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Voto nela porque é mulher

Este post é feito propositadamente após as eleições por não ser dirigido especificamente a qualquer das candidatas, mas antes a quem decidiu o seu voto em função do sexo do candidato. Ouvi várias vezes (mais frequentemente em relação a Maria de Belém) «voto nela porque é mulher» ou «vou votar nela porque é mulher». Afirmação que de imediato me eriça a pele.

O facto de ser mulher determina em quê o seu projecto político ou o programa presidencial?

Claro que já ouvi muitas teorias sobre a feminização do exercício do poder (até mesmo que as mulheres são mais sensíveis às questões sociais, o que, desde logo, me faz pensar que Maria Luís Albuquerque ou Helena André – ex-ministra do Trabalho e Solidariedade Social do PS – devem ser uma espécie de híbridas), claro que a discussão das quotas e da paridade é para aqui chamada e claro que este princípio também terá baseado alguma campanha e algumas candidaturas (e sobre isto nem vou dizer tudo o que acho senão vai cair o Carmo e a Trindade, como caiu com os engraçadinhos, mas não cai quando o óbvio até está chapado em outdoors).

Ora, a ideia da paridade é uma cosmética de poder para que continuem as desigualdades, nomeadamente em relação às mulheres, os baixos salários, designadamente das mulheres, a precarização do trabalho, sobretudo das mulheres, etc. Contudo, as adversativas não chegam para vincar que os direitos humanos das mulheres são direitos dos seres humanos, também dos homens, e que nenhuma paridade resolverá, para todos os desiguais, este problema, como afirmou a minha querida camarada Odete Santos em 2006. Não existe, de facto, um corpo homogéneo
feminino e tudo fica na mesma – com mulheres no poder: a paridade não quer a alteração do modelo político neocapitalista do famigerado neoliberalismo e, antes, se insere na aparência de igualdade forjada em sábios discursos e proclamações. Lagarde, Maggie, Maria Luís Albuquerque, Manuela Ferreira Leite, Teresa Morais, Elza Pais: a paridade fica-lhes tão bem!

Voltando às Presidenciais e à valorização simplista do sexo (querem mais sexista do que isto?), vou votar nela porque é mulher. Mas porquê?

Tentando responder a esta pergunta, porque deliberadamente me alheei do cobertura mediática das eleições, a bem da sanidade mental e de algum equilíbrio no entendimento da humanidade, li os programas/manifestos/propostas. Todos. E, curiosamente, ao ler o das candidatas, ou não encontrei rigorosamente nada sobre o papel da mulher ou encontrei algo que me desagradou profundamente. Passo a explicar. Na «missão» de Maria de Belém não há uma única menção aos direitos das mulheres ou sequer à igualdade. Maria, que foi Ministra da Igualdade. E alguém se lembra de alguma medida que tenha sido tomada para melhorar as circunstâncias concretas das mulheres em Portugal? Exacto.

Marisa Matias não se esquece das mulheres e da igualdade. Refere a IVG (e como não, se foi a única bandeira do BE durante anos, o alfa e o ómega dos direitos das mulheres?). Mas também escreve o seguinte:

Serei uma Presidente de todos e todas as portuguesas, mas não esqueço o que se está a fazer aos mais pobres para salvar os bancos, não esqueço o que se está a fazer aos jovens para os fazer desistir do país, não esqueço o que se está a fazer às mulheres para que sejam sofredoras submissas, não esqueço o que se está a fazer aos trabalhadores para pagar salários miseráveis, não esqueço o que se está a fazer aos velhos para desonrar vidas inteiras de trabalho e de sacrifício. É em nome deste povo que sofre, mas que resiste, que me candidato.

E isto, lamento, mas não percebo. Sofredoras submissas? Ou seja, o que se está a fazer não é um ataque aos seus direitos económicos e sociais mas sim um ataque psicológico para que sejam sofredoras submissas? Perceberia se fosse para que não tenham igualdade salarial, para que não participem na vida social e política, enfim, uma série de coisas, mas… sofredoras submissas? É isso que estão a fazer?

Daí que reitere: votar numa mulher porque é mulher é dos actos mais sexistas que existem, dos actos mais acríticos e que em nada contribuem para a desejada emancipação e igualdade. É reduzir uma questão importante a uma questão biológica e de poder. E, depois de ler as propostas, e apenas baseada nelas, não votaria em nenhuma delas. Conhecendo então os seus projectos políticos, escusado será dizer que também não votaria.

Mas é a premissa que está em causa, independentemente do nome da mulher.

Porque as mulheres há muito conquistaram o reconhecimento de que são seres humanos, é justa a sua recusa de retorno à natureza. É este também um dos sentidos do perene verso de Aragon, que exprime a solidariedade entre homens e mulheres em luta: «A mulher é o futuro do homem»! (Ainda, a Odete).

De cada vez que ouço a frase «voto nela porque é mulher» é como se a história recuasse séculos. Como se Inez Milholland, quando ao lutar pelo voto das mulheres – de todas as mulheres -, nos Estados Unidos, contra as mulheres burguesas que defendiam o voto apenas para a mulher branca com estudos (tal como as republicanas em Portugal, que algumas feministas tanto celebram), morresse outra e outra vez após o seu último discurso, como se o acto heróico de Clara Zetkin ao discursar no parlamento nazi em defesa da classe trabalhadora fosse apagado dos livros. Como se o Dia Internacional da Mulher Trabalhadora se resumisse às flores e declarações vazias.

Não votaria em ninguém por ser homem ou mulher. Votaria e voto porque defendem causas, princípios, valores de igualdade, de dignidade, de emancipação e transformação. Porque lutam por causas comuns sem esquecer as diferenças objectivas.

E se a mulher é o futuro do homem, tornemo-nos nesse futuro, nessas mulheres. Capazes de votar em quem pensa e age para este mundo de igualdade.

Dez candidatos e uma certeza


Se as eleições de domingo são recordistas em número de candidatos, o fenómeno não se deverá à multiplicação das ideias mas à clonagem das caras. Repare: sabe quais são as diferenças políticas entre, por exemplo, Henrique Neto e Cândido Ferreira? Não se trata apenas de serem ambos milionários chateados com o PS que deixaram de gostar dos «partidos». Até ao debate a nove, nunca tinham sido vistos no mesmo espaço físico e havia quem defendesse que eram a mesma pessoa.

Não estamos a brincar. O que distingue o Vitorino Silva de Jorge Sequeira? Não, sem ser no estilo e na pose e tirando o verve e o viço. Mais canhestros ou menos endinheirados, ambos são vaidosos inveterados que se pautam pelo vazio de causas. Só há duas explicações para que Tino e Sequeira, simétricos nas mesas dos debates e espelhados nas posições, se completem tão bem: ou foram criados por Manuel Monteiro na mesma gruta ou são a secreção eleitoral do cruzamento dos Hunger Games com o Correio da Manhã.

E Marcelo Rebelo de Sousa, «à esquerda da direita», o que o distingue de Maria de Belém, «à direita da esquerda»? Tratar-se-á de imitação ou osmose? São já tantas as décadas de alternância na alfurja do capital que os currículos de Marcelo e Belém se confundem nos corredores BES, nos encargos das privatizações desastrosas e no corte de direitos de quem trabalha. Sabe o leitor, por ventura, o que disseram Marcelo e Maria de Belém sobre assuntos como a privatização da Galp, a criação dos recibos verdes e das taxas moderadoras na saúde, a destruição da reforma agrária, ou a introdução de propinas no ensino superior? Uma pista: disseram a mesma coisa.

Outros candidatos são distinguíveis entre si, não se distinguindo das suas incoerências: a orgulhosa «independência» de Nóvoa confunde-se com a sua tentativa de arregimentar o PS; a credibilidade de Marisa Matias turva-se na mentirola sobre a resolução que abriu portas à guerra na Líbia e que, afinal, votou mesmo favoravelmente; a insistência de Nóvoa em afirmar uma candidatura que «não é de esquerda nem de direita» baralha a sua luta contra o candidato da direita; a causa de Marisa Matias contra a precariedade contrasta com a prática do Bloco de Esquerda, que acaba de apresentar uma deliciosa receita para perpetuar o trabalho temporário; as críticas de Nóvoa à austeridade contradizem os deputados do PS empenhados na sua campanha e que subscreveram toda a austeridade de Sócrates e ainda, claro, as subvenções vitalícias.

Paulo de Morais, finalmente, à «esquerda da direita do centro» não tem comparação com nada. Em populismo abaixo do Sequeira e do Tino, Paulo de Morais, qual pónei circense, só sabe falar de duas coisas, a saber: o IMI e as editoras dos livros escolares. É tudo. Já sobre a sua militância de 35 anos no PSD, ou a sua participação na ruinosa gestão da cidade do Porto, onde foi responsável pelo despejo de centenas de famílias, nem uma palavra.

A excepção a esta triste regra tem um nome: Edgar Silva. Assumindo a defesa incondicional dos valores de Abril, dos direitos dos trabalhadores e da Constituição, Edgar Silva é o candidato que dá mais certezas a quem luta por uma vida melhor. Sem uma única nódoa no seu percurso de vida e com uma trajectória política indefectivelmente comprometida com a justiça social e com a liberdade, Edgar Silva é o meu Presidente.




Fotografia: Inês Seixas

Que nunca se diga que o capital é ingrato

A campanha presidencial em curso tem sido muito desvalorizada, especialmente, por aqueles a quem convém que fique tudo mais ou menos na mesma. Contudo, não é apenas a campanha ou a pré-campanha, com mais exactidão, que tem sido desvalorizada. Na desvalorização mediática, Edgar Silva faz quase o pleno.

Sobre a candidatura de Edgar Silva, ao início foi a surpresa e no instante seguinte a caricatura, logo após, cai o silêncio e a omissão, a censura portanto. Entrado o tempo em que já não é mais possível esconder tanto quanto o foi Edgar Silva, vem o ataque. E a coisa foi contagiando e ficando cada vez mais serventuária e suja.

O primeiro a picar o ponto foi o Dr. Correia Guedes. Já em Dezembro ido, de forma absolutamente intempestiva decidiu despejar o seu saco de ódio ao PCP, com as mais absurdas calúnias sobre a sua direcção, sobre o seu funcionamento interno, e mergulhando até numa analise muito própria sobre o pensamento de Lenine. Tendo logo levado a devida resposta por várias vias.1 2

Decidiu voltar à carga e, de uma penada só, desqualificando todos os candidatos presidenciais, sobre Edgar Silva, o excelso analista e reputado furioso cronista descreve apenas “um antigo padre, convertido ao PC, que se atrapalha com a nova teologia”. Além da repetida metáfora, já ensaiada em Dezembro e até anteriormente, o Dr. Correia Guedes não explica, onde, como e porquê a atrapalhação de Edgar Silva. Mas pronto, siga, o que era importante era dizer qualquer coisinha, mandar a pedrada e seguir em frente.

Segunda na SIC é dia do “comentário” de Miguel Sousa Tavares. Marialva de quinta-ordem, useiro e vezeiro em décadas de “comentário” e “opinião” repletos de simplismos que oscilam entre o medíocre, o impreparado e o leviano, visionário ansioso que no longínquo Agosto de 1991 anunciava que “O PCP acabou e ainda bem”(jornal Semanário), best-seller “Escritor”(com afamada inspiração na leitura de Cette nuit la liberté para o seu Equador),conhecido apreciador da mestria bancária de Ricardo Salgado, enfim, uma figura pública com décadas de histórias, contradições e malabarismos de toda a sorte.

No seu “comentário” na SIC, apressadamente e por tal desatento logo de inicio à sua patética soberba e contradição, Sousa Tavares arranca com um “não conheço ninguém que tenha visto um debate presidencial do princípio ao fim, das pessoas normais”. Outro alinhado na narrativa dominante e promotora da desvalorização do debate, dos seus intervenientes e ideias, permitindo até ao telespectador concluir que o próprio Sousa Tavares não terá visto nenhum debate na íntegra.

Passada a gralha inicial, deixou o ataque a sério do “comentário” para o fim, quando após mais umas quantas generalizações simplistas e mistificadoras como de costume sobre todos os candidatos, disparou exclusivamente para Edgar Silva dizendo que “Edgar Silva para mim tem tido o discurso político mais pobre, mais inconsequente e às vezes até mais leviano que tenho ouvido”. E já está, missão cumprida. Que fez, que disse Edgar para merecer esta desvalorização? Não sabemos, talvez nem Sousa Tavares saiba, mas também não é para isso que o “comentário” serve.

Dia 7 a festa continua, desta vez com Francisco Louçã, agora nas vestes de comentador por aí, na SIC, no Público, na TVI às vezes e sabe-se lá mais onde. E vale sempre a pena sorrir, lembrando os tempos em que pelo exótico PSR o Professor fazia campanha pelo encerramento da televisão aos Domingos…outros tempos.

Sem estilo nem classe, com a subtileza de um bronco ao volante, Louçã escolhe um título intimista, com um tom que se perceberá hipócrita, para um texto em que começa por glorificar os resultados eleitorais do partido que ele próprio dirige de facto, utiliza um oportunista falsamente afectivo “amigo” para se balancear numa crítica sobre as temáticas do Orçamento Rectificativo e claro, como sempre e para sempre a inevitável e previsível Coreia do Norte, onde, sabe Louçã que “deflagrou uma bomba nuclear”. Pelo meio mais umas tretas e conversa-fiada sobre o passado do PCP para poder contra-atacar com referências a processos eleitorais anteriores (que ele considera negativos, omitindo factos, descontextualizando e simplificando tudo). Truques costumeiros de quem toma o leitor por parvo, que começando o texto dizendo-se “amigo” de Edgar Silva termina com a acusação de “não diz o que pensa”.


É por coisas destas que convites para orador e escriba de Bilderberg e Belmiro não faltarão a Louçã. Que nunca se acuse o capital de ingratidão.

Este aqui titula o seu canto no jornal Expresso por “chamem-me o que quiserem”, e quase tudo fica dito com esta rendição anunciada e incondicional. Como não consegui ler a sua prosa até ao fim (ainda queriam que pagasse!), não há muito a dizer, o objectivo da coisa que se presume soberba está anunciado no seu título, a criatura diz que já tinha visto o Sousa Tavares dizer o mesmo (e quis ajudar, entrar na onda, presume-se) e compara Edgar Silva a “Tino de Rans”. Henrique Monteiro não é mais nem melhor que isto, um subproduto do capitalismo no “jornalismo”, afundado no seu amor ao (des)governo anterior PSDCDS de quem era admirador despudorado e servente, fruta da época dos androjosos tempos que se vivem na comunicação social dominada pelo capital, um humilde servo. Ele sabe, nós sabemos, não há vergonha nem pudor, é um serviço apenas, presumivelmente bem pago, “chamem-me o que quiserem” diz o moribundo.

Nestes tempos, além do desastre (anunciado) em que se transformou a qualidade da informação e da opinião na comunicação social dominante (e dominada), pela breve amostra, fica claro a concertação objectiva por parte do capital em procurar apoucar a candidatura de Edgar Silva. Do outro lado, estamos nós.

As cartas de Marcelo

Um bufo da PIDE a Presidente da República?

Carta de 14 de Abril de 1973

“Acompanhei de perto (como Vossa Excelência calcula), as vicissitudes relacionadas com o Congresso de Aveiro, e pude, de facto, tomar conhecimento de caraterísticas de estrutura, funcionamento e ligações, que marcam nitidamente um controle (inesperado antes da efectuação) pelo PCP. Aliás, ao que parece, a atividade iniciada em Aveiro tem-se prolongado com deslocações no país e para fora dele, e com reuniões com meios mais jovens”

“Como Vossa Excelência apontou, Aveiro representou, um pouco mais do que seria legítimo esperar, uma expressão política da posição do PC e o esbatimento das veleidades “soaristas””

“O discurso de Vossa Excelência antecipou-se ao rescaldo de Aveiro e às futuras manobras pré-eleitorais, e penso que caiu muito bem em vários sectores da opinião pública”

Marcelo Rebelo de Sousa

“Cartas Particulares a Marcello Caetano”, de José Freire Antunes.

Marcelo: O candidato deles

O custo das campanhas das presidenciais e a forma como Marcelo Rebelo de Sousa foi louvado pelos media já foi aqui abordado, e tão bem, pelo António. Não é sobre isso que me apetece escrever, embora isto ande tudo ligado. No dia 3 de Janeiro de 2016, o Público decidiu vender um folheto de campanha do candidato que é tão independente do PSD/CDS como eu sou vegetariano.

Esta capa deve fazer-nos pensar, tem de fazer-nos pensar no papel dos media tradicionais na formação de opinião. E Marcelo é um especialista nisso, tendo em conta que andou anos e anos, durante 52 domingos por cada um, a explicar-nos como devemos pensar em relação a tudo e mais alguma coisa, desde o futebol, passando pelo atletismo, política internacional, nacional, culinária, geopolítica, rendas de Bilros e tudo o mais.


Nas suas Conversas em Família, Marcello, perdão, Marcelo, pôde dizer tudo, ensinar-nos tudo, com o alto patrocínio da TVI. Voltando ao dia 3 de Janeiro e ao Público, convém recordar desde já que é propriedade da família Azevedo. Do Belmiro e do Paulo. Na sua criação e história, o Público sempre foi tido como um diário mais inclinado para a esquerda, uma esquerda urbana e intelectual, com estudos. Foi essencialmente a secção cultural que, durante muitos anos, fez o Público crescer entre este segmento da população.

O equívoco começa aqui. Um diário de esquerda criado por um capitalista é coisa que não existe. O primeiro número do Público, para quem se recorda, tinha como foto da primeira página Álvaro Cunhal de costas, com uma manchete que anunciava o fim do PCP e da sua linha ideológica. E fica claro para que “esquerda” é que o Público foi criado, pensado e mantido durante tantos anos, mesmo com todos os prejuízos que sempre teve.

A verdade é que o poder da imprensa escrita já não é o que era. Logo no dia 3 de Janeiro, nas redes sociais, foram inúmeras as publicações a condenar o Público e a questionar se fará o mesmo com todos os outros candidatos. É pouco, é certo. Há uma parte substancial da população que não usa redes sociais e continua a comer tudo o que é debitado pelos media. Mas começa a haver uma mudança que os media tradicionais parecem não acompanhar ou não perceber. A Internet permite um escrutínio e difusão muito mais abrangente do que sucedia há uns anos, quando o Correio da Manhã tomava o partido da direita e apelava ao voto na AD. De forma tosca, mas apelava. E, honra lhe seja feita, sem grande dissimulação.

É evidente que há uma promiscuidade entre jornais, jornalistas e política. No anterior governo do PSD/CDS, foram pelo menos dez os jornalistas do Diário de Notícias que assumiram funções em cargos de nomeação, desde directores de serviço até assessores. Isso mesmo: dez jornalistas que um jornal que se aguenta nas bancas sabe-se lá como, perdeu para um governo. Carla Aguiar, Eva Cabral, Francisco Almeida Leite, João Baptista, Licínio Lima, Luís Naves, Maria de Lurdes Vale, Paula Cordeiro, Pedro Correia e Rudolfo Rebelo. O DN há-de ser um caso de estudo sobre a sua verdadeira utilidade, sendo um jornal de âmbito nacional que vendia, em 2014, pouco mais de 15.000 exemplares por dia, contadas também as assinaturas digitais. Isto talvez ajude a perceber a simpatia mediática que Marcelo, o candidato da direita, goza nos jornais, rádios e tv.

Marcelo é o candidato deles. Da direita, do populismo dos orçamentos para as campanhas, mesmo depois de ter apoiado Cavaco, quando este gastou 1.800.000 euros na sua campanha. Nesta altura, Marcelo andava pouco preocupado com os gastos. É o candidato dos donos dos media e dos seus amigos do BES, por onde também passou Maria de Belém, que a Ordem dos Médicos, com um sentido de oportunidade muito apurado, homenageará no dia 12.

Nenhuma destas questões é nova e a promoção do candidato do PSD/CDS repetir-se-á até ao dia das eleições. De forma mais ou menos clara, Marcelo será levado ao colo até ao trono de Belém. Cabe a nós desmascarar o papel que sempre teve no apoio à direita, às várias direitas que foram comandando o país através de esquemas de promoção semelhantes.

O que só Edgar Silva tem


A grande notícia de ontem foi que Edgar Silva é o candidato à Presidência da República com o maior orçamento de campanha. Os jornalistas, como ainda não podem adjectivar a deixa com «escandaloso!», fazem-no com a melodia da voz, com a entoação e com as pausas no discurso, levado ao histriónico da náusea e do rancor.

E, apesar da dimensão da campanha, o «candidato apoiado pelo PCP» que, ao contrário de Marisa Matias, Marcelo Rebelo de Sousa ou Maria de Belém, é o único apresentado pela sigla partidária, permanece invisível aos holofotes mediáticos. Porque será? A resposta é que a candidatura de Edgar Silva tem algo que mais nenhuma tem. Algo que assusta muita gente.

1 – Uma vida de solidariedade verdadeira

Ao contrário de Marcelo Rebelo de Sousa que, já não podendo passar férias na bonita mansão de Ricardo Salgado, continua a cultivar com este uma bonita amizade, Edgar Silva é um homem que conheceu a pobreza na pele e o único candidato que se pode orgulhar de um percurso de vida ao lado dos mais fragilizados da sociedade. Enquanto a juventude de Marcelo Rebelo de Sousa, filho de ministro fascista e afilhado de ditador, foi passada no mais obsceno luxo, a escrever cartinhas a Salazar e ao outro Marcelo, Edgar Silva dedicou os seus melhores anos a salvar da mendicidade e da pedofilia as crianças da Madeira.

Já a vida política de ambos não é menos reveladora. Enquanto liderou o PSD, Marcelo distinguiu-se por duas coisas: a paixão por Cavaco, que ajudou a levar ao poder, e a defesa fanática dos cortes salariais, das isenções fiscais para banqueiros e grandes empresas e do roubo de direitos dos trabalhadores. Para o cargo de chefe do Estado, precisamos de alguém cujo percurso de vida se paute pelos mais elevados critérios de honradez e rectidão. Edgar Silva provou com a biografia que é um homem justo.

2 – Um compromisso com a Constituição

Edgar Silva é o único candidato a colocar a Constituição como eixo central do exercício dos poderes presidenciais. Independentemente de concordarmos ou não com o seu projecto, a verdade é que mais nenhum candidato ousa identificar-se na íntegra com o texto que o Presidente jura cumprir integralmente.

Só Edgar Silva tem a coragem de lembrar que a Constituição prevê, por exemplo, a dissolução dos blocos militares e a gratuitidade da saúde e da educação. Do mesmo modo, Edgar Silva é, à data desta publicação, o único candidato que assume frontalmente que as 40 horas na função pública atropelam a lei suprema da República.

3 – Uma candidatura coerente

Contra Edgar Silva podem-se tecer as corriqueiras acusações a que todos os comunistas estão habituados, mas ninguém disputa a coerência de Edgar Silva, exemplificada pela frontalidade com que criticou a patranha do BANIF. Como em todos os actos eleitorais, a coerência é um bem caro.

Já a montante, pulula a incoerência e a contradição: Maria de Belém, que não vê qualquer conflito de interesses entre ser consultora do BES Saúde e presidente da Comissão Parlamentar de Saúde; Marcelo Rebelo de Sousa, que não tem pejo em presidir simultaneamente a uma fundação monárquica e à República; Sampaio da Nóvoa, que, assumindo causas justas, mantém uma ambiguidade dilacerante sobre tudo o que venha de Bruxelas, refugiando-se na fraseologia para escapar aos ditames da União Europeia.

4 – Uma ligação profunda ao mundo do trabalho

Percorrendo as fábricas, as empresas e os locais de trabalho de Norte a Sul do país, Edgar Silva vem somando o apoio de milhares de trabalhadores e líderes sindicais. A determinação de Edgar Silva em querer conhecer a vida dos funcionários públicos, dos operadores de call center, dos operários, dos imigrantes, dos enfermeiros, dos trabalhadores das limpezas, dos investigadores, dos lojistas e de todos os trabalhadores demonstra bem o que é e ao que vem esta candidatura.

Inversamente, Marisa Matias prefere a companhia de: Rita Ferro Rodrigues, fervorosa apoiante da campanha da genocida e corrupta Hillary Clinton e empregadora de trabalho escravo; Fernanda Câncio, paladina anti-comunista que defende que os jornalistas do Avante! e do Esquerda.net deviam perder a carteira profissional, que assume sentir «asco» do PCP a que chama «partido zombie» sem lugar na sociedade portuguesa e que acha que os cartazes do PNR não fazem mal a ninguém (embora os murais da JCP sejam um caso de polícia)… entre muitas outras estrelas e famosos da televisão.

5 – Um projecto de esquerda, por Abril

Esta é uma campanha de intenções dissimuladas: Marcelo Rebelo de Sousa tenta fingir que não é o candidato do PSD/CDS-PP, da austeridade e de Cavaco; Sampaio da Nóvoa repete, incansável, que a sua candidatura não é de esquerda nem de direita; Maria de Belém finge não conhecer José Seguro.

A candidatura de Edgar Silva, sem olhar a votos, não esconde aquilo que é: um projecto de esquerda, profundamente ligado aos ideais de Abril. Sistematicamente acusado de «ter um programa de governo», o que Edgar Silva tem é uma visão para um país mais justo. Patente em nenhum lado como na sua Declaração, há um conjunto de valores, posições e princípios que não se escondem. Que não se vendem.

 

Marcelo: Som que se propaga no Vácuo

O candidato presidencial Marcelo Rebelo de Sousa deu por estes dias uma entrevista à SIC que teve, aparentemente, desde logo, o condão de não ter perguntas previamente combinadas. Não havia, aparentemente, temas “escolhidos” nem guião de conversa como acontecera noutros carnavais, onde de resto Marcelo “nadava” como outrora nas águas do Tejo. E, por isso, aconteceu o esperado: quando confrontado com aquela que é a sua experiência política ou com o seu passado partidário, Marcelo tropeçou em si próprio e conseguiu uma proeza que ultrapassa as barreiras da ciência e as leis da física: propagar som… no vácuo. Mas já lá vamos.

Marcelo é, foi, um desastre político em toda a linha. O seu percurso fala por si.

Há umas semanas escrevi aqui sobre a vacuidade política que é, por trás de toda a embalagem mediática, Marcelo Rebelo de Sousa. Apareceu de imediato, como seria de esperar, quem viesse defender o curriculum académico do reverente professor doutor de Coimbra. O problema é que essa defesa, por si só, não preenche o vazio político de que falávamos e que é factual e absolutamente incontestável. Marcelo é, foi, um desastre político em toda a linha. O seu percurso fala por si. Foram sucessivos e bastante sonoros do ponto de vista mediático até – e a má memória sobre Cavaco ameaçar repetir-se relativamente a Marcelo, embora num outro plano – os insucessos em todos os cargos – e não foram muitos – por onde Marcelo se passeou enquanto não o mandaram calar de vez. E essa evidência ficou uma vez mais realçada nesta última entrevista, curiosamente pela própria voz e pela própria atitude nitidamente incomodada do visado, quando se mexeu na incurável ferida do tempo.

Aconteceu então que, na fase final da entrevista, Rebelo de Sousa fosse interpelado, primeiro, acerca da sua relação com Ricardo Salgado e, depois, sobre o seu passado como dirigente do PSD. E em relação ao primeiro assunto, passaria a situação perfeitamente despercebida, não fosse dar-se o caso de Marcelo ter sentido a necessidade de asseverar que ele até “foi dos primeiros a criticar Ricardo Salgado”, a propósito de situações de “favor” (palavras dele), entre a Câmara de Lisboa e o BES. Acrescentou ainda que, a esse propósito, lhe haviam dito em tempos que só lhe faltava “a boina de Che Guevara”, tal a sua fúria revolucionária para com o seu amigo banqueiro. Logo a seguir, face ao seu passado enquanto líder do PSD, aí é que a porca torceu verdadeiramente o rabo. Com um ramalhete de “feitos” e “conquistas” de que não resta efectiva memória, lá veio Marcelo espalhar “som” onde só há “vácuo”.

Quando o entrevistador fala desta candidatura como a sua “última oportunidade política”, fazendo referência ao seu passado de candidaturas falhadas e à mediocridade da sua liderança do PSD, Marcelo quase pula da cadeira e desata a puxar de supostos e falaciosos galões. Respondeu, desesperado por se justificar, que “ganhou dois referendos” – é tão-só risível -, que “teve um óptimo resultado nas autárquicas” – como se a presidência do PSD interferisse de sobremaneira nas dinâmicas autárquicas –, que foi ele o obreiro da queda de Guterres e ainda, em não menor tom ridicularizante e ridicularizável, que “viabilizou uma revisão constitucional”. Tudo isto para tentar concluir que, contrariamente ao que parece e neste caso o que parece é mesmo, Marcelo até teve “uma grande presidência do partido”. Ou seja, até Marcelo sabe, embora tente disfarçá-lo com a sua mestria comunicacional, que o seu passado político abona tanto a seu favor como a relação de amizade que teve e tem com Ricardo Salgado. Logo numa altura em que o povo português quer ver-se livre de um presidente conotado com o poder financeiro, e numa altura em que está a ser chamado, directa ou indirectamente, a pagar do seu bolso, uma vez mais, os desmandos e abusos de um sistema financeiro proveitoso para as “boas famílias” e ruinoso para o país.

Posto isto, é preciso que Marcelo continue a falar, mas sem prévias combinações. Só assim se verá com maior nitidez que o que Marcelo tem a apresentar aos portugueses é toda uma vida política e partidária a roçar a mediocridade… e nada mais. Não há nada que lhe valha de substancial. Há, sim, uma imagem bem montada, bem construída, de aparato, de espectáculo e mediatismo, naquele que foi o mais longo tempo de antena da história da democracia. E, infelizmente, essa estratégia tem dado alguns frutos no nosso país. Quem domina os meios, domina a consciência. Quem domina a opinião, domina o voto. Não é novo, dura há muitos anos. Esperemos é que não dure por muito mais tempo.