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As tragédias do nosso contentamento

Alan Kurdi. Sem ir ao Google, não serão muitos aqueles que se recordam de quem falo. Alan Kurdi correu mundo, parado, morto, num momento captado por um fotógrafo quando deu à costa da Turquia ao tentar escapar de Kobani, na Síria. Tinha três anos. Fugia dos horrores da guerra tentando atravessar ao Mar Egeu, num trajeto feito por milhares, como fazem outros milhares atravessando o Mediterrâneo. Alan Kurdi fugia da agressão à Síria, patrocinada pela UE, NATO e Arábia Saudita, cuja raiz do problema surge em 2009. Assad decide tornar a Síria uma plataforma de passagem de um oleoduto para abastecer a Europa. O projeto inicial deveria iniciar-se-ia no Qatar, passaria pela Arábia Saudita, Síria, Jordânia e entraria na Europa pela Turquia. Este era o plano inicial. No entanto, surgiu uma segunda proposta, que passaria pelo Irão, Iraque, Síria, Chipre e Grécia, que deixaria de fora Qatar, Arábia Saudita, Turquia e Jordânia. E foi a partir daqui que se iniciou, certamente, por mera coincidência, uma invasão de jihadistas ligados ao Daesh naquele país, depois da Primavera Árabe – prontamente apoiada por alguns setores supostamente progressistas – que se transformou num outono sem fim à vista.

Alan Kurdi morreu e a UE foi rápida a tomar medidas. Não abriu as fronteiras para quem morre a tentar fugir da morte, antes passou a pagar à Turquia – como se sabe, um país onde os Direitos Humanos são respeitados integralmente – para que os receba, a partir da Grécia, até ontem governada pelos radicais esquerdistas do Syriza, que afinal foram só mais do mesmo, a troco de dinheiro. 3.000.000.000 de euros para que a mercadoria de pele e osso siga da Grécia para a Turquia, afastando assim a tragédia para longe dos ossos olhos.

A nossa simpatia com Alan Kurdi demorou, mais coisa menos coisa, uma semana e meia. Todos partilhámos os cartoons, as primeiras páginas com a criança de cara colada na areia. Ela foi, afinal, mais um grão na engrenagem da Europa fortaleza que é o projeto europeu. Mas, como a onda que lhe molha a cara, a maré recua e, passados uns dias, já ninguém se lembra de Alan Kurdi. Porque alguém se lembra de dizer que resgatar refugiados que morrem no Mediterrâneo é ajudar redes criminosas de emigração ilegal e consta que, agora, o racismo e a xenofobia fazem parte do direito à liberdade de expressão. Ou ao politicamente incorreto, eufemismo repetido nos media para racismo e xenofobia.

Quando, aqui ao lado, avança a “Cara al Sol”, a maré de compaixão pela cara de Alan Kurdi colada na areia foi desvanecendo, mais ou menos como a espuma das ondas.

Surgiu, entretanto, o caso de Oscar Alberto Martinez e da sua filha Angie Valera, de dois anos. Morreram colados ao tentarem chegar aos EUA, fugidos de El Salvador, um dos países mais violentos do Mundo, também ele colado às Honduras e Guatemala, onde a miséria é pão nosso de cada dia. Morreram colados, de cara colada à lama, cobertos pela água que, mesmo turva, consegue ser mais clara do que o futuro que procuravam. Ali não há mar, há rios. E a água, que em tempos foi ponte, é agora poço sem fundo para milhares que enfrentam a morte para conseguirem viver. E voltamos a ver as caras coladas na lama, a foto partilhada nas redes, os cartoons, a incredulidade daquilo em que nos tornamos enquanto seres humanos. Mas passa. E passará cada vez mais rápido à medida que forem mais comuns. É a normalização destes casos. Do mesmo modo que as imagens de crianças, idosos, menos idosos, na Palestina, a serem assediadas, ameaçadas e mortas já não chocam ninguém. Porque as assumimos como normais, porque aquela zona do globo é assim.

Isto parece-nos tudo tão longe, tão distante, que o nosso choque só é emotivo porque há um impacto visual. Sem estas fotos, Alan Kurdi, Oscar Martinez e Angie Valera seriam anónimos, como outros milhares que tiveram a mesma sorte. Hoje mesmo, alguns países da Europa e da UE continuam a discutir o que fazer com estes peões no jogo político. Itália fecha-se, a Hungria envolve-se em arame farpado, a Bulgária banaliza a caça ao refugiado, a Polónia proíbe partidos comunistas, a Ucrânia saúda Bandera, os EUA aumentam muros – que já existiam antes de Trump, diga-se.

O sistema dominante precisa destes choques para que nos possamos sentir bem. Fazemos uns posts indignados, chocamo-nos e vamos dormir, com a cara colada na almofada até sabermos qual vai ser o assunto do dia seguinte. É a perceção de que fizemos a nossa parte, sem termos tempo – ou vontade ou, sobretudo, necessidade de pensar porque é que isto acontece. Porque se pensarmos que isto acontece porque todos nós permitimos que aconteça, o sistema tremerá mais do que o frio que estas pessoas enfrentam quando se fazem à morte à procura da vida. E, nessa altura, quando tremer, cairá.

Sanções à Venezuela: Cronologia de uma morte lenta

Hoje mesmo, o autoproclamado presidente de qualquer coisa na Venezuela, Juan Guaidó, vem pedir à UE que imponha novas sanções ao povo venezuelano. O sofrimento do seu povo ainda não é suficiente, Guiadó quer mais, precisa de mais, para que a estratégia resulte. Sobre sanções, já aqui escrevi o seguinte, em relação a outro assunto: “[Até 2006] Em 50 anos, foram impostas 141 sanções a países. Dessas 141 sanções, 85 foram impostas unilateralmente pelos EUA, com motivos tão diversos como desestabilizar Allende no Chile, apoiar a UNITA em Angola, na Nicarágua para desestabilizar os sandinistas, em Granada para afetar os simpatizantes comunistas, em Cuba para atacar os comunistas, na Jugoslávia para atacar Milosevic. Em todas elas, os que mais sofreram foram os povos afetados por este tipo de medidas, que, a cobro de desculpas como o “restabelecimento dos direitos humanos” – uma das justificações que surge amiúde quando se trata de embargos e sanções a países africanos – morreram e morrem aos milhões, todos os anos, devido à guerra económica movida pelas potências dominantes no panorama internacional.

Ainda não consegui encontrar um estudo que demonstre o impacto que as sanções têm e tiveram no descalabro económico da Venezuela. No entanto, fica uma cronologia da guerra económica de Obama e Trump que, neste como outros casos, em nada diferem uma da outra. Aguardo que alguém que apoie este golpe de Estado consiga dissociar o estado social e económico da Venezuela deste quadro. E que digam qual o país que conseguiria sobreviver com estas restrições.

14/04/2013: Nicolás Maduro é eleito presidente da República Bolivariana da Venezuela, com 50,6% dos votos expressos nas urnas. O seu principal opositor, Henrique Capriles Radonski, não reconhece a derrota eleitoral e apela os seus apoiantes para que saiam às ruas em protesto. O balanço foi de 11 chavistas mortos e 65 feridos.

12/02/2014: A oposição tenta derrubar o presidente pela força. Balanço: 42 mortos e 850 feridos. Face ao fracasso do golpe de Estado e, tendo em conta as derrotas eleitorais, inicia uma guerra económica e financeira, com o propósito de estrangular a população venezuelana e virá-la contra o governo revolucionário Bolivariano.

18/12/2014: O Congresso dos Estados Unidos aprova a lei 113-278, intitulada “Lei Pública de Defesa dos Direitos Humanos e da Sociedade Civil na Venezuela”. Este instrumento jurídico dita a linha de ação política dos EUA e dos seus aliados contra a Venezuela. Esta lei estabelece a possibilidade de tomar medidas unilaterais coercitivas contra a Venezuela nos domínios económico, financeiro e comercial. Para além disso, estipula que se deve “trabalhar” nesse sentido, junto com os seus parceiros e membros da Organização dos Estados Americanos (OEA) e da União Europeia (UE).

08/03/2015: O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, assina a Ordem Executiva 13692 – o “decreto Obama” -, que se baseia na Lei dos Poderes Económicos em Situação de Urgência Nacional; na Lei de Urgência Nacional e na Lei 113-278, declarando a Venezuela como uma “ameaça extraordinária e fora do comum, relativamente à segurança nacional e à política externa dos EUA”. Este decreto vai dar a cobertura legal aos ataques económicos que desde então incidem na Venezuela.

Abril de 2016: Começa o embargo financeiro. A partir desta data, são aplicadas restrições às instituições venezuelanas titulares de contas bancárias no estrangeiro que pretendam efetuar pagamentos em dólares, nomeadamente, para comprar medicamentos e outros bens de importação comuns, como por exemplo alimentos.

Maio de 2016: O banco alemão Commerzbank fecha as contas de várias instituições venezuelanas, incluindo as contas dos bancos públicos da Venezuela e da empresa pública petrolífera PDVSA – Petróleos de Venezuela S.A.

Julho de 2016: O banco americano Citibank proíbe a sua rede de intermediários bancários de efetuar transações com instituições venezuelanas, incluindo o Banco Central da Venezuela.

Agosto de 2016: O fecho unilateral das contas de intermediários bancários obriga a Venezuela a efetuar transações noutras moedas, sendo que a maior parte das receitas obtidas pela venda de petróleo é em dólares. O país sofre grandes perdas devido aos novos custos das transações, das taxas de câmbio e outros custos operacionais.

Agosto de 2016: O Novo Banco (Portugal) informa o Estado venezuelano, que não realizará mais nenhuma transação em dólares com bancos ou instituições venezuelanas, devido à pressão exercida pelos seus intermediários bancários.

Julho de 2017: A empresa Delaware, que gere os portfólios de títulos da PDVSA, informa a PDVSA que o seu banco intermediário, PNC Bank, não aceitará mais fundos provenientes da empresa petrolífera.

Julho de 2017: O banco americano Citibank rejeita um pagamento do Estado venezuelano destinado à compra de 300 mil doses de insulina.

21/08/2017: O Banco Da China, sediado no Panamá, informa a Venezuela que, no seguimento de pressões do Departamento do Tesouro dos EUA, bem como do governo do Panamá, não poderá realizar mais nenhuma transação em dólares a partir da Venezuela ou para a Venezuela.

22/08/2017: Vários bancos russos informam a Venezuela da impossibilidade de realizar transações com os bancos venezuelanos, devido à restrição imposta pelos bancos intermediários dos Estados Unidos e de vários países europeus.

23/08/2017: O banco intermediário BDC Shandong bloqueia uma transação da China para a Venezuela, no valor de 200 milhões de dólares. Seria necessário mais de um mês para que a Venezuela pudesse recuperar esta soma pecuniária.

24/08/2017: Donald Trump assina a Ordem Executiva 13808, intitulada “Imposição de sanções adicionais a propósito da situação na Venezuela”. Este decreto proíbe toda uma série de transações com o Estado venezuelano, e sobretudo com a PDVSA, e qualquer outra entidade pública da Venezuela. É, assim, estabelecida uma lista de restrições a operações financeiras :

– O Estado venezuelano e a PDVSA estão proibidos de emitir novos títulos de dívida.

– Interdição de efetuar transações de títulos emitidos pelo governo antes da entrada em vigor do decreto.

– É proibido o pagamento de dividendos ou de lucros ao governo da Venezuela, pela parte de entidades residentes nos EUA. Isto afeta sobretudo a Citgo, empresa subsidiária da PDVSA e que conta com três refinarias e 6 mil estações de serviço no território dos EUA.

– É proibida a compra de certos títulos do Tesouro e de dívida venezuelana.

A Casa Branca declara que este conjunto de proibições foi “cuidadosamente pensado para negar à ditadura de Maduro, uma fonte não negligenciável de financiamento”. O decreto 13808 visa a sistematização de ataques contra empresas públicas e operações comerciais e financeiras do Estado venezuelano, com o objetivo de destruir a economia do país. Relativamente a este assunto, o embaixador americano na Venezuela, William Brownfield declarou: “A nossa melhor resolução é precipitar o colapso do governo, mesmo que isso implique meses e anos de sofrimento para os Venezuelanos”.

Agosto de 2017: No seguimento de pressões do Departamento do Tesouro americano, a empresa Euroclear, uma filial do banco americano JP Morgan, congela as operações de transação sobre a dívida soberana da Venezuela. A Euroclear retém assim, desde esta altura, 1,2 mil milhões de dólares, pertença da República Bolivariana da Venezuela.

Agosto de 2017: O Banco Da China – filial de Frankfurt – recusa a emissão de uma transação no valor de 15 milhões de dólares devidos pela Venezuela à empresa mineira Gold Reserve.

05/09/2017: O Canadá e os EUA associam-se para “adotar medidas económicas contra a Venezuela e contra pessoas que contribuem ativamente para a situação atual do país”.

Outubro de 2017: O Deutsche Bank informa o banco chinês CITIC Bank do fecho de contas nos seus intermediários bancários, por terem aceitado pagamentos da PDVSA.

Outubro de 2017: A Venezuela compra vacinas e medicamentos à Organização Pan-Americana de Saúde, uma filial da Organização Mundial de Saúde, e, portanto, sob a égide da ONU. Em virtude da extraterritorialidade das leis norte-americanas, o banco suíço UBS rejeitará o pagamento, provocando um atraso de quatro meses na entrega das vacinas, desorganizando amplamente o sistema público de vacinação gratuito do Ministério da Saúde venezuelano.

03/11/2017: O presidente Maduro anuncia que a Venezuela reembolsou mais de 74 mil milhões de dólares aos seus credores nos últimos 4 anos. Apesar disto, as agências financeiras degradam a notação ligada ao risco de incumprimento da Venezuela, tornando assim mais difícil a obtenção de crédito no mercado de capitais.

09/11/2017: Os Estados Unidos sancionam um grupo de funcionários venezuelanos, evocando o “espezinhar da democracia e de administrar programas governamentais corrompidos de distribuição de alimentos”. Os funcionários responsáveis pela importação de alimentos no país ficam impedidos de assinar acordos comerciais, que favoreçam a política alimentar do governo.

13/11/2017: A UE proíbe a venda de material de defesa e de segurança interna à Venezuela.

14/11/2017: A agência de notação Standard and Poor’s declara o “incumprimento parcial” da Venezuela, apesar dos pagamentos regulares de dívida.

15/11/2017: O Deutsch Bank, principal intermediário do Banco Central da Venezuela, fecha definitivamente as contas desta instituição, colocando em perigo todas as suas operações bancárias.

Novembro 2017: A Venezuela compra medicamentos anti-malária (primaquina e cloriquina) ao laboratório colombiano BSN Medical. O governo da Colômbia impede a entrega dos medicamentos, sem nenhuma justificação.

Novembro de 2017: Os grupos farmacêuticos transnacionais Baxter, Abbott e Pfizer recusam emitir certificados de exportação com destino à Venezuela, tornando impossível a compra de medicamentos produzidos por estas empresas, nomeadamente de natureza oncológica.

Novembro de 2017: Os bancos intermediários recusam várias transações da Venezuela no valor de 39 milhões de dólares. Esta soma destinava-se a 23 operações de compra alimentar para as celebrações de Natal e fim de ano.

29/01/2018: O Departamento do Tesouro americano afirma que “A campanha de pressão contra a Venezuela começa a dar frutos. As sanções financeiras que impusemos obrigaram o governo deste país a entrar em incumprimento relativamente à sua dívida soberana, bem como da dívida da PDVSA. Podemos assim assistir (…) a um colapso económico total da Venezuela. Ou seja, a nossa política funciona e a nossa estratégia funciona, devemos por isso continuá-la”.

12/02/2018: O Departamento do Tesouro americano alarga as sanções financeiras contra a Venezuela. É proibido renegociar e restruturar a dívida venezuelana, bem como a dívida da PDVSA emitida antes de 25 de Agosto de 2017.

Março de 2018: 15 pugilistas venezuelanos são impedidos de participar nas competições de qualificação para os Jogos da América Central e das Caraíbas de 2018, devido à falta de acordo com a agência de viagens, emissora dos bilhetes de avião. Quando a empresa se apercebeu que se tratava do transporte da Federação Venezuelana de Pugilismo, os preços das passagens aéreas passaram de 300 dólares para 2 100 dólares por pessoa. Posteriormente, uma companhia privada propôs um voo charter para transportar a equipa. No entanto, Colômbia, Panamá e o México não autorizaram a aeronave a sobrevoar o seu espaço aéreo.

02/03/2018: Os Estados Unidos renovam por mais um ano, os decretos 13692 (Obama) e 13808 (Trump). O decreto 13808 impõe seis novas medidas coercitivas, tendo como objetivo, atacar a estabilidade financeira da Venezuela. O Gabinete de Crimes Financeiros dos Estados Unidos (FinCEN) alerta as instituições financeiras mundiais que as transações com entidades públicas venezuelanas são suspeitas de corrupção. Esta acusação, sem fundamento nem provas, tem como consequência a travagem do pagamento às empresas alimentares e aos laboratórios farmacêuticos, tornando difícil a importação de bens essenciais. Isto resultará no congelamento de 1,65 mil milhões de dólares, pertença do Estado venezuelano.

19/03/2018: O presidente Trump assina a ordem executiva 13827, que proíbe todos os cidadãos e instituições, de efetuar transações financeiras com a criptomoeda venezuelana “Petro”, mesmo antes de esta dar entrada nos mercados de criptomoedas. Esta decisão é a primeira do género a ocorrer na curta história das criptomoedas.

27/03/2018: O governo do Panamá publica uma lista de 16 empresas venezuelanas suspeitas, sem provas, de branqueamento de capitais e de financiamento do terrorismo.

19/04/2018: Steve Mnuchin, o Secretário do Tesouro dos Estados Unidos, reúne-se com representantes da Alemanha, Argentina, Brasil, Canadá, Colômbia, Espanha, França, Guatemala, Itália, Japão, México, Panamá, Paraguai, Perú e Reino Unido, para pedir “acções concretas, de forma a restringir, a capacidade dos funcionários venezuelanos corrompidos e das suas redes de apoio”. Afirma que o presidente Nicolás Maduro não tem legitimidade para pedir financiamento em nome do seu país. A drenagem financeira da Venezuela representa assim o único objetivo destas propostas.

Maio de 2018: São congelados 9 milhões de dólares ao Estado venezuelano, destinados aos tratamentos de diálise. Como consequência, 20 mil pacientes serão privados de tratamento.

Maio de 2018: O banco italiano Intensa Sanpaolo bloqueia o dinheiro destinado à construção do pavilhão da Venezuela na XVIª Bienal de Arquitectura de Veneza.

21/05/2018: Devido à reeleição de Nicolás Maduro para a presidência, Donald Trump reforça as sanções. De agora em diante, todos os cidadãos e empresas americanas estão proibidos de adquirir propriedades pertencentes ao governo da Venezuela no território dos EUA.

25/06/2018: O Conselho Europeu adota a decisão 2018/901, sancionando os membros da administração venezuelana, incluindo os que operam no sector da alimentação. Esta medida faz eco àquela que foi tomada um ano mais cedo pelos EUA (9 de Novembro de 2017), tendo como finalidade impossibilitar a compra de alimentos pelo governo venezuelano.

01/11/2018: O presidente Trump assina um novo decreto, autorizando o Departamento do Tesouro a confiscar as propriedades dos operadores do sector mineiro aurífero da Venezuela, sem que acusações penais ou civis sejam necessárias. O objetivo é o de impedir a recuperação, por parte do Estado da Venezuela, da bacia mineira de Orinoco, uma das maiores reservas mundiais de minério aurífero. O Secretário-adjunto do Tesouro americano, Marshall Billingslea, num absoluto cinismo, declarará, a propósito deste assunto: “Deveríamos manifestar mais indignação face aos danos infligidos ao ambiente e às populações indígenas”.

09/11/2018: O Banco Central do Reino Unido recusa devolver à Venezuela 14 toneladas de ouro pertencentes àquele país. Trata-se de um valor que ronda os 550 milhões de dólares.

13/12/2018: A fabricante norte-americana de pneus Goodyear fecha a sua fábrica na Venezuela. O motivo invocado pela direção da empresa é que “as sanções dos Estados Unidos tornam a sua atividade impossível naquele país”.

04/01/2019: Os governos do Grupo de Lima (Argentina, Brasil, Canadá, Chile, Colombia, Costa Rica, Guatemala, Guiana, Honduras, Panamá, Paraguai, Peru e Sainta Lúcia), com exceção do México, adotaram uma resolução para reforçar o bloco. O texto prevê estabelecer uma lista de personalidades jurídicas venezuelanas com as quais “não devem trabalhar, devem ter o aceso impedido aos seus sistemas financeiros e, se necessário, congelar os seus ativos e recursos económicos”. Igualmente, a resolução obriga os países do Grupo de Lima a trabalharem de perto com os organismos financeiros internacionais que integram para impedirem a cedência de novos créditos à República Bolivariana da Venezuela.

Fonte: https://www.romainmigus.info/

O eurocentrismo de Duarte Pacheco

Não, este não é só um texto sobre a Venezuela. Esta é uma reflexão sobre declarações proferidas por Duarte Pacheco, deputado do PSD, no Esquerda-Direita da SIC Notícias, sobre a legitimidade da ONU e da UE. Duarte Pacheco não é só mais um deputado, é também secretário da Mesa da Assembleia da República. A desvalorização do papel da ONU é um padrão que tem vindo a ganhar adeptos entre os representantes dos Estados mais reacionários e unilateralistas, como Trump nos EUA e Bolsonaro no Brasil.

Pacheco puxa dos galões e compara a ditadura fascista que vigorou em Portugal, durante 48 anos, com o momento que se vive na Venezuela. Ora, em Portugal, em 48 anos, houve sete eleições, todas viciadas, todas sem qualquer acompanhamento internacional. Em todas ganhou o fascismo. Na Venezuela, desde que Chavez subiu ao poder, por via eleitoral, em 1999, houve mais de 20 atos eleitorais e referendários; nuns ganhou o chavismo, noutros não, como foi o caso do referendo constitucional de 2007, que Chavez perdeu. Seguidamente, num outro referendo sobre a continuidade de Chavez como presidente, este ganhou. Desta vez, Jimmy Carter, ex-presidente dos EUA, e António Guterres, atual presidente da AG da ONU, foram observadores internacionais e atestaram a validade do ato. Nas eleições para a Assembleia Nacional, Maduro perdeu e foi criada uma Assembleia Constitucional, que era, de resto, uma exigência da oposição. Recorde-se que foi na Venezuela, país governado de forma ditatorial, segundo Duarte Pacheco, que a oposição pôde realizar o seu próprio referendo, sem qualquer acompanhamento internacional, e, no fim, queimar os votos, afirmando que 98% dos votantes decidiu pela destituição de Maduro. Aqui ao lado, em Espanha, há presos políticos por terem feito o mesmo na Catalunha. Um referendo. Negar tudo isto é, na melhor das hipóteses, ignorância. Na pior, manipulação descarada da opinião pública e alinhamento com a opinião publicada.

Pinochet vs Maduro

“Pinochet não pôs a economia tão mal como Maduro”. Esta é, talvez, uma afirmação tão nojenta como sem sentido. A economia chilena de Pinochet não piorou, porque foram precisamente os setores económicos oligarcas, com o imprescindível apoio dos EUA no assassinato de Allende. Achar que os setores económicos que promoveram o golpe sangrento que resultaria na ditadura sanguinária de Pinochet seriam os mesmos a sofrer as suas consequências, não pode ser só ignorância. É má-fé e reveladora de falta de caráter. Fazer de conta que as sanções económicas impostas pelos EUA e UE, à revelia da ONU, não têm qualquer preponderância na situação catastrófica da Venezuela, é desonesto. Não há outro nome.

ONU vs UE

Duarte Pacheco, mestre em Estudos Europeus, tem obrigação de saber qual é o papel da ONU, para o bem e para o mal. Estudou, com certeza, Tomas Hobbes e a sua teoria do conflito permanente, com a ausência de um Leviatão – uma entidade suprema que regulasse a relação entre Estados. A ONU, ainda que o seu órgão máximo, a Assembleia Geral, possa apenas aprovar ou rejeitar resoluções, sem caráter deliberativo, foi a forma encontrada para equilibrar as relações entre os Estados. Obviamente, com o papel central no seu Conselho de Segurança, há uma situação de desigualdade entre todos os seus membros, uma vez que nada garante – e acontece amiúde – que os países do Conselho de Segurança deliberem em função dos seus interesses estratégicos e políticos e não em favor dos interesses da maioria da sociedade internacional. Quando Duarte Pacheco afirma que “conhecemos a forma como funcionam muitas das democracias da ONU”, para justificar que a legitimação de Guaidó não tenha passado naquela organização, está, de forma lamentável, a questionar a legitimidade da ONU, como o fazem Trump e Bolsonaro no que respeita, por exemplo, à mudança das suas embaixadas para Jerusalém. No entanto, não surpreende. Duarte Pacheco era deputado do PSD quando Durão Barroso, à revelia da ONU, albergou uma das maiores farsas da História recente, que provocou milhões de mortos, com a cimeira das Lages e as provas, que nunca existiram, da existência de armas de destruição massiva no Iraque.

O eurocentrismo neocolonialista

Em França, há semanas que decorrem confrontos com os Coletes Amarelos. Resultaram, até ao momento, pelo menos, em 11 mortos, mais de 3.000 feridos, e centenas de detidos. Em Espanha, continuam detidos militantes independentistas catalães e bascos, para além de artistas condenados ao abrigo da célebre Lei Mordaça. No entanto, nestes casos, parece não haver nada de anormal. Duarte Pacheco não acha que haja comparação entre a situação em França e a situação na Venezuela. Os mortos franceses são menos mortos que os venezuelanos, os feridos franceses são menos feridos do que os feridos venezuelanos e os detidos são menos detidos. Porquê? Por nada. Apenas e só porque o renascido eurocentrismo neocolonialista assim o dita. Porque o eixo EUA-UE considera apenas uma forma de organização social e de Estado e é a democracia liberal. Tudo o que vá além disso, deixa de ser legítimo, ainda que haja razões históricas, culturais e sociais para que assim seja. Um mundo uniformizado sob a égide dos cidadãos europeus, tão melhores e tão mais avançados do que os indígenas do resto do Mundo. É por isso que Duarte Pacheco coloca a ONU num patamar abaixo da UE, onde pode haver mortos e feridos por protestos antigovernamentais, que continua a ser uma democracia. Não há outro motivo, embora a História nos ensine o que sucedeu após o descrédito da Sociedade das Nações. A ideologia dominante reconhece apenas o seu modo de organização. Para lá disto, é o vazio. É, no fundo, o neocolonialismo. Levar o nosso modo de vida a todo o Mundo, subdesenvolvido, de incapazes de se governarem sem a bênção dos seus colonizadores. É, no fundo, uma vergonha. O mapa abaixo, publicado pela AFP, demonstra este caminho que se está a trilhar. Para a agência de notícias francesa, o mundo é apenas América do Norte e Europa, dando espaço à China, mau era, atendendo à sua dimensão diplomática e política na cena internacional. No entanto, África não é considerada, nem a maior democracia do Mundo, a Índia, que não reconhece Guaidó como presidente da Venezuela. No fundo, todos sabemos que nada disto tem a ver com petróleo.

Tirem as mãos da Venezuela

Vivi na Venezuela meio ano e regressei três vezes em diferentes períodos. Estive em 2008, em 2010, em 2015 e há dois meses atrás. Portanto, duas vezes com Hugo Chávez e duas vezes com Nicolás Maduro. Percorri diferentes regiões do país, frequentei aulas na Universidade Central da Venezuela, em Caracas, assisti a diferentes actos eleitorais, participei em manifestações chavistas, vi protestos da oposição, conversei com comunistas, socialistas, trotskistas, anarquistas, social-democratas, neoliberais e fascistas, dei-me com indígenas, mestiços, africanos, europeus e árabes, conheci gente pobre e gente rica, estive com embaixadores, ministros, deputados e autarcas, convivi com militares, sindicalistas e empresários. Visitei as zonas ricas de Caracas com os seus apartamentos luxuosos e vivendas abastadas cercados de arame electrificado, câmaras de videovigilância e guardas armados. Passei muito tempo nas favelas construídas nas encostas das montanhas que cercam a capital da Venezuela.

Devido à quebra dos preços do petróleo no mercado internacional do qual depende a maioria da economia venezuelana rebentou uma crise que afectou outros países petrolíferos. As consequências sociais de uma crise à qual se somou um conjunto de sanções e bloqueios impostos pela União Europeia e Estados Unidos deram esperança às potências que sempre ambicionaram as maiores reservas de petróleo do mundo. Depois de uma década em que a Venezuela avançou em todos campos – erradicação do analfabetismo, democratização do acesso à saúde, construção de habitação social para 2 milhões de habitantes, supermercados do Estado com produtos a preços controlados – Washington e Bruxelas decidiram investir todas as cartas na subversão. Apertam o pescoço à Venezuela e dizem-nos que o problema é dos pulmões.

A oposição que tem partidos legais, que tem jornais, que tem canais de televisão, que faz manifestações legais, que tem cartazes e outdoors e que tem eleitos diz que é uma ditadura. Sempre que há eleições e perde, a oposição venezuelana diz que as eleições não são livres. Quando ganha reconhece-as sempre. Aliás, que as ganhe já significa que as eleições são livres. Agora, os Estados Unidos decidiram impor como presidente um tipo que até anteontem poucos conheciam na Venezuela, que pertence a um partido que não participou nas eleições presidenciais porque não quis. O que querem que acredites é que o legítimo presidente da Venezuela é Juan Guaidó que não recebeu um único voto para presidente da Venezuela e não Nicolás Maduro, eleito por 67% dos votos. Depois do Iraque, do Afeganistão, da Líbia e da Síria, se calhar já estava na hora de abrirmos os olhos. Os Estados Unidos e a União Europeia não querem qualquer democracia senão já teriam bombardeado a Arábia Saudita. O que querem é um novo banho de sangue porque estão interessados nos recursos da Venezuela: petróleo e ouro. Basta de que façam de nós lambe-botas dos interesses das grandes potências. É o povo venezuelano que deve resolver os seus problemas internos e escolher o seu próprio futuro sem ingerências externas.

Uma antiga aliança

O que se passa no Brasil com Bolsonaro, nos EUA com Trump, na Hungria e Itália com governos e governantes fascistas, é tudo reflexo contemporâneo de uma aliança já antiga. Nada de novo. Fascismo e capital, capital e fascismo. Nenhum desses actores subiu ao estrelato sem patrocínio, sem alavancas financeiras colossais. Nenhum deles ganhou prestígio por via de brilhantes curriculums académicos, muito pelo contrário. Ora, acontece que fascismo, capitalismo, imperialismo não se combatem com contra-correntes do género “EleNão”. Com essas e outras iniciativas, pode o fascismo bem.

O que é necessário é organizar, resistir, politizar, tomar partido e avançar. É necessário derrubar, sim, mas construindo. E se o “EleNão” dá uma possível resposta imediata ao derrubar, já o mesmo não ocorre em relação ao que virá depois. Nesse caso, depois da queda, estará um gigantesco ponto de interrogação, que pode, no limite, ser a porta para uma ameaça ainda maior, e a urgência dos tempos ensina-nos que não há grande tempo para perguntas. O fascismo sabe recompor-se e fá-lo rápido. A prova é que, depois do fim de Hitler, Franco, Salazar ou Mussolini, ele está aí. Em todo o lado.

A Síria aqui tão perto

Foto de bombardeamento saudita no Iémen, já partilhado
nas redes sociais como sendo em Goutha, na Síria

Woodrow Wilson, depois do final da I Grande Guerra, considerava que os Estados deviam ter em conta a Opinião Pública nas tomadas de decisão. Aliás, deveria ser a Opinião Pública a definir o caminho dos Estados. À parte de outros contributos para uma tentativa de reorganização do Sistema Internacional, o então presidente dos EUA esqueceu uma parte essencial sobre o que é a Opinião Pública, como se forma, quem a forma e com que meios.


Quase 100 anos depois, fica clara a insuficiência do pensamento, mas mantém relevância na análise da realidade internacional. A Opinião Pública é formada, informada e enformada, essencialmente, pela classe dominante, que controla o poder económico e os agentes que formam Opinião Pública, que por sua vez controlam os Estados, sendo os seus interesses antagónicos com os da Opinião Pública, que os assume, por paradoxal que possa parecer. Os dias de hoje deixam isso a nu. A manipulação da Opinião Pública atingiu dimensões inimagináveis há 100 anos. É por isso que os interesses dominantes atribuem diferentes graus de valor àquilo que chega e como chega à Opinião Pública e que, por conseguinte, a forma.

Daqui podemos verificar as diferenças de tratamento da crise na Venezuela, que nos chega como governamental, de sistema político e económico, mas na Colômbia e México são ciclos económicos e vagas de criminalidade, nas Honduras ou no Haiti a crise chega-nos como humanitária.

É por isto que, por vezes, abordamos a questão Síria, com toda a tragédia e complexidade que a envolve, pegando em imagens de Aleppo antes da libertação como sendo da Goutha. E, desvalorizando esse facto, assumimos que é trágico na mesma, porque as imagens não devem ser muito diferentes. Mas, no entanto, a normalização de imagens deslocadas da realidade que pretende retratar, é também uma forma de manipulação da Opinião Pública.

Habituámo-nos à violência em Gaza, por exemplo, a cujas fotografias de Aleppo também poderiam corresponder. Mas dura há tantos anos que já entra na nossa realidade como norma. Em Gaza é assim porque é assim.

Isto para dizer que a Opinião Pública que formamos a partir do que recebemos nos chega, não raras vezes, de forma a que resulte na seletividade do choque.


No Iémen, como na Síria, há uma tragédia humanitária que dura desde 2015, com mais de 9.245 mortos e 52.800 feridos. Entre as vítimas civis, 5.558 são mortais e 9.065 são feridos. Até 14 de Dezembro de 2017. Cerca de 75% da população necessita de assistência humanitária, incluindo mais de 11 milhões que necessitam de assistência imediata para sobreviverem – aumentou um milhão desde Junho de 2017. Há 8,4 milhões em risco de morrer à fome e a vida de 400.000 crianças com menos de cinco anos está em risco.

A diferença substancial no que concerne à perceção que chega à Opinião Pública, é que a intervenção no Iémen, com vista a depor o governo, é composta por EUA, Reino Unido, França e Arábia Saudita. O lado ocidental da perceção, portanto. Por incrível que pareça, sim, a visão saudita é também a que interessa ao Ocidente.

Tal como na Síria que tem, no entanto, uma diferença.Em 2009, Assad decide tornar a Síria uma plataforma de passagem de um oleoduto para abastecer a Europa. Iniciar-se-ia no Qatar, passaria pela Arábia Saudita, Síria, Jordânia e entraria na Europa pela Turquia. Este era o plano inicial. No entanto, surgiu uma segunda proposta, que passaria pelo Irão, Iraque, Síria, Chipre e Grécia, que deixaria de fora Qatar, Arábia Saudita, Turquia e Jordânia.

E é esta a raiz do problema e da perceção que nos chega, na formação da Opinião Pública. Um oleoduto que deixaria de fora os países do Médio Oriente com relações próximas com os EUA e os seus aliados, perdendo o controlo da sua distribuição, perante uma segunda hipótese, que permitiria abastecer a Europa a partir de outros países menos recetivos às interferência externas.

São estas razões que fazem com que Goutha, na Síria, nos pareça tão perto, e Sanaa, no Iémen, nos pareça tão distante.

O discreto Caracazo haitiano*


Dois meses. A revolta do povo haitiano estalou há dois meses e na comunicação social da classe dominante nem uma notícia. Talvez o critério editorial seja uma escala tanatológica de um para mil em que, para o Haiti ser notícia, é necessário mil haitianos mortos por cada morto estado-unidense. Mas hoje não há terramotos no Haiti e os rodapés dos telejornais voltarão a desfilar fait divers sobre celebridades, futebol, curiosidades avulsas, a grande questão nacional Santana versus Rio e um restaurante em Manchester que dá os restos aos pobres.

Entretanto, por todo o Haiti, o povo desafia nas ruas a proibição de manifestações contra o regime cleptocrata de Jovenel Moïse. O movimento que começou, em Setembro, quando foi apresentado o orçamento do Estado, como um protesto contra o aumento dos impostos e taxas sobre o trabalho transformou-se em mobilização nacional contra a doutrina neo-liberal, clamor pela soberania e exigência de demissão do governo de Moïse.

No poder há um ano, Jovenel Moïse, partido Tèt Kale, é apenas o último nome na longa lista de serventuários do imperialismo dos EUA que, desde o golpe de Estado com o selo CIA contra o governo democraticamente eleito de Jean-Bertrand Aristide, em 2011, se sucedem num caótico turbilhão de violência, miséria e privatizações. Moïse tomou o poder através de uma farsa democrática de um só acto eleitoral que, embora anémico (menos de 30 por cento dos haitianos votaram), exigiu o brutal esmagamento do movimento de massas. Depois de decapitar as duas agências anti-corrupção, Moïse deu o braço com o presidente do Banco de Desenvolvimento Interamericano, o guru neoliberal Luis Alberto Moreno e pôs em marcha a Caravana da Mudança, um bizarro circo que melhor pode ser descrito como um cruzamento entre um programa de austeridade, uma máquina de lavagem de dinheiro e um comício de demagogia itinerante.

Gosta do capitalismo? Vá para o Haiti!

As manifestações de massas sucedem-se, em Porto Príncipe, várias vezes por semana, apesar do Estado recorrer com crescente brutalidade à repressão. Na passada terça-feira, a título de exemplo, homens armados dispararam 24 tiros contra uma manifestação pacífica. As matrículas revelaram que os veículos dos atiradores pertenciam ao Estado. Mas nem as dezenas de detenções, nem os disparos, nem as provocações orquestradas pelo Estado estão a conseguir deter a luta das massas. Quando, no passado dia 21 de Setembro, Moïse tentou fazer uma demonstração de força, encabeçando uma parada militar na principal avenida da capital, uma chuva de pedras e garrafas obrigou comitiva do presidente a fugir. No dia 2 de Outubro, uma greve geral marcou a nova fase da luta, contra o neoliberalismo e pela demissão do governo, consciente da sua própria história.

Mais de duzentos anos depois da primeira revolta colonial e anti-esclavagista das Américas, o Haiti continua a pagar o preço do atrevimento. 60 por cento dos haitianos vive na pobreza e 25 por cento passa fome; 40 por cento é analfabeta e os um por cento mais ricos detêm tanta riqueza como os 45 por cento mais pobres; segundo a ONU é um dos países do mundo onde mais crianças são abusadas sexualmente. Mesmo ao lado da digna cuba socialista, inspiração de frequentes comparações absurdas e para onde os anti-comunistas mandam emigrar quem luta por um mundo mais justo, o Haiti apodrece. Infinitas vezes poderíamos responder «E você, gosta do capitalismo? Vá para o Haiti!»

À semelhança do Caracazo venezuelano de 1989, a revolta haitiana continua órfã de organização e liderança formal. O partido Fanmi Lavalas, do ex-presidente Aristide e a plataforma cindida da primeira organização, Pitit Desalin, do senador Jean-Charles Moïse, são as forças políticas mais influentes no movimento que permanece, contudo, essencialmente espontâneo. Como aconteceu com o Caracazo, a revolta haitiana não tem direito a primeiras páginas nem a prémios Sakharov. Mas até do mais discreto Caracazo pode florescer um Chávez.

*Primeiro esboço de um artigo publicado no jornal Avante! N.º 2292 de 2 de Novembro de 2017

Os filhos do Condor

Quantos urubus sobrevoam hoje a República Bolivariana da Venezuela?

Enquanto que o processo bolivariano levou educação, cultura, alimentação, trabalho, habitação a milhões de venezuelanos, a grande burguesia nacional viu ameaçados os seus privilégios como nunca antes. Estava habituada a conviver lado-a-lado com os maiores barrios do mundo (favela), mas sempre protegida pelos seus para-militares e sempre dominando os sistemas de produção e distribuição. A opulência nunca foi ameaçada durante todos os anos em que a aliança entre a grande burguesia venezuelana governava o território venezuelano como capataz dos grandes grupos económicos e da administração norte-americana.

Antes de 1999, o exército venezuelano tinha entre as suas patentes, oficiais dos Estados Unidos, a CIA tinha um gabinete no parlamento nacional e o barril de petróleo era vendido a 1 dólar para as companhias norte-americanas. Manter esse estado de coisas era tarefa dos governos a mando do norte, recompensado pela bondade dos EUA, fazendo dos capatazes e corruptos os ricos mais ricos da Venezuela. É verdade que essas camadas da burguesia não perderam grande parte dos seus privilégios, mas não é menos verdade que o processo bolivariano lhes retirou uma parte importante da sua influência na capacidade de decisão política e também uma boa parte da sua influência na economia.

Tomemos por exemplo o caso do açambarcamento de alimentos e bens que a burguesia levou a cabo nos últimos anos, com particular intensidade durante a agitação terrorista de 2017 e que agravou a escassez de alimentos e outros bens no território nacional venezuelano: o Governo dinamizou em menos de um ano, 31 mil comités locas de abastecimento público que distribuem a alimentação produzida pela empresa nacional central de alimentação, recém-criada. Ou seja, perante o boicote económico pensado e executado pela burguesia nacional e estrangeira, o Governo Bolivariano e o poder popular da Venezuela contrapuseram a produção e distribuição, rompendo com o esquema de distribuição capitalista, satisfazendo as necessidades mais básicas da população e assegurando a manutenção dos baixos índices de sub-nutrição que caracterizam a evolução democrática do país desde 2000.

O conjunto de missões (projectos apoiados pelo Governo) que agora integrarão a constituição como resultado do trabalho da assembleia constituinte eleita com a participação de oito milhões de venezuelanos consolida um trabalho que, no dia-a-dia do país e ao contrário do que o coro de mentirosos abutres propagandeia por todo o mundo, assegura serviços básicos e avanços concretos.

Na Venezuela, como pequenos exemplos (entre muitas missões),

a Gran Misión Vivienda assegurou um milhão e seiscentas mil novas casas para famílias dos barrios;

a Misión Barrio Nuevo, Barrio Tricolor distribui a todos os habitantes dos bairros a ferramenta e o material de construção necessário para assegurar a dignidade da habitação mesmo na favela;

a Gran Misión Barrio adentro leva cuidados de saúde a todos os habitantes das favelas;

a Misión Robinson que distribui um número impressionantes de obras literárias gratuitas a todos os venezuelanos e mobiliza vários meios de alfabetização por todo o território;
a Misión Arból que apoia a educação ambiental e promove o cuidado popular dos bosques e florestas;

a Misión Nevado assegura os cuidados a todos os cães errantes e sem dono, e também a muitos gatos, através da distribuição de alimentação e da vacinação e esterilização de todos os animais;

a Misión Alimentación garante a produção e a distribuição de comida por todas as famílias da Venezuela, mesmo no contexto de escassez provocado pelo açambarcamento. Mas muito mais missões compõem um programa de democracia popular e comunal que se conta entre uma das mais importantes, senão a mais, das experiências contemporâneas de democracia participativa e popular.

A questão, todavia, é a mesma de sempre: a luta de classes e a sua disputa nos diversos territórios. A Venezuela é hoje uma ameaça global para o avanço do capitalismo e do imperialismo, uma ameaça para a hegemonia política, económica e cultural dos Estados Unidos sobre o continente americano. Uma ameaça concreta, não só pelo que realiza no seu próprio território e como valoriza o ser humano na plenitude das suas dimensões, mas também pelo esforço tremendo que exerce para garantir a outros países da América Latina e Caribe o acesso a cuidados de saúde, a petróleo e energia baratos, e como constrói com esses povos um novo espaço de cooperação à margem do domínio imperialista dos Estados Unidos.

Essa luta de classes é tão velha quanto as classes e durará enquanto as classes existirem e tem imposto sobre a Venezuela uma guerra económica baseada na experiência do bloqueio a Cuba, acompanhada de uma intervenção militarizada da grande burguesia através principalmente do recurso à delinquência a soldo. Em nenhum outro país do mundo seria aceitável que fosse quem fosse se armasse de explosivos e projécteis, de capacetes e escudos, para partir, destruir, ameaçar, saquear, pilhar e perturbar a legalidade constitucional. Em nenhum outro país do mundo seria normal assistir a que tudo isso acontecesse sem que a polícia carregasse violentamente sobre esses grupos terroristas organizados que combinavam, todos os dias de madrugada, com os principais meios de comunicação o horário e a localização dos distúrbios a promover em cada dia.

A verdade é que em todas as imagens difundidas pela comunicação social dominante para ilustrar a violenta ditadura venezuelana se vê um grupo de terroristas de cara tapada, armado, violento, atacando as forças policiais, rodeando muitas vezes os deputados da oposição de direita, fascista e proto-fascista. A verdade é que em nenhuma imagem ou filmagem surge uma carga policial. A verdade é que foi ateado fogo a 20 cidadãos por serem supostamente Chavistas e que 9 morreram dessa forma. A verdade é que nenhum terrorista morreu queimado pelas forças policiais ou por qualquer manifestação chavista. A turba violenta e terrorista a soldo da CIA e da grande burguesia venezuelana organizou juntamente com a oposição “democrática” toda a sua intervenção com o objectivo concreto e explícito de provocar uma intervenção estrangeira em território venezuelano. O que a comunicação social nunca mostrou foi a diminuta dimensão desses “protestos”, ou a sua violência intrínseca, ou a sua limitação territorial a um bairro de Caracas, Chacao, distrito dirigido por um político da “oposição”. O que nunca mostraram foi a ligação entre os principais rostos da oposição aos interesses económicos, como a querida e jovem Lilian que aparece como heroína sem se referirem as suas ligações aos grandes grupos económicos e aos grandes nomes dos partidos de direita. A criação de um clima mediático de permanente instabilidade e de violência em torno da existência de uma suposta ditadura visava criar no panorama internacional uma percepção pública – bem nos termos do livro “da ditadura à democracia e alinhado com as tácticas dos EUA e de George Soros – que justificasse a utilização da força e que legitimasse a intervenção militar dos EUA, tal como aliás foi tão usual nas várias “primaveras” que destruíram estados inteiros e vergaram povos ante a miséria e a guerra por todo o mundo. A prova disso é o facto de terem sido os próprios porta-vozes da direita a solicitar aos EUA a intervenção militar, intervenção essa que Trump chegou a afirmar como possibilidade real contra o Governo Bolivariano.

Perante a reacção de todos os países da América Latina a essa possibilidade de intervenção militar, os EUA decidiram optar pelo velho método da guerra económica aplicando três sanções à Venezuela (seguidas por outros países e em vias de serem seguidas pela UE) e dezenas de sanções pessoais a vários titulares dos órgãos de soberania da república, arrogando-se donos da moral e da ordem mundial e polícias, juízes e carrascos em nome de todo o mundo e sob jurisdição global. Os EUA proibiram a Venezuela de negociar em dólar, o que impede o acesso da Venezuela ao mercado do petróleo, sendo que o petróleo é negociado nas praças mundiais em dólares. Ou seja, a Venezuela tem o petróleo mas não o consegue colocar nas praças porque não pode receber dólares pelo petróleo vendido. Ao mesmo tempo, os EUA proibiram a Venezuela de contrair dívida pública em dólar, ou seja, impede a Venezuela de gerir a sua própria dívida sendo que o mercado da dívida pública é dominado globalmente pelo dólar. É importante ressalvar que a Venezuela nunca falhou os seus pagamentos de dívida. A última das três principais sanções é a da proibição de distribuição de dividendos ao Estado pelas empresas públicas venezuelanas, o que representa um confisco internacional ilegal. Isto significa que nenhuma empresa pública venezuelana que actue em território estrangeiro pode fazer pagamentos de dividendos ao Estado Venezuelano porque tais dividendos têm de passar por contas bancárias internacionais do Estado e estão bloqueadas e congeladas. Portanto, a Petróleos da Venezuela não pode enviar para a Venezuela os lucros das suas plataformas em off-shore ou das suas refinarias no território estrangeiro.

Essa guerra económica não é uma consequência da situação social na Venezuela, mas bem pelo contrário: é uma parte importante da sua causa e origem.


A promoção da ideia de que a Venezuela Bolivariana é uma ditadura é conveniente dos vários urubus que sobrevoam o povo venezuelano, enquanto mina o seu sucesso aguardando que se vença em cadáver para que distribuam entre si os restos da carcaça como fazem por todo o globo, como fizeram no Iraque, na Líbia, na Síria e num sem número de outros países devastados pela guerra e pelo imperialismo. Os urubus do direita .net acompanham os urubus da comunicação social, que acompanham os urubus da União europeia que comem na mão do grande condor norte-americano. Condor aliás que dá nome a uma operação de submissão e destruição da América Latina e que apesar de ser animal andino pleno de dignidade não deixa de ser portador dessa característica tão ilustrativa do que são os EUA que é ser necrófago.

O Bloco de “Esquerda” acompanha certamente a atribuição do prémio Sakharov à chamada “oposição democrática” da Venezuela e aplaude a metodologia terrorista dessa “oposição” agora premiada. Os Estados Unidos aplaudem a União Europeia e agradecem todo o apoio do BE.

Ao contrário do que o artigo do direita . net já referido atrás diz, mentindo, não é verdade que a CNE venezuelana nunca tenha chancelado os números de eleitores para a constituinte. Claro que o BE mente habilmente e fala de 8.3 milhões de votos e depois diz que em lado nenhum a CNE (Conselho Nacional Eleitoral fala desse número. Claro que não porque esse número não é real: o número real é de pouco mais de 8 milhões e é fácil encontrar aqui.

Mas o que é importante nesse artigo não é a mentira. É a forma como demonstra bem o alinhamento do BE com as orientações fundamentais do imperialismo, contribuindo objectivamente para o coro de urubus que aguarda a queda do processo bolivariano e a recuperação plena dos privilégios. Esses terroristas que planeiam e táctica de perturbação e a agressão externa e que impõem a violência aos venezuelanos contam com a União Europeia e o BE, já se sabe. Mas o que daí resulta é que em cada uma das mortes na Venezuela, em cada derrota do poder popular, estão as mãos e a responsabilidade de todos os mentirosos do mundo, da dita esquerda ou da direita.

São muitos os urubus que sobrevoam em círculo o Estado Bolivariano. São mais os venezuelanos que resistem e mostram ao mundo que um povo pode caminhar com dignidade, levantando-se da lama a que foi sujeito durante séculos – pelo colonialismo espanhol, depois pela sujeição aos EUA – sem agredir outros povos e defendendo os seus, em luta pela paz, pela vida. E os urubus, por enquanto, não comem vivos.