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Hotline – Como Israel recebe os refugiados

Foi dos documentários mais difíceis (chamemos-lhe assim) desde que frequento o doclisboa. Demorei demasiado tempo a processar toda a informação que se recolhe quando a câmara se transforma nos nossos olhos e estamos nós diante de alguém que foi brutalmente torturado para chegar a um país e, aí chegado, só deseja voltar. O Estado de Israel mata. Não só na Palestina. Não só em Israel. Desumaniza. Priva. Tortura. E há quem combata esta realidade, com a certeza do seu lado da barricada, mesmo que a maioria das vezes embata violentamente contra os muros da intolerância e do racismo. Um documentário sobre Hotline for Refugees and Migrants – Israel que vale a pena ser visto.

Não envolve imagens explícitas (daquelas que têm feito as capas dos jornais sobre o tema e depois ganham prémios de fotografia), não envolve grandes organizações, não envolve ninguém conhecido.

A tarefa documental é simples, observar o trabalho de uma organização – a Hotline – em Telavive, numa zona mais complicada da cidade de Israel. Então, durante 99 minutos, Silvina Landsmann, a realizadora, guia-nos pelo dia-a-dia dos trabalhadores desta associação. E, pela primeira vez, do papel dos advogados que se envolvem, genuinamente, nas causas. Destaco e sublinho esta parte do documentário por moto próprio, por saber exactamente até onde alguns advogados vão (e são obrigados a ir) para defender direitos humanos e como essa parte da história nunca é relatada.

Pois bem, o Doclisboa’15 decidiu mostrar também esta parte da história.

Chade, Eritreia, Sudão, Egipto, ei-los que chegam a Israel à procura de uma vida melhor. E procuram-na porque nos seus países há fome, morte, guerra, perseguição. Algo que os israelitas supostamente deveriam conhecer bem e perceber ainda melhor (da Alemanha à Palestina, a história de Israel é feita de gente que ocupa e de ocupações). Para chegarem a Israel, suportam tudo – incluindo as torturas brutais no Monte Sinai – e estima-se, de acordo com os números da Hotline que sejam 57000 os refugiados.

O documentário inicia-se com uma sessão pública de esclarecimento, numa espécie de Assembleia Municipal, aos moradores da zona de Telavive onde estão a concentrar os refugiados, na sua maioria negros. Sigal Rozen, a porta-voz da Hotline, explica como não se pode, simplesmente, expulsar as pessoas da cidade, que são necessárias medidas urgentes para o acolhimento (e onde já ouvimos isto), intervenção imediata do Ministro do Interior para garantir que as comunidades vivem em harmonia.

Não os queremos cá.
São ladrões, bem vemos, têm todos iphones.
Temos medo de andar nas ruas.
Eles violam as nossas filhas.
Eles ficam com os nossos empregos.
Eles não podem ficar cá, que vão para a terra deles.
Devíamos marcá-los com sinais visíveis para toda a gente saber e ter cuidado. 

[Devíamos marcá-los com sinais visíveis para toda a gente saber e ter cuidado. Devíamos marcá-los com sinais visíveis para toda a gente saber e ter cuidado. Devíamos marcá-los com sinais visíveis para toda a gente saber e ter cuidado.]

E, logo assim, um povo que se sabe perseguido, marcado e torturado, propõe exactamente o mesmo aos povos que chegam ao sítio onde eles moram. Que por esse simples facto já se torna seu. Sigal Rozen não se resigna e vai a jogo até ao fim, sem nunca perder a calma, sem nunca deixar de perceber as razões do medo e as reacções que ele provoca, tentando sempre explicar porque é que o povo judeu deve acolher os outros povos, mesmo que a sua religião e a sua cor de pele seja diferente.

Ali, naquele local, a raiva nascia e manifestava-se contra a cor e contra a religião.

No Parlamento, a questão é diferente (e já lá iremos): dinheiro.

Desta cena partimos para o atendimento e o apoio diário que é possível dar aos refugiados em Telavive: ajuda com obtenção de documentos para poder permanecer no país, casas onde possam ficar, uma luta pelo direito a abrir contas em seu nome (apenas conseguida por decisão do Supremo Tribunal), para poderem trabalhar (outra, apenas conseguida por decisão do Supremo Tribunal). Alguma dificuldade, por vezes, na comunicação, e um sentimento que sai da tela de tão forte que é: a impotência total perante um estado que não quer refugiados e tudo fará para os expulsar.

Rapidamente se percebe que mal chegam os refugiados – chamados no Parlamento Israelita de infiltrados – obtido o visto, as autoridades não cumprem a decisão judicial e proíbem-nos de trabalhar, logo, todo o trabalho é ilegal e motivo de expulsão do país ou de prisão imediata.

No documentário vemos uma prisão: Saharonim. É lá onde está a maior parte dos refugiados. Não nos bairros, não em centros de acolhimento: na prisão. E nenhum fala sobre o tempo passado na prisão. A Hotline, com voluntários e advogados, visita regularmente a prisão para tentar libertar o maior número de pessoas possível. Então, as medidas agravam-se e é-lhes cada vez mais vedado o acesso.

Qualquer tentativa de libertação é um inferno burocrata em que os advogados recorrem a todos os meios para furar os esquemas (ilegais) montados para dificultar a libertação das detenções ilegais, até chegar a tribunais superiores (processos que demoram anos) e conseguir sentenças que, quando favoráveis, impõem cauções impossíveis e condições de uma quase prisão domiciliária. O motivo? Ser nacional da Eritreia, do Sudão, do Chade. Este é o crime destas pessoas.

A via institucional da luta pela alteração legislativa demonstra um parlamento e um ministro que não têm vergonha de assumir o que seja: Nós decidimos que Israel não cumpre a lei, afirma o Ministro do Interior. A lei e as convenções que obriga à atribuição do estatuto de refugiado. Em 57000, o estatuto terá sido atribuído a 20 pessoas.

Os outros, infiltrados, são proibidos de trabalhar e de ter contas bancárias (contra as decisões judiciais). Implementa-se um plano de encorajamento à saída: pagam os bilhetes de avião e podem sair com o dinheiro vivo que tiverem consigo. Para voltar à morte, tortura, fome e prisão certas.

A estratégia está de tal forma bem montada que ouvimos muitos refugiados a dirigirem-se à associação e a pedir para regressarem aos seus países. Porquê? Porque estiveram presos (e nada dizem sobre o que se passa em Saharonim), porque não podem ter uma conta bancária e assim não podem enviar dinheiro à família, porque não têm direito a trabalhar. Enfim, não têm direito sequer a existir, a ser pessoa.

É um documentário cru, real, sem manipulações. Ver o que nunca deveria ser visto, ouvir o que não deveria ser ouvido. Particularmente quando os sujeitos reproduzem os mesmíssimos comportamentos e pensamentos dos tempos mais ignóbeis da história do mundo. É sobretudo esclarecedor da natureza humana – dos limites que se ultrapassam em nome da vida, dos limites que se ultrapassam em nome do indivíduo, dos limites que não existem em nome da cor da pele, da religião e do dinheiro.

Texto originariamente publicado na webzine Arte-Factos.

Netanyahu e o revisionismo histórico

As recentes declarações do primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, não são apenas mentirosas, lamentáveis e provocatórias [1]. No quadro da legislação em vigor no seu próprio país, o que Netanyahu fez foi violar a lei que criminaliza o revisionismo histórico em torno do Holocausto (Lei 5746-1986), nomeadamente no seu ponto n.º2 [2].

Neste contexto, foi sem surpresa que li as declarações da responsável pela investigação histórica do Centro Internacional do Holocausto – o Yad Vashem de Jerusalém –, Dina Porat, que se referiu à tese defendida por Netanyahu como “absolutamente falsa”. [3]

No mesmo sentido, o editorial do Haaretz [4] não esconde o desconforto de parte da sociedade israelita face a um discurso que usa a mentira e a falsificação histórica para procurar explicar a política racista, segregacionista e expansionista que o Likud e os seus aliados de extrema-direita impõem nos territórios cercados de Gaza e da Cisjordânia.

Ao atribuir ao Grande Mufti de Jerusalém responsabilidades directas no Holocausto, por oposição ao Chanceler alemão – Adolf Hitler –, que queria “apenas” expulsar os judeus dos territórios ocupados da Europa, o que Netanyahu pretendeu foi demonizar um povo que nenhuma relação teve com a acção criminosa das unidades militares do III Reich na Europa devastada pelo segundo grande conflito mundial do século XX. E como todos sabemos é bem mais fácil bombardear e oprimir um povo demonizado do que seres humanos de carne e osso, como nós.

O Holocausto não visou apenas judeus, como é bem sabido. E ainda que, no plano meramente académico, “Holocausto” (ou Shoa) se refira em exclusivo aos homens e mulheres, velhos e crianças judeus mortos pelos nazis por razões de natureza puramente étnico-religiosa, será bom nunca esquecer que o genocídio foi muito (mas muito mesmo) mais longe. Os Roma (ciganos), por exemplo, poderão ter sido – em proporção populacional – bem mais atingidos pelos batalhões de morte nazi-fascistas [5]. Outros grupos como os portadores de deficiência, homossexuais, certas confissões religiosas – como as Testemunhas de Jeová – e, naturalmente, comunistas, anarquistas, socialistas, prisioneiros de guerra e partizans foram igualmente conduzidos a campos de extermínio para morrer lado a lado com outros “sub-humanos”. Esta operação de industrialização da morte não foi uma iniciativa individual de Hitler, muito menos do insignificante Mufti de Jerusalém. O Holocausto foi o mais macabro, perverso e criminoso desenvolvimento natural do nazi-fascismo (não apenas alemão) no contexto de 33-45.

A manobra táctica israelita não regateou baixeza, mas esta não passou nem passa ao lado dos próprios israelitas, naturalmente conhecedores dos verdadeiros e sinistros contornos da acção das forças hitlerianas e outras suas aliadas de várias nacionalidades. Netanyahu quis isolar os palestinianos e agora, ao olhar à volta, apenas encontra a suportá-lo o sempre presente amigo norte-americano. A sua intervenção pública envergonha Israel e os judeus, uma vez mais.

No que depender do Likud e de Netanyahu – o bombeiro incendiário do médio-oriente – a paz será sempre uma miragem.

Notas:
[1] “Hitler não queria matar os judeus, defende o primeiro-ministro de Israel“, Expresso, 21.10.2015.
[2] Leis contra o negacionismo/revisionismo histórico relativo ao Holocaust, Wikipédia.
[3] “Yad Vashem’s Chief Historian on Hitler and the Mufti: Netanyahu Had It All Wrong“, Haaretz, 22.10.2015.
[4] “Netanyahu Is Cheapening The Memory of The Holocaust“, Haaretz, 22.10.2015.
[5] Genocide of European Roma 1939-1945.
[imagem]