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A poesia que arde

Agora que a poesia não alimenta escaparates e se esconde nas velhas estantes dos alfarrabistas onde se refugiam também os livros daquelas revoluções de que falam os nossos pais talvez seja tempo de alumiar a madrugada. No tempo em que a verdade se vestia de sombras, Bertolt Brecht disparava sem medo demonstrando que às vezes a poesia é de facto uma arma. O dramaturgo e poeta comunista alemão escreveu que a «arte não é um espelho para reflectir a realidade mas antes um martelo para dar-lhe forma».

Os mesmos que queimaram o Reichstag, em 1933, pegaram fogo aos seus livros numa iniciativa pública. E às vezes os versos acertam no futuro como a melhor das balas. «Então, de que serve dizer a verdade sobre o fascismo que se condena se não se diz nada contra o capitalismo que o origina?», perguntou o autor de A Ópera dos Três Vinténs. Depois da derrota do nazi-fascismo, as autoridades da República Federal da Alemanha trataram de lhe responder proibindo-lhe a entrada no seu próprio país.

Mas se a poesia não é mais do que gatafunhar meia dúzia de palavras por que foi objecto da mais violenta das perseguições? Quando a poesia era apenas outro nome para coragem, houve mulheres e homens que deram voz aos que semeavam o futuro. Viver tempos em que é fácil opinar sobre o passado sem se ter a coragem de estar do lado certo no presente deve fazer-nos odiar os muros em que outros se sentam à espera de saltar para o lado do vencedor.

Pablo Neruda atravessou clandestinamente a cordilheira andina para fugir às autoridades chilenas quando podia ter escolhido o caminho mais fácil. Miguel Hernández escreveu a Josefina Manresa da masmorra franquista onde viria a morrer: «Tu risa me hace libre,/me pone alas./Soledades me quita,/cárcel me arranca». Em papel higiénico, o poeta comunista de Orihuela escreveu alguns dos contos que quis deixar ao seu filho.

Quem tampouco escolheu ficar em cima do muro foi Nazim Hikmet. Ancara, que todavia renega Nazim Hikmet, fez o favor de lhe dar a conhecer várias prisões. Entre viagens clandestinas e fugas espectaculares, alguns dos mais conhecidos poemas do mais importante escritor turco do século XX tiveram as grades do cárcere como companhia. E o que dizer de Joseba Sarrionandia, preso político que se escapou da prisão dentro de um amplificador e que viveu escondido em Cuba durante mais de três décadas? «Cada coisa com a sua dificuldade,/às vezes dar um beijo é mais difícil/que pôr uma bomba no quartel-general do inimigo», escreveu o independentista basco.

A prova de que a poesia às vezes é mais combustível do que a gasolina são os versos que correram de boca em boca entre camponeses analfabetos nas zonas mais pobres da Nicarágua quando já a injustiça tremia ante o passo dos combatentes sandinistas. O analfabetismo nem sempre é uma fortaleza indestrutível. Do mesmo lado das Caraíbas, em El Salvador, o poeta e guerrilheiro Roque Dalton dava corpo às balas e afirmava que «o comunismo será, entre outras coisas,/uma aspirina do tamanho do sol». E durante a longa noite de pedra franquista, o poeta galego Celso Emilio Ferreiro cantou a liberdade sonhada na língua que nos é comum, que há séculos dá voz aos oprimidos de ambos os lados da fronteira.

«Nós queríamos libremente
comer o pan de cada día. Libremente
mordelo, masticalo, dixerilo sin medo,
libremente falando, cantando nas orelas
dos ríos que camiñam para o mar libre.
Libremente, libremente
nós queríamos somente
ser libremente homes, ser estrelas,
ser faíscas da grande fogueira do mundo,
ser formigas, paxaros, miniños».

O comunista português Ary dos Santos semeou versos na barriga do «mais infeliz dos povos à beira-terra» que um dia voltará a abrir as portas que Abril abriu também para que o lugar da poesia incendiária não sejam as poeirentas caves em que se encontram mas nessa luta «onde não seja permitido respirar» e «onde nasça o silêncio» para ouvir «os passos do tirano que parte» de que falava a nicaraguense Gioconda Belli. No tempo da pós-verdade só há lugar para a mentira. Se o que arde cura e se a poesia dói porque arde, que falta nos faz o incêndio.

Se eu fosse a Joana Vasconcelos levava uma vergonha infinita

Se eu fosse a Joana Vasconcelos e fugisse da morte, não levava “todas as minhas jóias portuguesas” nem “os meus óclos de sol”. Não, se eu fosse a Joana Vasconcelos procurava antes ajudar esta gente a fazer as malas. Porque eles obviamente não sabem.

Dir-lhes-ia que se é para viajar assim, sem ler as críticas dos hotéis, sem “o meu caderno para poder fazer os desenhos”, sem dinheiro no cartão para gastar em Paris, mais valia ficar em casa.

Se eu fosse a Joana Vasconcelos e visse, como no poema de António Gedeão, “o sangue gorgolejar das artérias abertas e correr pelos interstícios das pedras, pressuroso e vivo como vermelhas minhocas despertas” e visse “as crianças de olhos lívidos e redondos como luas, órfãs de pais e de mães, andarem acossadas pelas ruas como matilhas de cães” e visse “o grande pássaro de fogo e alumínio cobrir o mundo com a sombra escaldante das suas asas amassando na mesma lama de extermínio os ossos dos homens e as traves das suas casas”, eu agarraria “nas lã e na agulha, para qualquer eventualidade” e faria uma obra de arte inócua: qualquer coisa não tivesse nada a ver com os vivos; qualquer coisa estéril e senil, como um naperom gigante ou um cacilheiro em filigrana ou uma pirâmide de plástico ou qualquer coisa que dissesse, assim bem alto “o meu reino não é deste mundo” ou, simplesmente, “estou-me a cagar”.

É que se eu fosse a coqueluche travestida de artista da direita neoliberal, não poderia, mesmo que quisesse, saber como é. Se a minha carreira artística tivesse sido um passeio de mãos dadas com os responsáveis pela destruição dos países de onde vêm os refugiados (que nem turistas sabem ser), eu levaria comigo uma absoluta indiferença pela vida de quem é obrigado a deixar tudo: a família, a casa, a segurança, e também os “óclos” de sol, “as lãs” e o i-pad, para saber o que se passa no mundo.

Se eu fosse a Joana Vasconcelos não poderia parecer solidária mesmo que o piano na música de fundo mo exigisse. Porque, se eu fosse a Joana Vasconcelos e fugisse da morte, saberia que só se pode ser solidário com quem partilha, por mais ínfima que seja a partilha, da nossa condição.

É que se eu fosse a Joana Vasconcelos nunca, nunca (!) estaria naquela condição porque estaria sempre do outro lado: do outro lado das jaulas de arame farpado onde dormem as crianças que não podem passar; do outro lado da linha mediática que separa, por classes, os refugiados, migrantes, os viajantes e os turistas; do outro lado da Europa fortaleza; do outro lado da Comissão Europeia; do outro lado da arte, com o bricolage anabolizante e hiperbolizante; do outro lado da barricada.

Se eu fosse a Joana Vasconcelos não valeria a pena pedir-me para, como no poema, “lutar até ao desespero da agonia” nem para escrever “com alcatrão nos muros da cidade ABAIXO O MISTÉRIO DA POESIA”. Mas, se eu fosse a Joana Vasconcelos e fugisse da morte, como, de uma certa forma mais demorada, todos nós fugimos, teria que levar comigo, para o resto da vida, uma vergonha infitina.

Poema Constituinte

Assinalando o 40º aniversário da Constituição da República Portuguesa, hoje publicamos a leitura de um poema escrito por E. M. de Melo e Castro, em 1979, por ocasião do 3.º aniversário da Constituição da República Portuguesa.

A Constituição defende-se e estabelece-se todos os dias.