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Populismo: o problema do receptor

O problema maior da disseminação de conteúdos falsos e de extrema-direita por páginas populistas nas redes sociais não reside propriamente no facto de essas páginas existirem. O maior dos problemas está no receptor, mais do que no emissor. O maior dos problemas é haver quem partilhe os seus conteúdos não porque ache genuinamente que sejam verdadeiros, mas porque, no fundo, quer e deseja de facto que tudo aquilo seja verdade.

Quem partilha falsas publicações de supostos privilégios de ciganos a viver em Portugal, não o faz por estar convencido de que isso seja verdade. Fá-lo porque é racista, tenha disso consciência ou não. Quem partilha publicações sobre alegadas agressões a polícias e empolamentos de violência contra as autoridades, não o faz porque tenha conhecimento de causa. Fá-lo porque é apologista do militarismo e autoritarismo tão em voga nos regimes fascistas. E outro grande problema é este: temos dado demasiada borla à alegada “ingenuidade”. Não é.


Fico sempre de sobrolho franzido quando leio ou oiço dizer que Portugal “ainda não cedeu a populismos”. Mesmo quando sabemos que temos um presidente da República cuja carreira político-partidária oscilou entre o mau e o medíocre, mas que, fruto da sua habilidade comunicacional, gozou de palanque privilegiado nas televisões para exercer todo o seu populismo demagogo e simplista, naturalmente oportunista, zigue-zagueante, contraditório e hipócrita.

Os tempos são exigentes e difíceis para quem se opõe a este “estado de coisas”. Os meios e as ferramentas do populismo são hoje muito mais eficazes e céleres. Mas isso não implica necessariamente que haja “novidade” na substância, muito menos no objectivo. A forma muda mas o rumo é o mesmo. Pior que um país seduzido por fascistas, é um país que quer mesmo – com todo o voluntarismo – ser seduzido e engolido por eles. Façamos-lhes frente.

Santos Silva abriu a boca e não entrou mosca

O ministro português dos negócios estrangeiros voltou a abrir
a boca. Sim, é Santos Silva, e todos sabemos o “desconto” que lhe deve estar associado,
mas mesmo assim a sua queda para a imbecilidade nunca cessa de se manifestar e
de atingir, a cada nova tirada, sempre novos e mais altaneiros patamares. A
verdade é que Santos Silva tem sido muito mais que um ministro de negócios estrangeiros.
Fazendo eco da sua rancorosa aversão a partidos, movimentos ou governos de
esquerda, ele tem ocupado, pela via agravada da oficialidade do cargo, a linha
da frente do propagandismo anti-venezuelano nacional e europeu. Santos Silva,
usando e abusando do palco que tem por inerência de funções que vergonhosamente
ainda exerce, faz constantes ataques, ora velados ora directos, a um governo e
a um estado soberano e independente. Perante o silêncio condescendente de Costa
e Marcelo, o que também não espanta.
Já vimos Santos Silva em toda a sua hipocrisia, sonsice e
cinismo, apertando a mão, sorridente, a Maduro, ao mesmo tempo que procurava
espetar-lhe uma faca nas costas. Já vimos, ouvimos e lemos as suas declarações
patéticas e até histéricas sobre a Venezuela que quer “pintar”, para além daquela
que verdadeiramente existe. Mas desta vez, Santos Silva chegou ao nível do
grotesco e da perversão. Numas declarações quase inacreditáveis – afinal, é
apenas e só Santos Silva – o MNE português chega ao ponto de dizer que “não há registo de óbitos” em relação directa com a situação de crise na Venezuela, mas“certamente que haverá entre os óbitos alguns que poderiam ter sido evitados se as condições de saúde fossem melhores”. Repito: seria inacreditável que um MNE dissesse uma irresponsabilidade e uma tirada de tamanha perversidade, se ela não viesse precisamente de quem veio. Santos Silva não se mede e não se topa. Já vale tudo, até trazer
à liça hipotéticas mortes que ele sabe que não existem. Além do mais, rematando
com uma frase que tanto podia ser dita na Venezuela como em Portugal: se as
condições fossem melhores, evidentemente, também não havia tantos mortos no
Portugal do governo do senhor Santos Silva ou noutro lado qualquer.
Mas convinha, de facto, continuar por aí. Se as condições fossem melhores, teríamos um governo a sério, com política externa soberana e independente, não um conjunto de burocratas vergados e obedientes a Bruxelas e a Donald Trump. Se as condições fossem melhores, por arrastamento, teríamos um Ministro dos Negócios Estrangeiros a sério, e não um provocador de meia tijela, não um lacaio do imperialismo, muito menos um direitista encapotado. Se as condições fossem melhores, Santos Silva não só já não era MNE, com não era ministro de nada nem de coisa nenhuma. É que, apesar de não termos registo da “morte política” de Santos Silva, “certamente que ela existirá” e que “poderia ter sido evitada se as condições fossem melhores”. Mas, por enquanto, não são. Até ver. 

Há «camisas verdes» nas redacções

O que determinados órgãos de comunicação social estão a fazer ao PCP é miserável, mas ninguém pode achar que seja propriamente «incompreensível». E isso compreende-se da seguinte forma: todos sabem o que é que o PCP combate. O PCP é um partido histórico, fundador da democracia, com provas dadas, com quase um século de existência. O PCP levou com os estalos dessa Primeira República acossada e turbulenta. Essa República onde a direita liberal (essa dita tradicional, do «centro», institucional, moderada) foi a primeira a ser olímpica e tristemente seduzida, engolida, passivamente possuída – dando todo o consentimento – à aparição e efectivação do fascismo. Essa mesma «direita centrona» e «liberal», «modernaça», «futurista», que existe, mas que está hoje num outro patamar. Perante a passividade quase geral, está a ser não seduzida, mas ela própria a seduzir voluntariamente xenófobos, neo-nazis, fascistas, «populóides», fanáticos do capital, imperialistas.

Toda a gente sabe, pois, qual é a luta do PCP, quem faz a luta do PCP, quais são os rostos do PCP, onde e quando o PCP está para atingir os seus bem definidos e transparentes objectivos! E se o PCP luta com democratas, se luta com anti-fascistas, se os seus rostos não têm cara tapada, e se aponta a objectivos assumidos às claras, quem o ataca coloca-se diametralmente do lado oposto. E essa é a escolha que alguns meios de comunicação e seus jornalistas estão a fazer. Os que atacam o PCP são os que promovem anti-democratas destruindo a democracia, os que omitem e truncam intervenções do PCP mas entrevistam fascistas branqueando o fascismo, os que se movem ou são movidos pelos interesses instalados, os que apontam a finalidades obscuras, com processos obscuros e tudo sob a guarda do “Espírito Santo” (Ou será do Banif?).

Da mesma forma que todos são capazes de conhecer e reconhecer o que o PCP quer e o que o PCP faz, ainda que disso possam discordar, todos são capazes de perceber de igual forma o que é que combatem, na realidade, aqueles que dizem que «nunca combatem ninguém», que são sempre «muito neutros», que só querem «informar», mas que cerram dentes e punhos com mentiras, insinuações e falsidades que acabam por ser desmentidas ponto por ponto. Aqueles que acham que o perigoso mundo das “fake news” – fenómeno tão antigo quanto o da própria imprensa – se resume ou se confina à abstracção das redes sociais, estando os meios ditos “tradicionais” (televisão, rádio, jornais) isentos de controlo por parte de quem quer, por sua vez, também “controlar” a opinião pública e subjugar as massas, vive ingenuamente e já é, em si mesmo, vítima da armadilha dos grandes interesses.

Ainda que no seu processo normal a História não se repita, a verdade é que não falta quem a queira repetir. E tudo a coberto dos partidos institucionais, como palco ou como rampa. É vê-los aí nas parangonas: ontem «liberais», «centrões», «moderados» candidatos a Câmaras, hoje fundadores de partidos xenófobos, homofóbicos, racistas, nazis. E se essa direita partidária já não engole porque foi há muito engolida, os que hoje são, apesar de algumas heróicas excepções, seduzidos e engolidos pela nova emergência da extrema-direita já institucionalizada e sob patrocínio «liberal», são precisamente aqueles que um dia juraram «informar» e «esclarecer» com «neutralidade» e de forma «imparcial» a opinião pública. Depois do 25 de Abril de 1974, nunca como agora o fascismo esteve tão perto de controlar a comunicação social portuguesa. Nunca.

Propinas: A tragédia de gerações!

Fui “apenas estudante” até ao 11.º ano. A partir daí fui sempre “trabalhador-estudante”. Não por escolha. Foi porque teve de ser. E porquê? Porque a Constituição não foi (como continua a não ser) cumprida. Apenas isso. Porque a palavra “tendencialmente” em “ensino tendencialmente gratuito” foi das mais graves e escandalosas armadilhas legislativas perpetradas ao povo português. Uma armadilha propositada, criminosa, que arrumou para canto gerações inteiras de estudantes que não o foram, ou que deixaram de o ser. Muitos foram “para onde podia ser”, “para o que dava” ou “para o mal menor”. No ensino, como em tudo o resto, a “livre-escolha” capitalista não passa de uma falácia, um engodo, uma ficção.

Quem andou pelo ensino superior nos últimos 20/30 anos, sabe bem que as propinas não foram senão uma tragédia. E se as propinas se tornaram num factor de sustentabilidade para universidades e institutos de ensino públicos, se tais entidades chegaram ao ponto de não conseguirem sobreviver sem elas, foi porque, entre outras coisas, os governos tiveram por opção política e ideológica transferir esse ónus directamente para as famílias, e não para um Estado que preferiu injectar dinheiro na banca ou em obras ruinosas para benefício de interesses privados.

Não preciso de um grande esforço de memória para me lembrar de casos de colegas com capacidades brutais, com grande potencial, carregados de motivação e que, no entanto, acabaram por não se candidatar ou até desistir do curso por imposição de pagamento de propinas. Talvez não dê para medir, quantificar ou qualificar as consequências e o impacto disto na sociedade actual e futura. Mas que elas estão lá, lá isso estão.

Depoimento exclusivo de um futuro colete amarelo português

A situação é muito grave e exige uma resposta que “PÁRE PORTUGAL”. É que tem mesmo de PARAR TUDO! Aquilo dos coletes em França foi giro e até “li na net” que o governo de lá “cedeu”. A tudo. Foi uma limpeza. Aqui a situação também é muito grave. Mas é muito grave porquê? Porque vou eu, afinal, levantar este rabinho do sofá e participar numa “manif” pela primeira vez na minha vida? Porque vou eu ser um futuro colete amarelo? Fácil. VAMOS LÁ, Portugal, vamos lá dizer isto a plenos pulmões!

A situação é muito grave porque acabaram de me CONGELAR SALÁRIOS a mim e PENSÕES aos meus “velhos”. A situação é grave porque acabaram de me ROUBAR FERIADOS, civis e religiosos. É grave porque me ROUBARAM O SUBSÍDIO de férias e de natal. É grave porque fizeram um AUMENTO BRUTAL DE IMPOSTOS e a seguir foram cantar a “Nini dos meus 15 anos”, com a família, para o coliseu. É grave porque tiveram a distinta lata de me dizer que eu, com um salário de 600 euros, VIVIA ACIMA DAS MINHAS POSSIBILIDADES. É grave porque tiveram o desplante de me dizer que se os sem-abrigo aguentam, EU TAMBÉM AGUENTO. É grave porque tiveram a desfaçatez de me dizer que perder o emprego é, afinal de contas, uma boa OPORTUNIDADE.

É grave porque tiveram o topete de me dizer, no meio das minhas dificuldades financeiras, que saísse da minha “ZONA DE CONFORTO. É grave porque a alternativa que me arranjam é EMIGRAR. É grave porque fui OBRIGADO a tirar o meu filho da universidade por falta de dinheiro. É grave porque PERDI A CASA e o emprego. É grave porque o subsídio foi CURTO e não houve emprego criado que me valesse. É grave porque governo e presidente da república aprovaram sucessivos orçamentos INCONSTITUCIONAIS. É grave porque me disseram que tinha que EMPOBRECER, custasse o que custasse.

É grave porque um ministro que dizia ser amigo das famílias me RETIROU O ABONO DE FAMÍLIA. É grave porque fui insultado por um tipo que FALSIFICOU um doutoramento. É grave porque fui espoliado com sobrecarga de impostos por um tipo que se ESQUECEU DE PAGAR a Segurança Social durante 5 ANOS. É grave porque fui acusado de não saber gerir a minha vida por um tipo que foi consultor e administrador de uma empresa investigada pelo gabinete ANTI-FRAUDE da União Europeia.

É por tudo isto que é GRAVE. E como a mim não me apanham a colocar presenças em eventos de Facebook assim à toa, vou participar numa coisa a sério porque isto é tudo MUITO GRAVE. Agora sim, tiraram-me do sério. Vamos Portugal, vamos à luta. VAMOS… ao coletezinho.

A grande escolha não está no voto

Uma hipotética derrota de Bolsonaro não acabará com o fascismo, nem com os fascistas, no Brasil ou noutro país qualquer. Pelo contrário, a amplitude e dinâmica dos acontecimentos dos últimos meses permitiu à extrema-direita um crescimento de adesão e militância como provavelmente nunca tinha acontecido desde o fim da Segunda Guerra Mundial.

As questões às quais importa dar resposta, neste momento, são: Quem vai, depois do dia de hoje, seja qual for o resultado, prosseguir com a luta pela democracia? Uma massa difusa e desorganizada contra um oponente perfeitamente organizado e sustentado por oligarquias financeiras? E mesmo que se trate de uma força organizada e combativa, será em torno de quê ou de quem? De um ou dois partidos de nome e inspiração marxista mas que, nos últimos anos, se têm mostrado mais próximos da social-democracia (responsável pelo fortalecimento da extrema-direita) do que do socialismo? Ou estaremos perante uma oportunidade histórica para um novo e revolucionário começo na História do Brasil, que além de significar a derrota total do fascismo, signifique a vitória da democracia não exclusivamente política, mas sobretudo social, educativa e cultural? Poderá e quererá o povo brasileiro fazer essa luta pelo progresso alargado e pela total emancipação das suas classes mais desfavorecidas?

Por tudo isto, porque a escolha tem de ser mais, muito mais do que uma opção eleitoral, é necessário entender que urge estar com a democracia todos os dias e não apenas hoje.

Uma antiga aliança

O que se passa no Brasil com Bolsonaro, nos EUA com Trump, na Hungria e Itália com governos e governantes fascistas, é tudo reflexo contemporâneo de uma aliança já antiga. Nada de novo. Fascismo e capital, capital e fascismo. Nenhum desses actores subiu ao estrelato sem patrocínio, sem alavancas financeiras colossais. Nenhum deles ganhou prestígio por via de brilhantes curriculums académicos, muito pelo contrário. Ora, acontece que fascismo, capitalismo, imperialismo não se combatem com contra-correntes do género “EleNão”. Com essas e outras iniciativas, pode o fascismo bem.

O que é necessário é organizar, resistir, politizar, tomar partido e avançar. É necessário derrubar, sim, mas construindo. E se o “EleNão” dá uma possível resposta imediata ao derrubar, já o mesmo não ocorre em relação ao que virá depois. Nesse caso, depois da queda, estará um gigantesco ponto de interrogação, que pode, no limite, ser a porta para uma ameaça ainda maior, e a urgência dos tempos ensina-nos que não há grande tempo para perguntas. O fascismo sabe recompor-se e fá-lo rápido. A prova é que, depois do fim de Hitler, Franco, Salazar ou Mussolini, ele está aí. Em todo o lado.