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À esquerda, as mulheres são mais bonitas

A mulher mais bonita é a que acredita mesmo (e di-lo com tanta força que não podia estar a mentir) que um mundo melhor é possível. As mulheres de esquerda são mais bonitas porque são mais humanas e conseguem sentir como suas as dores de parto da humanidade sofrida. As mulheres de esquerda sentem mais fundo, indignam-se mais vezes, gritam mais alto e desejam com mais força. As mulheres de esquerda cheiram a pólvora, beijam sabendo que só temos estes anos e entregam-se mais porque a não ser as proverbiais correntes, não têm nada a perder. As mulheres à esquerda são mais perigosas: não respondem aos aborrecidos ditames da conveniência conjugal nem à opressora liturgia do lar, lêem bons livros e vêem bons filmes de que nunca ouviste falar. Não são subalternas de nada, vão à luta, lideram os homens e riem-se do cumprimento de contractos. Gabriel García Márquez dizia que o amor tem mais quartos do que uma casa de putas. O coração das mulheres de esquerda não é um T0, onde só cabes tu e depois se fecha ao mundo como um ouriço-cacheiro. As mulheres de esquerda conseguem amar a humanidade inteira. O coração da mulher de esquerda é maior que o hotel Marriott e tem mais capacidade que o parque de campismo exterior da Festa do «Avante!».

As mulheres de esquerda não são senhoras nem usam casacos de peles: são edifícios elegantes que quando falam te ensinam coisas. São mais femininas que a ilusão do espelho e que a estética senil das revistas de moda: vestem uma t-shirt e uns calções e vão construir a festa, para se sujarem se for preciso. Voltam tisnadas de óleo e sujas de terra e ainda mais bonitas. As mulheres de esquerda são femininas porque o são. Mas de uma feminilidade diferente, da sua própria lavra.

As mulheres de esquerda são mais bonitas porque compreendem que também a beleza obedece às leis dialéticas que regem a história do mundo. A beleza feminina é dialética pura, embora alguns homens só se apercebam disso durante momentos fugazes. Os olhos das mulheres de esquerda são como os da Blimunda Sete-Luas e vêem sempre o que os homens são no fundo. E às vezes, o cabelo das mulheres de esquerda é como o dia está a ser.

As mulheres de esquerda são bonitas quando estão cansadas, porque trabalharam oito horas. São bonitas quando estão tristes, porque estão desempregadas. São bonitas quando, como dizia a Maria Velho da Costa, acordam pela manhã as bestas, os homens e as crianças adormecidas. E, sobretudo, as mulheres de esquerda amam melhor, porque sabem que o amor verdadeiro é só uma espécie invulgar de camaradagem.

Se a mulher já pode decidir, o Estado desistiu de proteger – os casos da IVG em Portugal

– 11 anos depois da publicação da Lei que finalmente alterou a criminalização da Interrupção Voluntária da Gravidez – apesar dos recuos que a direita retrógrada tentou forçar mas a luta derrotou – não servem apenas os relatórios numéricos da Direcção Geral de Saúde ou as suas análises quantitativas.

Se é certo que servem para provar cabalmente que o número de interrupções não só não tem vindo a aumentar, como o número de complicações pós-IVG tem vindo a diminuir muito significativamente, é também certo que a monitorização das políticas – coisa que inexiste em Portugal – compreende uma avaliação qualitativa. Isto é: como são tratadas as mulheres? Em que condições interrompem a gravidez? Que serviços são postos à sua disposição e qual é a sua avaliação desses serviços? Qual o papel dos profissionais? Que avaliação fazem os profissionais? Que avaliação fazem as mulheres?

Pois, aqui é que tudo começa a falhar e aquilo que deveria ser um avanço civilizacional e o respeito pelos direitos das mulheres muitas vezes é um pesadelo e continua a por em risco a saúde da mulher.

Dois exemplos, duas histórias de vida, duas experiências, uma a norte outra a sul:

A, descobre que está grávida. Solteira, com emprego precário, não tem condições para ter um filho. Consulta a página da DGS onde constam os estabelecimentos oficiais e os nomes dos médicos coordenadores e responsáveis pelos serviços. Ali consta a informação: centro de saúde. Aquele em que todos a conhecem. Telefona e pede para falar com a médica responsável de acordo com o site da DGS. A médica aposentou-se há 5 anos, não há coordenador e esse serviço já não está disponível porque os médicos são todos objectores de consciência.
– “O que faço?”
– “Tente no hospital”.

Liga para o hospital. “Só temos consultas às terças, agora só para a semana”. “Mas eu preciso de saber o tempo de gravidez por causa dos prazos.”. “Pois isso é um problema seu, quer marcar para a próxima terça-feira?”. “…Sim”.

Dez semanas, ao fim de dez semanas (e não 12 como sempre propôs o PCP), passa a ser ilegal.

Chega terça-feira, primeira consulta. Fica a saber-se o tempo de gravidez e supostamente a mulher tem direito a todas as informações previstas na legislação. Pois bem, a médica diz, você tem um curso superior, sabe ler, assine aqui em como foi informada. E tem que marcar uma consulta na psiquiatria.
Ela pergunta quando, a médica responde quando houver. Então e os prazos? Pois, quando houver. Chega a casa destroçada. Imediatamente lhe digo que a consulta é facultativa (poucos meses depois da revogação da consulta obrigatória imposta pela direita bafienta) e que deve ligar e marcar de imediato a interrupção por causa dos prazos. Insiste que a médica disse ser obrigatória. Insisto que deve pedir o nome da médica para fazer queixa à Ordem dos Médicos e ao hospital. E nos olhos dela.. desespero. Faço a chamada e marco a nova consulta para a interrupção. “Só às terças”. Pois, já sei. A primeira toma é no hospital. A segunda é em ambulatório. Em casa. Não assisti. Perguntei só no fim como estava. Destruída.

B., engravida. Quer ter filhos, não tem condições financeiras nem familiares. O pai culpa-a e diz que tem que interromper. Marcam a primeira consulta e são informados de tudo. Bem tratados. Ele diz-lhe que trate do assunto e vai embora a cantar. Ela fica sozinha a enfrentar uma gravidez desejada mas impossível.

Segunda consulta: junto das grávidas felizes. Primeira toma medicamentosa. Entra em pânico, não quer. Está ali só. São as enfermeiras que vêm em seu socorro. Que a acalmam. Que a ajudam e confortam. Várias horas depois toma o comprimido. Segunda toma dali a dois dias. Em casa. Não sabem se estará sozinha, acompanhada, nada.

Felizmente não está sozinha. Eu ligo à A. para saber como é. O que se sente. “Entras em trabalho de parto. Dói e perdes muito sangue. Nunca se deve estar sozinho. São cólicas horríveis durante horas. No fim, acabas por voltar ao normal devagarinho e a dor vai desaparecendo. Ficas exausta. Fisica e emocionalmente”.

B. perde demasiado sangue. Tem demasiadas dores. Não tem em casa nada que tenha sido recomendado no hospital (fraldas, pensos de maternidade, etc) além de brufen (????) e um antibiótico. Tudo é demasiado doloroso. Tudo é demasiado.

O dia passa e B. tem que ir trabalhar no dia seguinte. Não consegue. Mas ninguém passou nenhuma declaração ou «baixa» para que pudesse recuperar. Cabe-lhe só a si. Dias depois ainda está exausta e em baixo. Precisa de acompanhamento psicológico. Tem que o pagar com um salário que já não chega para o dia a dia.

Estas são duas histórias que se replicam, com diferentes matizes pelo país. Mulheres sozinhas deixadas a si mesmas.

Não, a segunda toma não pode ser em ambulatório. Se o for, tem que existir uma linha ou um profissional de saúde que possa acompanhar. Análises gratuitas imediatamente a seguir e acompanhamento psicológico e de planeamento familiar regular e reiterado.

Não, a mulher não pode ser mandada para casa sem os cuidados médicos, medicamentosos e outros. Não, a mulher não pode ter uma ivg sozinha. Não, um médico, ainda que objector de consciência não pode tecer comentários ou criticar e muito menos dizer «tem formação superior, assine». Não, um médico não pode protelar (nem o SNS) impedindo o cumprimento dos prazos.

As mulheres, a pulso e com muita, muita, muita luta conquistaram um direito fundamental, um direito humano. O Estado tem que o garantir. A todo o custo. Mude-se, pois a Portaria (não a lei) determinando claramente as obrigações do SNS perante a mulher e penalizações para os profissionais que a não cumpram.

São direitos fundamentais. E os direitos fundamentais não se adiam, não se contornam, não se evitam. Cumprem-se e fazem-se cumprir. E é mais do que tempo de respeitar as mulheres que tomam esta decisão, em toda a sua complexidade, em todos os seus direitos. Já.

A revolução tem voz de mulher

Avessas à ideia de que a guerra é coisa de homens, combateram durante mais de meio século nas selvas e montanhas da Colômbia. São milhares, representam quase metade dos integrantes da mais importante guerrilha latino-americana e lutam pela paz e pela justiça social. As combatentes das FARC-EP levam a revolução na voz, são feministas e não têm dúvidas. Não há poder que se possa tomar sem a participação das mulheres.

Guerrilheiras farianas

São três da tarde. Dentro do jeep resiste-se à inclemência do calor e aos sobressaltos da estrada de terra batida. Ao longe, entre as montanhas de Santa Marta e a cordilheira andina, vê-se o primeiro de um número infindável de postos de controlo do exército. Só acabam um quilómetro antes do acampamento das FARC. Centenas de soldados depois e com gincana à mistura, surge a primeira mulher armada e não pertence às forças armadas colombianas. É guerrilheira.

Atrás do sorriso da combatente fariana, há uma autêntica cidade levantada à força dos braços de quem constrói a luta de todos os dias. É Tatu, outra «camarada», como se tratam todos aqui, que fica responsável por mostrar o acampamento. Caminhando pelas ruas dos que projectam o futuro de um mundo melhor, não se fica indiferente ao formigueiro humano que faz palpitar este pedaço de floresta. E também à quantidade de mulheres.

Sentada, ao lado da kalashnikov, no cambuche onde dorme todas as noites, Tatu conta ao Sermos Galiza por que decidiu entrar muito jovem nas FARC: «Eu via a vida das mulheres à minha volta e sentia que não queria aquilo. Não me queria sentir obrigada a ter um marido, a ter filhos, a levar uma vida miserável em que a minha opinião não contasse para nada». Para a guerrilheira de 35 anos as FARC eram um espaço de liberdade. «Eu via-as poderosas, combativas e conscientes do que queriam. A minha entrada foi uma questão de tempo», explica.

Também Maria quer que se saiba por que entrou na organização guerrilheira. Enquanto limpa uma pequena casa, quase em ruínas, a única existente no acampamento, a combatente que leva uma t-shirt desportiva do Junior Barranquilla conta a sua história. Explica que entrou nas FARC há 17 anos e que «não tinha outra opção». A miséria e a pobreza traçaram o caminho: «a minha família não tinha condições económicas e decidi lutar por um país com oportunidades para todos». Maria espera que o filho pequeno não tenha de viver o mesmo e mostra-se expectante com o processo de paz. Gostava de poder estudar comunicação social e desenho gráfico mas não deixa lugar para dúvidas: «Naturalmente, continuarei a participar na luta política porque muda a forma mas não muda o objectivo de construir uma Colômbia justa, socialista e soberana».

«Olhe, jornalista, estou a ler este livro. Fixe o nome: Últimas notícias da guerra. É de um colega seu, Jorge Enrique Botero», quem o diz é um homem vestido à civil que prefere não ser identificado. Soubera que alguém andava a interrogar por que aderiam as mulheres às FARC e meteu conversa: «Esta é a história verídica de uma guerrilheira que fugiu de casa ainda adolescente. A mãe era dona de um bordel numa pequena aldeia e o padrasto tentara violá-la várias vezes. Uma noite, esperou-o na cama e esfaqueou-lhe a barriga. Depois escapou-se e entrou nas FARC». Com ar sério, deu a sua opinião de que para muitas mulheres a entrada na guerrilha não é uma opção. «É talvez a única via para fugir de uma vida miserável num bordel ou a apanhar pancada do marido. E aqui sentem que lutam para que todas as mulheres não tenham de fazer essa escolha. O mundo tem de saber isto», rematou.

«Tente violá-la»

Os oligarcas mandam, os jornalistas apontam e os soldados disparam. Durante anos, o conflito que se travou nas montanhas despertou a guerra mediática para forjar uma opinião pública que sustentasse a ofensiva brutal que se desatou contra este grupo armado sobretudo na última década e meia. A mais importante das ideias veiculadas sobre as FARC foi a de que se tratava de um grupo de narcotraficantes e isso permitiu isolar a guerrilha internacionalmente. Mas outra das informações frequentemente veiculadas em reportagens acusava-os de tratar brutalmente as mulheres. Desde supostos haréns de guerrilheiras que tinham de fazer favores sexuais a comandantes, a violações e abortos forçados.

Inty Maleywa é provavelmente uma das artistas mais conhecidas das FARC. Os seus traços ilustram muitos dos desenhos que retratam o imaginário guerrilheiro e a sensibilidade das suas mãos já encheram exposições em vários pontos do país. Ao contrário da maioria das mulheres e homens, camponeses, que se tornaram guerrilheiros pela sua condição de miséria, explica que estudou na universidade e que depois decidiu pegar nas armas.

Questionada sobre os haréns e as violações, o rosto de Inty fecha-se e a voz endurece. Fixa os olhos e conta a história de um jornalista que há anos lhe fez a mesma pergunta. «Está a ver aquela guerrilheira ali ao fundo com uma kalashnikov? Vá e tente violá-la», respondeu-lhe deixando-o calado. É que para a artista plástica não faz sentido algum acreditar em tal mentira. «Mas se fossemos violadas e maltratadas alguma vez nos dariam armas para as mãos? É um absurdo. A violação nas FARC está prevista no regulamento interno com o fuzilamento para quem a cometer.»

Não sabe se são os homens no poder ou se são os homens nas redacções, ou ambos, que não conseguem aceitar que milhares de mulheres colombianas tenham decidido entregar, livremente, a sua vida à luta por um mundo diferente. É que aqui, explica, não há diferenças entre elas e eles. Anedoticamente, lembra quando a mãe foi a um acampamento visitá-la pela primeira vez. «Chegou e abriu a minha mochila. Queria saber se era verdade que nós estávamos obrigadas a levar a roupa dos comandantes», ri-se.

8 de Março

Meia centena de guerrilheiras vestiu o melhor dos sorrisos para desfilar de fuzil ao ombro. São mulheres que marcham sob a orientação de três videógrafas. O objectivo é lançarem uma mensagem à Colômbia e ao mundo no Dia Internacional da Mulher. Enganam-se várias vezes e riem-se muito. A mais velha das combatentes olha para a câmara e explica a importância da participação das mulheres na vida política e social do país e a urgência de se somarem à luta pela paz com justiça social. Em coro, terminam o vídeo com um grito de punho cerrado: «Que vivam as mulheres!»

Fechada num automóvel que acaba de chegar ao acampamento, Virgínia tenta fugir do ruído para gravar. «É a minha voz que vai aparecer no vídeo», explica enquanto limpa o suor da testa. A combatente de 26 anos revela que é de Barranquilla e que estudou filosofia na universidade. Durante vários anos deu aulas como professora em diferentes institutos. Agora, é uma das locutoras da rádio clandestina Cadena Radial Bolivariana. «Comecei a fazer militância estudantil e ganhei consciência política para os problemas do país. Um dia descobriram que colaborava com as FARC e tive de vir para as montanhas», conta.

Para as FARC, o 8 de Março não é uma data qualquer. É uma das mais importantes do calendário. Todos os anos, mesmo nos tempos mais duros, celebram a data e este não é excepção. Enquanto dezenas de guerrilheiros ensaiam um espectáculo de cumbia, outros preparam uma obra de teatro que retrata a opressão que vivem as mulheres.

A meio ano da data em que se prevê a entrega total das armas à ONU, há guerrilheiras que não tiveram outra opção senão pegar em armas no princípio da adolescência. Na Colômbia, sete de cada dez mulheres sofreram ou vão sofrer algum tipo de agressão na sua vida. Segundo a Defensoria del Pueblo, em cada dia, 38 são violadas. Só nos últimos cinco anos, 8 mil mulheres foram assassinadas revela o Centro de Referencia Nacional de Violencia. São números assustadores. A transição para a vida civil pode representar um duro embate para estas guerrilheiras que cresceram longe da realidade em que qualquer mulher pode ser vítima de assassinato, violação e de agressão.

Até para homens guerrilheiros como Yesid que não serão alvo dessa barbárie. No seu cambuche, escreve um texto sobre a luta feminista e explica que é para expor num painel que vai estar à disposição para todos os materiais que estejam relacionados com o tema. «Também vou participar na peça de teatro, vou fazer de mulher», revela. Questionado sobre se se sente cómodo para assumir o papel de mulher, o jovem guerrilheiro responde com um olhar interrogativo: «Como assim? Por que não havia de me sentir cómodo?».

[reportagem publicada no jornal Sermos Galiza]

A Alvorada das mulheres (parte II) #centenário19172017

Depois do primeiro texto, que pode ser lido aqui, continuo o breve e modesto contributo sobre a reflexão e luta das mulheres no quadro da revolução que abalou o mundo. O caminho e os seus construtores que levaram a uma das mais belas transformações na vida das mulheres no início do século XX.

I – A reflexão comunista e a situação da mulher antes da Revolução (2ª parte)

A situação da classe trabalhadora na Inglaterra, de Engels, escrito em 1844, aborda, pela primeira vez, o tema da introdução da máquina e a substituição de homens trabalhadores por mulheres e crianças como um complemento salarial.

A reflexão e análise de Engels expuseram as condições a que as mulheres eram submetidas: longas horas de posições ergonomicamente desadequadas, trabalhadoras lactantes cujo leite das mamas caía sobre as máquinas, as diversas doenças profissionais desenvolvidas, as multas aplicadas caso parassem para descansar. Ao mesmo tempo coloca pela primeira vez a contradição da produção capitalista com a estabilidade familiar/pessoal, introduzindo a questão dos efeitos da industrialização na família.

“Se  a   supremacia da   mulher   sobre   o  homem,  inevitavelmente   provocada   pelo  sistema   fabril,  é inumana ,  a   do  homem   sobre   a   mulher,  tal  como  existia   antes,  também   o era.”

Friedrich Engels, A situação da classe  trabalhadora na Inglaterra. Estão lançadas as bases para, partindo da uma «divisão natural» do trabalho em que às mulheres cabia a casa, questionar o futuro dessa divisão social.

Ainda nos seus primeiríssimos artigos na Gazeta Renana, em 1842, Marx assumiu a defesa da mulher, particularmente quanto ao direito do divórcio, rejeitando a ideia que que o casamento devia deveria ser indissolúvel.

N’A Ideologia Alemã (1846), Marx e Engels afirmam que “Esta divisão do trabalho, que implica todas estas contradições e repousa, por sua vez, sobre a divisão natural do trabalho na família e sobre a separação da sociedade em famílias isoladas e opostas umas às outras, esta divisão do trabalho implica, ao mesmo tempo, a repartição do trabalho e de seus produtos, distribuição desigual, na verdade, tanto quanto à quantidade como quanto à qualidade; onde a mulher e os filhos são os escravos do homem. A escravidão certamente muito rudimentar e latente na família é a primeira propriedade que, aliás, corresponde já plenamente aqui à definição dos economistas modernos segundo a qual ela é a livre disposição da força de trabalho de outro”.

Engels afirma que para que a emancipação da mulher seja uma realidade esta necessita de se incorporar no trabalho produtivo em larga escala social e que o trabalho doméstico não a ocupe além de uma medida insignificante. Em 1891, o Programa de Erfurt estabelece explicitamente que o Partido social-democrata alemão deveria lutar “por direitos e deveres iguais de todos, sem exceção de sexo ou de raça” e pelo “sufrágio universal igual, direto e secreto para todos os membros do império com mais de vinte anos, sem distinção de sexo, em todas as eleições” e defendia ainda a “abolição de todas as leis que, do ponto de vista do direito (…), colocam a mulher em estado de inferioridade em relação ao homem”.

Não obstante, as clivagens que existiam entre o pensamento comunista e o pensamento social-democrata, onde estavam integrados os comunistas alemães, aprofundavam-se e a análise e reflexão sobre o estatuto e papel social da mulher adensava-se.

Não é o trabalho feminino em si que rebaixa os salários ao entrar em competição com o trabalho masculino, mas a exploração do trabalho feminino pelos capitalistas que dele se apropriam

“Não é o trabalho feminino em si que rebaixa os salários ao entrar em competição com o trabalho masculino, mas a exploração do trabalho feminino pelos capitalistas que dele se apropriam” (Clara Zetkin, no seu discurso no Congresso de Fundação da II Internacional, 1889)

Apesar das resoluções aprovadas nos seus congressos, a social-democracia não colocou no centro de sua ação a luta pelos direitos sociais e políticos das mulheres e Clara Zetkin não deixou de denunciar o muito que havia por fazer:

“A II Internacional tolerou que as organizações inglesas afiliadas lutassem durante anos pela introdução de um direito de voto feminino restrito (…), permitiu também que o Partido social-democrata belga e, mais tarde, o austríaco se negassem a incluir, nas grandes lutas pelo direito ao voto, a reivindicação do sufrágio universal feminino (…), que o Partido dos socialistas unificados da França se contentasse com platónicas propostas parlamentares para a introdução do voto da mulher (…). A II Internacional nunca criou um órgão que promovesse em escala internacional a realização dos princípios e reivindicações a favor das mulheres. A formação de uma organização internacional das mulheres proletárias e socialistas para uma ação unitária e decidida nasceu à margem de sua organização, de forma autónoma”.

A par com Rosa de Luxemburgo, organiza o Partido Comunista e é eleita membro do Comité Executivo da Internacional Comunista e presidente do Socorro Vermelho, organização mundial de solidariedade às vítimas do fascismo.

Do ponto de vista teórico, Zetkin é fundamental na análise da situação da mulher, quer na Alemanha quer na Rússia, para onde é forçada a exilar-se. Partindo das concepções de Engels e Bebel, explora as mudanças do papel das mulheres com expansão e desenvolvimento da produção.  A  transição  para   a  produção mecânica faz com que a actividade doméstica vá perdendo importância e significado, criando novas contradições entre a necessidade de participação na vida pública e as múltiplas impossibilidades legais existentes.

Na Rússia, os bolcheviques partiam dos preceitos do socialismo científico, preocupando-se naturalmente com a ligação entre o trabalho assalariado e o papel deste na libertação da mulher uma vez que a Revolução viria a ditar a transformação de uma sociedade predominantemente camponesa para uma sociedade industrial. Marx,  Engels  e   Bebel analisaram as contradições capitalistas no seio da sociedade industrializada, já Clara Zetkin observou e analisou essas mesmas contradições no quadro da conversão do arquétipo da família camponesa em proletária.

Chegava, pois, o momento de olhar a sociedade resultante do imperialismo czarista, na consciência de que a lei, de per si, não seria condição de emancipação ou libertação, mas antes um instrumento de eliminação das concepções e directrizes antiquadas que regulavam as relações sociais, desde logo com um decreto inovador e progressista, até hoje não conseguido em muitas  sociedades ocidentais:  a substituição do casamento religioso pelo civil e o direito ao divórcio a pedido de qualquer um dos cônjuges. Um Código do Casamento, da Família e da Tutela é confirmado pelo Comité Executivo Central do Soviete em 1918, estabelecendo uma legislação baseada na igualdade entre mulheres e homens e na liberdade individual das relações familiares.

continua

Nem uma menos

A revolta invadiu o bairro Bosque Calderón, uma das zonas mais pobres de Bogotá, onde vivia Yuliana Samboní. Esta menina colombiana de sete anos foi raptada por um abastado arquitecto. Depois, Rafael Uribe Noguera torturou-a, violou-a e matou-a. Há quatro anos, também na capital colombiana, Rosa Elvira Cely havia sido brutalmente violada num parque por dois homens. Morreu quatro dias depois nas urgências do hospital com os órgãos internos destruídos pelos ramos de árvore que usaram para a violar.

«Esta ciudad es la propriedad del Señor Matanza» cantavam os Mano Negra nos anos mais duros da guerra que regou de sangue as montanhas e cidades da Colômbia. Desde que em 1949 a oligarquia decidiu assassinar o candidato presidencial Jorge Eliecer Gaitán, os trabalhadores e o povo levantaram-se em armas. Primeiro como vingança, depois como forma de resistência. Desse processo nasceram as diferentes guerrilhas que deram voz aos condenados daquela terra.

Hoje, os clichês e preconceitos procuram dar a ideia de que as mulheres e os homens que optaram pela violência política para transformar o esgoto em que vivem são terroristas. A ignorância pode muito mas não pode apagar a história. Os soldados colombianos que em 1928 dispararam sobre uma manifestação de 25 mil trabalhadores que se recusaram a cortar bananas para a United Fruit Company cumpriram a mesma função que os militares de hoje. Nesse dia, foram assassinados quase dois mil grevistas.

Essa violência que se estende até aos nossos dias atinge sobretudo a classe trabalhadora. Quase um século depois do Massacre das Bananeiras, a Colômbia continua a ser o país onde mais sindicalistas são assassinados todos os anos. Mas a barbárie atinge de forma implacável os grupos mais discriminados da população colombiana. As mulheres, os negros e os indígenas são as primeiras vítimas de uma guerra que suja de sangue as mãos da oligarquia e do imperialismo.

O livro «Últimas notícias de la guerra», do jornalista Jorge Enrique Botero, destapa a vida de muitas das mulheres que optaram por ingressar nas FARC. Solangie, uma destemida guerrilheira que foi uma das vozes da emissora clandestina Cadena Radial Bolivariana, fugiu de casa ainda adolescente. A mãe era dona de um bordel numa aldeia no meio da selva e o padrasto tentara violá-la várias vezes. Uma noite, esperou-o na cama e esfaqueou-o. Depois de desenhar mapas para a guerrilha e de fazer parte da rede de vigilância, as FARC acederam aos sucessivos pedidos de Solangie.

Foi clara ao explicar que para muitas mulheres as FARC não são uma opção. São a única via para fugir de uma vida miserável num bordel ou a apanhar pancada do marido. Hoje, quase metade daquela organização guerrilheira é composta por mulheres comunistas que lutam por uma Colômbia onde não haja lugar para o capitalismo e para a violência contra as colombianas. É uma causa que une camponeses, negros e indígenas, entre mulheres e homens, pelo fim da opressão que é responsável também por todo o tipo de discriminações e violências.

O rapto, violação e assassinato de Yuliana Samboní é o retrato da impunidade com que as diferentes discriminações e violências se abatem sobre o povo colombiano. Quando Rafael Uribe Noguera abandonou o seu bairro rico e cómodo para violar uma menina de um bairro miserável de Bogotá repetiu os passos dos generais que ordenavam sequestrar desempregados, toxicodependentes e sem-abrigo para depois de os assassinar vesti-los de guerrilheiros e apresentá-los como troféus de guerra.

Resistência também é nome de mulher

A histórica luta das mulheres trabalhadoras pelos seus direitos teve episódios que não se podem apagar. Um deles é o do incêndio, em 1857, na fábrica de camisas Triangle, em Nova Iorque, em que centenas de operárias, sequestradas pelo patrão, acabaram carbonizadas. Em Portugal, o exemplo da tragédia que se abateu, em 1954, sobre Baleizão com o assassinato da assalariada rural Catarina Eufémia durante protestos por melhores condições de trabalho. A também comunista estava grávida e com um filho ao colo quando foi abatida pela GNR.

Mas o combate abnegado pela reivindicação mais do que justa de direitos iguais não foi palco apenas de tragédias. O sangue das mártires que caíram nesta luta regou a sementeira de conquistas e significou importantes avanços. O Dia Internacional da Mulher foi conquistado sob proposta da comunista alemã Clara Zetkin que o propôs na II Conferência da Internacional Socialista, em 1910, no contexto da luta pelo direito ao voto, à redução do horário de trabalho e ao aumento de salários. A proposta foi aprovada por unanimidade e, em 1911, o Dia Internacional da Mulher Trabalhadora foi declarado com manifestações em todo o globo.

Ao longo do século XX, sucederam-se os avanços em matéria de direitos capitaneados, fundamentalmente, pelos países socialistas. Depois da II Guerra Mundial, os trabalhadores, e também as mulheres, conquistaram direitos com a libertação da Europa. A vitória sobre o nazi-fascismo teve nas mulheres soviéticas um importante contributo. As diferentes lutas de libertação nacional e social abriram caminho às mulheres mas as mulheres também abriram caminho às lutas de libertação nacional e social. Fosse em Cuba, no Vietname ou no Burkina Faso, as trabalhadoras desses países conquistaram importantes avanços.

Mas falar hoje das lutas pela emancipação e igualdade é também falar dos retrocessos e dos perigos. Quando nos anos 70 o imperialismo lançou uma campanha para desacreditar o governo progressista do Afeganistão e financiou os talibãs o objectivo era arrancar aquele país da esfera dos países socialistas e devolve-lo ao medievalismo religioso. Sem grandes reservas, muitas forças políticas que, então, se diziam e dizem de esquerda apoiaram o embrião da al-Qaeda e do Estado Islâmico. Se hoje as mulheres não podem andar de mini-saia, não podem trabalhar sem autorização do marido, não podem conduzir ou são obrigadas a andar de burka a estas forças ditas de esquerda se deve. Quando condenaram o apoio militar soviético pedido pelo governo afegão para evitar a barbárie assinaram a sentença de morte da democracia nesse país. A história repetiu-se também na Líbia e também na Síria.

É, pois, importante denunciar aqueles que à boleia de supostas primaveras democráticas abriram caminho à barbárie no Médio Oriente. As mulheres que hoje estão condenadas à escuridão mais absoluta ou à fuga desesperada à guerra vivem infinitamente pior. Reclusas da estratégia imperialista ou refugiadas à mercê do tráfico, da prostituição e da violência, as mulheres árabes não têm outra opção que a de resistir e nós não devíamos ter outra opção que a de as apoiarmos. Não é estranho, pois, que nas fileiras da resistência curda as mulheres assumam a dianteira da luta. Elas sabem que mais do que ninguém têm tudo a perder.

Portas, o macho latino

A Constituição Política de 1933 estabelece a igualdade dos cidadãos perante a lei, “salvas, quanto à mulher, as diferenças resultantes da sua natureza e do bem da família” (art.º 5º).

Em 1971, o artigo é revisto e as diferenças na igualdade da mulher passam a ser apenas as resultantes da «sua natureza». Natureza e família, factores biológicos e ideológicos, servem de fundamento para o reconhecimento de direitos e estabelecimento de uma estranha igualdade, bem como para a definição política do estatuto social e jurídico da mulher.

Salazar estabelecia ainda a “necessária” distinção entre a mulher solteira e a mulher casada, afirmando que à mulher portuguesa lhe competiam por natureza as funções familiares sendo a família “a razão mais profunda de viver”.

Sobre a sua situação laboral, no Estatuto do Trabalho Nacional, definido pelo Decreto-lei  n.º 23:048, de 23 de Setembro, a regulação do trabalho das mulheres estava dependente das «exigências da moral, da defesa física, da maternidade, da vida doméstica, da educação e do bem social». (art.º 31º).

Paulo Portas afirmou, a 13 de Setembro de 2015: «As mulheres sabem que têm de organizar a casa e pagar as contas a dias certos, pensar nos mais velhos e cuidar dos mais novos. Foram os portugueses que conseguiram, com os seus sacrifícios, vencer a crise e quero fazer uma homenagem especial às mulheres que aguentaram os anos de chumbo da recessão da herança do PS e procuraram conseguir que os filhos tivessem um futuro melhor. São elas credoras dos principais objetivos da política de apoio à família desta coligação».


As semelhanças são tão óbvias que me pouparei o esforço de as apontar e sublinhar. Não deixarei, contudo, de dizer que em nada me surpreende esta semelhança e esta concepção sobre o papel da mulher. Aliás, as políticas da «igualdade» têm traduzido na perfeição esta ideologia: fomento do trabalho a tempo parcial, redução dos apoios à maternidade (quer na lei laboral quer nas políticas sociais), destruição da rede pública de equipamentos de apoio à família (equipamentos só para quem pode pagar), desigualdade salarial, fomento da precariedade, etc. E a disseminação constante e rasteira dos «valores familiares» com o ataque à lei da interrupção voluntária da gravidez, com a contínua manutenção das condições objectivas que fazem com que as mulheres tenham, por dia, mais 3 horas de trabalho não pago (com a responsabilização das tarefas familiares) e com este discurso de que é a sua missão. «Porque elas é que sabem».

Portanto, quando ouvir uma qualquer votante na coligação a ousar dizer que defende as mulheres e os seus direitos, relembrar-lhe-ei estas palavras e estas semelhanças.

E não deixarei de citar alguns resultados sobre a política de apoio à família da coligação PSD/CDS-PP:

– Em 2010, eram 1 milhão e 845 mil os beneficiários de abono de família. Em 2011, à conta da entrada em vigor do Decreto-Lei 70/2010, da autoria do PS, esse número passou para 1 milhão e 400 mil. Em 2014, 1 milhão e 283 mil. O que não deixa de ser curioso, dado o empobrecimento generalizado das famílias.
– Já quando ao subsídio de parentalidade, em 2011 eram 178.900 os beneficiários. Em 2014 são 151. 152 com uma prestação mensal inferior porque deixaram de entrar no cálculo 2 meses (em vez de 14 passam a 12, embora as trabalhadoras e os trabalhadores descontem.. sobre 14).
– O complemento solidário para idosos, em 2011 era 248.791 beneficiários. Em 2014 são 212.633. E parece que o número de idosos tem vindo a aumentar.
– O rendimento social de inserção, esse, em 2011 contava com 173. 028 famílias. Em 2014 eram 139.557, com uma prestação média mensal por família de €215,37 (em 2011, o valor era de €242,01).

Portas, o macho latino, já diz ao que vem quanto à igualdade. Falta saber o que dirão as pessoas sobre isto.