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Netanyahu e o revisionismo histórico

As recentes declarações do primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, não são apenas mentirosas, lamentáveis e provocatórias [1]. No quadro da legislação em vigor no seu próprio país, o que Netanyahu fez foi violar a lei que criminaliza o revisionismo histórico em torno do Holocausto (Lei 5746-1986), nomeadamente no seu ponto n.º2 [2].

Neste contexto, foi sem surpresa que li as declarações da responsável pela investigação histórica do Centro Internacional do Holocausto – o Yad Vashem de Jerusalém –, Dina Porat, que se referiu à tese defendida por Netanyahu como “absolutamente falsa”. [3]

No mesmo sentido, o editorial do Haaretz [4] não esconde o desconforto de parte da sociedade israelita face a um discurso que usa a mentira e a falsificação histórica para procurar explicar a política racista, segregacionista e expansionista que o Likud e os seus aliados de extrema-direita impõem nos territórios cercados de Gaza e da Cisjordânia.

Ao atribuir ao Grande Mufti de Jerusalém responsabilidades directas no Holocausto, por oposição ao Chanceler alemão – Adolf Hitler –, que queria “apenas” expulsar os judeus dos territórios ocupados da Europa, o que Netanyahu pretendeu foi demonizar um povo que nenhuma relação teve com a acção criminosa das unidades militares do III Reich na Europa devastada pelo segundo grande conflito mundial do século XX. E como todos sabemos é bem mais fácil bombardear e oprimir um povo demonizado do que seres humanos de carne e osso, como nós.

O Holocausto não visou apenas judeus, como é bem sabido. E ainda que, no plano meramente académico, “Holocausto” (ou Shoa) se refira em exclusivo aos homens e mulheres, velhos e crianças judeus mortos pelos nazis por razões de natureza puramente étnico-religiosa, será bom nunca esquecer que o genocídio foi muito (mas muito mesmo) mais longe. Os Roma (ciganos), por exemplo, poderão ter sido – em proporção populacional – bem mais atingidos pelos batalhões de morte nazi-fascistas [5]. Outros grupos como os portadores de deficiência, homossexuais, certas confissões religiosas – como as Testemunhas de Jeová – e, naturalmente, comunistas, anarquistas, socialistas, prisioneiros de guerra e partizans foram igualmente conduzidos a campos de extermínio para morrer lado a lado com outros “sub-humanos”. Esta operação de industrialização da morte não foi uma iniciativa individual de Hitler, muito menos do insignificante Mufti de Jerusalém. O Holocausto foi o mais macabro, perverso e criminoso desenvolvimento natural do nazi-fascismo (não apenas alemão) no contexto de 33-45.

A manobra táctica israelita não regateou baixeza, mas esta não passou nem passa ao lado dos próprios israelitas, naturalmente conhecedores dos verdadeiros e sinistros contornos da acção das forças hitlerianas e outras suas aliadas de várias nacionalidades. Netanyahu quis isolar os palestinianos e agora, ao olhar à volta, apenas encontra a suportá-lo o sempre presente amigo norte-americano. A sua intervenção pública envergonha Israel e os judeus, uma vez mais.

No que depender do Likud e de Netanyahu – o bombeiro incendiário do médio-oriente – a paz será sempre uma miragem.

Notas:
[1] “Hitler não queria matar os judeus, defende o primeiro-ministro de Israel“, Expresso, 21.10.2015.
[2] Leis contra o negacionismo/revisionismo histórico relativo ao Holocaust, Wikipédia.
[3] “Yad Vashem’s Chief Historian on Hitler and the Mufti: Netanyahu Had It All Wrong“, Haaretz, 22.10.2015.
[4] “Netanyahu Is Cheapening The Memory of The Holocaust“, Haaretz, 22.10.2015.
[5] Genocide of European Roma 1939-1945.
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