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O que é o PAN? A oportuna neutralidade da direita

Sempre que se lhe presta ensejo, o partido Pessoas-Animais-Natureza (PAN) repete que «não é de esquerda nem de direita» porque rejeita «enquadramentos deterministas à esquerda, centro ou direita – os quais serão sempre reducionistas»

Se, em política, a neutralidade é sempre suspeita, deve ser constituída arguida e devidamente investigada quando acontece alguma injustiça. E no PAN, à semelhança dos Fuzis da Senhora Carrar, de Brecht, a alegada imparcialidade dos neutrais pende sempre para um dos lados.

Atingida a proeza de entrar no parlamento, a renúncia budista do PAN deu os primeiros trambolhões públicos. Primeiro, votou (disfarçadamente) no candidato do PSD/CDS-PP, Fernando Negrão, para o cargo de Presidente da Assembleia da República. Já na semana passada, o PAN absteve-se na moção de rejeição apresentada pela mesma coligação de direita, argumentando, todavia, que essa abstenção representava «um voto de confiança dado a este Governo legítimo» (?!).

Se lhe parecer estranho que o PAN não tenha a certeza sobre a moção de rejeição do PSD/CDS-PP, uma amálgama de elogios à austeridade com argumentos golpistas de extrema-direita, deve ficar a conhecer o percurso percorrido por esta força partidária.

O PAN, inicialmente denominado Partido pelos Animais, nasce em 2009 pela mão de Paulo Borges, antigo líder de vários grupos fascistas, de que a AXO é apenas exemplo. Reconvertido ao budismo e à filosofia New Age, o percurso de Paulo Borges espelha as contradições latentes do PAN, partido que só recentemente abandonou, imprimindo-lhe definitivamente o cunho actual.

Nos anos 80, o fundador do PAN escrevia «CARNE E SANGUE, FERRO E AÇO PELO QUINTO IMPÉRIO!  É chegada a altura de provar por actos quem são os melhores filhos da RAÇA. Prová-lo-ão aqueles que tiverem a força de reerguer um único SENTIDO NACIONAL, um sentido que aponte a todos os Portugueses um mesmo FIM ACTIVO para a vida ou para a morte, para a guerra ou para a paz». E, mais adiante, «Pela higiene nacional: Freaks e hyppies para a fogueira! Purificação Nacional! O mito renasce – a raça está viva! – Igualitários, mordereis o pó. Lâminas imperiais para barbas democráticas! Cristo era judeu! Marx era judeu! Freud era judeu! Quando nos libertaremos desta maldita herança?»

Ao contrário do que é costume espargir em alguns círculos de pseudo-intelectuais burgueses com aspirações cosmopolitas, a transição de Paulo Borges do racismo para o budismo não é surpreendente. O fascínio da extrema-direita pelos ideias de «purificação» do budismo radical remontam ao III Reich de Hitler. Com efeito, o Dalai Lama, cuja fotografia continua a ser amiúde publicada no site do PAN, é o ex-chefe de Estado de um reino religioso, uma monarquia absoluta onde o clero era o proprietário de toda a terra, onde a escravatura, a tortura, a miséria e a exploração sexual das mulheres eram dogmas sancionados pelo budismo oficial.

Descontrai baby, come on descontrai, afinfa-lhe o Bruce Lee, afinfa-lhe a macrobiótica, o biorritmo, o hoscópio, dois ou três ovniologistas, um gigante da ilha de Páscoa e uma Grace do Mónaco de vez em quando para dar as boas festas às criancinhas!
José Mário Branco in FMI

Claro que o PAN actual não subscreverá os ideais mais reaccionários desta tradição mas, órfão destes pais anónimos, cultiva uma linguagem e uma imagética que misturam a estética New Age com cultura pop anglo-saxónica e frases da Chiado Editora (ver imagens que ilustram este artigo) num bolo onde cabem citações de líderes religiosos hindus, fotografias do universo e apelos à (justa) defesa dos povos Maasai. Inversamente, no PAN nunca houve interesse, preocupação ou espaço para os trabalhadores despedidos na Triumph, na Somague ou na Cimpor.

Uma vez mais, nada de novo. Este é o mesmo PAN que elogiava o infame Memorando de Entendimento com a Troika, também justamente conhecido como Pacto de Agressão. Eis o que defendia o PAN:

«O Partido pelos Animais e pela Natureza (PAN) considera que o acordo de apoio financeiro recém-aprovado pela tróica constituída pela Comissão Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional se tornou essencial para garantir a estabilidade financeira do país, após anos de desgoverno e aproveitamento pessoal e partidário, pelos quais são sobretudo responsáveis o Partido Socialista e o Partido Social-Democrata. A aprovação desse acordo foi condicionada pela aceitação por parte do governo de um conjunto de reformas, algumas das quais fundamentais, tendo como objectivo geral modernizar e agilizar o funcionamento do aparelho de Estado visando o relançamento da economia a médio e longo prazos. De facto, o PAN argumentava já, nas suas bases programáticas, com a urgência de algumas dessas reformas, como forma de termos melhor Estado e de evitarmos o desperdício dos dinheiros públicos: a reestruturação do mapa administrativo do país, a reavaliação das parcerias público-privadas, a reforma da justiça, a redução de organismos e institutos públicos supérfluos, a privatização de empresas públicas não-estratégicas para o interesse geral do país, o reforço do controlo de gestão e o combate ao despesismo nos serviços públicos da educação e da saúde, entre outras.»

Coerentemente, perante a luta dos trabalhadores, o PAN explica melhor como é que não é de esquerda nem de direita: «o PAN está solidário com todas as recentes manifestações de indignação e protesto, incluindo a greve geral marcada para o próximo dia 24, mas também se solidariza com todos aqueles que, embora indignados e descontentes com esta situação, preferem outras formas de luta a uma greve geral, pelo impacto que esta tem sobre uma economia já debilitada».

Nada disto invalida a justeza de várias propostas do PAN. O problema é que quase todas essas propostas já constam do programa de algum partido, seja ele o PCP, o BE, o PEV ou mesmo o PS, o PSD ou o CDS-PP. O que há de original no PAN é o apelo apolítico e tosco à bondade para com os «bichinhos»: não para com os animais.  Enquanto o PAN luta pela libertação da águia Vitória e por copos menstruais, há empresas que descarregam diariamente resíduos tóxicos nos nossos rios e transportes públicos que correm o risco de deixar de o ser. Mas o que mais preocupa o PAN são os gatos e os cães, animais de companhia e (também) de entretenimento. E, por outro lado, a questão das touradas, espectáculo que, malgrado degradante e bárbaro, não representa de forma alguma, os verdadeiros problemas da natureza e dos animais em Portugal.

O verdadeiro inimigo da natureza e dos animais tem um nome: capitalismo. Capitalismo é o modo de produção que destrói as florestas do planeta, que polui a água de todos e leva espécies inteiras à extinção. E sobre o capitalismo o PAN não tem posições que, no entanto, importava conhecer, nomeadamente: o PAN defende a nacionalização da banca e dos sectores-chave da economia? O PAN admite mais privatizações? Como é que o PAN responde às exigências da CGTP a este governo?

Insistindo que não é de esquerda nem direita, o PAN lá vai repetindo que é só um «partido de causas». Mas os partidos de esquerda não são «de causas»? A diferença entre, por exemplo, o PEV e o PAN é que o PEV compreende que não é possível defender a natureza sem um programa de justiça social que rompa com a política de direita e assuma frontalmente os valores progressistas, revolucionários e democráticos de Abril.

Ora o PAN, que, para além de defender uma redução brutal do número de deputados, estreitando assim ainda mais a nossa democracia, defende a manutenção de Portugal na NATO, uma organização militar assassina especializada em invasões, golpes de Estado e genocídios. Uma organização assim só pode estar a anos luz de poder representar os valores democráticos, pacíficos e progressistas da ecologia.

Desta forma, vai-se tornando claro que a pretensa neutralidade ideológica do PAN não é mais que um oportuno instrumento eleitoral, dificilmente concretizável num terreno em que diariamente é preciso optar por um dos lados: ou o dos banqueiros e do grande capital ou o dos trabalhadores.

A ecologia proposta pelo PAN, baseada no primado do acessório em detrimento do fundamental, é o equivalente a resolver o problema da dívida pública a recolher tampinhas. Ser ecologista sem ser de esquerda é só ser conservador. Lutar pelo fim da exploração do animal pelo homem sem querer pôr um ponto final na exploração do homem pelo homem é ser hipócrita. Querer mudar o mundo votando no PAN é o mesmo que querer pôr fim à pobreza fazendo as compras no Comércio Justo.

*Imagens retiradas do sítio na Internet do PAN e da página da candidata presidencial que esta força apoia

Nós cantamos as mesmas canções


«Vitória!» A multidão explode num grito longo e encrespado. «Vitória!» repete e prolonga o mar de gente, ecoado no frontão do Palácio de São Bento com a persistência das vagas contra as fragas. «Vitória!» e tremem, no tímpano do palácio, as estátuas moles que enfeitam o estrado. «Vitória», outra vez. Mil vezes «Vitória».

Porquê tanto entusiasmo? Por causa daquelas notícias (talvez ainda se lembrem), de gente suicidada quando o desespero e o governo venceram. Porquê tanta alegria? Porque desta vez perderam os ladrões que roubaram a electricidade e o pão e a água e a dignidade e a esperança aos velhotes da minha rua. Porquê tantas palmas? Porque hoje perderam os milionários e venceram os trabalhadores.

Trata-se de uma pequena vitória à escala da História dos povos, é certo. Nada está conquistado e teremos que lutar por tudo: o aumento dos salários, o fim da precariedade, a redução dos horários de trabalho, a melhoria das condições de trabalho… Mas esta terça-feira, os trabalhadores mostraram ao país, para lá de qualquer dúvida, que a luta é o único caminho. Foi a luta dos trabalhadores que retirou 700 mil votos à PàF. Foram milhares de greves e manifestações de Norte a Sul do país que, malgrado o gigantesco empenho da comunicação social, disseram não à austeridade.

E valeu a pena lutar, nem que fosse só por esta lufada de esperança e de entusiasmo. Mil vezes, valeu a pena. Apesar dos dias de salário perdidos, apesar de termos caído nas más graças do patrão, apesar das ameaças, apesar de não termos tempo, apesar dos filhos, da saúde dos pais e apesar do dinheiro.

Esquerda, divisões e definições

Valeu a pena, nem que fosse só por esta imagem que revela, com olhos de Blimunda, o que a política é no fundo: uma praça dividida em dois. De um lado umas dezenas de ricaços, patrões e meninos dos colégios de luxo. Do outro, operários, pedreiros, cientistas, estivadores, médicos, varredores, reformados, enfermeiros, professores, trabalhadores das limpezas, bancários, desempregados, motoristas, arquitectos e estudantes e mil vezes mais trabalhos, o que já diz o que é isto que esta gente é toda: trabalhadores.

Fora os matizes nas bandeiras monárquicas e as marcas da roupa de luxo, o lado dos patrões é uníssono no amor à PàF e nos gritos de ódio como «Morre cabra!!!», «Comunas para a Sibéria!!!» ou, simplesmente, «Morre!!!». Que ninguém se iluda: esta terça-feira, a direita mais trauliteira, cavernosa e anti-democrática começou a longa reaprendizagem das manifestações de ódio e da pancadaria. Não tarda, estarão a pedir «impeachments», intervenções militares e ajudinhas dos EUA.

Pedro Arroja a dar tudo.
“Aqui entre nós, que ninguém nos ouve..”Ouvimos, ouvimos, Pedro Arroja. E bolsámos também. E bebemos uma água do Vimeiro. E voltámos a bolsar.(todo o crédito da captura do momento ao José António Fundo . Que nunca tires o dedo do gatilho <3)
Publicado por One Woman Show em Terça-feira, 10 de Novembro de 2015

Já no lado dos trabalhadores, como todos os dias nos recordam os comentadores da direita, é mais complicado encontrar unanimidade. Com efeito, entre o PCP, o BE, o PEV e o PS as diferenças programáticas, ideológicas e históricas são muito pronunciadas. Mas a manifestação desta terça-feira, tal como o acordo agora conquistado nas ruas, não precisou de esconder as diferenças.

Neste aspecto, é bom que nos lembremos de que os partidos, tal como a História, não são estáticos e que os seus eleitores e apoiantes não estão condenados a ser uma correia de transmissão dos interesses de classe das suas direcções. Mais exactamente, a enorme massa de trabalhadores que, tradicionalmente, vota no PS, chumbou taxativamente a austeridade e a política de direita. Neste aspecto, mais importante do que a capacidade do próximo governo PS cumprir as suas promessas ou defraudar os seus eleitores é a forma como esses milhões de trabalhadores se envolvam no processo de luta, reivindicação e exigências que, como disse o secretário-geral da CGTP, Arménio Carlos, começa amanhã.

Essa massa, dificilmente categorizável, de milhões de trabalhadores portugueses que se dizem «de esquerda» estão agora numa importante encruzilhada: votaram por uma mudança que afirme os valores de Abril, que valorize o trabalho e penalize o grande capital. Desta forma, ao se definirem assim individualmente, mesmo que sob outras formulações, milhões de eleitores redefiniram também a única coisa que pode ser a esquerda portuguesa. Esses trabalhadores não são propriedade de nenhum partido e devem ser considerados na sua permanente e dialéctica transformação que poderá, a curto prazo, acumular uma nova e enorme bagagem de experiência política.

É clara a ordem do povo português aos quatro partidos que agora assinaram um acordo: revogação da legislação laboral inimiga da vida de quem trabalha; valorização da contratação colectiva; aumento do salário mínimo nacional; reposição dos salários, pensões e feriados roubados; 35 horas de trabalho; mais e melhor escola pública; mais e melhor saúde pública; aumento dos subsídios de protecção social; reversão das privatizações; política fiscal justa e proporcional aos rendimentos. Quer a concretização destes objectivos a nível parlamentar, quer a evolução política e eleitoral de toda a ainda mal definida «esquerda» vão depender da profunda intensificação da luta nas empresas e nas ruas. É lá o lugar de toda a esquerda.

De volta à imensa manifestação de alegria que foi a queda do governo PSD-CDS/PP, não escondo que registei com agrado (e com um sorriso também) que muitas pessoas que não votam no meu partido cantaram comigo as canções do Zeca, do Adriano, no Sérgio… enfim… de Abril. Uma das canções revisitadas dizia assim:
Tu trabalhas todo o ano
Na lota deixam-te mudo
Chupam-te até ao tutano
Chupam-te o couro cab’ludo
Quem dera que a gente tenha
De Agostinho a valentia
Para alimentar a sanha
De esganar a burguesia

Mandadores de alta finança
Fazem tudo andar pra trás
Dizem que o mundo só anda
Tendo à frente um capataz
E toca de papelada
No vaivém dos ministérios
Mas hão-de fugir aos berros
Ainda a banda vai na estrada
Podem começar a correr: a banda já vai na estrada.

A esquerda pode não votar toda no mesmo partido mas, pelo menos, sabe a letra das mesmas canções. Espero, sinceramente, voltar a ver esta esquerda nas manifestações e piquetes de greve por melhores salários e por uma vida melhor. Numa palavra, por Abril.

Quem travou a austeridade é quem a pode inverter


O acordo entre PS, BE, PCP e PEV representa a possibilidade real de travar a cada vez mais veloz trajectória de austeridade e ataques aos direitos dos trabalhadores inaugurada com o 25 de Novembro.

Esse acordo não escamoteia a história, a natureza de classe ou a tradição política do PS ao longo de 40 anos, mas põe em evidência a preponderância do factor que, malgrado a identidade do PS, nos levou a um entendimento que poderá beneficiar todos os trabalhadores portugueses. À semelhança da actual correlação parlamentar das forças partidárias, os avanços sociais que um eventual governo liderado pelo PS poderá trazer dependerão da capacidade de luta do povo português. Foi a luta dos trabalhadores que impôs uma mudança de política. Será a luta dos trabalhadores a sua garantia, mas também o seu fiador, juiz e, se necessário, agente de execução.

Esta tese é confirmada pela estratégia de tensão posta em marcha por uma direita crescentemente radicalizada e disposta a arriscar cada vez mais: do despudor cartista de Cavaco ao terrorismo mediático orquestrado pela comunicação social dominante, o pânico quase unânime do grande capital é bem revelador dos posicionamentos de classe a que obriga este modesto acordo. A actualidade da luta de classes está, assim, à vista de todos: não vai parar, não deve parar nem poderia parar. A sua intensificação é a intensificação das contradições económicas e sociais do capitalismo.

Cabe agora aos trabalhadores e às suas organizações sindicais e políticas acumular, na luta, a força para derrotar o golpismo e transformar a travagem da austeridade numa inversão de marcha. Da mesma forma que o grande capital intensifica a sua luta para impedir a travagem da austeridade, a intensificação da luta dos trabalhadores será a única garantia de que o que foi assinado é cumprido, sendo também o factor determinante na estabilidade de qualquer governo.

E nada disto reduz a importância da natureza de classe de cada um. Pelo contrário. Numa experiência científica levada a cabo há alguns anos numa universidade húngara, um cão doméstico e um lobo tentavam abrir uma caixa com comida: o lobo procurava roer a caixa, contorná-la, compreendê-la, arrastá-la, vencê-la. Já o cão doméstico, falhando no objectivo de abrir a caixa, olhava invariavelmente para o dono.

15 falácias para não votar CDU

Volvidos 39 anos de retrocessos sociais marcados pela continuada aleivosia de três partidos (PS, PSD e CDS-PP) que se alternam, ufanos, no poder, muitos portugueses parecem presos, na hora de votar, a velhos preconceitos. Extraordinariamente, mesmo diante de uma força política diferente e com décadas de provas dadas, há quem aposte por castigar a austeridade do PS votando no PSD, para, no acto eleitoral seguinte, punir o PSD votando no PS, (que desta vez é que vai ser diferente, não é?). A má notícia é que as arreigadas (mas espúrias) crendices sobre a exequibilidade política da CDU têm vaticinado o país a prosseguir o mesmo caminho de pobreza e injustiça. A boa notícia é que os argumentos de quem se recusa apaixonadamente a ver o óbvio são, regra geral, fáceis de compilar e desmontar.


1- «Os políticos são todos iguais»

Quem diz isto está secretamente a pensar nos três partidos em que andou a votar este tempo todo. É normal que depois de percorrer a cruzinhas os três partidos dos patrões, se descubra que têm ‘todos’ a vocação de reduzir salários, aumentar a carga de trabalho e cortar direitos. Por outro lado, aos 25 homens mais ricos do país que, no ano transacto, viram a sua fortuna aumentar para 14 mil milhões de euros num ano, convém que se acredite que «é tudo a mesma merda». Mas não é, como também não é igual taxar ou não taxar as grandes fortunas; como não é igual aumentar ou não aumentar o salário mínimo. É na prática e não em juramentos que se vê de que é feita cada força política. Ninguém, em honestidade, pode afirmar que os últimos governos têm defendido os interesses dos trabalhadores. Por outro lado, ninguém é capaz de dar sequer um exemplo de uma traição da CDU aos interesses de quem trabalha. Logo, iguais não são.


2 – «Já sei que não vão ganhar»

Se acreditamos que existe alternativa ao empobrecimento e à austeridade, é porque acreditamos que é possível uma alternativa política. Não serão nunca os mesmos partidos políticos que nos puseram no buraco a tirar-nos dele. O nosso voto pode ser justificado pelas propostas de cada partido, pela nossa experiência enquanto eleitores, mas nunca por empresas privadas de sondagens com amostras de 300 pessoas nem por comentadores pagos para pensarem por nós e que escondem, dentro de anafadas carteiras sob os seus rabos prolixos, o cartão de militante do PS/PSD/CDS-PP. Mais ainda, ao contrário da mentira amplamente difundida na comunicação social, nestas eleições não vamos eleger um primeiro-ministro, mas deputados que se candidatam por cada círculo eleitoral. Já basta do Sócrates, do Passos Coelho, do Armando Vara, do Cavaco Silva, do Duarte Lima, do Paulo Portas e do Dias Loureiro.


3 – «Mais vale votar no PS para não ganhar o PSD»

Votar útil no PS é como assinar um cheque em branco que termina sempre em arresto de bens. E se dúvidas sobrassem, veja-se a sintomática a recusa de António Costa em comprometer-se com um aumento do salário mínimo nacional: se o PS ganhar as eleições, atira o assunto para cima da mesa da improfícua «concertação social» e faz figas que os patrões decidam subir os salários. Se não o fizerem, é lá com eles. Querer que o PS ganhe para não ganhar o PSD é querer levar um pontapé na canela para não levar um murro no estômago. Foi o PS que criou as taxas moderadoras nos hospitais, as propinas nas universidades, os recibos verdes e metade de todos os cortes aos direitos dos trabalhadores desde 1975.


4 – «São um partido de protesto»

Ao longo dos últimos 39 anos, todos os governos têm contribuído para a destruição do país. Neste quadro, os partidos que se recusaram a juntar-se à pilhagem a troco de poleiro e tachos não são «de protesto», são de classe e de gente séria. A CDU tem um programa de governo detalhado, com respostas concretas para os problemas do país. PCP e PEV concorrem a estas eleições com um projecto que valoriza o trabalho e os trabalhadores, afirmando o papel social do Estado na economia e restituindo o governo e os serviços públicos ao serviço de quem trabalha. É um programa corajoso para taxar as grandes fortunas e devolver aos trabalhadores o que foi roubado, recuperando a necessária soberania nacional e exigindo a renegociação de uma dívida que, nestes moldes, é impagável.


5 – «É preciso um partido novo com ideias modernas»

A conclusão de que falta mais um partido modernaço é um clube esotérico a que se chega por quatro vias, a saber: a) através de boas intenções e desconhecimento dos partidos que já existem; b) pelos preconceitos expostos nesta lista; c) num concurso para ser o Paulo Portas do António Costa (sim, estou a olhar para ti, Rui Tavares); d) por meio de uma devastadora vaidade extrema e de um desejo burlesco e traiçoeiro de um dia ser chefe (p.f. não digam ao Gil Garcia onde eu moro). A crença de que são precisos novos partidos é fruto da incapacidade de compreender que em política a forma é sempre acessória do conteúdo. A prova provada é que no fim, os «novos partidos» soem acabar com «velhos problemas»: a fazer copy paste das propostas dos outros e à bulha para ver quem é que fica com o mítico mandato de Lisboa.


6 – «Se saíssemos do Euro estávamos perdidos»

A CDU, o PCP e o PEV foram as únicas forças políticas portuguesas que se opuseram inequivocamente à entrada de Portugal na moeda única, alertando para as devastadores consequências económicas que o presente se encarregou de comprovar. Cada vez mais, o euro é sinónimo de estagnação, recessão, desinvestimento, desemprego, endividamento, descontrolo orçamental, precariedade, redução dos salários e aumento da exploração. Porque aceitar cegamente a chantagem do euro só beneficia o chantagista, a CDU propõe que se estude e prepare a saída da moeda única de forma a garantir que essa solução, cada dia mais inevitável, possa ser gerida por um governo que proteja os interesses dos trabalhadores. Aqueles que, irresponsavelmente e diante do drama da Grécia, se benzem quando ouvem falar de uma saída do euro, preparam-se já para ser os carrascos de uma saída precipitada, e talvez forçada, que serviria para agudizar ainda mais a exploração.


7 – «Eu voto nos mais pequenos»

O problema não é a dimensão dos partidos, é o que eles defendem e quem eles representam socialmente. Votar num partido só porque ele é pequeno é o mesmo que ir uma farmácia e beber «só um bocadinho» de um frasco escolhido aleatoriamente.


8 – «O capital fugia do país»

Se a CDU fosse governo no dia quatro de Outubro, homens como Américo Amorim, Belmiro de Azevedo ou Soares dos Santos não ficariam, certamente, divertidos com a notícia, mas mesmo assim não tirariam o dinheiro. Porquê? Primeiro porque mesmo em menor escala, continuariam, a médio prazo, a conseguir grandes lucros. Por outro lado, porque parte do capital é extremamente difícil de deslocalizar: sobreiros, hipermercados, fábricas e aparelhos empresariais que só valem fortunas se bem implantados e com mercados estabelecidos. Finalmente, o Estado é soberano para nacionalizar, confiscar, expropriar ou deter quaisquer capitais indispensáveis ao interesse nacional.


9 – «Não é possível na UE»

Este é um argumento verdadeiro mas que esconde uma falácia. Efectivamente, é muito provável que não fosse possível construir um país mais justo dentro das amarras e imposições de uma União Europeia controlada por potências estrangeiras que não estão interessadas no bem-estar dos trabalhadores portugueses. Mas, nesse caso, a escolha não é só entre a soberania e a UE, é entre a possibilidade de uma vida melhor e a sentença a que nos votou a UE: sermos uma estância turística de mão-de-obra barata, sem fábricas, sem pescas, sem agricultura, com poucos serviços públicos e muitos miseráveis. Nesse caso, a CDU escolhe um país livre, soberano e ao serviço dos trabalhadores.


10 – «Vocês gostam de ditaduras»

O PCP não se limita a defender, no seu programa, uma democracia mais plural, participativa e verdadeira, tem um projecto e um modelo concretos de democracia: a Constituição da República Portuguesa. Essa democracia por que luta a CDU não se extingue nas urnas de voto, estendendo-se ao acesso à saúde, à cultura e à educação, traduzindo-se na liberdade de intervir e de mudar. Mais ainda, não há partido em Portugal com credenciais democráticas superiores às do PCP: foi ele que durante quase meio século arriscou tudo para derrubar a ditadura fascista; Enquanto os militantes comunistas se dispunham a perder a liberdade e a vida no combate pela democracia, uma geração inteira de futuros Presidentes da República, comentadores, ministros e vendedores de banha da cobra aninhavam-se nas instituições fascistas afiançando estar «integrados no regime».


11 – «Estivemos a consolidar as contas com sacrifícios»

Que contas são essas? O défice aumentou para 7,2%, a dívida pública cresceu para 130% do PIB (qualquer coisa como oito milhões de euros por dia) e os salários caíram, pelo menos, 10% desde que a «crise» começou. As únicas contas que, com os nossos sacrifícios, ficaram melhor consolidadas são as contas da Jerónimo Martins na Holanda e a do Cavaco no BPN. A consolidação é para as contas privadas deles, o desgoverno, a crise e a austeridade são para as nossas. Não é possível equilibrar as contas sem um aparelho produtivo forte, salários dignos, soberania económica e financeira e justiça fiscal.


12 – «Abstenção, voto nulo ou branco»

Consideremos uma amostra de 100 pessoas. Destas, 60 optam por nem ir à mesa de voto, outros dez votam em branco e cinco preferem inutilizar o voto. Ficamos com 75% de não-votos. Contudo, os outros 25% vão votar. Suponhamos então que o PS arrecada 10 votos, a PàF conta 8 votos, a CDU 4 votos e, por fim, 3 para o BE. Consequentemente, este parlamento hipotético seria formado com base nos seguintes resultados: PS – 40%; PàF – 32%; CDU – 16% e BE – 12%. Quando a CDU apresentasse, nesta assembleia, um projecto para aumentar os impostos sobre os produtos de luxo ou devolver os subsídios roubados, a imensa maioria dos deputados voltaria a fazer o que sempre faz: defender os mais ricos. Os três partidos da troika iam continuar a governar a seu bel-prazer apesar de 75% dos eleitores terem optado por deixar a decisão na caneta de apenas 25%. A nossa força está no voto consequente, no voto que não se verga perante os podres poderes instituídos. E se os não-votos equivalessem a cadeiras vazias, o resultado era o mesmo: as cadeiras ocupadas continuavam a decidir. Não votar, votar em branco ou votar nulo é não ter opinião formada sobre a nossa casa ser assaltada, é votar tacitamente nos mesmos que nos arruínam a vida.


13 – «Mas não há dinheiro»

Se o problema é receita e despesa, a CDU tem soluções: poupe-se 6,7 mil milhões de euros renegociando a dívida; tribute-se os lucros e dividendos das super-fortunas, aumentando a receita fiscal em 9,3 milhões; ataque-se evasão fiscal , arrecadando 3,5 mil milhões de euros; corte-se em 50% as contratações de serviços externos ao Estado, encaixando mais 600 milhões; renegoceie-se as Parcerias Público-Privadas e os ruinosos contratos swap. Mas, no essencial, a proposta do PCP para aumentar a receita centra-se na valorização do trabalho. Por exemplo, uma redução de cem mil desempregados permitiria um acréscimo directo de 900 milhões às receitas da segurança social, a par de um aumento da receita fiscal de 1,1 mil milhões de euros. Os partidos que dizem que não há dinheiro falam em nome de quem o tem todo guardado.


14 – «Voto na PàF para não ir para lá o PS outra vez»

Ver número 3, só que ao contrário.


15 – «Lobby gay! Quando a minha mãe me pariu isto não era assim!»

Ninguém estava a falar contigo, Marinho e Pinto.

O que é que nos surpreende na Marcha apagada?

O que é que ainda nos surpreende quando não vemos a gigantesca marcha de sábado nos media? Não entendam mal, que subscrevo linha por linha o artigo do Filipe. Mas, para quem já anda nisto há algum tempo, e nem precisa de ser muito, não é de estranhar. É de denunciar, de divulgar, é verdade que já nos deixa um bocadinho tristes e revoltados. Deve ser por isso que ainda há quem diga que parámos no tempo, porque ainda temos a força necessária para nos indignarmos. E, às vezes, vamos buscar forças sei lá onde.

Não há partido com património de luta que se aproxime, sequer, do PCP. Nos anos do fascismo não eram os que estiveram no Coliseu no mesmo dia em que estivemos na rua que davam o peito às balas. Eram os pais de alguns deles, ao que consta. Naquela altura, o bloqueio ao PCP era legal e oficial.Obrigatório. Depois da Revolução de Abril, deixou de ser. Com o 25 de Novembro passou a ser oficioso.

Os meios de divulgação do PCP são os que sempre foram, adaptados aos novos tempos – estando nós parados nele, não deixa de ser paradoxal. É o passa palavra, é o esclarecimento, é contar como foi, como queremos que seja e como tem de ser, para que este cantinho deixe de estar como está. É o Avante! que fica na mesa do café, o discurso no local de trabalho, as conversas com os amigos, que deixam transparecer aquilo que somos.

Como no século passado, onde estamos parados, os media livres e democráticos continuam a bloquear-nos porque não podia ser de outra forma. Uma manifestação de 1.000 pessoas por causa do padre da freguesia abre um noticiário, uma com 10.000 na Grécia também. Uma manifestação com 100.000 em Portugal, com gente de todo o país que pagou a viagem do seu bolso não pode abrir noticiários, porque mete medo.

É um facto que mete medo, assusta. Já imaginaram 100.000 pessoas que saem à rua com um calor tórrido, fazem centenas de km de autocarro para afirmarem os seus ideais? Claro que assusta. Assusta os que não podem permitir que se pense diferente do que nos é dado a engolir todos os dias, depois de bem mastigado, em quase tudo o que é informação.

Claro que às vezes nos chateia, outras entristece. Vivemos numa democracia formal que estigmatiza aqueles que abraçam a livre participação num partido quando se generaliza que todos eles, os partidos, estão numa crise profunda e precisam de se reinventar e tudo o resto que sabemos.

Chateia, entristece, mas já foi ontem. Hoje, cada um de nós que lá esteve e outros que não puderam ir, contaremos como foi grandiosa mas já estamos na luta quotidiana que é um dever de todos. Se a tarefa fosse fácil, não éramos comunistas.