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As tragédias do nosso contentamento

Alan Kurdi. Sem ir ao Google, não serão muitos aqueles que se recordam de quem falo. Alan Kurdi correu mundo, parado, morto, num momento captado por um fotógrafo quando deu à costa da Turquia ao tentar escapar de Kobani, na Síria. Tinha três anos. Fugia dos horrores da guerra tentando atravessar ao Mar Egeu, num trajeto feito por milhares, como fazem outros milhares atravessando o Mediterrâneo. Alan Kurdi fugia da agressão à Síria, patrocinada pela UE, NATO e Arábia Saudita, cuja raiz do problema surge em 2009. Assad decide tornar a Síria uma plataforma de passagem de um oleoduto para abastecer a Europa. O projeto inicial deveria iniciar-se-ia no Qatar, passaria pela Arábia Saudita, Síria, Jordânia e entraria na Europa pela Turquia. Este era o plano inicial. No entanto, surgiu uma segunda proposta, que passaria pelo Irão, Iraque, Síria, Chipre e Grécia, que deixaria de fora Qatar, Arábia Saudita, Turquia e Jordânia. E foi a partir daqui que se iniciou, certamente, por mera coincidência, uma invasão de jihadistas ligados ao Daesh naquele país, depois da Primavera Árabe – prontamente apoiada por alguns setores supostamente progressistas – que se transformou num outono sem fim à vista.

Alan Kurdi morreu e a UE foi rápida a tomar medidas. Não abriu as fronteiras para quem morre a tentar fugir da morte, antes passou a pagar à Turquia – como se sabe, um país onde os Direitos Humanos são respeitados integralmente – para que os receba, a partir da Grécia, até ontem governada pelos radicais esquerdistas do Syriza, que afinal foram só mais do mesmo, a troco de dinheiro. 3.000.000.000 de euros para que a mercadoria de pele e osso siga da Grécia para a Turquia, afastando assim a tragédia para longe dos ossos olhos.

A nossa simpatia com Alan Kurdi demorou, mais coisa menos coisa, uma semana e meia. Todos partilhámos os cartoons, as primeiras páginas com a criança de cara colada na areia. Ela foi, afinal, mais um grão na engrenagem da Europa fortaleza que é o projeto europeu. Mas, como a onda que lhe molha a cara, a maré recua e, passados uns dias, já ninguém se lembra de Alan Kurdi. Porque alguém se lembra de dizer que resgatar refugiados que morrem no Mediterrâneo é ajudar redes criminosas de emigração ilegal e consta que, agora, o racismo e a xenofobia fazem parte do direito à liberdade de expressão. Ou ao politicamente incorreto, eufemismo repetido nos media para racismo e xenofobia.

Quando, aqui ao lado, avança a “Cara al Sol”, a maré de compaixão pela cara de Alan Kurdi colada na areia foi desvanecendo, mais ou menos como a espuma das ondas.

Surgiu, entretanto, o caso de Oscar Alberto Martinez e da sua filha Angie Valera, de dois anos. Morreram colados ao tentarem chegar aos EUA, fugidos de El Salvador, um dos países mais violentos do Mundo, também ele colado às Honduras e Guatemala, onde a miséria é pão nosso de cada dia. Morreram colados, de cara colada à lama, cobertos pela água que, mesmo turva, consegue ser mais clara do que o futuro que procuravam. Ali não há mar, há rios. E a água, que em tempos foi ponte, é agora poço sem fundo para milhares que enfrentam a morte para conseguirem viver. E voltamos a ver as caras coladas na lama, a foto partilhada nas redes, os cartoons, a incredulidade daquilo em que nos tornamos enquanto seres humanos. Mas passa. E passará cada vez mais rápido à medida que forem mais comuns. É a normalização destes casos. Do mesmo modo que as imagens de crianças, idosos, menos idosos, na Palestina, a serem assediadas, ameaçadas e mortas já não chocam ninguém. Porque as assumimos como normais, porque aquela zona do globo é assim.

Isto parece-nos tudo tão longe, tão distante, que o nosso choque só é emotivo porque há um impacto visual. Sem estas fotos, Alan Kurdi, Oscar Martinez e Angie Valera seriam anónimos, como outros milhares que tiveram a mesma sorte. Hoje mesmo, alguns países da Europa e da UE continuam a discutir o que fazer com estes peões no jogo político. Itália fecha-se, a Hungria envolve-se em arame farpado, a Bulgária banaliza a caça ao refugiado, a Polónia proíbe partidos comunistas, a Ucrânia saúda Bandera, os EUA aumentam muros – que já existiam antes de Trump, diga-se.

O sistema dominante precisa destes choques para que nos possamos sentir bem. Fazemos uns posts indignados, chocamo-nos e vamos dormir, com a cara colada na almofada até sabermos qual vai ser o assunto do dia seguinte. É a perceção de que fizemos a nossa parte, sem termos tempo – ou vontade ou, sobretudo, necessidade de pensar porque é que isto acontece. Porque se pensarmos que isto acontece porque todos nós permitimos que aconteça, o sistema tremerá mais do que o frio que estas pessoas enfrentam quando se fazem à morte à procura da vida. E, nessa altura, quando tremer, cairá.

A OIT: Parente pobre das Organizações Internacionais

A Organização Internacional do Trabalho (OIT) foi criada em 1919 e tem sede em Genebra, Suíça, tendo sido galardoada com o Prémio Nobel da Paz na passagem dos seus 50 anos, em 1969, contando atualmente com 187 Estados-membros. Foi criada no âmbito da Sociedade das Nações e sobreviveu ao seu desaparecimento. Neste ano, em que se comemora o seu centenário, é pertinente fazer um balanço sobre o seu alcance, méritos, insuficiências e funcionamento. A OIT persegue uma forte preocupação com a necessidade de reconhecer e conferir um sentido humanitário ao mundo do trabalho, realçada na Declaração de Filadélfia (1944), onde pode ler-se: “o trabalho não é uma mercadoria”. Em 1998, a adoção da Declaração dos Princípios e Direitos Fundamentais do Trabalho constituiu uma resposta às preocupações da comunidade internacional face à liberalização do processo de globalização, tendo os Estados-membros reafirmado o compromisso perante os princípios da liberdade de associação e negociação coletiva, a eliminação do trabalho forçado, a abolição do trabalho infantil e a eliminação da discriminação em matéria de emprego. A introdução do conceito de “trabalho digno”, em 1999, passou a ser a agenda da OIT e estabeleceu as aspirações da dignidade humana no domínio das relações laborais, tendo fixado os objetivos sociais e normativos a atingir. Assim, verificamos três etapas na história da organização: o período anterior à II Grande Guerra, o período entre a II Grande Guerra e a desagregação da União Soviética e a era contemporânea, de aprofundamento do neoliberalismo nas relações laborais. 


Missão

A OIT define como missão a promoção da justiça social e o reconhecimento internacional de Direitos Humanos e laborais, considerando que a justiça social é essencial para uma paz duradoura e universal.


Revisão de 1944
“A declaração consagra os seguintes princípios: o trabalho não é uma mercadoria; a liberdade de expressão e associação é uma condição indispensável para um progresso constante; a pobreza, onde quer que exista, constitui um perigo para a prosperidade de todos; todos os seres humanos, qualquer que seja a sua raça, a sua raça ou o seu sexo, têm o direito de efetuar o seu progresso material e o seu desenvolvimento espiritual em liberdade e com dignidade, com segurança económica e com oportunidades iguais”. Esta declaração, anexa à Constituição da OIT, serviria de base à Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Estrutura

Não se pretende efetuar uma enumeração exaustiva da estrutura e funcionamento da OIT, mas antes sobre o seu propósito e o cumprimento deste. No entanto, é relevante considerar que, sendo uma organização composta por Estados, é a única organização internacional em que esta representação é tripartida: as delegações são compostas por dois membros representantes dos Estados, um das entidades patronais e outro vindo das organizações sindicais de cada país. É composta por três órgãos: o Conselho de Administração, com 56 membros – 28 representantes dos governos, 14 dos patrões e 14 dos trabalhadores e tem como missão elaborar a ordem de trabalhos da Conferência Internacional do Trabalho, onde participam todos os Estados com quatro membros, dois representantes do Estado, um do patronato e um dos trabalhadores, que reúne anualmente e tem como missão aprovar ou não as propostas elaboradas pelo Bureau (Repartição) Internacional do Trabalho, que consiste no órgão burocrático da organização.

Este é um facto que, em teoria, tem um papel relevante, mas pode não contribuir para a eficácia ou a justeza das medidas adotadas pela OIT. Colocar no mesmo plano o poder económico, a força de trabalho e o Estado não resulta, necessariamente, em ganhos para todos, pelo simples facto de que os Estados são, não raras vezes, reféns do poder económico e o poder económico apropriou-se dos Estados, conforme verificamos no caso português na muito valorizada, no plano da OIT, concertação social ou tripartismo interno (governo, patrões e sindicatos). Daí resulta que, num cenário de igualdade horizontal formal, acaba por prevalecer, na generalidade das vezes, a vontade daqueles que detêm os meios de produção, seja o Estado ou a entidade patronal. E, quando tal não sucede, faltam à OIT meios coercitivos que obriguem os países a cumprir o que ratificam.

As crises globais e as insuficiências da OIT

A OIT tem como objetivo, conforme referido acima, promover os Direitos Humanos e laborais como forma de alcançar a paz através da justiça social. Atendendo ao tempo histórico que vivemos, seria de facto importante haver uma entidade supranacional que formulasse padrões globais mínimos de direitos laborais. No entanto, este objetivo constitui, nos dias de hoje, uma tarefa bem mais complicada do que até há poucas décadas. O neoliberalismo, que se acentuou nos anos 70, a prevalência de um modelo económico reproduzido quase acriticamente e a sua relação – ou falta dela – com os Direitos Humanos, tornam esta tarefa não apenas extremamente difícil, mas pouco mais do que um paliativo. As crises cíclicas do capitalismo, que se estendem da área financeira à económica, afetam negativamente os direitos laborais, independentemente de as convenções da OIT serem ou não ratificadas. Aliás, Julia E. Samwer considera mesmo no seu estudo “The effect of ILO conventions on Labor standards, The structural change” que há países que adotam as Convenções como forma de ganharem prestígio internacional e benefícios comerciais, mas acabam por negligenciar a sua aplicação a nível interno. Portugal foi um exemplo disso mesmo. Na prática, a aplicação de uma Convenção, Resolução ou Protocolo está dependente do ordenamento jurídico de cada país, das formas de fiscalização e das instituições com essa incumbência conferida pelo Estado. No entanto, casos há, como em Portugal, em que é a própria entidade que tem como missão zelar pelos direitos dos trabalhadores, a Autoridade para as Condições do Trabalho (ACT), que incumpre com o que são direitos laborais básicos, essenciais e garantidos através não só da Convenção 98 da OIT, que consagra o direito de sindicalização e de negociação coletiva, mas também da Constituição da República Portuguesa, que os incumpre. Em 2015, os trabalhadores da ACT realizaram uma greve às horas extraordinárias para reivindicarem mais meios e, paradoxalmente, melhores condições laborais. Como retaliação, a direção da ACT cortou subsídios salariais aos trabalhadores. Para que a legalidade fosse reposta, foi necessário o recurso aos tribunais para que a entidade responsável por fiscalizar as condições e direitos laborais cumprisse ela própria a lei que se propõe aplicar a outros.

Troika em Portugal e ausência da OIT

Portugal foi intervencionado pelo FMI, BCE e CE com a assinatura do designado Memorando de Entendimento em abril de 2011. Neste caso, verificamos já que, em relação ao FMI, a OIT sai prejudicada – e com pesados erros que poderiam ter sido evitados com a sua participação, como podemos verificar no Balanço efetuado pela própria OIT. As medidas tomadas pela Troika foram dramáticas para a esmagadora maioria do povo português. Podemos ver no próprio documento assinado princípios contrários ao que são as orientações da OIT em matéria de segurança no trabalho, prestações sociais e segurança social, flexibilização do mercado laboral e perda de direitos adquiridos. Anos mais tarde, o próprio FMI viria a reconhecer que errou quer nas reformas estruturais propostas, quer no seu modo e tempo de aplicação a Portugal – e, de forma mais profunda, também à Grécia.

Fica assim no ar a dúvida de como seriam feitos o ajustamento e as reformas se a OIT tivesse desempenhado algum tipo de papel na elaboração do memorando. No fundo, se tivesse havido um equilíbrio entre pelo menos as duas OI que integram o panorama da ONU: FMI e OIT. No relatório de novembro de 2018, designado “Trabalho Digno em Portugal 2008-18: Da crise à recuperação”, a OIT é profundamente crítica dos caminhos adotados, como verificamos através da seguinte conclusão, entre várias que poderiam ser mencionadas: “No tradicional programa de ajustamento apresentado pela CE, FMI e BCE, a desregulação, a contenção salarial e as reformas para flexibilizar mais o mercado de trabalho são apresentadas como ingredientes indispensáveis por forma a promover a desvalorização interna, acelerar o ajustamento e impulsionar a produtividade e o crescimento futuro. No entanto, os cortes salariais e a imposição de mercados de trabalho extremamente flexíveis não resultaram em Portugal nem resultariam provavelmente noutros países da Zona Euro. Na realidade, até podem prender os países numa concorrência com base nos preços e conduzir a uma maior dualização a nível nacional e transnacional. São extremamente necessárias melhores provas e análises sobre o impacto e as modalidades dessas reformas”. Como exemplo, verificamos a desregulação dos horários laborais que surge através do conceito de flexibilidade, que mais não é, muitas vezes, do que o retrocesso para o trabalho à jorna, do direito ao trabalho mediante as necessidades dos patrões e não como um direito universal. Neste campo, estamos perante uma violação da alínea a) do artigo 1º da Convenção 47 da OIT, sobre a implementação das 40 horas semanais de trabalho, de 1935, que entrou em vigor a 23 de junho de 1957. Portugal nunca ratificou esta Convenção. A título de curiosidade, verificamos que, dos 15 países que o fizeram, nove pertencem ao antigo Bloco de Leste, ou seja, ratificaram a convenção enquanto membros da URSS e mantêm-na em vigor até hoje. Imaginemos, agora, que Portugal se recusava a cumprir um dos requisitos do FMI ou da OMC. Assistiríamos a um garrote financeiro, à especulação das agências de rating e a pesadas sanções económicas. Porém, os próprios dados do Ministério das Finanças indicam que a desregulação laboral – a livre concorrência entre mão-de-obra – imposta durante o Memorando de Entendimento e não revertida, não só não aumenta a produtividade como diminui a repartição dos resultados entre patrões e trabalhadores, fruto da precariedade: “A flexibilização das leis laborais deu incentivos às empresas para contratarem menos vezes sem termo, mais do que duplicando entre 2008 e 2017 a percentagem de contratos a prazo com a duração de três meses, mas ao contrário do previsto por quem defende essa flexibilização os resultados da investigação revelam que o efeito na produtividade foi nulo (e os salários também não aumentaram)”.

Definição Global de Boas Práticas Laborais vs Neoliberalismo

A OIT é uma organização que pretende definir boas práticas laborais internacionais comuns aos seus membros. No entanto, há correntes de pensamento extremamente críticas do seu funcionamento e do seu posicionamento político a nível internacional, bem como da falta de meios que forcem os países membros a adotarem de facto as convenções que ratificam. Por exemplo, o estudo do Health and Human Rights Journal; Challenging neoliberalism: ILO, Human Rights and Public Health Frameworks on Decent Work; Gillian MacNaughton and Diane Frey, deixa claro, de forma crítica, que a OIT marca os seus padrões de atuação por outras organizações com propósitos diametralmente opostos ou, se preferirmos, cujo foco não é a defesa do trabalho com direitos e dos trabalhadores como, por exemplo, o FMI ou a OMC.

Em janeiro deste ano (2019), surgiu uma polémica em relação a um gráfico publicado por Bill Gates aquando da cimeira de Davos, no início do corrente ano, para mais uma reunião do Fórum Económico Mundial, em que se verificava uma tendência de descida acentuada do número de pessoas que vivem abaixo do limiar de pobreza, como forma de caucionar as políticas neoliberais assumidas naquele tipo de fóruns. Através da sua Fundação e da sua subsidiária Our World in Data, o empresário rejubilava com o gráfico. No entanto, segundo os críticos, a imagem tem muito de propaganda e pouco de ciência, por diversos fatores, começando pela recolha de dados que, feita de forma científica, só existe desde 1981, pelo que qualquer comparação com o século XIX é especulativa. Depois, porque o gráfico assume como válido o valor de $1,90 USD – este valor mantém-se desde 2011 – como mínimo diário de sobrevivência. A OIT assume como padrão os $2USD. Ora, este valor é absurdamente baixo para os padrões de vida atuais, pelo que, segundo vários economistas, este valor deveria estar nos $7,40 USD para garantir as necessidades de básicas de nutrição e de esperança média de vida, bem como garantir que os filhos destes trabalhadores sobrevivem ao quinto ano de vida. E isto só será possível alcançar através de rendimentos do trabalho.

Em 2018, havia no Mundo cerca de 172 milhões de desempregados, o que corresponde a cerca de 5% da população mundial em idade laboral. No entanto, é chocante verificarmos que este valor, 5%, era o verificado em 2008, antes do início da crise económica e financeira, sendo que, em 2009, este valor estava nos 5,6%. Em suma, o aumento de 0,6 pontos percentuais deu-se num ano, ao passo que a recuperação para níveis anteriores à crise financeira global levou nove anos.

Declínio no número de convenções e recomendações 

Nos últimos 20 anos, houve um declínio do número de Convenções saídas da OIT. Entre 2000 e 2019, foram aprovadas apenas sete. Nos vinte anos anteriores, entre 1980 e 1999, foram aprovadas 29. Do mesmo modo, partindo da mesma referência temporal, verificamos que, no campo das Recomendações, foram aprovadas 15 e 29, respetivamente. Deste modo, numa altura em que assistimos à complexificação das condições laborais, há um decréscimo acentuado na tentativa de regulamentação e estabelecimento de valores universais sobre o desempenho do trabalho e as suas condições. Daqui se explica o referido anteriormente referido acerca de dois fatores: primeiro, o peso dos detentores dos meios de produção sobrepõe-se ao interesse dos trabalhadores; segundo, o neoliberalismo e as teorias de livre comércio sem barreiras, que visam a maximização do lucro a qualquer custo, considerando, ao contrário do que consta nos princípios da OIT e da Declaração de Filadélfia, que o trabalho é uma mercadoria. Recordamos que a OIT não tem poder sancionatório. Daí que, como veremos agora, urge que a OIT se reinvente.

Desafios para a OIT 

Perante este quadro, a OIT terá de reinventar-se para, devido à sua eficácia reduzida, não passar a ser meramente simbólica. A OIT, a Organização Internacional onde os destinatários das políticas económica ditadas por outras Organizações Internacionais, com poder sancionatório e de imposição, direta ou indireta, da sua linha ideológica, necessita de ver as suas competências reforçadas. A sua existência é vista por algumas confederações sindicais como o último marco de resistência dos trabalhadores para a garantia dos seus direitos, pelo que tem de responder às aspirações daqueles a quem promete defender os seus direitos.

No relatório “World Employment Social Outlook – Trends 2019”, uma análise do quadro atual e perspetivas de futuro, a OIT revela que dois mil milhões de trabalhadores eram informais, em 2016, o que constitui 61% da força laboral do mundo; mais de ¼ dos trabalhadores – empregados – do mundo vivem em pobreza extrema ou moderada. Do emprego criado após a crise de 2008, a maioria é mal remunerado, com contratos de trabalho temporário ou a prazo. No que respeita à contratação, Portugal foi, mais uma vez, um péssimo exemplo aquando da aplicação do Memorando de Entendimento; os acordos coletivos de trabalho e a contratação coletiva foram um dos grandes alvos: reduzir o poder dos trabalhadores na hora de negociar os contratos – com contratos individuais de trabalho, os trabalhadores estão numa posição ainda mais frágil em relação ao detentor dos meios de produção.

Voltando ao plano mundial, nos jovens com menos de 25 anos, 1/5 não estuda, trabalha ou frequenta qualquer tipo de formação. No acesso ao emprego, 75% dos homens em idade laboral estão empregados, enquanto, no que respeita às mulheres, apenas se verifica uma taxa de 48%.

Estes são os desafios que a OIT tem de enfrentar, estruturalmente, mas terá de ver os seus poderes reforçados no quadro da garantia do direito ao trabalho e à justa retribuição da riqueza entre todos os atores das relações laborais. Não basta criar programas de assistência e formação que, sendo parte importante, não resolvem o essencial da questão. O assistencialismo é, aliás, uma das formas encontradas pelo neoliberalismo para dar uma face humana à exploração. Uma empresa que pague mal ao trabalhador verá a sua imagem associada a uma imagem positiva se participar, por exemplo, numa recolha para um banco de alimentos. No entanto, esse banco de alimentos serve, não raras vezes, para apoiar os próprios trabalhadores dessa empresa, fruto dos baixos salários e da precariedade.

É, por isso, necessária uma mudança de paradigma que não coloque em pé de igualdade patrões e trabalhadores, porque a relação de forças não é igual. O trabalho meritório da OIT corre o risco de ser engolido pela ideologia neoliberal, que controla não só empresas, mas também Estados. Daí que seja necessário rever o funcionamento da OIT e a respetiva representatividade de cada delegação. Por exemplo, entre 2012 e 2015 o grupo dos patrões bloqueou o sistema de controlo de aplicação, por considerar que o direito à greve não faz parte do direito ao sindicalismo. É já neste ponto em que estamos. Cabe aos atores internacionais e nacionais romperem com o caminho que tem vindo a ser trilhado. Se houver vontade política, far-se-á uma adaptação pacífica às novas formas de trabalho e à relação de poder entre capital e trabalho. Se não houver, sucederá de forma mais incisiva, porque, como é afirmado na Constituição da OIT, “sem justiça social, não haverá paz”.

Fontes:


Julia E.
Samwer, The effect of ILO conventions on Labor standards, The structural
change;
The author is a DFG-grantholder and a PhD student at the Department of
Economics, University of Hamburg.

http://wp.peio.me/wp-content/uploads/2018/01/PEIO11_paper_65.pdf

Health and
Human Rights Journal; Challenging neoliberalism: ILO, Human Rights and Public
Health Frameworks on Decent Work; Gillian MacNaughton and Diane Frey
https://www.hhrjournal.org/2018/10/challenging-neoliberalism-ilo-human-rights-and-public-health-frameworks-on-decent-work/

The Guardian
– Bill Gates says poverty is decreasing. He couldn’t be more wrong, Jason
Hickel
https://www.theguardian.com/commentisfree/2019/jan/29/bill-gates-davos-global-poverty-infographic-neoliberal

OIT – “Trabalho Digno em Portugal
2008-18: Da crise à recuperação”
Novembro 2018
https://www.ilo.org/wcmsp5/groups/public/—dgreports/—dcomm/—publ/documents/publication/wcms_647524.pdf

FMI – Memorando de Políticas Económicas e
financeiras
https://www.imf.org/external/np/loi/2011/prt/por/051711p.pdf

Dinheiro Vivo – Ministério confirma: cortes em
suplementos de inspetores do trabalho são ilegais

https://www.dinheirovivo.pt/economia/ministerio-confirma-cortes-aos-inspetores-do-trabalho-sao-ilegais/


TSF – Empresas
não partilham ganhos de produtividade com os trabalhadores


https://www.tsf.pt/economia/interior/empresas-nao-partilham-ganhos-de-produtividade-com-os-trabalhadores-10679273.html?fbclid=IwAR3L4ZzkN7X4MdCfnM-DpOv-f-ARMcVYThqcGMi6563xU_8NFK3Pby5yjjw

O futuro também começa hoje

Fez, ontem, 80 anos que o fascismo tomou Madrid. Abria-se aquela estrada para a barbárie que só acabaria sepultada seis anos depois em Berlim. Há uma melodia cuja bateria não deixa de tocar no palco da vida. Para nos lembrar que esta é uma guerra que não acabou. Como as cordas da guitarra de Sigaro que, apesar de já não estar, soam porque nos vibram na memória. Porque a indiferença é o peso morto da história, Sócrates trocou o Corinthians pela Fiorentina para ler Gramsci no idioma original. E os corpos agitam-se, como se estivessem preparados para a batalha. A que se desata entre quem através da lâmina da espada faz política na rua. Quando se produzem revoluções e contra-revoluções, não são os votos que definem os avanços e os recuos do pêndulo nos momentos cruciais da história porque da indiferença ao compromisso há um intervalo de coragem. São as ruas que impõem a viragem que se projecta no futuro. A democracia que se constrói nos subterrâneos.

E vejo milhares de jovens entre o fumo vermelho das tochas. A maioria não sabe mais palavras em italiano do que aquelas que aprendeu com as letras de Banda Bassotti. Entre adidas e dr. martens, há punks com e sem crista, skinheads antifascistas e um gentio que preenche quase todos os espaços deste edifício ocupado pela população nos arredores de Madrid a que deram o nome de Atalaya. Se há meio ano, parou de bater o coração de Sigaro, ninguém quis deixar de estar presente para mostrar que uma voz não se perde quando se teve uma vida dedicada a cantar a revolução. De El Salvador à Nicarágua, de Donbass ao País Basco, a insubmissão exige mais coragem em tempos de cobardia. Ao longo de três décadas, poucos músicos se atreveram a desafiar a metralha fascista em contextos de guerra.

Poucos cantam e escrevem sobre a nossa realidade. Quantos músicos e escritores conhecemos que retratem os tempos que vivemos? A revolução portuguesa pariu inesquecíveis intelectuais cuja obra de um passado que era futuro jaz nos alfarrabistas e em lojas de discos para coleccionadores. Esses cumpriram o seu papel na sua época. Nós estamos órfãos. Poucos cantam as nossas lutas e contam-se pelos dedos os que fazem destes tempos sombrios uma ode à resistência. Mas ali, em Vallecas, bairro operário de Madrid, ao meu lado canta um torneiro mecânico que é delegado sindical e dinamizador de uma claque antifascistas nas horas vagas. Lá atrás, nos bastidores, longe dos holofotes da hegemonia capitalista, a contra-cultura respira-se em todas as partes. Organizam-se e partem para a batalha ideológica. Montam os seus estúdios, discográficas, editoras, livrarias, teatros, jornais, bares, ginásios e ousam fazer frente ao passado que nos querem impor uma vez mais. E não é caso único na Europa.

É certo que a revolução não é algo por que se espere. É algo que se constrói. E nesse processo podemos e devemos alavancar o futuro com espaços e experiências que arrebatem ao capitalismo o poder de contaminar todos os elementos que compõem a nossa existência.

O cozinheiro Kiko e as fake news

Hoje debate-se, no Parlamento, a desinformação. Há uns dias, a Agência Lusa organizou uma conferência sobre fake news. Do que ouvi, tirando o Paulo Pena, foi muito pouco relevante e continua a haver um discurso redondo dentro dos próprios profissionais da área da comunicação social: Os media têm de combater as fake news, mas não refletem no papel que desempenham na disseminação de fake news. Uma oradora usou mesmo, na sua apresentação, um print de uma notícia falsa publicada pelo Expresso, sobre uma suposta diretiva de Bruxelas (imagem daqui). Nicolau Santos, jornalista e administrador da Lusa, referia no evento que “o que se pratica nas redes sociais não é jornalismo, feito segundo os códigos de ética a que os jornalistas estão obrigados”. Em 2004, no entanto, “os códigos de ética a que os jornalistas estão obrigados” permitiram ir para a neve às custas do BES, cuja lista de jornalistas avençados continua em segredo. Mais tarde, em 2012, o mesmo jornalista lançou para o estrelato Batista da Silva, um especialista da ONU, quando, afinal, Batista da Silva era ninguém. Há, assim, aqui vários pontos interessantes a considerar, que, creio são relevantes para atendermos ao estado dos media em Portugal.

Pluralismo
Não há jornalismo sem jornalistas e a concentração de órgãos de comunicação social como propriedade de meia dúzia de grupos económicos é um fator determinante para o fim da pluralidade. Os mesmos jornalistas escrevem para o grupo e não para o OCS, pelo que, obviamente, não são precisos tantos jornalistas. É a lógica do mercado. Menos jornalistas, o mesmo trabalho, mais receita. Associada a isto, vem a precariedade. Menos jornalistas nos quadros, mais receita, o mesmo trabalho. No entanto, o mesmo trabalho é pior do que seria se fosse feito por mais jornalistas. Por isso, é essencial que haja redações com jornalistas e jornalistas com direitos. Sem isso, não há jornalismo. Há a repetição acrítica de notícias – verdadeiras ou falsas com base em agências de agências de agências.

Tempo
O tempo do jornalismo não é o tempo das redes. Ou, então, o jornalismo deixa de ser jornalismo e passa a ser parte das redes com tudo o que têm de bom – a informação ao segundo – e de mau – a informação falsa ao segundo. Aqui segue um exemplo:

Na verdade, a ponte bloqueada por militares a que se referem todas estas notícias, nunca foi inaugurada nem esteve em funcionamento, como se verifica nesta peça do La Opinión.

No entanto, a notícia foi acriticamente replicada pelas redações dos principais órgãos de informação portugueses. Passou a ser verdade perante a opinião pública. Do mesmo modo, o Observador avançava com a seguinte notícia:

A imagem é verdadeira. O Observador nunca reconheceu o erro.

A TVI noticiava, falsamente, que o PCP atacava a greve dos enfermeiros quando, na verdade, se referia à chantagem dos privados sobre a ADSE. À hora a que escrevo, o post da TVI continuava online.














































Herrar é umano
Partindo dos exemplos anteriores, a reflexão continua a não ser feita pelos próprios em torno das notícias falsas que divulgam. Nas semanas recentes, são muitos os exemplos, nomeadamente em relação à Venezuela. Onde é que fica aqui a autocrítica? Qual deverá ser o seu papel quando erram? Porque é que custa admitir o erro? Quando foi feita a autocrítica e a reflexão em relação ao que (não) eram as armas de destruição massiva no Iraque, que nos foram dadas como verdadeiras? Dos Capacetes Brancos na Síria, que nos apresentavam como sendo os rebeldes moderados mas que, como foi dito tantas vezes por tanta gente, não eram mais do que elementos financiados pelos EUA através da Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos, que estão agora a ser mobilizados para o Iémen? Que, de resto, ninguém se lembra.
Hoje mesmo, o site da revista Sábado revela a mirabolante história do cozinheiro Kiko, que seria autor do primeiro prato a ser cozinhado em Marte, vencedor de um concurso da NASA. A história apareceu na TVI, no 5 para a Meia Noite, no Observador e na inevitável Cristina. Para isso, o cozinheiro só precisou de escrever um comunicado que enviou às redações. Estas seguiram-no. Não investigaram, não questionaram. Já sabemos o papel das redes na desinformação. Talvez seja altura, como referi, de se discutir o papel da Comunicação Social na disseminação de desinformação.

Contrapoder
O jornalismo tem de ser contrapoder. A partir do momento em que passa a movimentar-se nos corredores do poder e tem como ambição lá chegar, acaba o jornalismo e começa outra coisa qualquer. Recordemos, por exemplo, o caso do Diário de Notícias, cuja lenta agonia há de levá-lo a desaparecer de vez e, paradoxalmente, talvez seja também este o motivo que o mantém vivo. No consulado do PSD-CDS, de Passos e Portas, o DN cedeu nada menos do que 10 jornalistas para integrarem assessorias no governo ou em organismos públicos. Licínio Lima, Carla Aguiar, Eva Cabral, Francisco Almeida Leite, João Baptista, Luís Naves, Maria de Lurdes Vale, Paula Cordeiro, Pedro Correia e Rudolfo Rebelo. Nenhum jornal digno desse nome pode dar-se ao luxo de perder 10 jornalistas. Nenhum jornalista digno desse nome faria o caminho que alguns destes nomes fizeram até chegarem, através dos jornais, e não do jornalismo, ao local que sempre desejaram. E, porque começo o texto falando em discurso redondo, talvez seja em casos como estes que se fecha o círculo da crise dos media, que tem agora nas redes e nas fake news a desculpa ideal para continuar a não olhar para dentro.

Sanções à Venezuela: Cronologia de uma morte lenta

Hoje mesmo, o autoproclamado presidente de qualquer coisa na Venezuela, Juan Guaidó, vem pedir à UE que imponha novas sanções ao povo venezuelano. O sofrimento do seu povo ainda não é suficiente, Guiadó quer mais, precisa de mais, para que a estratégia resulte. Sobre sanções, já aqui escrevi o seguinte, em relação a outro assunto: “[Até 2006] Em 50 anos, foram impostas 141 sanções a países. Dessas 141 sanções, 85 foram impostas unilateralmente pelos EUA, com motivos tão diversos como desestabilizar Allende no Chile, apoiar a UNITA em Angola, na Nicarágua para desestabilizar os sandinistas, em Granada para afetar os simpatizantes comunistas, em Cuba para atacar os comunistas, na Jugoslávia para atacar Milosevic. Em todas elas, os que mais sofreram foram os povos afetados por este tipo de medidas, que, a cobro de desculpas como o “restabelecimento dos direitos humanos” – uma das justificações que surge amiúde quando se trata de embargos e sanções a países africanos – morreram e morrem aos milhões, todos os anos, devido à guerra económica movida pelas potências dominantes no panorama internacional.

Ainda não consegui encontrar um estudo que demonstre o impacto que as sanções têm e tiveram no descalabro económico da Venezuela. No entanto, fica uma cronologia da guerra económica de Obama e Trump que, neste como outros casos, em nada diferem uma da outra. Aguardo que alguém que apoie este golpe de Estado consiga dissociar o estado social e económico da Venezuela deste quadro. E que digam qual o país que conseguiria sobreviver com estas restrições.

14/04/2013: Nicolás Maduro é eleito presidente da República Bolivariana da Venezuela, com 50,6% dos votos expressos nas urnas. O seu principal opositor, Henrique Capriles Radonski, não reconhece a derrota eleitoral e apela os seus apoiantes para que saiam às ruas em protesto. O balanço foi de 11 chavistas mortos e 65 feridos.

12/02/2014: A oposição tenta derrubar o presidente pela força. Balanço: 42 mortos e 850 feridos. Face ao fracasso do golpe de Estado e, tendo em conta as derrotas eleitorais, inicia uma guerra económica e financeira, com o propósito de estrangular a população venezuelana e virá-la contra o governo revolucionário Bolivariano.

18/12/2014: O Congresso dos Estados Unidos aprova a lei 113-278, intitulada “Lei Pública de Defesa dos Direitos Humanos e da Sociedade Civil na Venezuela”. Este instrumento jurídico dita a linha de ação política dos EUA e dos seus aliados contra a Venezuela. Esta lei estabelece a possibilidade de tomar medidas unilaterais coercitivas contra a Venezuela nos domínios económico, financeiro e comercial. Para além disso, estipula que se deve “trabalhar” nesse sentido, junto com os seus parceiros e membros da Organização dos Estados Americanos (OEA) e da União Europeia (UE).

08/03/2015: O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, assina a Ordem Executiva 13692 – o “decreto Obama” -, que se baseia na Lei dos Poderes Económicos em Situação de Urgência Nacional; na Lei de Urgência Nacional e na Lei 113-278, declarando a Venezuela como uma “ameaça extraordinária e fora do comum, relativamente à segurança nacional e à política externa dos EUA”. Este decreto vai dar a cobertura legal aos ataques económicos que desde então incidem na Venezuela.

Abril de 2016: Começa o embargo financeiro. A partir desta data, são aplicadas restrições às instituições venezuelanas titulares de contas bancárias no estrangeiro que pretendam efetuar pagamentos em dólares, nomeadamente, para comprar medicamentos e outros bens de importação comuns, como por exemplo alimentos.

Maio de 2016: O banco alemão Commerzbank fecha as contas de várias instituições venezuelanas, incluindo as contas dos bancos públicos da Venezuela e da empresa pública petrolífera PDVSA – Petróleos de Venezuela S.A.

Julho de 2016: O banco americano Citibank proíbe a sua rede de intermediários bancários de efetuar transações com instituições venezuelanas, incluindo o Banco Central da Venezuela.

Agosto de 2016: O fecho unilateral das contas de intermediários bancários obriga a Venezuela a efetuar transações noutras moedas, sendo que a maior parte das receitas obtidas pela venda de petróleo é em dólares. O país sofre grandes perdas devido aos novos custos das transações, das taxas de câmbio e outros custos operacionais.

Agosto de 2016: O Novo Banco (Portugal) informa o Estado venezuelano, que não realizará mais nenhuma transação em dólares com bancos ou instituições venezuelanas, devido à pressão exercida pelos seus intermediários bancários.

Julho de 2017: A empresa Delaware, que gere os portfólios de títulos da PDVSA, informa a PDVSA que o seu banco intermediário, PNC Bank, não aceitará mais fundos provenientes da empresa petrolífera.

Julho de 2017: O banco americano Citibank rejeita um pagamento do Estado venezuelano destinado à compra de 300 mil doses de insulina.

21/08/2017: O Banco Da China, sediado no Panamá, informa a Venezuela que, no seguimento de pressões do Departamento do Tesouro dos EUA, bem como do governo do Panamá, não poderá realizar mais nenhuma transação em dólares a partir da Venezuela ou para a Venezuela.

22/08/2017: Vários bancos russos informam a Venezuela da impossibilidade de realizar transações com os bancos venezuelanos, devido à restrição imposta pelos bancos intermediários dos Estados Unidos e de vários países europeus.

23/08/2017: O banco intermediário BDC Shandong bloqueia uma transação da China para a Venezuela, no valor de 200 milhões de dólares. Seria necessário mais de um mês para que a Venezuela pudesse recuperar esta soma pecuniária.

24/08/2017: Donald Trump assina a Ordem Executiva 13808, intitulada “Imposição de sanções adicionais a propósito da situação na Venezuela”. Este decreto proíbe toda uma série de transações com o Estado venezuelano, e sobretudo com a PDVSA, e qualquer outra entidade pública da Venezuela. É, assim, estabelecida uma lista de restrições a operações financeiras :

– O Estado venezuelano e a PDVSA estão proibidos de emitir novos títulos de dívida.

– Interdição de efetuar transações de títulos emitidos pelo governo antes da entrada em vigor do decreto.

– É proibido o pagamento de dividendos ou de lucros ao governo da Venezuela, pela parte de entidades residentes nos EUA. Isto afeta sobretudo a Citgo, empresa subsidiária da PDVSA e que conta com três refinarias e 6 mil estações de serviço no território dos EUA.

– É proibida a compra de certos títulos do Tesouro e de dívida venezuelana.

A Casa Branca declara que este conjunto de proibições foi “cuidadosamente pensado para negar à ditadura de Maduro, uma fonte não negligenciável de financiamento”. O decreto 13808 visa a sistematização de ataques contra empresas públicas e operações comerciais e financeiras do Estado venezuelano, com o objetivo de destruir a economia do país. Relativamente a este assunto, o embaixador americano na Venezuela, William Brownfield declarou: “A nossa melhor resolução é precipitar o colapso do governo, mesmo que isso implique meses e anos de sofrimento para os Venezuelanos”.

Agosto de 2017: No seguimento de pressões do Departamento do Tesouro americano, a empresa Euroclear, uma filial do banco americano JP Morgan, congela as operações de transação sobre a dívida soberana da Venezuela. A Euroclear retém assim, desde esta altura, 1,2 mil milhões de dólares, pertença da República Bolivariana da Venezuela.

Agosto de 2017: O Banco Da China – filial de Frankfurt – recusa a emissão de uma transação no valor de 15 milhões de dólares devidos pela Venezuela à empresa mineira Gold Reserve.

05/09/2017: O Canadá e os EUA associam-se para “adotar medidas económicas contra a Venezuela e contra pessoas que contribuem ativamente para a situação atual do país”.

Outubro de 2017: O Deutsche Bank informa o banco chinês CITIC Bank do fecho de contas nos seus intermediários bancários, por terem aceitado pagamentos da PDVSA.

Outubro de 2017: A Venezuela compra vacinas e medicamentos à Organização Pan-Americana de Saúde, uma filial da Organização Mundial de Saúde, e, portanto, sob a égide da ONU. Em virtude da extraterritorialidade das leis norte-americanas, o banco suíço UBS rejeitará o pagamento, provocando um atraso de quatro meses na entrega das vacinas, desorganizando amplamente o sistema público de vacinação gratuito do Ministério da Saúde venezuelano.

03/11/2017: O presidente Maduro anuncia que a Venezuela reembolsou mais de 74 mil milhões de dólares aos seus credores nos últimos 4 anos. Apesar disto, as agências financeiras degradam a notação ligada ao risco de incumprimento da Venezuela, tornando assim mais difícil a obtenção de crédito no mercado de capitais.

09/11/2017: Os Estados Unidos sancionam um grupo de funcionários venezuelanos, evocando o “espezinhar da democracia e de administrar programas governamentais corrompidos de distribuição de alimentos”. Os funcionários responsáveis pela importação de alimentos no país ficam impedidos de assinar acordos comerciais, que favoreçam a política alimentar do governo.

13/11/2017: A UE proíbe a venda de material de defesa e de segurança interna à Venezuela.

14/11/2017: A agência de notação Standard and Poor’s declara o “incumprimento parcial” da Venezuela, apesar dos pagamentos regulares de dívida.

15/11/2017: O Deutsch Bank, principal intermediário do Banco Central da Venezuela, fecha definitivamente as contas desta instituição, colocando em perigo todas as suas operações bancárias.

Novembro 2017: A Venezuela compra medicamentos anti-malária (primaquina e cloriquina) ao laboratório colombiano BSN Medical. O governo da Colômbia impede a entrega dos medicamentos, sem nenhuma justificação.

Novembro de 2017: Os grupos farmacêuticos transnacionais Baxter, Abbott e Pfizer recusam emitir certificados de exportação com destino à Venezuela, tornando impossível a compra de medicamentos produzidos por estas empresas, nomeadamente de natureza oncológica.

Novembro de 2017: Os bancos intermediários recusam várias transações da Venezuela no valor de 39 milhões de dólares. Esta soma destinava-se a 23 operações de compra alimentar para as celebrações de Natal e fim de ano.

29/01/2018: O Departamento do Tesouro americano afirma que “A campanha de pressão contra a Venezuela começa a dar frutos. As sanções financeiras que impusemos obrigaram o governo deste país a entrar em incumprimento relativamente à sua dívida soberana, bem como da dívida da PDVSA. Podemos assim assistir (…) a um colapso económico total da Venezuela. Ou seja, a nossa política funciona e a nossa estratégia funciona, devemos por isso continuá-la”.

12/02/2018: O Departamento do Tesouro americano alarga as sanções financeiras contra a Venezuela. É proibido renegociar e restruturar a dívida venezuelana, bem como a dívida da PDVSA emitida antes de 25 de Agosto de 2017.

Março de 2018: 15 pugilistas venezuelanos são impedidos de participar nas competições de qualificação para os Jogos da América Central e das Caraíbas de 2018, devido à falta de acordo com a agência de viagens, emissora dos bilhetes de avião. Quando a empresa se apercebeu que se tratava do transporte da Federação Venezuelana de Pugilismo, os preços das passagens aéreas passaram de 300 dólares para 2 100 dólares por pessoa. Posteriormente, uma companhia privada propôs um voo charter para transportar a equipa. No entanto, Colômbia, Panamá e o México não autorizaram a aeronave a sobrevoar o seu espaço aéreo.

02/03/2018: Os Estados Unidos renovam por mais um ano, os decretos 13692 (Obama) e 13808 (Trump). O decreto 13808 impõe seis novas medidas coercitivas, tendo como objetivo, atacar a estabilidade financeira da Venezuela. O Gabinete de Crimes Financeiros dos Estados Unidos (FinCEN) alerta as instituições financeiras mundiais que as transações com entidades públicas venezuelanas são suspeitas de corrupção. Esta acusação, sem fundamento nem provas, tem como consequência a travagem do pagamento às empresas alimentares e aos laboratórios farmacêuticos, tornando difícil a importação de bens essenciais. Isto resultará no congelamento de 1,65 mil milhões de dólares, pertença do Estado venezuelano.

19/03/2018: O presidente Trump assina a ordem executiva 13827, que proíbe todos os cidadãos e instituições, de efetuar transações financeiras com a criptomoeda venezuelana “Petro”, mesmo antes de esta dar entrada nos mercados de criptomoedas. Esta decisão é a primeira do género a ocorrer na curta história das criptomoedas.

27/03/2018: O governo do Panamá publica uma lista de 16 empresas venezuelanas suspeitas, sem provas, de branqueamento de capitais e de financiamento do terrorismo.

19/04/2018: Steve Mnuchin, o Secretário do Tesouro dos Estados Unidos, reúne-se com representantes da Alemanha, Argentina, Brasil, Canadá, Colômbia, Espanha, França, Guatemala, Itália, Japão, México, Panamá, Paraguai, Perú e Reino Unido, para pedir “acções concretas, de forma a restringir, a capacidade dos funcionários venezuelanos corrompidos e das suas redes de apoio”. Afirma que o presidente Nicolás Maduro não tem legitimidade para pedir financiamento em nome do seu país. A drenagem financeira da Venezuela representa assim o único objetivo destas propostas.

Maio de 2018: São congelados 9 milhões de dólares ao Estado venezuelano, destinados aos tratamentos de diálise. Como consequência, 20 mil pacientes serão privados de tratamento.

Maio de 2018: O banco italiano Intensa Sanpaolo bloqueia o dinheiro destinado à construção do pavilhão da Venezuela na XVIª Bienal de Arquitectura de Veneza.

21/05/2018: Devido à reeleição de Nicolás Maduro para a presidência, Donald Trump reforça as sanções. De agora em diante, todos os cidadãos e empresas americanas estão proibidos de adquirir propriedades pertencentes ao governo da Venezuela no território dos EUA.

25/06/2018: O Conselho Europeu adota a decisão 2018/901, sancionando os membros da administração venezuelana, incluindo os que operam no sector da alimentação. Esta medida faz eco àquela que foi tomada um ano mais cedo pelos EUA (9 de Novembro de 2017), tendo como finalidade impossibilitar a compra de alimentos pelo governo venezuelano.

01/11/2018: O presidente Trump assina um novo decreto, autorizando o Departamento do Tesouro a confiscar as propriedades dos operadores do sector mineiro aurífero da Venezuela, sem que acusações penais ou civis sejam necessárias. O objetivo é o de impedir a recuperação, por parte do Estado da Venezuela, da bacia mineira de Orinoco, uma das maiores reservas mundiais de minério aurífero. O Secretário-adjunto do Tesouro americano, Marshall Billingslea, num absoluto cinismo, declarará, a propósito deste assunto: “Deveríamos manifestar mais indignação face aos danos infligidos ao ambiente e às populações indígenas”.

09/11/2018: O Banco Central do Reino Unido recusa devolver à Venezuela 14 toneladas de ouro pertencentes àquele país. Trata-se de um valor que ronda os 550 milhões de dólares.

13/12/2018: A fabricante norte-americana de pneus Goodyear fecha a sua fábrica na Venezuela. O motivo invocado pela direção da empresa é que “as sanções dos Estados Unidos tornam a sua atividade impossível naquele país”.

04/01/2019: Os governos do Grupo de Lima (Argentina, Brasil, Canadá, Chile, Colombia, Costa Rica, Guatemala, Guiana, Honduras, Panamá, Paraguai, Peru e Sainta Lúcia), com exceção do México, adotaram uma resolução para reforçar o bloco. O texto prevê estabelecer uma lista de personalidades jurídicas venezuelanas com as quais “não devem trabalhar, devem ter o aceso impedido aos seus sistemas financeiros e, se necessário, congelar os seus ativos e recursos económicos”. Igualmente, a resolução obriga os países do Grupo de Lima a trabalharem de perto com os organismos financeiros internacionais que integram para impedirem a cedência de novos créditos à República Bolivariana da Venezuela.

Fonte: https://www.romainmigus.info/

Tirem as mãos da Venezuela

Vivi na Venezuela meio ano e regressei três vezes em diferentes períodos. Estive em 2008, em 2010, em 2015 e há dois meses atrás. Portanto, duas vezes com Hugo Chávez e duas vezes com Nicolás Maduro. Percorri diferentes regiões do país, frequentei aulas na Universidade Central da Venezuela, em Caracas, assisti a diferentes actos eleitorais, participei em manifestações chavistas, vi protestos da oposição, conversei com comunistas, socialistas, trotskistas, anarquistas, social-democratas, neoliberais e fascistas, dei-me com indígenas, mestiços, africanos, europeus e árabes, conheci gente pobre e gente rica, estive com embaixadores, ministros, deputados e autarcas, convivi com militares, sindicalistas e empresários. Visitei as zonas ricas de Caracas com os seus apartamentos luxuosos e vivendas abastadas cercados de arame electrificado, câmaras de videovigilância e guardas armados. Passei muito tempo nas favelas construídas nas encostas das montanhas que cercam a capital da Venezuela.

Devido à quebra dos preços do petróleo no mercado internacional do qual depende a maioria da economia venezuelana rebentou uma crise que afectou outros países petrolíferos. As consequências sociais de uma crise à qual se somou um conjunto de sanções e bloqueios impostos pela União Europeia e Estados Unidos deram esperança às potências que sempre ambicionaram as maiores reservas de petróleo do mundo. Depois de uma década em que a Venezuela avançou em todos campos – erradicação do analfabetismo, democratização do acesso à saúde, construção de habitação social para 2 milhões de habitantes, supermercados do Estado com produtos a preços controlados – Washington e Bruxelas decidiram investir todas as cartas na subversão. Apertam o pescoço à Venezuela e dizem-nos que o problema é dos pulmões.

A oposição que tem partidos legais, que tem jornais, que tem canais de televisão, que faz manifestações legais, que tem cartazes e outdoors e que tem eleitos diz que é uma ditadura. Sempre que há eleições e perde, a oposição venezuelana diz que as eleições não são livres. Quando ganha reconhece-as sempre. Aliás, que as ganhe já significa que as eleições são livres. Agora, os Estados Unidos decidiram impor como presidente um tipo que até anteontem poucos conheciam na Venezuela, que pertence a um partido que não participou nas eleições presidenciais porque não quis. O que querem que acredites é que o legítimo presidente da Venezuela é Juan Guaidó que não recebeu um único voto para presidente da Venezuela e não Nicolás Maduro, eleito por 67% dos votos. Depois do Iraque, do Afeganistão, da Líbia e da Síria, se calhar já estava na hora de abrirmos os olhos. Os Estados Unidos e a União Europeia não querem qualquer democracia senão já teriam bombardeado a Arábia Saudita. O que querem é um novo banho de sangue porque estão interessados nos recursos da Venezuela: petróleo e ouro. Basta de que façam de nós lambe-botas dos interesses das grandes potências. É o povo venezuelano que deve resolver os seus problemas internos e escolher o seu próprio futuro sem ingerências externas.

O BE defende um golpe militar na Venezuela?

O Bloco de Esquerda publica um artigo inenarrável contra a Venezuela que defende um golpe militar, assinado por Tomás Marquez, que repete o argumentário utilizado pelos governos, partidos de direita e órgãos de comunicação social alinhados com o imperialismo. Vamos desmontar, ponto por ponto, uma posição que se inscreve na linha histórica do BE de se orientar na sua reflexão sobre política internacional por aquilo que é dito por Washington ou pela União Europeia.

1. “não foram compridos os requisitos que são exigidos em Democracia, para a realização de eleições livres e democráticas”.

Depois da violência desatada pela oposição nas ruas da Venezuela, Nicolás Maduro apelou à paz e propôs reuniões com os líderes opositores que se vieram a realizar na República Dominicana com o apoio do Vaticano e de José Luiz Rodriguez Zapatero, ex-chefe do governo espanhol e antigo secretário-geral do PSOE. Desses diálogos, as duas partes chegaram a acordo sobre convocar eleições. Recordemos que a oposição fez uma campanha recolhendo assinaturas para convocar um referendo que destituísse Nicolás Maduro e conduzisse a eleições antecipadas. Ou seja, houve um princípio de acordo para a realização de eleições que, inexplicavelmente, uma parte da oposição logo a seguir recusou. Ainda assim, o presidente da Venezuela convocou eleições nas quais participaram, para além do próprio, outros candidatos opositores, apesar do boicote de uma parte.

Sobre a validade democrática do plebiscito basta-nos recordar o que disse Jimmy Carter sobre as eleições venezuelanas. O ex-presidente norte-americano que monitorizava eleições em todo o mundo há mais de uma década disse que “o processo eleitoral na Venezuela é o melhor do mundo”. Nicolás Maduro ganhou com 67,84% dos votos. O opositor Henri Falcón teve 20,93% e o opositor Javier Bertucci chegou aos 10,82%.

2. “Nicolás Maduro e seu partido mal denominado Socialismo do século XXI, não são mais do que usurpadores do poder através das armas, das ameaças e da corrupção, enganando o seu próprio povo e levando-o a uma ditadura, com a promessa de um novo estado social-democrático.”

Desde que Hugo Chávez chegou ao poder pela via eleitoral, em 1998, foram realizadas dezenas de eleições e referendos na Venezuela. Na maioria, ganhou o chavismo. Noutras a oposição, que, diga-se, nunca renunciou aos cargos que elegeu reconhecendo assim as eleições. A única vez que houve um golpe violento protagonizado por “usurpadores do poder através das armas” foi em 2002 quando um sector golpista do exercito, em conjunto com os partidos da oposição, sequestrou Hugo Chávez. Apesar disso nenhum partido da oposição foi ilegalizado.

3. “Em 20 anos de demagogia destruíram uma nação inteira, saquearam as sua riquezas, desapareceram com as suas reservas internacionais, expropriaram tudo o que havia e o que não havia também, expropriaram os sonhos e a vida dos venezuelanos e dos estrangeiros que fizeram da Venezuela a suas casa e a sua Pátria.”

Durante meio século, o sistema político e económico defendido pela oposição, por Tomás Marquez e, pelos vistos, pelo BE, afundou na miséria milhões e milhões de venezuelanos. Às crianças davam-lhes comida para cão para que não morressem de fome, o analfabetismo grassava pelo país, uma parte da população nunca tinha visto um médico e viviam em casas de cartão como cantou Ali Primera. Os avanços operados pela revolução bolivariana, mesmo com as consequências da actual guerra económica sobre o povo venezuelano, são indesmentíveis. Ao contrário de antes, o lucro do petróleo não ficou nas mãos da oligarquia mas foi repartida com a população. Como? O analfabetismo foi erradicado como atestou a UNESCO, a Venezuela tem, hoje, uma das mais elevadas taxas de acesso ao ensino universitário do mundo, construi 2,5 milhões de apartamentos onde alojou milhões de famílias e encheu as favelas de consultórios médicos. A água, electricidade, gás, combustível, telecomunicações são praticamente gratuitos. É a oposição que quer expropriar tudo isso e devolver o poder às elites.

4. “Cabe ao povo venezuelano, aos militares e à comunidade internacional, em cumprimento dos artigos 232, 233 e 350 da Constituição da República Bolivariana da Venezuela, reestabelecer a ordem democrática no país.”

Não há muito a dizer. Tomás Marquez e o BE, por intermédio, apelam a um golpe militar que cumpra os sonhos molhados da oligarquia venezuelana. Assim, sem esconder ao que vão, sustentam a tese de que Nicolás Maduro não é o presidente legítimo quando foi eleito por 67,84% dos votantes e tomou posse no Supremo Tribunal de Justiça porque, como diz a Constituição, a Assembleia Nacional não estava habilitada para o fazer porque a oposição não quer substituir por outros seus deputados desse órgão que foram eleitos em condições anormais.

A revolução bolivariana pese as suas contradições e erros próprios de um processo que apenas tem duas décadas de existência protagonizou avanços sociais, económicos, políticos e culturais. É uma revolução democrática assediada por todos os lados e também por esquerda que se diz democrática mas que usa a bússola do imperialismo para se definir. A derrota do chavismo na Venezuela seria um rude golpe e uma vitória do capitalismo.

Há cem anos, também havia na Alemanha quem se dissesse de esquerda mas se alinhasse com o imperialismo. Foi essa esquerda, dita democrática, que quando chegou ao poder assassinou violentamente Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht. Hoje são os mesmos que não têm problemas em apoiar invasões na Líbia e golpes na Venezuela.

Afinal, quem matou Luna Borges?

Há uma revolta que ferve nas veias quando vemos que há quem durma placidamente na sua cama indiferente às consequências dos seus actos. Fixem bem este rosto. Não é um número para acrescentar a qualquer estatística. É uma menina e chama-se Luna. Morreu ontem num hospital no interior da Venezuela.

O pai, meu amigo, desesperado, bateu a todas as portas para conseguir os medicamentos necessários para evitar que o coração da menina de um ano e sete meses deixasse de bater. Hoje, a raiva que Gustavo Borges expressa é a de um povo que resiste a uma agressão à que ninguém dá atenção porque jornais, rádios e televisões tratam de tergiversar o que se passa aqui.

É certo que não há uma crise humanitária. Mas há uma crise económica que tem, sobretudo, razões externas e, em alguns sectores específicos, consequências graves. Qual foi o objectivo político das sanções norte-americanas e europeias ao Iraque que levou à morte de um milhão de pessoas nos anos 90?

Luna acaba de ser vítima dessa guerra pelo controlo da Venezuela. Esta noite, os governantes europeus e norte-americanos que assediam a Venezuela dormiram descansados. Também os deputados europeus que votaram favoravelmente sanções contra Caracas. Ou os dirigentes do BE que anteontem abriam sorrisos enquanto diziam que nem Maduro, nem Bolsonaro, “democracia”. Alinhando-se com a direita portuguesa e reforçando a versão de Washington e Bruxelas sobre o que se passa na Venezuela. Recorde-se que Marisa Matias foi das poucas deputadas que à esquerda se alinharam com a direita europeia por mais sanções. Mas também lavam as suas mãos como Pilatos os jornalistas que alimentam uma novela mediática que justifique a asfixia económica e política do povo e do governo do país com as maiores reservas de petróleo do mundo.

Todos dormiram descansados e acordaram sem qualquer peso na consciência. Escondem que o controlo de capital imposto por Washington impede o governo venezuelano de importar medicamentos ao barrar o pagamento aos fornecedores. Em 2017, o Departamento do Tesouro norte-americano ditou uma ordem com a qual se impede fazer transacções e se impõe o encerramento de contas venezuelanas.

A Venezuela não consegue transaccionar em dólares, a não ser que seja com petróleo. Caracas praticamente não pode comprar medicamentos, material eléctrico, material automóvel, etc. O país tinha acordos com a Índia, Argentina e Brasil para a compra de medicamentos e esse negócio foi bloqueado pelas sanções, o que supõe graves consequências para a população venezuelana. Há-de haver, certamente, erros e falhas que possam ser apontados ao governo venezuelano mas que culpa tem Nicolás Maduro das consequências das sanções impostas por Washington e pela União Europeia? Que culpa tem de haver um bloqueio de boa parte dos bancos ocidentais às transacções de e para a Venezuela?

No meio disto tudo, quem matou, afinal, Luna Borges? Nicolás Maduro ou os nossos governos?

Aqui, o diário de Gustavo Borges.

*Texto de Bruno Carvalho, [Venezuela, 13 de Novembro de 2018]