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O eurocentrismo de Duarte Pacheco

Não, este não é só um texto sobre a Venezuela. Esta é uma reflexão sobre declarações proferidas por Duarte Pacheco, deputado do PSD, no Esquerda-Direita da SIC Notícias, sobre a legitimidade da ONU e da UE. Duarte Pacheco não é só mais um deputado, é também secretário da Mesa da Assembleia da República. A desvalorização do papel da ONU é um padrão que tem vindo a ganhar adeptos entre os representantes dos Estados mais reacionários e unilateralistas, como Trump nos EUA e Bolsonaro no Brasil.

Pacheco puxa dos galões e compara a ditadura fascista que vigorou em Portugal, durante 48 anos, com o momento que se vive na Venezuela. Ora, em Portugal, em 48 anos, houve sete eleições, todas viciadas, todas sem qualquer acompanhamento internacional. Em todas ganhou o fascismo. Na Venezuela, desde que Chavez subiu ao poder, por via eleitoral, em 1999, houve mais de 20 atos eleitorais e referendários; nuns ganhou o chavismo, noutros não, como foi o caso do referendo constitucional de 2007, que Chavez perdeu. Seguidamente, num outro referendo sobre a continuidade de Chavez como presidente, este ganhou. Desta vez, Jimmy Carter, ex-presidente dos EUA, e António Guterres, atual presidente da AG da ONU, foram observadores internacionais e atestaram a validade do ato. Nas eleições para a Assembleia Nacional, Maduro perdeu e foi criada uma Assembleia Constitucional, que era, de resto, uma exigência da oposição. Recorde-se que foi na Venezuela, país governado de forma ditatorial, segundo Duarte Pacheco, que a oposição pôde realizar o seu próprio referendo, sem qualquer acompanhamento internacional, e, no fim, queimar os votos, afirmando que 98% dos votantes decidiu pela destituição de Maduro. Aqui ao lado, em Espanha, há presos políticos por terem feito o mesmo na Catalunha. Um referendo. Negar tudo isto é, na melhor das hipóteses, ignorância. Na pior, manipulação descarada da opinião pública e alinhamento com a opinião publicada.

Pinochet vs Maduro

“Pinochet não pôs a economia tão mal como Maduro”. Esta é, talvez, uma afirmação tão nojenta como sem sentido. A economia chilena de Pinochet não piorou, porque foram precisamente os setores económicos oligarcas, com o imprescindível apoio dos EUA no assassinato de Allende. Achar que os setores económicos que promoveram o golpe sangrento que resultaria na ditadura sanguinária de Pinochet seriam os mesmos a sofrer as suas consequências, não pode ser só ignorância. É má-fé e reveladora de falta de caráter. Fazer de conta que as sanções económicas impostas pelos EUA e UE, à revelia da ONU, não têm qualquer preponderância na situação catastrófica da Venezuela, é desonesto. Não há outro nome.

ONU vs UE

Duarte Pacheco, mestre em Estudos Europeus, tem obrigação de saber qual é o papel da ONU, para o bem e para o mal. Estudou, com certeza, Tomas Hobbes e a sua teoria do conflito permanente, com a ausência de um Leviatão – uma entidade suprema que regulasse a relação entre Estados. A ONU, ainda que o seu órgão máximo, a Assembleia Geral, possa apenas aprovar ou rejeitar resoluções, sem caráter deliberativo, foi a forma encontrada para equilibrar as relações entre os Estados. Obviamente, com o papel central no seu Conselho de Segurança, há uma situação de desigualdade entre todos os seus membros, uma vez que nada garante – e acontece amiúde – que os países do Conselho de Segurança deliberem em função dos seus interesses estratégicos e políticos e não em favor dos interesses da maioria da sociedade internacional. Quando Duarte Pacheco afirma que “conhecemos a forma como funcionam muitas das democracias da ONU”, para justificar que a legitimação de Guaidó não tenha passado naquela organização, está, de forma lamentável, a questionar a legitimidade da ONU, como o fazem Trump e Bolsonaro no que respeita, por exemplo, à mudança das suas embaixadas para Jerusalém. No entanto, não surpreende. Duarte Pacheco era deputado do PSD quando Durão Barroso, à revelia da ONU, albergou uma das maiores farsas da História recente, que provocou milhões de mortos, com a cimeira das Lages e as provas, que nunca existiram, da existência de armas de destruição massiva no Iraque.

O eurocentrismo neocolonialista

Em França, há semanas que decorrem confrontos com os Coletes Amarelos. Resultaram, até ao momento, pelo menos, em 11 mortos, mais de 3.000 feridos, e centenas de detidos. Em Espanha, continuam detidos militantes independentistas catalães e bascos, para além de artistas condenados ao abrigo da célebre Lei Mordaça. No entanto, nestes casos, parece não haver nada de anormal. Duarte Pacheco não acha que haja comparação entre a situação em França e a situação na Venezuela. Os mortos franceses são menos mortos que os venezuelanos, os feridos franceses são menos feridos do que os feridos venezuelanos e os detidos são menos detidos. Porquê? Por nada. Apenas e só porque o renascido eurocentrismo neocolonialista assim o dita. Porque o eixo EUA-UE considera apenas uma forma de organização social e de Estado e é a democracia liberal. Tudo o que vá além disso, deixa de ser legítimo, ainda que haja razões históricas, culturais e sociais para que assim seja. Um mundo uniformizado sob a égide dos cidadãos europeus, tão melhores e tão mais avançados do que os indígenas do resto do Mundo. É por isso que Duarte Pacheco coloca a ONU num patamar abaixo da UE, onde pode haver mortos e feridos por protestos antigovernamentais, que continua a ser uma democracia. Não há outro motivo, embora a História nos ensine o que sucedeu após o descrédito da Sociedade das Nações. A ideologia dominante reconhece apenas o seu modo de organização. Para lá disto, é o vazio. É, no fundo, o neocolonialismo. Levar o nosso modo de vida a todo o Mundo, subdesenvolvido, de incapazes de se governarem sem a bênção dos seus colonizadores. É, no fundo, uma vergonha. O mapa abaixo, publicado pela AFP, demonstra este caminho que se está a trilhar. Para a agência de notícias francesa, o mundo é apenas América do Norte e Europa, dando espaço à China, mau era, atendendo à sua dimensão diplomática e política na cena internacional. No entanto, África não é considerada, nem a maior democracia do Mundo, a Índia, que não reconhece Guaidó como presidente da Venezuela. No fundo, todos sabemos que nada disto tem a ver com petróleo.

Tarefas urgentes para Rui Tavares

Rui Tavares acordou estremunhado, banhado em suores frios e percebeu que, afinal, está na hora de pegarmos em armas e combater o fascismo em todas as suas formas. Bem, não todas. Porque temos de escolher bem e combater o fascismo mas defender a UE. Já lá iremos. Um historiador estremunhado e assustado, nas manhãs de calor como as que temos vivido, pode ser um caso alarmante. Ao ponto de ser o próprio a referir que nunca pensou que “a versão atualizada [do fascismo] do século XXI viesse a ser tão caricaturalmente parecida com o original”. Um historiador como Rui Tavares, devia saber que a “História repete-se, pelo menos, duas vezes”, dizia Hegel, “a primeira como tragédia, a segunda como farsa”, disse Marx.

Apanhado de surpresa, Tavares esbraceja, alvoroçado, com o que está a passar-se em Itália, na Hungria, esquece Polónia e Ucrânia, Espanha, a vergonha do Mediterrâneo potenciada pelas intervenções externas a cobro – imagine-se – da UE nos países do Médio Oriente e norte de África, que Rui tavares tão bem conhece dos seus tempos de eurodeputado. Sem esquecer o tratado de extradição de refugiados assinado entre a progressista e europeísta Grécia e a Turquia.

Os aliados

Tavares começa a sua lista de tarefas, talvez ainda entorpecido pelo sono profundo em que está há anos, avisando que tem aliados em todos os quadrantes políticos contra a barbárie. As remelas talvez estejam a tolher-lhe o pensamento. O historiador está disposto a colocar de lado tudo o que faz com que haja, de facto, um ressurgimento do fascismo, para combater o fascismo. É neste labirinto de lençóis que Tavares se perde: “Discordarei com eles sobre a austeridade, o politicamente correto, o progressismo e o conservadorismo e todas as coisas sobre as quais já discordávamos antes. Mas se eles e elas sentirem a mesma urgência em fazer, em primeiro lugar, barragem contra a barbárie, estamos juntos”. Tanta ingenuidade chega a ser enternecedora, vinda de alguém que, dada a sua formação, conhece a História. O cronista propõe-se, assim, a tomar comprimidos para dormir mas afirma que vai lutar para ficar acordado. É este o cronista no seu labirinto.

A Torre de Marfim

Para Tavares, a austeridade e a miséria não são desculpas para que as pessoas se tornem racistas e “adeptos de tiranetes”. Esta é uma visão perfeitamente normal de alguém desligado da realidade – e, mais grave, da História – sobre aquilo que é a vida dos comuns mortais. Não sendo desculpa, parece-me evidente que é inegável. Mas, quem nunca teve a barriga vazia, não consegue perceber que a necessidade e o desespero são maiores do que a moral. Rui Tavares, historiador, posiciona-se assim contra a História e não aceita que as condições sociais influem, de facto, no surgimento de fascismos e no crescimento da extrema-direita. Ou melhor, aceita só um bocadinho. Podemos discutir isso, mas não pode ser o foco. Em suma, a História repete-se, mas não temos de encontrar formas para que não se repita. Depois vemos isso. Tavares não diz como contrariar isso, avança apenas com a “intransigência”. Portanto, a História mostra-nos e explica-nos o que está a acontecer, nada disto é novo, mas Rui Tavares está demasiado agitado para procurar a raiz e prepara-se para acabar com isto tudo, apostado que está em cortar canas de bambu com uma colher de sopa.

Isto é tudo nosso

O cronista afirma que não há tempo para discutir soberanias e não-ingerências. E nós sabemos bem, pelo exemplo do aval que deu à invasão da Líbia, que isto são questões de somenos. Os tempos são graves e assustadores. Rui Tavares acaba de acordar e Putin e a perigosa Rússia têm de vir à baila, ao lado de Trump, Órban e Salvini. Afinal, o historiador já decidiu que a Rússia adora interferir em eleições. Portanto, avancemos para fazer tudo exatamente da mesma forma que fizemos até aqui para que tudo fique na mesma.

Mais UE, quando o rei vai ONU

Outra das tarefas urgentes é, evidentemente, salvar a UE. Não seria dia se não fosse assim. Salvar as mesmas instituições que nos trouxeram até aqui. A UE, o colchão a que Tavares se agarra com unhas e dentes, após acordar apostado em acabar com o fascismo, a UE da austeridade, que fecha fronteiras, que vende refugiados à Turquia, a UE da França e da Alemanha, do Tratado de Lisboa e tudo o mais. Rui Tavares não percebe que é a política da UE e a ineficácia da ONU que nos trazem aqui. A ONU das sanções, das resoluções que valem menos que zero, um instrumento de controlo político de Estados soberanos. Ah, sim, a soberania não é para aqui chamada. Temos é que salvar a UE, que tem dado tão bons resultados.

Por fim, “errei”

A terminar, somos lembrados de que Rui Tavares escreve sobre a Hungria desde 2010. E nós aqui, desatentos, só agora, com o historiador acordado, conseguimos perceber que ele anda a escrever sobre a Hungria desde 2010! Ele, que até acreditava que o fascismo voltaria, mas mais fofo. Sem “tanta desfaçatez e arrogância”. E, veja-se, surpreendido porque o fascismo é fascismo.

TPC para Rui Tavares

Vamos então ajudar Rui Tavares e dar-lhe cinco tarefas para que possa ser um antifascista:

1 – Perceber que nem todos são antifascistas porque discordam da política de Órban ou Trump. Este é antes o modelo ideal para que as pombas brancas que sobrevoam os sonhos de Rui Tavares possam passar a abutres, como bem vimos no pós-guerras mundiais, nos Balcãs ou no Médio Oriente e no norte de África ou na América do Sul. Esta é uma lição importante para o Rui que, talvez por querer andar com tanta e tão variada gente, acabou num partido reduzido a um grupo de amigos com tempo de antena.

2 – O Rui sabe que os maiores conflitos da História se deram depois de grandes convulsões sociais provocadas pela Economia neoliberal, defendida pela UE, que o Rui também defende. Por isso, vamos lá colocar a cabeça no lugar e perceber que este parágrafo da sua lista de tarefas é absurdo. Porque lateraliza o que são as questões centrais. É mais ou menos como combater incêndios cortando a copa das árvores. Não dá. Vamos lá trabalhar este aspeto.

3 – Muito do que hoje se passa na Europa tem precisamente a ver com a perda de soberania, económica e não só, de diversos Estados. A imposição, através de ingerências externas, de mecanismos financeiros e/ou militares, em países soberanos, cujas populações, vá lá perceber-se porquê e como, não concordam com o Rui Tavares. Nós sabemos que, para o Rui, lutas só à escala planetária e, se for preciso, universal. Mas cada coisa no seu lugar. Temos de trabalhar melhor também esta matéria.

4 – A mais perigosa das fantasias é acreditar que a UE, com o fascismo cá dentro, é solução para alguma coisa. Não há muito mais a acrescentar.

5 – O “nosso jardim” – e a Eurovisão em Israel, que tal? – podia ser uma ilha de progressismo e democracia se não estivesse refém da UE e dos seus tratados e pactos, se pudéssemos pescar, cultivar e produzir, se fossemos nós a definir o nosso défice e como pagar a dívida, enfim, se tivéssemos soberania. Aquela coisa de que falámos lá em cima.

A «erradicação da fome» e a fome de revolução

Estamos no ano da graça do senhor de 2016 e há 800 milhões de seres humanos a morrer de fome. É esta a principal conclusão do Relatório de Desenvolvimento Sustentável da ONU agora apresentado e que passou completamente ao lado da nossa comunicação social. Antes, porém, de prosseguirmos é mister refazer esta pergunta gasta e tantas vezes repasta nas bocas dos comunistas: como é possível que sejamos capazes de fotografar exoplanetas nos confins da imensa e opaca treva interestelar, e encontremos formas de levantar o véu que oculta o mistério da massa e a origem de todas as coisas, e consigamos reprogramar e fazer células para dobrar a própria natureza humana, e possamos tudo e tanta coisa, epigenomas, água em Marte, máquinas em asteróides… e ainda assim, em desafio a tudo isto, não sejamos, enquanto espécie, capazes de conseguir algo tão ofensivamente elementar como evitar que uma em cada oito das nossas crianças não passe fome?

Em 1992, ainda o cadáver da URSS não tinha arrefecido, e a ONU propunha-se «erradicar a pobreza» com um cardápio de (alegadas) boas intenções que responde pelo nome de Agenda 21. Com a inexorável viragem para o século XXI, a pobreza continuava por erradicar e os autores da Agenda 21 tiveram que reconhecer que colocar «21» no nome fora algo prematuro. Então, alargaram o prazo para «erradicar a pobreza» e, no ano 2000, surgiram os Objectivos do Milénio. Agora é que era a sério: até 2015, a fome e a pobreza estariam «erradicadas». O dinheiro jorrava dos países ricos para os países pobres, atingindo, em 2010, o recorde de 130 mil milhões de dólares; batalhões de voluntários inscreviam-se para dar aulas ou distribuir sacas de arroz no terceiro mundo a contar do nosso; o Bono dos U2 era a «pessoa do ano» da revista Time que, aliás avisadamente, exaltava a «filantropia de fusão» do cantor; virava-se uma pedra em qualquer país pobre e lá estava uma ONG a «erradicar a pobreza»; até George W. Bush se junto ao folguedo, reforçando generosamente a posição dos EUA como o maior doador do mundo em ajuda humanitária.

Ou seja, a solução é sermos todos médicos e engenheiros de software ou, por outras palavras, «o capitalismo só funciona na teoria».

Quando, em 2015, caducou o prazo sem que a pobreza desse sinais de se tencionar erradicar a curto prazo, a ONU deu corda ao relógio e atirou o prazo para 2030, com os, novíssimos, «Objectivos de Desenvolvimento Sustentável», no quadro dos quais agora se verifica que em 2030, por este ritmo, a teimosa da pobreza extrema estará tudo menos erradicada. Há, em termos globais, uma ligeira redução da miséria no mundo que, no entanto, segundo o relatório, «se deve, em 80%, ao Sudeste asiático», com destaque para a China, para a Índia e para o Vietname.

Para compreendermos por que razão falham todas as tentativas internacionais de «erradicar a pobreza», basta pensarmos nesta curiosa expressão, mais comum no jargão médico que nas ciências sociais. Para a ideologia que sustenta os Objectivos de Desenvolvimento Sustentável, é conveniente retratar a fome como uma doença epidémica que deve ser erradicada porque não interessa a ninguém. Desta forma, a miséria seria uma espécie de acidente natural pelo qual ninguém tem culpa e, simultaneamente, uma culpa de todos.

O problema é que se dependesse da inteligência, da ciência e da tecnologia há séculos que não haveria fome no mundo. A pobreza extrema não só tem causas objectivas como só pode ser explicada no quando de um sistema económico que lucra com ela e depende dela. É, portanto, perfeitamente natural que os interessados nesta fome tão lucrativa não queiram que nenhum relatório revele o segredo e mate a alma do negócio. O resultado é um gigantesco edifício teórico construído sobre fabulações.

O presente relatório é um exemplo claro da contradição que balda qualquer esforço de «erradicar a pobreza». Em 153 páginas dedicadas à pobreza no mundo, a palavra «salário» surge duas vezes, ambas num contexto alheio à ligação entre aquilo que os trabalhadores ganham e a forma como vivem.

Então, como é que a ONU quer acabar com a miséria? Melhorando as infra-estruturas, apostando na inovação, investindo na ciência, melhorando os hábitos de higiene… tudo menos o essencial. O relatório dá alguns exemplos: «provas empíricas demonstram que o desenvolvimento está associado à mudança de trabalho de baixa produtividade para alta produtividade e para actividades bem remuneradas». Ou seja, a solução é sermos todos médicos e engenheiros de software ou, por outras palavras, «o capitalismo só funciona na teoria».

De resto, nem uma palavra sobre as verdadeiras causas da miséria: a exploração desenfreada de quem trabalha; a privatização de recursos e serviços necessários às populações; a assinatura de acordos comerciais pró-monopolistas ou a ausência de direitos…

Vivemos num mundo capaz de produzir infinitamente mais quantidade de tudo o que precisamos para satisfazer as necessidades básicas de toda a humanidade. Neste contexto, o ritmo das descobertas científicas e a dimensão dos avanços tecnológicos só tornam as crescentes desigualdades sociais mais monstruosas. Envergonham, até. Por outro lado, a persistência da fome e da miséria mais horrenda não é um erro, mas um mero corolário da actual fase de desenvolvimento do capitalismo. Mas mais do que pôr em evidência de que o capitalismo não consegue matar a fome, o que demonstra o falhanço dos sucessivos programas internacionais para «erradicar a pobreza e a fome» é a impossibilidade de resolver os grandes problemas do capitalismo pela via das reformas. A superação revolucionária do capitalismo é, por conseguinte, o único caminho.

Guterres, a Sérvia, a NATO e a ONU

O governo PS assumiu a candidatura de António Guterres ao cargo de secretário-geral das Nações Unidas como um projecto nacional para o qual mobilizará os seus esforços diplomáticos. Calculo que a direita fará deste tema uma boa oportunidade para sublinhar o seu “sentido de Estado” e a sua capacidade para “assegurar consensos”.

A candidatura fará as delícias dos comentadores do regime, que sublinharão o espírito humanitário do ex-Alto Comissário da ONU para os refugiados. E eu não perderei a oportunidade para lembrar 1999 e o papel desempenhado por Guterres e pelo seu governo num dos momentos-chave de descredibilização e secundarização do papel da ONU no plano da segurança internacional. Refiro-me à agressão da NATO à Jugoslávia, lembram-se?

Após 1989 a Europa conheceu uma série de processos políticos a leste que determinaram uma reconfiguração também geográfica no chamado “velho continente”. Antigos países deram origem a novos territórios independentes. Velhas alianças e amizades geraram novos focos de tensão. De entre os territórios mais afectados pelas tensões pós-89 e pós-91 a Jugoslávia foi aquele que viveu o processo mais conturbado, com uma série de guerras consecutivas em dois períodos praticamente consecutivos (1991-1995 e 1998-1999).

As guerras jugoslavas estão explicadas em detalhe na obra “Da Jugoslávia à Jugoslávia”, de Carlos Santos Pereira, cuja leitura se aconselha vivamente. Quem o fizer compreenderá aliás o papel instrumental que os conflitos 1991-1995 primeiro e a agressão da NATO aos sérvios e montenegrinos desempenharam na afirmação dos Estados Unidos da América como polícia do mundo e da NATO como se braço político-bélico preferencial numa estratégia de afirmação como potência dominante num mundo unipolar em recomposição pós-dissolução da URSS e do campo socialista saído da II Guerra Mundial. A guerra da Sérvia/Kosovo foi aliás um momento particularmente relevante neste processo já que foi o primeiro momento de intervenção directa e declarada da NATO fora do seu âmbito geográfico e em clara violação do direito internacional, sem mandato da ONU e contra os próprios estatutos da organização.

A agressão da NATO à Jugoslávia fez-se fundamentalmente com sacrifício da população civil e de infra-estruturas fundamentais do país. A ideia da NATO foi desde o primeiro momento vergar em definitivo Sérvia – parceiro histórico da Rússia nos Balcãs –, assegurando o desmembramento do que restava da antiga Jugoslávia titista e criando novos territórios fiéis à Aliança, mais tarde incorporados na sua estrutura política e militar (casos da Croácia e da Albânia, país que mais influencia o Kosovo independente, saído do conflito de 1999).

A guerra de 1999 foi e é muito dura para sérvios, montenegrinos e kosovares. A utilização de munições de urânio empobrecido por parte das forças da NATO determinou o aumento exponencial dos casos de cancro na região. A guerra ainda não terminou num território profundamente marcado pelo sofrimento imposto pelas bombas e pelas suas consequências duradouras. Estima-se que em 1999 tenham sido despejadas sobre território sérvio 15.000 toneladas de urânio empobrecido.

Ora, Guterres – o agora candidato ao cargo de secretário-geral da ONU – esteve para a guerra de 1999 como Barroso esteve para a segunda invasão norte-americana do Iraque. Juntou a sua voz à dos governos de maioria “social-democrata” que dominavam então a Europa. Esteve ao lado de uma agressão ilegal e injustificada a um país soberano que provocou uma imensa crise humanitária e o desmembramento do território jugoslavo. Ajudou a enterrar de vez a primazia da ONU como garante da paz e da segurança internacional, abrindo a porta ao chamado “novo conceito estratégico da NATO”, que alarga indefinidamente o perímetro geográfico e os pretextos políticos para a intervenção da “Aliança”. E posto isto não será despropositado colocar a questão: que condições tem Guterres para reerguer a ONU e relançar por exemplo a ideia dos chamados “Acordos de Helsínquia” destinados à criação de um sistema de segurança colectivo que priorize a paz e submeta os chamados “interesses estratégicos” das nações militarmente mais poderosas? Que legitimidade tem Guterres para promover no seio da ONU o processo de democratização da Organização que desde há muito se exige?

Apoiar Guterres com base na simples circunstância da sua nacionalidade é um disparate que o longo mandato de Durão Barroso na Comissão Europeia bem ilustrou. A questão não é de nacionalidade, de género ou etnia. É de convicções, credibilidade e compromisso com a Paz.

Parabéns e obrigado, companheiro


Aos 89 anos, Fidel Castro continua jovem e de boa saúde. Continuará sempre. Porque há muitos anos que deixou de ser apenas a pele que habita, tornando-se na metáfora viva do que mais jovem tem este mundo decrépito.

Por isso, companheiro Fidel, parabéns por nos mostrares que é possível um Estado governado pelos trabalhadores, mesmo que cercado, vilipendiado, bloqueado e atacado por todos os quadrantes, fazer mais e melhor que o resto do mundo.

Obrigado por inaugurares a primeira terra livre de analfabetismo na América Latina. Ainda hoje, Cuba continua a ser o país da América Latina com a menor taxa de analfabetismo e a maior percentagem de escolarização. É a própria UNESCO que te dá os parabéns, Fidel, quando atribui a Cuba o maior índice de Desenvolvimento na Educação do mundo.

É também a UNICEF que te dá os parabéns, quando escreve que «Cuba é um exemplo de protecção na infância» e que «Cuba é um paraíso para as crianças da América Latina». Quem te dá os parabéns são também as crianças deste planeta que dormem nas ruas do Rio de Janeiro, de Porto Príncipe, de Luanda, de Washington, de Lisboa, de Paris, de todo o mundo, mas nunca da tua ilha.

Quem te dá os parabéns é a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) que reconhece que a tua pátria é «a única do Terceiro Mundo que erradicou a desnutrição infantil».

Quem te dá os parabéns é a Organização Mundial de Saúde, por dares ao mundo o país onde não há doenças estúpidas que apenas matam os pobres. De acordo com a OMC, Cuba foi «o primeiro país da América Latina a erradicar doenças infecciosas como o paludismo, a pertússis, a rubéola, a difteria, o sarampo, e a meningoencefalite», entre outros títulos mundiais, como o de «primeiro país do mundo a erradicar a transmissão da SIDA de mães para filhos».

Quem te dá os parabéns é a New England Journal of Medicine que declara que o teu país, que dispõe do maior número de médicos por habitante do mundo, «resolveu problemas que os EUA ainda não conseguiram resolver e tem o dobro do nosso número de médicos». Só um monstro é que, independentemente de diferenças políticas, não é capaz de reconhecer o mérito de alcançar, no contexto caribenho da Jamaica e do Haiti, um índice de mortalidade infantil de 4,1 por cada mil nascimentos, abaixo dos EUA, do Canadá ou da Grécia.

Quem te dá os parabéns é a ONU, por teres feito de Cuba o único país do continente que atingiu os Objectivos do Milénio, nomeadamente «erradicar a pobreza extrema e a fome», «alcançar a educação primária universal», «promover a igualdade de géneros e o poder das mulheres» e «reduzir a mortalidade das crianças com menos de cinco anos».

Quem te dá os parabéns é o Fundo Mundial para a Natureza (WWF), que atribui ao teu sistema o impressionante título de «único país do mundo que atingiu o desenvolvimento sustentável».

Quem te dá hoje os parabéns é o teu povo, em 44.ª posição na lista do desenvolvimento humano. Mas não só os cubanos têm boas razões para celebrar neste dia: neste mundo há países que dedicam as suas economias a produzir bombas, espingardas, químicos tóxicos e doenças. Tu criaste um país que não exporta morte, mas vida. Desde 1963 o teu país enviou 132 mil médicos que foram oferecer voluntariamente a sua solidariedade e humanismo aos pobres de 102 países do mundo. Com a Operação Milagre, lançada em 2004, o teu sistema devolveu a visão a dois milhões e meio de pessoas em 28 países. Desde 2003, com o programa Sim, Eu Posso, os professores cubanos ensinaram mais de sete milhões de trabalhadores do terceiro mundo a ler e a escrever.

É por isso que o teu sistema também é o meu. É também por isso que a tua pátria adoptiva será sempre a humanidade.

Parabéns e obrigado por tudo, companheiro: mostraste-nos que o segredo de ser jovem aos 89 anos é nunca permitir que a nossa pequena gota de humanidade se dissolva no extenso oceano da barbárie alheia.