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Este lixo que nos asfixia

Andar pelas ruas é, nestes dias, um exercício de coragem. E não estou a falar do mau tempo primaveril que fez o favor de levar tudo e mais alguma coisa pelo ar. É do ar que se respira nas ruas mas nem é da poluição. É do lixo. Não o da Moody’s, que disse recentemente que já somos menos lixo do que éramos. É do outro lixo. A forma como nos tratam todos os dias, as conversas com amigos e menos amigos. Isto está bastante irrespirável e começa a dar cabo da virtude da paciência. A foto ao lado foi tirada no Porto durante a tarde. Uma pessoa a vasculhar um caixote do lixo, à procura de um bocadinho de qualquer coisa que lhe permita respirar melhor. Não há como andar na rua e falar com as pessoas. Pessoas mortais, que não elogiam o Dias Loureiro e para quem a democracia não é anacrónica. Pessoas para quem sobreviver é um desafio de todos os dias, mais ou menos escondido ou, neste caso, às claras. Ontem foi um dia complicado, foi. Mas nem foi pelo mau tempo.

O governo PSD-CDS, amigo dos reformados, pensionistas e afins publicou uma lei que aumentará as rendas de forma substancial às famílias que vivem em habitações sociais. O efeito poderia ser atenuado caso as autarquias pudessem interferir no processo e proceder a alterações mediante situações concretas, que é o que importa. É o concreto, não é o que está no papel, é a vida das pessoas. Haverá casos em que o aumento será de 13 euros, noutros será de 5, noutros será de 140. Pega-se no famoso excel e faz-se um cálculo. E lá somos nós outra vez tratados como lixo.

Ontem, fizemos uma distribuição a alertar para a nova lei num bairro social, não importa onde. Contactámos com pessoas que ficaram surpreendidas pelos cálculos, mas que confirmaram já ter sido notificadas para se deslocarem à empresa municipal que gere as habitações.

À porta de um dos prédios, uma senhora abriu caixa do correio, com a neta pela mão. “Deixa ver se tem alguma coisa… Não tem. Amanhã, o meu neto não vai à escola outra vez”. Olhei para a senhora porque notava-se que ela também queria falar:

– Ó filho, em minha casa sou eu, dois filhos e dois netos. Os meus filhos estão desempregados e já recebem só o mínimo, a minha filha está doente. Sem receber os 181 euros do rendimento mínimo, não tenho dinheiro para o passe. – E não terá para pagar o aumento da renda.

E o que é que se responde a estas palavras? Que vai ficar tudo bem, não é? Pois vai. Vem aí a privatização dos transportes públicos e este miúdo vai poder ir para a escola, não é? E as greves? Esses bandalhos que fazem greves contra as privatizações; fossem mas é trabalhar. E aquele gangue que se vê todos os dias no telejornal a dizer que está tudo melhor? Caramba, aquilo é que deve ser um mundo bom. Mas vai ficar tudo bem, porque temos de viver a trabalhar para sobreviver até morrer, «mesmo matando aquele que, morrendo, vive a trabalhar”.

É isto o nosso futuro, não é? A miséria como forma de vida, lado a lado com as fotos para os postais por sermos os melhores do mundo em tudo e mais alguma coisa. Não, não é. Chega destas inevitabilidades. Já não basta dar um murro na mesa e disparar para todos os lados, porque são todos iguais. Não são. Não somos. Se é para disparar, que seja na direcção certa. Metaforicamente, claro está. Ou então, não.