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A mão por detrás dos afectos

Marcelo Rebelo de Sousa resolveu devolver à Assembleia da República um decreto que tinha por finalidade garantir aos arrendatários o direito de preferência em caso de compra dos imóveis por inteiro. Tudo isto surge numa altura em que decorre um negócio que, caso a lei venha a entrar efectivamente em vigor, pode ficar em risco: trata-se da operação de venda de 277 imóveis da companhia de seguros Fidelidade a um fundo de investimento norte-americano (Apollo), operação na qual a Fidelidade se tem negado a dar a devida preferência a cada um dos inquilinos sobre a respectiva fracção. Enquanto a lei vai, volta e não entra em vigor, lá vão folgando as costas, dando tempo precioso à consumação da negociata.

O presidente tem à sua mão um conjunto de sapientíssimos conselheiros. Esses assessores “técnicos” determinam ou influenciam, naturalmente, as decisões a tomar, pois é para isso que lá estão. O problema coloca-se quando um desses conselheiros aparenta ter, directa ou indirectamente, interesses óbvios na opção tomada. Para este caso concreto, a mão que se esconde por detrás dos afectos é, segundo o Jornal Económico, Miguel Nogueira de Brito. De acordo com o artigo, o conselheiro de Marcelo «é sócio da sociedade de advogados Morais Leitão, Galvão Teles, Soares da Silva & Associados (MLGTS), a qual tem como clientes sociedades de investimento como a Apollo Global Management ou a Oaktree Capital, entre outras gestoras de fundos de investimento imobiliário».

Confrontado pelos jornalistas acerca do hipotético conflito de interesses, Marcelo respondeu à questão de forma contraditória, apressada, esquiva e leviana. Não negando a intervenção de Nogueira de Brito, justificou-se dizendo ter-se tratado de uma “decisão solitária” e por razões “políticas”. Foi uma espécie de “ele aconselhou mas eu não liguei ao conselho”. Ele “disse mas foi como se não tivesse dito”. Qualquer coisa como “é proibido, mas pode-se fazer”. A razão “política”, onde cabe tudo e um par de botas, é invocada para selar a impertinência da dúvida. E se isso pode bastar à oficialidade, não pode de modo algum silenciar quem ousa – e bem – questionar.

Não há afecto, «dab» ou dancinha patética que disfarce a urgência do escrutínio. Há um grande negócio entre colossos financeiros prestes a concretizar-se penalizando o elo mais fraco, que são os inquilinos. Se tal se concretizar durante o tempo que vai demorar até à aprovação do decreto, a negociata passa a ter o patrocínio oficioso de Belém. E Marcelo, como qualquer outro agente político, tem de ser responsabilizado pelo que faz, pelo que não faz ou pelo que deixa fazer.

Carta aberta – 1% salva mil cornucópias

Carta aberta – 1% salva mil cornucópias

Desta vez foi anunciado o fim do Teatro da Cornucópia. Naturalmente, não somos indiferentes a esta decisão e notícia, mas também não ficamos surpreendidos. É cada vez mais frequente vermos estruturas e projectos a encerrar ou a prosseguir à custa da descaracterização profunda do seu projecto artístico. Quem seguiu o trajecto de desinvestimento público na criação artística sabia bem que os actos resultariam em empobrecedoras consequências, o encerramento da Cornucópia é uma das mais visíveis.

Entre muitas declarações públicas, ouvimos o Presidente da República, debaixo dos focos da comunicação social, indagar o Ministro da Cultura sobre possíveis soluções para um caso concreto. Preferíamos que o Presidente da República se tivesse indagado publicamente sobre como foi possível, décadas a fio, sucessivos governos desrespeitarem a Constituição e terem activamente contribuído para o definhamento do tecido social da criação artística em Portugal. O esvaziamento contínuo da criação artística conduz a um consequente empobrecimento da sociedade e da sua capacidade de expressão. Contrariar este esvaziamento é garantir-lhe a liberdade a que tem direito.
É preciso manter abertas todas as portas de projectos e estruturas que trabalham por esse país fora e deixar abrir todas as outras que se fecharam ou estão por abrir. Em todo os lugares, em todas as áreas artísticas, os mais diferenciados projectos de criação independente caminham num fino e frágil arame que ao menor deslize se romperá com a garantia certa da irreversibilidade dessa ruptura. São muitos os programas que ficam por cumprir, os espectáculos que têm ficado por fazer, os filmes que não são produzidos, os projectos que não chegam a realizar-se. São muitos os trabalhadores e trabalhadoras que têm ficado sem trabalho, que têm emigrado, que têm desistido de fazer aquilo que sabem fazer. São milhões aqueles que ficam impossibilitados de ver, ouvir, experimentar e sentir de outro modo.

Quando um cada vez maior consenso insiste na necessidade de reforço substancial do financiamento da actividade artística, não o faz por mero capricho. Fá-lo porque sabe que essa é a única forma de garantir que a criação e fruição culturais, tal como o exige a letra da Constituição, são acessíveis a todas as pessoas neste país, independentemente da sua condição social, vivendo nos centros urbanos ou na mais recôndita aldeia, interessadas ou envolvidas nas mais diversas formas de expressão. E é por isso que as estruturas de criação são financiadas: para cumprirem a prestação de um serviço público de qualidade e para que a criação artística seja diversificada e não fique refém da sua mercantilização.

E por mais que haja quem diga que muito há a fazer para lá dos números – e há -, enquanto a questão primordial do financiamento não for resolvida, teremos sempre esse muro imenso a separar-nos da possibilidade de levar a cabo tranquilas e detalhadas análises de fundo que possam lançar as bases para decisões sustentadas e informadas sobre o serviço público de cultura que gostaríamos de ter.

O que nos une não são consensos sobre formas de gestão, muito menos sobre escolhas estéticas. Une-nos sim a complexa mas indispensável garantia da democraticidade e da diversidade cultural e artística. Une-nos a necessidade de manter abertas as portas das estruturas de criação existentes e de criar as condições para o aparecimento de outras portas. Porque são abomináveis os fins prematuros a que temos assistido e a que poderemos continuar a assistir, em que tanta e tanta gente não chega sequer a descobrir o tanto que tinha ainda por dizer.

O apelo que fazemos não é apenas dirigido aos diferentes órgãos de soberania e às entidades públicas que diariamente fazem o Estado funcionar. O apelo que fazemos é dirigido a todas as pessoas que ao lerem esta carta aberta se recusem a aceitar o fim prematuro de tantos projectos artísticos, para que exijam a possibilidade de ver nascer, crescer e consolidar todos os projectos que a arte deste país lhes puder oferecer. Que se recusem a aceitar que a precariedade, os baixos salários, o trabalho não-remunerado e a negação de tantos direitos laborais sejam a forma de sustentar a actividade artística. Que se recusem a aceitar que o país continue a querer desenvolver-se sem respeitar um dos vectores mais decisivos para a sua democratização, a Cultura.

Então, este apelo é simples:

Não há tempo a perder. 1% do Orçamento do Estado salva mil cornucópias. Lutemos por isto. Exijamos este compromisso.

SUBSCREVEM

Alexandra Diogo – actriz
Alexandra Lázaro – psicóloga clínica
Alexandra Lourenço – arquivista
Alexandre Alves – assistente de realização
Alex Cortez – músico
Alfredo Brito – actor e locutor
Alípio Padilha – fotógrafo de cena
Amarílis Felizes – economista
Ana Alves Miguel – funcionária da administração local
Ana Araújo – professora
Ana Brandão – actriz
Ana Caetano – bailarina
Ana Cláudia Serrão – músico
Ana Figueira – directora artística
Ana Filipa Martins – bióloga
Ana Jacobetty – pianista
Ana Lázaro – actriz, dramaturga e encenadora
Ana Nicolau – realizadora
Ana Moura – fadista
Ana Mourato – encenadora e actriz
Ana Paula Santos – professora
Ana Pereira – produtora teatral
Anabela Laranjeira – professora
André Albuquerque – actor
André Levy – biólogo e actor
André Vazão – estudante
Andreia Bento – actriz
Andreia Salavessa – arquitecta
Ângela Cerveira – técnica de cinema
António Amaro das Neves – historiador
António Durães – actor
António Sousa Dias – compositor e professor
Armando Possante – cantor e professor
Áurea Duarte Ferreira – professora

Beatriz Maia – estudante de teatro
Beatriz Peixoto – estudante
Bruno Raposo Ferreira – psicólogo clínico e investigador
Bruno Schiappa – actor e encenador

Camila Reis – ilustradora
Carla Bolito – actriz
Carla Veloso – actriz
Carlos de Andrade – economista
Carlos Borges – actor
Carlos Costa – dramaturgo, encenador e actor
Carlos Seixas – produtor musical
Carlos Vidal – professor universitário e crítico de arte
Carlota Lagido – coreógrafa, figurinista e bartender
Catarina Molder – cantora lírica, gestora cultural, apresentadora
Catarina Moura – cantora
Catarina Mourão – realizadora
Catarina Rôlo Salgueiro – actriz
Cátia Barros – cenógrafa e figurinista
Cátia Pinheiro – encenadora
Célia Machado – produtora executiva
Célia Williams – actriz
Cláudia Cláudio – professora
Cláudia Dias – coreógrafa
Cláudia Lucas Chéu – dramaturga e encenadora
Cláudia Marisa Oliveira – docente
Cláudia Silvano – produtora
Cristina Maria Figueiredo – professora
Cristina Planas Leitão – coreógrafa
Cristina Santos – professora de dança e gestora cultural
Cucha Carvalheiro – actriz
Custódia Gallego – actriz

Daniel Lima – músico
Daniel Moreira – artista plástico
Daniel Sousa – músico e professor
Deolindo Leal Pessoa – médico
Diana Costa e Silva – actriz
Dörte Schneider – assistente de realização

Edna Geovetty – estudante
Eduardo Carvalho Pacheco – produtor
Eduardo Costa – professor reformado e escritor
Eduardo Ribeiro – actor
Eliana Veríssimo – professora e pianista
Elsa Figueiredo – bibliotecária reformada
Elsa Valentim – actriz
Emanuel Arada – actor

Fátima Leal – assistente social
Fátima Rolo Duarte – designer
Fernanda Lapa – actriz e encenadora
Fernando Jorge – actor
Filipa Malva – cénografa e figurinista
Filipa Prates Coelho – produtora
Filipa Vala – bolseira de pós-doutoramento em divulgação e comunicação de ciência
Filipe Melo – músico
Francisco Rebelo – músico

Gil Cabugueira – direcção de produção
Graeme Pulleyn – encenador

Hugo C. Franco – técnico de luz e criador multimédia
Hugo Lemonnier – estudante

Idália Tiago – socióloga
Igor Gandra – director artístico e encenador
Inês Barbedo Maia – produtora de teatro
Inês Lago – actriz e encenadora
Inês Meira – estudante
Inês Gomes – estudante
Inês Gregório – produtora
Íris Reis – assistente de realização
Issac Achega – músico
Isabel Anastácio – reformada
Isabel Casimiro – professora reformada
Isabel Craveiro – actriz e encenadora
Isabel Medina – actriz e encenadora
Isabel Lebre – assistente de realização
Isabel Pereira – secretária
Isilda Sanches – locutora de rádio
Ivo Costa – músico

JP Simões – músico
Joana Almeida – actriz
Joana Brandão – actriz e encenadora
Joana Dourado – bolseira e cantora
Joana Gomes – cenógrafa
Joana Gusmão – produtora
Joana Lourenço Cardoso – directora de arte
Joana Manuel – actriz
Joana von Mayer Trindade – coreógrafa, bailarina e professora
Joana Providência – coréografa
João Barreiros – técnico de luz
João Cabrita – músico
João Castro – actor
João Gesta – programador cultural
João Hasselberg – músico
João de Mello Alvim – encenador
João Monge – autor
João Nuno Martins – produtor
João Paulo Janicas – professor
João Pedro Rodrigues – realizador
João Sotero – escultor
João Sousa – músico
John Havelda – professor universitário
Jonathan de Azevedo – designer de luz
Jorge Cadima – professor universitário
Jorge Ferreira da Costa – assistente de realização
Jorge Louraço Figueira – dramaturgo
Jorge Palinhos – docente
Jorge Silva – actor
José Arruda – antropólogo
José Carlos Faria – cenógrafo
José Carlos Nelas – enfermeiro
José Castela – professor
José Gusmão – economista
José Laginha – bailarino e director artístico
José Leite – actor
José Luís Ferreira – produtor e programador
José Luís Lopes – assistente de realização
José Nunes – encenador
José Peixoto – actor e encenador
José Russo – actor e encenador

Kimi Djabate – músico

Lara Li – cantora
Lígia Roque – actriz e encenadora
Lígia Soares – coreógrafa e actriz
Loubet Simões – técnico de conservação e restauro
Luciana Fina – realizadora
Luísa Ortigoso – actriz
Luís Castro – encenador e investigador
Luís Gaspar – actor
Luís Lopes – músico
Luís Pacheco Cunha – músico
Luís Pedro Madeira – músico
Luís Possolo – poeta

Mafalda Simões – directora de produção e comunicação
Manuel Gusmão – poeta e ensaísta
Manuel Loff – historiador
Manuel Mendonça – actor
Manuel Rocha – músico e professor
Manuela Pires – jurista
Márcia Lima – actriz
Margarida Madeira – animadora e ilustradora
Margarida Pinheiro – professora e cantora
Margarida Rita – produtora teatral
Margarida Sousa – actriz
Marlene Duarte – podologista
Maria Alice Samara – historiadora
Maria Anadon – cantora
Maria Gusmão – técnia superior da admin. pública
Maria Helena Alves – empregada sindical reformada
Maria João Fura – músico e cantora
Maria João Garcia – produtora
Maria João Luís – actriz e encenadora
Maria João Simões – directora técnica e de cena
Maria de Lurdes Nobre – produtora cultural
Maria Manuel Ferreira de Almeida – técnica superior FLUC
Maria do Mar – músico
Maria Sequeira Mendes – professora de teoria do teatro
Mariana Magalhães – actriz
Mário Afonso – bailarino e coreógrafo
Marlene Cavaco – conservadora restauradora
Marta Bernardes – artista plástica e de cena
Marta Carreiras – cenógrafa e figurinista
Marta Manuel – professora e músico
Marta Pinho Alves – professora do ensino superior politécnico
Marta Silva – bailarina
Matamba Joaquim – actor
Miguel Bonneville – artista
Miguel Gonçalves Mendes – realizador
Miguel Moreira – artista
Miguel Oliveira (MOLÉCULA) – rapper
Miguel Pires Ramos – director de programas tv
Mónica Calle – actriz e encenadora
Mónica Garnel – actriz
Mónica Talina – actriz e produtora cultural

Nádia Monteiro – assessora de imprensa
Nélson Duarte (Sr. Alfaiate/DJ Nelassassin) – dj hip hop
Nuno Almeida – assistente administrativo da CML
Nuno Góis – actor
Nuno Grácio – músico
Nuno Machado – actor
Nuno Pinto Custódio – encenador
Nuno Vieira de Almeida – músico

Octávio Gameiro – professor, autor e tradutor
Ofélia Libório – educadora de infância
Olga Roriz – coreógrafa
Orlando Santos – músico

Patrícia Calais Garcia – técnica superior da Seg.Social
Patrícia Santos Pedrosa – arquitecta e investigadora
Paolo Marinou-Blanco – realizador e argumentista
Paula Almeida Silva – assistente de produção
Paulo Capelo Cardoso – artista plástico e cenógrafo
Paulo Montez – produtor
Paulo Moura Lopes – actor
Paulo Raposo – antropólogo e docente universitário
Pedro Barbosa – produtor
Pedro Estorninho – encenador
Pedro Gil – actor
Pedro Jordão – arquitecto
Pedro Lamas – actor e professor de teatro
Pedro Madaleno – músico
Pedro Madeira – assistente de realização
Pedro Penilo – artista plástico
Pedro Pernas – actor
Pedro Pestana – músico
Pedro Pousada – artistas plástico e professor universitário
Pedro Rodrigues – produtor teatral
Pedro Sabino – argumentista
Pedro Sousa Loureiro – actor, encenador e artista plástico
Pedro Vieira – guionista

Rafaela Lacerda – bióloga e encenadora
Raquel Bulha – locutora de rádio e tv
Raquel Castro – actriz
Raquel Castro – investigadora
Renata Sancho – realizadora
Renato Azul – músico e videógrafo
Ricardo Alves – encenador
Ricardo Correia – encenador
Ricardo Neves-Neves – encenador e actor
Ricardo Pinto – músico
Ricardo Vaz Trindade – actor
Rita Cruz – actriz
Rita Maia – dj
Rita Namorado – pianista e professora
Rita Natálio – performer, escritora e investigadora
Rita Santos – produtora
Rita Saraiva Grade – bailarina
Rita Simões – professora
Rita Veloso – professora
Rodrigo Malvar – actor e artista sonoro
Rogério Nuno Costa – artista
Romeu Costa – actor e encenador
Romeu Runa – bailarino
Rui Alves – músico
Rui Ferreira – criativo
Rui Francisco – arquitecto e cenógrafo
Rui Galveias – músico e artista plástico
Rui Guerra – músico
Rui Júnior – músico
Rui Monteiro – desenhador de luz
Rui Pité (RIOT) – músico
Rui Valente – director técnico

Sandra Cristina Rodrigues – bancária
Sara Barbosa – encenadora e actriz
Sara Carinhas – actriz e encenadora
Sara Gonçalves – actriz e encenadora
Sara Trindade – assistente social
Sara Vaz – bailarina e actriz
Saúl Falcão – professor e músico
Sebastião Faro – publicitário
Sérgio Alves – designer
Sérgio Dias Branco – professor universitário
Sérgio Godinho – músico e escritor
Sérgio Machado Letria – gestor cultural
Sílvia Filipe – actriz
Sónia Arantes – produtora
Sofia Oliveira – directora de produção
Sofia de Portugal – actriz
Sofia Reis – produtora executiva
Susana Bilou Russo – antropóloga
Susana Fonseca – decoração
Susana Moody – músico
Susana de Sousa Dias – realizadora

Tadeu Faustino – actor
Tânia Alves – actriz
Tânia Guerreiro – actriz
Tânia Guerreiro – gestora cultural
Teresa Almeida – administrativa
Teresa Carvalho – artista plástica
Teresa Coutinho – actriz
Teresa Faria – actriz e encenadora
Teresa Lopes – professora
Teresa Miguel – directora de produção
Teresa Sobral – actriz
Thomas Walgrave – director artístico
Tiago Baptista – conservador de cinema
Tiago de Lemos Peixoto – dramaturgo
Tiago Mota Saraiva – arquitecto
Tiago Santos – músico
Tiago Silva – montador de som
Tomás Pimentel – músico
Tó Trips – músico

Vanda Cerejo – actriz
Vânia Couto – cantora, coordenadora de projectos e professora
Vânia Rovisco – coreógrafa e performer
Vasco Araújo – artista plástico
Vasco Nogueira – médico
Vasco Paiva – engenheiro florestal
Vasco Peres – maquinista de cena
Vasco Pimentel – director de som
Vera Marques – produtora
Vera Moura – estudante
Vera Silva – perchista
Vicente Alves do Ó – realizador
Vítor d’Andrade – actor
Vítor da Glória Silva – bancário reformado
Victor Pinto Ângelo – assistente de produção

Zézé Gamboa – realizador
Zillah Branco – socióloga

As Vénias da República

Marcelo, uma vez mais, não se conteve. Aliás, Marcelo nunca se contém. O seu conservadorismo, a sua idiossincrasia, o peso da formatação rígida de outros tempos há-de sempre sobrepor-se ao dever institucional. A sua fé, as suas paixões, os seus ídolos, tudo isso legítimo, mas tudo isso muito inapropriado e muito desenquadrado quando se é investido num papel para o qual se teve tempo e mais que tempo para se preparar. Pode considerar-se pura e insignificante minudência o gesto reverencial de Marcelo perante a rainha do Reino Unido e retratado pelas câmaras fotográficas de todo o mundo. Contudo, e especialmente no que diz respeito a Marcelo Rebelo de Sousa, por vezes é bem mais substancial e revelador um gesto, por simples que seja, do que o débito de um chorrilho de palavras a um qualquer microfone ou câmara de televisão.

A rainha de Inglaterra fez o seu papel. O Presidente da República Portuguesa ainda não percebeu qual é o seu.

Não é necessário fazer-se nenhum exercício aprofundado de semiótica. Para entender o mais evidente significado de vénia e beija-mão de um chefe de estado para com outro(a) chefe de estado, basta ter a mínima noção do que é que, ao longo de séculos, representou tal gesto e que condições sociais ali estiveram sempre presentes ou representadas. Quem beijava, quem era beijado. Quem se erguia, quem se curvava. Quem era o soberano, quem era o súbdito. Hoje, como há seiscentos anos, surge-nos a auto-assunção de superioridade “natural” de um, perante a imposta mas mansamente auto-aceite inferioridade de outro. A rainha de Inglaterra fez o seu papel. O Presidente da República Portuguesa ainda não percebeu qual é o seu.

Poder-me-ão dizer, como me disseram, foi cumprimento protocolar. Não colhe. Primeiro porque como se sabe a rainha já recebeu e já foi recebida por muitos chefes de estado que não se prestaram a tal papel. Além do mais, tratando-se especificamente de Marcelo, essa hipótese pura e simplesmente não pode colher. Não é ele, afinal, o homem que quebra protocolos e que, aliás, até colhe louros e simpatias por tais “ousadias”? Não são as quebras protocolares de Marcelo que fazem as delícias da imprensa e não são as suas “selfies” ou danças mais ou menos anedóticas que lhe dão pontos de popularidade?

É evidente que de vénias está a República Portuguesa cheia. Fizeram-se vénias históricas e mansas durante décadas ao jugo da alta finança. Beijou-se consecutivamente, governo atrás de governo, presidente atrás de presidente, a mão ao chicote que nos foi dilacerando o lombo. Quis-se ser tapete de interesses poderosos na esperança da queda de umas quantas migalhas no regaço e sempre com os resultados que se conhecem. Sempre sem sair da cepa torta. Sim, vénias houve muitas e beija-mãos também. Não é por isso, todavia, que se deve ignorar esse comportamento quando ele existe e é de menor monta ou menor impacto na vida de qualquer cidadão. Quem não se sente não é filho de boa gente. E para mim uma humilhação é-o sempre, independentemente do tamanho. Não há “pequena coisa” quando se trata de honra e dignidade. E esta foi mais uma humilhação de Marcelo ao cargo e à República que diz representar. Esta foi mais uma humilhação a Portugal e aos portugueses.

Um presidente poupadinho e beijoqueiro

«Marcelo abdica de carro de 150 mil euros. Marcelo paga viagem do seu bolso. Marcelo jejua para poupar. Marcelo foi a França a pé. Marcelo vai ao Brasil a nado. Marcelo compra iogurtes no Lidl em final de prazo de validade. Marcelo desliga televisão na tomada para não gastar em stand-by. Marcelo promulga leis no papel que embrulhou o bacalhau. Marcelo só descarrega o autoclismo uma vez. Por semana. Marcelo desliga o carro nas descidas. Marcelo usa chinelos dos chineses. Marcelo não lava as cuecas todas as semanas. Marcelo vira-as do avesso.»

Ele adora, a comunicação social rejubila. Gestos sempre simbólicos e repletos de sincera humildade para dar o exemplo, beijinhos e simpatias para a fotografia da proximidade. “Vejam como Marcelo é um dos nossos”, “um de nós”, “simples, acessível e sério”, grita diariamente a imprensa, com títulos garrafais arranjados a preceito, assumindo por completo a posição “de baixo” face àquele “deus” que está “lá em cima”. Mas ele “desce” até “nós”, os plebeus. Tal como qualquer “um de nós”, Marcelo paga uma viagem de Falcon do seu próprio bolso. Tal como qualquer “um de nós”, Marcelo rejeita andar num carro de 150 mil euros, porque pode perfeitamente andar numa latinha de 15 ou 20 mil, carro este com que, aliás, qualquer “um de nós” tem de se contentar. Não importa que tenha o que tem para pagar “do seu bolso”; importa que pague “do seu bolso”, o que é sempre em última instância um exemplar gesto de “sacrifício” e “sacrifício pela pátria”. Mas como qualquer cidadão do seu país, normal, como gente comum, Marcelo puxa do molhe de notas e zás!!, fica o voo de Falcon pago e não se fala mais nisso.

Este presidente é “um dos nossos”. Este presidente “é cá da terra”. Este presidente é “humilde” e as coisas acontecem sempre com imensa naturalidade. Tudo espontâneo e impreparado. Este líder político é muito poupado e exemplar. Não que seja novidade, porque já Salazar dava o exemplo “sendo pobre e morrendo pobre”. Mas que presidente e que país maravilhoso este. Que sorte temos. E domingo vamos ganhar. Com o “dos nossos” na flash interview, quem sabe?! O presidente é bem capaz de marcar um golo. Mas descalço, para não gastar as “botas”.

O estrebuchar bafiento de Cavaco

Estrebuchando até ao último suspiro ao sabor de antigas amizades, embalado e motivado por afinidades partidárias e ideológicas, e fazendo tudo isto com aquele seu típico travozinho de pessoa vingativa e provocatória, Cavaco Silva continua a distribuir umas quantas honrarias públicas por uma casta de gente que nada de positivo deu ou trouxe à democracia ou ao país. Muito pelo contrário. Há poucos dias, assistimos à entrega de medalhas a ex-ministros dos governos de Passos Coelho e Paulo Portas, não nos poupando Cavaco ao desprazer e nojo, para não dizer pior, que foi vermos um suposto “garante” da Constituição premiar aqueles que, nos últimos anos e de forma sucessiva e reiterada, mais atentaram contra a lei fundamental do Portugal democrático.


O 25 de Abril foi apenas ontem, e aquilo que o 25 de Abril matou demora a enterrar

Como se isso por si só não tivesse bastado, e porque ainda vai havendo tempo para Cavaco continuar a distribuir mordomiazinhas e rebuçados pelos amigalhaços de ontem e de hoje, o país foi agora confrontado com a condecoração dessa patusca e fantasmagórica figura de nome António de Sousa Lara. Alguém que a própria sociedade, de uma maneira geral, se encarregou – e bem – de desvalorizar e esquecer, a que o próprio correspondeu com um muito proveitoso e higiénico exílio público, aliás de salutar, é agora trazido desde as profundezas do obscurantismo cavaquista, do que de pior o cavaquismo teve, sendo recuperado à luz do dia – e sem vergonha alguma – das gavetas cerradas de um acto de censura que envergonhara, envergonha e envergonhará o país sempre que se fale de José Saramago.

O 25 de Abril foi apenas ontem, e aquilo que o 25 de Abril matou demora a enterrar. Até que a necessária inumação se faça, e se faça de vez, o cadáver continuará por aí, sob vários nomes, títulos e cargos, a infestar o ar da democracia. Cada pazada de terra será sempre pouca e leve para o mal que nos fizeram. Cada minuto que passa sem o enterro do “antigamente” é uma hora de avanço no regresso a esse passado abjecto de dor e miséria. Vivemos e enaltecemos aquela bela madrugada, mas urge, urge muito, o “dia inteiro e limpo” que está ainda por nascer.

As cartas de Marcelo

Um bufo da PIDE a Presidente da República?

Carta de 14 de Abril de 1973

“Acompanhei de perto (como Vossa Excelência calcula), as vicissitudes relacionadas com o Congresso de Aveiro, e pude, de facto, tomar conhecimento de caraterísticas de estrutura, funcionamento e ligações, que marcam nitidamente um controle (inesperado antes da efectuação) pelo PCP. Aliás, ao que parece, a atividade iniciada em Aveiro tem-se prolongado com deslocações no país e para fora dele, e com reuniões com meios mais jovens”

“Como Vossa Excelência apontou, Aveiro representou, um pouco mais do que seria legítimo esperar, uma expressão política da posição do PC e o esbatimento das veleidades “soaristas””

“O discurso de Vossa Excelência antecipou-se ao rescaldo de Aveiro e às futuras manobras pré-eleitorais, e penso que caiu muito bem em vários sectores da opinião pública”

Marcelo Rebelo de Sousa

“Cartas Particulares a Marcello Caetano”, de José Freire Antunes.

O que só Edgar Silva tem


A grande notícia de ontem foi que Edgar Silva é o candidato à Presidência da República com o maior orçamento de campanha. Os jornalistas, como ainda não podem adjectivar a deixa com «escandaloso!», fazem-no com a melodia da voz, com a entoação e com as pausas no discurso, levado ao histriónico da náusea e do rancor.

E, apesar da dimensão da campanha, o «candidato apoiado pelo PCP» que, ao contrário de Marisa Matias, Marcelo Rebelo de Sousa ou Maria de Belém, é o único apresentado pela sigla partidária, permanece invisível aos holofotes mediáticos. Porque será? A resposta é que a candidatura de Edgar Silva tem algo que mais nenhuma tem. Algo que assusta muita gente.

1 – Uma vida de solidariedade verdadeira

Ao contrário de Marcelo Rebelo de Sousa que, já não podendo passar férias na bonita mansão de Ricardo Salgado, continua a cultivar com este uma bonita amizade, Edgar Silva é um homem que conheceu a pobreza na pele e o único candidato que se pode orgulhar de um percurso de vida ao lado dos mais fragilizados da sociedade. Enquanto a juventude de Marcelo Rebelo de Sousa, filho de ministro fascista e afilhado de ditador, foi passada no mais obsceno luxo, a escrever cartinhas a Salazar e ao outro Marcelo, Edgar Silva dedicou os seus melhores anos a salvar da mendicidade e da pedofilia as crianças da Madeira.

Já a vida política de ambos não é menos reveladora. Enquanto liderou o PSD, Marcelo distinguiu-se por duas coisas: a paixão por Cavaco, que ajudou a levar ao poder, e a defesa fanática dos cortes salariais, das isenções fiscais para banqueiros e grandes empresas e do roubo de direitos dos trabalhadores. Para o cargo de chefe do Estado, precisamos de alguém cujo percurso de vida se paute pelos mais elevados critérios de honradez e rectidão. Edgar Silva provou com a biografia que é um homem justo.

2 – Um compromisso com a Constituição

Edgar Silva é o único candidato a colocar a Constituição como eixo central do exercício dos poderes presidenciais. Independentemente de concordarmos ou não com o seu projecto, a verdade é que mais nenhum candidato ousa identificar-se na íntegra com o texto que o Presidente jura cumprir integralmente.

Só Edgar Silva tem a coragem de lembrar que a Constituição prevê, por exemplo, a dissolução dos blocos militares e a gratuitidade da saúde e da educação. Do mesmo modo, Edgar Silva é, à data desta publicação, o único candidato que assume frontalmente que as 40 horas na função pública atropelam a lei suprema da República.

3 – Uma candidatura coerente

Contra Edgar Silva podem-se tecer as corriqueiras acusações a que todos os comunistas estão habituados, mas ninguém disputa a coerência de Edgar Silva, exemplificada pela frontalidade com que criticou a patranha do BANIF. Como em todos os actos eleitorais, a coerência é um bem caro.

Já a montante, pulula a incoerência e a contradição: Maria de Belém, que não vê qualquer conflito de interesses entre ser consultora do BES Saúde e presidente da Comissão Parlamentar de Saúde; Marcelo Rebelo de Sousa, que não tem pejo em presidir simultaneamente a uma fundação monárquica e à República; Sampaio da Nóvoa, que, assumindo causas justas, mantém uma ambiguidade dilacerante sobre tudo o que venha de Bruxelas, refugiando-se na fraseologia para escapar aos ditames da União Europeia.

4 – Uma ligação profunda ao mundo do trabalho

Percorrendo as fábricas, as empresas e os locais de trabalho de Norte a Sul do país, Edgar Silva vem somando o apoio de milhares de trabalhadores e líderes sindicais. A determinação de Edgar Silva em querer conhecer a vida dos funcionários públicos, dos operadores de call center, dos operários, dos imigrantes, dos enfermeiros, dos trabalhadores das limpezas, dos investigadores, dos lojistas e de todos os trabalhadores demonstra bem o que é e ao que vem esta candidatura.

Inversamente, Marisa Matias prefere a companhia de: Rita Ferro Rodrigues, fervorosa apoiante da campanha da genocida e corrupta Hillary Clinton e empregadora de trabalho escravo; Fernanda Câncio, paladina anti-comunista que defende que os jornalistas do Avante! e do Esquerda.net deviam perder a carteira profissional, que assume sentir «asco» do PCP a que chama «partido zombie» sem lugar na sociedade portuguesa e que acha que os cartazes do PNR não fazem mal a ninguém (embora os murais da JCP sejam um caso de polícia)… entre muitas outras estrelas e famosos da televisão.

5 – Um projecto de esquerda, por Abril

Esta é uma campanha de intenções dissimuladas: Marcelo Rebelo de Sousa tenta fingir que não é o candidato do PSD/CDS-PP, da austeridade e de Cavaco; Sampaio da Nóvoa repete, incansável, que a sua candidatura não é de esquerda nem de direita; Maria de Belém finge não conhecer José Seguro.

A candidatura de Edgar Silva, sem olhar a votos, não esconde aquilo que é: um projecto de esquerda, profundamente ligado aos ideais de Abril. Sistematicamente acusado de «ter um programa de governo», o que Edgar Silva tem é uma visão para um país mais justo. Patente em nenhum lado como na sua Declaração, há um conjunto de valores, posições e princípios que não se escondem. Que não se vendem.

 

Requiem por Cavaco

O anúncio da morte política de Aníbal Cavaco Silva não é nitidamente exagerado. Cavaco teve hoje, dia 24 de Novembro de 2015, a poucos meses da sua saída formal e com a indigitação de António Costa como primeiro-ministro, o seu último acto de relevo enquanto agente político neste país. E há que acentuar isto mesmo, a sua faceta enquanto político, de que ele tanto hipocritamente se quis afastar nos últimos anos e da qual nunca obviamente poderia fugir. Foram vinte anos de Cavaco, e vinte anos de Cavaco é muito tempo. Dez anos como primeiro-ministro, dez anos como presidente da República e, todavia, nenhum como estadista, nenhum como digno e imparcial representante do povo português. Foi, isso sim, um fiel serventuário do capital e um intrépido defensor do primado do poder económico e financeiro sobre a democracia e sobre os valores nascidos de Abril. Cavaco foi a lança de todo um histórico frentismo empresarial e institucional – que começa no PSD e acaba nos banqueiros e empresários monopolistas – que sempre logrou ajustar contas com um passado que, “tenebrosamente”, ameaçava não dar tréguas ao sistema de exploração, repressão e indignidade que sempre deu tanto a uma dúzia de privilegiados e tão pouco à esmagadora maioria do povo.

Dos grandes desperdícios de fundos à criminosa liquidação produtiva nacional, tudo constituiu um longo e doloroso desastre económico e social do país

Cavaco personificou um certo regresso ao passado e uma certa esperança de que tudo voltasse a ser como o «bom velho antigamente». Foi a inspiração – e daí a explicação para muitos dos votos que foi tendo – de todos quantos desejavam o renascimento, ou o regresso, da figura austera de mandante supremo e sagrado de um Portugal «à deriva». O soturno “professor de Coimbra”, o “economista” de ar grave e disciplinado – e disciplinador, se pudesse – que veio espevitar em muito boas almas, finalmente, esse fascismo contido, guardado a sete chaves, desde aquela malvada madrugada de Abril de 1974.

Foram vinte anos de Cavaco, e vinte anos de Cavaco é muito tempo. Dos grandes desperdícios de fundos à criminosa liquidação produtiva nacional, tudo constituiu um longo e doloroso desastre económico e social do país, que faz de Portugal hoje um pobre cão-de-fila do capitalismo e do imperialismo, domesticado, obediente, subjugado, ainda vergado a blocos militaristas e a desastrosos ditames da banca europeia e mundial.

Ainda que consciente de que por morrer esta andorinha não se acaba a primavera do capital, nem sequer aquilo que Cavaco personificou ou personifica, longe disso, permito-me hoje, ainda assim, partilhar um sentimento que é de profunda satisfação. Esperava-o e desejava-o há muito. A ira que, assumo, sempre senti face a Cavaco Silva em particular, aprofundada e radicalizada – se quiserem – com o tratamento mesquinho e vingativo em tempos dado a homens como Salgueiro Maia ou José Saramago, aos próprios e à sua memória post-mortem, foi crescendo de dia para dia, acompanhando toda a escalada de cinismo que a esse propósito Cavaco não deixou de pôr em prática sobretudo enquanto presidente da república.

O desaparecimento político de Cavaco, a sua retirada de todo e qualquer poder institucional, é para mim sinónimo de sincera satisfação. Não para festejos, até porque o rasto de destruição é demasiado largo para tal. Mas hoje é de assinalar e de ter presente que pelo menos “este” já não faz mais mossa. Adeus! Cavaquismo, nunca mais!