All posts tagged: PCP

Os da fila de trás

Quando eu era miúda e se juntava a tropa toda que não gostava do «Ramiro» porque era «repetente» (sim, estou a citar o Bruno Aleixo), era fácil para a maioria dos miúdos rir e gozar sem querer saber o porquê.

A minha turma tinha essencialmente filhos de operários de fábricas de calçado e cortiça. Sabíamos sempre quem eram os corticeiros porque normalmente faltavam-lhes dedos. Alguns eram filhos de médicos, advogados e professores (cerca de 7%), e uns poucos (ainda menos) de trabalhadores dos serviços (comércio, etc). A professora gostava que os 7% se sentassem sempre na fila da frente. Seguiam-se-lhes os dos serviços, e, por ordem, os do calçado e depois os da cortiça – eram os mais pobres.

Ao quadro, chamava sempre os da última fila. Normalmente os «repetentes», os que tinham mais dificuldades na aprendizagem, não andavam na «mestra» (era assim que chamávamos aos ATL’s), não tinham acompanhamento no seu estudo. Erravam os exercícios. Eram violentamente espancados pela Dona Alice (que, infelizmente nunca mais vi, teria muito que conversar com ela), incluindo bater com a cabeça na parede forrada a cortiça para os nossos desenhos.

Era demasiado fácil, naquela turma ceder à tentação e chamá-los burros ou repetentes. Mas não, não o fazíamos. Eu furava o esquema e sentava-me sempre na fila da frente para sussurrar as respostas a quem ia ao quadro. E se as não soubesse, os que tinham esse lugar por direito atribuído pela Dona Alice, diziam-mas e eu arranjava maneira de transmitir. Ficávamos sempre aterrorizados quando os das filas de trás eram chamados ao quadro. Nenhum de nós queria nada daquilo. Só queríamos aprender. E, na verdade, muitas vezes eles sabiam as respostas. Mas o medo que lhes era instigado era de tal ordem que nem conseguiam falar. Mas sabiam-nas. Porque apesar de tudo, estudavam, estavam atentos mesmo a ouvir pior do que todos os outros e queriam aprender. Perguntavam. Questionavam. E hoje são profissionais de excelência.

Mas quando alguém entrava na nossa sala, era uma turma bonita. A face visível era a dos que podiam (felizmente) comprar roupa e mochilas novas, livros e cadernos e não tinham que usar os dos irmãos os que lhes eram dados (se fossem). Era muito bonita.

Por que raio estou a contar isto?

Liguem a televisão. Vejam como, de repente, em todos os noticiários a «esquerda» aparece com uma imagem moderna, limpa, intelectualizada, preocupada, com propostas avançadas e arrojadas.

Abram o jornal e vejam como são bonitas as fotos, os sorrisos, a cosmética comunicacional.

E depois, vem a direita, sempre muito bem composta.

E depois, vêm os comunistas. Imagens agastadas, críticas que tantas vezes nem correspondem à verdade, agregados a propostas da tal esquerda moderna que as apresentou, sem nunca se referir que os comunistas já defendiam essas coisas há décadas (alargamento da licença de maternidade e paternidade, aumento do respectivo subsídio, criminalização dos recibos verdes, fim da precariedade na Administração Pública, criação de uma licença de prematuridade, fim das propinas, investimento no cinema português, …..). E, claro, os chavões de sempre, agora usados à «esquerda» e à «direita»: moralistas, aliam-se à direita, conservadores e o que mais houver.

E, se acaso um comunista ousar criticar uma posição moderna, pois será ele o sectário, o impossível, o intolerante e autoritário.

É que, meus caros, eu uso óculos Prada e defendo um salário mínimo nacional de 600 euros (que acho pouco) e 35 horas de trabalho para todos. Vou a museus, gosto de arte, adoro música, escrevo sobre cinema. Não sou um estereótipo. Mas o que se critica são os óculos de sol. Mesmo que os tenha comprado com horas e horas e horas de trabalho, não interessa. Nunca poderei ter a imagem da «esquerda moderna». A essa sim, cabe-lhe a roupagem.

E cabe, caberá sempre essa roupagem à social democracia. Porque por mais que falem dos direitos dos trabalhadores, não se lhes deixa de encontrar sempre a hostilidade aos comunistas. Que a comunicação social adora, empola, e, como na escola, consegue o efeito de massas. São os «repetentes». Ficam no fundo da fila. Porque o que eles sabem, não interessa que se saiba. O que eles dizem, convém não ser ouvido. Muito menos escrito e lido. Porque as suas ideias moveram e movem massas. Organizam trabalhadores. Criam sindicatos. Dizem que assim não pode ser. E transformam. Transformam o sonho em vida.

E enquanto a imprensa inventa a «esquerda moderna», a Holly Golightly do fabuloso Breakfast at Tiffany’s, a que é encantadora, mas afinal, vazia, os da fila de trás não ficam nem vão ficar parados. E era tão bonito perceber que, de facto, o que é preciso é a realidade de quem trabalha a falar por si (porque está a falar por todos os que trabalham) finalmente começa a brotar quando se liga uma televisão ou se abre um jornal… Mas isso, cabe-nos aos da fila de trás, boca a boca, papel na mão, conversa no café, no tribunal a defender o trabalhador, no bairro a defender melhores condições de vida, na Assembleia da República a apresentar propostas que melhorem, efectivamente, a vida dos portugueses ao invés de se transformarem em posts de facebook ou tweets ridículos de tão bafientos que são.

Cá estaremos.

Rui Moreira Rio

O Rui Moreira confunde a sua vontade com a vontade da cidade do Porto. Felizmente, e como todos sabemos, já existia Porto antes do Rui Moreira e, curiosamente, também já existia PCP antes do Rui Moreira. O PCP está a favor da cidade do Porto, como sempre esteve, embora esteja contra o Rui Moreira. Por incrível que isso possa parecer, ao presidente da CMP, há quem não concorde ele. Chama-se democracia e foi por isso que o PCP lutou anos e anos na clandestinidade, embora isso possa parecer estranho a quem representa, encapotadamente, os dois partidos que são herdeiros da outra senhora.



Rui Moreira, tão defensor da independência do Porto e do norte, confundindo os dois tantas vezes, deveria recordar qual foi e é o partido a favor da regionalização, aquele que efectivamente fez campanha por ela e aquele que mais contesta, na AR e fora dela, a divisão na atribuição de fundos europeus. Ao contrário de outros, o PCP diz ao povo do Porto o que diz ao povo do país. Não faltarão casos, como Rui Moreira bem saberá, de deputados de outros partidos, eleitos pelo círculo do Porto, que distribuem sorrisos nas ruas da cidade e se esquecem dela no parlamento.

Por fim, sobre este assunto,utilizar um espaço de divulgação da CMP, pago por todos nós, incluindo os comunistas, para ataques políticos, é de um baixo nível atroz, até mesmo para uma cidade em que o baixo nível se mede pela escala Rui Rio.

O presidente, que até escreveu um livro sobre a TAP e o Porto em tempo recorde, ganhou simpatia por defender a cidade contra a companhia. Esqueceu-se, no entanto, que a raiz do problema está na privatização da TAP, que os seus amigos do PSD e CDS tentaram e que o PS não teve coragem para afrontar, optando por uma solução que não é sim nem sopas.



Sobre a privatização da TAP, Rui Moreira foi claro: “A TAP não é estrutural para o Aeroporto Francisco Sá Carneiro nem para região, nem a região parece ser estrutural para a TAP. Não dramatizo essa situação, é um problema do Governo, não é um problema nosso“.



Obviamente, como o PCP afirmou e previu, transformou-se numa questão estrutural para todos. A menos que o livro editado tenha sido só para gastar papel e rasgar as vestes, que até levou a ataques a regiões e autarquias galegas, com quem o Porto tem e deve ter uma ligação profunda.

O tempo dirá quem beneficiou com o silêncio do presidente da CMP durante a discussão da privatização da TAP e se, directa ou indirectamente, estavam ligados à Associação Comercial do Porto. O PCP cá estará para ver. E a cidade também.

Nas ruas sobra o espaço que não cabe no orçamento

Há poucos dias, conversava com um amigo sobre o Orçamento do Estado proposto pelo PS e aprovado, na generalidade, com os votos do PEV, do BE e do PCP.

Sentados na Praça do Município lisboeta e separados pelo já tradicional tabuleiro de xadrez, o debate discorria previsivelmente entre as duas balizas do governo de Costa. Por um lado, a travagem do rumo renitido por PSD e CDS-PP, com importantes, embora tímidos, sinais de inversão de marcha.
É inegável, neste campo, o impacto social de algumas medidas já aprovadas como o fim dos cortes salariais para os trabalhadores da administração pública, a redução da sobretaxa de IRS, a restituição de 4 feriados roubados, a redução da taxa máxima de IMI, a redução das taxas moderadoras, o início da gratuitidade progressiva dos manuais escolares, o congelamento da propina máxima, a redução do IVA na restauração, o novo apoio a desempregados de longa duração, a revisão da base de cálculo das contribuições dos trabalhadores independentes ou as medidas de Combate à precariedade na Administração Pública e no Sector Empresarial do Estado.

Por outro lado, quem pode ignorar a incapacidade do PS de debelar as causas estruturais da crise económica que condena o nosso povo à miséria? Das privatizações da EGF à CP Carga passando pela política de nacionalização dos prejuízos dos banqueiros, o PS continua atavicamente amarrado à sua história e à sua classe.

O resultado, concordávamos os dois, é perigosamente exíguo: o salário mínimo de miséria, a falta de funcionários públicos, as 40 horas de trabalho, a submissão à dívida usurária e aos caprichos da EU… tudo neste governo é parco, insuficiente e, em demasiados casos, avoengo e fétido de Passos.

Eis então o busílis: qual é a utilidade de uma pequena concessão que não resolve o problema fundamental?

Reformismo, esquerdismo e coerência

O reformista argumentaria qualquer coisa em mal menor, asseverando que o mundo só avança de mal para pior. O reformista começaria o discurso com «É assim,» e lembrar-nos-ia da nossa fraqueza para sugerir, de seguida, voltar a receitas caducas e esgotadas para mais e novas cedências falidas como quem responde a mensagens de spam ou investe num vídeo-clube em Vila Nova de Gaia ou num Centro de Formação de Formadores de Empreendedores.

Já o esquerdista recusaria todo e qualquer compromisso e, batendo no peito, reafirmaria que como é contra a exploração não pode defender aumentos salariais. Como um rato que mexe mas não clica ou uns óculos muito bonitos mas sem graduação, o esquerdista diria que prefere o Passos no poder à manifesta insuficiência do Costa. Pouco tempo depois, estaria a dizer que com o Salazar é que era bom e a augurar cenários mais negros que o coração de um patrão de uma empresa de trabalho temporário.

Já o revolucionário, diria que as conquistas e as reformas só valem na medida em que sirvam para alavancar novas conquistas, demonstrando aos trabalhadores que é possível avançar e acentuando por esta via as contradições do capitalismo. Neste sentido, as reformas são úteis sempre que nos deixarem mais próximos da revolução.

Acabámos por concordar os dois que o Governo é só do PS mas que a possibilidade de avançar não depende dele porque o PS e a vontade do PS dependem só dos interesses de grandes empresários e banqueiros. O proveito deste governo para quem trabalha só pode estar dependente da luta de quem trabalha e da sua capacidade de exigir e conquistar nos locais de trabalho e nas ruas o que só as ruas podem dar. É pela luta que vamos lá.

Do reformismo à colectivização forçada

O PCP mudou. Uma autêntica perestroika. Uma profunda desfiguração do partido marxista-leninista, operário e comunista. Abandonando os seus princípios e contra muitos dos seus militantes deixando de lado as bandeiras fundamentais sobre a NATO, a renegociação da dívida, a preparação do país para a saída do Euro e o controlo público da banca, o PCP torna-se muleta do PS para que o PS chegue ao poder.

O PCP é um partido revolucionário, cristalizado no tempo e nos  seus princípios anacrónicos, dogmático, sectário e sem respeito pelo regime democrático que vai colocar em causa a estabilidade da zona euro, com a saída impulsiva da moeda única, da União Europeia e da NATO, ao mesmo tempo que não quer pagar a dívida, quer destruir a iniciativa privada e ocupar as propriedades dos que as adquiriram com suor. A coreia do norte será o parceiro comercial privilegiado e o país ficará sem financiamento nos mercados.

Nada espanta que possamos, nos dias que correm, ler ambos os parágrafos numa página de jornal. O primeiro parágrafo destinado a inquietar militantes e simpatizantes do PCP e o segundo destinado a acicatar as franjas mais reaccionárias contra a constituição e contra a possibilidade de construção de um governo alternativo que não permita a continuidade do PSD e do CDS no poder.
Ambas as teses, contudo, assentam nas habituais caricaturas. Só faz sentido aceitar a primeira se aceitarmos a caricatura que faz do PCP um partido alienado do sistema político e até do regime democrático, fechado em si mesmo, anti-democrático, sectário e dogmático. Ao mesmo tempo só faz sentido aceitar a segunda tese se alinharmos precisamente na mesma caricatura. Na primeira tese, o PCP desvia-se da caricatura e isso é uma desfiguração. Na segunda mantém-se a caricatura e isso assusta muitos portugueses que do PCP nunca viram outra coisa senão o que a comunicação social veicula, ao mesmo tempo que encoraja e toca a reunir as mais agressivas componentes da burguesia e da direita reaccionária e fascista.

Há depois ainda duas teses híbridas:

1. o PCP está numa viragem oportunista e pretende uma aproximação ao PS, conduzindo o Partido a um futuro não muito brilhante, nem muito comunista. Essa tese é única exclusivamente construída com base no comportamento institucional do PCP e ignora o comportamento dos comunistas no movimento operário, no movimento sindical, no movimento estudantil, nos movimentos sociais em geral e desliga a componente institucional da componente de massas e do movimento de reforço orgânico do Partido que está em marcha. Ou seja, os que pudessem defender a ideia de um comportamento oportunista do PCP, ou mesmo institucionalista, fá-lo-iam exactamente apenas com base naquilo cuja importância relativizam – a luta institucional. Tal como estariam a ignorar os anos de sucessivas lutas pela derrota da política de direita e pela derrota, em particular, do Governo PSD/CDS, e a conjuntura criada por esse anseio, conjuntura essa que tem influência determinante, quer nos resultados eleitorais, quer na expressão institucional que o PCP deu a esses resultados, virando completamente o cenário político, evidenciando o que estava escondido: PSD e CDS derrotados quando estes cantavam vitória com o amparo despudorado de Cavaco.

2. o PCP está apenas a aproximar-se do poder para, pela calada, impor um regime ao estilo soviético em Portugal. Não se preocupem os que possam temer tal golpe. Os comunistas portugueses nunca acreditaram no golpismo nem no putschismo. A luta de massas é o caminho que decidimos construir e percorrer. O terrorismo sempre foi cartada da direita e o golpismo e putschismo é coisa sobre a qual Paulo Portas e Passos Coelhos vos podem dar umas dicas. Afinal de contas, foi Paulo Portas que trepou até Vice-Primeiro-Ministro com 11% dos votos e em coligação pós-eleitoral depois de uma demissão irrevogável e foi Passos Coelho quem chegou ao poder com os votos dos que estavam contra a austeridade do PS/Sócrates apenas para aplicar um programa de reconfiguração do Estado nunca declarado, tomando o poder com a mentira e agora tentando a todo o custo manter-se no governo, independentemente de ser claro que a composição da Assembleia da República que resultou de eleições indica que governaria contra 62% dos portugueses que votaram.

Nós cantamos as mesmas canções


«Vitória!» A multidão explode num grito longo e encrespado. «Vitória!» repete e prolonga o mar de gente, ecoado no frontão do Palácio de São Bento com a persistência das vagas contra as fragas. «Vitória!» e tremem, no tímpano do palácio, as estátuas moles que enfeitam o estrado. «Vitória», outra vez. Mil vezes «Vitória».

Porquê tanto entusiasmo? Por causa daquelas notícias (talvez ainda se lembrem), de gente suicidada quando o desespero e o governo venceram. Porquê tanta alegria? Porque desta vez perderam os ladrões que roubaram a electricidade e o pão e a água e a dignidade e a esperança aos velhotes da minha rua. Porquê tantas palmas? Porque hoje perderam os milionários e venceram os trabalhadores.

Trata-se de uma pequena vitória à escala da História dos povos, é certo. Nada está conquistado e teremos que lutar por tudo: o aumento dos salários, o fim da precariedade, a redução dos horários de trabalho, a melhoria das condições de trabalho… Mas esta terça-feira, os trabalhadores mostraram ao país, para lá de qualquer dúvida, que a luta é o único caminho. Foi a luta dos trabalhadores que retirou 700 mil votos à PàF. Foram milhares de greves e manifestações de Norte a Sul do país que, malgrado o gigantesco empenho da comunicação social, disseram não à austeridade.

E valeu a pena lutar, nem que fosse só por esta lufada de esperança e de entusiasmo. Mil vezes, valeu a pena. Apesar dos dias de salário perdidos, apesar de termos caído nas más graças do patrão, apesar das ameaças, apesar de não termos tempo, apesar dos filhos, da saúde dos pais e apesar do dinheiro.

Esquerda, divisões e definições

Valeu a pena, nem que fosse só por esta imagem que revela, com olhos de Blimunda, o que a política é no fundo: uma praça dividida em dois. De um lado umas dezenas de ricaços, patrões e meninos dos colégios de luxo. Do outro, operários, pedreiros, cientistas, estivadores, médicos, varredores, reformados, enfermeiros, professores, trabalhadores das limpezas, bancários, desempregados, motoristas, arquitectos e estudantes e mil vezes mais trabalhos, o que já diz o que é isto que esta gente é toda: trabalhadores.

Fora os matizes nas bandeiras monárquicas e as marcas da roupa de luxo, o lado dos patrões é uníssono no amor à PàF e nos gritos de ódio como «Morre cabra!!!», «Comunas para a Sibéria!!!» ou, simplesmente, «Morre!!!». Que ninguém se iluda: esta terça-feira, a direita mais trauliteira, cavernosa e anti-democrática começou a longa reaprendizagem das manifestações de ódio e da pancadaria. Não tarda, estarão a pedir «impeachments», intervenções militares e ajudinhas dos EUA.

Pedro Arroja a dar tudo.
“Aqui entre nós, que ninguém nos ouve..”Ouvimos, ouvimos, Pedro Arroja. E bolsámos também. E bebemos uma água do Vimeiro. E voltámos a bolsar.(todo o crédito da captura do momento ao José António Fundo . Que nunca tires o dedo do gatilho <3)
Publicado por One Woman Show em Terça-feira, 10 de Novembro de 2015

Já no lado dos trabalhadores, como todos os dias nos recordam os comentadores da direita, é mais complicado encontrar unanimidade. Com efeito, entre o PCP, o BE, o PEV e o PS as diferenças programáticas, ideológicas e históricas são muito pronunciadas. Mas a manifestação desta terça-feira, tal como o acordo agora conquistado nas ruas, não precisou de esconder as diferenças.

Neste aspecto, é bom que nos lembremos de que os partidos, tal como a História, não são estáticos e que os seus eleitores e apoiantes não estão condenados a ser uma correia de transmissão dos interesses de classe das suas direcções. Mais exactamente, a enorme massa de trabalhadores que, tradicionalmente, vota no PS, chumbou taxativamente a austeridade e a política de direita. Neste aspecto, mais importante do que a capacidade do próximo governo PS cumprir as suas promessas ou defraudar os seus eleitores é a forma como esses milhões de trabalhadores se envolvam no processo de luta, reivindicação e exigências que, como disse o secretário-geral da CGTP, Arménio Carlos, começa amanhã.

Essa massa, dificilmente categorizável, de milhões de trabalhadores portugueses que se dizem «de esquerda» estão agora numa importante encruzilhada: votaram por uma mudança que afirme os valores de Abril, que valorize o trabalho e penalize o grande capital. Desta forma, ao se definirem assim individualmente, mesmo que sob outras formulações, milhões de eleitores redefiniram também a única coisa que pode ser a esquerda portuguesa. Esses trabalhadores não são propriedade de nenhum partido e devem ser considerados na sua permanente e dialéctica transformação que poderá, a curto prazo, acumular uma nova e enorme bagagem de experiência política.

É clara a ordem do povo português aos quatro partidos que agora assinaram um acordo: revogação da legislação laboral inimiga da vida de quem trabalha; valorização da contratação colectiva; aumento do salário mínimo nacional; reposição dos salários, pensões e feriados roubados; 35 horas de trabalho; mais e melhor escola pública; mais e melhor saúde pública; aumento dos subsídios de protecção social; reversão das privatizações; política fiscal justa e proporcional aos rendimentos. Quer a concretização destes objectivos a nível parlamentar, quer a evolução política e eleitoral de toda a ainda mal definida «esquerda» vão depender da profunda intensificação da luta nas empresas e nas ruas. É lá o lugar de toda a esquerda.

De volta à imensa manifestação de alegria que foi a queda do governo PSD-CDS/PP, não escondo que registei com agrado (e com um sorriso também) que muitas pessoas que não votam no meu partido cantaram comigo as canções do Zeca, do Adriano, no Sérgio… enfim… de Abril. Uma das canções revisitadas dizia assim:
Tu trabalhas todo o ano
Na lota deixam-te mudo
Chupam-te até ao tutano
Chupam-te o couro cab’ludo
Quem dera que a gente tenha
De Agostinho a valentia
Para alimentar a sanha
De esganar a burguesia

Mandadores de alta finança
Fazem tudo andar pra trás
Dizem que o mundo só anda
Tendo à frente um capataz
E toca de papelada
No vaivém dos ministérios
Mas hão-de fugir aos berros
Ainda a banda vai na estrada
Podem começar a correr: a banda já vai na estrada.

A esquerda pode não votar toda no mesmo partido mas, pelo menos, sabe a letra das mesmas canções. Espero, sinceramente, voltar a ver esta esquerda nas manifestações e piquetes de greve por melhores salários e por uma vida melhor. Numa palavra, por Abril.

Quem travou a austeridade é quem a pode inverter


O acordo entre PS, BE, PCP e PEV representa a possibilidade real de travar a cada vez mais veloz trajectória de austeridade e ataques aos direitos dos trabalhadores inaugurada com o 25 de Novembro.

Esse acordo não escamoteia a história, a natureza de classe ou a tradição política do PS ao longo de 40 anos, mas põe em evidência a preponderância do factor que, malgrado a identidade do PS, nos levou a um entendimento que poderá beneficiar todos os trabalhadores portugueses. À semelhança da actual correlação parlamentar das forças partidárias, os avanços sociais que um eventual governo liderado pelo PS poderá trazer dependerão da capacidade de luta do povo português. Foi a luta dos trabalhadores que impôs uma mudança de política. Será a luta dos trabalhadores a sua garantia, mas também o seu fiador, juiz e, se necessário, agente de execução.

Esta tese é confirmada pela estratégia de tensão posta em marcha por uma direita crescentemente radicalizada e disposta a arriscar cada vez mais: do despudor cartista de Cavaco ao terrorismo mediático orquestrado pela comunicação social dominante, o pânico quase unânime do grande capital é bem revelador dos posicionamentos de classe a que obriga este modesto acordo. A actualidade da luta de classes está, assim, à vista de todos: não vai parar, não deve parar nem poderia parar. A sua intensificação é a intensificação das contradições económicas e sociais do capitalismo.

Cabe agora aos trabalhadores e às suas organizações sindicais e políticas acumular, na luta, a força para derrotar o golpismo e transformar a travagem da austeridade numa inversão de marcha. Da mesma forma que o grande capital intensifica a sua luta para impedir a travagem da austeridade, a intensificação da luta dos trabalhadores será a única garantia de que o que foi assinado é cumprido, sendo também o factor determinante na estabilidade de qualquer governo.

E nada disto reduz a importância da natureza de classe de cada um. Pelo contrário. Numa experiência científica levada a cabo há alguns anos numa universidade húngara, um cão doméstico e um lobo tentavam abrir uma caixa com comida: o lobo procurava roer a caixa, contorná-la, compreendê-la, arrastá-la, vencê-la. Já o cão doméstico, falhando no objectivo de abrir a caixa, olhava invariavelmente para o dono.

É um avião? é um pássaro? É um “governo de esquerda”? Não… é um Governo PS.

Independentemente do que venha a ser o resultado institucional da rejeição do programa do PSD/CDS que até agora parece desenhar-se no horizonte, não está em cima da mesa, para já, a construção de um “Governo de Esquerda”.

Quando tal vier a ser uma realidade em Portugal, será certamente resultado de uma movimentação de massas consciente da necessidade de ruptura com o capitalismo e com a consolidação do processo de integração capitalista europeia e não apenas de resultados eleitorais. Mas para já o que está a parecer resultar das eleições legislativas de Outubro é uma derrota do PSD e do CDS, sem que exista necessariamente – como consequência directa – uma substituição automática das suas políticas por outras distintas e de “esquerda”.

A derrota do PSD e do CDS nas eleições e a constituição de uma maioria “atípica” numa conjuntura igualmente “rara” criam factualmente uma nova relação de forças institucional que permite materializar essa derrota na alteração dos protagonistas do Governo. Mas é também possível ir um pouco mais longe do que a habitual alternância sem alternativa. E havendo essa possibilidade, o PCP afirmou que o “o PS só não é Governo se não quiser” logo na noite das eleições e após a divulgação dos resultados. Isso significa que é preciso travar o passo ao PSD e CDS mas também que é possível construir uma política que, não sendo a proposta pelo PCP, nem pela CDU, é melhor para os portugueses do que a prossecução da actual.

A efabulação de que isso corresponde a um “governo de esquerda”,  a manterem-se as premissas conhecidas da política institucional portuguesa e a natureza dos partidos que a compõem, contribui mais para mistificar do que para esclarecer.

Não significa isto que não podemos vir a ter um Governo de Esquerda. Apenas que para já, tudo indica estarmos numa fase muito distinta dessa.

A construção da alternativa patriótica e de esquerda de que o país necessita não surgirá de reuniões entre partidos, mas emergirá da força do povo, da expressão da sua vontade inequívoca de mudar e ousar continuar os caminhos que ensaiou em Abril e que foram travados em Novembro. A direita está em pânico e fez baixar todo e qualquer padrão de dignidade que ainda pudesse ter. Há muito tempo que o grande patronato e o seu braço político (PS, PSD e CDS) não viam tão ameaçado o seu domínio.

E eis que o próprio PS se vê pressionado a definir-se sob pena de poder vir a ser considerado inútil no panorama da democracia partidária. Quem vos escreve não alimenta ilusões sobre de que lado se encontra o PS, mas também não alimenta simplismos. E uma coisa é um PS liberto para fazer o que quer e outra coisa é um PS que não pode fazer o que quer. Todavia, apesar de acossada e desvairada, a direita não está perdida. O grande capital não perde o norte tão facilmente.

Para situarmos a estratégia da direita é preciso compreender que ela se posiciona, neste momento, quase toda no plano das ideias e da ideologia, usando  a mentira, a chantagem, o terrorismo e a manipulação como instrumentos de pressão sobre o povo português, com o empenho descarado de Cavaco Silva.

É preciso compreender que PSD e CDS estão há meses a repetir a mentira do crescimento e a ladainha da recuperação económica, da diminuição do desemprego e do aumento das exportações e do investimento. Na verdade, toda essa construção é falsa e não corresponde à verdade. Na realidade, o país está mais pobre, está mais desigual, menos democrático e mais dependente – no financiamento e na produção. O país produz menos riqueza do que em 2011 e regrediu mais de 15 anos em muitos indicadores económicos.

Mas a insistência nessa mentira funciona como uma luz ao fundo do túnel para milhões de portugueses. E as ideias, não apenas a matéria, também moldam realidades.

Aceitar que o país está em rota ascendente é cair na primeira esparrela de PSD e CDS.

A segunda esparrela é aceitar a ideia de que estamos perante a emergência de um “governo de esquerda”. Porque, independentemente do governo que exercer funções nos próximos anos (ou meses) o país está factualmente asfixiado por uma dívida que foi contraída nos bancos e transposta para a dívida soberana, está factualmente depauperado e com o aparelho produtivo capturado pelos monopólios financeiros e económicos, está factualmente menos capacitado do ponto de vista social para lidar com a exclusão, a pobreza e a miséria, está igualmente depauperado no campo da investigação e desenvolvimento e da produção científica. Ou seja, essa realidade é que é o substrato da política institucional.

 E se um Governo PS tomar posse e entrar em funções essa realidade vai continuar a ser o verdadeiro cenário de governação. E PSD/CDS e o seu Presidente estão a fazer todo o caminho actual com os olhos postos no futuro: culpar a “esquerda toda”, o “socialismo”, pelos resultados do desastre que já aí está, mas camuflado pelas suas mentiras e propaganda.

O fio da navalha sobre o que caminhamos é demasiado estreito para equilibrismo – chamar “governo de esquerda” a um Governo liderado pelo PS, ainda que negociando algumas melhorias e medidas positivas para os trabalhadores com o PCP, é começar a tombar já para o lado errado.

*foto de obra da autoria de ± maismenos ±

“É matar os radicais”, disse o moderado!

Mas quando nos julgarem bem seguros, Cercados de bastões e fortalezas, Hão-de ruir em estrondo os altos muros, E chegará o dia das surpresas*

Nos últimos dias assistimos sem surpresa a uma escalada de “alertas” sobre a possibilidade da chegada ao poder de uns “perigosos partidos extremistas e radicais”. O PCP, esse partido até aqui elogiado pela direita por organizar manifestações “com todo o respeito pelas regras democráticas”, passou rapidamente a partido “da desordem”, do “caos”, do velho e regressado “papão” que não tem um programa “suficientemente aceitável” para governar o nosso país. Contudo, antes que os comunistas chegassem hipoteticamente ao poder, bastou esperar pelo início da noite de ontem para ver efectivamente o radicalismo e o extremismo tomarem conta – uma vez mais – da cena política nacional, e pela voz do próprio Presidente da República. “É matar os radicais”, lá disse o moderado!

A hierarquia das prioridades do presidente ficou clara: em primeiro lugar a NATO, em igual plano a União Europeia e a seguir os partidos, mas só os “bons”. Nem soberania ou independência, nem democracia, muito menos povo.

Depois de tantas semanas de alusões iradas ao comunismo e ao PREC, às pseudo-ditaduras, aos medos e às guerras infernais que povoam os preconceitos e a cartilha néscia dos ignorantes, a direita acabou por ter direito a um discurso parcial e ideologicamente comprometido feito à sua medida. A hierarquia das prioridades do presidente ficou clara: em primeiro lugar a NATO, em igual plano a União Europeia e a seguir os partidos, mas só os “bons”. Nem soberania ou independência, nem democracia, muito menos povo. Primeiro os grandes interesses, primeiro a beligerância imperialista e capitalista, e depois os partidos que lhes são e serão fiéis. O povo há-de ser sempre manso e subordinado, crêem eles, como tem sido até aqui. Cavaco só não propôs já a ilegalização do PCP e BE porque pareceria muito mal, seria demasiado escandaloso. Mas tudo no seu pensamento e na sua retórica aponta para esse desejo íntimo, essa vontade oculta, esse objectivo contido há décadas, de afastar de vez esse “incómodo” dos comunistas em Portugal. Nem o aparelho repressivo e persecutório de Salazar cumpriu essa “tarefa”, quanto mais agora um minguado, fraco e passageiro presidente eleito no fundo pelos resquícios do antigamente.

É importante que se perceba que esta gente – esta direita institucional, esta direita do poder, estes tipos que foram e são eleitos pelo PSD e pelo CDS – é gente que já não se mede nem mede as consequências do que diz. Esta gente – é esta e não outra – não tem qualquer tipo de respeito pelos conceitos basilares da democracia. Esta gente é agressiva, é violenta e fá-lo sob uma aparência enganadora. Contudo, esta mesma direita tem tremido como varas verdes nos últimos dias, tem arranhado paredes e urinado pelas calcinhas abaixo. Esta direita, mergulhada num “grande cagaço” – roubando a histórica expressão de Varela Gomes –, usa cargos políticos e institucionais – das autarquias à presidência da república – para procurar ganhar as pessoas pelo medo, pelas ameaças e pela chantagem. E isso pode vigorar por dias, meses ou anos, com efeitos e consequências. Mas um dia será o último. O respeito, a calma, a via legal e política existe e existirá… mas só enquanto for possível. Só enquanto for possível.

* – José Saramago.