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Vai à merda, Isabel

Estávamos em 2017. Lembro-me como se fosse ontem. Provavelmente não te lembras de mim, porque eu era só mais um dos trabalhadores em luta. Era dia 28 de Março e nós, os jovens precários da Randstad, fizemos greve. Tínhamos decidido concentrar-nos à porta do edifício da Meo na Praça do Areeiro, e daí seguimos em marcha até à sede da Randstad em Lisboa, na Avenida da República. Ler mais

Os derrotados de todos os dias

«Das eleições acabadas, do resultado previsto, saiu o que tendes visto: muitas obras embargadas. Mas não por vontade própria, porque a luta continua, pois é dele a sua história e o povo saiu à rua». A letra é do Zeca mas a história é de todos: quando contei o resultado das eleições ao meu pai, que se aproxima gentilmente dos 88 anos, ele disse-me que já viu pior. Recordei-lhe que, em eleições para o Parlamento Europeu, o escrutínio de domingo devolveu o pior resultado da CDU, com a perda de metade dos votos em relação a 2014. «Já vi pior», insistiu. E já viu mesmo.

É fácil perdermos a perspectiva na espuma dos dias e esquecermo-nos de como eram as derrotas há apenas meio século, meia-dúzia de dias à escala da História e ontem para mulheres e homens como o meu pai.

Durante o fascismo, o meu pai era jornalista da Capital e militante do PCP. Lembra-se da prisão, da tortura, do medo que sentiu no isolamento e de quase morrer sem assistência médica. O meu pai lembra-se de achar que a vida dele tinha chegado ao fim. Lembra-se de, quando foi preso, pensar que os dois filhos e a mulher tinham ficado sem qualquer sustento. O meu pai lembra-se dos camaradas que foram assassinados.

Então, quando lhe falo na perda de um euro-deputado, o meu pai lembra-me do Comité Central estar praticamente todo preso. Quando lhe leio o Expresso a declarar o óbito do PCP, ele lembra-me de que os jornais, já nos anos 50 e 60, anunciavam o fim do PCP a cada redada policial. Quando lhe desabafo que os nossos militantes se estafaram a trabalhar nesta campanha, ele lembra-me das gerações de comunistas que lutaram até ao fim das suas forças sem chegar a ver o 25 de Abril.

E o meu pai não é um herói. Não é um Álvaro, nem um Jaime Serra, nem um Sérgio Vilarigues, nem um Blanqui Teixeira, nem um António Dias Lourenço. O meu pai é um militante como outros milhares, um trabalhador reformado, um homem bom que aprendeu a ler, a escrever e a pensar.


O que distingue o PCP de todos os outros partidos é a sociedade totalmente nova, mais justa, por que lutam os comunistas. E o socialismo é uma corrida de resistência e distância longa, potencialmente mais longa do que o nosso tempo de vida. Não espanta, pois, que nas mais amargas noites eleitorais haja quem tome a alegria comunista por desfasamento da realidade. Mas não se trata de dificuldade na admissão da derrota, mas de uma perspectiva, histórica e democrática, que vai para além do momento do voto.

A campanha eleitoral dos comunistas dura a vida toda. Com mais ou menos votos, nos parlamentos e fora deles, na manhã seguinte lá estão os comunistas, nas comissões de trabalhadores, nos sindicatos, nas greves, nas estações de comboios, nos tribunais, na conversa com os colegas, com ou sem eleições, legal ou clandestinamente. Quem teve as unhas arrancadas não desanima com eleições.

O mau resultado do PCP será alvo, estou certo, da devida análise no seu seio. Milhares de militantes, em cada organização, em cada freguesia, em cada local de trabalho, terão oportunidade de discutir franca, e lealmente, tudo o que pode ser feito, para chegar às próximas legislativas com um resultado diferente, não porque crescer nas eleições burguesas seja em si uma vitória, mas porque esses resultados são necessários ao fortalecimento da luta dos trabalhadores e à divulgação das propostas comunistas.

Ontem ajudei uma amiga a chegar ao sindicato pela primeira vez: os patrões têm em curso uma campanha terrorista de assédio moral para a pressionarem a aceitar um salário mais baixo, um contrato que não corresponde às suas funções e a retirada de direitos. A derrota eleitoral da CDU não impressiona  quem está, todos os dias, com os que são derrotados todos os dias. Os trabalhadores não são só derrotados nas eleições: são derrotados quando o patrão pode impor horários livremente, quando têm de aceitar um salário com que não se consegue sobreviver, quando têm de comer e calar porque têm medo de não ser renovados. Essa é a derrota a que importa pôr termo.

Soube hoje que esta amiga se sindicalizou e que, pela primeira vez, não vai baixar os braços perante a injustiça. Esta é uma vitória que, sabendo-a uma partícula no oceano, enche-me de esperança para continuar a luta, até à vitória, sempre.

Lucas, Abril imigrou com ele

Há histórias que contadas no Primeiro de Maio, ninguém acredita que já foi 25 de Abril: um patrão faz um contrato a um imigrante; explora-o da forma mais brutal durante um ano; quando esse trabalhador faz greve, o patrão chama a polícia e denuncia a existência de um «imigrante ilegal» que é lestamente detido. O Manifesto74 conversou com Lucas Nascimento, o protagonista de uma história sobre dignidade e coragem.

Lucas chegou legalmente a Portugal, há quase dois anos, então com um visto de turismo. «Comecei a trabalhar no restaurante Miradouro Ignez em fevereiro de 2018, então eu estava legal», explicou ao Manifesto74. «Só me faltava o número da segurança social para poder fazer descontos, mas para ter esse número é preciso que a empresa passe uma declaração indicando que o funcionário está a trabalhar e tem meios de ficar no país».

Mas a desejada regularização não fazia parte dos planos do patrão que responde pelo nome de Mário Gregório: «Ficou a me enrolar por muitos meses, até que finalmente fiquei ilegal no país. Não existe problema na lei: existem patrões que querem se aproveitar da fragilidade da nossa situação para tirar proveito e fugir a impostos», sentenciou.

O «proveito» a que Lucas se refere é um extenso rol de crimes e imoralidades próprias de um traficante de escravos do século XXI: «assédio moral, abuso de autoridade, negação de direitos básicos como subsídio de refeição, horas extras e nocturnas não pagas, horários sempre a mudar e desrespeito pelos prazos para adaptação».
Práticas e métodos que, garante Lucas, mostram como os trabalhadores portugueses estão mais desprotegidos que os brasileiros. «Eu nunca tinha trabalhado aos domingos e nos feriados sempre recebi a dobrar… Já aqui em Portugal é outra história… horários repartidos, o povo trabalha de domingo a domingo, aos feriados e noite dentro. Muitos trabalhadores não têm horários fixos: vivem à merce da vontade do patrão e das horas que ele quer que sejam feitas».

Durante anos, a estratégia de Mário Gregório para explorar ao máximo os trabalhadores do Miradouro Ignez assentou no medo e na divisão dos trabalhadores. «Quando os trabalhadores estão unidos, um patrão desonesto não tem hipótese. Mas com a casa dividida e brigas entre os funcionários, é fácil fazer a vida negra a quem ou mesmo despedir quem faz frente ao patrão». O medo, porém, provar-se-ia ineficaz com Lucas Nascimento.

«Venho de uma família desestruturada e sempre tive muitos conflitos em casa por conta dos vícios do meu pai. Tive de aprender a protestar e a combater desde pequenino. Como minha mãe e meus irmãos não conseguiam fazer-lhe frente, tinha de ser eu. Aos quinze anos consegui expulsá-lo de casa de uma vez por todas, mas esta postura, de não me render perante a injustiça, ficou para sempre».

Portugueses e imigrantes, unidos

A luta dos trabalhadores começou onde normalmente teria acabado: uma injustiça individual, contra uma trabalhadora que, sozinha nada podia fazer, «uma colega do Monte Ignez, que é muito boa pessoa e uma excelente profissional», faz questão de sublinhar. «No seu primeiro trabalho em toda a vida, se deparou com uma patroa que além de lhe pagar miseravelmente, ficou a dever-lhe meses salário. A colega recorreu a todas as instituições do Estado, mas acabou por não conseguir resolver nada. A coitada, já em desespero, foi parar ao Miradouro Ignez em 2017, mas o novo patrão mostrou-se logo tão ou mais desonesto que a anterior: não lhe pagava subsídios, feriados, horas extras e estava constantemente a mudar o horário de trabalho, não ligando se ela tem vida pessoal ou não… Perante essa falta de consideração por parte da entidade empregadora, fomos atrás dos organismos responsáveis do Estado, mas obtivemos sempre respostas do tipo “não há nada a fazer”. Então embarquei nessa luta, em conjunto com meus colegas para mostrar para ela que temos o direito de ter um trabalho onde somos respeitados pelo patrão, que o patrão só tem autoridade até onde a lei permite, e que deve começar por nós a reivindicação de direitos».

À medida que o embrião da luta gestava no restaurante, as velhas «brigas» entre trabalhadores davam lugar à solidariedade. Os portugueses aperceberam-se de que as ilegalidades cometidas contra os imigrantes serviam apenas para pressionar os seus próprios direitos. Estendiam-se pontes entre as exigências de cada um, cada qual descobria no outro a força que sozinho não tinha e, acima de tudo o resto, descobriram que a luta era o único caminho.

«Após ver que nos órgãos responsáveis as chances de mudar algo era quase nula, uma vez que a ACT já tinha autuado o local e nada tinha mudado, tentámos o sindicato, até porque nós não sabíamos quais eram nossos direitos como funcionários da empresa. Nessa altura estávamos muito desgastados e já sem esperança. Lá conhecemos a Albertina que nos recebeu com muita alegria, nos explicou muita coisa, e numa rápida votação, meus colegas me escolheram como delegado do Sindicato da Hotelaria do Norte (SHN).»

Seria o início de uma batalha heroica entre a dignidade e a prepotência, entre a lei e o dinheiro, entre explorados e exploradores.

«Após a chegada da carta do sindicato, a meio de Dezembro, tentaram me comprar. Como eu ignorei, tentaram me ameaçar com despedimento. Então, começaram a mudar o horário dos colegas sem dar prazo de adaptação e a marcar falta às pessoas que não aceitassem o novo horário. Na hora de pagar o salário de Dezembro, o patrão decidiu me pagar apenas o que ele achou que eu deveria receber, mesmo sabendo que eu fiz mais horas que todos na casa, quase todas elas noturnas. A outras duas colegas portuguesas que então estavam de férias, o patrão fez o mesmo e também só pagou o que quis. Quando eu lhe liguei questionando sobre o que tinha acontecido a resposta foi: “Tu não és meu funcionário. És apenas um prestador de serviços e o que recebeste está ótimo. Não entres mais ao serviço que não te quero mais aqui!” Eu respondi-lhe que se ele se quisesse livrar de mim tinha de me fazer chegar uma carta de demissão válida e que no dia seguinte eu estaria ao serviço. Daí para a frente o sindicato decidiu agendar reuniões no Ministério do Trabalho para ver se era possível algum diálogo com o homem».
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Sobre o SHN, que desta forma entrou para a liça, Lucas não poupa elogios: «Tem feito um trabalho incrível, nunca fui tão acolhido e defendido em toda a vida. O Sr. Figueiredo e o Sr. Nuno são homens exepcionais e altruístas», diz dos dirigentes sindicais com que tem contactado, «a luta deles é mesmo a luta de todos que trabalham na restauração».

Perante a absoluta intransigência do patrão, os trabalhadores do Miradouro Ignez avançaram para uma greve de dois dias, a 1 e 2 de Abril, exigindo o cumprimento da lei e o respeito pelos seus direitos. A greve foi um rotundo sucesso, mas a resposta do patrão surgiria depois, quando Mário Gregório despediria ilegalmente Lucas e outros dois trabalhadores imigrantes, chamando a polícia para o deter quando se apresentou ao trabalho.

A PSP confirmou à Lusa a detenção, «após denúncia de que um cidadão estrangeiro podia estar em situação de permanência ilegal no país».

Tanto o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) como a Autoridade para as Condições no Trabalho (ACT) vieram a terreiro desmentir Mário Gregório, que invocara falsamente estas siglas para justificar o despedimento ilegal. Mais ainda, o SEF fez saber que os três trabalhadores imigrantes estão em situação legal a ACT acrescentou que os três estão autorizados a trabalhar em Portugal. E, apesar de tudo isto, borrifando-se para a lei, Mário Gregório mantém o despedimento ilegal.

“Tu não és meu funcionário. És apenas um prestador de serviços e o que recebeste está ótimo. Não entres mais ao serviço que não te quero mais aqui!”

Lucas mantém a vontade de regressar ao seu local de trabalho, mas com mudanças. «Ele tem de perceber que não pode continuar tratar os trabalhadores desta forma» e espera que essas mudanças podem inspirar outros trabalhadores, «o meu caso e dos meus colegas é o caso da maioria dos portugueses que trabalham na área da restauração. Os trabalhadores precisam acordar e lutar contra as injustiças que esse setor promove», sublinha.

A um oceano de distância, Lucas não esconde «uma tristeza imensa» pela situação política do seu país natal e aponta o dedo à reforma laboral de Bolsonaro que «não está a gerar mais empregos ou riqueza, mas sim mais desigualdades», acusa. «O homem que eu via como uma piada está no Poder e aquele que eu admirava está preso. Não sei se sou eu que estou errado ou se é o mundo que está ao contrário».

Não, Lucas Nascimento nunca esteve ilegal em Portugal. Esta terra e a sua cidadania pertencem a quem nela vive e trabalha todos os dias. Já patrões como o dono do Miradouro Ignez, Mário Gregório, estão, eles sim, ilegais, por violar sistematicamente a lei do trabalho, assediar, ameaçar e aterrorizar os trabalhadores mais vulneráveis e explorar desumanamente os que vivem do seu próprio suor. Podíamos começar por denunciar Mário Gregório ao SEF. Pode ser que o deportem para o séc. XIX.

«Nós também estivemos lá… por pouco» por Bárbara Carvalho e Laura Almodovar

Celebrar Abril e Maio não pode ser só estética. É sempre um momento de resistência necessário. Celebrando-se aquilo que foi, reivindica-se o que já não é. Celebramos a luta antifascista e as conquistas arrecadadas. Afirmamos a urgência dos direitos que nos são retirados, que a nossa geração já não conheceu, mas que também não esqueceu. A celebração de Abril e Maio não se ancora numa evocação identitária oca e simplista, mas sim num pulsar de exigências que nos é quotidiano.

A produção cultural, no contexto actual, já é em sim um acto de resistência, sobretudo quando politicamente posicionada, sobretudo em Abril e Maio. Elas também estiveram lá é mais do que a reivindicação da memória histórica e muito mais que uma celebração. A verbalização não sai fácil, a selecta audiência e a imediatez passional da época dificultam a tarefa, mas exigem-se umas linhas sobre as que resistiram, as que lutaram e as que as transformaram – a elas e às suas histórias – em símbolos de luta. Uma peça que, por se posicionar política e ideologicamente sem descurar o sentido estético, tem (ou teria) a capacidade de impactar públicos vastos. Uma peça que conjugando cinema, música, literatura, fotografia e teatro mostra que as opções estéticas são em si veículos de mensagens. Neste caso, numa só peça, a confluência de artes para uma construção colectiva. Uma peça de teatro político que fomenta o sentido crítico e levanta questões sem apontar, à partida, a direcção certa para o processo de reflexão de cada espectador.

Elas. Elas, as mulheres da resistência antifascista, de Abril e Maio, e do PREC. Uma produção que escapa a um cânone de arte militante assente no evento, Elas viajaram e fizeram-nos viajar entre os três momentos que, em comum, têm a resistência e a luta. A resistência e a luta delas que não foi – nem é – a mesma que a deles. Mas, mais do que dar visibilidade às narrativas da Teresa, da Júlia ou da Eugénia, por oposição à resistência e à luta do Domingos, do Vítor ou do Henrique, mostraram-nos como o processo revolucionário foi construído em conjunto, como formas de opressão desaguaram em formas de transformação de classe, de género, de sociedade e de cultura. Elas, que continuam de fora das narrativas oficiais. Elas, que não desistiram das suas reivindicações em Abril de 1974 e, menos ainda, em Novembro de 1975.

Com elas participamos num jogo de espelhos entre ausências e presenças, num confronto entre os actores estabelecidos da nossa memória colectiva e as figuras (femininas) que passaram os últimos 40 anos a julgar que não tinham nada para contar. Trouxeram relatos que iluminam as particularidades de viver mulher durante o fascismo, sobretudo na sombra do quotidiano, da intimidade. A brutalidade de viver mulher sob a asa de um homem – primeiro o pai, depois o marido. Violações conjugais ou abortos clandestinos e solitários – porque o pão não chegava para mais um, os contraceptivos não existiam e o maridinho tinha vontades. A tortura pela PIDE que era tudo o que foi para o Zé, o Pedro e o António, mas para a Georgete, a Conceição e a Aurora revestia-se ainda do machismo sistémico, com humilhação sexual, exposição de nudez e chantagem através dos filhos. Nesta peça, ao iluminar-se o que era viver mulher não se apaga que nem todas as mulheres estavam em pé de igualdade. As mulheres trabalhadoras do Couço não se confrontavam com as mesmas dificuldades da mulher que vivia na Avenida e que escondia as suas leituras proibidas. A livreira, filha de trabalhadores, que estudava na escola comercial e não tinha dinheiro para comprar um dicionário não é a Teresa que foi expulsa do liceu por distribuir propaganda. Mas até sobre isto a peça nos põe a reflectir, sobre a importância da opção de classe.

Neste jogo do ausente e presente, surgem paralelismos com a resistência espanhola, com o que foi lá e cá, numa península que aguentou as mais longas ditaduras europeias. Está ausente da peça, talvez porque só agora começa a surgir na discussão da memória colectiva, relatos do que se passava nas colónias. Relatos das Elas (e eles) que no hemisfério contrário se debatiam contra uma guerra colonial, contra a morte quase certa, contra um fascismo que as considerava menos que humanas.

Ainda há muito caminho a percorrer, mas para isso elas (nós) estão a fazer a sua parte.

Como é que as mulheres desta peça também estiveram lá? Talvez ainda estejam a tentar descobrir. O Teatro do Vestido foi uma das companhias que não recebeu financiamento da DGArtes. Sem financiamento desde Janeiro, as actrizes asseguram os compromissos contratuais já estabelecidos. Até quando é que, nestas condições, elas vão continuar a estar lá?

Como é que nós também estivemos lá? Ainda nem nós sabemos bem. A EGEAC anunciou os poucos dias que a peça estaria em cena (já começa a ser hábito uma programação que serve mais para marcar calendário do que promover uma efectiva política cultural). Condições: 20 bilhetes diários, 2 bilhetes por pessoa levantados no próprio dia a partir das 13h. Local: Cinema São Jorge. Como: Chegada a meio da manhã para marcar lugar. Resultado: 18 bilhetes reservados pela EGEAC, 2 disponíveis. Um cenário que se repetiu como tema e variações nos restantes dias. Fosse isto um momento isolado e estaria a cidade de Lisboa bem servida em matéria de política cultural. O desinvestimento é um dos sintomas da incompreensão do papel da cultura numa sociedade (ou então por compreenderem bem demais). A política de compadrio e de desrespeito pelo público é outro. A cidade de Lisboa e o país precisam de uma política cultural séria, que não se guie pelo monopólio da EGEAC e dos interesses privados que com ela se movem.

O país precisa que elas continuem lá e que ela – a cultura – esteja sempre lá.

*Autor Convidado
Bárbara Carvalho e Laura Almodovar

A nova fase da política de direita


Os últimos meses foram mostrando os limites finais e intransponíveis da actual solução governativa. O potencial de progresso que este governo transportava, a capacidade de reparar os destroços sociais do anterior governo PSD-CDS, esgotou-se, insuficiente, na irresolúvel natureza de classe do Partido Socialista.

Não se trata de apreciação pessoal nem de julgamento de intenções: parcialmente cumpridas as posições conjuntas assinadas à esquerda, o PS, cujo apanágio nunca foi morder a mão do dono, recusa-se a beliscar a legislação laboral de Passos Coelho, une-se à PàF para manter o País agrilhoado ao serviço da dívida, adopta como seus os ditames de Bruxelas e mantém incólumes as prioridades do governo anterior: fortunas para os bancos falidos dos privados e cortes para a cultura do povo; precariedade para a juventude e benefícios fiscais para as grandes fortunas; desprezo pelas necessidades do Serviço Nacional de Saúde e rapapés para as confederações dos patrões.

O que este governo teve de bom, a travagem e desaceleração do ímpeto destruidor do anterior governo PS-PSD, foi até onde a esquerda e a luta dos trabalhadores obrigaram e até onde o capital  e a direita permitiram. A corda esticou ao máximo e as contradições da actual solução governativa não permitem que o PS se equilibre mais tempo em cima do muro.

Os trabalhadores exigem horários dignos, salários mais altos, serviços públicos gratuitos e de qualidade e uma política fiscal justa. A actual solução governativa, aquém de tudo o que era preciso, provou que é possível outra política sempre que há vontade política. O problema não é «o Diabo» nem o défice, nem o crescimento económico, é mesmo a vontade política. O PS não a tem. Tenhamo-la nós para fazermos por nossas mãos tudo o que a nós diz respeito, já dizia a velha canção.

Marielle, Rosa, Catarina, Iñez, Alice

A lista é infindável. As mulheres executadas porque defendem ideais que combatem a ordem vigente, rompem com o domínio do poder capitalista cujos instrumentos passam pela subjugação da mulher, da mulher negra, da mulher operária, da mulher reivindicativa, da mulher que luta contra um conceito de uma sociedade patriarcal que as quer silenciadas e no lar.

A morte prematura com as execuções de Rosa Luxemburgo, de Catarina Eufémia, as greves de Alice Paul, a morte de Inez Milholland após um comício em que defendia igualdade no direito de voto para as mulheres – todas, independentemente da etnia e da classe social e a execução de Marielle Franco, activista, feminista, eleita, mãe, como se descrevia.

Não que a vida de uma valha mais do que as outras, que a sua história ou a sua luta seja mais ou menos importante, nem é sequer mensurável, a verdade é que o actual momento político e a violência brutal e bárbara no Brasil, perpetrada pelo poder corrupto e golpista, leva a que as manifestações de solidariedade sejam muito mais do que isso. Sejam um verdadeiro dever que cada uma de nós sente. E digo uma, porque é efectivamente o momento das mulheres perceberem que a ilusão da emancipação e da inexistência da exploração é um mito fofinho que nos entra pela casa diariamente.

Vergonhosamente – sim, porque as mulheres não são todas iguais e não defendem todas a mesma coisa – na lista que subscreve esta homenagem, que comporta em si o grito de que todas as mulheres, particularmente as mulheres negras e pobres, que lutam pelo seu lugar, pela sua representação enquanto negras, operárias, pobres, estão nomes cujas subscritoras me envergonham, à falta da sua vergonha na cara. Mulheres que aprovam o golpe no Brasil, que chamam terrorista a Dilma (e quem sabe chamariam a Marielle Franco), que defendem o privilégio branco e a sua manutenção, que acham que é por quotas que isto lá vai (quando a própria Marielle Franco tantas vezes o rejeitou), que legitimam políticas públicas racistas e opressoras da classe trabalhadora e que se acham no direito de dizer que homenageiam a vítima de uma execução pelo simples facto de serem mulheres.

Não é isto que as torna feministas, que as torna titulares deste grito que não é um lamento. É de luta. É de despertar. É de continuar o trabalho de alguém que nos era perfeitamente desconhecida até há uns dias e agora nos convoca a sair à rua. Com motivos que são comuns a quem luta pela igualdade. E se umas defendem o seu direito à propriedade privada, à manutenção dos seus privilégios de classe, à persistência do patriarcado, à opressão das trabalhadoras, nós defendemos a nossa representação em todos os patamares da vida política e social, a igualdade salarial, o fim do racismo e da discriminação, o acesso às políticas de educação, saúde, habitação para todos, o direito ao trabalho com direitos. E nós somos mais. Muitas mais.

Sempre fomos e é por isso que nos matam. Mas hoje todas estas mulheres vivem na nossa voz. Saibamos, pois, sair à rua, mobilizar as mulheres para as greves (e motivos não faltam), exigir o fim das discriminações, a participação, a representação, a igualdade.

Presente. Sempre.

Os lugares onde Marcelo não vai


O dom de Marcelo é ir a todo o lado sem nunca estar em lado nenhum. Omnipresente na comunicação social, falta à chamada sempre que o interesse nacional coincide com os interesses da classe trabalhadora. Onde está Marcelo quando as populações se batem pelos correios do povo? Porque não dá os seus «afectos» às quase 500 trabalhadoras da Gramax? Meio milhar de operárias com meses de salário em atraso defendem a dignidade e os postos de trabalho de um processo fraudulento de insolvência. Quando, em piquetes de 24 horas, à chuva e ao frio, desafiando a fome, a incerteza e muitos dramas familiares, as operárias da antiga Triumph impedem o roubo da maquinaria estão também a impedir a destruição do aparelho produtivo português. Porque será que Marcelo, sempre tão palavroso sobre moda, jogos de futebol, restaurantes e exercício físico, nada tem a dizer sobre esta matéria? Porque será que o Presidente, incansável na sua digressão afectiva, não vai a Sacavém?

A resposta é que Marcelo só visita vítimas e voluntários, e as inderrotáveis mulheres de Sacavém não aceitam ser uma coisa nem outra. O que lhe sobra em «afecto», falta-lhe em solidariedade.

As operárias da Triumph são apenas um exemplo: podíamos falar dos operários da Seda Ibérica, neste momento em greve contra os horários desumanos, da Autoeuropa, que não abdicam do direito ao fim-de-semana e à família, dos professores, dos enfermeiros, dos trabalhadores da administração pública… Por mais elementarmente justa que seja a causa, Marcelo faz ouvidos moucos a quem luta.

A mão que tira a selfie

De costas para tudo o que aparece na selfie, Marcelo cultiva uma popularidade inventada, alimentada e dirigida há muitos anos pela comunicação social da classe dominante. Os afectos podem até ser genuínos, mas a mão que tira a selfie é da TVI. Por isso, a atenção mediática e a atenção presidencial que merecem as lutas dos trabalhadores estão sempre ao mesmo nível.

Isso é uma coisa, chama-se caridade, é um desporto competitivo semelhante ao golfe e fica sempre bem na selfie. 

Mas que ninguém pense que Marcelo está num concurso de misses. A sua popularidade não é um fim em si mesmo: são munições parcimoniosamente poupadas em Sacavém para, quando for mesmo preciso, disparar em defesa dos patrões. Até lá, Marcelo prefere causas menos problemáticas, ou «consensuais», como lhes chama. Marcelo comporta-se como os «famosos da televisão» que, quando se trata das operárias da Triumph, #AdoptamEsteSilêncio porque a TVI não lhes preparou uma campanha mediática, ou porque, coitadinhos, não sabiam, ou, simplesmente, porque fica mal a uma estrela andar metido em política. Uma coisa é alimentar os sem-abrigo, combater o desperdício alimentar, dar afecto aos pobrezinhos e todas as demais benevolências paternalistas, estritamente voluntárias, que em afectados movimentos ou i pê ésse ésses, aristocráticas e sempre descendentes, atirem um carapau enquanto escondem a cana de pesca atrás das costas. Isso é uma coisa, chama-se caridade, é um desporto competitivo semelhante ao golfe e fica sempre bem na selfie. Outra coisa são 500 famílias atiradas para a miséria que exigem (atenção, exigem) os postos de trabalho e os salários em atraso. Isso é política. E na carreira de apresentador de televisão, como na de Marcelo, não interessa.

Neste caso, interessava. A atenção de Marcelo contribuiria para alterar a postura do governo do PS que, ocupado a ajudar financeiramente os milionários da Uber e da Brisa, lava as mãos do crime que está a acontecer em Sacavém. Mas, já sabemos, o que Marcelo tem para oferecer aos trabalhadores são afectos e aquilo de que os trabalhadores precisam é solidariedade. De trabalhadores para trabalhadores, iguais para iguais.

O call center saiu à rua num dia assim


«Eu sou a voz da MEO. Só não dou a cara porque o cliente nunca me vê, mas dou o melhor do meu trabalho». Irina (nome fictício) trabalha há 15 anos para a PT-MEO mas, apesar disso, a PT-MEO não a quer contratar: é mais lucrativo recorrer a empresas de trabalho temporário e outsourcing. «Foi com a minha voz, com o meu trabalho que, no ano passado, tiveram lucros de 279 milhões de euros. Não há desculpa para estarmos décadas a ganhar praticamente o salário mínimo, sem estabilidade nenhuma. Têm de nos integrar nos quadros. Isto tem de acabar», explicou ao Manifesto74. E foi para «acabar com isto» que ontem, ainda de madrugada, Irina partiu de Santo Tirso num autocarro rumo a Lisboa. Fez greve e foi à sede da PT-MEO, acompanhada por cerca de outros 200 trabalhadores de call centers de todo o país, exigir o fim da precariedade, aumentos salariais e melhores condições de trabalho.

Nelson Leite, delegado do Sindicato Nacional de Trabalhadores das Telecomunicações e Audiovisual (SINTTAV), trabalha há nove anos para a PT-MEO, no Porto, mas também não está nos quadros do gigante das telecomunicações. «Eu até tenho um contrato efectivo com a Manpower, mas o comando da precariedade é MEO», ironiza, «basta a Manpower perder um concurso e pode mandar-me embora. O meu contrato é estável? Não. É precário».

Quando se pensa em precariedade não se pensa imediatamente em direitos, sindicatos e lutas mas no back office / call center onde Nelson Leite trabalha, na Rua Tenente Valadim, no Porto, o trabalho precário já não é o que era: em menos de um ano, o jovem sindicalista viu o número de inscrições no SINTTAV duplicar, fizeram-se três greves, multiplicaram-se os plenários de trabalhadores. E ontem, milhares de trabalhadores de Norte a Sul do País, pousaram os headsets, deslogaram-se e foram à luta.

Nelson Leite, delegado do SINTTAV

Tenente Valadim, uma história de coragem

«Bate as duas horas e vês uma multidão a parar tudo, a levantar-se. Uma disciplina brutal. Não estamos a falar de metalúrgicos

Há precisamente um ano, quando era impensável uma greve nacional nos call center ou uma manifestação em Lisboa, os trabalhadores do portuenses da PT-MEO eram transferidos da EGOR para a Manpower. «Foram momentos de muita ansiedade», recorda Nelson Leite. «Existiam rumores de cessação de contratos, falava-se  de transferências para outros postos de trabalho, temia-se que o tempo para ficar efectivo não contasse. E os patrões não nos diziam nada. Iam transferir trabalhadores como quem transfere cadeiras e mesas». Havia, também, entraves à marcação das férias, trabalhadores a receber subsídios de refeição com valores diferentes, entre outros problemas.

Quando o SINTTAV interveio, as férias dos trabalhadores foram aprovadas, a nuvem de dúvidas foi desvaneceu-se e, em Novembro, o sindicato marcou um plenário na Tenente de Valadim, para informar e escutar os trabalhadores «A PT tinha-nos dado uma salinha minúscula, no terceiro piso. Apareceram sessenta e tal trabalhadores. Simplesmente não cabíamos na sala. Tivemos de ocupar um átrio inteiro e saímos de lá com um documento reivindicativo».

O patronato fez orelhas moucas, mas estava acendido o rastilho. Em Dezembro há um segundo plenário e os trabalhadores partem para uma greve de três horas. Entre as principais exigências: passar todos os trabalhadores que ganhavam o salário mínimo, então 530 euros, para 600 euros e, para os que ganhavam 612 euros ou mais, um aumento nunca inferior a 40 euros. Desesperada para evitar a paralisação, a administração ensaiou uma cedência: todos os subsídios de refeição foram actualizados para 6 euros, mas nem uma palavra sobre vínculos e salários. E a greve aconteceu mesmo a 9 de Janeiro deste ano.

«Para a esmagadora maioria foi a primeira greve. Foi fantástico. À porta da empresa, a desafiar uma das maiores empresas de telecomunicações do mundo. Com os directores à janela a ver. É preciso coragem. Porque não são trabalhadores da casa, são externos. Muitos acabavam a greve e voltavam para o posto de trabalho. Tem um valor do caraças. A greve começava às 2h. Bate as duas horas e vês uma multidão a parar tudo, a levantar-se. Uma disciplina brutal. Não estamos a falar de metalúrgicos… São trabalhadores que hoje estão ali e amanhã podem não estar. É mesmo assim», contextualiza Nelson Leite.

A greve é um sucesso estrondoso e, pela primeira vez, a administração da Manpower aceita falar com o SINTTAV a 17 de Fevereiro. Segundo a empresa que no último ano alcançou 114 milhões de euros em vendas, não havia condições para aumentar salários sem colocar em causa a própria operação.

«Os trabalhadores não desanimaram», conta Nelson Leite. «Pelo contrário, sentia-se mais confiança, mais força». Novo plenário, nova greve marcada, desta feita de 24 horas com manifestação incluída e data marcada para dia 22 de Março. O call center de Santo Tirso decide juntar-se. A adesão ultrapassa os 95 por cento. Não nos esqueçamos que é de trabalhadores com vínculos precários que estamos a falar. De onde vem tanta coragem?

Uma nova Índia?

André Silva trabalha para a Randstad, em Lisboa. Já tinha feito greve no dia 28 de Março, Dia Nacional da Juventude. «Isto é uma causa justa. Não há justificações aceitáveis para nos dizerem que não. A não ser nós não lutarmos», argumenta.

A mesma opinião partilha Daniel Negrão, dirigente do Sindicato Nacional Trabalhadores Correios e Telecomunicações (SNTCT): «é inadmissível que trabalhadores que trabalham há décadas para a PT continuem em empresas de trabalho temporário», acusa, «quando eu me reformar, o posto de trabalho vai continuar a existir. O posto de trabalho é permanente. Não há nenhuma justificação para recorrer a empresas de trabalho temporário. Exigimos ser integrados nos quadros da PT conforme a nossa antiguidade e conforme os salários da PT, que são normalmente três vezes mais altos que os nossos».

Daniel Negrão, dirigente do SNTCT

A greve de ontem foi simultaneamente, ponto de chegada e ponto de partida. Produto de muitas lutas no Porto, em Lisboa, Coimbra, Santo Tirso, Castelo Branco… e instrumento «do que os trabalhadores decidirem que se deve fazer a seguir», assevera Daniel Negrão.

Entre palavras de ordem contra a precariedade e em defesa de aumentos salariais, entram e saem, dentro de automóveis de luxo, altos quadros da PT-MEO. Serão estes os empresários que, há dois anos, elogiavam os efeitos da crise na queda de salários, prometendo fazer de Portugal a nova Índia do telemarkerting? Tabalho e capital trocam olhares tensos. Não há medo de represálias, de perder o trabalho? Nelson Leite é assertivo: «quando os trabalhadores estão unidos não há hipótese. E nunca estivemos tão unidos».

«Há pouco tempo, na Tenente Valadim, tínhamos posto um documento sobre a greve», conta Ricardo Franco, trabalhador do call center do Porto, «no dia seguinte tinham-no “limpado”. Então no dia seguinte o SINTTAV veio colocar um novo documento a apelar à nossa greve, dando o documento inclusive às chefias». Os trabalhadores começavam a perder o medo.

Não é bem o caso de Rita Pestana, 39 anos. Não quer ser fotografada: «Nunca se sabe». Antes de assinar contrato com a Manpower, há cinco anos, passou por outras quatro empresas de outsourcing, outros quatro call centers. Sempre sub-contratada, sempre vínculos precários, sempre salários que, admite, «não era a mim que deviam envergonhar, mas é a mim que envergonham». Formou-se em Estudos Portugueses, mas nunca trabalhou na área. Valeu a pena ter estudado tanto? «Sem sombra de dúvida! Olha, ajuda a explicar o que se está a passar hoje, com esta malta aqui à porta», garante. E, como que para provar o que diz, recita, sem rastro de hesitação, o poeta António Aleixo: «Esta mascarada enorme / com que o mundo nos aldraba / dura enquanto o povo dorme / Quando ele acordar, acaba».