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Um tal de Soeiro

Na semana passada, fiz o post que se segue, em torno de uma imagem extraída do site do Bloco de Esquerda, onde pode ler-se “Justiça para os pedreiros”.

Ora, confesso, nunca na minha vida tinha ouvido alguém referir-se a pedreiro como sendo trabalhador das pedreiras. Nem eu, nem a Classificação Nacional de Profissões, disponível aqui, no site do Instituto Nacional de Estatística.

Já em relação à categoria profissional de quem trabalha nas pedreiras, o Catálogo é claro. Chama-lhes trabalhadores das pedreiras.

Posteriormente, respondi ao tal deputado através do meu Facebook, e termino assim: “Assim sendo, as minhas desculpas aos pedreiros-montante”, atendendo a que, pelos vistos, mesmo não estando listados no Catálogo, se identificam como pedreiros. Dou, portanto, de barato que sejam pedreiros, ou pedreiros-montante, como o tal de Soeiro afirma designarem-se, porque até está escrito numa pedra que recebeu. No entanto, o tal de deputado publicou o seguinte texto, que transcrevo – a caixa alta no título é responsabilidade do tal – e pode ser encontrado na sua página do Facebook.


Um tal de Ricardo Santos, que se identifica como editor do Manifesto74, fez este tweet. Só que, ao querer falar da ignorância de outros, deu um monumental tiro no pé.

1. A foto diz respeito a um almoço organizado pelos trabalhadores das pedreiras de Perozelo, e não a uma iniciativa do Bloco. Foram eles que escolheram aquele mote. Se o Ricardo tivesse alguma vez na sua vida contactado com trabalhadores das pedreiras (que fazem a extração e transformação da pedra) saberia que eles se auto-intitulam pedreiros. E que a sua categoria é de pedreiro-montante. Que é diferente do pedreiro da construção civil, ou do calceteiro. Mas eles são pedreiros e é assim que se identificam.

2. O almoço em que esta foto foi feita tinha centenas de trabalhadores das pedreiras. Falei no almoço a convite deles, porque há dois anos que acompanho de perto a sua luta. No fim do almoço, estes trabalhadores das pedreiras ofereceram-me uma pedra gravada por eles (e fizeram o mesmo à Catarina Martins e a outras pessoas que eles escolheram) que dizia: “Obrigado Zé Soeiro. Os pedreiros de Perozelo agradecem”. Assim assinaram. O Ricardo que vá lá aos trabalhadores dizer-lhes que eles não são o que são: pedreiros.

3. Quer o Bloco quer o PCP (e já agora, também o PS) tinham propostas na especialidade sobre esta matéria. Ela foi incluída na proposta de lei original do Orçamento por proposta do Bloco. Depois, na especialidade aprovaram-se propostas de vários partidos (além das do Bloco e do PCP, também o PS e, quando perceberam que ia ser aprovado, até deputados do PSD daquela zona quiseram ficar na fotografia e apresentaram a mesma proposta que já estava apresentada). Mas esta vitória foi sobretudo fruto de uma petição dos trabalhadores das pedreiras de Perozelo (os mesmos que organizaram o almoço), que entregaram no Parlamento a 8 de junho de 2017 uma petição com 4191 assinaturas, que tinha como título “solicitam a definição de reformas justas e o reconhecimento da profissão de pedreiro como de desgaste rápido”. Essa petição começou a ser dinamizada no final de 2016, depois de uma reunião com vários trabalhadores das pedreiras que teve lugar no dia 12 de dezembro daquele ano (em que participei), e deu origem a várias notícias sobre a mobilização em curso. Sem os partidos, a lei não teria sido aprovada. Mas são sobretudo os trabalhadores que estão de parabéns. Sim, são os pedreiros de Perozelo que estão de parabéns.

Indo, então, por partes:


Eu não me identifico como editor de coisa alguma. A bem da verdade, que tanto preza, o tal de Soeiro deveria retificar o seu escrito e admitir que se enganou. Vai ver que não dói nada. Até porque o Manifesto74 não tem editores, tem autores, cada um responsável pelo que escreve.

Penafiel

Confesso que achei que a designação de pedreiros viesse acompanhada pela novilíngua dos camaradas e camarados, aderentes e aderentas, todxs e tod@s. Tinha e mantenho fundadas suspeitas sobre o real conhecimento que o Bloco de Esquerda tem de Penafiel, atendendo ao sucedido nas Autárquicas de 2013, em que o BE anunciava, como se demonstra, um comício em Penafiel, com o seu castelo altaneiro, ali no alto do monte. Só que aquilo não é Penafiel. É Peñafiel, em Valladolid. Sim, o BE, que tão bem conhece não só os problemas de pedreiros-montantes, conhece tão bem Penafiel que foi ao Google buscar a primeira imagem que surgiu.


O almoço

O deputado refere que “A foto diz respeito a um almoço organizado pelos trabalhadores das pedreiras de Perozelo, e não a uma iniciativa do Bloco”. Pelo que, obviamente, o facto de o tipo de letra ser semelhante ao utilizado pelo Bloco foi apenas uma feliz coincidência e, assim, juntou-se o útil ao agradável. Porque somos todos ingénuos.

A vandalização das estruturas do PCP

Obviamente que também a vandalização, com inscrições relativas ao BE, de estruturas do PCP, que felicitam a aprovação da lei relativa aos trabalhadores das pedreiras, colocadas em Penafiel – no Porto e não em Valladolid – são também uma mera coincidência. Com alguma bondade podemos, até, especular que o fizeram por se referir “trabalhadores das pedreiras” e não pedreiros-montante.

Curiosamente, aqui é possível ler, de forma explícita, quer a referência aos pedreiros de Perozelo, por baixo do “BE”, quer a referência à petição.

A petição

Na imagem acima é possível ler uma referência às assinaturas. Ora, é a essas assinaturas que um tal de Soeiro se refere no seu texto, no seguinte trecho: “Essa petição começou a ser dinamizada no final de 2016, depois de uma reunião com vários trabalhadores das pedreiras que teve lugar no dia 12 de dezembro daquele ano (em que participei) (…)”. Assim, está desfeito o mistério. O BE instruiu os trabalhadores a fazerem uma petição e, seja quem for que escreveu no cartaz, recebeu a informação de que o PCP não a assinou.

Uma luta nova de 20 anos

O tal de deputado acha, convictamente, que foi por causa do seu abaixo-assinado, e não pelas décadas de luta dos trabalhadores das pedreiras, que a nova legislação foi aprovada. Só que a história das lutas não começa quando o BE as descobre. E isso é facilmente comprovável através do site da AR. Aqui, em 2003, temos uma pergunta – requerimento do PCP sob o título Reformas antecipadas, baixas médicas e acidentes de trabalho nas pedreiras do distrito do Porto. Mais à frente, em 2007,surge uma petição do Movimento para a Diminuição da Idade da Reforma dos Trabalhadores das Pedreiras solicitam à Assembleia da República que adopte medidas no sentido da criação de um regime especial de acesso antecipado à pensão por velhice aos 55 anos para os trabalhadores das pedreiras. Logo, se há presunção de alguém em relação aos trabalhadores das pedreiras, não é minha, decerto.

A pressa do PSD
É o tal deputado que afirma que “Depois, na especialidade aprovaram-se propostas de vários partidos (além das do Bloco e do PCP, também o PS e, quando perceberam que ia ser aprovado, até deputados do PSD daquela zona quiseram ficar na fotografia e apresentaram a mesma proposta que já estava apresentada)”. Faz lembrar um partido que, já perto do final do prazo, apresentou uma proposta de alteração ao OE que poderia, no limite, levar a que as diversas lutas pela contagem integral do tempo de serviço congelado nas carreiras da Função Pública ficassem pelo caminho. Estabelecendo prazos e percentagens de valores. Não é, senhor um tal de deputado?

Fim

Por fim, o tal de Soeiro afirma, na sua página, em resposta a um comentário:


Ora, eu não tenho qualquer problema em pedir desculpa quando erro. No caso, pelos vistos, aos pedreiros que se identificam como montantes. No entanto, lanço o desafio ao tal deputado que assuma os seus erros e, já agora, que peça desculpa, quando diz, por exemplo, que conseguiu “derrotar o programa de Mário Centeno”. Peça desculpa aos que enganou e assuma que errou, quando escrevia que, na Grécia, o “Syriza – coligação da esquerda radical, correspondente ao Bloco de Esquerda – distinguiu-se pela clareza programática. Sem hesitações, afirmou-se contra o memorando da troika, defendeu uma auditoria à dívida e a sua renegociação. Bateu-se por uma alternativa europeísta, rejeitando a saída do euro. Defendeu uma rotura com a austeridade e uma política centrada na criação de emprego e nos serviços públicos. (…) Deu à luta social a esperança de um horizonte alternativo – e também por isso ganhou. Ainda na esquerda, perdeu força o KKE (partido comunista), cuja mensagem foi marcada pelo sectarismo, pela auto-suficiência e pelo nacionalismo que defende a saída do euro”. Como é que se diz mesmo? “Já vi que pediu desculpa pelo erro. Fez bem. Estamos sempre a aprender”.

E assim fica feita a vontade ao predicado Luís Leiria – ele sim, editor do esquerda.net. É isto que o sujeito tem a dizer.