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Mas o fascismo não faz mal ao béu-béu

O fascismo não entra pela sala adentro com certidão do notário e uma suástica na testa a apresentar-se «Nazi Fascismo, muito prazer».

O nazi-fascismo não acontece quando as SA se lembram de vir para a rua de bota cardada e corrente na mão. É preciso uma legião de pessoas que não se interessem por política e que, por isso, não queiram saber se o super-herói justiceiro é anti-semita ou neonazi. A ideologia é uma sensaboria para os beatos do homem-forte porque o que interessa é que ele faz e acontece: pula escorreito as alpondras da lei e da política e faz, pelas próprias mãos, sem precisar de burocracias nem direitos nem de outras dilações maçadoras, a justiça da multidão.

Quer-se, portanto, máxima publicidade de cada auto-de-fé. Para gáudio da turba dos devotos, não nazis, mas pessoas assustadoramente normais: eles são o nosso primo, a nossa colega de trabalho e aquele tio que não gosta de política mas que gosta de ver o cigano que bateu num cãozinho a levar na tromba…. ou pelo menos alguém disse que bateu: se bateu ou não bateu mesmo é só outra sensaboria.

O fascismo precisa de uma multidão que não questione, que venere o super-herói justiceiro e lhe entregue, inteira e incondicionalmente, a sua fé. O devoto do fascismo nunca se questionará por que razão o alvo é sempre o acampamento do cigano, a barraca do miserável ou o quintal do desempregado, mas nunca o aviário do capitalista nem a ganadaria do latifundiário.

O devoto não se importa que o IRA tenha dito ao Observador, sem ironia daquele nem manipulação deste, que sequestram animais e pessoas. Mesmo que isso seja verdade, o devoto quer é que o béu-béu seja salvo dos maus da fita. O devoto não está preocupado com a possibilidade de o IRA estar errado e as suas vítimas serem inocentes: acha bem que se faça a justiça pelas próprias mãos, desde que seja contra os outros. Para o devoto do fascismo, podia haver um IRA privado para bater em quem não faz pisca, outro IRA para ameaçar quem maltrata os idosos, outro IRA para a delação dos pais que batem nos filhos e, porque não, outro IRA que divulgue na internet as fotografias dos criminosos. Assim, em geral.

A milícia de vigilantes é simultaneamente advogado, procurador, polícia e juiz. O seu poder não decorre do povo nem da democracia, mas do troll anónimo e do Facebook. E assim se atiram foram três mil anos de progresso civilizacional e se regressa por causa do béu-béu ao olho por olho, dente por dente.

Não se trata de absolutizar o cumprimento da lei: situações e momentos históricos há em que as leis injustas devem ser ignoradas, mas apenas para que novas leis, mais justas, possam existir. Mas nem o PAN nem o seu braço armado, o IRA, se orientam por princípios racionais de justiça, mas, única e exclusivamente, pela falácia do permanente apelo à emoção,argumentum ad misericordiam, ad nauseam,já agora.

Porque o devoto do fascismo é, por natureza, um náufrago político, agarra-se à primeira tábua que lhe prometer a salvação. Podem-lhe depois vir dizer à vontade que o santo é nazi: o devoto negará tudo. Podem-lhe mostrar fotografias do santo vestido de nazi, a fazer a saudação nazi, com uma t-shirt nazi rodeado de nazis, que ele dirá que é montagem. Podem-lhe mostrar recibos adulterados, confissões de violência física, provas de relações com traficantes de droga… Tudo será em vão. O devoto acusará sempre qualquer conspiração de lobbies tauromáquicos, ocultos, cabalísticos ou comunistas. O fenómeno é religioso.

O que vamos fazer hoje é um sequestro de um animal. Se chegarmos lá e o dono tiver dado sumiço ao animal, poderemos fazer um sequestro do dono até ele nos contar onde está o animal. Não somos a PSP, não somos o SEPNA [Serviço de Proteção da Natureza e do Ambiente], não somos a GNR nem a Câmara Municipal de Lisboa — as nossas ações justificam os fins que pretendemos: o bem-estar animal.

Declarações do IRA ao Observador (1 de Novembro de 2017)

E mesmo que, afinal de contas, o justiceiro seja mesmo fascista o que interessa ao devoto é só isto: o fascismo faz mal ao béu-béu?

A causa do bem-estar animal, a verdadeira, não precisa tanto de acções espalhafatosas de acção-directa e golpes de luzes mediáticos. Foi, por exemplo, por iniciativa do PCP, arguido contumaz de indiferença para com estas preocupações, que acabaram os abates de animais em canis. Mas pôr fim ao abate de dezenas de milhares de animais é, para os beatos urbanitas que adoram o IRA como adoram um bom bife, outra sensaboria.

Há alguns anos, escrevi aqui sobre a gestação do PAN nos círculos mais obscurantistas da extrema-direita portuguesa. Passados alguns anos, confirma-se que não foi apenas o seu fundador que perfilhou ideais nazis. O PAN convive bem com o fascismo, com o racismo e com a criminalidade dos neonazis porque o fascismo convive bem com o PAN. Nestes tempos de desumanidade, emoções rápidas, desinformação generalizada e confusão ideológica, é mais fácil simpatizar com um cão do que com um Homem, porque sentir pena é mais fácil do que sentir solidariedade e a emoção é sempre mais rápida do que a razão.

Alerta antifascista… e na primeira linha o partido comunista!

Os patrões condenam, os jornais escondem, os fascistas atacam. Um grupo de neonazis atacou, esta tarde, pelo menos três pessoas, entre as quais uma que saía do comício da CDU que encheu, esta tarde, o  Coliseu dos Recreios. Quantas páginas dedicará à versão das vítimas a próxima edição do Expresso?

Foi assim durante toda a tarde: a pretexto de uma manifestação contra a «islamização», capangas fascistas percorreram impunemente as ruas de Lisboa, provocando negros, comunistas e homossexuais.

Mais, na verdade, foi sempre assim: os cabeças-rapadas só agridem e fogem porque os donos da comunicação social estão mais interessados em ver as traseiras dos autocarros a caminho de um jogo que ouvir as vozes que lutam por um país mais justo. Da mesma forma que os fascistas sempre foram a vanguarda do capital, os comunistas continuarão a ser a vanguarda dos trabalhadores.

Nenhuma rua para o fascismo, nenhum voto neutro.