All posts tagged: Precariedade

Quem se mete com os estivadores mete-se com o país inteiro

Com a aquiescência encalistrada do governo PS, o patronato declarou Guerra Total aos trabalhadores do Porto de Lisboa. Guerra Total no sentido clássico, em que tudo vale, para a qual todos os recursos são mobilizados e que cujo alcance político é vertiginosamente ilimitado. Quando os rufias da Associação de Operadores do Porto de Lisboa respondem a uma greve com uma ameaça de despedimento colectivo, o que na realidade nos vêm dizer é que, neste país, podem fazer tudo o que lhes der na real gana.

Em directo, no telejornal, os terroristas avisaram que por cada novo dia de greve vão despedir mais trabalhadores. Como recordou o deputado ao Parlamento Europeu pelo PCP, João Ferreira, o Código do Trabalho é claro neste ponto: «É nulo o acto que implique coacção, prejuízo ou discriminação de trabalhador por motivo de adesão ou não a greve.» e «Constitui contra-ordenação muito grave o acto do empregador que implique coacção do trabalhador no sentido de não aderir a greve, ou que o prejudique ou discrimine por aderir ou não a greve». Mas os senhores que operam o nosso Porto acham que, no nosso país, estão acima da lei. O problema é que o Porto não é deles: é nosso e eles somente o operam; o País não é deles: é nosso e eles somente o exploram.

Perante a intimidação de um rufia não se arreda pé: faz-se frente. E os rufias a que os estivadores fazem frente não operam só o Porto de Lisboa: estão na tua fábrica, na tua empresa, na tua escola… Se os terroristas da Associação de Operadores do Porto de Lisboa vencerem esta batalha, todos os outros terroristas de todos os outros pequenos Estados Islâmicos verão que também eles podem impor a sua Sharia de Quero-posso-e-mando.

É portanto conveniente que nos interroguemos se é nesse país que queremos as nossas vidas e as vidas dos nossos filhos: um país onde os nossos patrões podem criar empresas paralelas para nos substituir por precários a 500 euros; onde somos obrigados a trabalhar até três vezes mais do que a lei permite como alternativa a sofrer processos disciplinares; onde os patrões inventam sindicatos para enganar os trabalhadores e não vão presos por burla; onde os contratos colectivos de trabalho vão para o lixo; onde os patrões podem mentir sobre o nosso salário e o nosso trabalho, sem ser acusados de difamação; onde não podemos estar com a nossa família; onde se fizermos greve e ousarmos levantar a cabeça somos imediatamente despedidos; onde quem não ganha uma miséria é que está mal; onde não ter direitos é que está bem.

A greve dos estivadores é uma greve contra a precariedade: a deles e a nossa. É uma greve pela dignidade: pela deles e pela nossa. No dia 16 de Junho, estejamos todos nas ruas para dizer aos rufias que se se quiserem meter com os estivadores, terão de se meter com o país inteiro. É que não é só por ser ilegal que a ameaça de despedimento colectivo não vai passar, é porque os trabalhadores não vamos deixar e, de caminho, ainda metemos os terroristas da Associação de Operadores do Porto de Lisboa no seu lugar, isto é, fora do Porto de Lisboa.

Apelo ainda à essencial leitura do comunicado que o PCP está a distribuir.

IRS à moda da direita

Vamos a contas. Declaração de IRS relativa aos rendimentos de 2015. Declarei 3.854,70€, todos relativos a rendimentos como trabalhador independente, vulgo recibo verde. Tirando uns 15% deste valor, mais coisa menos coisa, este dinheiro foi recebido na também vulgar condição de falso recibo verde, ou seja, devia ter tido contratos de trabalho, a prazo, nos casos em questão. Durante o ano fui juntando 2+2 e portanto não fiz retenções na fonte, achando que, a exemplo dos anos anteriores e com tão pouco rendimento, ficaria a zeros no deve e no haver.

Continuando. Parece que com este valor de rendimento, a Autoridade Tributária aplica, sobre 75% do rendimento, uma taxa de 14,50%. Ou seja, não tendo eu dependentes e não tendo pessoas a cargo, insiro-me no quociente familiar 1. Ora isto resulta em quê? Resulta que 419,20€ teriam de ser pagos ao Estado. Ora como fui pedindo facturas ao longo do ano, atingi um valor de deduções à colecta de 286,28€. Para além disto, tenho um benefício municipal de 1,33€, obrigado Câmara Municipal de Viseu.

E é assim que, fazendo as contas, um português que aufere 3.854,70€ num ano, acaba por ter de pagar ao Estado, 131,59€.

Os 30€ de quota anual pagos ao Sindicato não contam para dedução – embora eu os declare porque gosto de o assumir -, porque para o Estado português ainda não é legal que um trabalhador independente (esqueçam se é verdadeiro ou falso que isso para o Estado ainda são trocos…) seja sindicalizado.

Resolução para 2016: pedir factura sempre que comprar uma pastilha elástica. Boa Passos e Portas, ganharam um fiscal das Finanças, satisfeitos?

E agora, vamos à parte dos problemas levantados pelo facto de ser um falso recibo verde:

a) ser um falso recibo verde;
b) não poder deduzir a quota sindical;
c) tendo baixos rendimentos, ter actividade aberta quando estritamente necessário, para não ter de pagar Segurança Social todos os meses e porque muitas vezes isso representaria um encargo superior aos rendimentos, logo, como em 2015 não paguei Segurança Social, não posso deduzir esse valor;
d) se tivesse tido, como devia, contratos de trabalho, não só tinha a Segurança Social paga, como esse valor contava para dedução.

Felizmente, e acreditem que é verdade, estes 3.854,70€ de 2015, foram porreiros se comparar com os rendimentos de anos anteriores, e 2016 não está a correr mal também. Ou seja, até tenho dinheiro para pagar os 131,59€ sem problemas. Aliás, até já tenho pago Segurança Social e tudo!

O meu caso pessoal é uma amostra do que 4 anos de Passos e Portas fizeram, mais do que ao país, às pessoas que o habitam. Em 2010, declarei qualquer coisa como 10.000€, em 2011, o Estado devolveu-me 600€ que tinha retido na fonte. E depois venham dizer-nos que não é preciso reverter o que eles fizeram. Fico a aguardar pelo preenchimento da declaração de 2016, logo vos conto como foi.

Recibos verdes: pagar apenas quando se recebe e sobre o que se recebe

Pagar quando se recebe. Pagar sobre o que se recebe. Eliminar os escalões e as remunerações convencionadas (presumidas). Perdoar as dívidas à Segurança Social (porque imorais e ilegítimas, com juros agiotas). Justiça. Elementar justiça.

Nos idos de 2009, o PS apresentou uma proposta de Código dos Regimes Contributivos do Sistema Previdencial de Segurança Social. Sim, é um nome enorme e pouco perceptível, mas em poucas palavras é um Código que rege as contribuições de todos os trabalhadores para a Segurança Social e as respectivas contrapartidas.

À data, o PCP bateu-se, e foi o único partido que o fez, contra uma série de «capítulos» desse Código que estabeleciam regimes diferenciados e ainda hoje profundamente injustos: agricultores, pescadores, trabalhadores independentes. Apresentou dezenas de propostas, todas chumbadas. E desde então tem vindo a reapresentá-las em cada mandato, na esperança que alguma justiça social se faça com estes trabalhadores, obrigados a contribuir, tenham ou não rendimentos. Mesmo quando é o próprio Estado a impedi-los de trabalhar: como é o caso dos pescadores, em alturas de defeso, é preciso pagar, pagar, pagar. E para quê? A protecção social é praticamente inexistente. As taxas contributivas demasiado altas.

Mas hoje foco-me apenas nos trabalhadores independentes ou os chamados recibos verdes. Como é que ninguém se lembrou disto antes? O PCP lembrou-se. Reiteradamente.

E sobre esse Código afirmou, em 2010:Um dos aspectos mais negativos foi a perda da oportunidade de corrigir o regime contributivo dos trabalhadores independentes prestadores de serviços.

De facto, os trabalhadores independentes que são prestadores de serviços, por um lado, estão sujeitos ao desconto com base em rendimentos fictícios – as remunerações convencionadas – obrigando-os a descontar para a Segurança Social mesmo que não aufiram qualquer rendimento e permitindo, ao mesmo tempo, que quem aufira rendimentos mais elevados contribua com base em remunerações mais baixas, por outro lado têm direito a uma diminuta protecção social quando descontam grande parte do seu rendimento.

(…)

E são sobretudo os mais jovens que são penalizados. Toda uma nova geração aufere pelo seu trabalho salários que muitas vezes não chegam sequer aos €1000,00; e, sendo prestadores de serviços, umas vezes têm trabalho e remuneração, outras vezes não, sendo que a contribuição para a Segurança Social é obrigatória, tendo estes trabalhadores remuneração ou não.


(…)

Assim, o PCP propõe a alteração do Código, eliminando as remunerações convencionadas, garantindo que os trabalhadores independentes que são prestadores de serviços apenas contribuem mensalmente com base no rendimento efectivamente auferido, correspondendo a base contributiva a 70% dos rendimentos obtidos.

O PCP propõe ainda que, nos casos em que o rendimento relevante seja igual ou inferior ao valor do IAS, o trabalhador pode requerer que lhe seja considerado, como base de incidência, o valor daquele rendimento, com o limite mínimo de 50% do valor do IAS.

Aqueles milhares de trabalhadores das artes, do design, da arquitectura, jornalismo, tantas outras actividades que viram as suas vidas penhoradas com milhares de euros de dívida à Segurança Social porque têm que pagar, todos os meses, recebam ou não. Aqueles milhares que são enquadrados dois escalões acima (porque no ano anterior receberam mais uns trocos) e a dívida avoluma-se. Aqueles que não podem ser contratados porque se forem o salário que ainda não lhes foi pago já tem ordem de penhora, têm aqui a sua solução, simples, clara, justa:

Pagam, com a emissão de recibo, apenas sobre o que efectivamente recebem, sendo a base contributiva 70% do recebido (ou seja, contando 30% do rendimento como utilizado em despesas profissionais). E com redução da taxa contributiva e aumento da protecção social (designadamente no desemprego, invalidez, maternidade e paternidade). Os verdadeiros independentes. Porque o PCP propôs, num acto de audácia, a criminalização do falso recurso aos recibos verdes e ao trabalho temporário. E propôs que seja a ACT, através das inspecções, que converta – automaticamente – os falsos recibos verdes em contratos de trabalho e o patrão, se quiser, que recorra ao tribunal, pague as custas e prove que o trabalho não é permanente.

Estas propostas são simples, da mais elementar justiça e estão em cima da mesa. Desde 2009. Agora que já está despertado o interesse, temos, finalmente, a vossa atenção?

De precários a flexíveis

Manda o beneficio da dúvida esperar de um novo executivo a vontade de resolver os problemas da sociedade. Sem por isso cair na ingenuidade é bom ouvir que a missão do novo ministro da Ciência é unir para reforçar em vez de dividir para reinar. Mesmo que só palavras é uma atitude bem diferente de uma comunidade que nos últimos quatro anos se habituou, sem se conformar, a ouvir que estava de má fé cada vez que se insurgia contra políticas públicas de destruição do Sistema Científico e Tecnológico Nacional (SCTN).

O actual sistema científico assenta numa lógica de precariedade alargada que atinge a maioria dos seus recursos humanos. Os seus principais integrantes são um exército de investigadores que trabalham sob uma lei única e original denominada de Estatuto do Bolseiro de Investigação (EBI). Contabilizados como trabalhadores para todas as estatísticas e indicadores de potencial e avaliação da ciência em Portugal são mantidos por um contrato de bolsa que não salvaguarda a maioria dos direitos de qualquer outro trabalhador. O uso das bolsas deflagrou de tal forma que existem já inúmeros casos de necessidades permanentes nas instituições resolvidas com recurso a estes contratos. Entre os mais famosos a contratação de jardineiros, pedreiros e electricistas.

O trabalho de investigação científica é de extrema importância para uma sociedade que se quer desenvolvida, importância esta que é reconhecida pela população em geral, que mesmo continuando com níveis de formação académica abaixo da média europeia não desarma na luta por um país mais desenvolvido. O SCTN com a sua capacidade única de modernização económica presta ainda o papel de divulgação do conhecimento, instrumento essencial para o progresso social rumo a uma sociedade mais justa. Este trabalho requer uma qualificação extremamente exigente de uma camada significativa da população em todas as áreas do conhecimento, com uma forte incidência nos campos onde se define um interesse estratégico nacional intimamente ligado ao sector produtivo e à boa exploração dos recursos nacionais. A necessidade destes recursos é um imperativo nacional e é este o facto que leva ao investimento de recursos na sua formação e na constituição de um SCTN capaz e orientado para as necessidades do povo.

O SCTN é ainda um poderoso instrumento de distribuição de riqueza, principalmente na sua vertente geográfica, com a capacidade de gerar desenvolvimento fora das áreas que hoje são naturalmente populadas criando potencial de fixação humana e de infraestruturas onde o investimento privado não existe nem existirá sem o público.

Os trabalhadores do SCTN são assim vitais para um país mais justo e desenvolvido e a sua formação uma necessidade pública assumida que requer investimento em quantidade e qualidade. A sua integração nas carreiras de docência e investigação nos vários organismos públicos, como as universidades e Laboratórios de Estado é essencial para a dignificação do trabalho de produção científica, de forma a que traga estabilidade à vida das pessoas e estabilidade ao próprio sistema.

Quem estivesse, não há muito tempo, no salão nobre do IST por motivo da apresentação de uma proposta de flexibilização da carreira de investigador (pela ANICT) ficaria a saber que na sala cheia (200 pessoas?) de investigadores de carreira, docentes, investigadores bolseiros, investigadores FCT e outros ninguém se pronunciou favorável ao ataque à carreira com a desculpa que tornaria mais fácil a renovação dos quadros. Os vários investigadores mostraram-se bem cientes que as carreiras que existem são suficientes e recomendam-se, apontando o dedo à falta de vontade política para que se invista no STCN. Apontaram as cada vez maiores restrições à contratação pública e aos orçamentos sempre decrescentes das Universidades e Laboratórios de Estado. Lembraram que atentar contra a carreira de investigador e torna-la precária (o ministro prefere flexível) seria precarizar a de docência também, pois alberga profissionais com níveis e competências académicas idênticas. Recusam-se também ao nivelamento pelo menor denominador comum, exigindo emprego de qualidade. Mostraram que o confronto geracional ou entre investigadores de carreira e precários não existe, e que todos alinham para políticas de emprego sérias que tragam estabilidade e dignidade ao trabalhador em ciência.

Tenho pena que o actual ministro tenha perdido este debate feito na sua casa. Saberia que escolhe um caminho que em pouco difere do anterior executivo a quem empresta agora palavras serenas.

“Para que a precariedade não seja o novo normal” por Luís Filipe Cristóvão

Os números seriam mais assustadores, não fosse o caso desta realidade não nos tocar a quase todos bem de perto. A precariedade no emprego veio para ficar e muitos encaram-na, hoje em dia, como se fosse normal, até mesmo aceitável, que 61,5% dos jovens trabalhadores tenham vínculos precários, que existam cerca de 130 mil jovens desempregados inscritos nos Centros de Emprego sem acesso a qualquer tipo de apoio, que 2/3 dos portugueses entre os 18 e os 34 anos de idade vivam em casa dos pais, sem condições para viver em casa própria.

É que a precariedade envolve, não só, a questão do vínculo ou o desemprego, mas também os baixos salários que são praticados, a emigração forçada, a desregulação de horários e o enorme retrocesso nos direitos devidos aos trabalhadores. Completam-se, em maio, 126 anos sobre os acontecimentos que, em Chicago, deram origem ao dia do trabalhador. E é também essa a antiguidade da justa aspiração daqueles que gostariam de ver as vinte e quatro horas do seu dia-a-dia divididas em oito horas de trabalho, oito horas de lazer e oito horas de descanso.

No entanto, a desresponsabilização das empresas para com os seus trabalhadores, bem como a inexistência de uma regulação sobre as empresas de trabalho temporário que exploram, nos nossos dias, as ambições de quem procura emprego, tem encontrado maior e melhor caminho para crescer. É por isso que existem, em Portugal, 1,2 milhões de trabalhadores precários, 252 mil trabalhadores com horários de trabalho parciais, 600 mil falsos recibos verde, sendo que estes, mesmo executando as mesmas tarefas, nos mesmos locais, auferem, em média, menos 30% do salário de um trabalhador com contrato permanente.

Isto para não entrar na realidade dos estágios e nos abusos cometidos pelas medidas “Contrato Emprego-Inserção”, “Contrato Emprego-Inserção +” e “Estágios-Emprego”, que prolongam a precariedade e dependência de quem apenas procura iniciar de forma justa a sua carreira profissional.

Este mês, o PCP lançou a campanha “+Direitos +Futuro – Não à Precariedade”, afirmando que uma outra realidade é possível. A criação de novos postos de trabalho e a respetiva valorização dos salários. A redução dos horários de trabalho e o direito à estabilidade e segurança no emprego. A melhoria das condições e a restituição dos direitos aos trabalhadores. Porque é necessário entender que, enquanto trabalhadores, os portugueses merecem ser respeitados. Porque é urgente impedir que, para as novas gerações, a precariedade seja o novo normal.

Luís Filipe Cristóvão
*Autora Convidada

O foguetório do Bloco de Esquerda e o perigo da vaidade

Quando falamos de precariedade e iniciativas legislativas, não consigo deixar de visualizar uma imagem de alguém (muito concreto a quem já ouvi declarações destas) de bicos de pés a gritar contra os sindicatos e a dizer que tem a solução para acabar com a precariedade.

Mas a verdade é que o atrevimento quando se percebe muito pouco e se quer, essencialmente, fazer uma grande festa em torno de uma questão, sem necessariamente criar mecanismos de resolução, não só é ridículo como é perigoso. É de tal forma perigoso, que nesta matéria da precariedade, podemos mesmo, sem problemas nenhuns, atribuir ao Bloco de Esquerda a consagração em lei da regulamentação fofinha do trabalho temporário (leiam bem o projecto), aliando esta sua iniciativa a iniciativas de regulamentação do trabalho temporário apresentadas por CDS-PP e PS. Não satisfeitos, ainda deram a mão ao Código do Trabalho que passou a incluir o trabalho temporário como legal e aceitável e tentaram pô-lo mais bonito.

E a questão é muito simples: o trabalho temporário não é aceitável e deveria ser ilegalizado. Já existem mecanismos suficientes de contratação a termo e a regulamentação do trabalho temporário teve apenas como consequência a proliferação astronómica das empresas de trabalho temporário, a externalização de tudo quanto são serviços e a criação de cedências ilícitas de trabalhadores sucessivas que, em vez de trabalharem directamente para as empresas onde estão diariamente, trabalham para as Randstad, Tempo Team, Teleperformance, Multipessoal e afins. Algumas destas empresas são mesmo participadas pelas empresas que recebem depois os trabalhadores temporários.

Escusado será dizer que existe a era antes da regulamentação e a era pós-regulamentação: em tribunal tudo ficou muito mais complicado de provar. Dificilmente se consegue hoje, graças a isto, provar que um trabalhador temporário da Multipessoal, por exemplo, é trabalhador efectivo não desta empresa mas do Novo Banco.

Em 2006, quando se discutiu esta regulamentação, recordou na Assembleia da República a então deputada Odete Santos que, para terminar «a capela da desregulamentação das relações laborais, onde incensa o neoliberalismo capitalista» faltava a legalização do trabalho temporário. Recordou mesmo as palavras de uma deputada do PS que, em 1989 afirmava: «O trabalho temporário é em si mesmo contrário à normal relação jurídico-laboral, devendo apenas ser utilizado como um mal necessário, devendo, por isso, ser utilizado correspondendo às necessidades excepcionais das empresas (…)». ««o trabalhador temporário, mesmo aquele que é colocado nas melhores condições, está impedido de exercer os seus direitos colectivos, contribuindo para enfraquecer os direitos adquiridos da comunidade de trabalho onde se vai inserir provisoriamente, e ainda os direitos mais gerais, como sejam o exercício da democracia na empresa, da actividade sindical e do sistema de segurança social.». Terminou com «O direito de usar e abusar dos trabalhadores estilhaçando direitos já é um pós modernismo com tristes sinais dos tempos. Tempos da precarização do trabalho, do desemprego, da grave e profunda crise social; tempos de praça de jorna, onde alguém negoceia o pão nosso de cada dia e de cada pedacito de dia ,para parafrasear um grande poeta. E é mesmo a pretendida lei que anuncia: É entrar, senhorias».

Já o Bloco, afirmava: «O Bloco de Esquerda propõe, no seu projecto, um claro combate às irregularidades cometidas pelas empresas de trabalho temporário, ao uso e abuso dessa contratação, procurando eternizar a precariedade laboral, em nome do funcionamento do mercado e do lucro, cujos objectivos, em concreto, se sintetizam. O projecto do Bloco consagra a aplicação aos trabalhadores de trabalho temporário do princípio da não discriminação quanto às condições de trabalho e de emprego fundamentais. Procura, assim, acabar com a escandalosa situação existente, em que pessoas, lado a lado, fazendo o mesmo trabalho, recebem salários diferentes, têm direitos diferentes e são usados, muitas vezes, contra os direitos dos restantes trabalhadores nas empresas. O projecto do Bloco garante aos trabalhadores temporários as mesmas disposições em matéria de regulamentação de trabalho, de saúde, segurança e higiene que são aplicadas aos outros trabalhadores.»: ou seja, o que o Bloco propunha era que um trabalhador temporário, que claramente o não era, pudesse ser, desde que as mesmas disposições em matéria de regulamentação de trabalho, de saúde, segurança e higiene que são aplicadas aos outros trabalhadores se lhes aplicassem. Legalizar o ilegal. Meia bola e força.

Não satisfeitos com a sua obra, o Bloco de Esquerda apresenta dois projectos de lei – 105 e 106 – que são verdadeiramente notáveis. Eu gostaria de ser complacente e dizer mesmo «coitados, deve ser porque não percebem muito de direito», mas vão muito para além disso. Qualquer jurista ou advogado que leia os projectos não só fica de cabelos em pé com a quantidade de violações da lei processual, de incoerências, de termos que são inaplicáveis na prática jurídica como, se quiser proteger o trabalhador, vai ter a vida muito dificultada caso estes projectos vejam a luz do dia em lei.

Desde logo, a aversão que o Bloco apregoa de quando em vez aos sindicatos é visível desde o primeiro momento. Querendo desmerecer a sua acção e intervenção no combate à precariedade, crítica conhecida de alguns bloquistas, porém absolutamente infundamentada, e que bem se nota no projecto com a pretensão de atribuir a associações o mesmo direito do que aos sindicatos, desvalorizando o seu papel e até promovendo a dessindicalização com o contínuo repetir do argumento de que os sindicatos não fazem nada.

E tanto não fazem nada que, como afirmou o CESP (um sindicato!!!), após a luta organizada dos trabalhadores, a Teleperformance Portugal anunciou que vai repor o valor total do prémio de assiduidade depois de o ter retirado ilegalmente, como medida de retaliação ao aumento – ainda
que reduzido – do Salário Mínimo Nacional para 530 euros. Procurei e não encontrei nada no esquerda.net e nas associações do Bloco e não percebo porquê. Pelo menos podiam disfarçar.

Adiante, falemos então mais tecnicamente (e aqui vou tentar ser o mais didáctica possível)

Sobre o projecto 106/XII, que altera os mecanismos de presunção do contrato de trabalho:
a) Novo conceito jurídico de «pessoa, singular ou física». Não entendo. Há possibilidade de contrato com pessoas não físicas? (atente-se que esta é a única alteração nesta parte do texto do artigo 12º do Código do Trabalho).

b) Colocar que têm que se verificar pelo menos 2 é pior do que o que está («algumas das seguintes características»). Porquê? Actualmente basta uma. Não há limite mínimo. A jurisprudência já é consensual quando se verificam duas. Não há qualquer necessidade de limitar porque uma pode ter força probatória suficiente.

c) «O prestador de actividade não se possa fazer substituir por outrem, no exercício das suas funções, sem autorização do beneficiário».. pois bem… Se me passarem uma procuração sem poderes especiais eu não posso substabelecer em ninguém – e não deixo de ser trabalhadora independente e cumulativamente verificar uma outra característica –  receber uma quantia certa. Chama-se avença. E é preciso perceber que existe mesmo trabalho independente para não descredibilizar esta luta tão importante.

d) «O prestador de atividade exerça as suas funções em regime de exclusividade ou por ela aufira mais de 80% dos seus rendimentos do trabalho» – tudo muito certo, mas para isso é preciso alterar o Código Contributivo que legitima este trabalho economicamente dependente. Ou seja, esta situação é uma situação perfeitamente legal e as entidades patronais contribuem com 5% para a Segurança Social, logo, este indício não é indício de coisa nenhuma se não for revogado (e isso não consta do projecto). Pior – (e aqui sim) e se 70% ou 79% dos rendimentos forem provenientes de uma entidade com um verdadeiro contrato de trabalho – deixa de o ser porque a percentagem não é a determinada por lei? Ou seja, não basta provar que há uma quantia paga com determinada periodicidade, mas essa quantia ainda tem que representar 80% do rendimento???? What???

e) «A presunção referida no n.º 1 é aplicável no momento da realização da actividade probatória, abrangendo contratos celebrados antes da sua entrada em vigor, seja qual for a designação que as partes lhes tenham atribuído, bem como a profissão ou o sector de actividade.» … (isto era eu a suspirar). A «actividade probatória»… Ok: então, há a ACT – Autoridade para a Inspecção do Trabalho, que pode fazer inspecções e provar estas coisas. Isto é actividade probatória. É esta? Há uma petição em que se pede o reconhecimento de contrato de trabalho e se juntam provas. Isto é actividade probatória. É esta? Há a audiência de julgamento, onde se faz a prova. Isto é actividade probatória. É esta? Há a sentença onde se fixa a matéria dada como provada. Isto é actividade probatória. É esta? Mas há alguma noção do que é fazer isto em tribunal? Da confusão que isto cria em matéria de…precisamente prova e produção de efeitos? Ou seja, se depois da denúncia da ACT, antes da visita inspectiva, a entidade patronal altera completamente o procedimento e passa a ilidir todas as presunções (deixa de pagar quantia certa, transfere o trabalhador para outro local, altera o horário de trabalho, etc, etc, etc) deixa de poder invocar-se a presunção??? E se ninguém testemunhar (actividade probatória) – deixa de existir presunção?

Podia ficar por aqui, mas li o projecto 105/XIII que incide sobre a acção especial de reconhecimento da existência de contrato de trabalho:

a) O Bloco vem determinar a legitimidade activa do Ministério Público para intentar a acção. Newsflash: a legitimidade para intentar a acção é … do Ministério Público. Aliás, o Ministério Público nas acções laborais é o representante dos trabalhadores por default.

b) Coloca ainda como partes legítimas da acção «as associações sindicais e de empregadores e outras entidades que intervenham na qualidade de denunciantes são partes legítimas nas acções respeitantes aos interesses colectivos que representam.» Ora, o objectivo aqui é claro, mas também é um bocadinho inconstitucional. Quem tem legitimidade para a representação dos trabalhadores são as associações sindicais. O alargamento do âmbito nestes termos permite mesmo que uma comissão de moradores ou um rancho possam intentar uma acção em nome e representação dos trabalhadores desde que estes não se oponham em 15 dias. Equipara qualquer associação a um sindicato (aposto que a direita aplaude). Demonstra aqui o sentimentozinho anti-sindical e vai levantar excepções processuais intermináveis (num processo que se pretende urgente, obrigadinha). Mas o que me incomoda mesmo é a motivação fortemente anti-sindical desta proposta específica.

c) «Audiência de julgamento
1 – O juiz questiona o empregador quanto à sua pretensão de reconhecer a existência de contrato de trabalho.» Aqui só me deu vontade de rir. Até percebo a bondade da coisa – Acham que a tentativa de conciliação se calhar é uma espécie de «ora chegamos aqui a um acordo porque somos todos amigos e tal», só que não é bem assim. Tentativa de conciliação significa: se o Ministério Público (newsflash….), trabalhador e entidade patronal conversam sobre o objecto da acção – o reconhecimento da existência do contrato – e chegam a um acordo. Há ou não. Todas as partes têm que ser ouvidas sob pena de violação do princípio do contraditório.

d) «O procedimento é imediatamente arquivado no caso em que o empregador faça prova da regularização da situação dos trabalhadores afectos àquela entidade empregadora (do sector público, privado ou do sector empresarial do Estado), designadamente mediante a apresentação dos contratos de trabalho ou de documentos comprovativos da existência dos mesmos, reportados à data do início da relação laboral.» – Eu percebo, mas convinha que o Bloco de Esquerda soubesse algumas coisas sobre a Administração Pública. A ACT não tem competência para acções inspectivas na Administração Pública. A Lei Geral do Trabalho em Funções Públicas não contempla esta acção. Os tribunais de trabalho não são competentes no caso do regime de contrato de trabalho em funções públicas. Puf… lá se vão os parênteses para a lama.

Isto para dizer que me choca como se apresentam projectos assim, tão distantes da realidade laboral, jurídica, judiciária. Apresentam-se como bandeiras que, na prática, podem bem ser de uma perversidade e prejuízo enormes para os trabalhadores. E faz-se tudo isto na maior das calmas, sem um trabalho sério e razoável. Bem sei que o Bloco já faz conferências em que convida Vieira da Silva, o autor do Código do Trabalho de 2009. Bem sei que aprovou uma lei do PS sobre trabalho intermitente que foi um desastre para os artistas. Bem sei de tudo isso, mas ainda assim consigo espantar-me com o divórcio entre estes projectos e a realidade.

E, a bem dos trabalhadores que tantas vezes represento – porque felizmente estão sindicalizados – e das muitas acções para reconhecimento da existência de contratos de trabalho, das impugnações de despedimentos onde a base é também a existência desse mesmo contrato, das acções declarativas para reconhecimento da existência dos contratos, espero, genuinamente, que estes projectos sejam rejeitados. Porque a serem aprovados são os direitos dos trabalhadores que estarão a ser não só rejeitados como seriamente postos em causa se o tribunal for a única opção.

Nesta matéria de precariedade, já estou como o Moretti.. digam qualquer coisa de esquerda.