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Pornocracia

As perdas com a venda do Efisa podem aumentar mais 80 milhões de euros, se somarmos o prejuízo com que o banco foi vendido. O Estado pode sair a perder mais de 130 milhões de euros. O suficiente para construir dois hospitais.

A soberba europeia que grassa por entre as elites e contamina como uma doença infantil toda a “esquerda moderna” tolera com impressionante bonomia a corrupção institucionalizada que vive no genoma do capitalismo. Se um presidente africano tem um primo dono de uma empresa é uma ditadura, uma oligarquia, o terceiro-mundo em todo o seu esplendor.

Já se um gestor bancário – como por exemplo, este – trabalhava num banco onde o Presidente da República e a sua filha Patrícia lucraram 360 milhões, e que terminou nacionalizado porque a pandilha de banqueiros – que por acaso eram amigos e colegas de trabalho e de governo do actual Presidente da República – o roubou até deixar uma conta de mais de 6 mil milhões de euros para os portugueses pagarem, vai depois trabalhar para o Estado numa empresa para gerir o banco falido, agora nacionalizado, e usa o seu mandato como gestor ao serviço do Estado para vender o banco, com um prejuízo de 130 milhões de euros para as contas públicas, a um outro banco para o qual pode ir trabalhar de seguida, então não há ditadura nenhuma.

E a estória não acaba aí. Então o ex-Ministro das Finanças que dirigiu o orçamento durante uma intervenção do FMI em Portugal, sai do Governo e vai trabalhar precisamente para o FMI, isto antes de ser condecorado por relevantes serviços à nação pelo Presidente da República que manteve ligado à máquina um Governo que governou ao serviço do estrangeiro e dos especuladores e agiotas que assaltaram sem pudor a riqueza nacional, produzida pelos trabalhadores portugueses que, como bons vampiros, foram convidados a entrar pelo PS, PSD e CDS, que são, no caso, não vítimas, mas cúmplices.

E depois ainda temos uma ex-Ministra das Finanças que impôs aos portugueses a “austeridade” como forma de vida, enquanto desviava milhares de milhões de euros para alimentar os lucros dos bancos alemães e franceses, e de fundos abutres um pouco por todo o mundo. Certamente, Marcelo irá a tempo de ainda condecorar por relevantes serviços prestados à nação esta dama do capitalismo, esta senhora de rigor e idoneidade inquestionáveis que, tal como Salazar, não tirava para si um tostão.

Mas a História não é madrasta para quem presta relevantes serviços à nação de Cavaco Silva, de Passos Coelho e Paulo Portas – que é como quem diz a grande burguesia e os grandes grupos económicos, verdadeira pátria de PSD e CDS e, já agora, também do PS onde não faltam casos similares – e eis que a oportunidade de complementar o pequeno salário de deputada com um rendimento extra, vai finalmente permitir a Maria Luís Albuquerque uma poupançazita. Também já merecia, coitadita, depois de tanto esforço e fingimento, ter de andar a passar-se por patriota, fazer discursos lamechas de apelo à paz social e à complacência das vítimas.

Como dizia um camarada, Maria Luís Albuquerque “não mudou de patrão, a diferença é que agora vem na folha de vencimentos”. E ainda há quem questione a posição da senhora, só visto – malditos comunistas que ainda estou para perceber como é possível sequer entrarem na casa da democracia.

O que é mais engraçado é que continuamos a fingir que isto são casos isolados, “bad apples” do sistema e das democracias e a ignorar que o capitalismo é corrupção em si mesmo, que o capitalismo é a institucionalização da corrupção e da promiscuidade. Dirão os mais atentos: “Ah e tal, mas no socialismo e nas experiências de construção do socialismo também há e houve corrupção” e di-lo-ão certo! A grande diferença é que no socialismo a corrupção é uma anormalidade, um elemento que mina o sistema. E no capitalismo, a corrupção institucionalizada, legalizada, normalizada, é o cerne do funcionamento do sistema.

É que, julgar a legitimidade pela lei não é bom critério quando são os criminosos que a escrevem.

As cartas de Marcelo

Um bufo da PIDE a Presidente da República?

Carta de 14 de Abril de 1973

“Acompanhei de perto (como Vossa Excelência calcula), as vicissitudes relacionadas com o Congresso de Aveiro, e pude, de facto, tomar conhecimento de caraterísticas de estrutura, funcionamento e ligações, que marcam nitidamente um controle (inesperado antes da efectuação) pelo PCP. Aliás, ao que parece, a atividade iniciada em Aveiro tem-se prolongado com deslocações no país e para fora dele, e com reuniões com meios mais jovens”

“Como Vossa Excelência apontou, Aveiro representou, um pouco mais do que seria legítimo esperar, uma expressão política da posição do PC e o esbatimento das veleidades “soaristas””

“O discurso de Vossa Excelência antecipou-se ao rescaldo de Aveiro e às futuras manobras pré-eleitorais, e penso que caiu muito bem em vários sectores da opinião pública”

Marcelo Rebelo de Sousa

“Cartas Particulares a Marcello Caetano”, de José Freire Antunes.

Marcelo: Som que se propaga no Vácuo

O candidato presidencial Marcelo Rebelo de Sousa deu por estes dias uma entrevista à SIC que teve, aparentemente, desde logo, o condão de não ter perguntas previamente combinadas. Não havia, aparentemente, temas “escolhidos” nem guião de conversa como acontecera noutros carnavais, onde de resto Marcelo “nadava” como outrora nas águas do Tejo. E, por isso, aconteceu o esperado: quando confrontado com aquela que é a sua experiência política ou com o seu passado partidário, Marcelo tropeçou em si próprio e conseguiu uma proeza que ultrapassa as barreiras da ciência e as leis da física: propagar som… no vácuo. Mas já lá vamos.

Marcelo é, foi, um desastre político em toda a linha. O seu percurso fala por si.

Há umas semanas escrevi aqui sobre a vacuidade política que é, por trás de toda a embalagem mediática, Marcelo Rebelo de Sousa. Apareceu de imediato, como seria de esperar, quem viesse defender o curriculum académico do reverente professor doutor de Coimbra. O problema é que essa defesa, por si só, não preenche o vazio político de que falávamos e que é factual e absolutamente incontestável. Marcelo é, foi, um desastre político em toda a linha. O seu percurso fala por si. Foram sucessivos e bastante sonoros do ponto de vista mediático até – e a má memória sobre Cavaco ameaçar repetir-se relativamente a Marcelo, embora num outro plano – os insucessos em todos os cargos – e não foram muitos – por onde Marcelo se passeou enquanto não o mandaram calar de vez. E essa evidência ficou uma vez mais realçada nesta última entrevista, curiosamente pela própria voz e pela própria atitude nitidamente incomodada do visado, quando se mexeu na incurável ferida do tempo.

Aconteceu então que, na fase final da entrevista, Rebelo de Sousa fosse interpelado, primeiro, acerca da sua relação com Ricardo Salgado e, depois, sobre o seu passado como dirigente do PSD. E em relação ao primeiro assunto, passaria a situação perfeitamente despercebida, não fosse dar-se o caso de Marcelo ter sentido a necessidade de asseverar que ele até “foi dos primeiros a criticar Ricardo Salgado”, a propósito de situações de “favor” (palavras dele), entre a Câmara de Lisboa e o BES. Acrescentou ainda que, a esse propósito, lhe haviam dito em tempos que só lhe faltava “a boina de Che Guevara”, tal a sua fúria revolucionária para com o seu amigo banqueiro. Logo a seguir, face ao seu passado enquanto líder do PSD, aí é que a porca torceu verdadeiramente o rabo. Com um ramalhete de “feitos” e “conquistas” de que não resta efectiva memória, lá veio Marcelo espalhar “som” onde só há “vácuo”.

Quando o entrevistador fala desta candidatura como a sua “última oportunidade política”, fazendo referência ao seu passado de candidaturas falhadas e à mediocridade da sua liderança do PSD, Marcelo quase pula da cadeira e desata a puxar de supostos e falaciosos galões. Respondeu, desesperado por se justificar, que “ganhou dois referendos” – é tão-só risível -, que “teve um óptimo resultado nas autárquicas” – como se a presidência do PSD interferisse de sobremaneira nas dinâmicas autárquicas –, que foi ele o obreiro da queda de Guterres e ainda, em não menor tom ridicularizante e ridicularizável, que “viabilizou uma revisão constitucional”. Tudo isto para tentar concluir que, contrariamente ao que parece e neste caso o que parece é mesmo, Marcelo até teve “uma grande presidência do partido”. Ou seja, até Marcelo sabe, embora tente disfarçá-lo com a sua mestria comunicacional, que o seu passado político abona tanto a seu favor como a relação de amizade que teve e tem com Ricardo Salgado. Logo numa altura em que o povo português quer ver-se livre de um presidente conotado com o poder financeiro, e numa altura em que está a ser chamado, directa ou indirectamente, a pagar do seu bolso, uma vez mais, os desmandos e abusos de um sistema financeiro proveitoso para as “boas famílias” e ruinoso para o país.

Posto isto, é preciso que Marcelo continue a falar, mas sem prévias combinações. Só assim se verá com maior nitidez que o que Marcelo tem a apresentar aos portugueses é toda uma vida política e partidária a roçar a mediocridade… e nada mais. Não há nada que lhe valha de substancial. Há, sim, uma imagem bem montada, bem construída, de aparato, de espectáculo e mediatismo, naquele que foi o mais longo tempo de antena da história da democracia. E, infelizmente, essa estratégia tem dado alguns frutos no nosso país. Quem domina os meios, domina a consciência. Quem domina a opinião, domina o voto. Não é novo, dura há muitos anos. Esperemos é que não dure por muito mais tempo.

É um avião? é um pássaro? É um “governo de esquerda”? Não… é um Governo PS.

Independentemente do que venha a ser o resultado institucional da rejeição do programa do PSD/CDS que até agora parece desenhar-se no horizonte, não está em cima da mesa, para já, a construção de um “Governo de Esquerda”.

Quando tal vier a ser uma realidade em Portugal, será certamente resultado de uma movimentação de massas consciente da necessidade de ruptura com o capitalismo e com a consolidação do processo de integração capitalista europeia e não apenas de resultados eleitorais. Mas para já o que está a parecer resultar das eleições legislativas de Outubro é uma derrota do PSD e do CDS, sem que exista necessariamente – como consequência directa – uma substituição automática das suas políticas por outras distintas e de “esquerda”.

A derrota do PSD e do CDS nas eleições e a constituição de uma maioria “atípica” numa conjuntura igualmente “rara” criam factualmente uma nova relação de forças institucional que permite materializar essa derrota na alteração dos protagonistas do Governo. Mas é também possível ir um pouco mais longe do que a habitual alternância sem alternativa. E havendo essa possibilidade, o PCP afirmou que o “o PS só não é Governo se não quiser” logo na noite das eleições e após a divulgação dos resultados. Isso significa que é preciso travar o passo ao PSD e CDS mas também que é possível construir uma política que, não sendo a proposta pelo PCP, nem pela CDU, é melhor para os portugueses do que a prossecução da actual.

A efabulação de que isso corresponde a um “governo de esquerda”,  a manterem-se as premissas conhecidas da política institucional portuguesa e a natureza dos partidos que a compõem, contribui mais para mistificar do que para esclarecer.

Não significa isto que não podemos vir a ter um Governo de Esquerda. Apenas que para já, tudo indica estarmos numa fase muito distinta dessa.

A construção da alternativa patriótica e de esquerda de que o país necessita não surgirá de reuniões entre partidos, mas emergirá da força do povo, da expressão da sua vontade inequívoca de mudar e ousar continuar os caminhos que ensaiou em Abril e que foram travados em Novembro. A direita está em pânico e fez baixar todo e qualquer padrão de dignidade que ainda pudesse ter. Há muito tempo que o grande patronato e o seu braço político (PS, PSD e CDS) não viam tão ameaçado o seu domínio.

E eis que o próprio PS se vê pressionado a definir-se sob pena de poder vir a ser considerado inútil no panorama da democracia partidária. Quem vos escreve não alimenta ilusões sobre de que lado se encontra o PS, mas também não alimenta simplismos. E uma coisa é um PS liberto para fazer o que quer e outra coisa é um PS que não pode fazer o que quer. Todavia, apesar de acossada e desvairada, a direita não está perdida. O grande capital não perde o norte tão facilmente.

Para situarmos a estratégia da direita é preciso compreender que ela se posiciona, neste momento, quase toda no plano das ideias e da ideologia, usando  a mentira, a chantagem, o terrorismo e a manipulação como instrumentos de pressão sobre o povo português, com o empenho descarado de Cavaco Silva.

É preciso compreender que PSD e CDS estão há meses a repetir a mentira do crescimento e a ladainha da recuperação económica, da diminuição do desemprego e do aumento das exportações e do investimento. Na verdade, toda essa construção é falsa e não corresponde à verdade. Na realidade, o país está mais pobre, está mais desigual, menos democrático e mais dependente – no financiamento e na produção. O país produz menos riqueza do que em 2011 e regrediu mais de 15 anos em muitos indicadores económicos.

Mas a insistência nessa mentira funciona como uma luz ao fundo do túnel para milhões de portugueses. E as ideias, não apenas a matéria, também moldam realidades.

Aceitar que o país está em rota ascendente é cair na primeira esparrela de PSD e CDS.

A segunda esparrela é aceitar a ideia de que estamos perante a emergência de um “governo de esquerda”. Porque, independentemente do governo que exercer funções nos próximos anos (ou meses) o país está factualmente asfixiado por uma dívida que foi contraída nos bancos e transposta para a dívida soberana, está factualmente depauperado e com o aparelho produtivo capturado pelos monopólios financeiros e económicos, está factualmente menos capacitado do ponto de vista social para lidar com a exclusão, a pobreza e a miséria, está igualmente depauperado no campo da investigação e desenvolvimento e da produção científica. Ou seja, essa realidade é que é o substrato da política institucional.

 E se um Governo PS tomar posse e entrar em funções essa realidade vai continuar a ser o verdadeiro cenário de governação. E PSD/CDS e o seu Presidente estão a fazer todo o caminho actual com os olhos postos no futuro: culpar a “esquerda toda”, o “socialismo”, pelos resultados do desastre que já aí está, mas camuflado pelas suas mentiras e propaganda.

O fio da navalha sobre o que caminhamos é demasiado estreito para equilibrismo – chamar “governo de esquerda” a um Governo liderado pelo PS, ainda que negociando algumas melhorias e medidas positivas para os trabalhadores com o PCP, é começar a tombar já para o lado errado.

*foto de obra da autoria de ± maismenos ±