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Isabel Moreira, a ambidestra

A tradicional descida da Avenida Morais Soares não foi tradicional . Foi uma avalanche história sem memória igual . Foi rua que parecia um país inteiro . Em cada janela uma pessoa a participar com o rosto e com os braços. Tropeçar, ali, foi tropeçar na emoção que não tinha espaço para tantos pés , até ter de ter, porque a rua fez- se país inteiro . Rumo à mudança . Sem um voto desperdiçado . Homens e mulheres de esquerda, votem em quem pode expulsar a direita . No dia 4, votar PCP ou votar BE, é votar na coligação de direita . Não é nem patriótico, nem de esquerda .

Esta foi já a segunda tentativa de Isabel Moreira. O primeiro post da sua página de facebook foi eliminado, assim como foram eliminadas centenas de comentários e bloqueados os respectivos autores, eu incluída. O primeiro post falava de uma «escolha radical» no dia 4 de Outubro. E dizia que «votar PCP ou votar BE é votar na direita».

Votar PCP ou BE é votar na direita. 

Disse-o Isabel Moreira, disse-o Carlos César e disse-o Marinho Pinto.

Por mais que tente agora apagar, reescrever (e, notem, já vai na terceira versão, embora eu já não possa sequer aceder), Isabel Moreira afirmou, com toda a sobranceria que lhe é característica, que votar PCP ou BE é votar na direita.

Faço então aqui uma pequena resenha das medidas do Governo PS de 2005 a 2009, para percebermos mais ou menos o que é votar em quê:

– Lei de Bases da Segurança Social – institui o factor de sustentabilidade que provoca reduções automáticas nas pensões que, com o passar dos anos, poderá atingir 56% de redução automática no ano da passagem à reforma; aumenta a idade da reforma; institui o plafonamento (ou seja, a limitação das pensões);

– Código do Trabalho – desaparece em definitivo o princípio do tratamento mais favorável do trabalhador, facilita a contratação a termo, legitima o trabalho temporário, determina a caducidade obrigatória das convenções colectivas, facilita (e muito!) os despedimentos, reduzindo substancialmente o montante das indemnizações;

– Alteração da fórmula de cálculo das pensões – em 2007 é alterada a fórmula de cálculo, passando a contar toda a carreira contributiva (sabendo-se que muitos que começaram a trabalhar desde os 14 anos nunca tiveram descontos, aliás, o sistema universal de descontos apenas surgiu no pós 25 de Abril) o que provocou reduções drásticas nas pensões, mesmo nas que estavam a pagamento. Tal levou a uma alteração posterior para corrigir, por exemplo, pensões de cerca de 200 euros que tinham passado para 90, mas foi temporária e hoje, as pensões, são cada vez mais baixas em função desta fórmula de cálculo;

– Congelamento de todas as pensões e prestações sociais;

– Introdução da «condição de recursos» reduzindo brutalmente o montante pago a título de abono de família, subsídio social de desemprego, rendimento social de inserção, entre outros;

– Redução do montante e tempo de atribuição do subsídio de desemprego levando a que, após a entrada em vigor desta legislação (2006) mais de metade dos desempregados ficassem sem qualquer subsídio;

– Cortes salariais na Administração Pública;

– Encerramento de centenas de escolas e maternidades;

– Destruição do vínculo público de nomeação na Administração Pública e instituição do Regime de Contrato de Trabalho em Funções Públicas que promove a precariedade;

– Publicação de um SIADAP ineficiente e que apenas serve para criar as condições para despedir pessoal na Administração Pública;

– Lei da água – permite a privatização da água pública;

– Privatização da ANA, CP Carga, REN, EDP….;

– Privatização das instituições do ensino superior, transformando-as em fundações.

Podia continuar e enumerar uma série de medidas da autoria do PS, o partido de Isabel Moreira, que afirma que votar no PCP e no BE é votar na direita. E que nem tem a honestidade de manter o seu texto, tal e qual o escreveu. Já sabemos do ódio de classe que alguns militantes do PS carregam contra os comunistas. É histórico. Mas também sabemos do efeito que têm estes espelhos. E de como lhes custa quando já nem ao espelho conseguem disfarçar.

isto continua assim…

Aqui está uma boa imagem do que tem sido esta campanha eleitoral no sistema mediático. Quarta-feira antes do Domingo eleitoral, a SicNotícias entendeu fazer um debate convidando apenas representantes de PSD, PS, CDS e BE. Claro, mais uma vez um representante da CDU ou alguém desta área política ficou de fora.

Já aqui foi escrito e descrito com um forte exemplo, larguíssimos meses antes do início da campanha eleitoral, o que se fazia, porque se fazia, quais os objectivos e interesses, os responsáveis, os promotores e outros cúmplices deste tipo de discriminação, que sendo diária, em período eleitoral se agudiza e agrava com naturais e desejadas consequências eleitorais. Rigorosamente, ontem foi  só mais um momento a somar a tantos outros.
Mas que fique claro, ainda há gente séria a trabalhar na comunicação social, mesmo durante esta campanha eleitoral, sendo que neste blogue também já se citou um bom exemplo de um bom trabalho.

Há quem diga, num exercício de desilusão e frustração, que não vale a pena a denúncia, porque sempre foi assim, porque já se sabe, porque tudo fica na mesma…mas é importante não desistir. Porque é uma denúncia que comporta uma expressão do confronto político e ideológico, clarificando papéis e alianças. Não por acaso ao caso estão na imagem 3 ex-ministros de PSD, PS e CDS e um dirigente BE. Não foi por acaso que foi a CDU a única força parlamentar excluída.

Cinco aspectos têm que ficar desde já, salvo posterior aprofundamento, limpidamente claros:

1. A comunicação social dominante é hoje dominada, quer do ponto de vista económico quer facticamente nas opções editoriais, pelo grande poder económico nacional e estrangeiro, pelo Estado(e aqui por quem o dirige politicamente e ideologicamente) e pela igreja católica, sendo claro que serão sujeitos de simpatia dessa mesma comunicação social dominada os que sejam do agrado dos seus detentores que nomeiam, põem e dispõem nas chefias de redacção e direcção editorial os mais prestáveis para os mais miseráveis serviços;

2. Não é possível que nenhum democrata deixe de se sentir revoltado com os sucessivos episódios de rocambolescos e mal-disfarçados, quer sob a forma de notícia, quer em comentário(nas sondagens até as contas passaram a ser de sumir), episódios de discriminação da CDU;

3. É uma insídia para o Estado de Direito, o absoluto achincalhamento diário da Constituição da República e da vasta legislação sobre o sector, nomeadamente sobre a sua actuação em período de campanha eleitoral, bem como os silêncios comprometidos ou comprometedores(agora escolha o leitor) de quem tem por função cumprir e fazer cumprir a Constituição, mas também o alheamento ou abstenção da Entidade Reguladora da Comunicação e da própria Comissão Nacional de Eleições;

4. Não é expectável que os resultados eleitorais não sejam contaminados por aquilo que tem sido as preferências políticas e ideológicas dos poderes editoriais da comunicação social dominante;

5. Que fique claro a tudo e todos, quem não vive da comunicação social não morre pela comunicação social;

Continuamos na luta!

Uma cara, um discurso, uma empatia

João Gobern redigiu uma reportagem sobre um dia da campanha da CDU no Norte do país. O texto que abaixo se transcreve é um exemplo de um bom trabalho!
.

“Jerónimo de Sousa e a CDU não morrem de amores por trípticos, como o famigerado “uma maioria, um governo, um presidente”. Ainda gostam menos da troika, presume-se. Mas um dia em três andamentos – um encontro, uma ação de rua, um comício – reforça a ideia de três missões eleitorais: resistir, desmistificar e crescer.

“Na terceira volta de um dia dividido em três momentos e por dois distritos (Porto e Aveiro), mantendo-se na sala sobrelotada da Biblioteca Municipal de Santa Maria da Feira a mesma temperatura ambiente antes garantida pelo sol, que brilhou para todos nós, e pelo entusiasmo militante, lembro-me do título de um filme. Contava a vida de Thomas More (1478-1535), que gostava de pensar pela sua própria cabeça e acabou por perdê-la, diante do libidinoso poder de Henrique VIII. O filme chamava-se, na língua original, A Man for all Seasons. O que, em tradução literal (que dá jeito, como se verá), poderia desaguar em algo de parecido com “Um Homem para Todas as Estações”, salientando o oposto de qualquer alusão camaleónica, sublinhando, isso sim, a ideia de alguém que dispensava diferentes máscaras para se afeiçoar a distintos ambientes.

Foi assim que vi e li Jerónimo de Sousa, igual, uno e indivisível (passe a expressão), num “encontro com artistas, intelectuais e quadros técnicos”, depois no contacto direto com a população de Gondomar e, por fim, a jogar em casa no comício da Feira: sempre o mesmo homem, sem inflexões no discurso, sem constrangimentos, sem cosmética. À saída do comício, que, de acordo com alguns jornalistas “residentes” da campanha da CDU, lhe terá rendido a melhor intervenção de toda a campanha, até pela introdução do humor na abordagem aos adversários, cruzamo-nos pela terceira vez. Sinto-o naturalmente cansado (pudera…) depois do empolgamento alguns minutos antes, mas bem-disposto, com a certeza dos pontos marcados em três frentes. O mesmo homem para todas as ocasiões, característica ou qualidade que não se distribui a outros dos que, por estes dias, dão a volta a Portugal, os que variam o modelo consoante as audiências. Aqui, com maior ou menor inspiração nas intervenções, a ausência de surpresas – e, muitas vezes, dos soundbytes que estão como a fast food para o jornalismo, “enchendo” mais do que alimentando – vale uma contrapartida na constância das palavras.

A cara

Quando Jerónimo de Sousa chega à Cooperativa Árvore, já os apoiantes da CDU aguardam o secretário–geral comunista gozando o sol resistente do outono, ou resguardando-se da sua intensidade. Percebo rapidamente um deslize indumentário: entre mais de uma centena de presenças, só há três gravatas – a do veterano presidente da direção da Árvore, Amândio Fernandes Secca, a do ex-deputado Honório Novo (chamado a mestre-de-cerimónias) e a minha. Falta de prática, sem drama de maior. O líder da CDU entra, faz questão de percorrer um a um os pequenos grupos em que, sem ordem de trabalhos, se discutem os calores da política, as dúvidas quanto ao futuro que se desenhará a partir de segunda-feira, os refugiados e a fragmentação europeia, os méritos persistentes das atividades da Árvore, mas também o prolongamento estival e o futebol de fim de semana. Já se ouviram desabafos: “É pena que, nestas coisas, só venham aqueles que não precisam de ser convencidos. Isto devia chegar aos que andam indecisos ou aos que, aparentemente, desistiram de participar.” De acordo, mas não é esse um problema transversal à maioria dos momentos de campanha dos partidos e coligações que dificilmente chegarão ao governo?

Nem neste ambiente, faltam os momentos para a fotografia, no sentido literal, com pedidos de selfie ao disponível deputado, e no sentido figurado: Jerónimo de Sousa pega ao colo numa criança que lhe arranca uma gargalhada franca, quando lhe confessa que, quando for grande, quer ser primeiro-ministro. Algo a que, sejamos realistas, o próprio político não aspira. Vinho branco e vinho do Porto regam o encontro, temperado por umas tapas que se distribuem sem privilégios, a cada um de acordo com as respetivas “necessidades”.

A partir das escolhas do “convidado de honra”, Pedro Estorninho, do Teatro Ensaio, lê poemas de Vinicius de Moraes (O Operário em Construção, obviamente) e Manuel da Fonseca. Mas até a dimensão dos poetas se encolhe momentaneamente quando Jerónimo de Sousa agradece aos artistas e intelectuais “os momentos de alento” nos tempos difíceis. Denuncia a “mercantilização da cultura, subordinada pela economia”. Indigna-se com os cortes, 75%, não menos do que isso, nos apoios públicos às Artes. Revolta–se com o desprezo a que os governantes (os de hoje e os de ontem, que o Partido Socialista acaba sempre empurrado para a moldura do arco) trataram a ciência a investigação. Aponta a emigração de quadros como um mal de dimensão ainda imprevisível. E propõe, olhando as parcelas contempladas no Orçamento, um evidente reforço nas verbas tocantes à Cultura: dotar este setor de 1% do total. Acrescenta a nota do dia, com referência direta a António Costa, disposto a trocar um Ministério da Cultura por um “governo da Cultura”, percebendo-se que não vê aqui mais do que uma fanfarronada inconsequente.

Pelo meio da intervenção, específica, cirúrgica, ficam as grandes linhas de força que voltarão a ouvir-se pelo dia fora: a promessa de uma política “patriótica de esquerda”, para a qual se torna imprescindível a “desmistificação” do voto útil; a ideia de que o reforço da votação na coligação dos comunistas com os ecologistas carrega mais e maiores garantias à obstaculização das “políticas de direita”, venham elas dos partidos atualmente no poder ou do PS. Quer dizer: nesta primeira realização, fica claro o objetivo de fixar apoios e eleitores. Entre os presentes e os que, segundo Honório Novo, não quiseram deixar de explicar as ausências e de enviar mensagens de saudação e de solidariedade, casos do arquiteto Siza Vieira e do historiador Manuel Loft. Primeiro passo: cumprido.

O discurso

O fim de tarde continua a fintar ventos, nevoeiros ou friagens. Do alto de um palanque que permite a toda a gente que se distribui por um jardim ver o secretário-geral e o cabeça de lista da CDU pelo distrito do Porto, Jorge Machado, fazem-se os discursos, depois de percorridas, com mobilização assinalável, as ruas de Gondomar. Há um cuidado natural desta coligação em somar o local ao geral, daí o destaque para a presença do candidato do distrito, que se encarrega de desfilar aquilo que entende como os atropelos da governação na sua área da influência. Ainda que o quadro se repita, um pouco por toda a parte: as machadadas no Serviço Nacional de Saúde, o encerramento de escolas, a subida do desemprego. Ora se o retrato apresentado equivale ao do país, acaba por ter um impacto forte nas populações o zoom sobre os problemas que enfrentam em casa e perto dela. No caso concreto, a escala em Gondomar também funciona como prémio à militância dos habitantes de São Pedro da Cova cuja terra, mesmo unificada em freguesia com Fânzeres, de acordo com a reforma administrativa de 2013, manteve uma maioria CDU – um sinal daquilo a que os comunistas e seus aliados gostam de chamar “política de proximidade”.

Outra forma de a praticar permite a Jerónimo de Sousa um exercício em que se mostra exímio, porque nunca se desliga de uma autenticidade que impede até votantes de outras forças políticas de algum comentário desagradável ou, sequer, de lhe negarem um aperto de mão. No centro do desfile, em que alguém explica a uma apoiante mais espontânea, que tenta lançar a palavra de ordem “vota CDU, quem fica a ganhar és tu”, que há uma componente “individual e egoísta” nesse grito que não sublinha as verdadeiras vantagens de tal voto e que talvez seja melhor ficar-se pelo clássico “a CDU avança, com toda a confiança”, o secretário-geral comunista ziguezagueia no percurso, não no discurso. Não deixa abraço por dar a quem se mostra recetivo, reservando “um bacalhau” aos que parecem mais retraídos. Arrasta atrás de si os que o rodeiam, expondo-se pela imprevisibilidade dos seus passos, a comentários desagradáveis que, registe-se, não aparecem. À porta de uma loja que distribui cigarros eletrónicos, um homem lamenta-se: “Tenho mesmo pena que este gajo seja deste partido… Se fosse de outro, gosto tanto dele que lhe dava o meu voto. Mas assim…” Não há um incidente, uma provocação, uma buzinadela de descontentamento mesmo nas passagens em que o trânsito é interrompido ou retardado. Na cadência de um para arranca ao sabor da condução do líder, naquilo que poderia tornar-se o momento mais desgastante da jornada, Jerónimo de Sousa parece recarregar baterias com as pequenas conversas, com as questões que lhe saltam ao caminho, quase sempre protagonizadas pelos espoliados da vida, com as explicações que entende dar e as propostas que deixa, evitando promessas. Aos 68 anos, liderando o Partido Comunista Português há mais de uma década, este homem sabe que dificilmente chegará a um governo, a menos que a geografia política seja tingida de uma forma radicalmente diferente. Mas resiste, em nome das (suas) ideias. Pobre será a analogia, mas há um momento que me recorda uma velha anedota. “O teu casamento foi por amor ou por interesse? Só pode ser por amor, que aquilo interesse não tem nenhum…” Com Jerónimo de Sousa, se a dicotomia proposta andar entre a ambição e a convicção, a resposta surge, transparente: só pode ser convicção, que a ambição – de poder, leia-se – não passa por aqui.

A empatia

Há precisamente vinte anos, na campanha que levaria António Guterres a São Bento, tive a oportunidade de – também por um dia, em toca-e-foge com a caravana CDU, na ocasião por terras alentejanas, bem mais chegadas à causa – acompanhar Álvaro Cunhal. Se Carlos Carvalhas já era o secretário-geral comunista desde 1992,Cunhal valia muito mais do que um símbolo ou do que uma “presidência honorária”. Se todas as comparações podem tornar-se odiosas, sobretudo se as submetermos a uma qualquer valoração, há algumas que podem justificar-se – é o caso. Desses contactos fugazes (tendo conhecido Cunhal em 1985 e no cenário muito especial de um Festival Mundial da Juventude e dos Estudantes, realizado em Moscovo), ressaltam algumas particularidades: o autor de Até Amanhã, Camaradas, obviamente amado pelos seus correligionários, era acima de tudo respeitado. A sua palavra parecia passar como lei, mesmo que fosse largamente discutida no foro interno. Talvez em função da sua origem, de uma base intelectual imensa, até das prisões e do exílio a que foi sujeito, Cunhal não alcançava o tal grau de proximidade interpares que Jerónimo de Sousa pode facilmente reivindicar. Lembro-me bem do olhar de um, perscrutante e penetrante como conheci poucos. Com Jerónimo, sem implicações na convicção, há mais vizinhança, mais familiaridade. E os seus camaradas exultam com essa acessibilidade fraterna.

O discurso da Biblioteca de Santa Maria da Feira acaba por espelhar precisamente esta linha de atuação: às traves-mestras do que a CDU quer fazer passar, aumentando a intensidade nos últimos dias de campanha mas sobretudo reafirmando uma linha política que se orgulha do desempenho de oposição mais constante e mais coerente nos últimos quatro anos, no Parlamento mas também fora dele (lá vem outra vez a proximidade), Jerónimo acrescenta o humor. Quando compara o PS de uma determinada fase a “um peru do Natal”, cheio de si mas angustiado, condicionado pelas “abstenções violentas” diante das moções de censura da CDU. Ou quando evoca uma expressão, “felizmente caída em desuso: a do filho de pai incógnito”, que seria o memorando assinado com a troika que, afinal, não teve pai (PS) nem mãe (PSD), “Nem mesmo padrinho, que temos de deixar um espacinho para o CDS”.

Ouvem-se-lhe frases fortes, nomeadamente quando dá eco a quem acusa a CDU de estar sempre a atacar o PS: “O estranho é eles, PS, não se lembrarem que não estiveram em nenhum dos grandes combates.” Quanto a algumas propostas de António Costa, a resposta chega com ironia: não lhe chamem ataques, vejam-nos “como pedidos de esclarecimento”… Diz-se farto de, em tantos anos, andar a ver “sempre o mesmo filme, rebobinado”. E reafirma que o lugar da CDU será sempre o mesmo, diante dos desrespeitos e dos atropelos aos trabalhadores, frente às injustiças.

A sala estava cheia, ao ponto de se admitir um ligeiro erro nas expectativas – pensou-se “por baixo”. A escolha de Santa Maria da Feira esteve longe de ser aleatória: Aveiro é um dos distritos, tal como Coimbra, em que a CDU espera recuperar um deputado em tempos perdido. Coube, aliás, a Miguel Viegas, cabeça de lista pelo círculo, abraçar os problemas das terras que pretende vir a representar: pensar localmente para agir globalmente. Uma vantagem clara desta coligação: nem Tonis nem Quins, nem vedetinhas musicais de ocasião. Ouviram-se – e bem – canções de Fausto e Carlos Puebla, folclore açoriano e a Trova do Vento Que Passa. Em aparte, a coligação confirmou-se económica e ecológica: no final, foi lançado o apelo para que fossem devolvidas à estrutura as bandeirinhas que serviram para engalanar a sala e para animar as imagens recolhidas.

Jerónimo de Sousa sai da sala em passo rápido. Onze horas depois voltará a estar na rua, bem mais a sul, com a mesma cara, com muitas das mesmas palavras – sendo hoje nitidamente preconceituoso falar de uma “cassete” comunista, de tal forma foi renovado o léxico -, com todas as ideias. Por certo, também com a ambição de conseguir que pelo menos um em cada dez votantes acabe por decidir-se por esta cor política. Para fecho, a pergunta que se tornou tradicional: comprava a este homem um carro em segunda mão? Claro que sim, “com toda a confiança”. Não seria o único, reconheço. Mas também não seriam assim tantos. A ele, até o desafiava para uma converseta mais amena, mais circunstancial. Nem que fosse para abordarmos o futebol, que tanta urticária causa a quem não o percebe. Não acontece, ao que me dizem, com o secretário-geral comunista: segundo fontes geralmente bem informadas, Jerónimo de Sousa é bom de bola.”

João Gobern, Reportagem: Uma cara, um discurso uma empatia in Diário de Notícias 29/9/2015

#euconfionassondagens

A Renata Candeias confia nas sondagens. Alertou-nos para esta que é, indubitavelmente, a mais correcta e fiável sondagem. 111,9% dos eleitores vota assim:

Pedro Filipe Soares, e se te deixasses de merdas?


O que terá passado pela cabeça de Pedro Filipe Soares, líder parlamentar do Bloco de Esquerda, para inaugurar, a uma semana das eleições, a deriva contra o PCP, não sou capaz de dizer, mas posso tentar adivinhar.

Em todo o caso, estou certa de que esta deriva não é acompanhada pela maioria dos activistas e apoiantes do BE, que, naturalmente, estarão bem mais preocupados em dar combate à política de direita e aos seus protagonistas e não ao PCP.

Segundo o Expresso, Pedro Filipe Soares, o líder parlamentar do Bloco deu «alfinetadas» ao PCP ao lembrar que a reduzida bancada do BE na Assembleia da República precisou da assinatura de mais deputados para submeter ao Tribunal Constitucional a apreciação de um diploma sobre cortes de pensões e subsídios de férias. “Levámos a tampa do PS e levámos a tampa do PCP”, afirmou Pedro Filipe Soares.

Pois é, Pedro, já se estranhava a ausência do piquinho do BE, não era? Falta de rigor (como, por exemplo, lançar listas de apoiantes onde constam presidentes de sindicatos que já não o são), alguma desfaçatez (o assobio para o ar constante) e o contar das coisas pela metade. Pela metade não, nem por ¼, porque sobre as tampas e os erros do BE, há muito por dizer, não achas, Pedro?

Por exemplo, Pedro, podias falar da tampa que levaste do PCP mas não do PS, nem do PSD, nem do CDS, quando o BE fez aprovar, na Assembleia da Republica, o memorando da troika à Grécia e contra o povo Grego. Lembras-te, Pedro?

Também podias ter lembrado a tampa que  PCP, mas não do PS, nem do PSD, nem do CDS,  quando o BE com o seu voto apoiou a ruinosa decisão de nacionalizar os prejuízos do BPN e deixar intocáveis as empresas rentáveis do grupo que o detinha. Lembras-te, Pedro?

Também podias falar da tampa que levaste do PCP quando, com a abstenção “violenta” (que até parecia que se estava a preparar para votar a favor) do BE,o governo foi ilibado das suas responsabilidades nas conclusões da comissão de inquérito do BES, deixando o PCP sozinho no voto contra e a levar tampa de todo o lado.

Também podias falar da tampa do BE ao PCP, quando o PCP andou meses (desde 5 de Abril de 2011) sozinho a exigir a renegociação da dívida e que só alguns meses depois o Bloco passou a defender, e inicialmente de forma tímida, aquilo que designava de “reestruturação” da dívida.

Sobre o pedido de inconstitucionalidade, Pedro, sabes bem que foi uma tampa merecida. Sabes dos riscos e das consequências práticas da iniciativa em curso, e sabes bem porque foste alertado para tal – incluindo pelo PCP, Pedro! Sabes também que a iniciativa que teve o BE com o PS (ou a iniciativa de deputados do PS com o BE?), abriu as portas para que os cortes não fossem só para os trabalhadores da Administração Pública mas sim para todos os trabalhadores, ou não te lembras disto, Pedro?

Ou da tampa que levaste do PCP sobre o trabalho temporário, que o BE quis legitimar através da regulamentação e agora… pois, é tudo temporário, não é?

Tens mesmo a certeza que é destas tampas que queres falar, Pedro? Não seria melhor concentrares-te no importante, no ataque às políticas de direita? Já sabes que o PCP é consequente, independentemente das conjunturas, de epifenómenos políticos, de guerras de egos e não vai deixar de dar tampas quando essas tampas protejam os interesses de quem o PCP representa: os trabalhadores e o povo.

Vá, Pedro, deixa-te lá de merdas.

*Fotografia retirada do site Esquerda.net

Da Economia ao Crescimento

Estando o crescimento económico do país na boca dos eleitos para aparecer na TV, vomitado em números e estatísticas, bem escolhidas e bem apresentadas, fica oculto para quem e para quê esse crescimento.

Sob o comando de vários governos passados e do agora vigente, os vários modelos de desenvolvimento adoptados não servem a um país justo e desenvolvido, mas sim a uma elite que tem sido a fiel depositária da riqueza gerada pela força de trabalho e recursos nacionais.

Com a pompa da modernidade saloia e a ritmo de galope pseudoreformista, nas esferas do poder, assiste-se a uma vaga de desregulamentação da vida económica que não tem precedentes, a coberto de uma máquina propagandista eficaz que altiva o processo encobrindo a destruição imposta ao tecido social e económico. Em medidas e leis pretensamente avulsas o plano desenha-se de forma geral arquitectado numa ideologia neoliberal que grassa desde o poder central ao local destruindo os interesses e ambições colectivos em contraponto com os de uma minoria.

Começando num Estado que desbarata o seu património, o controlo sobre as decisões económicas e a distribuição da riqueza vão ficando cada vez mais longe da vontade popular. São exemplos disso as sucessivas privatizações de várias empresas públicas que asseguravam a sanidade de uma economia que se quer ao serviço do povo, substituindo-se esse controlo por um Estado mínimo regulador. Manietado pelos grandes interesses económicos, o Estado é incapaz de um planeamento estratégico de um país que garanta um verdadeiro crescimento económico sustentado, muito menos um que garanta as necessidades do país ou o uso racional e preocupado no futuro dos recursos naturais de que dispomos.

Para trás ficou também o desenvolvimento da produção nacional, motor essencial do crescimento económico e social e garantia de um povo soberano sobre as suas necessidades e caminho a seguir.

A privatização do Estado dá-se não só cada vez que se vende uma grande empresa, como cada vez que se substitui a sua capacidade pela sub-contratação a empresas privadas. A par com a desregulamentação da lei do trabalho e a ausência da tributação sobre os lucros, serviços que saem da esfera pública para a privada fomentam a acumulação do erário público nas mãos de poucos que acumulam os lucros explorando uma força de trabalho mal remunerada e sem direitos.

O Estado alimenta assim uma vasta clientela que se confunde com a elite política, sempre de mão dada com os partidos do arco do poder, que apregoa diariamente a ineficiência da gestão pública e reclama para si aquilo que devia ser de todos. A apropriação não tem fim. Começando nos principais meios de produção e cobrindo todos os sectores estratégicos, há ainda um sem fim de serviços essenciais que são filões inesgotáveis.

A educação e a saúde são os seus principais exemplos. À procura de subir na íngreme e escorregadia escada da mobilidade social são envidados esforços significativos por parte de quem quer uma vida melhor. Se não para si pais, estes deixam de lado muitos planos para educar os filhos com a esperança, legítima, de lhes trazer mais oportunidades do que as que tiveram. A democratização do ensino é então abandonada para que a oferta pública, já por si muito dispendiosa, deixe de fazer sombra à privada, onde os montantes superam em muito aquilo que a maioria dos trabalhadores pode pagar, fortalecendo-se de novo a elitização da educação, longe do olhar da exigência que se pretende na educação de um povo a trote do lema “quanto mais notas mais notas!”.

Que dizer então na saúde, elemento fundamental para a capacidade produtiva e primeira expectativa de cada um na sua necessidade básica de viver em pleno, sendo aqui o potencial de saque ilimitado. De um direito fundamental passamos a ter um negócio baseado na doença, porque ao sector privado em nada lhe interessa a promoção da saúde, pois alimenta-se do lucro gerado pela doença. As perdas para o Estado são aqui enormes. O mesmo tratamento, ou cirurgia administrados num hospital privado tem um custo que pode facilmente ser dezenas de vezes superior ao valor que custaria no hospital público, tratamento este que na maioria das vezes é suportado pelo mesmo erário público através de vários esquemas que fomentam a transferência de verbas públicas para a mão dos privados.

Outros modelos de desenvolvimento enviesam as hipóteses de um país de progresso social. O mote da aposta no turismo e nas exportações parece surgir como o santo graal da saída da crise, mesmo que seja claro que tal aposta se baseia, na maioria das vezes, em miséria social. Será o turismo com o seu emprego de qualificação média e salários baixos que traz mais-valias à economia? Que geram estes no campo científico ou cultural? Como cobre as necessidades do mercado interno que não se alimenta de praia? Serão as empresas exportadoras preocupadas em suprir aquilo que faz falta noutro sítio e tantas vezes pagadoras de impostos fora de Portugal os verdadeiros exemplos do desenvolvimento económico? De que servem estas na distribuição da riqueza produzida? Os custos sociais do outro lado são enormes.

Por um lado o turismo que tem tendência a elevar o custo de vida quando põe lado a lado pessoas com diferentes poderes económicos. Prédios inteiros que poderiam abrigar famílias são muito mais lucrativos quando convertidos em alojamento turístico. Nas cidades e um pouco por todo o país rural as rendas e o preço das casas sobem vertiginosamente inflacionados pelas possibilidades de negócio turístico, a maior parte dele sem qualquer geração de emprego ou qualquer tipo de imposto. Torna-se mais rentável arrendar algumas semanas por ano um apartamento, na sua grande maioria fora das malhas da lei, do que um ano inteiro a uma família.

Na principal indústria exportadora como é o calçado e o vestuário entre outros os modelos de manufactura baseados em baixos salários, a automatização e a minimização de imposto cobrado eliminam a pouca distribuição de riqueza produzida, além de que não garante em nada as necessidades do mercado interno. Para piorar a situação ambos os modelos são altamente dependentes do exterior, o turismo com a diversificação e oferta de outros pontos e as exportações porque requerem a necessidade de balanças comerciais invertidas noutros países, que a qualquer momento podem ser indesejadas pelos próprios.

Portugal soberano e a crescer tem de ser baseado numa nova política industrial, que aposte em estratégias colectivas que contribuam para a criação e distribuição de riqueza. Esta política é a do desenvolvimento de um sector primário sustentável, como é a indústria extractiva da mineração, a agricultura, a pesca e a gestão florestal.

Todo este sector é garantia de soberania em relação às necessidades de matérias-primas, seja aço para a modernização fabril seja de produtos alimentares. Acresce que tem um potencial altamente criador, sendo na sua maioria renovável, contribuindo assim para a criação de riqueza. Estando a maior parte das vezes associada a locais geográficos específicos contribui para a fixação das populações pelo território inteiro, distribuindo assim a riqueza de forma simétrica evitando a conglomeração da população nas grandes cidades. Ao mesmo tempo a aposta na indústria transformadora é essencial para um sector secundário forte, orientado para as necessidades do mercado interno sustentado e agregador do potencial científico.

A indústria transformadora é o único garante da criação de produtos de elevado valor acrescentado na economia e assim gerador de riqueza a partir das matérias primas e da força de trabalho, alavancando desta forma os índices de produção. O Estado terá sempre de ser aqui um grande impulsionador, garantindo que as necessidades da população são satisfeitas e que a produção é bem distribuída. Isto implicará que caminhe no sentido do pleno emprego como objectivo fundamental de um progresso social emparelhado com o progresso económico. Deverá também assegurar-se que o excedente económico não seja nunca acumulado, mas sim usado em políticas públicas que tragam mais bem-estar à sociedade.

Há muitos modelos de desenvolvimento, mas nem todos servem os interesses de um povo que exige uma vida melhor e um país justo. Uma vida feita de dignidade e segurança, onde está o emprego com direitos, o acesso à educação e à saúde e uma distribuição justa da riqueza por todos criada. Um país de oportunidades para todos onde a miséria infantil não passe de um pesadelo do passado. Uma economia que não se esqueça de ninguém, sejam quais forem as suas origens ou capacidades. Um lugar onde a ambição pessoal seja parte da ambição de um povo que caminha lado a lado para a liberdade.

Não, a corrida não é entre Passos e Costa

Pára tudo! Há um anúncio na SIC a repetir, ad nauseam, que dentro de semanas, vamos ter eleições para «escolher o próximo primeiro-ministro», acrescentando, depois, que «a escolha é entre António Costa e Pedro Passos Coelho». Eis pois, a perquirição que se impõe aos dignos chefes da estação de Carnaxide: está tudo maluco? É que não só não há eleições «para primeiro-ministro» como, salvo erro, PSD/CDS e PS não são as únicas opções.

Dito de outra forma, o anúncio da SIC configura um crime contra a democracia e uma violação grosseira do princípio de isenção e imparcialidade a que estão obrigadas as televisões. Ou dito ainda de outra forma, se a grei (vulgo “esta merda”) não estivesse por alguns votada a nação de telemarketers e condutores de tuktuk, a brincadeira acabaria com o baque de costados contra grades.

Oiçam, senhores donos da comunicação social, eu percebo que estejam nervosos, que comecem a sentir arrepios na espinha quando se cruzam, nas passadeiras, com os nossos batalhões de pobres; que se vos insinue já uma espuma fria a formar-se-vos na pança quando os da outra classe vos olham com ódio nos olhos… mas nem por isso vale tudo.

Continuem a mascarada do costume: inaugurem uma bandeira gigante numa rotunda qualquer, falem-me da internacionalização do pastel de nata, vendam-me a história do desemprego a baixar e o parlamento, concessionem as escolas e mandem-me fazer oó, mas não me tentem convencer que estas eleições são entre o Costa e o Passos Coelho. Isso, senhores, é a corrupção do vosso próprio sistema corrupto.

E, uma vez mais, compreendo-vos: sei que vos interessa (a vocês banqueiros, magnatas e quejandos) que os partidos pareçam todos iguais e que a única forma de criar essa ilusão é ocultar os que são diferentes.

Porque, afinal, a única forma coerente de achar que a CDU é igual ao PSD é achando também que é igual votar contra ou a favor a venda da TAP, a compra do BPN, os benefícios fiscais ao Novo Banco.

E os donos-disto-tudo, temendo pela pasokização do PS, promovem agora o semblante de esquerda e simpático de Costa para contrapor a direita à outra direita que tem uma face de esquerda. O plano é velho. E cada vez mais, se percebe que a “esquerda do PS” é como aquele botãozinho de baixo no casaco de um bom fato italiano: fica muito bem, mas existe para nunca ser usado.

Mas as diferenças, como o azeite na água, sempre vêm ao de cima. E as mentiras, como a fumaça que o sopro leva, não poder durar para sempre.

O que é que nos surpreende na Marcha apagada?

O que é que ainda nos surpreende quando não vemos a gigantesca marcha de sábado nos media? Não entendam mal, que subscrevo linha por linha o artigo do Filipe. Mas, para quem já anda nisto há algum tempo, e nem precisa de ser muito, não é de estranhar. É de denunciar, de divulgar, é verdade que já nos deixa um bocadinho tristes e revoltados. Deve ser por isso que ainda há quem diga que parámos no tempo, porque ainda temos a força necessária para nos indignarmos. E, às vezes, vamos buscar forças sei lá onde.

Não há partido com património de luta que se aproxime, sequer, do PCP. Nos anos do fascismo não eram os que estiveram no Coliseu no mesmo dia em que estivemos na rua que davam o peito às balas. Eram os pais de alguns deles, ao que consta. Naquela altura, o bloqueio ao PCP era legal e oficial.Obrigatório. Depois da Revolução de Abril, deixou de ser. Com o 25 de Novembro passou a ser oficioso.

Os meios de divulgação do PCP são os que sempre foram, adaptados aos novos tempos – estando nós parados nele, não deixa de ser paradoxal. É o passa palavra, é o esclarecimento, é contar como foi, como queremos que seja e como tem de ser, para que este cantinho deixe de estar como está. É o Avante! que fica na mesa do café, o discurso no local de trabalho, as conversas com os amigos, que deixam transparecer aquilo que somos.

Como no século passado, onde estamos parados, os media livres e democráticos continuam a bloquear-nos porque não podia ser de outra forma. Uma manifestação de 1.000 pessoas por causa do padre da freguesia abre um noticiário, uma com 10.000 na Grécia também. Uma manifestação com 100.000 em Portugal, com gente de todo o país que pagou a viagem do seu bolso não pode abrir noticiários, porque mete medo.

É um facto que mete medo, assusta. Já imaginaram 100.000 pessoas que saem à rua com um calor tórrido, fazem centenas de km de autocarro para afirmarem os seus ideais? Claro que assusta. Assusta os que não podem permitir que se pense diferente do que nos é dado a engolir todos os dias, depois de bem mastigado, em quase tudo o que é informação.

Claro que às vezes nos chateia, outras entristece. Vivemos numa democracia formal que estigmatiza aqueles que abraçam a livre participação num partido quando se generaliza que todos eles, os partidos, estão numa crise profunda e precisam de se reinventar e tudo o resto que sabemos.

Chateia, entristece, mas já foi ontem. Hoje, cada um de nós que lá esteve e outros que não puderam ir, contaremos como foi grandiosa mas já estamos na luta quotidiana que é um dever de todos. Se a tarefa fosse fácil, não éramos comunistas.