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Esta cidade também é nossa! Os brasileiros em Lisboa e no país.

No dia 6 de Julho, o Brasil era derrotado pela Bélgica nas quartas de final da Copa do Mundo e era assim eliminado desta competição. Mas para os brasileiros, a festa não ia parar pelas falhas dos outros. Na Praça do Comércio, a festa continuou pós-jogo e mesmo com algumas lágrimas nos olhos, a batida do funk animou a noite para uns milhares de brasileiros ali presentes.

Ter assistido alguns jogos na praça do comércio, foi importante para perceber a dimensão da ocupação daquela praça consoante os jogos. Em jogos do Brasil e de Portugal, a praça se encontrava cheia de adeptos. Por exemplo, nos jogos de outras seleções as ruas à volta funcionavam normalmente, sem nenhum corte das vias. Nos dias que jogavam estas duas seleções, várias ruas circundantes eram paralisadas para a passagem de automóveis. O sentimento de estar em sardinha enlatada na Praça do Comércio acontecia de forma interessante nestes jogos. Claro que no caso dos jogos da seleção brasileira também estavam presentes muitos portugueses (e os adeptos da seleção opositora), mas mesmo estes eram a minoria e muito pouco residual. A grande ocupação nestes dias, era de uma massa brasileira que se juntava naquela praça para ver os jogos do Brasil.

Entre as populações imigrantes em Portugal, de acordo com os censos de 2011, nós, brasileiros, eramos a maioria entre os imigrantes, perto dos 110 mil residentes, atrás de nós estavam os imigrantes cabo-verdianos, com cerca de 38 mil residentes. Entre os censos de 2001 e 2011 a população brasileira residente em Portugal quase quadruplicou. Em termos de populações de imigrantes brasileiros espalhados pelo mundo, a maior presença nossa encontra-se nos Estados Unidos da América (acima de um milhão de residentes), em quinto lugar encontra-se Portugal. Apesar do fluxo de brasileiros em Portugal ter reduzido entre 2008 a 2013, sobre o efeito do agravamento da crise portuguesa e da época de “prosperidade” económica no Brasil sobre alçada dos governos de Lula e Dilma, acontece que a partir de 2013 muitos brasileiros que voltaram para o Brasil, começaram a retornar para Portugal. Em simultâneo muitos novos brasileiros decidiram imigrar para Portugal. Além dos imigrantes que vêm à procura de trabalho sem grandes formações, começaram a chegar também pessoas mais jovens para estudarem no ensino superior português e acabam por ficar no país e tantos outros já com formação superior. Estas informações são importantes para perceber a dimensão desta população de imigrantes em Portugal. E o seu significado para a realidade portuguesa.

Um outro exemplo de ocupação do espaço público nas cidades portuguesas por brasileiros, vejamos a questão da luta. Desde o inicio das ofensivas golpistas no Brasil, um colectivo forte e combativo de brasileiros que ia desde estudantes universitários até alguns imigrantes, mas também com a presença de portugueses, combateram em Portugal a ofensiva reaccionária no Brasil. Estiveram nas ruas nos grandes momentos destas ofensivas, mas também sempre que um golpista pisava os pés em Portugal, estes não teria descanso, porque como nós brasileiros dizemos, era preciso “escrachá-lo”. Por exemplo, Temer, Moro, Serra e por aí em diante. A luta também passou pelo apoio aos políticos e personalidades que vinham a Portugal dar a voz à luta que se ia fazendo no Brasil contra o golpe. Falo aqui do Coletivo Andorinha, mas sabendo da importância de outros colectivos pelo país. É importante falar sobre este colectivo em especial para a cidade de Lisboa, porque os activistas deste movimento tiveram de ir para as ruas mais que uma vez por semana para levar aos holofotes a crítica da situação brasileira.

Desde o inicio da sua formação, estiveram dezenas de vezes na Praça Luís de Camões, desceram a Avenida da Liberdade nos 25 de Abril e subiram a Almirante Reis no 1 de Maios, foram para portas da Faculdade de Direito, porta de Hotéis, ocuparam as actividades culturais e festivais, veja-se o exemplo da Festa do Avante e o coro que se ergue volta e meia de “Fora Temer!” quando um artista brasileiro está em actuação, desceram uma faixa no concerto do Chico Buarque no Coliseu dos Recreios. Enfim, a sua capacidade de adaptação e ocupação da cidade fez-se nos últimos anos de uma forma bestial e alegre, resistindo, lutando e apoiando, de todos os modos, transformando a cara das cidades portuguesas, principalmente, de Lisboa.

A cidade de Lisboa, e não só, também ficou mais rica com as iniciativas sócio-culturais dos brasileiros cá residentes. Vejamos por exemplo, neste último carnaval tivemos três blocos carnavalescos a partir de pontos diferentes dentro da cidade. A nossa presença, que era muitas vezes relegada às discotecas brasileiras, agora está em todo lado. Da música ao cinema, do teatro às artes plásticas, da arte urbana ao pixo, da resistência política ao futebol, trazemos a bandeira verde e amarela, mas também as bandeiras vermelhas.

Contudo, o desafio que se avizinha é muito complexo. Não devemos esquecer que nem todos os brasileiros cá residentes são progressistas. Por exemplo, no dia 22 de Junho duas dezenas de brasileiros se juntaram no Parque das Nações para apoiar a candidatura a presidente de Bolsonaro, apesar da presença residual, facilmente podemos encontrar brasileiros imigrantes que apoiam Bolsonaro neste país. A questão é que por muito tempo não houve (e sinceramente ainda não há), em Portugal, organizações de imigrantes brasileiros fortes (ou mesmo fracas) que defendessem os interesses desta grande população de imigrantes. Por décadas os brasileiros “se viravam” por redes de amizades, por exemplo, outras populações de imigrantes cá residentes rapidamente criaram organizações que os defendesse (vejam os exemplos dos cabo-verdianos, angolanos, são-tomenses, chineses, nepaleses, ucranianos e muitos outros exemplos). O aparecimento de redes sociais como o Facebook e WhatsApp possibilitou um (re)encontro quotidiano com as redes de amizades e familiares espalhadas pelo Brasil (ou mesmo outros países). Este reencontro permitiu mais que matar saudades e estar actualizado sobre o dia-a-dia dos seus próximos, permitiu também uma politização destes brasileiros (à esquerda e à direita, mas sobretudo à direita). Da partilha das notícias falsas, dos discursos de ódio, que vai desde o machismo, homofobia a xenofobia (sim, xenofobia se tratando de imigrantes!), a partilha fácil e acrítica destes conteúdos levou a que muitos brasileiros residentes cá interiorizassem facilmente estes conteúdos. Soma-se ainda, que cá em Portugal não tinham um contraponto que se opusesse a este discurso. Como disse, não havia uma organização brasileira que estivesse próxima dos seus.

Da complexidade desta questão, surgem então os potenciais conflitos directos, pensando no rescaldo das últimas concentrações realizadas em Lisboa, em vários momentos aconteceram distúrbios provocados por brasileiros reaccionários, entre provocações através do grito, o mandar copos de cerveja, empurrões, exemplos cada vez mais não faltam.

Em ano de eleições, mas não só por causa disso, avizinha desafios aos brasileiros que têm-se organizado à volta destes movimentos progressistas, este desafio é sair da centralidade da cidade de Lisboa e ir para as periferias falar com os seus conterrâneos sobre a democracia portuguesa e brasileira, sobre direitos e deveres, sobre luta e resistência. Cabe diluir as diferenças entre brasileiros. Daqueles que vieram para cá realizar seu mestrado/doutoramento e ficaram por cá porque a terrinha é muito boa, contudo acabam num trabalho precário. E daqueles que vieram para cá atrás de uma vida melhor, independente da sua formação, e desde que cá chegaram sempre estiveram em trabalhos precários. Cabe tanto aos primeiros e aos segundos, tomarem as cidades portuguesas, reivindicando o seu direito à cidade, cabe tanto a um como outro reivindicar uma vida digna neste país, participando e transformando as cidades portuguesas, e por fim, cabe tanto a um como ao outro lutar pela defesa da democracia do Brasil e contra a besta fascista que se levanta. O recado aos portugueses é que vamos continuar sambando e levantando poeira, e àqueles que ainda não se conformaram com esta ideia, vamos sambar na vossa cara mesmo. Estas cidades também são nossas!

Bicicletas partilhadas também são um meio de transporte… e devem ser públicas!

As bicicletas partilhadas servem como um bom adereço nas cidades responsáveis. Enganam bem. Maquilham estas cidades como cidades do futuro. Mas não cumprem um objectivo básico, o de servir as pessoas e a cidade no seu todo. Assim, surgem na cidade de Lisboa a GIRA pela EMEL e muitas empresas privadas de bicicletas partilhadas.

Nos últimos anos, várias cidades portuguesas criaram um sistema de bicicletas partilhadas. Na generalidade com nomes simpáticos (caso da GIRA em Lisboa), em simultâneo, estas mesmas cidades permitiram a entrada de empresas privadas para fazerem o mesmo serviço ou serviços semelhantes com bicicletas em suas cidades. Estas cidades não criam grande regularização destes serviços, pois qualquer empresa com interesse introduz um sistema de bicicletas partilhadas. No geral, o que se assiste é uma despreocupação generalizada em servir as pessoas, sejam moradores, trabalhadores, estudantes ou até mesmo os turistas.

Note-se o exemplo da cidade de Lisboa, talvez o mais mediático de todos, que começou a investir tardiamente nas infra-estruturas (por exemplo, as ciclovias e as próprias bicicletas) para uma melhor utilização de bicicletas individuais e partilhadas.

O sistema desta cidade é da responsabilidade da EMEL. Tem um custo anual-25€/mensal-15€/diário-2€. A partir do dia 30 de Setembro deste ano, cada viagem até 45 minutos tem um custo de 0.10€ (bicicletas clássicas) /0.20€ (bicicletas eléctricas), ou seja, num dia normal (ida/volta) as viagens custaram 0.20€/0.40€. Isto quererá dizer que, fazendo as contas, cinco dias por semana, quatro semanas por mês, dará um valor aproximado de 4€/8€. Neste momento, já estão em vigor os valores praticados em viagem que ultrapassem os 45 min até os 90 min, em que são acrescidos 1€ e 2€ por cada período adicional de 45 min acima dos 90 min de viagem. Uma viagem de bicicleta na cidade de Lisboa dura em média 45 min, de uma pessoa que vem de fora do centro da cidade. Tendo em conta estes valores todos, proponho a criação de um exemplo tipo (num cenário optimista), no qual um usuário com um passe mensal, utiliza somente as bicicletas clássicas, cinco dias por semana, e ultrapassa uma vez por semana o tempo de 45 min, num cenário pensado pós 30 de Setembro de 2018. De acordo com este cenário, teremos os seguintes valores num mês “normal”: 15€ passe mensal + 4€ uso diário (ida/volta) + 4€ por ultrapassar 45 min = 23€ mês. Conclui-se para cenários mais negativos e como foi afirmado num artigo do Jornal de Negócios: “as bicicletas são perfeitas para quem mora no centro“.

Esta rede de bicicletas foi lançada pelo poder autárquico como se fosse o último copo de água num deserto. O discurso associado à GIRA mistura práticas ambientalistas, cidade responsável e umas bikes giras e cool. Funciona através de uma APP (colocando em causa quem não tem telemóvel com estas configurações). Foi testada no Parque das Nações, por outro lado, um novo sistema de vigilância e controlo de pagamento de bilhetes da Carris foi testado na carreira 711 da Carris que faz o trajecto do Alto da Damaia ao Terreiro do Paço, nota-se que as escolhas sempre pendem pelas questões de classe, no caso da Carris com um florear racista. Apesar da expansão da GIRA pela cidade, facilmente, constata-se que em vários bairros municipais da cidade de Lisboa, elas ainda não chegaram (ver exemplos em Marvila). Soma-se, por fim, um novo factor, começam a aparecer recorrentes falhas dos travões destas bicicletas. Foram reportados mais de 40 acidentes por pessoas a usar a GIRA no início de Maio, segundo o Correio da Manha.

Como praticamente todas as redes que foram criadas pelo país, esta rede de bicicletas partilhadas não está associada à rede de transportes públicos, por exemplo, aos passes urbanos. Neste momento, há uma discussão importante sobre a criação de um Passe Intermodal na AML e as bicicletas partilhadas praticamente não têm lugar à mesa. Elas também estão totalmente desligadas de todas as outras redes semelhantes na Área Metropolitana de Lisboa, visto que cada cidade cria a sua rede e não partilha, ironicamente, com as outras redes na mesma área metropolitana. Deveria ser pensada uma AML com transportes urbanos integrados, públicos, eficientes e com preços adequados aos respectivos utentes. Esta deveria cumprir, entre vários objectivos, o de aliviar o fluxo de automóveis individuais nas cidades. Neste momento, para os utentes é mais prático utilizar um carro do que estar a pagar balúrdios para utilizar uma série de transportes, que cada vez mais são poucos eficientes.

Em simultâneo, com a existência da GIRA, a cidade de Lisboa dá alvará e promoção a todas redes de bicicletas partilhadas que chegam à capital, nacionais e estrangeiras. Com poucos impostos e legislação, este é um mercado em crescimento e de fácil acesso. Recentemente, uma multinacional na área, a oBike, chegou à cidade e, de um momento para o outro, colocou as suas bicicletas em cima de passeios, praças e lugares de estacionamentos de carros, o que foi considerado pela CML como prática “abusiva” e ordenou a retirada de todas as bicicletas do espaço público da cidade, neste momento há conversas para a mesma retornar à cidade. Em França, uma empresa retirou as suas bicicletas do mercado porque foram vandalizadas, roubadas e mandadas ao Rio Siena numa resposta dos franceses contra estes abusos praticados por empresas como oBike.

Num mercado aberto, sem muitas regras, de fácil acesso, barato, muito lucrativo e aliado a um discurso mediático e político de responsabilidade social e ambiental, as bicicletas partilhadas florescem e não dão respostas práticas e realmente responsáveis para a vida das pessoas.

«Nós também estivemos lá… por pouco» por Bárbara Carvalho e Laura Almodovar

Celebrar Abril e Maio não pode ser só estética. É sempre um momento de resistência necessário. Celebrando-se aquilo que foi, reivindica-se o que já não é. Celebramos a luta antifascista e as conquistas arrecadadas. Afirmamos a urgência dos direitos que nos são retirados, que a nossa geração já não conheceu, mas que também não esqueceu. A celebração de Abril e Maio não se ancora numa evocação identitária oca e simplista, mas sim num pulsar de exigências que nos é quotidiano.

A produção cultural, no contexto actual, já é em sim um acto de resistência, sobretudo quando politicamente posicionada, sobretudo em Abril e Maio. Elas também estiveram lá é mais do que a reivindicação da memória histórica e muito mais que uma celebração. A verbalização não sai fácil, a selecta audiência e a imediatez passional da época dificultam a tarefa, mas exigem-se umas linhas sobre as que resistiram, as que lutaram e as que as transformaram – a elas e às suas histórias – em símbolos de luta. Uma peça que, por se posicionar política e ideologicamente sem descurar o sentido estético, tem (ou teria) a capacidade de impactar públicos vastos. Uma peça que conjugando cinema, música, literatura, fotografia e teatro mostra que as opções estéticas são em si veículos de mensagens. Neste caso, numa só peça, a confluência de artes para uma construção colectiva. Uma peça de teatro político que fomenta o sentido crítico e levanta questões sem apontar, à partida, a direcção certa para o processo de reflexão de cada espectador.

Elas. Elas, as mulheres da resistência antifascista, de Abril e Maio, e do PREC. Uma produção que escapa a um cânone de arte militante assente no evento, Elas viajaram e fizeram-nos viajar entre os três momentos que, em comum, têm a resistência e a luta. A resistência e a luta delas que não foi – nem é – a mesma que a deles. Mas, mais do que dar visibilidade às narrativas da Teresa, da Júlia ou da Eugénia, por oposição à resistência e à luta do Domingos, do Vítor ou do Henrique, mostraram-nos como o processo revolucionário foi construído em conjunto, como formas de opressão desaguaram em formas de transformação de classe, de género, de sociedade e de cultura. Elas, que continuam de fora das narrativas oficiais. Elas, que não desistiram das suas reivindicações em Abril de 1974 e, menos ainda, em Novembro de 1975.

Com elas participamos num jogo de espelhos entre ausências e presenças, num confronto entre os actores estabelecidos da nossa memória colectiva e as figuras (femininas) que passaram os últimos 40 anos a julgar que não tinham nada para contar. Trouxeram relatos que iluminam as particularidades de viver mulher durante o fascismo, sobretudo na sombra do quotidiano, da intimidade. A brutalidade de viver mulher sob a asa de um homem – primeiro o pai, depois o marido. Violações conjugais ou abortos clandestinos e solitários – porque o pão não chegava para mais um, os contraceptivos não existiam e o maridinho tinha vontades. A tortura pela PIDE que era tudo o que foi para o Zé, o Pedro e o António, mas para a Georgete, a Conceição e a Aurora revestia-se ainda do machismo sistémico, com humilhação sexual, exposição de nudez e chantagem através dos filhos. Nesta peça, ao iluminar-se o que era viver mulher não se apaga que nem todas as mulheres estavam em pé de igualdade. As mulheres trabalhadoras do Couço não se confrontavam com as mesmas dificuldades da mulher que vivia na Avenida e que escondia as suas leituras proibidas. A livreira, filha de trabalhadores, que estudava na escola comercial e não tinha dinheiro para comprar um dicionário não é a Teresa que foi expulsa do liceu por distribuir propaganda. Mas até sobre isto a peça nos põe a reflectir, sobre a importância da opção de classe.

Neste jogo do ausente e presente, surgem paralelismos com a resistência espanhola, com o que foi lá e cá, numa península que aguentou as mais longas ditaduras europeias. Está ausente da peça, talvez porque só agora começa a surgir na discussão da memória colectiva, relatos do que se passava nas colónias. Relatos das Elas (e eles) que no hemisfério contrário se debatiam contra uma guerra colonial, contra a morte quase certa, contra um fascismo que as considerava menos que humanas.

Ainda há muito caminho a percorrer, mas para isso elas (nós) estão a fazer a sua parte.

Como é que as mulheres desta peça também estiveram lá? Talvez ainda estejam a tentar descobrir. O Teatro do Vestido foi uma das companhias que não recebeu financiamento da DGArtes. Sem financiamento desde Janeiro, as actrizes asseguram os compromissos contratuais já estabelecidos. Até quando é que, nestas condições, elas vão continuar a estar lá?

Como é que nós também estivemos lá? Ainda nem nós sabemos bem. A EGEAC anunciou os poucos dias que a peça estaria em cena (já começa a ser hábito uma programação que serve mais para marcar calendário do que promover uma efectiva política cultural). Condições: 20 bilhetes diários, 2 bilhetes por pessoa levantados no próprio dia a partir das 13h. Local: Cinema São Jorge. Como: Chegada a meio da manhã para marcar lugar. Resultado: 18 bilhetes reservados pela EGEAC, 2 disponíveis. Um cenário que se repetiu como tema e variações nos restantes dias. Fosse isto um momento isolado e estaria a cidade de Lisboa bem servida em matéria de política cultural. O desinvestimento é um dos sintomas da incompreensão do papel da cultura numa sociedade (ou então por compreenderem bem demais). A política de compadrio e de desrespeito pelo público é outro. A cidade de Lisboa e o país precisam de uma política cultural séria, que não se guie pelo monopólio da EGEAC e dos interesses privados que com ela se movem.

O país precisa que elas continuem lá e que ela – a cultura – esteja sempre lá.

*Autor Convidado
Bárbara Carvalho e Laura Almodovar

Marielle vive! Lula livre! E os avanços da besta fascista no Brasil.

Em que difere a morte de Marielle Franco de todas as outras mortes de dirigentes de esquerda este ano e em anos passados?
No ano de 2017 foram assassinados 66 activistas no Brasil (por exemplo, lideranças de movimentos sociais, dirigentes políticos de esquerda, ambientalistas, pessoas do movimento indígena e quilombola, enfim, exemplos não faltam).

O Brasil nunca ultrapassou esta característica de assassinar aquele, que de alguma forma, luta pela transformação social deste imenso país. E uma importante nota, os assassinos muitas vezes são bem premiados pela sua capacidade de exterminar as formigas que vêm em sentido contrário, e, claro, aos assassinos há uma clara impunidade dos seus actos.

Indo ao passado até ao presente, muitos exemplos ilustram esta prática bárbara. Começando pela revolta conhecida por Balaiada de 1838-1841, liderada por Manuel Balaio. Começo por Balaio por ser um exemplo de quem tenha sofrido de violência policial e também por isto tenha iniciado uma revolta. Saltando uns anos à frente, veja-se o extermínio dos cangaceiros no Nordeste do Brasil, que tem na morte de Lampião e Maria Bonita, no ano de 1938, o exemplo máximo. Após executar o bando do Lampião, a polícia decapitou a cabeça dos mesmos e exibiram-nas em cidades nordestinas, com o objectivo de inibir novas resistências semelhantes. Relembramos a morte de Marighela, em 1969, pela polícia da Ditadura de 64, tendo muitos outros opositores desta ditadura sido assassinados ou torturados. O pós-ditadura e o processo de democratização do Brasil não ultrapassou a questão das execuções sumárias daqueles que lutam. Por exemplo, veja-se o famoso Massacre do Eldorado do Carajás no ano de 1996, onde foram assassinados dezanove sem terras que lutavam pela reforma agrária no Brasil. Por fim, Marielle era para ser mais uma na estatística, que sobe ano-após-ano. O que diferencia o caso dela dos 66 que morreram no ano passado e dos tantos outros que morreram este ano?

A ousadia dos assassinos.

Rapidamente, surgiu um discurso à esquerda de que a morte de Marielle deveu-se ao facto de ela levantar algumas bandeiras de lutas: feminismo; anti-racismo; direitos LGBT. Independentemente da justeza destas bandeiras e da sua relação com a morte de Marielle, penso que houve um aproveitamento leviano da luta de Marielle e, em simultâneo, um branqueamento político de sua luta. Se, por um lado, a questão mediática associada à sua morte apresentava um discurso manifesto que tal se deveu por ela ser mulher, negra, favelada e lésbica, ignorando os tantos outros que morreram no combate político à esquerda que tinha todas estas características. Por outro lado, o que torna a Marielle um símbolo político deveu-se ao facto de ela ser vereadora da cidade do Rio de Janeiro e nesta condição ter batido de frente com a Polícia Militar do Rio de Janeiro. O Rio é um centro mediático muito forte, para muitos é erradamente a capital do Brasil, não tendo este estatuto actualmente, esta cidade nunca perdeu a sua característica de centro político, cultural e económico do Brasil (estatuto muito semelhante à cidade de São Paulo). Matar uma pessoa de relevo político nesta cidade terá maior projecção mediática e política do que a morte de todos os outros menos conhecidos ou em qualquer cidade periférica do Brasil. Quer isto dizer, que a morte da Marielle representa muito mais do que uma simples morte de uma combatente de esquerda, representa um sinal da besta fascista a dizer que ninguém lhes pode parar, aqui demarca-se a ousadia dos assassinos. Um outro exemplo da ousadia desta besta é o ataque a tiros contra a caravana de apoio ao Lula no dia 27 de Março passado.

Em ano de eleições presidenciais, começam a surgir dúvidas se realmente teremos eleições, por exemplo, o comandante do exército brasileiro, o General Villas Boas, que twitou pressões aoSupremo Tribunal Federal, caso este cedesse o habeas corpus a Lula, sendo que rapidamente outros militares se juntaram ao coro. Por outro lado, o segundo candidato mais bem colocado nas sondagens é um fascista evangélico, quando as sondagens colocam o Lula como candidato. Foi há pouco mais de um mês a morte de Marielle e parece que com todos os últimos acontecimentos já tenha uma eternidade. Devemos lutar pela memória de Marielle, não deixar que o seu nome e de todos os outros que morreram na luta não sejam esquecidos. Do mesmo modo, temos de lutar pela liberdade de Lula, detido sem provas contra si. E lutar pela democracia brasileira, com Lula com direito a ser candidato e que os assassinos de Marielle e tantos outros sejam presos.

Marielle vive! Lula livre!

O eterno retorno aos Balcãs

Quando no ano de 1999 as forças norte-americanas agiram, sob a capa da NATO, nos Balcãs e em particular na República Jugoslava – ou no que dela restava – fechava-se um ciclo de desmembramento do chamado “bloco de Leste” iniciado em meados dos anos 80 e irreversivelmente consumado a partir de 1989 com a chamada “reunificação alemã”, a dissolução da União Soviética e a integração, progressiva, de países do extinto Tratado de Varsóvia na triunfante “Aliança Atlântica”.

A “guerra humanitária” de Clinton e Blair cumpriu diversos objectivos simultâneos e relacionados, de entre os quais destaco a continuação e consolidação da “balcanização” da ex-Jugoslávia, a criação naquela zona do planeta de territórios neocoloniais (possibilitando a fixação de bases militares, zonas de influência e controlo de rotas fundamentais do comércio de matérias primas e energia), o esvaziamento da influência soviética/russa junto das zonas eslavas do mediterrâneo e, claro está, a institucionalização da NATO já não como suposta “aliança defensiva” de natureza limitada mas antes como super-estrutura de âmbito planetário, com legitimidade de actuação para lá dos mecanismos diplomáticos e de defesa internacionais, incluindo a própria ONU.

O desfecho da guerra de 1999, e não obstante todas as polémicas em torno do reconhecimento da independência do Kosovo, da utilização de armamento com urânio empobrecido ou da manipulação mediática que voltou a centrar toda a culpa do conflito na figura de Slobodan Milosevic (e por seu intermédio dos jugoslavos da Sérvia), foi rapidamente varrido da actualidade por acontecimento por ventura mais dramáticos (de entre os quais se destacam os conexos “11 de Setembro”, a invasão norte-americana do Afeganistão e o reinício do conflito aberto no Iraque). E desde então têm-se somado conflitos e tensões que remetem a questão dos Balcãs para uma segunda divisão do debate em torno das questões verdadeiramente em aberto no panorama internacional.

A recente condenação do General Ratko Mladic por parte do tribunal internacional constituído para julgar crimes cometidos durante a década de 90 na ex-República Socialista da Jugoslávia não aqueceu propriamente a discussão sobre o que verdadeiramente se passou nos vários conflitos que se seguiram às declarações de independência de vários territórios da federação dos eslavos balcânicos. Em todo o caso parece assumir-se como o epílogo de um longo processo cujo desfecho se encontrava desde há muito definido, independentemente das “provas” presentes (ou não) no âmbito dos processos judiciais movidos contra dirigentes políticos e chefias militares das várias nacionalidades em conflito, com destaque – pelo número e natureza das funções desempenhadas – para os réus de nacionalidade ou origem sérvia.

Sobre a figura de Ratko Mladic não creio estar na posse de todos os elementos que me permitam substituir-me ao julgamento que dele fará a história, ou aqueles que nos Balcãs escreverão a história sérvia ou bósnia dos acontecimentos dos anos 90. De resto o desfecho do acidentado e pouco sólido processo que lhe foi movido foi já abordado no Diário de Notícias pelo qualificado jornalista Carlos Santos Pereira, que não apenas conheceu pessoalmente o general Mladic como esteve na povoação de Srebrenica por altura dos acontecimentos que são o fundamental da acusação (e condenação) que recai sobre o militar sérvio.

O que na verdade me parece importante sublinhar é que a guerra de 1999, em todas as suas dimensões e camadas, ainda não se fechou. E que as suas consequências duradouras – com destaque para o desmembramento da federação Jugoslava, o permanente julgamento dos sérvios (colectivamente considerados) a par de uma inacreditável absolvição de bósnios, croatas e albaneses, a constituição de um território independente no Kosovo, o fortalecimento de facções islâmicas sunitas salafistas na Bósnia e no Kosovo e a progressão da NATO pelos Balcãs dentro – são ainda causa de inúmeros problemas e tensões com consequências imediatas ou a colher no futuro.

Dos Balcãs continuaremos a falar e a escrever. E temo que não seja pelas melhores razões.

Pedro M. Madeira Rolo Duarte

O Pedro Rolo Duarte foi militante da União dos Estudantes Comunistas. Tinha 13 anos, chumbou o ano por faltas e a Geninha Varela Gomes teve que aguentar a fúria da Maria João Rolo Duarte. Com toda a razão de mãe, a mãe do Pedro, por sinal nossa mãe, desfiava o sermão para a controleira do Pedro e gáudio do António, o mano velho e minha alegria chilreante. Ouvíamos escondidos e ríamos que nem uns perdidos porque o puto charila tinha sido apanhado e o que se adivinhava seria um castigo daqueles muito bons, reconfortantes para todos os irmãos que se querem irmãos embirrantes, irritantes, chatos como a potassa (expressão misteriosa, o que terá a potassa para a destratarem assim?). E não, o Pedro não foi castigado e aqui se percebe como a vida é injusta.

Passado um tempo de nada e o Pedro, pela mão do Miguel Portas, passou a controlar os putos charilas comunistas do Liceu Camões. Fora promovido e nós, os manos, assistíamos ao ensaio das intervenções do nosso miúdo. Eu aplaudia e o António atirava-lhe com cascas de amendoim. Era o tempo em que todos roubávamos cigarros SG Ventil ao pai Rolo Duarte. Abria-se o pacote por baixo, sacava-se um ou dois cigarritos, voltava-se a fechar o pacotinho prateado, agitava-se aquilo, cola no fundo e pronto. A operação delinquente era paga a peso de ouro a quem explorava a mina.

Tudo isto para dizer que o Pedro zangado com o Partido Comunista, como ele mesmo se encarregou de contar, foi uma das inúmeras formas de se revelar independente de tudo e todos. O miúdo armado em homem.

O gozo fraternal evoluía. Nas férias em Sintra, enquanto eu lia Artaud, clarôoo, pés nus contra a parede e o António limpava a VéloSolex continuavámos a mandar vir uns com os outros.

– A culpa disto tudo é do Portas…

– Vai-te catar! Estúpida…

– Vou cantar, vou «Il ne sait pas les feux des havres de la terre»

– Caluda, intelectuais do fundo de quintal!

E os dias corriam mansos e parvos, tranquilos para nós e ruidosos para os pais e que paciência tinham para os 3 manos ainda e apenas Duarte.

Quando o nosso pai partiu, decidimos adoptar o apelido Rolo Duarte porque até ali assinávamos Duarte sem Rolo, por respeito. Aquela passagem para a vida adulta, bruta, o Rolo Duarte em cada um dos nossos nomes foi sofrido. Recordo-me do Pedro ao meu lado na despedida do pai e do beijo que demos na caixa de madeira. Recordo-me de ver a mãe, a nossa mãe resistente, sobrevivente, a grande primeira jornalista portuguesa de desporto, o nosso apoio, a mãe ao longe e o António a segurá-la. Por esse tempo, todos votávamos no Partido Comunista. Até o puto charila zangado com o Partido. Aliás, eu perguntava sempre: votaste bem? Se calhar diziam-me sim-sim só para não me ouvirem a mandar vir. Ocorreu-me, agora mesmo, este pensar e sorrio.

Bom, se conseguir um bom resumo, ei-lo: o Pedro não é apenas o jornalista criador do DNA, o dos primeiros passos no Correio da Manhã que coincide com a RTP, a revista Capa, O Independente, entrevistas, rádio, o filho do seu pai e, mais tarde, o pai do seu filho. O irmão que aparecia com regularidade nas revistas pink lotion. Foi mais que isso. A vida dele acompanhou, infelizmente, a caída dos jornais. Nestes tempos cinza escuro, antracite, dias de carvão, o trabalho do Pedro dependia do cuidado da palavra escrita. Era vulgar ler-lhe trivialidades. Tornou-se, de resto, um quase especialista nesta matéria que cai bem em qualquer pano, não incomoda, as pessoas apreciam e é citável sem mácula. Para trás teriam ficado os deserdados, os chutados para canto, os que nada tinham e têm? Não. Se forem ver para trás, «está lá tudo» como diz o outro.

Ser ou não comunista? O Pedro foi militante, eu nunca por nunca e sem adversativa apoio o Partido que ouve quem trabalha, que não se cala e que nunca se cale perante toda a injustiça que não a morte de quem viveu bem. É e sempre será o esquecimento daqueles que ninguém lembra em vida. Os escritos do Pedro e acima disto a vontade que ele tinha de inventar e deixar inventar era a sua maior qualidade. Única. Rara. Tudo o que escrevi para as publicações dirigidas pelo Pedro nunca sofreram uma só alteração, um só reparo. Hoje, o Pedro Rolo Duarte não poderia escrever como antes e aceitar publicar, à vontade, quem escrevia, desenhava, fotografava; viesse de onde viesse, fosse quem fosse. E é este o Pedro comunista. O puto charila militante da União dos Estudantes Comunistas no ano de 1977.

O meu irmão.

*Autora Convidada
Fátima Rolo Duarte

Medina e o amarelo da Carris

Carta Aberta ao Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Dr. Fernando Medina.

Caro Fernando,
Ouvi-o dizer há alguns meses que o conceito de “turistas a mais não existe. Não tem sentido“. Em plena época de recreio gostava de o incitar a fazer um teste: viver durante uma semana na cidade cujos destinos tem gerido apenas com o passe nas mãos, o mais básico, mantemos o teste dentro da primeira coroa da cidade.

O que sugiro é que vá viver para um local da cidade de Lisboa e que, todos os dias, imagine que trabalhe num sítio diferente. Nesta sua semana sugiro então um conjunto de tarefas:

– apanhar o 28E no Martim Moniz tendo que chegar em meia hora ao final da linha, leve o protector, que a exposição ao elemento solar é perigosa!;
– apanhar o 15E no Cais do Sodré em direcção a Belém, a qualquer hora do dia, aqui terá duas experiências diferentes, a da sardinha em lata ao sol e a da sardinha em lata à lua, porque o eléctrico maior não deve conseguir andar de noite… sugestão, se tiver sono, saia meia hora mais cedo, porque naturalmente não vai apanhar o primeiro eléctrico;
– apanhar a linha verde do metro no Cais do Sodré às 8h30 da manhã (ainda bem que agora Arroios fechou, senão era sardinha em lata subterrânea);
– esperar pelo 760 no Desterro, por exemplo. Mas não se esqueça de mandar sms para a Carris e confirmar que o próximo autocarro chegaria a si dentro de 15 minutos, isto durante 25 ou mais…;
– apanhar a linha azul em São Sebastião por volta das 16h e ver que o próximo metro chega dentro de 9 minutos. Esperar 2 minutos, voltar a olhar para o tempo e ver que o próximo metro chega dentro de…9 minutos. Esperar mais 2 minutos…já percebeu, certo?
– para terminar, aconselho-o a fingir que é carteiro e que trabalhar na Baixa, de preferência tem de entregar cartas na Rua Augusta. Coisas com que terá de ter cuidado: pessoas que travam de repente para a selfie; círculos espontâneos que ocupam toda a rua para verem um artista de rua; empregados de restaurante que, tentando dar o seu melhor, o param a cada passo lhe dizerem “hello!”; e enfim, todo um labirinto de pernas, gadgets, pára-arranca a caminho.

Pronto, fiquemos por aqui.

Se depois de cumprir estes desafios continuar a achar que não há turistas a mais, tiro-lhe o chapéu, é um guru da paciência. Se conseguir passar por isso e nem por um segundo tiver vontade de soltar um berro no meio da rua porque o 728 vinha cheio e não parou, prometo que lhe ergo uma estátua.

Mas até vou concordar consigo, não há turistas a mais, é verdade. Mas há autocarros a menos, metro a menos, limpeza a menos, planeamento a menos, sentido do real a menos. O Fernando tem um gabinete, sai do gabinete vai para os estofos do automóvel, e dos estofos do automóvel para o conforto da casa. Deve chatear-se por vezes com o trânsito, mas este seria menos com transportes a mais…

Enfim, Lisboa está um caos, convença-se disso.
Se quer, como todos queremos, que continuem os estrangeiros a adorar Portugal e Lisboa, pense que a primeira coisa a fazer é mesmo dar melhores condições para quem cá vive, viver melhor, mover-se melhor, desperdiçar menos energias a rogar pragas à enchente de turistas.

Repetindo, o problema não é a enchente, é o serviço da Carris não dar mostras de melhoria, são os constantes problemas técnicos do Metropolitano (até quando havia muitas greves o metro passava mais vezes…), é a impossibilidade que uma família normal tem para alugar uma casa sem ter de hipotecar a vida, é a palermice de decidir que o caos de Lisboa devia aumentar com obras em cada m2 só para chegarmos ao final de Setembro com o seu ego ajardinado.

Por mim estou farto de Lisboa, só não fui já embora porque a minha actividade, para já, não o permite. Mas lhe garanto, assim que tenha possibilidade para o fazer, ála que se faz tarde! Pelo menos passo a ser menos um para lhe dizer que enquanto tivermos respeito a menos por quem vive na cidade, continuará sempre a haver turistas a mais.

No 75º aniversário do assassinato de Ferreira Soares

Corria o dia de ontem e assinalava-se em Nogueira da Regedoura(Sta.Maria da Feira) mais uma sentida homenagem a Ferreira Soares, “Dr. Prata”, militante do PCP, assassinado a tiros de pistola-metralhadora no seu consultório.

Ferrreira Soares nasceu em 1903 em Viana do Castelo, tendo cursado Medicina na Universidade do Porto. Concluído o curso, exerceria a sua actividade clínica primeiro em Espinho e depois em Nogueira da Regedoura. Seria ainda reconhecido etnógrafo, crítico e contista.

Localizando Ferreira Soares, é preciso caracterizar a década de 30, é necessário relembrar, muito sumariamente que por essa altura se fortificava pelo país o regime fascista do Estado Novo, com o desmantelamento(pela repressão, pela desistência e até adesão) de um conjunto significativo de estruturas de intervenção  política e social, a situação de miséria e pobreza em que viviam as classes populares e trabalhadoras(mortalidade infantil, fome, desemprego, analfabetismo, entre tantos outros dramas), e também um quadro internacional em que o fascismo e o nazismo avançam por quase toda a Europa. Note-se ainda que, também neste tempo o PCP atravessa um período marcado por diversas dificuldades que o debilitam muito.

Não obstante a aspereza da situação geral, corajosamente Ferreira Soares desenvolverá uma intensa actividade revolucionária e militância, na unidade antifascista, com e pelo alargamento da influência do PCP, integrando o seu Comité Regional do Douro.

A actividade política que desenvolveu naquela época, acabou por ter o destino provável da perseguição e da semi-clandestinidade forçada em 1936, obrigando o “Dr. Prata” a deslocar-se para Nogueira da Regedoura.

Na região, sabia-se que Ferreira Soares, conhecedor da pobreza que grassava pelas populações, comummente e solidariamente prestava o seu auxílio médico graciosamente aos que não tinham qualquer condição para aceder à Saúde. Apenas cobrava a quem podia cobrar. Justamente, Ferreira Soares construíra o médico presente, o homem bom e comunista prestigiado.

Em 4 de Julho de 1942, a PVDE, com recurso a um falso ferimento de uma agente sua conseguiu introduzir-se em sua casa, que era também o seu consultório, e aí alvejou-o com 14 balas de pistola-metralhadora.

O assassinato, o desaparecimento físico de Ferreira Soares constituíram um momento de enorme consternação para o povo das redondezas, o seu enterro foi uma expressiva manifestação de dor, revolta e protesto daqueles que ele fraternalmente apoiara e pelos quais acabaria dando a sua própria vida.

Ferreira Soares, o “Dr. Prata”, pela sua intervenção, pelo seu exemplo, pela sua memória, é ainda hoje um força presente na luta dos democratas e dos comunistas.