de sexo, em todas as eleições” e defendia ainda a “abolição de todas as leis que, do ponto de vista do direito (…), colocam a mulher em estado de inferioridade em relação ao homem”.

Não obstante, as clivagens que existiam entre o pensamento comunista e o pensamento social-democrata, onde estavam integrados os comunistas alemães, aprofundavam-se e a análise e reflexão sobre o estatuto e papel social da mulher adensava-se.

Não é o trabalho feminino em si que rebaixa os salários ao entrar em competição com o trabalho masculino, mas a exploração do trabalho feminino pelos capitalistas que dele se apropriam

“Não é o trabalho feminino em si que rebaixa os salários ao entrar em competição com o trabalho masculino, mas a exploração do trabalho feminino pelos capitalistas que dele se apropriam” (Clara Zetkin, no seu discurso no Congresso de Fundação da II Internacional, 1889)

Apesar das resoluções aprovadas nos seus congressos, a social-democracia não colocou no centro de sua ação a luta pelos direitos sociais e políticos das mulheres e Clara Zetkin não deixou de denunciar o muito que havia por fazer:

“A II Internacional tolerou que as organizações inglesas afiliadas lutassem durante anos pela introdução de um direito de voto feminino restrito (…), permitiu também que o Partido social-democrata belga e, mais tarde, o austríaco se negassem a incluir, nas grandes lutas pelo direito ao voto, a reivindicação do sufrágio universal feminino (…), que o Partido dos socialistas unificados da França se contentasse com platónicas propostas parlamentares para a introdução do voto da mulher (…). A II Internacional nunca criou um órgão que promovesse em escala internacional a realização dos princípios e reivindicações a favor das mulheres. A formação de uma organização internacional das mulheres proletárias e socialistas para uma ação unitária e decidida nasceu à margem de sua organização, de forma autónoma”.

A par com Rosa de Luxemburgo, organiza o Partido Comunista e é eleita membro do Comité Executivo da Internacional Comunista e presidente do Socorro Vermelho, organização mundial de solidariedade às vítimas do fascismo.

Do ponto de vista teórico, Zetkin é fundamental na análise da situação da mulher, quer na Alemanha quer na Rússia, para onde é forçada a exilar-se. Partindo das concepções de Engels e Bebel, explora as mudanças do papel das mulheres com expansão e desenvolvimento da produção.  A  transição  para   a  produção mecânica faz com que a actividade doméstica vá perdendo importância e significado, criando novas contradições entre a necessidade de participação na vida pública e as múltiplas impossibilidades legais existentes.

Na Rússia, os bolcheviques partiam dos preceitos do socialismo científico, preocupando-se naturalmente com a ligação entre o trabalho assalariado e o papel deste na libertação da mulher uma vez que a Revolução viria a ditar a transformação de uma sociedade predominantemente camponesa para uma sociedade industrial. Marx,  Engels  e   Bebel analisaram as contradições capitalistas no seio da sociedade industrializada, já Clara Zetkin observou e analisou essas mesmas contradições no quadro da conversão do arquétipo da família camponesa em proletária.

Chegava, pois, o momento de olhar a sociedade resultante do imperialismo czarista, na consciência de que a lei, de per si, não seria condição de emancipação ou libertação, mas antes um instrumento de eliminação das concepções e directrizes antiquadas que regulavam as relações sociais, desde logo com um decreto inovador e progressista, até hoje não conseguido em muitas  sociedades ocidentais:  a substituição do casamento religioso pelo civil e o direito ao divórcio a pedido de qualquer um dos cônjuges. Um Código do Casamento, da Família e da Tutela é confirmado pelo Comité Executivo Central do Soviete em 1918, estabelecendo uma legislação baseada na igualdade entre mulheres e homens e na liberdade individual das relações familiares.

continua

Ela é que guia, e então?

Quando começámos a namorar ela já tinha a mota. Confesso que sempre tive algumas dificuldades (chamemos-lhe medo, pronto) em andar de mota, o que fez com que só passado vários meses me tenha sentido confortável, e a esforço, para me deslocar no dito veículo. Mas era estúpido não usufruir da mobilidade extra que se ganha numa Lisboa caótica e portanto tenho enchido o peito e temos ido a sítios com ela ao volante.

Ela vai sempre ao volante porque o passo de ser eu a conduzir de vez em quando não é fácil. Para começar aprendi a andar de bicicleta tarde e mal – sou um Indurain em estrada aberta, mas quando é preciso parar e retomar a marcha muitas vezes ou contornar obstáculos de forma constante, rapidamente me transformo numa criança de 3 anos que ainda não percebeu o que é isso de coordenação motora -, e nunca na minha vida experimentei fazê-lo em cidade. Ora, portanto, a passagem para as duas rodas e com motor, no meio dos buracos, dos semáforos verde-tinto, das ciclovias cheias de peões, etc., não será fácil…

Mas este texto não é sobre a minha dificuldade (medo) em pilotar uma vespa, é sobre os olhares que nos lançam quando a vêm a ela, mulher, ao volante, e a mim, homem, à pendura. E não são poucos nem de raspão. Há quem fique especado, com aquela expressão na cara de quem ainda acha que “parece impossível, um gajo daquele tamanho ser conduzido por uma gaja…”

Chega a haver dedos apontados, envergonhados e rápidos, mas apontados, chega a haver quem faça questão que eu perceba que estão a censurar, quem sabe a achar que serei meio-homem por me submeter a tamanha humilhação. E esta reprovação não é uma coisa exclusiva a fortes e viris machos, muitas mulheres imprimem a mesma expressão facial, o mesmo sorrisinho reprovador, os mesmos dedinhos marotos a censurar.

É por coisas como estas que continuo a soltar uma lágrima quando me dizem que vivemos num país que respeita a igualdade de género. E neste caso o “problema” é o homem, porque é a mulher que assume uma posição de poder, e isso é demais para as cabeças de muita gente, isso é um pecado indesculpável.

Estamos a anos-luz da total desigualdade e subjugação de um(uns) género(s) em relação ao(s) outro(s), mas também ainda estamos a anos-luz da total igualdade. E não chega que se trilhe um caminho legislativo em direcção à igualdade, é preciso mesmo é resolver as cabeças, as mentes e os hábitos.

A revolta dos cartões

O BE quer mudar o nome do cartão do cidadão para não utilizar termos “sexistas” e levanta-se um vendaval nas redes sociais sobre a intenção do agrupamento político. Ora se levanta a questão da oportunidade, ora a da prioridade, ambas frágeis pois que oportunidade é conceito subjectivo quanto baste para permitir que tudo quanto se queira seja inoportuno em todos os momentos. E prioridade é desculpa para adiar tudo quanto não se queira efectivamente debater.

Para o capital nunca é oportuno defender o aumento dos salários, por exemplo. E sobre oportunidade, por exemplo, que se dirá sobre o projecto do PCP para a suficiência do formato digital na entrega de teses para obtenção de grau académico? É uma prioridade? Tendo em conta que esse mesmo partido defende a gratuitidade total do ensino, não seria prioritário propor o fim das propinas? Portanto, no que às prioridades toca, uma coisa não impede a outra. Tal como o facto de o BE defender a mudança do nome do CC não impede o BE de defender o fim da discriminação salarial da mulher.

Portanto, sobre o cartão de cidadão, julgo que não podemos colocar a questão nem no pleno da oportunidade, nem da prioridade. A questão é mesmo sobre o acerto e justeza da posição política.

Há quem tenha embarcado com entusiasmo na moda da “@”, do “x” ou da repetição de termos. Vemos por aí “tod@s”, “todxs” e “todas e todos”, entre outras novas formas de inovar na oralidade e na escrita. Claro que, a manter-se esta prática, entrará nas normas da língua e da gramática, mas o que importa é compreender se faz algum sentido. Será o inglês uma língua menos machista porque não tem termos que distingam o feminino do masculino? Por exemplo com o correspondente “all”. Portanto a língua dos ingleses e dos americanos já ultrapassou as discriminações sexuais que julgamos ainda contaminarem a nossa? O facto de termos na nossa língua adjectivos, substantivos e pronomes com diferenciação de género torna-a machista? Por exemplo, os ingleses usam o “they” e nós temos o “eles” e o “elas” sendo que se convencionou o “eles” para uso unissexo sempre que necessário.

Ou seja, o género masculino é muitas vezes utilizado para substantivos e pronomes que remetem para colectivos, por mera convenção. Mas o contrário também sucede. Há substantivos colectivos e até individuais que são do género feminino e se aplicam indiscriminadamente a ambos os sexos (eis mais uma diferença entre género e sexo). Por exemplo: “gente”, “malta”, “massas”, “população”, “populações”, “plebe”, “corte”, “pessoa”.

Toda a gente perceberia o ridículo se eu, por ser do sexo masculino, me revoltasse por ser incluído nessa terminologia feminista que me dá por “pessoa”, ou que me inclui, para todos os efeitos nesse gigantesco gineceu que dá pelo nome de “república” e que assume a forma tão feminina de “democracia”.

E voltemos, então, à questão de género e igualdade – e agora é a Lúcia Gomes quem escreve: o Bloco também defende a paridade como forma de combater as desigualdades. E bem se viu o que a paridade fez pelas mulheres: a discriminação salarial persiste (e nuns casos até se agrava). O desemprego feminino aumenta (chamemos-lhe desempregue, para ser neutro), o acesso das mulheres à saúde sexual e reprodutiva é mais difícil porque as taxas moderadoras e o preço dos medicamentos sobe e, no entanto, há mais mulheres nas «lideranças» de partidos, há mais mulheres ministras, há mais mulheres deputadas, sem que isso tivesse qualquer reflexo na vida das mulheres trabalhadoras, por exemplo. Porque a sua política não deixa de ser de classe e não deixa de se submeter aos ditames de uma lógica patriarcal, a que também obedece a paridade: o poder.

Podemos ainda perguntar-nos porque é que o Bloco não coloca ênfase em propostas sobre o fim das discriminações salariais, mas nos cartões de cidadão. (E digo eu que sempre escrevi cartão de cidadã em peças processuais e requerimentos quando se trata de mulheres e nunca me passou pela cabeça ser um «problema» fazê-lo). Lembro-me, por exemplo, quando afirmou que a discriminação salarial na cortiça acontecia porque o Sindicato dos Operários Corticeiros tinha assinado um contrato colectivo que previa essa diferença salarial (esquecendo-se de referir que previa aumentos para todos os trabalhadores e melhores condições), pretendendo culpar o sindicato por essa discriminação.

Podemos perguntar porque é que o Bloco recusa a ligação entre tráfico de mulheres e exploração na prostituição e insiste na tentativa de profissionalização da prostituição e na transformação dos proxenetas em empresários ou das redes de tráfico em clusters empresariais (a consequência directa da profissionalização por mais que tentem pintá-la com os pós-modernismos e os insultos a quem defende a posição contrária).

E, portanto, podemos perceber que a política do soundbyte em nome da «igualdade» (já que as outras bandeiras já caíram, resultado da mobilização popular e das lutas de muitos anos de vários quadrantes políticos) tem dado resultado, pelo menos eleitoral.

Não será antes de perguntar: a revolta das redes sociais tem depois consequência? Ou é instantânea como as redes que a suportam?

Este texto foi escrito pelo pistoleiro Miguel Tiago e pela estalinista Lúcia Gomes. Epítetos agraciados pelos queridos e nada sectários bloquistas e bloquistos.

– Ó André, já chega de falar na barbearia, não?

A Figaro’s continua aberta, os ginásios e spas só para mulheres também. A primeira, nas condições em que está aberta, devia fechar, os segundos, devem continuar abertos. E porquê? Já muita gente explicou, mas muita gente continua a não querer entender. Repito resumidamente: a Figaro’s impede a entrada e/ou permanência física de mulheres no seu estabelecimento, os ginásios e spas exclusivos para mulheres, simplesmente não prestam serviços a homens, mas não os impedem de estar no estabelecimento.

– Ó André, mas há zonas exclusivas para mulheres nesses sítios, onde os homens não podem entrar.
– Ó Leitor(a), assim como num spa onde tu estejas a receber uma massagem e onde, durante o tempo dessa massagem, mais nenhum cliente, homem ou mulher, pode entrar. Assim como há estabelecimentos onde é preciso ser sócio para frequentar zonas exclusivas. Assim como, às vezes, há restaurantes que fecham para outros clientes porque há jantares privados nesse dia.

– Ó André, mas então achas normal que um restaurante não sirva mulheres, ou pretos, ou homossexuais?
– Ó Leitor(a), não, porque o serviço prestado pelo restaurante é servir comida, e boca toda a gente tem.

– Ó André, então pelo teu raciocínio, os clubes ou associações, podem dizer que não querem mulheres, chineses e gregos como sócios porque não têm serviços para essas pessoas, certo?
– Ó Leitor(a), sim e não. Sim, podem dizer que não têm serviços para um dos sexos, e portanto aí é natural que essas pessoas não queiram ser sócias deste clube. Desde que, como em qualquer outro estabelecimento público, possam essas pessoas circular livremente no seu espaço menos nas tais áreas exclusivas. Não, porque dificilmente um clube não tem serviços para pessoas de certas nacionalidades ou etnias, e isso já é discriminação por origem de nascimento ou cor de pele.

– Ó André, então mas um ginásio ou um spa tem serviços para homens e para mulheres, qual é a diferença? Não suam da mesma maneira? Não podem ser massajados da mesma maneira?
– Ó Leitor(a), não sei se já frequentaste um ginásio ou um spa, eu spas conheço mal, ginásios conheço muito bem e aproveito a deixa para saír do diálogo e voltar a falar para toda a gente.

Quem frequenta ginásios pode observar o comportamento de alguns homens nesses locais. Digamos que entre os urros guturais e, mais ou menos, genuínos de quem levanta dezenas de quilos, há sempre um olhar de soslaio para um rabo de uma mulher mais jeitosa, para uma barriga tonificada e descoberta que exercita os abdominais ao fundo da sala, para uma mulher que faz alongamentos encostada a um espaldar, etc…

Somos pessoas, temos olhos para ver, gostamos de corpos, é natural. Não podemos ser impedidos de olhar, mas talvez possamos ser impedidos de babar dos olhos prolongadamente. Quer homens quer mulheres, mas se vão ao ginásio sabem que os homens babam mais dos olhos. Mas se o problema fosse apenas este, estávamos nós bem.

O problema grave, e sério, e que pode começar a configurar assédio sexual, é quando o homem arranja maneira de se “ir fazendo” à sua colega de ginásio. Não se pode proibir uma conversa, mas com estes que a terra há-de comer já vi muitas mulheres a ficarem desconfortáveis com a abordagem de alguns homens virilmente suados. E quando essa abordagem é sistemática e não correspondida? E quando a mulher é obrigada a mudar a sua rotina para ir ao ginásio nas horas em que aquele homem não está presente? E quando o homem, mesmo depois de levar uma tampa continua a tentar a sua sorte? E se este homem tiver 120kg de músculos e a altura de uma torre e a mulher, ao pé dele, ficar ainda mais pequena do que na realidade é por se sentir invadida na sua privacidade enquanto exercita o corpo?

Foi por isto que a certa altura alguém se lembrou de criar ginásios e spas exclusivos para mulheres, porque muitas mulheres se sentiam desconfortáveis nos ginásios mistos. Porque muitas mulheres, por muito que tentassem ignorar, se sentiam despidas com os olhos e assediadas. Porque muitas mulheres, por via da pressão social que lhes é feita e que tenta impôr um cânone de beleza, tinham vergonha de ir exercitar um corpo que foge a esse mesmo cânone. Principalmente em frente de homens que gozavam com os seus “pneus”.

Claro que hoje em dia, com a massificação dos ginásios e com a normalização do exercício físico como componente essencial para uma melhor saúde, este problema diminuiu, mas persiste. Frequento um ginásio com uma sala mista, onde há sempre ou quase sempre mulheres, mas com uma zona exclusiva para elas. O acesso aos seus balneários e à sua sala exclusiva é feito através de um cartão magnético. E porquê? Basta olhar para os olhos de alguns homens quando elas entram na zona mista, basta ouvir as frases que lhes saem da boca, dirigidas directamente a elas ou dirigidas aos outros homens no ginásio.

Há ainda muito a ser feito na luta pelos direitos das mulheres, e certamente que a proibição estampada na porta da Figaro’s é um insulto e um retrocesso de décadas.
Hoje, na aldeia mais isolada do interior do país, já não se tolera que uma mulher seja impedida de entrar numa tasca. Apesar de ser possível continuar a ouvir um silêncio no momento em que uma mulher pisa o chão da tasca, todos os homens, por mais analfabetos e desinformados que sejam, já aprenderam que não é socialmente aceitável que se proíba as mulheres de frequentarem a tasca, que é um local público.

Que uma barbearia, no centro de Lisboa, recupere esta discriminação, além de ilegal, é simplesmente vergonhoso para uma cidade que se afirma cosmopolita e inclusiva, independentemente de género, cor de pele, religião e orientação sexual.
Bom, talvez menos inclusiva para quem seja de uma classe social mais baixa…