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BE ataca Venezuela

«Não me custa nada condenar a falta de democracia na Venezuela.» afirmou, hoje, no JN, Mariana Mortágua, deputada do BE. Há uma semana, quando o PCP apresentou votos de solidariedade com os povos da Venezuela, Brasil e Colômbia, o deputado bloquista Paulino Ascenção afirmava que o seu partido rejeitava “qualquer abuso da força ao nível interno ou através de ingerência externa” e que condenava “qualquer limitação à liberdade de expressão e à livre determinação do povo da Venezuela”. Ou seja, o BE alimentava o peditório de que o governo venezuelano abusa da força e limita a liberdade de expressão.

Num momento particularmente grave na Venezuela, a par do Brasil, em que se tenta legitimar o derrube de Nicolás Maduro, o BE sobe ao muro da traição para dar força aos que já executaram um golpe fascista, entretanto derrotado pelo povo, em 2002. No parlamento europeu, os eurodeputados do BE aliaram-se à direita e abriram caminho à invasão na Líbia e, desde então, tentam repetidamente convencer-nos de que não fizeram nada disso. A haver uma agressão contra Caracas legitimada por uma opinião pública contaminada pelas Marianas Mortágua e Paulinos Ascenção de todo o mundo que saibam os deputados do BE que o criminoso não é só o que dispara. É também o que aponta.

É também curioso que os que dizem defender o legado de Salvador Allende conseguem ao mesmo tempo condenar a revolução bolivariana e Nicolás Maduro porque são, supostamente, os responsáveis pelo caos económico na Venezuela. É que quem tem pelo menos dois dedos de testa e um conhecimento mínimo da história sabe que também houve caos económico no Chile durante o governo da Unidade Popular fruto da mesma estratégia de sabotagem, desabastecimento e bloqueio promovidos pelos grandes grupos económicos, em conjunto com a direita e os Estados Unidos.

Também curiosamente, o BE continua calado sobre a maior deportação de seres humanos desde a 2ª Guerra Mundial que leva o carimbo do Syriza. A polícia de choque do regime grego desaloja milhares de refugiados dos campos e nem uma só palavra sobre o assunto dos amigos do peito de Alexis Tsipras.

A luta é dos trabalhadores e só ela conquista direitos

A situação na Grécia tem sido elemento noticioso essencialmente por questões humanitárias e pelas condições em que os refugiados têm chegado às suas várias ilhas.

Mas há algo que tem passado ao lado dos meios de comunicação social. Desde a tomada de posse do governo Syriza, a luta dos trabalhadores tem sido intensa, reiterada e tem enchido as ruas gregas com as reivindicações a que se aliam estudantes, reformados, movimentos sociais anti-racistas e antifascistas, numa unidade e solidariedade que tem chegado de vários países e de trabalhadores dos sectores privado e público. E intensa solidariedade também da PAME e dos trabalhadores com os refugiados, que têm estado ao lado destes, com distribuição de alimentos, abrigos e com a exigência de uma política que os respeite e dignifique como seres humanos.

48 horas de Greve Geral, nos dias 6 e 7 de Maio, convocadas pela maior central sindical grega – a PAME – contra as medidas antissociais promovidas pelos grupos de negociação do governo grego como a União Europeia e o FMI.

Anos, como em Portugal, de ataque aos direitos dos trabalhadores a fim de promover o grupo das multinacionais, cortes salariais, despedimentos, roubo de direitos da segurança social, nas pensões, privatização na saúde e educação, a precariedade, etc. As novas medidas impostas pelo terceiro «memorando» que atacam essencialmente os jovens e os pensionistas.

Têm sido as lutas contínuas dos trabalhadoras gregos que têm conseguido conter as medidas antissociais, como sempre foram as lutas dos trabalhadores que permitiram os avanços e impediram retrocessos em todo o mundo, mesmo quando as condições de luta se revelam difíceis e tantas vezes põem mesmo em causa as suas vidas.

No dia 1º de Maio, esse dia em que relembramos que a luta pelas 8 horas de trabalho, 8 horas de lazer e 8 horas para o que nos apetecer, luta que custou a vida de operários em Chicago, enforcados por exigirem o que hoje ainda nós exigimos, ecoaram na Alameda, em Lisboa algumas palavras que devem servir de compromisso e exigência:


Não desistimos e não claudicámos! Pelo contrário denunciámos o roubo organizado, lutámos, resistimos e combatemos a poderosa ofensiva ideológica com que nos tentaram intoxicar e anestesiar.
(…)
Não se estranha por isso que o Presidente do PSD tenha afirmado que este ano não há razões para celebrar o 1º de Maio. Para ele poderá não haver, mas para nós existem razões acrescidas para dizer que valeu a pena lutar, que Maio está na rua e a luta continua pela valorização do trabalho e dos trabalhadores, por um Portugal com futuro.
Este é o tempo de concretizar a esperança e lutar pela mudança!
(…)
O cumprimento das promessas credibiliza os políticos e a política e reforça a democracia.
(…)
Mas, nesta nova fase é preciso ir mais longe. Há muito caminho para fazer, um conjunto vasto de problemas para resolver e uma luta que não pode parar!

Este é um processo que tem, necessariamente, de evoluir quanto antes na resposta às necessidades dos trabalhadores, do povo e do país, sob pena de se transformar o sentimento positivo que hoje se sente um pouco por todo o lado, em desilusão e contestação. Este é um processo de mudança que não pode nem deve ficar estagnado ou fazer marcha-atrás.

E para que não haja marcha atrás, a luta, como sempre, foi e é o único caminho. E a luta também se faz da solidariedade internacionalista com todos os povos que lutam na Europa e no mundo contra o capitalismo, o imperialismo, as alianças burguesas dos governos europeus, os ditames da UE e da Comissão Europeia que queres os povos obedientes e calados.

Mas, como dizia o sindicalista irlandês Jim Larkin (Big Jim), em 1916: The great only appear great because we are on our knees. Let us rise! Os grandes só parecem grandes porque estamos de joelhos. Ergamo-nos!

Lista de Sindicatos que já se solidarizaram com a Greve Geral na Grécia:

Itália (USB), Turquia (Naklyat-Is, Sosyal Is), Suécia (SEKO Klubb 111), Catalunha (INTERSINDICAL-CSC), Espanha (CSU, Central Sindical Unitaria de Pensionistas y Jubilados, AST Alternativa Sindical De Trabajadores), Dinamarca (3F Youth), Palestina (Jawwal Union, AST Alternativa Sindical De Trabajadores), Áustria (Left Bloc), República Checa (Trade Union Association of Moravia, Silesia and Bohemia, OSCMS), Iraque (Federation of Workers’ Councils and Unions in Iraq), Paquistão (APFUTU), País Basco (LAB), África do Sul (NEHAWU), Federação Internacional de Educação– FISE, FSM, UIS de Pensionistas e Aposentados de la FSM, UIS de Serviços Públicos da FSM, UIS de Transporte da FSM, Federação Sindical Mundial, FSM, Chipre-SYXKA PEO, Albania-OSNP Patos, Italia-SGB, Gambia-Gambia Labour Congress, Portugal-CGTP-IN.

O futuro do Brasil não passa pelo Parlamento

Não houve como não parodiar e rir com as desgraçadas intervenções e justificações dos deputados brasileiros na famigerada votação do «impeachment». «Impeachment», diga-se, cujo verdadeiro equivalente de sentido é – convém memorizar – «golpada». E se algum dia lhe disserem o contrário não acredite, é mentira. Palavra de tradutor/intérprete.

Tudo aquilo naquela tarde/noite roçou o irreal, o ridículo. O problema é que o ridículo, no Brasil como noutras partes do globo, pode de facto ser muito perigoso. Sobretudo se tivermos a noção de que passa também por aquele leque de “decisores políticos” muito da vida de um dos países mais populosos do mundo. País esse onde grassa ainda uma grande disparidade social e económica, uma sociedade de alguns ricos e de muitos muitos milhões de pobres.

O destino efectivo, o futuro do país, esse decidir-se-á segundo a postura ou resposta que o próprio povo brasileiro entenda dar ante esta vergonhosa tentativa de golpe em curso

Importa, contudo, ter bem presente – é a História que no-lo ensina – que da mesma forma que o capital não respeita barreiras de formalismos e legalidades na sua acção monopolista e destruidora, o que faz abolindo ou contornando tais “minúcias”, também não há – não pode haver! – obstáculos formais ou legalistas que não possam ser derrubados quando estão em causa questões fundamentais como a democracia, o respeito pela vontade popular, a liberdade.

Importa assim reforçar a ideia de que quanto a esses pilares fundamentais, seja na América do Sul, na Europa ou noutras latitudes onde impere uma organização fundamentalmente burguesa de Estado, o destino do Brasil não se decide nem se decidirá em sessão parlamentar. Na Câmara de Deputados decide-se uma votação, uma mera formalidade. Já o destino efectivo, o futuro do país, esse decidir-se-á segundo a postura ou resposta que o próprio povo brasileiro entenda dar ante esta vergonhosa tentativa de golpe em curso.

Neste caso concreto, a solução terá que passar necessariamente por uma de duas vias: ou o povo luta nas ruas – em todo o lado – de forma firme e organizada – e é bom lembrar que o capital também se organiza e se organiza bem – contra este movimento reaccionário de uma direita corrupta e a soldo dos grandes interesses, ou então o povo – a vítima – será cúmplice e espectador manso da tomada de poder da grande oligarquia financeira nacional e internacional – hoje com mais vigor que no passado –, que há muito anseia pelo saque e controlo total das riquezas e potencialidades económicas do país.

Gás abafado em silêncio

Um bairro com forte presença curda, na cidade destruída de Aleppo, na Síria, foi bombardeado com armas químicas proibidas. O ataque foi reivindicado pelo grupo Jaysh al-Islam, uma facção sunita apoiada pela Arábia Saudita, uma daquelas que a imprensa portuguesa designava como “rebeldes” entre 2011 e 2014.

O grupo Jaysh al-Islam é uma das principais facções paramilitares na coligação de forças sunitas, salafistas, reaccionárias ou mesmo islamofascistas que combatem o Exército Árabe da Síria, comummente designado pelos media nacionais como “forças leais a Bashar Al-Assad”. Na esfera política, o Jaysh al-Islam é liderado por um homem chamado Mohammed Alloush, figura principal das facções jihadistas nas negociações que decorrem em Genebra com vista a eventual fim dos combates num país devastado pela acção dos grupos criminosos – sírios e internacionais – que para ali convergiram depois da destruição e da pilhagem de outros países, como a Líbia.

O ataque jihadista com armas químicas em Aleppo foi silenciado, ignorado e desvalorizado. Em Portugal, onde o ataque com armas químicas ocorrido no Verão de 2013 na zona de Damasco foi noticiado de forma extensiva – sempre no pressuposto, num demonstrado, de ter sido levado a cabo pelo Exército -, poucos saberão que uma facção jihadista declaradamente apoiada pelo principal aliado dos Estados Unidos da América na região levou a cabo um bombardeamento com armas proibidas, que provocou vítimas fundamentalmente entre a população civil curda. Creio que é totalmente legítimo que nos interroguemos acerca das razões que determinaram a cobertura extensiva do ataque de 2013 e o silenciamento generalizado do ataque desta semana.

Entretanto, de Genebra chegam notícias de uma interrupção abrupta das conversações de paz. De acordo com as notícias foram os chamados “grupos da oposição” que quebraram as conversações, enquanto a destruição da Síria continua.

Uma enorme porção do seu território continua ocupado por grupos islamofascistas de várias filiações, boa parte das quais directa e explicitamente apoiadas pelas ditaduras reaccionárias do Golfo. Na Síria, a destruição tornou-se num género de “novo normal” que por cá nos habituámos a observar como a consequência natural de uma certa selvajaria típica dos povos não ocidentais. Nada mais falso. Uma observação mais atenta do conflito que desde 2011 reduziu as principais cidades do país a escombros revela-nos um povo resistente e empenhado na resistência contra a destruição e o desmembramento do país. De resto, se como muitos defendiam em 2012 e 2013 houvesse de facto um movimento interno de oposição “democrática” em armas contra o governo sírio, os combates teriam há muito resultado na derrota das chamadas “forças leais a Bashar Al-Assad”, que é a expressão mediática para designar o Exército Árabe do país.

A Síria é uma lição para o mundo.

O que falta nos Panama Papers

O mundo acordou ontem com uma revelação explosiva. Os chamados Panama Papers prometiam colocar a nu um escândalo sem precedentes, de dimensão global, depois da fuga de documentos de uma empresa de advogados especializada em esconder dinheiro, a Mossack Fonseca, do Panamá. Importa referir desde já que há centenas de empresas que prestam este tipo de serviços, logo, esta lista está longe de ser completa. Afinal, o que diferencia esta lista que agora vamos conhecendo, do Wikileaks? Muita coisa. Demasiada.

Mãos de fada
A primeira grande diferença em relação ao Wikileaks é que, neste caso, a informação foi fornecida em bruto e está acessível a quem pretender consultá-la. No Panama Papers, a informação surge filtrada por um consórcio internacional de jornalistas de investigação, cerca de 200, oriundos de 65 países. O “Centre for Public Integrity (CPI) é uma organização que tem como principais doadores a Fundação Ford, a Fundação Carnegie, o Fundo da Família Rockefeller, a Fundação W. K. Kellog e a Fundação Open Society, propriedade do sinistro George Soros. E lá se foi a independência. Só isto deveria fazer soar campainhas de alarme em relação ao objecto da divulgação e ao ser real objectivo. As matérias parecem estar a ser tratadas com mãos de fada pelos benfeitores da CPI.

Wikileaks vs Panama Papers
Como referido atrás, o Wikileaks permite-me, ainda hoje, pesquisar tudo e mais alguma coisa, nomeadamente através de emails trocados por milhares de pessoas e entidades com a Stratfor, uma organização que se dedica a análises geopolíticas e que actua como centro de interesses dos Estados Unidos da América em todo o mundo. Ao contrário dos Panama Papers, em que a informação há-de ser divulgada aos poucos e com um critério que se desconhece, no Wikileaks eu consigo verificar as jogadas de bastidores e, por exemplo, o trajecto de Poroshenko para chegar ao governo da Ucrânia. E, no entanto, ele serviu só como peão, sendo um dos mencionados também nos Panama Papers. Outro exemplo que posso consultar sem filtros é a forma como a Stratfor mediava o patrocínio do RAAM pela Chevron, em Angola, para preparar um golpe de Estado.

Filtros
Como se verifica acima, há uma enorme diferença, e não é pequena: são os filtros por onde a informação passa até chegar a nós. Percebe-se, por isso, o corporativismo do Ricardo Alexandre, editor do Internacional da RTP, quando elogia a divulgação dos dados pelos jornalistas, garantindo a idoneidade deles. Pelos patrocínios atrás mencionados, faria tanto sentido acreditar que não há uma agenda nos Panama Papers como na imparcialidade das análises de Marques Mendes.

EUA fora do mapa
O dado mais curioso surge pelo facto de, até ao momento, não haver qualquer informação relativa a norte-americanos. E a verdade é que nem Putin surge directamente associado a qualquer offshore, pelo que pude ler até agora. Surgem pessoas que lhe são próximas, mas não ele. No entanto, é a cara dele que consta quando se fala em políticos e ex-políticos. E não David Cameron, por exemplo. Facto, até ao momento, é que os grandes visados estão por todo o Mundo, menos nos Estados Unidos da América. Fala-se em brasileiros, em argentinos, africanos, médio-oriente e Europa.

E as consequências?
Várias e nenhuma. Nenhuma, porque estes escândalos não são novos nem inéditos. Alguém se lembra do escândalo que envolveu Jean Claude Juncker e ficou conhecido como LuxLeaks? A investigação de então foi feita pelo mesmo grupo de jornalistas, que parece ter uma especial predilecção para não estado-unidenses. No entanto, o assunto era o mesmo. A consequência foi a sua nomeação para presidente da UE. Ninguém espera que os mesmos que alimentam o capitalismo, que jogam com os países como peças num tabuleiro de xadrez em defesa dos seus interesses particulares, nos forneça armas que coloquem o sistema em causa.

O exemplo da Islândia
A Islândia era, até há bem pouco tempo, a personificação do que alguns acreditavam ser um exemplo de como o capitalismo pode ser conciliador entre classes, entre exploradores e explorados, com o pomposo título de “Islândia iniciou o julgamento do neoliberalismo“. Nada mais falso. Nenhum neoliberalismo será julgado por leis burguesas de tribunais burgueses, que visam a manutenção do sistema em que vivemos. Agora, com o primeiro-ministro da Islândia entre os envolvidos no Panama Papers, pode ser que consigamos todos perceber que há coisas que não se reformam. São irreformáveis, são as suas contradições intrínsecas. Acreditar o contrário é esperar que exista um pote de dignidade no fim do arco-íris do capitalismo.

Nós pagamos o dinheiro desviado para as offshore
Quem paga todos estes desvios somos nós. As tremendas fugas aos impostos de milhares de milhões, com tantos zeros que nem saberia como escrevê-los, são pagas por todos nós, que temos de arcar com os défices e pactos de estabilidade e tudo e mais alguma coisa. A solução seria acabar com os offshores. Claro que isso é defendido e já foi proposto. Tanto o seu fim como a sua taxação. Só que isso implicaria uma vontade global que, lá está, não existe. Porque o capitalismo se entranhou de tal forma que já não vai lá com lavagens a frio. Tem de ser escaldado, pendurado pelos pés, batê-lo bem com uma raquete para tirar o mofo e, por fim, podemos colocá-lo no lixo sem que cause mais danos.

No primeiro de Abril, a verdade e a mentira.

Democratas ucranianos após a vitória no golpe

O PCP trai os seus princípios de sempre e quebra uma das suas mais importantes e conhecidas qualidades: a coerência. Ao contrário do que fez com outros movimentos e países, nomeadamente no que toca a manifestações espontâneas que surgem como “apartidárias” e promovidas por “jovens” sem intenções políticas além das de lutar pela democratização de regimes autoritários, o PC alinhou desta vez com a postura, a que até aqui vem qualificando como oportunista, típica do Bloco de Esquerda em Portugal.

Se, nos casos da Líbia e da Ucrânia, o PCP tinha tido uma posição que avaliava a situação concreta de cada um dos países e os interesses por detrás de cada um dos movimentos em causa, ao contrário do BE, que já então, segundo o PCP, alinhava com os “interesses do imperialismo norte-americano”, certamente por cedência “às pressões da comunicação social dominante”, no caso de Angola e dos jovens activistas, de que se destaca o herói e mártir Luaty, o PC não se importou de alinhar lado-a-lado com aquilo a que noutros casos chamaria de “pressões externas” e “ingerências na soberania”.

É verdade que ao PC acabou por nunca ser reconhecida a razão das dúvidas, tal como ninguém cobrou ao BE o apoio à intervenção militar da NATO na Líbia, nem o apoio à ascensão de um governo nazi-fascista na Ucrânia. Igualmente, não se conhece nenhuma intervenção do BE sobre a ilegalização do Partido Comunista da Ucrânia, após o golpe que se iniciou com o seu apoio. Mas nada justifica que os comunistas quebrem a confiança do seu eleitorado mais fiel e dos seus mais ortodoxos militantes, nem mesmo os resultados eleitorais. Não é este o PC a que estávamos habituados.

Apesar do profundo desconhecimento que existe sobre a heróica luta de Luaty Beirão, que vai muito pouco além de um spinning em alguns “órgãos da comunicação social burguesa”, e fingindo que ignora o financiamento dos Estados Unidos da Américadirectamente pelo Congresso dos EUA, às organizações que apoiam a luta dos 17 activistas pela democracia, o PC tomou o caminho mais fácil e cedeu, juntando-se assim ao que sempre criticou.

Estranhamente, os comunistas que nos habituaram a serem defensores incondicionais das ditaduras violentas, desta vez, optaram por não se colocar ao lado da violenta ditadura do MPLA em Angola, ditadura essa que pode ser integralmente compreendida pelo domínio de José Eduardo dos Santos na comunicação social, nomeadamente na TV Zimbo, única estação de televisão privada de Angola, propriedade do próprio Presidente.

Veja-se aliás, o testemunho do Jurista Benja Satula, no canal do presidente José Eduardo dos Santos.

Tal como o apoio do PC, virulento inimigo do Partido Socialista – verdadeiro partido da democracia portuguesa – ao Governo do PS já demonstrava, o PC está a tornar-se um partido que abandona o quadro de princípios que sempre nortearam os comunistas e começa a mover-se ao sabor dos ventos mediáticos, desta vez inclusivamente com o inédito apoio a uma movimento que é apresentado em Portugal como “revolucionário” ou como “apartidário” mas que, como é sabido nos meios comunistas, reúne na sede da UNITA, força que ainda hoje é portadora de um passado que o PCP sempre identificou com “terrorismo”, “violência”, conhecida em Portugal pelo seu passado de violência contra o povo angolano e pelo apoio ao regime do apartheid na vizinha África do Sul.

Temos saudades do tempo em que o PC defendia, contra tudo e contra todos, contra Cavaco e contra a “comunicação social dominante”, Mandela. Relembramos que nessa altura, o PC teve a coragem de defender aquele que era internacionalmente reconhecido como terrorista. Hoje, o PC, fiel que se mantivesse aos seus princípios, defenderia a não ingerência na construção da democracia em Angola, demarcar-se-ia das práticas de limitações à liberdade de expressão, demarcar-se-ia de condenações políticas, exaltaria a necessidade de democracia e a independência angolanas, condenaria a supressão de direitos, não se colaria nem defenderia o regime de Angola, mas votaria contra aquilo a que nos velhos tempos chamaria “manobra oportunista” do BE, apresentando uma declaração de voto que poderia ser mais ou menos assim.

Até porque, ao alinhar com o BE, o PCP está a pedir que se resolva o problema da interferência política na Justiça em Angola com a interferência portuguesa na Justiça em Angola. O “meu” PC nunca faria tal coisa.

Dia Mundial do Teatro

Celebra-se hoje, 27 de Março, o Dia Mundial do Teatro, tradição iniciada em 1961 pelo Instituto Internacional do Teatro, que nesta ocasião convida uma figura a partilhar as suas reflexões sobre o tema do Teatro e uma Cultura de Paz. E que melhora forma de comemorar este dia indo ao Teatro.
A Mensagem deste ano é do encenador Russo Anatoli Vassiliev:

Precisamos do teatro?

Esta é a questão que colocam milhares de profissionais desapontados com o teatro e milhões de pessoas cansados dele.

Para que precisamos dele?

Nos anos em que a cena é tão insignificante em comparação com os quadrados urbanos e as terras estatais, onde se deselaçam as tragédias autênticas da vida real.

Que é ele para nós?

Galerias e balcões dourados nas salas de teatro, cadeirões de veludo, alas sujas dos palcos, as vozes bem polidas dos actores — ou vice-versa, algo que pode parecer aparentemente diferente: caixas negras, manchadas com lama e sangue, com um monte de raivosos corpos nus lá dentro.

Que é capaz de nos dizer?

Tudo!

O teatro pode dizer-nos tudo.

Como os deuses habitam nos ceus, e como os prisioneiros definham em esquecidas cavernas subterrâneas, e como a paixão nos pode elevar, e como o amor pode arruinar, e como ninguem precisa de uma boa pessoa neste mundo, e como a decepção reina, e como pessoas vivem em apartamentos, enquanto crianças murcham em camps de refugiados, e como eles têm todos de regressar ao deserto, e como dia após dia somos forçados a afastar-nos dos nossos entes queridos, — o teatro pode contar tudo.

O teatro tem sido sempre e permanecerá para sempre.

E agora, nos últimos cinquenta ou setenta anos, é particularmente necessário. Porque se olharmos para todas as artes públicas, podemos ver imediatamente que apenas o teatro nos dá — a palavra de boca a boca, o olhar de olhos nos olhos, o gesto de mão em mão, e de corpo para corpo. Não precisa de qualquer intermediário para funcionar entre seres humanos — constitui o lado mais transparente da luz, não pertence ao sul, ou ao norte, ou ao este, ou oeste — não, é a essência da própria luz, brilhando de todos os quatro cantos do mundo, imediatamente reconhecível por qualquer pessoa, quer seja hostil ou amistoso para com ele.

E nós precisamos de um teatro que permaneça sempre diferente, precisamos de um teatro de muitos tipos diferentes.

Porém, penso que entre todas as formas e feitios do teatro, as suas formas arcaicas serão agora as mais procuradas. O teatro das formas ritualizadas não deve estar artificialmente oposto ao das nações “civilizadas”. A cultura secular está agora cada vez mais emasculada, a chamada “informação cultural” substituiu gradualmente e empurra para fora entidades simples, assim como a nossa esperança de eventualmente as encontrarmos um dia.

Mas eu posso vê-lo claramente agora: o teatro está a abrir as portas amplamente. Entrada livre para tudo e todos.

Mandem os dispositivos e computadores ao inferno — vão ao teatro, ocupem filas inteiras nas plateias e galerias, oiçam a palavra e olhem as imagens vivas! — é teatro diante de vós, não o negligenciem e não percam a oportunidade de participar nele — talvez a mais preciosa oportunidade que partilhamos nas nossas vãs e apressadas vidas.

Nós precisamos de todos os tipos de teatro.

Há apenas um tipo de teatro que seguramente ninguém precisa — refiro-me ao teatro dos jogos políticos, o teatro das “ratoeiras” políticas, o teatro dos políticos, o teatro fútil da política. O que certamente não precisamos é o teatro do terror diário — quer seja individual ou colectivo, o que não precisamos é o teatro de corpos e sangue nas ruas e praças, nas capitais ou nas províncias, o teatro falso de conflitos entre religiões ou grupos étnicos…

Ao sabor da brisa mediática

Até hoje, nas suas relações internacionais, jamais o BE havia tido um governo de um partido que coincidisse com a sua linha política. Timidamente e muito pontualmente, mostrou-se solidário com alguns governos que na América Latina avançavam com políticas progressistas. Nunca vimos este partido organizar actos contra o golpe na Venezuela, Equador ou Bolívia. Com Cuba jamais mostrou o mais pequeno gesto de empatia e não se sabe qual é a sua posição sobre o bloqueio contra a pátria de José Martí.

Nas suas posições sobre questões internacionais, o BE preferiu quase sempre deslizar ao sabor das marés imposta pelo mediatismo. Desde considerar simpática a candidatura de Barack Obama e de François Hollande, a não ter qualquer posição crítica sobre as manifestações em Kiev que levaram o fascismo ao poder com a consequente ilegalização do Partido Comunista da Ucrânia e a guerra contra a insurreição no Leste do país. Sobre a Líbia, é sobejamente conhecido o papel que tiveram os eurodeputados do BE na resolução que abriu as portas à agressão que conduziu aquele país à Idade Média e à brutalização das mulheres.

As críticas e o mal-estar gerado mudaram a sua postura em relação à Síria. Não apelou a uma intervenção externa e moderou o seu discurso em relação ao governo de Bashar al-Assad mas pouco ou nada ouvimos sobre o que pensa dos supostos rebeldes financiados e treinados pelos Estados Unidos, União Europeia, Turquia e Arábia Saudita. Entrevistou, há dias, em Lisboa, ao lado de um monumento com a estrela de David, uma investigadora síria que defende o derrube de Bashar al-Assad.

É curioso, pois, que quando chega ao poder, pela primeira vez, um partido da mesma família política do BE, se dá uma das maiores traições à esquerda das últimas décadas na Europa. O BE tinha apoiado e feito campanha pelo Syriza mas quando chegou ao governo e rasgou tudo o que havia prometido os portugueses tiveram de se retratar. Vários dirigentes que antes eram amigos de Alexis Tsipras fingiam distanciar-se. Os dirigentes do BE sentiram-se obrigados, por diversas vezes, a desmarcar-se das decisões políticas do Syriza mas, na verdade, nunca deixaram de estar ao lado do Syriza.

Esta semana, Marisa Matias voltou à Grécia para um encontro do Partido da Esquerda Europeia onde esteve presente o mesmo Alexis Tsipras que nos dias anteriores havia estado como observador num encontro dos socialistas europeus. O mesmo que aperta a mão ao genocida Nethanyau enquanto firma acordos com Israel. Uma vez mais, as palavras dizem uma coisa, as acções mostram outra. Foi assinado um documento conjunto contra a expulsão de refugiados da União Europeia ao mesmo tempo que Tsipras encabeça um dos governos que pede a deportação rápida de milhares de pessoas que fogem da guerra.

É certo que o BE não tem culpa pelo que decide ou não o Syriza mas este é o mesmo partido que tentou por diversas vezes obrigar o PCP a condenar o regime angolano. Quem conhece as posições do PCP sobre Angola sabe que nunca escondeu as diferenças que existem entre o que os comunistas portugueses defendem e aquilo que defende o governo angolano e o MPLA. Mas o respeito pela soberania do povo angolano sem ingerências externas é um princípio que o PCP defende de forma inquestionável.

Quando saltou o tema de Luaty Beirão para as manchetes dos jornais portugueses, o BE tentou aproveitar-se do caso e chegou a acusar uma vez mais o PCP de não estar à altura dos acontecimentos mesmo quando os comunistas haviam apresentados moções em defesa da salvaguarda dos direitos dos vários grevistas de fome. Sabendo que é forte a empatia ideológica entre o BE e o Syriza, a relação de proximidade de anos, os comícios conjuntos tanto na Grécia como em Portugal, a solidariedade mútua durante as campanhas eleitorais, sabendo de tudo isso, quando é que o BE vai condenar o regime grego pela expulsão de milhares de refugiados para a Turquia?