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Esta cidade também é nossa! Os brasileiros em Lisboa e no país.

No dia 6 de Julho, o Brasil era derrotado pela Bélgica nas quartas de final da Copa do Mundo e era assim eliminado desta competição. Mas para os brasileiros, a festa não ia parar pelas falhas dos outros. Na Praça do Comércio, a festa continuou pós-jogo e mesmo com algumas lágrimas nos olhos, a batida do funk animou a noite para uns milhares de brasileiros ali presentes.

Ter assistido alguns jogos na praça do comércio, foi importante para perceber a dimensão da ocupação daquela praça consoante os jogos. Em jogos do Brasil e de Portugal, a praça se encontrava cheia de adeptos. Por exemplo, nos jogos de outras seleções as ruas à volta funcionavam normalmente, sem nenhum corte das vias. Nos dias que jogavam estas duas seleções, várias ruas circundantes eram paralisadas para a passagem de automóveis. O sentimento de estar em sardinha enlatada na Praça do Comércio acontecia de forma interessante nestes jogos. Claro que no caso dos jogos da seleção brasileira também estavam presentes muitos portugueses (e os adeptos da seleção opositora), mas mesmo estes eram a minoria e muito pouco residual. A grande ocupação nestes dias, era de uma massa brasileira que se juntava naquela praça para ver os jogos do Brasil.

Entre as populações imigrantes em Portugal, de acordo com os censos de 2011, nós, brasileiros, eramos a maioria entre os imigrantes, perto dos 110 mil residentes, atrás de nós estavam os imigrantes cabo-verdianos, com cerca de 38 mil residentes. Entre os censos de 2001 e 2011 a população brasileira residente em Portugal quase quadruplicou. Em termos de populações de imigrantes brasileiros espalhados pelo mundo, a maior presença nossa encontra-se nos Estados Unidos da América (acima de um milhão de residentes), em quinto lugar encontra-se Portugal. Apesar do fluxo de brasileiros em Portugal ter reduzido entre 2008 a 2013, sobre o efeito do agravamento da crise portuguesa e da época de “prosperidade” económica no Brasil sobre alçada dos governos de Lula e Dilma, acontece que a partir de 2013 muitos brasileiros que voltaram para o Brasil, começaram a retornar para Portugal. Em simultâneo muitos novos brasileiros decidiram imigrar para Portugal. Além dos imigrantes que vêm à procura de trabalho sem grandes formações, começaram a chegar também pessoas mais jovens para estudarem no ensino superior português e acabam por ficar no país e tantos outros já com formação superior. Estas informações são importantes para perceber a dimensão desta população de imigrantes em Portugal. E o seu significado para a realidade portuguesa.

Um outro exemplo de ocupação do espaço público nas cidades portuguesas por brasileiros, vejamos a questão da luta. Desde o inicio das ofensivas golpistas no Brasil, um colectivo forte e combativo de brasileiros que ia desde estudantes universitários até alguns imigrantes, mas também com a presença de portugueses, combateram em Portugal a ofensiva reaccionária no Brasil. Estiveram nas ruas nos grandes momentos destas ofensivas, mas também sempre que um golpista pisava os pés em Portugal, estes não teria descanso, porque como nós brasileiros dizemos, era preciso “escrachá-lo”. Por exemplo, Temer, Moro, Serra e por aí em diante. A luta também passou pelo apoio aos políticos e personalidades que vinham a Portugal dar a voz à luta que se ia fazendo no Brasil contra o golpe. Falo aqui do Coletivo Andorinha, mas sabendo da importância de outros colectivos pelo país. É importante falar sobre este colectivo em especial para a cidade de Lisboa, porque os activistas deste movimento tiveram de ir para as ruas mais que uma vez por semana para levar aos holofotes a crítica da situação brasileira.

Desde o inicio da sua formação, estiveram dezenas de vezes na Praça Luís de Camões, desceram a Avenida da Liberdade nos 25 de Abril e subiram a Almirante Reis no 1 de Maios, foram para portas da Faculdade de Direito, porta de Hotéis, ocuparam as actividades culturais e festivais, veja-se o exemplo da Festa do Avante e o coro que se ergue volta e meia de “Fora Temer!” quando um artista brasileiro está em actuação, desceram uma faixa no concerto do Chico Buarque no Coliseu dos Recreios. Enfim, a sua capacidade de adaptação e ocupação da cidade fez-se nos últimos anos de uma forma bestial e alegre, resistindo, lutando e apoiando, de todos os modos, transformando a cara das cidades portuguesas, principalmente, de Lisboa.

A cidade de Lisboa, e não só, também ficou mais rica com as iniciativas sócio-culturais dos brasileiros cá residentes. Vejamos por exemplo, neste último carnaval tivemos três blocos carnavalescos a partir de pontos diferentes dentro da cidade. A nossa presença, que era muitas vezes relegada às discotecas brasileiras, agora está em todo lado. Da música ao cinema, do teatro às artes plásticas, da arte urbana ao pixo, da resistência política ao futebol, trazemos a bandeira verde e amarela, mas também as bandeiras vermelhas.

Contudo, o desafio que se avizinha é muito complexo. Não devemos esquecer que nem todos os brasileiros cá residentes são progressistas. Por exemplo, no dia 22 de Junho duas dezenas de brasileiros se juntaram no Parque das Nações para apoiar a candidatura a presidente de Bolsonaro, apesar da presença residual, facilmente podemos encontrar brasileiros imigrantes que apoiam Bolsonaro neste país. A questão é que por muito tempo não houve (e sinceramente ainda não há), em Portugal, organizações de imigrantes brasileiros fortes (ou mesmo fracas) que defendessem os interesses desta grande população de imigrantes. Por décadas os brasileiros “se viravam” por redes de amizades, por exemplo, outras populações de imigrantes cá residentes rapidamente criaram organizações que os defendesse (vejam os exemplos dos cabo-verdianos, angolanos, são-tomenses, chineses, nepaleses, ucranianos e muitos outros exemplos). O aparecimento de redes sociais como o Facebook e WhatsApp possibilitou um (re)encontro quotidiano com as redes de amizades e familiares espalhadas pelo Brasil (ou mesmo outros países). Este reencontro permitiu mais que matar saudades e estar actualizado sobre o dia-a-dia dos seus próximos, permitiu também uma politização destes brasileiros (à esquerda e à direita, mas sobretudo à direita). Da partilha das notícias falsas, dos discursos de ódio, que vai desde o machismo, homofobia a xenofobia (sim, xenofobia se tratando de imigrantes!), a partilha fácil e acrítica destes conteúdos levou a que muitos brasileiros residentes cá interiorizassem facilmente estes conteúdos. Soma-se ainda, que cá em Portugal não tinham um contraponto que se opusesse a este discurso. Como disse, não havia uma organização brasileira que estivesse próxima dos seus.

Da complexidade desta questão, surgem então os potenciais conflitos directos, pensando no rescaldo das últimas concentrações realizadas em Lisboa, em vários momentos aconteceram distúrbios provocados por brasileiros reaccionários, entre provocações através do grito, o mandar copos de cerveja, empurrões, exemplos cada vez mais não faltam.

Em ano de eleições, mas não só por causa disso, avizinha desafios aos brasileiros que têm-se organizado à volta destes movimentos progressistas, este desafio é sair da centralidade da cidade de Lisboa e ir para as periferias falar com os seus conterrâneos sobre a democracia portuguesa e brasileira, sobre direitos e deveres, sobre luta e resistência. Cabe diluir as diferenças entre brasileiros. Daqueles que vieram para cá realizar seu mestrado/doutoramento e ficaram por cá porque a terrinha é muito boa, contudo acabam num trabalho precário. E daqueles que vieram para cá atrás de uma vida melhor, independente da sua formação, e desde que cá chegaram sempre estiveram em trabalhos precários. Cabe tanto aos primeiros e aos segundos, tomarem as cidades portuguesas, reivindicando o seu direito à cidade, cabe tanto a um como outro reivindicar uma vida digna neste país, participando e transformando as cidades portuguesas, e por fim, cabe tanto a um como ao outro lutar pela defesa da democracia do Brasil e contra a besta fascista que se levanta. O recado aos portugueses é que vamos continuar sambando e levantando poeira, e àqueles que ainda não se conformaram com esta ideia, vamos sambar na vossa cara mesmo. Estas cidades também são nossas!

#thisislisbon

A., 50 anos, encontrou trabalho num hotel há dois meses. O filho, segurança, paga metade da renda. Recebeu o aviso prévio para sair de casa daqui a dois meses. Ia ver uma casa, 700 euros. O salário é de 580 brutos. Tem três filhos, dois em idade escolar e o outro que a ajuda. Vão todos ser despejados. Chorou porque acha injusto que o filho suporte o valor da renda que ela como mãe devia assegurar. Mas perdeu o emprego. E agora que recuperou e procura um segundo emprego não tem casa para onde ir.

B., mulher. Deve ter 67 anos. A casa ardeu, não tinha seguro. Irrecuperável. A Santa Casa arranjou um quarto pelo qual paga 250 euros. Obrigada a deixar o cão num canil (a sua única companhia) por não autorizarem animais ainda o visita pelo menos uma vez por semana. No quarto onde vive conta que há ratos e baratas.

Mulher, 60 anos, vai visitar os filhos 1 mês a França. Regressa o prédio foi vendido e mudaram a fechadura. Nunca recebeu nenhuma carta. Está desempregada faz horas em casa de pessoas. Vive numa sala emprestada por uma amiga, com uma puxada de luz e toma banho nas casas onde trabalha. Vivia no prédio desde os 15 anos.

Mulher sozinha. 86 anos. Paga 550 euros de renda. O senhorio, proprietário de uma das agências Remax quer 1100 euros. Mas como sabe que a senhora não pode pagar, despejou-a. “Tenho muita pena mas eu quero ganhar dinheiro. Dava-me jeito que saísse este mês”.

68 anos. Há 68 que vive na mesma casa. Nasceu ali. Está dependente de oxigénio. Recebeu uma carta de umas miúdas alemãs donas do prédio para sair porque querem transformar em alojamento local. Vive com a mulher de 72. Tem o contrato antigo e já beneficiou dos 5 anos da impossibilidade de aumento de renda.

Isto é Lisboa. Predadora, vendida ao capital estrangeiro, submissa ao dinheiro, com cartazes a valorizar esta nova cidade que cospe os seus habitantes e se transforma em condomínio de luxo.

As soluções? Tímidas. Uma moratória anti-despejos até março de 2019 para quem vive há mais de 15 anos na casa e tenha mais de 65 (e todos os outros? Os mais novos? Os que vivem em quartos? Os que têm contrato de um ano?).

Uma lei que aguarda promulgação (e aguarda mesmo, apesar da Presidência se mostrar tão divorciada da realidade que nem sabe que foi aprovada) e que apenas protege o direito de preferência de quem pode comprar. E quem não pode?

Tardam as soluções embora estejam à vista:- fim dos vistos gold;- revisão do regime dos estrangeiros não residentes (que compram cá para não pagarem impostos..);- revogação da Lei Cristas;- Duração mínima de, pelo menos, 5 anos para os contratos de arrendamento para habitação própria e permanente;- Impossibilidade de alteração de licença de habitação própria e permanente para alojamento local;- Quotas de alojamento local e de arrendamento para famílias com baixos rendimentos;- Expropriação da banca e das financeiras do património imobiliário para atribuição a famílias com carência de habitação;- Limite ao aumento de rendas.

Mas nada será possível sem a organização e luta necessárias. Contra a política da Câmara Municipal de Lisboa e de todos os municípios que violam o direito à habitação. Contra a política do Governo que permite que haja tanta gente sem casa ou em condições sub-humanas. Basta. E nós somos mais.

(todas as histórias aqui contadas são verdadeiras)

Bicicletas partilhadas também são um meio de transporte… e devem ser públicas!

As bicicletas partilhadas servem como um bom adereço nas cidades responsáveis. Enganam bem. Maquilham estas cidades como cidades do futuro. Mas não cumprem um objectivo básico, o de servir as pessoas e a cidade no seu todo. Assim, surgem na cidade de Lisboa a GIRA pela EMEL e muitas empresas privadas de bicicletas partilhadas.

Nos últimos anos, várias cidades portuguesas criaram um sistema de bicicletas partilhadas. Na generalidade com nomes simpáticos (caso da GIRA em Lisboa), em simultâneo, estas mesmas cidades permitiram a entrada de empresas privadas para fazerem o mesmo serviço ou serviços semelhantes com bicicletas em suas cidades. Estas cidades não criam grande regularização destes serviços, pois qualquer empresa com interesse introduz um sistema de bicicletas partilhadas. No geral, o que se assiste é uma despreocupação generalizada em servir as pessoas, sejam moradores, trabalhadores, estudantes ou até mesmo os turistas.

Note-se o exemplo da cidade de Lisboa, talvez o mais mediático de todos, que começou a investir tardiamente nas infra-estruturas (por exemplo, as ciclovias e as próprias bicicletas) para uma melhor utilização de bicicletas individuais e partilhadas.

O sistema desta cidade é da responsabilidade da EMEL. Tem um custo anual-25€/mensal-15€/diário-2€. A partir do dia 30 de Setembro deste ano, cada viagem até 45 minutos tem um custo de 0.10€ (bicicletas clássicas) /0.20€ (bicicletas eléctricas), ou seja, num dia normal (ida/volta) as viagens custaram 0.20€/0.40€. Isto quererá dizer que, fazendo as contas, cinco dias por semana, quatro semanas por mês, dará um valor aproximado de 4€/8€. Neste momento, já estão em vigor os valores praticados em viagem que ultrapassem os 45 min até os 90 min, em que são acrescidos 1€ e 2€ por cada período adicional de 45 min acima dos 90 min de viagem. Uma viagem de bicicleta na cidade de Lisboa dura em média 45 min, de uma pessoa que vem de fora do centro da cidade. Tendo em conta estes valores todos, proponho a criação de um exemplo tipo (num cenário optimista), no qual um usuário com um passe mensal, utiliza somente as bicicletas clássicas, cinco dias por semana, e ultrapassa uma vez por semana o tempo de 45 min, num cenário pensado pós 30 de Setembro de 2018. De acordo com este cenário, teremos os seguintes valores num mês “normal”: 15€ passe mensal + 4€ uso diário (ida/volta) + 4€ por ultrapassar 45 min = 23€ mês. Conclui-se para cenários mais negativos e como foi afirmado num artigo do Jornal de Negócios: “as bicicletas são perfeitas para quem mora no centro“.

Esta rede de bicicletas foi lançada pelo poder autárquico como se fosse o último copo de água num deserto. O discurso associado à GIRA mistura práticas ambientalistas, cidade responsável e umas bikes giras e cool. Funciona através de uma APP (colocando em causa quem não tem telemóvel com estas configurações). Foi testada no Parque das Nações, por outro lado, um novo sistema de vigilância e controlo de pagamento de bilhetes da Carris foi testado na carreira 711 da Carris que faz o trajecto do Alto da Damaia ao Terreiro do Paço, nota-se que as escolhas sempre pendem pelas questões de classe, no caso da Carris com um florear racista. Apesar da expansão da GIRA pela cidade, facilmente, constata-se que em vários bairros municipais da cidade de Lisboa, elas ainda não chegaram (ver exemplos em Marvila). Soma-se, por fim, um novo factor, começam a aparecer recorrentes falhas dos travões destas bicicletas. Foram reportados mais de 40 acidentes por pessoas a usar a GIRA no início de Maio, segundo o Correio da Manha.

Como praticamente todas as redes que foram criadas pelo país, esta rede de bicicletas partilhadas não está associada à rede de transportes públicos, por exemplo, aos passes urbanos. Neste momento, há uma discussão importante sobre a criação de um Passe Intermodal na AML e as bicicletas partilhadas praticamente não têm lugar à mesa. Elas também estão totalmente desligadas de todas as outras redes semelhantes na Área Metropolitana de Lisboa, visto que cada cidade cria a sua rede e não partilha, ironicamente, com as outras redes na mesma área metropolitana. Deveria ser pensada uma AML com transportes urbanos integrados, públicos, eficientes e com preços adequados aos respectivos utentes. Esta deveria cumprir, entre vários objectivos, o de aliviar o fluxo de automóveis individuais nas cidades. Neste momento, para os utentes é mais prático utilizar um carro do que estar a pagar balúrdios para utilizar uma série de transportes, que cada vez mais são poucos eficientes.

Em simultâneo, com a existência da GIRA, a cidade de Lisboa dá alvará e promoção a todas redes de bicicletas partilhadas que chegam à capital, nacionais e estrangeiras. Com poucos impostos e legislação, este é um mercado em crescimento e de fácil acesso. Recentemente, uma multinacional na área, a oBike, chegou à cidade e, de um momento para o outro, colocou as suas bicicletas em cima de passeios, praças e lugares de estacionamentos de carros, o que foi considerado pela CML como prática “abusiva” e ordenou a retirada de todas as bicicletas do espaço público da cidade, neste momento há conversas para a mesma retornar à cidade. Em França, uma empresa retirou as suas bicicletas do mercado porque foram vandalizadas, roubadas e mandadas ao Rio Siena numa resposta dos franceses contra estes abusos praticados por empresas como oBike.

Num mercado aberto, sem muitas regras, de fácil acesso, barato, muito lucrativo e aliado a um discurso mediático e político de responsabilidade social e ambiental, as bicicletas partilhadas florescem e não dão respostas práticas e realmente responsáveis para a vida das pessoas.

Podes tirar o Daniel Oliveira do BE mas não tiras o BE do Daniel Oliveira

Daniel Oliveira, fazedor de opinião de encomenda do Expresso e talvez de mais uns quantos órgãos da doutrina dominante, certamente por reconhecimento de um brilhantismo fabricado precisamente por quem lhe paga e não menos certamente aceite pelo próprio como verdadeiro, usa uma vez mais as colunas que produz no jornal de Balsemão para a campanha eleitoral, a coberto de opinião.
Desta feita, DO começa logo por dizer que as sondagens não indicam nada mais que tendências, mas segue um texto bastante robusto e programático para algo que se baseia apenas em tendências. Depois, partindo dessa desvalorização aparente da sondagem, DO segue uma construção política definida pelo BE como orientação nacional: isolar a CDU e definir um programa conjunto entre BE e PS.
É certo que em Almada, uma das irmãs Mortágua, expôs bem o objectivo fundamental do BE naquele concelho, que é exactamente o mesmo afirmado por Sandra Cunha para o BE em Setúbal. Em ambos os casos, afirmaram sem margem para dúvidas que o seu objectivo é tirar a maioria absoluta à CDU, mas é igualmente certo que a brandura e simpatia da Comunicação Social perante o BE não permita afirmar este objectivo como central porque fica mal na fotografia quando a Catarina Martins anda por aí com a sua candura a dizer a quem queira ouvir que não percebe os ataques do PCP e que o BE não ataca o PCP. Uma coisa é o que diz Catarina Martins para se vitimizar, outra é o que fazem os seus candidatos e porta-vozes, de que são exemplos Joana Mortágua, Sandra Cunha e Daniel Oliveira. A prática é o critério da verdade e começa mal o BE ao vitimizar-se quando é o primeiro a mostrar que o seu objectivo é retirar terreno eleitoral à CDU.

Regressemos ao tema: então DO faz todo um programa político e anuncia toda uma política de alianças baseado em tendências e esquece-se de nos relembrar, por exemplo, que as sondagens de 2013, também elas indicadoras de uma “tendência”, davam sempre uma votação muito próxima entre CDU e BE e que atribuíam a ambas as forças políticas um vereador, sendo que a CDU acabou elegendo 2 e o BE nenhum. Também se esquece de nos relembrar que existe uma experiência de vereação do BE em Lisboa, precisamente alcançada num contexto de proximidade com a candidatura do PS de então (2007, António Costa).
“O Zé faz falta” lia-se por toda a Lisboa, a grande consigna do BE para convencer os lisboetas de que o BE seria uma espécie de grilo da consciência de António Costa e condição para uma política realmente de esquerda. Sá Fernandes, apoiado pelo BE, inicia uma política de total alinhamento com os piores traços do comportamento do executivo PS de António Costa e mostra que para não mais serviu do que para alimentar a ilusão de que um qualquer vereador do BE pode dar qualquer espécie de garantias de seriedade e lealdade às pessoas que vivem e trabalham em Lisboa. Não deixa de ser engraçado que DO, seguindo a linha encomendada pela Mesa Nacional que não ofende certamente a do conselho de administração de Balsemão, parta de uma “tendência” que falhou redondamente há quatro anos quando o candidato João Semedo não foi eleito vereador para construir toda uma teoria também ela rotundamente negada pela prática, pela verdade.
Há duas manobras de DO baseadas em mentiras que devem ser desmascaradas:
A primeira, a de que um vereador do BE pode condicionar mais a política do Executivo do que Manuel Salgado, vereador do PS na CML. Em nada essa teoria encontra respaldo. Pelo contrário, todos os indícios existentes a negam. Começando pelo facto de a probabilidade de eleição de um vereador do BE ser parte da propaganda habitual das sondagens e terminando na experiência recente de vereadores do BE eleitos em Lisboa. Das duas uma: ou DO está delirante e acha mesmo que o candidato do BE pode vir a ser um vereador simultaneamente leal ao povo e a Medina e ao mesmo tempo que o Medina o respeitará mais do que aos seus próprios amigos de partido, ou então DO mente e efabula para cumprir com falácias a orientação nacional do BE que consiste em atacar e isolar a CDU.
A segunda, a de que a CDU se pôs de parte de qualquer debate sobre o poder em Lisboa. Todos sabemos que a CDU e as forças que a compõem: PCP, PEV, ID e muitos independentes, não discutem cenários políticos com base em sondagens e não discutem coligações ou acordos com base em siglas e símbolos partidários, mas sim com base em programas e propostas concretas. Concentrar os esforços na campanha e na divulgação das propostas da CDU é a prioridade dos seus membros e candidatos e isso é um contributo de seriedade para a política de Lisboa e do país, ao invés de alimentar debates sobre arquitecturas fabricadas por jornais e sondagens, ajudando a criar a confusão e a ilusão e instrumentalizando cenários inventados como armasde arremesso contra alguma força política, que é precisamente o que DO faz no seu “artigo”: inventa um cenário que não tem nada de real e, partindo desse cenário criado, utiliza-o como arma contra a CDU em Lisboa. O trabalho dos candidatos da CDU em Lisboa, de que destaco o meu camarada João Ferreira por ser o candidato a presidente da Câmara e por demonstrar que dispõe, como nenhum outro candidato ao mesmo cargo, das capacidades e condições para levar a cabo um mandato ao lado do povo de Lisboa e colocar o poder autárquico ao serviço dos que aí vivem e trabalham, fala por si e afirma-se como um elemento concreto perante as palavras abstractas de DO. Contra a efabulação e invenção de DO, a prática e a verdade do dia-a-dia da CDU e dos seus candidatos. E podemos olhar para o mandato que ora está prestes a terminar e reconhecer, como em nenhuma outra força política, a constância da CDU e a lealdade dos seus vereadores ao projecto inicialmente apresentado, sem deslumbramentos ou delírios, sem cedências de princípios e sem abandonar por um minuto a combatividade e a tenacidade que os caracterizou desde o primeiro momento.
Acrescenta-se uma outra mentira de DO e uma opinião que é dada como facto: a de que a CDU é contra a redução do espaço para a viatura individual e a de que a municipalização da Carris foi a melhor medida de sempre para a cidade. Sobre isto é importante dizer que a CDU defende acima de tudo a criação de uma rede de transportes públicos eficiente e capaz de responder às mais diversas necessidades da população, que ainda não existe e que não defende, por isso, soluções que passem pela simples penalização do uso do transporte individual. Ou seja, não é penalizando o uso do transporte individual sem criar alternativa que vamos resolver o problema da mobilidade em Lisboa. Para PS e BE, fazer as pessoas pagar cada vez mais para circular ou estacionar, proibir a circulação de viaturas individuais em cada vez maiores áreas, é uma solução em si mesma, mesmo que não seja acompanhada, como não é, de uma rede de transportes mais eficaz. Sobre a municipalização da Carris, cá estaremos para ver onde vai dar essa grande medida do Governo, mas também relembro que, não fora o PCP, e essa municipalização sucederia como primeiro passo de um processo de privatização e que foi a intervenção do PCP que determinou que assim não fosse, para já.
Daniel Oliveira saiu do BE mas mantém o método do manual de instruções do bom esquerdista: passo 1, demagogia; passo2, atacar a CDU; instruções gerais, sempre que possível, combinar ambos.

Medina e o amarelo da Carris

Carta Aberta ao Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Dr. Fernando Medina.

Caro Fernando,
Ouvi-o dizer há alguns meses que o conceito de “turistas a mais não existe. Não tem sentido“. Em plena época de recreio gostava de o incitar a fazer um teste: viver durante uma semana na cidade cujos destinos tem gerido apenas com o passe nas mãos, o mais básico, mantemos o teste dentro da primeira coroa da cidade.

O que sugiro é que vá viver para um local da cidade de Lisboa e que, todos os dias, imagine que trabalhe num sítio diferente. Nesta sua semana sugiro então um conjunto de tarefas:

– apanhar o 28E no Martim Moniz tendo que chegar em meia hora ao final da linha, leve o protector, que a exposição ao elemento solar é perigosa!;
– apanhar o 15E no Cais do Sodré em direcção a Belém, a qualquer hora do dia, aqui terá duas experiências diferentes, a da sardinha em lata ao sol e a da sardinha em lata à lua, porque o eléctrico maior não deve conseguir andar de noite… sugestão, se tiver sono, saia meia hora mais cedo, porque naturalmente não vai apanhar o primeiro eléctrico;
– apanhar a linha verde do metro no Cais do Sodré às 8h30 da manhã (ainda bem que agora Arroios fechou, senão era sardinha em lata subterrânea);
– esperar pelo 760 no Desterro, por exemplo. Mas não se esqueça de mandar sms para a Carris e confirmar que o próximo autocarro chegaria a si dentro de 15 minutos, isto durante 25 ou mais…;
– apanhar a linha azul em São Sebastião por volta das 16h e ver que o próximo metro chega dentro de 9 minutos. Esperar 2 minutos, voltar a olhar para o tempo e ver que o próximo metro chega dentro de…9 minutos. Esperar mais 2 minutos…já percebeu, certo?
– para terminar, aconselho-o a fingir que é carteiro e que trabalhar na Baixa, de preferência tem de entregar cartas na Rua Augusta. Coisas com que terá de ter cuidado: pessoas que travam de repente para a selfie; círculos espontâneos que ocupam toda a rua para verem um artista de rua; empregados de restaurante que, tentando dar o seu melhor, o param a cada passo lhe dizerem “hello!”; e enfim, todo um labirinto de pernas, gadgets, pára-arranca a caminho.

Pronto, fiquemos por aqui.

Se depois de cumprir estes desafios continuar a achar que não há turistas a mais, tiro-lhe o chapéu, é um guru da paciência. Se conseguir passar por isso e nem por um segundo tiver vontade de soltar um berro no meio da rua porque o 728 vinha cheio e não parou, prometo que lhe ergo uma estátua.

Mas até vou concordar consigo, não há turistas a mais, é verdade. Mas há autocarros a menos, metro a menos, limpeza a menos, planeamento a menos, sentido do real a menos. O Fernando tem um gabinete, sai do gabinete vai para os estofos do automóvel, e dos estofos do automóvel para o conforto da casa. Deve chatear-se por vezes com o trânsito, mas este seria menos com transportes a mais…

Enfim, Lisboa está um caos, convença-se disso.
Se quer, como todos queremos, que continuem os estrangeiros a adorar Portugal e Lisboa, pense que a primeira coisa a fazer é mesmo dar melhores condições para quem cá vive, viver melhor, mover-se melhor, desperdiçar menos energias a rogar pragas à enchente de turistas.

Repetindo, o problema não é a enchente, é o serviço da Carris não dar mostras de melhoria, são os constantes problemas técnicos do Metropolitano (até quando havia muitas greves o metro passava mais vezes…), é a impossibilidade que uma família normal tem para alugar uma casa sem ter de hipotecar a vida, é a palermice de decidir que o caos de Lisboa devia aumentar com obras em cada m2 só para chegarmos ao final de Setembro com o seu ego ajardinado.

Por mim estou farto de Lisboa, só não fui já embora porque a minha actividade, para já, não o permite. Mas lhe garanto, assim que tenha possibilidade para o fazer, ála que se faz tarde! Pelo menos passo a ser menos um para lhe dizer que enquanto tivermos respeito a menos por quem vive na cidade, continuará sempre a haver turistas a mais.

Portugal aqui ao lado

Há vários motivos que levam a que, por vezes, nos sintamos mais próximos de cidades que estão a milhares de quilómetros do que de alguns locais aqui ao lado. Quando digo “nós” refiro-me, especialmente, aos sortudos como eu, que nasceram junto ao mar – onde a mãe, chegada do interior transmontano, veio desaguar – e, mais do que isso, junto a uma das duas grandes cidades que competem no país. São as tecnologias, as aplicações, os telemóveis, o mundo à distância de um clique, os filmes e as notícias que consumimos e esta mania de achar que somos maiores do que na verdade somos. E nós temos tudo para ter grandes cidades, mesmo quando as nossas cidades grandes são mais pequenas que a esmagadora maioria daquelas com que competimos.

A tragédia de Pedrógão é um exemplo disto mesmo. Ninguém na cidade grande imaginava que aquilo pudesse acontecer, por vários motivos: é longe, não vende jornais e não rende votos. E estamos todos demasiado longe de Pedrógão para fazermos ideia do que é viver no interior de um país inclinado para o mar, onde Lisboa e Porto acham que têm de competir e não procurar formas para se complementarem. Aquando do incêndio, discutia-se a gravíssima questão da candidatura à Agência Europeia do Medicamento; que era no Porto, que era em Lisboa, e que estava tudo centralizado em Lisboa, que o Porto isto e Lisboa aquilo. E eu imagino o interesse da restante população do país a acompanhar esta novela, dos cidadãos dos Pedrógãos todos, que hão-de perguntar-se por que não em Castelo Branco, em Bragança, em Évora, em Beja, em Leiria ou em qualquer outra cidade.

É que, na verdade, nem o Porto nem Lisboa precisam de uma Agência do Medicamento para se promoverem. Mas ficámos todos chocados com o que sucedeu em Pedrógão, claro, mas, se calhar, é melhor começarmos a pensar como vai ser daqui para a frente.

O que aconteceu naquele incêndio é uma consequência daquilo que é a nossa acção como cidadãos. Enquanto as elites lisboeta e portuense discutem o prestígio internacional, arrastando-nos a todos para essa questão, há um país que todos os anos morre um bocadinho com incêndios. Há portagens em estradas já pagas, há escolas fechadas, há tribunais fechados, centros de saúde fechados, até o banco do Estado fecham. E levaram até as Juntas de Freguesia, numa série de medidas feitas a partir de Lisboa por gente que acha que 5 quilómetros em Lisboa são os mesmos 5 quilómetros que separam duas localidades no interior. E não são. E ninguém quer viver onde não há nada.

O mais surreal nisto tudo é que, muitas vezes, estas medidas de promoção da desertificação são promovidas por pessoas do interior e aprovadas por gente eleita em distritos do interior. Que, na verdade, não quer ser o eleito pelo seu distrito, quer ser aquele que no seu distrito é conhecido por estar em Lisboa, curvando-se perante a elite da metrópole.

Portugal mantém-se inclinado para o mar, com duas cidades que, se não aprenderem a conviver e tiverem capacidade de perder algumas coisas para o resto do país, vão acabar por afogar-se. É que não deve haver muitos países onde quase 50% da população se concentra em apenas dois grandes centros, no caso, as Áreas Metropolitanas de Lisboa e do Porto. Bem acima de 800 habitantes por km2, quando a média do país é de pouco mais de 100.

E não, não falta nada ao Porto nem falta nada a Lisboa. Basta levantarmos a cabeça dos smartphones e olharmos para o resto do país.

Pop xunga

Eu não gosto do que a Joana Vasconcelos (JV) produz actualmente. Mas isso não importa nada porque o gosto não pode ser um instrumento de apreciação e definição da política cultural.

A produção da artista standard é uma repetição em ciclo de uma receita estafada que começou por ser inovadora por pegar em tradições estéticas portuguesas e assumir a sua “piroseira” intrínseca numa abordagem construída com novos materiais, até com alguma audácia plástica. Hoje em dia, JV é uma empresária da arte, trabalha por encomenda numa espécie de produção em série em que a criatividade é apenas uma lembrança que jaz no seu historial.

Mas isso não importa nada porque o gosto não pode ser um critério político.

Independentemente do que achamos, as elites ou as massas, o indivíduo ou o colectivo, a avaliação da política cultural não pode passar pela crítica do conteúdo artístico, pelo simples facto de que a produção artística é uma cadeia criativa que interliga todos os pontos de formas mais ou menos perceptíveis: a história da Arte é, ainda assim, História e, como tal, está sujeita precisamente às mesmas leis que a História.

Portanto, o que nos cabe julgar não é a validade da produção artística, nem mesmo da mensagem ou inexistência dela. O que nos cabe julgar é se a política de cultura em Portugal e em Lisboa é a adequada a cumprir os objectivos constitucionais da “liberdade de criação e fruição artística e cultural”. Ou seja, a contratação sistemática de artistas, os mesmos artistas, principalmente dos que produzem uma arte despida de incómodos, de inquietação, aqueles que produzem uma arte da conservação do status quo, cumpre os objectivos máximos da política cultural em Portugal ou, pelo contrário, confrontam-se com esses objectivos.

A adopção de estéticas de regime, de artistas de regime, a consagração de “gostos” avalizados pelo poder político cumpre dois papéis claros: promove a produção do artista e a estética neutralizante e, ao mesmo tempo, assegura a projecção do comprador na perspectiva da publicidade.

Não está em causa a virtude do Pop Galo nem de JV. O que está em causa é saber se o nosso papel – do Estado, das autarquias e mesmo da Comunicação Social e dos programadores artísticos – é dedicar importantes fatias do orçamento público e privado à alimentação de um mercado da arte e de uma cadeia de exploração capitalista com base na reprodução de estéticas entorpecedoras ou, pelo contrário, é assegurar que há espaço para toda a produção artística, sem sujeições, sem crivo político, estético e, muito menos, de gosto.

O papel dos agentes de política cultural não pode ignorar a produção artística que corresponde à hegemonia, claro. Mas não pode, nem deve, “iconizar”, nem “reduzir” a produção a um cânone, seja ele qual for, sob pena de estar a usar a arte como mero broche na lapela, como adorno da classe que domina as restantes ou como instrumento de domínio dessa classe sobre as restantes.

Os ícones da arte, na minha opinião, são os milhares que pintam paredes com latas de tinta às escondidas da polícia, são os que fazem teatro sem dinheiro e escrevem livros sabendo que só os amigos os lerão, são os que ensaiam a banda na garagem e aspiram tocar para uma centena, os que pintam, dançam, esculpem, vencendo as condições sociais em que vivem. Se a JV recebesse milhões para levar um cacilheiro não sei aonde, mas estes operários das artes pudessem trabalhar em condições iguais, eu não teria nada a dizer. Mas enquanto JV for simultaneamente o espelho e o objecto que simbolizam a decadência de uma burguesia desvairada, preferirei sempre os Popxula ao Pop Galo.

Lisboíte aguda

“Vê-se que não é de Lisboa”. Podia ser um comentário de café. Podia ser uma boca parva que se ouve na rua. Podia ser uma afirmação sobranceira de um lisboeta a propósito daquilo a que alguns gostam de chamar província. Mas não. Foi mesmo o argumento político do Vereador Duarte Cordeiro enquanto interrompia fervorosamente a intervenção do PCP na Assembleia Municipal de Lisboa no debate anual sobre o Estado da Cidade de Lisboa.

Falava-se sobre a ausência de estratégia para o património e para a cultura, ironizando que o evento de abertura do Capitólio fosse, não um evento municipal mas um evento privado da Vodafone, a 45-50 euros o bilhete (já à imagem da corrida Corte Inglés, do Continente não sei quê, da NOS não sei que mais, enfim, os mega eventos que fecham a cidade para dar lugar a eventos patrocinados por grandes grupos económicos com zero contrapartidas para os cidadãos e para o município), do estado em que está o Restaurante Panorâmico de Monsanto, o Pavilhão Carlos Lopes e, cometendo (eu) um lapso, afirmei que já nem há cinemas municipais em Lisboa. Falha minha que não mencionei o S. Jorge, mas não passou disso mesmo, um lapso. Que teve como resposta um «vê-se mesmo que não é de Lisboa».

No momento achei que foi apenas uma tirada infeliz. Infeliz porque o próprio presidente da Câmara Municipal de Lisboa não é de Lisboa. Como não é a Vereadora da Habitação. Mas isso não tem interesse nenhum. Naturalmente, ironizei. Mas a afirmação do senhor Vereador Duarte Cordeiro é perigosa, elitista, diria quase xenófoba. Perfeitamente, essa sim, alienada da cidade pela qual está eleito, sempre tão preocupado com o visit Lisbon e as web summits que está, que até quase parece dar a entender que só se quer em Lisboa o estrangeiro endinheirado mas não o trabalhador que se vê que não é de Lisboa, mas infelizmente vive em Lisboa, trabalha em Lisboa e, caramba, está eleito em Lisboa! Que maçada.

E a coisa não seria preocupante se o Executivo da cidade de Lisboa eleito pelo PS não mostrasse tanto desconhecimento da cidade de Lisboa. Medina apelidou-a de «fábrica de talentos», uma cidade num momento extraordinário, de grande competitividade e oportunidade, uma cidade que atravessa dos melhores momentos de sempre. E foi preciso apenas acesso à internet e 5 minutos para contrariar quase 20 minutos de auto-bajulação:

No entanto, entre 1989 e 2009, a taxa de pobreza na região de Lisboa subiu cerca de 80%, o que poderá ser explicado pela emergência de novas formas de pobreza, particularmente associadas às grandes concentrações urbanas e ao desemprego. O estudo publicado em 2012 pode ser lido aqui.

230 trabalhadores despedidos no 2º semestre 2016 no concelho de Lisboa e incluídos em processos de despedimentos colectivos. 48% eram trabalhadores de empresas de pequena dimensão.


49,7% dos desempregados de longa duração entre os 35-54 anos valor relativo ao 2º trimestre de 2016 e referente ao número de inscritos nos centros de emprego de Lisboa. (Dados do Observatório da Luta contra a Pobreza na Cidade de Lisboa)

De acordo com dados do Instituto da Segurança Social, entre 2006 e 2012, o número de famílias beneficiárias do Rendimento Social de Inserção (RSI) no distrito de Lisboa quase triplicou, passando de 13 mil para 31 mil.

Sobre isto, Fernando Medina responde que os dados não têm respaldo na realidade. (????) E diz-se espantado, quando questionado directamente sobre o motivo pelo qual não se dirigiu aos trabalhadores da hotelaria e turismo que se manifestavam por melhores salários e mais direitos quando foi inaugurar a convenção de turismo mas se limitou a receber aplausos dos empresários. Espantado porque acha que não é de esquerda não defender os empresários. Porque acha que não é de esquerda defender a web summit. Porque acha que não é de esquerda respaldar as políticas da Câmara Municipal que têm levado a cidade de Lisboa a um autêntico estado de sítio.

Não, não é preciso ser-se de Lisboa. Infelizmente é preciso ir viver para Lisboa ou trabalhar para Lisboa para conseguir trabalhar na área que se gosta (ou trabalhar de todo, em alguns casos). Mas é verdade que, não sendo de Lisboa, também se torna mais difícil (cada vez mais) poder permanecer aqui. Porque por mais pedras que lancem e anúncios que façam, as rendas continuam a subir (com uma ajuda preciosa na especulação imobiliária por parte da Câmara), os preços nos cafés, restaurantes e cinemas continuam a subir (sim, só há um cinema municipal na capital do país), os museus e teatros estão praticamente todos privatizados, a rede de transportes não funciona, os salários não acompanham o aumento do custo de vida da cidade.

Esta febre de Lisboa Valley, vendida como uma cidade moderna e atractiva, só existe na cabeça de uns quantos. Não gera emprego, não gera qualidade de vida, não gera bem estar. E começa a gerar essa sobranceria desgraçada que fica muito mal a um representante eleito mas que revela muito bem a política classista a que está votada a cidade e o município.

Vê-se para quem é Lisboa. Para este executivo do PS, Lisboa não é certamente para a classe trabalhadora.