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A mão por detrás dos afectos

Marcelo Rebelo de Sousa resolveu devolver à Assembleia da República um decreto que tinha por finalidade garantir aos arrendatários o direito de preferência em caso de compra dos imóveis por inteiro. Tudo isto surge numa altura em que decorre um negócio que, caso a lei venha a entrar efectivamente em vigor, pode ficar em risco: trata-se da operação de venda de 277 imóveis da companhia de seguros Fidelidade a um fundo de investimento norte-americano (Apollo), operação na qual a Fidelidade se tem negado a dar a devida preferência a cada um dos inquilinos sobre a respectiva fracção. Enquanto a lei vai, volta e não entra em vigor, lá vão folgando as costas, dando tempo precioso à consumação da negociata.

O presidente tem à sua mão um conjunto de sapientíssimos conselheiros. Esses assessores “técnicos” determinam ou influenciam, naturalmente, as decisões a tomar, pois é para isso que lá estão. O problema coloca-se quando um desses conselheiros aparenta ter, directa ou indirectamente, interesses óbvios na opção tomada. Para este caso concreto, a mão que se esconde por detrás dos afectos é, segundo o Jornal Económico, Miguel Nogueira de Brito. De acordo com o artigo, o conselheiro de Marcelo «é sócio da sociedade de advogados Morais Leitão, Galvão Teles, Soares da Silva & Associados (MLGTS), a qual tem como clientes sociedades de investimento como a Apollo Global Management ou a Oaktree Capital, entre outras gestoras de fundos de investimento imobiliário».

Confrontado pelos jornalistas acerca do hipotético conflito de interesses, Marcelo respondeu à questão de forma contraditória, apressada, esquiva e leviana. Não negando a intervenção de Nogueira de Brito, justificou-se dizendo ter-se tratado de uma “decisão solitária” e por razões “políticas”. Foi uma espécie de “ele aconselhou mas eu não liguei ao conselho”. Ele “disse mas foi como se não tivesse dito”. Qualquer coisa como “é proibido, mas pode-se fazer”. A razão “política”, onde cabe tudo e um par de botas, é invocada para selar a impertinência da dúvida. E se isso pode bastar à oficialidade, não pode de modo algum silenciar quem ousa – e bem – questionar.

Não há afecto, «dab» ou dancinha patética que disfarce a urgência do escrutínio. Há um grande negócio entre colossos financeiros prestes a concretizar-se penalizando o elo mais fraco, que são os inquilinos. Se tal se concretizar durante o tempo que vai demorar até à aprovação do decreto, a negociata passa a ter o patrocínio oficioso de Belém. E Marcelo, como qualquer outro agente político, tem de ser responsabilizado pelo que faz, pelo que não faz ou pelo que deixa fazer.

Os lugares onde Marcelo não vai


O dom de Marcelo é ir a todo o lado sem nunca estar em lado nenhum. Omnipresente na comunicação social, falta à chamada sempre que o interesse nacional coincide com os interesses da classe trabalhadora. Onde está Marcelo quando as populações se batem pelos correios do povo? Porque não dá os seus «afectos» às quase 500 trabalhadoras da Gramax? Meio milhar de operárias com meses de salário em atraso defendem a dignidade e os postos de trabalho de um processo fraudulento de insolvência. Quando, em piquetes de 24 horas, à chuva e ao frio, desafiando a fome, a incerteza e muitos dramas familiares, as operárias da antiga Triumph impedem o roubo da maquinaria estão também a impedir a destruição do aparelho produtivo português. Porque será que Marcelo, sempre tão palavroso sobre moda, jogos de futebol, restaurantes e exercício físico, nada tem a dizer sobre esta matéria? Porque será que o Presidente, incansável na sua digressão afectiva, não vai a Sacavém?

A resposta é que Marcelo só visita vítimas e voluntários, e as inderrotáveis mulheres de Sacavém não aceitam ser uma coisa nem outra. O que lhe sobra em «afecto», falta-lhe em solidariedade.

As operárias da Triumph são apenas um exemplo: podíamos falar dos operários da Seda Ibérica, neste momento em greve contra os horários desumanos, da Autoeuropa, que não abdicam do direito ao fim-de-semana e à família, dos professores, dos enfermeiros, dos trabalhadores da administração pública… Por mais elementarmente justa que seja a causa, Marcelo faz ouvidos moucos a quem luta.

A mão que tira a selfie

De costas para tudo o que aparece na selfie, Marcelo cultiva uma popularidade inventada, alimentada e dirigida há muitos anos pela comunicação social da classe dominante. Os afectos podem até ser genuínos, mas a mão que tira a selfie é da TVI. Por isso, a atenção mediática e a atenção presidencial que merecem as lutas dos trabalhadores estão sempre ao mesmo nível.

Isso é uma coisa, chama-se caridade, é um desporto competitivo semelhante ao golfe e fica sempre bem na selfie. 

Mas que ninguém pense que Marcelo está num concurso de misses. A sua popularidade não é um fim em si mesmo: são munições parcimoniosamente poupadas em Sacavém para, quando for mesmo preciso, disparar em defesa dos patrões. Até lá, Marcelo prefere causas menos problemáticas, ou «consensuais», como lhes chama. Marcelo comporta-se como os «famosos da televisão» que, quando se trata das operárias da Triumph, #AdoptamEsteSilêncio porque a TVI não lhes preparou uma campanha mediática, ou porque, coitadinhos, não sabiam, ou, simplesmente, porque fica mal a uma estrela andar metido em política. Uma coisa é alimentar os sem-abrigo, combater o desperdício alimentar, dar afecto aos pobrezinhos e todas as demais benevolências paternalistas, estritamente voluntárias, que em afectados movimentos ou i pê ésse ésses, aristocráticas e sempre descendentes, atirem um carapau enquanto escondem a cana de pesca atrás das costas. Isso é uma coisa, chama-se caridade, é um desporto competitivo semelhante ao golfe e fica sempre bem na selfie. Outra coisa são 500 famílias atiradas para a miséria que exigem (atenção, exigem) os postos de trabalho e os salários em atraso. Isso é política. E na carreira de apresentador de televisão, como na de Marcelo, não interessa.

Neste caso, interessava. A atenção de Marcelo contribuiria para alterar a postura do governo do PS que, ocupado a ajudar financeiramente os milionários da Uber e da Brisa, lava as mãos do crime que está a acontecer em Sacavém. Mas, já sabemos, o que Marcelo tem para oferecer aos trabalhadores são afectos e aquilo de que os trabalhadores precisam é solidariedade. De trabalhadores para trabalhadores, iguais para iguais.

Depoimento de Marcelo à Comissão de Inquérito do PSD*


O que as pessoas mais me perguntam é se sou mesmo como na televisão. Pode escrever aí que sim. Costumo dizer que o que nasce torto não se endireita. Bom, tenho esta memória de estar a brincar na quinta com os filhos da criadagem e vem de lá o papá apavorado, a levar-me dali ao colo, como se me resgatasse do cativeiro de canibais africanos, a dar-me um raspanete dos antigos, «Marcelo Nuno, não volte a enxovalhar a família, cada macaco no seu galho, percebeu?», a sacudir-me uma sujidade invisível da camisa, a explicar-me que o meu nome não é por acaso, a repetir-me «Marcelo Nuno, não volte a enxovalhar a família, cada macaco no seu galho, percebeu?». E não percebi. Mas percebi outra coisa mais importante: há mais do que um tipo de poder neste mundo.

Imaginam o que vale para um pobre diabo que nem a quarta classe tem, chegar o filho do Sr. Ministro, afilhado do Marcelo Caetano que manda na Nação e nos pretos e que agarra no telefone e é «Sr. General, arranque-me as unhas de fulano» ou «Sr. Comandante, mande beltrano para o Tarrafal» olhar para baixo, com cândida bondade, e perguntar assim: «como é que está a pneumonia, Sr. José?». Eu, a pedir-lhes a eles, a gente a que só se pedem mordomias e limpezas, a gentileza de nos deixar brincar com o filho? Bom, claro que isto nos confere um poder diferente, no meu entender maior, que a chibatada e a ameaça. Mas oiça, escreva isto: não é teatro. É genuíno. Sempre foi. Íamos jogar bridge ao Estoril com os filhos dos Ulrich e os irmãos Mello, com condes, baronesas, milionários, latifundiários e os criados que a eles baixavam a cabeça, subjugados, a mim respeitavam, sorriam. É isso que me dá prazer, sentir-me um anjo descido à terra, condescendente, misericordioso, tão simples, tão humilde e tão bom, apesar de tão poderoso que as pessoas nem acreditam.

Bom, uns anos mais tarde mandavam os desgraçados pequeninos, que entretanto se fizeram desgraçados crescidos, matar pretos em África e eu, que sendo filho de quem era nem precisava de me incomodar com uma palavrinha lá no Ministério, fazia questão de ir às despedidas, tristíssimas, sem jeito nenhum, dar um abraço aos desgraçados. E eles lá iam matar pretos mais consolados, cheios de orgulho nacional e brio civilizador por terem abraçado o filho do ministro, o afilhado do Presidente do Conselho. Isto ainda você não era vivo! Acha mesmo que é agora o Conselho de Jurisdição Nacional do PSD que me vai ensinar a ficar quietinho no meu galho? Escreva isto: não me basta o meu galho, eu quero a árvore inteira.

Bom, só com grande falta de visão é que o PSD pode achar que não sirvo os interesses do partido. Quem vota no PSD são os pobres diabos. Muitos nunca se sentaram numa cadeira de dentista, você sabe lá os hálitos, não ponha aí isso. Ninguém dá nada por eles, tratam-nos a pontapé em todo o lado. Sempre em filas, com um ar muito amarfanhado para receber o subsídio, a pensão, a senha para qualquer porcaria, até que chega a comitiva… e eles pasmam. Pasmam! Ficam a ver o cortejo, as bandeirolas, a GNR, os cavalinhos… o pobre sempre gostou de cortejos, há séculos! E de repente saímos do carro e eles, já prontos para se desfazerem em vénias ou receberem da GNR uma paulada na cabeça por estarem demasiado perto, mas não, é para lhes dar um abraço, uma palmadinha nas costas, brincar às brincadeiras deles nos cabeleireiros muito possidónios, às tabernas com copos mal lavados. É que eu venho cá abaixo, sabe? Nem sempre é fácil… com os pobres sempre a falar muito alto, a babar pus de pústulas infectadas, a cuspir esses na conjugação dos verbos, sem saúde, sem trabalho, sem casa, sem nada a não ser o nosso muito merecido afecto. Merecido afecto. Ponha isso aí. Porque eu sei o que vale para aquela gente poder dizer que ao menos um dia abraçou o Presidente, ou poder mostrar uma fotografia comigo. E o PSD também devia saber.

Bom, ainda no outro dia, estava um frio de rachar, fui alimentar pobres. Deviam ter visto: eu a querer levá-los para o abrigo, como se leva um gatinho para o gatil, preocupado com o frio dos bichanos, e eles, valha-nos Deus, nem isso percebem. É preciso chamá-los com um ensopado sofrível (disse que estava óptimo) para se virem aquecer um bocadinho ao pé das câmaras. O PSD tem que entender uma coisa, se as pessoas não vão ter dinheiro para se aquecerem no Inverno, convém aconselhá-las a se aquecerem bem: «vista muitas camadas de roupa e proteja-se do frio!», compreende a lógica? Ou então acabamos todos numa salgalhada como em 74. Bom, é este o meu condão, dom e vocação: dar abrigo aos sem-abrigo para que não sejam gente a querer casas. Dar os restos dos restaurantes que podiam ir para o lixo com igual prejuízo aos pobrezinhos, para nunca sejam trabalhadores a querer dignidade. O meu lema é: todos os sem abrigo merecem um abrigo, todos os pobres merecem uma sopa, todos os portugueses merecem um abracinho. Enxergam a diferença? Tratam as pessoas a pontapé e elas andam para aí aos gritos a exigir habitação, direitos, trabalho e o diabo a sete quando no fundo bastava serem um bocadinho simpáticos e andavam os Zés e as Marias todos contentes, com abrigos, restos e abraços.

E a prova de que tenho razão é que saí limpinho do Estado Novo. E agora vêm uns miúdos, dizer-me, a mim, que estou a fazer o jogo da esquerda? Porque, ao contrário deles, tenho dois dedos de testa e sei construir o momento? A mim, que era criança e descobri que não me chamava «menino» no dia em que me começaram a tratar por «sua excelência». A mim, que aos doze anos jogava ténis com oficiais franquistas no chalé do Estoril e aos catorze brincava com a pistola que o Hitler deu ao duque de Windsor, que deu aos Espírito Santo? A mim, que ao longo da minha vida política só vos dei benesses, cortes salariais, isenções fiscais, privatizações, revisões constitucionais? A mim, que durante anos andei praticamente sozinho a preparar a presidência, a fazer a propaganda que o possidónio de Massamá (coitado, nisso é como os pobres) nunca teve jeitinho nenhum para fazer?

O Passos nunca poderá compreender isto. Esta liderança trata com o povo como o papá tratava com os pretos: acha que dando-se-lhes a mão a beijar e eles querem lambuzar o braço todo. Confundem afectos com bolchevismo. Mas logo a seguir ao 25 de Abril e foram todos para o chilindró ou para o exílio, era eu que ia fazer visitinhas aos Espírito Santo na prisão, era eu que andava a arriscar o couro, a pedir aos amigos estrangeiros para darem um jeitinho lá no banco, de embaixada em embaixada a diligenciar pelo futuro deles. E agora chamam-me esquerdista… A mim, que trocava cartinhas com o chefe da Nação para ver como se havia de fazer com os comunistas? A mim, que sou presidente vitalício da Casa de Bragança porque a direita charmosa é toda monárquica, só o possidónio de Massamá é que não percebe isto. A mim, que faço mais pela direita sozinho que PSD e CDS juntos, ou acham que quando quiserem fazer a revisão constitucional é ao Santana Lopes que vão pedir ajuda? Deixem-me rir. A mim, que passo a vida no meio de gente a tresandar a chulé para no final do dia vos promulgar o descontozinho da TSU? A mim, eleito com 50% dos votos de 50% dos portugueses? A mim, que se gozavam com a Santa Madre Igreja era eu que vinha logo pedir censuras, cabeças e flagelações? A mim, que em 69 não traí o Américo, Deus o tenha, quando foi de pregar um susto aos estudantes? Não escreva esta parte. A mim, que passava férias explêndidas com o Salgado no Brasil e tratava por tu a alta finança até eles começarem a fazer asneiras vistosas? A mim, que depois de dez anos com o Cavaco moribundo e comatoso dei mais uma presidência ao partido?

Os senhores da Comissão de Inquérito perguntem lá ao Conselho de Jurisdição, à Comissão Política, a quem quiserem: não querem partir a espinha aos sindicatos? Então ajudem-me a sarar as feridas sociais de tanta greve e tanta manifestação. Não querem privatizar a Saúde? Então parem de fazer cara de mau e venham vender rifas comigo para ajudar os leprosos. Não querem baixar os salários? Então preparem-se para se sujarem, que os afectos trazem piolhos. Não escreva isso, escreva antes isto: esbanjem nos afectos e poupem nos salários.

Atentamente,
Marcelo Rebelo de Sousa
Militante n.28051928 do PPD-PSD

*Este texto é improvavelmente fictício

As Vénias da República

Marcelo, uma vez mais, não se conteve. Aliás, Marcelo nunca se contém. O seu conservadorismo, a sua idiossincrasia, o peso da formatação rígida de outros tempos há-de sempre sobrepor-se ao dever institucional. A sua fé, as suas paixões, os seus ídolos, tudo isso legítimo, mas tudo isso muito inapropriado e muito desenquadrado quando se é investido num papel para o qual se teve tempo e mais que tempo para se preparar. Pode considerar-se pura e insignificante minudência o gesto reverencial de Marcelo perante a rainha do Reino Unido e retratado pelas câmaras fotográficas de todo o mundo. Contudo, e especialmente no que diz respeito a Marcelo Rebelo de Sousa, por vezes é bem mais substancial e revelador um gesto, por simples que seja, do que o débito de um chorrilho de palavras a um qualquer microfone ou câmara de televisão.

A rainha de Inglaterra fez o seu papel. O Presidente da República Portuguesa ainda não percebeu qual é o seu.

Não é necessário fazer-se nenhum exercício aprofundado de semiótica. Para entender o mais evidente significado de vénia e beija-mão de um chefe de estado para com outro(a) chefe de estado, basta ter a mínima noção do que é que, ao longo de séculos, representou tal gesto e que condições sociais ali estiveram sempre presentes ou representadas. Quem beijava, quem era beijado. Quem se erguia, quem se curvava. Quem era o soberano, quem era o súbdito. Hoje, como há seiscentos anos, surge-nos a auto-assunção de superioridade “natural” de um, perante a imposta mas mansamente auto-aceite inferioridade de outro. A rainha de Inglaterra fez o seu papel. O Presidente da República Portuguesa ainda não percebeu qual é o seu.

Poder-me-ão dizer, como me disseram, foi cumprimento protocolar. Não colhe. Primeiro porque como se sabe a rainha já recebeu e já foi recebida por muitos chefes de estado que não se prestaram a tal papel. Além do mais, tratando-se especificamente de Marcelo, essa hipótese pura e simplesmente não pode colher. Não é ele, afinal, o homem que quebra protocolos e que, aliás, até colhe louros e simpatias por tais “ousadias”? Não são as quebras protocolares de Marcelo que fazem as delícias da imprensa e não são as suas “selfies” ou danças mais ou menos anedóticas que lhe dão pontos de popularidade?

É evidente que de vénias está a República Portuguesa cheia. Fizeram-se vénias históricas e mansas durante décadas ao jugo da alta finança. Beijou-se consecutivamente, governo atrás de governo, presidente atrás de presidente, a mão ao chicote que nos foi dilacerando o lombo. Quis-se ser tapete de interesses poderosos na esperança da queda de umas quantas migalhas no regaço e sempre com os resultados que se conhecem. Sempre sem sair da cepa torta. Sim, vénias houve muitas e beija-mãos também. Não é por isso, todavia, que se deve ignorar esse comportamento quando ele existe e é de menor monta ou menor impacto na vida de qualquer cidadão. Quem não se sente não é filho de boa gente. E para mim uma humilhação é-o sempre, independentemente do tamanho. Não há “pequena coisa” quando se trata de honra e dignidade. E esta foi mais uma humilhação de Marcelo ao cargo e à República que diz representar. Esta foi mais uma humilhação a Portugal e aos portugueses.

Marcelo, o moralista selectivo

Marcelo, o político pós-político, tem dedicado boa parte da sua asfixiante presidência à proclamação de princípios gerais de uma ética redonda, com a qual todos (ou quase todos) estarão de acordo. Nas recentes comemorações do 5 de Outubro, retomadas depois de alguns anos de interrupção reaccionária, Marcelo optou por enviar recados à chamada “classe política”, expressão mediática que procura meter no mesmo saco pessoas e organizações que na prática quotidiana não apenas representam ideias e comportamentos distintos, como o fazem em defesa de projectos políticos muito diferentes. Ora, o que Marcelo disse não levanta grandes objecções em praticamente nenhum sector da sociedade portuguesa. E por isso, o problema não é o que disse, mas antes o que fez e faz.

Quando em Janeiro de 2014 o ex-ministro do PSD José Luís Arnaut recebeu do Goldman Sachs o reconhecimento da sua “competência”, depois de vários anos de participação activa em decisões políticas ao mais alto nível institucional, Marcelo – então comentador televisivo na TVI – afirmou  que “José Luís Arnaut esteve em todas as privatizações do lado do Estado vendedor e do lado dos privados interessados, portanto a lógica da Goldman Sachs, que já disse que vai apostar em Portugal, é escolher alguém que acham que está muito bem metido no domínio das privatizações. Por outro lado é um dirigente do partido, é presidente da comissão de fiscalização de contas do PSD, portanto tem peso no partido, que por sua vez tem peso no Governo. Dir-me-á que é uma mistura entre poder económico e político. Mas esses bancos quando escolhem algumas figuras, ex-governadores, ex-ministros…, são pessoas que lá estão porque os bancos pensam que podem abrir portas ou pelo menos esclarecer o que se passa nesses países“.

Dois anos depois foi a vez do ex-primeiro-ministro e ex-presidente da Comissão Europeia ser chamado à estrutura do Goldman Sachs, também como reconhecimento da sua “competência” e “sabedoria” acumulada ao longo de vários anos em funções de elevada responsabilidade e considerável poder, tanto em Portugal (o país onde, segundo comentador Marcelo, o Goldman Sachs “vai apostar”) como na estrutura burocrática da “União Europeia”. Marcelo, entretanto eleito Presidente da República, faz meia pirueta sem mortal mas encarpada, e afirma, orgulhoso, que “no caso do doutor Durão Barroso, trata-se de atingir o topo da vida empresarial. E o topo da vida empresarial tem muito mérito, como tem o atingir o topo na ciência, na universidade, na cultura, nas artes. Portanto, deve ser naturalmente reconhecido“; “o Presidente da República gosta de ver portugueses reconhecidos em lugares cimeiros dos vários domínios da atividade profissional, cívica, cultural. E temos de admitir que é um lugar de topo na vida empresarial mundial. Não tenho mais nada a comentar“.

Dir-se-á que o Marcelo comentador não tem as responsabilidades institucionais do Marcelo presidente quase-rei. Mas essa é precisamente a razão que torna incompreensível a contradição evidente entre as posturas adoptadas por uma mesma pessoa, num curto período de tempo. A prática é de facto o critério da verdade, e se a letra do discurso aponta o dedo a todos (sem distinção) – o que de resto não surpreende, antes reforça o longo histórico de intervenções populistas do ex-comentador televisivo -, a prática concreta absolve sem pingo de vergonha nem constrangimento um ex-correlegionário do PSD e uma figura menor da história de Portugal, maior apenas no impacto profundamente negativo que teve (e tem) não apenas na vida quotidiana do povo português como também na sempre presente colagem do Estado português à completa destruição de qualquer noção de estabilidade, paz, segurança e desenvolvimento no Médio Oriente.

O que Marcelo fez, ao caucionar e valorizar o ingresso de um ex-primeiro-ministro e ex-presidente da Comissão Europeia para um banco que, segundo próprio Marcelo, tem revelado interesse em “apostar” em Portugal, foi reconhecer a legitimidade política dos oligopólios internacionais para através de jogadas que ferem de morte a réstia de democracia existente ameaçarem os povos e em particular o povo português.

post-scriptum: não menos grave foi a posição adoptada pelo governo português.

Um presidente poupadinho e beijoqueiro

«Marcelo abdica de carro de 150 mil euros. Marcelo paga viagem do seu bolso. Marcelo jejua para poupar. Marcelo foi a França a pé. Marcelo vai ao Brasil a nado. Marcelo compra iogurtes no Lidl em final de prazo de validade. Marcelo desliga televisão na tomada para não gastar em stand-by. Marcelo promulga leis no papel que embrulhou o bacalhau. Marcelo só descarrega o autoclismo uma vez. Por semana. Marcelo desliga o carro nas descidas. Marcelo usa chinelos dos chineses. Marcelo não lava as cuecas todas as semanas. Marcelo vira-as do avesso.»

Ele adora, a comunicação social rejubila. Gestos sempre simbólicos e repletos de sincera humildade para dar o exemplo, beijinhos e simpatias para a fotografia da proximidade. “Vejam como Marcelo é um dos nossos”, “um de nós”, “simples, acessível e sério”, grita diariamente a imprensa, com títulos garrafais arranjados a preceito, assumindo por completo a posição “de baixo” face àquele “deus” que está “lá em cima”. Mas ele “desce” até “nós”, os plebeus. Tal como qualquer “um de nós”, Marcelo paga uma viagem de Falcon do seu próprio bolso. Tal como qualquer “um de nós”, Marcelo rejeita andar num carro de 150 mil euros, porque pode perfeitamente andar numa latinha de 15 ou 20 mil, carro este com que, aliás, qualquer “um de nós” tem de se contentar. Não importa que tenha o que tem para pagar “do seu bolso”; importa que pague “do seu bolso”, o que é sempre em última instância um exemplar gesto de “sacrifício” e “sacrifício pela pátria”. Mas como qualquer cidadão do seu país, normal, como gente comum, Marcelo puxa do molhe de notas e zás!!, fica o voo de Falcon pago e não se fala mais nisso.

Este presidente é “um dos nossos”. Este presidente “é cá da terra”. Este presidente é “humilde” e as coisas acontecem sempre com imensa naturalidade. Tudo espontâneo e impreparado. Este líder político é muito poupado e exemplar. Não que seja novidade, porque já Salazar dava o exemplo “sendo pobre e morrendo pobre”. Mas que presidente e que país maravilhoso este. Que sorte temos. E domingo vamos ganhar. Com o “dos nossos” na flash interview, quem sabe?! O presidente é bem capaz de marcar um golo. Mas descalço, para não gastar as “botas”.

Dez candidatos e uma certeza


Se as eleições de domingo são recordistas em número de candidatos, o fenómeno não se deverá à multiplicação das ideias mas à clonagem das caras. Repare: sabe quais são as diferenças políticas entre, por exemplo, Henrique Neto e Cândido Ferreira? Não se trata apenas de serem ambos milionários chateados com o PS que deixaram de gostar dos «partidos». Até ao debate a nove, nunca tinham sido vistos no mesmo espaço físico e havia quem defendesse que eram a mesma pessoa.

Não estamos a brincar. O que distingue o Vitorino Silva de Jorge Sequeira? Não, sem ser no estilo e na pose e tirando o verve e o viço. Mais canhestros ou menos endinheirados, ambos são vaidosos inveterados que se pautam pelo vazio de causas. Só há duas explicações para que Tino e Sequeira, simétricos nas mesas dos debates e espelhados nas posições, se completem tão bem: ou foram criados por Manuel Monteiro na mesma gruta ou são a secreção eleitoral do cruzamento dos Hunger Games com o Correio da Manhã.

E Marcelo Rebelo de Sousa, «à esquerda da direita», o que o distingue de Maria de Belém, «à direita da esquerda»? Tratar-se-á de imitação ou osmose? São já tantas as décadas de alternância na alfurja do capital que os currículos de Marcelo e Belém se confundem nos corredores BES, nos encargos das privatizações desastrosas e no corte de direitos de quem trabalha. Sabe o leitor, por ventura, o que disseram Marcelo e Maria de Belém sobre assuntos como a privatização da Galp, a criação dos recibos verdes e das taxas moderadoras na saúde, a destruição da reforma agrária, ou a introdução de propinas no ensino superior? Uma pista: disseram a mesma coisa.

Outros candidatos são distinguíveis entre si, não se distinguindo das suas incoerências: a orgulhosa «independência» de Nóvoa confunde-se com a sua tentativa de arregimentar o PS; a credibilidade de Marisa Matias turva-se na mentirola sobre a resolução que abriu portas à guerra na Líbia e que, afinal, votou mesmo favoravelmente; a insistência de Nóvoa em afirmar uma candidatura que «não é de esquerda nem de direita» baralha a sua luta contra o candidato da direita; a causa de Marisa Matias contra a precariedade contrasta com a prática do Bloco de Esquerda, que acaba de apresentar uma deliciosa receita para perpetuar o trabalho temporário; as críticas de Nóvoa à austeridade contradizem os deputados do PS empenhados na sua campanha e que subscreveram toda a austeridade de Sócrates e ainda, claro, as subvenções vitalícias.

Paulo de Morais, finalmente, à «esquerda da direita do centro» não tem comparação com nada. Em populismo abaixo do Sequeira e do Tino, Paulo de Morais, qual pónei circense, só sabe falar de duas coisas, a saber: o IMI e as editoras dos livros escolares. É tudo. Já sobre a sua militância de 35 anos no PSD, ou a sua participação na ruinosa gestão da cidade do Porto, onde foi responsável pelo despejo de centenas de famílias, nem uma palavra.

A excepção a esta triste regra tem um nome: Edgar Silva. Assumindo a defesa incondicional dos valores de Abril, dos direitos dos trabalhadores e da Constituição, Edgar Silva é o candidato que dá mais certezas a quem luta por uma vida melhor. Sem uma única nódoa no seu percurso de vida e com uma trajectória política indefectivelmente comprometida com a justiça social e com a liberdade, Edgar Silva é o meu Presidente.




Fotografia: Inês Seixas