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BE ataca Venezuela

«Não me custa nada condenar a falta de democracia na Venezuela.» afirmou, hoje, no JN, Mariana Mortágua, deputada do BE. Há uma semana, quando o PCP apresentou votos de solidariedade com os povos da Venezuela, Brasil e Colômbia, o deputado bloquista Paulino Ascenção afirmava que o seu partido rejeitava “qualquer abuso da força ao nível interno ou através de ingerência externa” e que condenava “qualquer limitação à liberdade de expressão e à livre determinação do povo da Venezuela”. Ou seja, o BE alimentava o peditório de que o governo venezuelano abusa da força e limita a liberdade de expressão.

Num momento particularmente grave na Venezuela, a par do Brasil, em que se tenta legitimar o derrube de Nicolás Maduro, o BE sobe ao muro da traição para dar força aos que já executaram um golpe fascista, entretanto derrotado pelo povo, em 2002. No parlamento europeu, os eurodeputados do BE aliaram-se à direita e abriram caminho à invasão na Líbia e, desde então, tentam repetidamente convencer-nos de que não fizeram nada disso. A haver uma agressão contra Caracas legitimada por uma opinião pública contaminada pelas Marianas Mortágua e Paulinos Ascenção de todo o mundo que saibam os deputados do BE que o criminoso não é só o que dispara. É também o que aponta.

É também curioso que os que dizem defender o legado de Salvador Allende conseguem ao mesmo tempo condenar a revolução bolivariana e Nicolás Maduro porque são, supostamente, os responsáveis pelo caos económico na Venezuela. É que quem tem pelo menos dois dedos de testa e um conhecimento mínimo da história sabe que também houve caos económico no Chile durante o governo da Unidade Popular fruto da mesma estratégia de sabotagem, desabastecimento e bloqueio promovidos pelos grandes grupos económicos, em conjunto com a direita e os Estados Unidos.

Também curiosamente, o BE continua calado sobre a maior deportação de seres humanos desde a 2ª Guerra Mundial que leva o carimbo do Syriza. A polícia de choque do regime grego desaloja milhares de refugiados dos campos e nem uma só palavra sobre o assunto dos amigos do peito de Alexis Tsipras.

Spinning

No dia 22 de Janeiro, o PSD e o CDS apresentaram uma proposta no plenário da Assembleia da República para a realização de uma auditoria externa ao Banif. O BE, pela voz de Mariana Mortágua, logo a seguir, afirmou que “a primeira iniciativa que o BE vai ter depois de constituída a comissão de inquérito é propor a realização de uma auditoria externa.” O PCP falou pouco depois e afirmou que não estava disponível para encomendar “auditorias externas” que viessem a condicionar o trabalho da comissão de inquérito e que seriam feitas pelas mesmas empresas que são peritas em esconder a verdade. E o PCP disse mais: que rejeitaria essa proposta, fosse quem fosse que a apresentasse.

O PS mostrou indisponibilidade para aceitar a realização de uma auditoria externa ao Banif. Na verdade, uma auditoria externa é realizada pelas empresas que ao longo dos anos fizeram a avalização das contas do Banif, bem como de todos os outros bancos e grandes empresas portuguesas. O PSD, CDS e BE queriam assim deixar nas mãos de uma empresa privada habituada e especializada em manipular factos e esconder a realidade. Felizmente, o BE percebeu que tal proposta não fazia sentido e aceitou assinar uma proposta conjunta com o PS e o PCP para, em vez de uma auditoria externa, a Comissão de Inquérito pudesse recorrer à Unidade Técnica de Apoio Orçamental (unidade da própria Assembleia da República) sempre que a complexidade técnica dos assuntos a tratar pela comissão o exigisse. Foi o Grupo Parlamentar do PS que apresentou a proposta à Comissão.

O Jornal de Negócios resumiu todo este processo da seguinte forma: Mariana Mortágua quer UTAO a dar apoio à comissão de inquérito. Logo a seguir, alterou dizendo que o PS é que tomou essa iniciativa mas insistindo na ideia de que o BE é que propôs e anunciou. Ao mesmo tempo, o Jornal de Negócios não se limita a esconder a reviravolta do BE, mas vai ao ponto de mentir e dizer que o BE é que anunciou a proposta e que essa é da sua autoria. Mas o mais grave é que a notícia que o Jornal de Negócios faz não é sobre a Comissão de Inquérito, é sobre o BE na Comissão de Inquérito. E faz disso notícia, mentindo.  A questão da realização ou não de uma auditoria e de o BE ter desistido é completamente secundária, mas a forma como a comunicação social começa a mentir para manter a sua campanha publicitária de apoio ao BE é bastante ilustrativa dos procedimentos utilizados para que a percepção pública sobre o trabalho parlamentar seja completamente distorcida. Recordemos que apesar do BE ter votado favoravelmente as três partes do relatório da Comissão de Inquérito ao BES e de se ter abstido na votação final – ao contrário do PCP que votou contra – não deixou de ser promovido como a força política que enfrentou os grandes grupos financeiros

“Em relações públicas, spin é uma forma de propaganda, concretizada através da difusão de uma interpretação manipulada de um evento ou de campanhas para persuasão da opinião pública a favor ou contra qualquer organização ou figura pública. Enquanto as formas tradicionais de relações públicas podem assentar na apresentação criativa dos factos, o spin geralmente utiliza artifícios ardilosos, sem franqueza, enganosos e altamente manipuladores.”

Tradução minha de William Safire, New York Times, December 22, 1996.