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A ignorância de Bruno Caetano

Confesso que, até ontem, não sabia quem era Bruno Caetano. Continuo sem saber porque não acompanhei a TVI nem a TVI24 num dia que foi inteiramente dedicado à promoção do fascismo, com palco dado a um criminoso condenado, envolvido num homicídio resultante de crime de ódio. Fui, no entanto, acompanhando as redes sociais ao longo do dia. Hoje, deparo-me com um comunicado do Bruno Cateano, jornalista, ainda que, ao que parece, sem carteira profissional. O repórter do programa da manhã da TVI começa por afirmar, num comunicado, que apenas visava ouvir Mário Machado e as suas convicções sobre Salazar. Ora, caro Bruno, as convicções de Mário Machado são conhecidas de todos, há muitos anos. É um neo-nazi assumido. Deixa-me então ir, ponto por ponto, onde é que o teu comunicado é estúpido e ignorante. E, repara, faço isto partindo do princípio, benéfico para ti, que és de facto ignorante e não o fizeste de forma premeditada para agora vires fazer este papel tão ao mais triste do que aquele que fizeste ontem.

“Para que fique bem esclarecido, quando convidei o cidadão Mário Machado ficou sempre evidente que se tratava pura e simplesmente de uma entrevista que falava das convicções deste acerca de Salazar. Mário Machado criou um movimento que se chama Nova Ordem Social e vão em breve realizar uma manifestação onde dizem que vão celebrar Salazar. Tema que me levantou muitas dúvidas.”

O enquadramento da entrevista na manifestação que se vai realizar é estúpido, porque todos os anos há centenas de manifestações de trabalhadores que lutam pelos seus direitos e não têm 1/100 da cobertura que, durante o dia de ontem, a TVI e a TVI24 deram a esta. Poderemos argumentar que é uma manifestação fora do comum por celebrar um ditador que deixou um legado de 48 anos de miséria, fome, guerra, assassinatos, torturas, enfim, aquelas coisas que, à partida, ninguém gosta muito, porque, parecendo que não, torna-se aborrecido uma pessoa querer comer e não ter nada, ser explorado, ser torturado e, por fim, ser assassinado. É daquelas coisas que não dá jeito nenhum. É por isso que é estúpido promovê-la, percebes?

“Não me interessa aqui responder a quem quer que seja mas sim demonstrar que não excluo ninguém. Vivemos num estado democrata e todos temos opinião. Se concordamos uns com os outros, isso já é outro assunto. Disse que fazia falta mais autoridade, sim verdade! Provavelmente exagerei quando disse que seria a autoridade do Salazar”.

Vivemos numa democracia em que toda a gente tem opinião, por mais estúpida que seja. Como é o caso da tua. Estúpida e ignorante, já te explico o motivo. É estúpido, porque a liberdade de expressão não é um valor supremo e acima de todos os outros. Colide com outros direitos quando, por exemplo, contraria a Constituição da República, que não permite a existência, no ponto 4 do Artigo 46.º de “associações armadas nem de tipo militar, militarizadas ou paramilitares, nem organizações racistas ou que perfilhem a ideologia fascista“. Ora, Bruno, o teu entrevistado pertenceu e pertence a organizações armadas, paramilitares e fascistas, como é o caso dos Hammerskins. Logo, o direito de ele ser ouvido não pode colidir com o direito à vida e à liberdade de culto, por exemplo, nem se sobrepõe aos princípios da não discriminação em função da raça, credo, género e orientação sexual. A liberdade de expressão, repito, não é um valor supremo quando colide com o único que o é de facto, que é o direito à vida.

“A verdade é que estou cansado de tanto crime. Fui mal interpretado. Ainda assim nada vos dá o direito de me ameaçar de morte ou mesmo ofender a minha pessoa e a minha família”.

No seguimento disto, deixa-me explicar-te o seguinte. Se estás farto de tanto crime, não faz muito sentido convidares um criminoso para explicar o que quer que seja. Mário Machado é um criminoso condenado por discriminação racial, coação agravada, detenção de arma ilegal, danos e ofensa à integridade física qualificada; de difamação, ameaça e coacção a uma procuradora da República; e de posse de arma de fogo. Anteriormente, já fora condenado pelo envolvimento no assassinato de Alcindo Monteiro, cidadão português de origem cabo-verdiana, espancado até à morte, em 1995, no Bairro Alto, em Lisboa. Percebes a tua estupidez? Percebes que ofender, ameaçar de morte e envolver-se em assassinatos é algo que o teu convidado já fez? Que tal é sentir na pele o mesmo que sentiram as vítimas de Mário Machado?

Convidaste um criminoso porque estás farto de tanto crime. Vamos, então à ignorância. És ignorante porque não sabes que, por exemplo, em Portugal, em 1994 havia 143 crimes de homicídio intencional, em 2016, 66. Portugal é considerado o quarto país mais pacífico do Mundo no Global Peace Index. Em 2018, o insuspeito Departamento de Estado dos EUA coloca Portugal no nível 1 de insegurança. O mais baixo. A criminalidade violenta e grave desceu 8,7% em 2017, tendo a criminalidade geral aumentado 3% devido a um aumento dos crimes de moeda falsa, incêndio florestal e burlas. Diminuíram os furtos em residência (menos 14%), em veículo motorizado (-11%), das ocorrências em meio escolar (-6,4) e da criminalidade grupal (-8.8%). Percebes a tua ignorância?

Mário Machado foi entrevistado por Manuel Luís Goucha e a maneira como o apresentador debateu é um dos exemplos de como se deve lidar com este tipo de tema. Debatendo! O contraditório é importante sempre! Porque todas as pessoas devem ter opinião, viva a democracia!

Sabes quem é que não teve direito a opinião, nem democracia, nem debate, nem contraditório? Alcindo Monteiro. Resumindo, és um imbecil ignorante. A tua sorte é que o segundo adjetivo tem remédio. O filósofo Karl Popper explica toda a imbecilidade contida nas tua afirmações de ontem e no teu post de hoje.

Manuel Goucha Salazar, para que saibas: o fascismo e o racismo não passarão

Não vi o programa, não vou ver. MM participou na execução de um negro – Alcindo Monteiro, (na foto, morto por causa da cor da sua pele, com 27 anos, em junho de 1995, espancado até à morte) – esteve detido por posse ilegal de armas, apela repetidamente ao ódio e ao racismo. De quando em vez, lá vem um órgão de comunicação social dar-lhe palco. Li uma vez uma entrevista sua e bastou-me. Bastou-me a suástica que enverga para imediatamente me reportar à célebre cena de American History X, em que um nazi (com uma estética bem parecida ao dito cujo) esmaga o crânio de um negro no lancil de um passeio. E vejam-na com atenção porque foi isto que se passou na TVI.

A cada momento há sempre alguém que tenta reabilitar a imagem deste nazi, que cria partidos atrás de partidos e de movimentos, organiza contramanifestações ilegais e se passeia como se não fosse um ser absolutamente desprezível que pratica actos que à luz da lei são ilegais. Como é ilegal dar cobertura à propagação de ideologias fascistas e nazis.

Querem ver como não estou a inventar?

Artigo 240.º – Discriminação e incitamento ao ódio e à violência

       1 – Quem:
              a) Fundar ou constituir organização ou desenvolver atividades de propaganda organizada que incitem à discriminação, ao ódio ou à violência contra pessoa ou grupo de pessoas por causa da sua raça, cor, origem étnica ou nacional, ascendência, religião, sexo, orientação sexual, identidade de género ou deficiência física ou psíquica, ou que a encorajem; ou
              b) …
              …
       2 – Quem, publicamente, por qualquer meio destinado a divulgação, nomeadamente através da apologia, negação ou banalização grosseira de crimes de genocídio, guerra ou contra a paz e a humanidade:

              a) Provocar atos de violência contra pessoa ou grupo de pessoas por causa da sua raça, cor, origem étnica ou nacional, ascendência, religião, sexo, orientação sexual, identidade de género ou deficiência física ou psíquica;
              b) Difamar ou injuriar pessoa ou grupo de pessoas por causa da sua raça, cor, origem étnica ou nacional, ascendência, religião, sexo, orientação sexual, identidade de género ou deficiência física ou psíquica;
              c) Ameaçar pessoa ou grupo de pessoas por causa da sua raça, cor, origem étnica ou nacional, ascendência, religião, sexo, orientação sexual, identidade de género ou deficiência física ou psíquica; ou
              d) Incitar à violência ou ao ódio contra pessoa ou grupo de pessoas por causa da sua raça, cor, origem étnica ou nacional, ascendência, religião, sexo, orientação sexual, identidade de género ou deficiência física ou psíquica;
é punido com pena de prisão de 6 meses a 5 anos.»

Eu repito: “é punido com pena de prisão de 6 meses a 5 anos.”

Manuel Luis Goucha não foi de modas. Levou um nazi ao seu programa, visto por milhares de pessoas, lavou-lhe a alma e ainda fez isto:

Afirma que este nazi tem ideias polémicas – ideias que levaram à execução bárbara de Alcindo Monteiro – e faz uma sondagem sobre o regresso do fascismo que matou centenas de democratas, comunistas, que mandou para o exílio socialistas, comunistas e outros democratas, que torturou outras tantas centenas, que condenou o nosso país, durante décadas, à discriminação, pobreza e à escravização colonial.

Manuel Luis Goucha, também ele, cometeu um crime – publicamente, divulgou a apologia, negação ou banalização grosseira de crimes de genocídio, guerra ou contra a paz e a humanidade. Banalizou o racismo. Banalizou o fascismo. Relativizou a execução de um negro às mãos do nazi MM, banalizou as suas posições xenófobas e bárbaras.

A ERC já informou que estaria a investigar. E desengane-se quem acreditar que isto é um hino à liberdade de expressão. É criminoso. E não passará.