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O cozinheiro Kiko e as fake news

Hoje debate-se, no Parlamento, a desinformação. Há uns dias, a Agência Lusa organizou uma conferência sobre fake news. Do que ouvi, tirando o Paulo Pena, foi muito pouco relevante e continua a haver um discurso redondo dentro dos próprios profissionais da área da comunicação social: Os media têm de combater as fake news, mas não refletem no papel que desempenham na disseminação de fake news. Uma oradora usou mesmo, na sua apresentação, um print de uma notícia falsa publicada pelo Expresso, sobre uma suposta diretiva de Bruxelas (imagem daqui). Nicolau Santos, jornalista e administrador da Lusa, referia no evento que “o que se pratica nas redes sociais não é jornalismo, feito segundo os códigos de ética a que os jornalistas estão obrigados”. Em 2004, no entanto, “os códigos de ética a que os jornalistas estão obrigados” permitiram ir para a neve às custas do BES, cuja lista de jornalistas avençados continua em segredo. Mais tarde, em 2012, o mesmo jornalista lançou para o estrelato Batista da Silva, um especialista da ONU, quando, afinal, Batista da Silva era ninguém. Há, assim, aqui vários pontos interessantes a considerar, que, creio são relevantes para atendermos ao estado dos media em Portugal.

Pluralismo
Não há jornalismo sem jornalistas e a concentração de órgãos de comunicação social como propriedade de meia dúzia de grupos económicos é um fator determinante para o fim da pluralidade. Os mesmos jornalistas escrevem para o grupo e não para o OCS, pelo que, obviamente, não são precisos tantos jornalistas. É a lógica do mercado. Menos jornalistas, o mesmo trabalho, mais receita. Associada a isto, vem a precariedade. Menos jornalistas nos quadros, mais receita, o mesmo trabalho. No entanto, o mesmo trabalho é pior do que seria se fosse feito por mais jornalistas. Por isso, é essencial que haja redações com jornalistas e jornalistas com direitos. Sem isso, não há jornalismo. Há a repetição acrítica de notícias – verdadeiras ou falsas com base em agências de agências de agências.

Tempo
O tempo do jornalismo não é o tempo das redes. Ou, então, o jornalismo deixa de ser jornalismo e passa a ser parte das redes com tudo o que têm de bom – a informação ao segundo – e de mau – a informação falsa ao segundo. Aqui segue um exemplo:

Na verdade, a ponte bloqueada por militares a que se referem todas estas notícias, nunca foi inaugurada nem esteve em funcionamento, como se verifica nesta peça do La Opinión.

No entanto, a notícia foi acriticamente replicada pelas redações dos principais órgãos de informação portugueses. Passou a ser verdade perante a opinião pública. Do mesmo modo, o Observador avançava com a seguinte notícia:

A imagem é verdadeira. O Observador nunca reconheceu o erro.

A TVI noticiava, falsamente, que o PCP atacava a greve dos enfermeiros quando, na verdade, se referia à chantagem dos privados sobre a ADSE. À hora a que escrevo, o post da TVI continuava online.














































Herrar é umano
Partindo dos exemplos anteriores, a reflexão continua a não ser feita pelos próprios em torno das notícias falsas que divulgam. Nas semanas recentes, são muitos os exemplos, nomeadamente em relação à Venezuela. Onde é que fica aqui a autocrítica? Qual deverá ser o seu papel quando erram? Porque é que custa admitir o erro? Quando foi feita a autocrítica e a reflexão em relação ao que (não) eram as armas de destruição massiva no Iraque, que nos foram dadas como verdadeiras? Dos Capacetes Brancos na Síria, que nos apresentavam como sendo os rebeldes moderados mas que, como foi dito tantas vezes por tanta gente, não eram mais do que elementos financiados pelos EUA através da Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos, que estão agora a ser mobilizados para o Iémen? Que, de resto, ninguém se lembra.
Hoje mesmo, o site da revista Sábado revela a mirabolante história do cozinheiro Kiko, que seria autor do primeiro prato a ser cozinhado em Marte, vencedor de um concurso da NASA. A história apareceu na TVI, no 5 para a Meia Noite, no Observador e na inevitável Cristina. Para isso, o cozinheiro só precisou de escrever um comunicado que enviou às redações. Estas seguiram-no. Não investigaram, não questionaram. Já sabemos o papel das redes na desinformação. Talvez seja altura, como referi, de se discutir o papel da Comunicação Social na disseminação de desinformação.

Contrapoder
O jornalismo tem de ser contrapoder. A partir do momento em que passa a movimentar-se nos corredores do poder e tem como ambição lá chegar, acaba o jornalismo e começa outra coisa qualquer. Recordemos, por exemplo, o caso do Diário de Notícias, cuja lenta agonia há de levá-lo a desaparecer de vez e, paradoxalmente, talvez seja também este o motivo que o mantém vivo. No consulado do PSD-CDS, de Passos e Portas, o DN cedeu nada menos do que 10 jornalistas para integrarem assessorias no governo ou em organismos públicos. Licínio Lima, Carla Aguiar, Eva Cabral, Francisco Almeida Leite, João Baptista, Luís Naves, Maria de Lurdes Vale, Paula Cordeiro, Pedro Correia e Rudolfo Rebelo. Nenhum jornal digno desse nome pode dar-se ao luxo de perder 10 jornalistas. Nenhum jornalista digno desse nome faria o caminho que alguns destes nomes fizeram até chegarem, através dos jornais, e não do jornalismo, ao local que sempre desejaram. E, porque começo o texto falando em discurso redondo, talvez seja em casos como estes que se fecha o círculo da crise dos media, que tem agora nas redes e nas fake news a desculpa ideal para continuar a não olhar para dentro.

A ignorância de Bruno Caetano

Confesso que, até ontem, não sabia quem era Bruno Caetano. Continuo sem saber porque não acompanhei a TVI nem a TVI24 num dia que foi inteiramente dedicado à promoção do fascismo, com palco dado a um criminoso condenado, envolvido num homicídio resultante de crime de ódio. Fui, no entanto, acompanhando as redes sociais ao longo do dia. Hoje, deparo-me com um comunicado do Bruno Cateano, jornalista, ainda que, ao que parece, sem carteira profissional. O repórter do programa da manhã da TVI começa por afirmar, num comunicado, que apenas visava ouvir Mário Machado e as suas convicções sobre Salazar. Ora, caro Bruno, as convicções de Mário Machado são conhecidas de todos, há muitos anos. É um neo-nazi assumido. Deixa-me então ir, ponto por ponto, onde é que o teu comunicado é estúpido e ignorante. E, repara, faço isto partindo do princípio, benéfico para ti, que és de facto ignorante e não o fizeste de forma premeditada para agora vires fazer este papel tão ao mais triste do que aquele que fizeste ontem.

“Para que fique bem esclarecido, quando convidei o cidadão Mário Machado ficou sempre evidente que se tratava pura e simplesmente de uma entrevista que falava das convicções deste acerca de Salazar. Mário Machado criou um movimento que se chama Nova Ordem Social e vão em breve realizar uma manifestação onde dizem que vão celebrar Salazar. Tema que me levantou muitas dúvidas.”

O enquadramento da entrevista na manifestação que se vai realizar é estúpido, porque todos os anos há centenas de manifestações de trabalhadores que lutam pelos seus direitos e não têm 1/100 da cobertura que, durante o dia de ontem, a TVI e a TVI24 deram a esta. Poderemos argumentar que é uma manifestação fora do comum por celebrar um ditador que deixou um legado de 48 anos de miséria, fome, guerra, assassinatos, torturas, enfim, aquelas coisas que, à partida, ninguém gosta muito, porque, parecendo que não, torna-se aborrecido uma pessoa querer comer e não ter nada, ser explorado, ser torturado e, por fim, ser assassinado. É daquelas coisas que não dá jeito nenhum. É por isso que é estúpido promovê-la, percebes?

“Não me interessa aqui responder a quem quer que seja mas sim demonstrar que não excluo ninguém. Vivemos num estado democrata e todos temos opinião. Se concordamos uns com os outros, isso já é outro assunto. Disse que fazia falta mais autoridade, sim verdade! Provavelmente exagerei quando disse que seria a autoridade do Salazar”.

Vivemos numa democracia em que toda a gente tem opinião, por mais estúpida que seja. Como é o caso da tua. Estúpida e ignorante, já te explico o motivo. É estúpido, porque a liberdade de expressão não é um valor supremo e acima de todos os outros. Colide com outros direitos quando, por exemplo, contraria a Constituição da República, que não permite a existência, no ponto 4 do Artigo 46.º de “associações armadas nem de tipo militar, militarizadas ou paramilitares, nem organizações racistas ou que perfilhem a ideologia fascista“. Ora, Bruno, o teu entrevistado pertenceu e pertence a organizações armadas, paramilitares e fascistas, como é o caso dos Hammerskins. Logo, o direito de ele ser ouvido não pode colidir com o direito à vida e à liberdade de culto, por exemplo, nem se sobrepõe aos princípios da não discriminação em função da raça, credo, género e orientação sexual. A liberdade de expressão, repito, não é um valor supremo quando colide com o único que o é de facto, que é o direito à vida.

“A verdade é que estou cansado de tanto crime. Fui mal interpretado. Ainda assim nada vos dá o direito de me ameaçar de morte ou mesmo ofender a minha pessoa e a minha família”.

No seguimento disto, deixa-me explicar-te o seguinte. Se estás farto de tanto crime, não faz muito sentido convidares um criminoso para explicar o que quer que seja. Mário Machado é um criminoso condenado por discriminação racial, coação agravada, detenção de arma ilegal, danos e ofensa à integridade física qualificada; de difamação, ameaça e coacção a uma procuradora da República; e de posse de arma de fogo. Anteriormente, já fora condenado pelo envolvimento no assassinato de Alcindo Monteiro, cidadão português de origem cabo-verdiana, espancado até à morte, em 1995, no Bairro Alto, em Lisboa. Percebes a tua estupidez? Percebes que ofender, ameaçar de morte e envolver-se em assassinatos é algo que o teu convidado já fez? Que tal é sentir na pele o mesmo que sentiram as vítimas de Mário Machado?

Convidaste um criminoso porque estás farto de tanto crime. Vamos, então à ignorância. És ignorante porque não sabes que, por exemplo, em Portugal, em 1994 havia 143 crimes de homicídio intencional, em 2016, 66. Portugal é considerado o quarto país mais pacífico do Mundo no Global Peace Index. Em 2018, o insuspeito Departamento de Estado dos EUA coloca Portugal no nível 1 de insegurança. O mais baixo. A criminalidade violenta e grave desceu 8,7% em 2017, tendo a criminalidade geral aumentado 3% devido a um aumento dos crimes de moeda falsa, incêndio florestal e burlas. Diminuíram os furtos em residência (menos 14%), em veículo motorizado (-11%), das ocorrências em meio escolar (-6,4) e da criminalidade grupal (-8.8%). Percebes a tua ignorância?

Mário Machado foi entrevistado por Manuel Luís Goucha e a maneira como o apresentador debateu é um dos exemplos de como se deve lidar com este tipo de tema. Debatendo! O contraditório é importante sempre! Porque todas as pessoas devem ter opinião, viva a democracia!

Sabes quem é que não teve direito a opinião, nem democracia, nem debate, nem contraditório? Alcindo Monteiro. Resumindo, és um imbecil ignorante. A tua sorte é que o segundo adjetivo tem remédio. O filósofo Karl Popper explica toda a imbecilidade contida nas tua afirmações de ontem e no teu post de hoje.

Silêncio

Calados, caladinhos, cabeça baixa, orelhas que tapem os ouvidos, que vão falar os comunistas. Os velhos e cansados, os que desde 1921 que vão acabar, os retrógrados e contra o progresso, mais o liberalismo que é o futuro, mais o feminismo urbano-burguês. Mudos, calados obedientes, que o pensamento é só um, só pode ser um, que é a natureza humana. Calem-se as ideologias estafadas da igualdade de oportunidades do trabalho com direitos e do direito ao trabalho. São millenials, querem T0 com 2 metros quadrados, querem Uber e Glovo, que se foda quem paga as motas e os carros. Isto salva-se com o Banco Alimentar, desde que não haja bifes, porque temos de deixar que nos roam os ossos. Não há uma app que mastigue por mim? É a vida, só há um caminho, é a natureza humana, que é fodida, porque o ser humano é egoísta quando nasce. Claro que há igualdade desde que não abane o défice, que o défice cai bem em qualquer mesa, não pode é haver muita chatice, diz que é pessoal lá em Bruxelas que diz que somos uns calões; calados e mudos. O quarto poder e tal, que anda um bocado mau, o senhor Presidente da República até falou sobre isso.

Do lado de cá estamos nós, surdos e cegos, como o burro no quadro de Grosz. Deu no jornal, que eu vi; deu no Facebook, que eu vi; deu no Portugal Glorioso ou no Direita Política, que eu vi e, se não é verdade, não faz mal, porque podia ser. Vamos lá dar a papa aos meninos, vamos explicar como é que se deve pensar, que temos o Marques Mendes as fazer-nos esse favor, mais a Manuela Moura Guedes e o Jorge Coelho e a ponte que os pariu a todos.

Silêncio
Não se pode dar espaço a quem pensa diferente, a quem tem um projeto diferente. Já viram se a mensagem passa? Vamos bloquear esta merda, mesmo que estejamos a bloquear a nós próprios. Então não é que a UGT votou ao lado da administração numa cena sobre jornalistas precários? Olha que não estava à espera. Ah, espera… Não importa, vamos buscar um ex-isto e ex-aquilo radicalmente social-democrata acomodado, vamos dar espaço, deixar falar. Porque Cuba e Venezuela e Vietname e Laos. E a Coreia do Norte, cheia de mísseis e não sei quando. Temos de discutir as fake news, não se percebe como aqueles lorpas caem nisto. E as armas de destruição massiva no Iraque, que comemos que como lorpas e demos a mastigar aos pacóvios? E aquele maluco da ONU que afinal era mas que o Expresso disse que sim, mas afinal não. E os ucranianos que são maus mas os russos é que são piores. Nós é que somos quem dá a informação cuidada e isenta. Nós somos mesmo quarto poder e devíamos ser contrapoder. Mas depois lá se vão assessorias e consultorias nas próximas eleições. Vamos calar isto, se não, como dizia o António, esta merda vai voar.
Silenciados
A imagem abaixo representa uma recolha efetuada nos sites de diversos órgãos de informação sobre o espaço de comentário político destinado a cada partido. Importa realçar que foram recolhidos dados no JN, DN, Público, Sol, Expresso, TSF, Visão, TVI e SIC. Incluindo os canais noticiosos. Não contam comentadores convidados para assuntos imediatos, que pertencem, invariavelmente, ao círculo ideológico de PS, PSD e CDS, embora não estejam diretamente ligados aos partidos referidos. De referir que a imagem aponta apenas presenças individuais. Há os seguintes casos em que a mesma pessoa se desdobra em vários órgãos, sendo esses os seguintes:

PSD – Paulo Rangel (Público / TVI)
CDS – Adolfo Mesquita Nunes (DN / Visão)
BE – Marisa Matias (DN / TVI)
BE – Francisco Louçã (Expresso / SIC)

Então, a presença partidária nos media com espaço de opinião está distribuída da seguinte forma:

PS
Ana Catarina Mendes (JN)
Maria Antónia Almeida Santos (DN)
Francisco Assis (Público)
João Gomes Cravinho (Público)
Pedro Adão e Silva (Expresso)
Isabel Moreira (Expresso)
Ana Gomes (SIC)
Jorge Coelho (SIC)
Carlos Zorrinho (TVI)
Fernando Medina (TVI)
João Cravinho (TVI)
Pedro Silva Pereira (TVI)
Catarina Marcelino (Visão)

PSD
Poiares Maduro (JN)
Margarida Balseiro Lipes (DN)
Paulo Rangel (Público / TVI)
Feliciano barreiras Duarte (Sol)
João Lemos Esteves (Sol)
Sofia Vala Rocha (Sol)
Duarte Marques (Expresso)
Diogo Agostinho (Expresso)
Marques Mendes (SIC)
Carlos Carreiras (TVI)
José Luís Arnaut (TVI)
Luís Montenegro (TVI)
Manuela Ferreira Leite (TVI)
José Eduardo Martins (Visão)

CDS
Nuno Melo (JN)
Adolfo Mesquita Nunes (DN / Visão)
Bagão Félix (Público)
Nádia Piazza (TSF)
Lobo Xavier (SIC)
Paulo Portas (TVI)

BE
Mariana Mortágua (JN)
Marisa Matias (DN / TVI)
Pedro Filipe Soares (Público)
Francisco Louçã (Expresso / SIC)
José Soeiro (Expresso)
Fernando Rosas (TVI)
José Manuel Pureza (Visão)

PCP
Rui Sá (JN)
Bernardino Soares (TVI)
Rita Rato (Visão)

Calados
É inegável que o PCP é silenciado nos órgãos de comunicação social. Hão-de haver motivos. No caso dos três comentadores comunistas, importa realçar que Bernardino Soares, de acordo com o site da TVI, esteve meses sem qualquer participação e não há referência à sua substituição por outro membro do PCP. Não há como romper este bloqueio, que é ideológico. Não é nem mais nem menos que isso. É permitir a outros que comentem sobre tudo, incluindo questões sobre o PCP, sejam elas sobre o partido em si, sejam sobre opções políticas, que são afirmadas sem direito a contraditório. Abaixo, segue um vídeo ilustrativo do que se passa, publicado no Facebook do PCP, sobre uma importante iniciativa e discussão política em torno das posições do Partido.

Organização e luta
Perante este cenário de bloqueio, é demasiado fácil bater no PCP, em que tanto alguma esquerda como a direita mais saudosista de outros tempos usam os mesmos argumentos. Porque não há contraditório. Estamos na era da informação a ser enformados. É também por isso que é tão importante que os militantes comunistas se informem, mais não seja, da atividade do Partido pelos meios que têm à disposição. Que discutam e decidam, que percebam que, se não temos espaço espaço nestes órgãos, não somos nós que estamos errados. Não há critério editorial que pretenda explicar o afastamento do PCP dos media e, ao mesmo tempo, resista ao exemplo de Daniel Oliveira. Sozinho, o ex-bloquista tem espaços de comentário em quatro órgãos: Expresso, SIC, TSF e Canal Q. Eu tenho a minha opinião sobre as posições de Daniel Oliveira, que não vem ao caso. Mas devia, ao menos, fazer-nos pensar como é que alguém, seja quem for, consegue ter mais espaço de comentário do que um partido inteiro que, por acaso, tem 15 deputados.

O que falta nos Panama Papers

O mundo acordou ontem com uma revelação explosiva. Os chamados Panama Papers prometiam colocar a nu um escândalo sem precedentes, de dimensão global, depois da fuga de documentos de uma empresa de advogados especializada em esconder dinheiro, a Mossack Fonseca, do Panamá. Importa referir desde já que há centenas de empresas que prestam este tipo de serviços, logo, esta lista está longe de ser completa. Afinal, o que diferencia esta lista que agora vamos conhecendo, do Wikileaks? Muita coisa. Demasiada.

Mãos de fada
A primeira grande diferença em relação ao Wikileaks é que, neste caso, a informação foi fornecida em bruto e está acessível a quem pretender consultá-la. No Panama Papers, a informação surge filtrada por um consórcio internacional de jornalistas de investigação, cerca de 200, oriundos de 65 países. O “Centre for Public Integrity (CPI) é uma organização que tem como principais doadores a Fundação Ford, a Fundação Carnegie, o Fundo da Família Rockefeller, a Fundação W. K. Kellog e a Fundação Open Society, propriedade do sinistro George Soros. E lá se foi a independência. Só isto deveria fazer soar campainhas de alarme em relação ao objecto da divulgação e ao ser real objectivo. As matérias parecem estar a ser tratadas com mãos de fada pelos benfeitores da CPI.

Wikileaks vs Panama Papers
Como referido atrás, o Wikileaks permite-me, ainda hoje, pesquisar tudo e mais alguma coisa, nomeadamente através de emails trocados por milhares de pessoas e entidades com a Stratfor, uma organização que se dedica a análises geopolíticas e que actua como centro de interesses dos Estados Unidos da América em todo o mundo. Ao contrário dos Panama Papers, em que a informação há-de ser divulgada aos poucos e com um critério que se desconhece, no Wikileaks eu consigo verificar as jogadas de bastidores e, por exemplo, o trajecto de Poroshenko para chegar ao governo da Ucrânia. E, no entanto, ele serviu só como peão, sendo um dos mencionados também nos Panama Papers. Outro exemplo que posso consultar sem filtros é a forma como a Stratfor mediava o patrocínio do RAAM pela Chevron, em Angola, para preparar um golpe de Estado.

Filtros
Como se verifica acima, há uma enorme diferença, e não é pequena: são os filtros por onde a informação passa até chegar a nós. Percebe-se, por isso, o corporativismo do Ricardo Alexandre, editor do Internacional da RTP, quando elogia a divulgação dos dados pelos jornalistas, garantindo a idoneidade deles. Pelos patrocínios atrás mencionados, faria tanto sentido acreditar que não há uma agenda nos Panama Papers como na imparcialidade das análises de Marques Mendes.

EUA fora do mapa
O dado mais curioso surge pelo facto de, até ao momento, não haver qualquer informação relativa a norte-americanos. E a verdade é que nem Putin surge directamente associado a qualquer offshore, pelo que pude ler até agora. Surgem pessoas que lhe são próximas, mas não ele. No entanto, é a cara dele que consta quando se fala em políticos e ex-políticos. E não David Cameron, por exemplo. Facto, até ao momento, é que os grandes visados estão por todo o Mundo, menos nos Estados Unidos da América. Fala-se em brasileiros, em argentinos, africanos, médio-oriente e Europa.

E as consequências?
Várias e nenhuma. Nenhuma, porque estes escândalos não são novos nem inéditos. Alguém se lembra do escândalo que envolveu Jean Claude Juncker e ficou conhecido como LuxLeaks? A investigação de então foi feita pelo mesmo grupo de jornalistas, que parece ter uma especial predilecção para não estado-unidenses. No entanto, o assunto era o mesmo. A consequência foi a sua nomeação para presidente da UE. Ninguém espera que os mesmos que alimentam o capitalismo, que jogam com os países como peças num tabuleiro de xadrez em defesa dos seus interesses particulares, nos forneça armas que coloquem o sistema em causa.

O exemplo da Islândia
A Islândia era, até há bem pouco tempo, a personificação do que alguns acreditavam ser um exemplo de como o capitalismo pode ser conciliador entre classes, entre exploradores e explorados, com o pomposo título de “Islândia iniciou o julgamento do neoliberalismo“. Nada mais falso. Nenhum neoliberalismo será julgado por leis burguesas de tribunais burgueses, que visam a manutenção do sistema em que vivemos. Agora, com o primeiro-ministro da Islândia entre os envolvidos no Panama Papers, pode ser que consigamos todos perceber que há coisas que não se reformam. São irreformáveis, são as suas contradições intrínsecas. Acreditar o contrário é esperar que exista um pote de dignidade no fim do arco-íris do capitalismo.

Nós pagamos o dinheiro desviado para as offshore
Quem paga todos estes desvios somos nós. As tremendas fugas aos impostos de milhares de milhões, com tantos zeros que nem saberia como escrevê-los, são pagas por todos nós, que temos de arcar com os défices e pactos de estabilidade e tudo e mais alguma coisa. A solução seria acabar com os offshores. Claro que isso é defendido e já foi proposto. Tanto o seu fim como a sua taxação. Só que isso implicaria uma vontade global que, lá está, não existe. Porque o capitalismo se entranhou de tal forma que já não vai lá com lavagens a frio. Tem de ser escaldado, pendurado pelos pés, batê-lo bem com uma raquete para tirar o mofo e, por fim, podemos colocá-lo no lixo sem que cause mais danos.

Marcelo: O candidato deles

O custo das campanhas das presidenciais e a forma como Marcelo Rebelo de Sousa foi louvado pelos media já foi aqui abordado, e tão bem, pelo António. Não é sobre isso que me apetece escrever, embora isto ande tudo ligado. No dia 3 de Janeiro de 2016, o Público decidiu vender um folheto de campanha do candidato que é tão independente do PSD/CDS como eu sou vegetariano.

Esta capa deve fazer-nos pensar, tem de fazer-nos pensar no papel dos media tradicionais na formação de opinião. E Marcelo é um especialista nisso, tendo em conta que andou anos e anos, durante 52 domingos por cada um, a explicar-nos como devemos pensar em relação a tudo e mais alguma coisa, desde o futebol, passando pelo atletismo, política internacional, nacional, culinária, geopolítica, rendas de Bilros e tudo o mais.


Nas suas Conversas em Família, Marcello, perdão, Marcelo, pôde dizer tudo, ensinar-nos tudo, com o alto patrocínio da TVI. Voltando ao dia 3 de Janeiro e ao Público, convém recordar desde já que é propriedade da família Azevedo. Do Belmiro e do Paulo. Na sua criação e história, o Público sempre foi tido como um diário mais inclinado para a esquerda, uma esquerda urbana e intelectual, com estudos. Foi essencialmente a secção cultural que, durante muitos anos, fez o Público crescer entre este segmento da população.

O equívoco começa aqui. Um diário de esquerda criado por um capitalista é coisa que não existe. O primeiro número do Público, para quem se recorda, tinha como foto da primeira página Álvaro Cunhal de costas, com uma manchete que anunciava o fim do PCP e da sua linha ideológica. E fica claro para que “esquerda” é que o Público foi criado, pensado e mantido durante tantos anos, mesmo com todos os prejuízos que sempre teve.

A verdade é que o poder da imprensa escrita já não é o que era. Logo no dia 3 de Janeiro, nas redes sociais, foram inúmeras as publicações a condenar o Público e a questionar se fará o mesmo com todos os outros candidatos. É pouco, é certo. Há uma parte substancial da população que não usa redes sociais e continua a comer tudo o que é debitado pelos media. Mas começa a haver uma mudança que os media tradicionais parecem não acompanhar ou não perceber. A Internet permite um escrutínio e difusão muito mais abrangente do que sucedia há uns anos, quando o Correio da Manhã tomava o partido da direita e apelava ao voto na AD. De forma tosca, mas apelava. E, honra lhe seja feita, sem grande dissimulação.

É evidente que há uma promiscuidade entre jornais, jornalistas e política. No anterior governo do PSD/CDS, foram pelo menos dez os jornalistas do Diário de Notícias que assumiram funções em cargos de nomeação, desde directores de serviço até assessores. Isso mesmo: dez jornalistas que um jornal que se aguenta nas bancas sabe-se lá como, perdeu para um governo. Carla Aguiar, Eva Cabral, Francisco Almeida Leite, João Baptista, Licínio Lima, Luís Naves, Maria de Lurdes Vale, Paula Cordeiro, Pedro Correia e Rudolfo Rebelo. O DN há-de ser um caso de estudo sobre a sua verdadeira utilidade, sendo um jornal de âmbito nacional que vendia, em 2014, pouco mais de 15.000 exemplares por dia, contadas também as assinaturas digitais. Isto talvez ajude a perceber a simpatia mediática que Marcelo, o candidato da direita, goza nos jornais, rádios e tv.

Marcelo é o candidato deles. Da direita, do populismo dos orçamentos para as campanhas, mesmo depois de ter apoiado Cavaco, quando este gastou 1.800.000 euros na sua campanha. Nesta altura, Marcelo andava pouco preocupado com os gastos. É o candidato dos donos dos media e dos seus amigos do BES, por onde também passou Maria de Belém, que a Ordem dos Médicos, com um sentido de oportunidade muito apurado, homenageará no dia 12.

Nenhuma destas questões é nova e a promoção do candidato do PSD/CDS repetir-se-á até ao dia das eleições. De forma mais ou menos clara, Marcelo será levado ao colo até ao trono de Belém. Cabe a nós desmascarar o papel que sempre teve no apoio à direita, às várias direitas que foram comandando o país através de esquemas de promoção semelhantes.

Da Telesur às ruas: A revolução será transmitida?

Caracas, Bairro 23 de Enero, bastião da revolução bolivariana

No passado mês de Fevereiro, o governo bolivariano da Venezuela denunciou um plano golpista. Na denuncia, o mandatário, Nicolás Maduro, revelou à imprensa os detalhes desta estratégia elaborada pelos “sectores mais fascistas da oposição, vinculados ao imperialismo norte-americano”. O presidente afirmou que queriam bombardear o palácio presidencial de Miraflores, o Ministério da Defesa e a Telesur.


Davide Angelilli
Bruno Carvalho

Informar para transformar.


A Telesur é uma ferramenta mediática que se define como “um canal multimédia de comunicação latino-americana de vocação social orientada para a liderança e a promoção dos processos de união dos povos do SUL. Um espaço e uma voz para a construção de uma nova ordem comunicativa que procure dar um espaço aos que não são ouvidos pelas grandes cadeiras de noticias”.

Somente um antes da criação da Telesur é que o governo da Venezuela e da República de Cuba haviam formalizado a criação da Aliança Bolivariana para os povos da Nossa América: a ALBA, que hoje em dia reúne doze países membros na região latino-americana e caribenha e a três países observadores. Os governos da ALBA – especialmente, a Bolívia, o Equador e a Nicarágua, para além dos que a fundaram – partilham a vontade de alcançar a soberania através da integração regional na América Latina.

No primeiro encontro, na Cimeira de Havana, os governos ratificaram a necessidade de defender “a cultura latino-americana e caribenha e (…) a identidade dos povos da região, com particular respeito e fomento das culturas autóctones e indígenas”. Dentro do mesmo ponto, anunciaram a “criação da Televisão do Sul (Telesur) como instrumento alternativo ao serviço da difusão das nossas realidades”.
Mas qual a necessidade de vincular o processo de integração regional à criação de um meio alternativo de comunicação? Diferentes estudos definem o sector latino-americano da comunicação como um “latifúndio mediático” enfatizando a forte concentração dos meios de informação nuns poucos conglomerados empresariais. O grupo mexicano Televisa, o grupo Cisneros da Venezuela, a Globo, no Brasil e, para dar mais um exemplo, o grupo Clarín, na Argentina, são os principais donos da industria da comunicação latino-americana.

Em consequência dos processos económicos e políticos vinculados à globalização do modelo neoliberal, estes grupos – da mesma forma que as principais corporações mediáticas a nível mundial – estão caracterizados pela primazia da lógica comercial sobre a ética e a política. Por outro lado, estes grupos mediáticos latino-americanos são dependentes, como outros sectores económicos do continente, de poderosos agentes económicos de origem estrangeira. Como escreve Ramírez em “América Latina, o grande latifúndio mediático”: “a concentração e a dependência, como outras tantas vezes na história do continente, encontram-se aqui também para desenhar outra faceta da globalização”. Noutros termos, estes grupos dependem de latifúndios maiores, de monopólios estrangeiros, principalmente, localizados na América do Norte. Por exemplo, 18% das acções do grupo Clarin, da Argentina, são propriedade do banco norte-americano Goldman Sachs.


É por isso que o projecto bolivariano de romper com a dependência regional através da integração entre os países latino-americanos choca de frente com os interesses das grandes corporações mediáticas, vinculadas aos poderosos protagonistas económicos multinacionais com origem e dependência fora da região. Mas não se trata apenas de geopolítica já que em destaque está a oposição das oligarquias à emancipação dos povos.

A democratização dos meios de comunicação na Venezuela

“Este é um dos maiores problemas da revolução: não comunicamos, não sabemos comunicar”, foi desta forma que o comandante Hugo Chávez se expressou poucas semanas antes do Golpe de Estado, em 2002. Saber fazê-lo é fundamental, dizia, para neutralizar a campanha dos meios de comunicação privados contra a revolução. Nessa altura, o monopólio mediático era esmagador. Dar voz ao povo e democratizar a comunicação social foi uma das conquistas do processo bolivariano. E se é verdade que parte da campanha mediática dos meios internacionais se concentra em fazer passar a ideia de que o governo bolivariano monopoliza e censura a comunicação, os dados contradizem essa falsa realidade.

Pelo contrário, é verdade que a direita tratou de fechar os meios de comunicação estatais durante o Golpe para impor ao povo venezuelano uma só versão dos acontecimentos. Também é verdade que o tratamento mediático dos meios privados foi de tal forma escandaloso que levou à saída de Andrés Izarra, um dos principais responsáveis da estação de televisão RCTV. E outra dura verdade é que apesar da radicalização do processo como resposta institucional e popular à tentativa de derrubar o legítimo presidente da Venezuela, o retrato actual dos meios continua a ser favorável ao sector privado. A maioria dos venezuelanos tem televisão por cabo e acede a centenas de canais privados. Para além disso, a audiência indica que os canais privados são os mais vistos ainda que ao longo dos anos os canais públicos tenham vindo a ganhar cada vez mais telespectadores.

Na imprensa escrita e na rádio, não há dúvidas. Os meios nacionais mais lidos e as emissoras mais ouvidas estão nas mãos de grupos privados. No ámbito televisivo, em sinal aberto, o Estado tem cinco canais: TVes, Telesur, VTV, ANTV e Avila TV. Por outro lado, os canais privados são seis, entre os quais se destacam a Globovisión, a Televen e a Venevisión, que representam outro “latifúndio mediático” dentro do mercado venezuelano de comunicação. Por exemplo, a empresa de comunicação Venevisión faz parte do já referido Grupo Cisneros, com uma importante participação, além do sector cultural, na área da tecnologia, dos bens e serviços. Como lembrou Geraldina Colotti num artigo para o jornal italiano “Il Manifesto”, Gustavo Cisneros está entre os quinhentos multimilionários do mundo e muitos consideram-no o principal protagonista por trás da tentativa de Golpe de Estado contra Hugo Chávez em 2002.

Estes grandes meios privados de comunicação estão preocupados com a consolidação do horizonte socialista do chavismo. Para fazer frente à oposição destas oligarquias, a estratégia do governo bolivariano tratou de construir uma hegemonia mediática. O governo trabalhou em duas linhas principais: a “reorientação” dos meios de propriedade pública e a criação de um sistema de informação comunitário e alternativo, com o consenso popular.

É dentro desta estratégia anti-oligarca e emancipadora que se situa a Telesur cujo conteúdo se caracteriza por ir mais além do noticiário. Para além da informação, transmite-se e publica-se conteúdo formativo: opiniões, análises políticas e sociais, videos e material audiovisual, em geral, produzido por artistas, realizadores de cinema e jornalistas latino-americanos. Tudo segundo uma visão de integração entre os povos do sul. Sul que a página oficial define como um “conceito geopolítico que promove a luta dos povos pela paz, autodeterminação, respeito pelos direitos humanos e pela justiça social”.

Nos termos gramscianos, a Telesur seria uma ferramenta para construir o consenso em torno do projecto bolivariano de integração entre os países da região e em torno do processo de transformação estatal. Segundo o pensamento de Gramsci, nas sociedades modernas, é fulcral a questão da hegemonia cultural. O pensador italiano partilhava com Marx a primazia das relações económicas e sublinhava o papel estratégico da comunicação para a manutenção ou alteração das relações sociais que derivam de um determinado modo de produção. Baseando-se na dominação de um bloco social sobre outro, já não somente a coerção mas também a “construção do consentimento” popular. Nesse sentido, há que deixar claro que a Telesur é apenas mais um tijolo na estratégia mediática do governo bolivariano, especialmente a nível nacional.


Os meios comunitários e alternativos de Caracas

Nos últimos anos, tem sido cada vez mais frequente a aposta pela criação e consolidação de uma rede de meios alternativos e comunitários, muitos deles apoiados pelo Estado, que procuram criar um sistema de informação auto-gestionado pelos movimentos sociais. É fundamental destacar que o processo de democratização da informação na Venezuela é caracterizado pela redistribuição do peso mediático a favor das comunidades e que se vai desenrolando a par da consolidação do poder político popular.

No ano 2000, a Lei Orgânica de Telecomunicações foi alterada, o que representou um primeiro passo para a implementação de uma rede de meios alternativos e comunitários. Desde então, multiplicaram-se estas experiências e deram-se importantes avanços a pesar da forte oposição da oligarquia. O que preocupa à direita venezuelana e internacional não é só que o Estado assuma nas suas mãos ferramentas para comunicar. Preocupa-lhe que, cada vez mais, o povo ganhe poder de forma comunicativa. Quando já está em cima da mesa um projecto-lei para abrir caminho aos meios alternativos, populares e comunitários, a oposição reclama.

Por que protestam os representantes dos grandes grupos económicos e financeiros perante a vontade do governo de dar ao povo ferramentas mediáticas que lhe permita fazer ouvir a sua voz? É compreensível se pensarmos que foi longo o silêncio embrutecedor em que viviam os pobres nos bairros e nas localidades esquecidas do interior da Venezuela.

Hoje, ao mesmo tempo que se organizam, constroem projectos comunicativos de televisão, rádio, imprensa escrita e digital. Uma realidade tão distante daquela em que vivem europeus e norte-americanos – cujo modelo económico e político é seguido pela oposição venezuelana – deveria fazer-nos pensar sobre quem é que vive de verdade numa democracia mediática e sobre quem é que vive numa ditadura na qual não mais imprensa que aquela que transmite os interesses de uma minoria privilegiada.

A emisora Al Son del 23, localizada no bairro caraquenho 23 de Enero, é um dos exemplos de empoderamento de um sector popular historicamente comprometido com as ideias da revolução. Com todo o simbolismo que isso representa, a rádio foi construída num antigo quartel desde o qual a policía disparava contra os blocos de edifícios do bairro. Ali, onde centenas de activistas foram detidos e torturados, é transmitida a programação que dá voz aos que antes eram marginalizados. Informação, política, desporto e a cultura dominam a frequência hertziana que ocupam. O produto final faria inveja a muitas das principais emissoras europeias, preocupadas mais com os lucros do que com os conteúdos que emitem. Por exemplo, Aló 23 – que é um programa dirigido por Gustavo Rodriguez, um velho combatente guerrilheiro e prestigiado vizinho do bairro – é um importante espaço de análise política. Assim, as classes populares aproximam-se dos temas da actualidade política com uma orientação alternativa e desde as bases. O irmão de Victor Jara, a filha de Luís Carlos Prestes, entre outras e outros testemunhos históricos da rebeldia latino-americana, passaram por este importante meio auto-gestionado. Mas também reitores universitários e directores de institutos públicos passam pelo Aló 23. Assim, o conhecimento teórico dos intelectuais sai das academias para que seja socializado nos bairros populares.

Às vezes, a vontade de armar-se com ferramentas que lhes permita comunicar faz com que os povos utilizem a sua imaginação e criatividade. É o caso da rádio Favela. Inspirados pelo filme brasileiro com o mesmo nome, um colectivo do bairro El Valle decidiu montar colunas por todas as ruas. Rompendo com a necessidade de um emissor, os jovens construíram uma emissora artesanal cuja programação não se escuta nas casas com equipamentos de rádio mas, sim, nas ruas.

Mas para lá das emissoras de rádio e televisão, diferentes colectivos diversificam as formas de combate ao que chamam a guerra mediática. Para contrastar o que dizem os meios da direita, criam alternativas audiovisuais através da internet como El Arañero. O enchem as paredes e os muros do país de cartazes e murais. Por exemplo, o Comando Creativo é um colectivo de artistas que se expandiu por toda a Venezuela. A sua filosofia é levar as mensagens do processo bolivariano às paredes das cidades venezuelanas. Neste momento, há muitas instituições públicas que pedem o apoio deste grupo de artistas revolucionários para difundir os valores socialistas nos bairros urbanos. Assim, por exemplo, na cidade onde nasceu Ali Primera apareceu um enorme mural que recorda ao povo a história do cantor revolucionário venezuelano. Noutra ocasião, precisamente um dia depois da ratificação das sanções norte-americanas contra a Venezuela apareceram desenhos com Obama em várias paredes. Numa delas, o presidente dos Estados Unidos foi retratado com uma mala cheia de misseis sob a legenda “a diplomacia do império”. Marco Pérez, do Comando Creativo, contava que um dia organizaram uma oficina em Caracas e que visitantes de distintas cidades. Semanas depois, um dos participantes ligou-lhe a contar que havia conversado com os seus camaradas da fábrica onde trabalhava e que haviam decidido criar um núcleo do Comando Creativo. Todas as semanas, depois do trabalho, percorriam as ruas da cidade para dar-lhes voz. Neste momento, a fábrica em que trabalham tem um espaço para apoiar as actividades deste núcleo.

Noutros casos, é o apoio institucional que põe em marcha a comunicação popular. Um conhecido rapper, Truko, é um dos responsáveis pelo estúdio público de gravação que o Instituto Municipal de Juventude de Caracas oferece a todos aqueles que não têm um sítio para gravar. No mesmo edifício, há oficinas de serigrafia e promovem-se actividades para incorporar a juventude na participação democrática. Ou seja, que possam exercer uma cidadania que vá mais além de votar a cada quatro anos e que implique a transformação social e política da Venezuela através da construção de bases para uma nova forma de organização. Truko é parte de uma nova geração de rappers emergentes que entram dentro da nova estratégia comunicativa no país caribenho. As suas letras cantam o que os meios privados de comunicação historicamente silenciaram ocultando a maioria social. O hip hop, como toda a cultura underground das novas gerações venezuelanas comprometidas com a revolução, recorda as correntes do neo-realismo europeu. Através das expressão artística, transmite-se ao povo uma visão real da sociedade assim como dos valores para a transformar.

Contar objectivamente – e não de forma neutral – a complexidade da realidade e dos processos por que passa a Venezuela requer uma perspectiva que vá além dos âmbitos governamentais. Requer a participação em que os movimentos e as organizações sociais sejam protagonistas, tanto nas comunidades urbanas como nas rurais. E é esse um dos reptos que enfrenta a revolução bolivariana.

Liberdade selectiva

O Filipe Guerra já alertou aqui para o silenciamento quase total de um Encontro Nacional do PCP, em Loures, que juntou mais de 2.000 pessoas. Não é novidade, é certo, mas surge num momento curioso da televisão pública, que tem neste momento dois enviados especiais: um na Ucrânia, onde são entrevistados neo-nazis como lutadores pela liberdade, e outro em Cuba, onde, ontem mesmo, se falava, do controlo dos órgãos de informação pelo Estado.

Se é legítimo discutir a liberdade de imprensa em Cuba, creio que poderá sê-lo também em Portugal. Aqui, como é sabido, não é governo quem manda, como aliás não é o governo que manda no país. Mandam os donos do BES, da Sonae, da Jerónimo Martins e por aí fora que, directamente ou por associação, são os mesmos que controlam as administrações dos grupos donos dos media, que por sua vez são os mesmos que são escolhidos pelos governos para diversos gabinetes. Só o Diário de Notícias tem mais de dez jornalistas em comissão de serviço ao serviço do governo.

Carlos Daniel usou duas primeiras páginas do Granma para mostrar que é o governo que controla a informação. Cá, em Portugal, uma democracia cheia de orgulho, poderia mostrar ao Carlos Daniel todas as primeiras páginas de vários jornais em que as opiniões, projectos e alternativas dissonantes do caminho oficial dos partidos que têm levado Portugal à miséria, são diariamente escondidas dos portugueses.

Há dias, Augusto Santos Silva – o tal que considerava que era preciso malhar nos comunistas, quando era ministro de Sócrates -, também estava preocupado com a falta de pluralismo nos canais que transmitem em sinal aberto. Pluralismo porque parece que todos os comentadores são do PSD. Antes de o recluso 44 de Évora ter sido detido, estava tudo bem. Havia pluralismo porque havia PS e PSD e esses são os que importam para que tudo fique na mesma. A preocupação de Santos Silva não é com o pluralismo na TV. A preocupação de Santos Silva é só uma suposta ausência do seu partido. Mas pode ficar descansado o ex-ministro da propaganda do PS; a diferença entre o que dizem e fazem PS e PSD é tão enganadora como as cores do vestido que invadiu a web – é o mesmo, visto de prismas diferentes. Até porque o país está melhor do que há quatro anos, não está?

Neste mesmo fim-de-semana, uma vigília de 20 pessoas em frente ao EP de Évora teve honras de notícia em todos os canais.

No facebook surgiu entretanto um vídeo que assinala o quase meio minuto de atenção que o Encontro mereceu por parte da RTP, a TVI perdeu a cabeça e ultrapassou os 40 segundos e, na SIC, a iniciativa nunca aconteceu.

A quem interessar, estão aqui as propostas do PCP.