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“Symphony of Destruction” [*]

Não há “super terça-feira” que valha ao super-circo que são, de facto, as eleições presidenciais made in USA. O que muitos apresentam como uma prova da vitalidade da democracia do regime político de referência para aqueles que teimam em definir-se como “ocidentais” é antes, na minha perspectiva, a triste e patética ilustração da sua decrepitude.

As eleições primárias norte-americanas são um espectáculo encenado de A a Z que poucos compreendem verdadeiramente na sua natureza e mecânica própria. Esta semana falou-se muito da “super terça-feira” e pouquíssimo acerca da complexidade do sistema de apuramento da eleição de delegados em cada um dos dois partidos do sistema bicéfalo ianque. O sistema não é claro nem transparente, como bem demonstrou o canal russo RT em recente peça sobre as primárias no país modelo da chamada “democracia ocidental” [1].

Também a CNN divulgou recentemente um trabalho produzido a partir de imagens de vídeo divulgadas pela candidatura do republicano Ted Cruz, e que mostram os bastidores das gravações de cenas eventualmente destinadas à produção de anúncios da sua candidatura [2]. Ver a peça da CNN é profundamente pedagógico; nelas, Cruz coloca a família ao serviço de uma imagem fabricada com o simples objectivo de incorporar a colossal e milionária campanha de marketing que tem em marcha. A farsa é evidente.

Dito isto creio que se impõe uma palavra em defesa de Trump. O multimilionário é racista, homofóbico, misógino e reaccionário; seria todavia injusto isolá-lo de boa parte dos seus concorrentes, em particular aqueles com quem disputa a nomeação para candidato do Partido Republicano às eleições de Novembro. Gente como Ted Cruz ou Mark Rubio não o são menos. De resto a tese dos candidatos de quem pouco se fala nas primárias republicanas é que na verdade Trump não passa de um “liberal” (o que em boa parte dos Estados Unidos equivale a ser-se “de esquerda”), representante dos “valores de Nova Iorque” (região tida como “mais liberal”) e – pasme-se – defensor de um sistema público de saúde equiparado ao que existe no Canadá e em alguns países da Europa. Trump não é o único tolo nas primárias norte-americanas [3].

Que Trump (ou Cruz, ou Rubio) tenha real oportunidade de ganhar as primárias republicanas e disputar – provavelmente contra Hillary Clinton – a presidência dos Estados Unidos da América não é de forma alguma a prova da saúde do sistema democrático. Pelo contrário: a hipótese real de um demagogo – que entre outras coisas promete construir um muro entre os Estados Unidos e o México com a conta a ser paga “a 100%” pelos próprios mexicanos – vir a ser eleito para o mais poderoso cargo político do mundo actual é a demonstração do esgotamento de um sistema de alternância sem alternativa que tem nos Estados Unidos o seu exemplo mais evidente, mas que se generalizou a boa parte dos países que olham para Washington (e Berlim) como os centros dispensadores de orientação política neste caótico início de milénio.

Notas:
[1] “1 Person 1 Vote? Not in US presidential Elections!“, RT, 01.03.2016.
[2] “Watch Ted Cruz coach his family through a campaign ad shoot“, CNN, 02.12.2015.
[3] “Ted Cruz and Rubio ATTACK TRUMP Over Health Care“, News Direct, 25.02.2016.
[*] “Symphony of Destruction“, Megadeath.

[imagem]

Tempo de avançar, livre de representatividade

Talvez que 7.500 assinaturas seja um número demasiado elevado para constituir um partido político.
Se as compararmos com as 35.000 necessárias para apresentar na Assembleia da República uma Iniciativa Legislativa de Cidadãos, o número é ainda mais estranho.
Talvez que o certo fosse ao contrário. Talvez que o mesmo, mesmo, mesmo certo fosse tirar 30 mil à ILC e manter as 7.500 onde estão. Talvez.

Certo é que não me parece muito democrático, diria até que não é racional e lógico, que um conjunto vastíssimo de ideias e propostas programáticas possam ver a luz do dia em forma de partido com 7.500 assinaturas e uma proposta de lei cidadã sobre um tema específico a ser escrutinado na Assembleia da República necessite de 4,6666666 vezes mais assinaturas.

É de representatividade democrática que falo. De adequar a realidade política de um país onde muitas pessoas se colocam aparte dos processos de decisão à possibilidade que alguns grupos extremamente minoritários de cidadãos têm, aproveitando a ausência de intervenção da maioria, de se fazer representar nos mais diversos fóruns e sob as mais diversas formas sob uma capa de verdadeira representatividade.

Vem este relambório a propósito dos resultados das primárias do LIVRE/Tempo de Avançar.

Voltemos aos números. De um universo de cerca de 8 mil votantes registados, acabaram por votar no fim de semana passado – sim, urnas abertas em dois dias diferentes – 2.197 pessoas. Sim, os candidatos a deputados à Assembleia da República que o LIVRE/Tempo de Avançar vai apresentar em Setembro/Outubro, foram decididos por 25% das pessoas que se inscreveram nestas eleições. As primárias. As tais que iriam devolver os cidadãos à participação política activa e abnegada.

Bem, para ser mais preciso, aos 2.197 votantes, há que retirar os 385 candidatos, contando que todos tenham ido votar. Portanto, podemos dizer que temos 1.812 pessoas a decidir os candidatos do LIVRE/Tempo de Avançar.

Deixo-vos uma pergunta de escolha múltipla.

Pergunta: Qual é mais democrático e representativo?

Hipótese A: Um partido em que 1.812 pessoas decidem quais serão os seus candidatos nas eleições através de um voto em eleições primárias? Sendo que cada um dos vencedores pode ter um programa de acção bastante diferente. Sim, li algumas das propostas dos candidatos do LIVRE/Tempo de Avançar e esta coligação permitiu nas primárias, por exemplo, um candidato que defendia a privatização da TAP e dos transportes públicos.

Hipótese B: Um partido em que todos os dias os seus militantes e apoiantes trabalham, reúnem, organizam ideias, estabelecem prioridades de acção, redefinem objectivos imediatos consoante as necessidades de cada momento, convocam e participam em acções de protesto, fazem chegar as suas preocupações aos seus eleitos e escolhem os seus candidatos de forma natural porque esta ou aquela pessoa, dentro do partido, se foi destacando em determinada área mostrando ser o militante mais apto, e isto é muito importante, para quando eleito, transmitir e tentar implementar da melhor forma as ideias e o projecto político do partido? E aqui já nem coloco em causa o número de militantes e apoiantes, tanto vale para os maiores como para os mais pequenos.

Reflictam. Mesmo. A resposta pode não ser óbvia. Sei lá. Pode haver alguma rasteira ou outro tipo de armadilha. Sei lá.

O presidente da comissão eleitoral das primárias do LIVRE/Tempo de Avançar justifica este número de votantes com o calor do fim de semana e com a novidade do processo. É caso para dizer que as papoilas tremem perante o sol e que o processo é tão mas tão novo e inovador, que a euforia de poder nele participar suplantou a pulsão de ir votar.

Num tom mais sério. Não me parece nada mal que quem assim o entenda decida criar um partido político. Mas certamente que é um pouco embaraçoso que um partido/coligação que se apresenta ao país como representante de um espaço que faltava ocupar – aliás de um espaço que era imperioso ocupar por representar um largo número de pessoas – e que como o partido/coligação iria devolver a política aos cidadãos, tenha apenas 2.197 pessoas a querer participar no seu mais relevante processo de decisão até agora. Um processo que mais se legitima quanto maior for a participação. Pior, que esse número represente 75% de abstenção interna.

Fiquem ainda com esta: e se a meio da legislatura, um deputado eleito pelo LIVRE/Tempo de Avançar tiver de renunciar ao seu mandato de deputado enquanto se discutir a nacionalização da TAP e, por causa da ordem na lista, o candidato que o substitui é o tal que defende a privatização da TAP?

Olha. Sei lá.