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O MRPP, Bataclan e a vergonha alheia

Para quem não acompanhe a sórdida e não menos entediante telenovela em que se transformou o MRPP, aqui vai um resumo rápido: o Garcia Pereira perdeu votos nas últimas legislativas e, como castigo, foi purgado por Arnaldo Matos com direito a humilhações públicas, insultos à família e uma média de quatro palavrões por editorial no jornal do partido.

Chega o educador da classe operária jubilado, Arnaldo Matos, expulsa a «cambada de catatuas» que dirigia o partido, decreta que Garcia Pereira é anti-comunista primário, social-fascista, traidor, entre outros epítetos, pondo em marcha uma lavagem de roupa suja que faria corar até o mais apolítico leitor. As semanas passaram e a verbosidade de Arnaldo Matos, sob vários pseudónimos, continuou a descer de nível: fraudes fiscais, exploração laboral, insultos de natureza sexual, muito ódio ao PCP, contínua condenação da CGTP, etc. Nada de novo para quem sabe o que é e sempre foi o partido de Durão Barroso.

Mas eis que no editorial deste sábado, Arnaldo Matos consegue deixar perplexos até quem julgava já conhecer o clube do MRPP. A propósito dos últimos atentados de Paris, Arnaldo Matos elogia a «espectacular coragem dos jiadistas» que, no passado dia 13 de Novembro, mataram 130 pessoas. «Não são fanáticos: são franceses patriotas em luta contra o imperialismo francês», acrescenta o líder do MRPP.

Mas o MRPP vai mais longe e diz-nos como entende a morte de uma centena de pessoas «que julgam ter o direito de se poderem divertir impunemente no Bataclan»: «atenção: não só não foi um massacre, como foi um acto legítimo de guerra».

Há muito sabemos que o MRPP não é um partido: é um instrumento para descredibilizar o símbolo que usurparam. Para o capital a utilidade do MRPP é directamente proporcional ao seus histerismo e obscenidade. Desta vez, ao elogiar o cobarde assassinato de trabalhadores franceses e das suas famílias, tenham, talvez, ido longe demais.

Um discurso intemporal – Chaplin, o grande ditador

Desculpem-me, mas eu não quero ser um Imperador, esse não é o meu objectivo.  Eu não pretendo governar ou conquistar ninguém.
Gostaria de ajudar a todos, se possível, judeus, gentios, negros, brancos. Todos nós queremos ajudar-nos uns aos outros, os seres humanos são assim. Todos nós queremos viver pela felicidade dos outros, não pela miséria alheia. Não queremos odiar e desprezar o outro. Neste mundo há espaço para todos e a terra é rica e pode prover para todos.


O nosso modo de vida pode ser livre e belo. Mas nós estamos perdidos no caminho.


A ganância envenenou a alma dos homens, e barricou o mundo com ódio; ela colocou-nos no caminho da miséria e do derramamento de sangue.


Nós desenvolvemos a velocidade, mas sentimo-nos enclausurados:
As máquinas que produzem abundância têm-nos deixado na penúria.
O aumento dos nossos conhecimentos tornou-nos cépticos; a nossa inteligência, empedernidos e cruéis.
Pensamos em demasia e sentimos bem pouco:
Mais do que máquinas, precisamos de humanidade;
Mais do que inteligência, precisamos de afeição e doçura.


Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido.


O avião e o rádio aproximaram-nos. A própria natureza destas invenções clama pela bondade do homem, um apelo à fraternidade universal, à união de todos nós. Mesmo agora a minha voz chega a milhões em todo o mundo, milhões de desesperados, homens, mulheres, crianças, vítimas de um sistema que tortura seres humanos e encarcera inocentes. Para aqueles que me podem ouvir eu digo: “Não se desesperem”.


A desgraça que está agora sobre nós não é senão a passagem da ganância, da amargura de homens que temem o avanço do progresso humano: o ódio dos homens passará e os ditadores morrem e o poder que tiraram ao povo, irá retornar ao povo e enquanto os homens morrem [agora] a liberdade nunca perecerá…


Soldados: não se entreguem aos brutos, homens que vos desprezam e vos escravizam, que arregimentam as vossas vidas, vos dizem o que fazer, o que pensar e o que sentir, que vos corroem, digerem, tratam como gado, como carne para canhão.


Não se entreguem a esses homens artificiais, homens-máquina, com mentes e corações mecanizados. Vocês não são máquinas. Vocês não são gado. Vocês são Homens. Vocês têm o amor da humanidade nos vossos corações. Vocês não odeiam, apenas odeia quem não é amado. Apenas os não amados e não naturais. Soldados: não lutem pela escravidão, lutem pela liberdade.


No décimo sétimo capítulo de São Lucas está escrito:
“O reino de Deus está dentro do homem”
Não um homem, nem um grupo de homens, mas em todos os homens; em você, o povo.


Vós, o povo tem o poder, o poder de criar máquinas, o poder de criar felicidade. Vós, o povo tem o poder de tornar a vida livre e bela, para fazer desta vida uma aventura maravilhosa. Então, em nome da democracia, vamos usar esse poder, vamos todos unir-nos. Lutemos por um mundo novo, um mundo bom que vai dar aos homens a oportunidade de trabalhar, que lhe dará o futuro, longevidade e segurança. É pela promessa de tais coisas que desalmados têm subido ao poder, mas eles mentem. Eles não cumprem as suas promessas, eles nunca o farão. Os ditadores libertam-se, porém escravizam o povo. Agora vamos lutar para cumprir essa promessa. Lutemos agora para libertar o mundo, para acabar com as barreiras nacionais, dar fim à ganância, ao ódio e à intolerância. Lutemos por um mundo de razão, um mundo onde a ciência e o progresso conduzam à felicidade de todos os homens.


Soldados! Em nome da democracia, vamos todos unir-nos!


Olha para cima! Olha para cima! As nuvens estão a dissipar-se, o sol está a romper. Estamos a sair das trevas para a luz. Estamos a entrar num novo mundo. Um novo tipo de mundo onde os homens vão subir acima do seu ódio e da sua brutalidade.
A alma do homem ganhou asas e, finalmente, ele está a começar a voar. Ele está a voar para o arco-íris, para a luz da esperança, para o futuro, esse futuro glorioso que te pertence, que me pertence, que pertence a todos nós.
Olha para cima!
Olha para cima!

Paris, e agora?

Paris, sexta-feira, 13 de Novembro de 2015, 7 actos hediondos abalam o mundo. Homens bombistas explodem junto do estádio onde decorria o França-Alemanha, onde famílias com os seus filhos assistiam a um simples jogo de futebol.

Numa sala de concertos, ouvia-se Eagles of Death
Metal
, como também eu já ouvi entre amigos, e entram pessoas que desatam a
disparar. E a matar.

Num restaurante janta-se e morre-se porque de fora estão pessoas a disparar furiosamente.

O ISIS reclama o atentado, justificando-o com o apoio de França ao armamento de tropas curdas. O primeiro atacante está identificado: é francês.

Sucedem-se as declarações de apoio a Paris, no meio do horror, as portas de todas as casas abrem-se para que ninguém fique na rua, os taxistas levam as pessoas gratuitamente para casa, as pessoas unem-se contra o medo e o horror.

«Pelas entranhas maternas e fecundas da terra/ Pelas lágrimas
das mães a quem nuvens sangrentas/ Arrebatam os filhos para a torpeza da
guerra,/ Eu te conjuro ó Paz, eu te invoco ó benigna,/ Ó Santa, ó talismã
contra a indústria feroz. (*Natália Correia)»

Há dois dias, Beirute.

As chamadas “Primaveras Árabes” ajudaram, juntamente com países como França e os EUA, a financiar e armar a chamada oposição Síria pelos poderes imperialistas, que resultou, entre outras coisas, na formação e alargamento da monstruosidade do “Estado Islâmico”, assim como a criação de uma enorme onda de refugiados, dentro do país (cerca de 10 milhões de pessoas) e também para países estrangeiros (principalmente para a Turquia, Líbano e Jordânia, onde vivem cerca de 2 milhões de pessoas que tiveram de sair das suas casas e, dessas, aquelas que podem tentam chegar a países Europeus).

É preciso lembrar que os países europeus estão – factualmente – a armar países na Europa e fora dela para uma guerra em larga escala em que todos nós somos potenciais vítimas e que o ISIS é financiado, treinado e armado por países como Israel e os EUA. Ou seja, estas potências são simultaneamente o atacante e o defensor.

Restamos nós como vítimas. E entre nós, apressam-se a surgir debaixo das pedras do obscurantismo, por detrás de títulos académicos ou comentários em redes sociais os que querem que a sociedade se volte contra si própria, vasculhando o vizinho do lado – todos somos potenciais criminosos. A nossa pele, a nossa religião, a nossa ideologia é a nossa culpa e a nossa arma e devemos ser julgados por isso. E multiplicam-se os comentários xenófobos e perigosos que exigem e clamam políticas securitárias, encerramento de fronteiras, controlo das comunicações electrónicas e telefónicas, todos somos suspeitos. Todas as prisões devem ser Guantamano. Todas as leis devem ser preventivas. Todos somos culpados.

O carácter de classe e as intenções das forças que estão envolvidas no conflito militar na Síria e no resto do mundo, a pretexto da ” guerra contra o terrorismo”, ou das “razões humanitárias”, ou da aprovação da ONU e, por isso, de acordo com a lei internacional. têm o selo do lucro capitalista, dos lucros dos monopólios e da competição desenfreada a desenvolver-se entre eles, sobre a divisão das matérias-primas, as rotas de transportes, os gasodutos e as acções bolsistas (convém não esquecer as riquezas naturais que estão em causa – o petróleo e as rotas comerciais – isto não é uma guerra religiosa).

Toda a solidariedade com as famílias e amigos das vítimas dos atentados de Paris e de Beirute. Toda a luta contra o racismo, a estupidez e a ignorância. Todo o combate às medidas de opressão, repressão. Toda a denúncia contra os assassinos de ontem e aqueles que lhes põem as armas na mão. Pela Paz.

Depois de Beirute, Paris

Só para lembrar que é dos responsáveis pelo banho de sangue em Paris que fogem os refugiados que abandonam a Síria, o Curdistão, o Iraque e a Líbia. Ontem, foi em Paris. Anteontem, foi em Beirute, onde mais de 40 muçulmanos foram assassinados pelo terrorismo do Estado Islâmico. Em Beirute, morreram árabes. Em Paris, morreram europeus. Todos vítimas dos mesmos carrascos. Não se esqueçam disso quando começar a campanha xenófoba nas televisões, rádios e jornais.

A barbárie nas ruas de Paris é perpetrada pelos mesmos que regaram de sangue o Afeganistão, o Iraque, a Líbia e a Síria. Os mesmos que receberam dinheiro e armas dos Estados Unidos, União Europeia, Turquia, Israel e Arábia Saudita para acabar com regimes nem sempre alinhados com o imperialismo e devolvê-los à Idade Média. E as vítimas, como sempre, somos nós, os trabalhadores.