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O jogo das cadeiras

Há poucos dias o alvorecer começou com a notícia de que um dos meus amigos mais queridos e que eu acho mais brilhantes ia emigrar. Não tem 30 anos, não está sem emprego. Simplesmente o dinheiro não chega para sobreviver e sustentar a sua família. Esta história podia ter sido escrita há 60 anos. Os vínculos laborais são precários, as dívidas à segurança social acumulam-se, o IVA é dos mais altos da Europa.

Os amigos partem todos os dias. As amigas perdem o emprego. A família não tem pensões dignas. As pessoas próximas trabalham para o Estado há anos com bolsas de 800 euros e sem direitos.

Ao mesmo tempo, esta semana choveram notícias de como vai a corrupção em Portugal. Uma imensa teia que envolve PS e PSD e os favores que nunca acabam aos amigos. A dança das cadeiras que envolve milhares de milhões de euros entre autarcas, deputados, membros do governo, directores de empresas, directores de instituições públicas sempre na mesma roda que não pára de girar.
5 condenações. Foi o número de um ano de processos por corrupção. Mas o pobre que rouba um pacote de leite não se safa.

Um PS, PSD e CDS que, sempre que o assunto surge, impedem as leis que criminalizam o enriquecimento ilícito. Que arranjam sempre uma saída «limpa» aos amigos. Que defendem Sócrates até que as elites digam que já não pode ser e invertem todo o discurso, crucificando seja quem for como se não soubessem o que se passava.

Perdoam-se dívidas a clubes de futebol e injecta-se dinheiro nos bancos enquanto a Segurança Social patrocina despedimentos colectivos com despachos do Vieira da Silva a permitir a inexistência de quotas para os despedimentos (aos milhares).

Apoia-se um Tomás Correia com suspeitas de corrupção e a Santa Casa da Misericórdia (que é financiada pelo Orçamento do Estado) embala o berço.

As mãos deles estão sujas, o sistema corrupto e podre, e todos nós pagamos o preço mais alto que se pode pagar: continuamos sem forma de (sobre)viver, saímos do país, saímos das cidades porque não podemos lá viver, «escolhemos» não ter filhos porque não podemos pagar. Ei-los que partem, novamente, enquanto os mesmos de sempre continuam o jogo das cadeiras.

As costas da democracia

Os últimos dias foram bastante profícuos em casos de imbecilidade extrema. Médicos que acham a homossexualidade uma doença, psicólogos que acham que a erva deixas as pessoas homossexuais e uma advogado que é só o espelho dos partidos que representa, PSD e CDS, despejando ódio e preconceito sobre ciganos e negros. O direito de gente como esta encher páginas nos media dominantes não pode ser encarado como uma coisa normal, apenas sujeita a critérios editoriais. A democracia burguesa abre caminho a estas posturas, ao palco para medíocres, ao afunilar opiniões, procurando uma aceitação fácil que possa render alguma exposição a um título chamativo nas redes sociais.


Não há, por isso, ilusões. A democracia burguesa defende os interesses da burguesia e a História continua a demonstrar que são inconciliáveis com a classe oprimida, ainda que esta classe não saiba que o é e por que é.

A batalha da desinformação a que fomos sendo sujeitos ao longo dos anos levou ao ponto em que estamos hoje: é aceitável, em nome da democracia e da liberdade de expressão, colocar sob os holofotes um médico que acha que a homossexualidade é uma doença. Há uma gravidade enorme em tudo isto; primeiro, porque a classe médica é das mais cotadas entre a confiança dos portugueses, depois, porque é inconcebível que um jornal publique isto.

Um médico afirmar que a homossexualidade é uma doença, não está no campo da liberdade de expressão. Está no campo da mentira. É como se um tradutor resolver dizer que “yes” se traduz por “não”. Ele pode dizê-lo, mas está a mentir.

Também o candidato do PSD a Loures nos brindou com uma entrevista em que adopta aquela que sempre foi a postura do CDS, com e sem PSD, em relação talvez não a minorias mas em relação a minorias pobres. Porque há naquele campo muito quem critique as lojas dos chineses, mas esticam os braços para fazer chegar mais um visto gold a um qualquer empresário que esteja disponível para gastar meio milhão de euros numa casa.

Em 2009, Portas afirmava que o “RSI é um incentivo à
preguiça” e que os subsidiários são “
gente que, pura e simplesmente, não quer trabalhar e quer viver a custado contribuinte“. A ideia vingou porque, em tempo de crise profunda, os discursos populistas vendem bem. A História demonstra-o também. E bem podem dirigentes do CDS tentar demarcar-se disto. O partido deles é um dos grandes promotores de uma criminalização da pobreza e da sua censura pública. Foi com PSD e CDS que os desempregados passaram a ter apresentações periódicas na Junta de Freguesia, como qualquer condenado.

A aceitação deste tipo de discursos, a cobro da democracia e da liberdade de expressão é, na verdade, a sua negação. É abrir caminho a discursos fáceis, falsos, que são tomados como verdadeiros. É o vingar da opinião da classe dominante que, enquanto puder dividir os explorados entre explorados-brancos, explorados-ciganos, explorados-negros e por aí fora, vai levando a água ao seu moinho. É o vingar da ideologia dominante no que respeita à não-existência de ideologias e na comparação entre esquerda e direita, que são a mesma coisa. Como se ideologias que defendem extinções em massa, genocídios, a superioridade racial e religiosa fossem comparáveis a uma cuja principal matriz é haver um mundo sem exploradores nem explorados.

O branqueamento do que foi a II Guerra Mundial, em que os EUA aparecem quase como que o fiel da balança, os neutros, entre comunistas e nazis, promove este estado de coisas e beneficia com ele. Porque há alguma esquerda que tem medo de assumir aquilo em que acredita, papagueando as mentiras e falsidades que são debitadas pelos beneficiários da ideologia dominante. Está bom de ver, não colocando em causa a ideologia dominante, esta adopta esta esquerda como sua, promovendo-a como moderna, europeia, o centro-esquerda, como se isso existisse e não fosse apenas social-democracia maquilhada.

A democracia burguesa tem umas costas tão largas que conseguiu, ao longo dos anos e a cobro de supostas democracia e da liberdade de expressão, fazer crer que comunistas e fascistas são a mesma coisa, que autarcas corruptos roubam mas fazem e que o vizinho, que está sem emprego, é um malandro que não quer trabalhar.

E os discursos de André Ventura, Quintino Aires e Gentil Martins são, ao mesmo tempo, alicerce e telhado do edifício que foi sendo construído pela ideologia dominante. E vivem bem uns com os outros.

Tira a nossa bandeira da tua lapela

Em 1387, já no rescaldo revolução portuguesa de que nos escreve António Santos no post anterior, uma boa parte da nobreza nacional ainda mantinha lealdade a Castela a pretexto dos interesses de Portugal. A lealdade a Beatriz de Portugal não era a lealdade a Portugal, apesar do nome. Passos Coelho é um dos filhos dessa nobreza traidora, que usando Portugal na lapela, não sendo leal a Castela, não é leal à nossa bandeira.

Bem sei que é coisa que parece de menor importância, mas a pose de Passos Coelho, com a bandeira portuguesa na lapela em forma de pin, provoca-me uma repulsa visceral. É claro que a bandeira nacional é de todos, é um símbolo nacional e ninguém é dono dos símbolos nacionais. Ninguém menos o povo. São do povo os símbolos nacionais, porque, mesmo quando não resultam do povo, são por ele apropriados.

E provoca-me repulsa porque Passos Coelho sabe que a única ponta de patriotismo que pode mostrar é a bandeira portuguesa na lapela, o mesmo pin que ostentava enquanto condenava milhões de portugueses à miséria e ao empobrecimento, o mesmo pin que passeava pelas reuniões em que prestava servil vassalagem a Merkel e o mesmo que usava enquanto lampeiro vendia a riqueza dos portugueses a grupos económicos alemães, chineses, brasileiro. Porque um patriota não precisa de bandeira ao peito enquanto vende os interesses do país, um patriota defende o seu povo sem precisar de usar o verde o vermelho ao peito, porque estão no seu coração e nos seus actos.

Passos persiste na postura de Primeiro-Ministro espoliado da sua legitimidade divina para governar. Amuado como um rei que julgava que o seu reinado era direito decretado pelos astros, usa a nossa bandeira, apropria-se de um símbolo de todos, ainda sem perceber que já não passa de sobranceria espúria, nacionalismo bafiento e ridícula ofensa ao povo que em boa hora correu com ele do Governo.

A bandeira será livre e de todos, é certo. E é por isso mesmo que a utilização da bandeira por um barão da destruição do país, para esconder a sua verdadeira bandeira, é uma usurpação, uma apropriação que conspurca o símbolo nacional com que de mais anti-patriótico existe que é, como Passos fez, governar contra o seu povo.

Passos, tira a nossa bandeira da tua lapela.

#passostiraopin #tiraanossabandeiradatualapela

Mais uma «liana» de PSD e CDS

Primeiro foi a mais que provável, adivinhável, programada queda do governo: não resultou. Depois foi a tentativa de granjear simpatias com a polémica dos colégios privados: também não lhes trouxe simpatias nenhumas, pelo contrário. A seguir vieram as sanções e as ameaças “da Europa” contra “o país”, contra o governo, numa “previsível catástrofe” que só se resolveria se Maria Luís Albuquerque “ainda lá estivesse”: também foi o que se viu. Ora, a que espécie de “liana” se hão de agora agarrar CDS e PSD, que navegam à vista, sem rumo definido, notoriamente incapazes de fazer oposição política com o mínimo de seriedade e bom senso? Quase que se podem ouvir as ordens a ecoar pelas paredes da São Caetano à Lapa: «Para atacar o governo, o PCP ou o BE qualquer coisa, pá! Qualquer coisa serve!»

Há escassos meses, por proposta do PCP, foi votada no Parlamento uma descida do valor máximo do IMI de 0,5% para 0,45%. Adivinhe-se lá quem é que então se absteve.

Depois de eles próprios terem passado legislaturas inteiras a “aprimorar” as maiores dores de cabeça dos portugueses em relação ao IMI, com “inevitabilidades”, agravantes e subidas desregradas impostas pelos seus próprios governos, aparecem agora, com a cada vez mais habitual falta de vergonha na cara, a rasgar vestes por causa de uma mexida nas ponderações percentuais de factores que já existiam e já estavam em vigor, ao contrário de o que andou a berrar o mais agitadiço e fiel propagandista da direita na SIC, José Gomes Ferreira. E convém ainda recordar este facto notável, demonstrativo, uma vez mais, da hipocrisia reinante na direita que por cá vamos tendo: há escassos meses, por proposta do PCP, foi votada no Parlamento uma descida do valor máximo do IMI de 0,5% para 0,45%. Adivinhe-se lá quem é que então se absteve. Pois. Um dos que durante a legislatura anterior não parecia tão disposto assim a aliviar fiscalmente os contribuintes foi o “extraordinário” Nuno Magalhães, o mesmo que hoje apareceu, ufano, em conferência de imprensa, a acenar com a plena autoridade de, a respeito do IMI, ter falado com “TODAS as câmaras do CDS no país!” Com “TODAS”! E “do país”. Isto é, fez cinco telefonemas!

Não contentes com a hiperbolização dessa matéria, a direita decide cavalgar agora numa nova e muito oportuna polémica: a viagem feita por um Secretário de Estado das Finanças a um jogo da selecção, em França, que foi paga por uma entidade privada que tem dívidas ao fisco. Independentemente do julgamento ou avaliação sempre subjectiva que cada um possa fazer do acto em si, não se mascare ou se menospreze, contudo, o carácter mediático da questão como nova “liana” de uma direita completamente entorpecida, esvaziada, às aranhas. E é isso mesmo que é preciso sublinhar.

E não há como não levantar a questão: como se atreve o PSD a falar destas questões? Como se atreve o PSD a apontar o dedo acusador da ética e da moralidade quando um seu na altura deputado, mais tarde primeiro-ministro e ainda hoje líder do partido, esteve cinco anos sem fazer os devidos descontos para a Segurança Social? Onde pára a ética e a moralidade do PSD, afinal? Onde parou a ética e moralidade também do CDS, parceiro desse mesmo governante na precisa ocasião em que o caso se tornou público, e que optou por um rotundo, cúmplice e vergonhoso silêncio? São estes os arautos do bom comportamento dos políticos? Haja decoro.

Pornocracia

As perdas com a venda do Efisa podem aumentar mais 80 milhões de euros, se somarmos o prejuízo com que o banco foi vendido. O Estado pode sair a perder mais de 130 milhões de euros. O suficiente para construir dois hospitais.

A soberba europeia que grassa por entre as elites e contamina como uma doença infantil toda a “esquerda moderna” tolera com impressionante bonomia a corrupção institucionalizada que vive no genoma do capitalismo. Se um presidente africano tem um primo dono de uma empresa é uma ditadura, uma oligarquia, o terceiro-mundo em todo o seu esplendor.

Já se um gestor bancário – como por exemplo, este – trabalhava num banco onde o Presidente da República e a sua filha Patrícia lucraram 360 milhões, e que terminou nacionalizado porque a pandilha de banqueiros – que por acaso eram amigos e colegas de trabalho e de governo do actual Presidente da República – o roubou até deixar uma conta de mais de 6 mil milhões de euros para os portugueses pagarem, vai depois trabalhar para o Estado numa empresa para gerir o banco falido, agora nacionalizado, e usa o seu mandato como gestor ao serviço do Estado para vender o banco, com um prejuízo de 130 milhões de euros para as contas públicas, a um outro banco para o qual pode ir trabalhar de seguida, então não há ditadura nenhuma.

E a estória não acaba aí. Então o ex-Ministro das Finanças que dirigiu o orçamento durante uma intervenção do FMI em Portugal, sai do Governo e vai trabalhar precisamente para o FMI, isto antes de ser condecorado por relevantes serviços à nação pelo Presidente da República que manteve ligado à máquina um Governo que governou ao serviço do estrangeiro e dos especuladores e agiotas que assaltaram sem pudor a riqueza nacional, produzida pelos trabalhadores portugueses que, como bons vampiros, foram convidados a entrar pelo PS, PSD e CDS, que são, no caso, não vítimas, mas cúmplices.

E depois ainda temos uma ex-Ministra das Finanças que impôs aos portugueses a “austeridade” como forma de vida, enquanto desviava milhares de milhões de euros para alimentar os lucros dos bancos alemães e franceses, e de fundos abutres um pouco por todo o mundo. Certamente, Marcelo irá a tempo de ainda condecorar por relevantes serviços prestados à nação esta dama do capitalismo, esta senhora de rigor e idoneidade inquestionáveis que, tal como Salazar, não tirava para si um tostão.

Mas a História não é madrasta para quem presta relevantes serviços à nação de Cavaco Silva, de Passos Coelho e Paulo Portas – que é como quem diz a grande burguesia e os grandes grupos económicos, verdadeira pátria de PSD e CDS e, já agora, também do PS onde não faltam casos similares – e eis que a oportunidade de complementar o pequeno salário de deputada com um rendimento extra, vai finalmente permitir a Maria Luís Albuquerque uma poupançazita. Também já merecia, coitadita, depois de tanto esforço e fingimento, ter de andar a passar-se por patriota, fazer discursos lamechas de apelo à paz social e à complacência das vítimas.

Como dizia um camarada, Maria Luís Albuquerque “não mudou de patrão, a diferença é que agora vem na folha de vencimentos”. E ainda há quem questione a posição da senhora, só visto – malditos comunistas que ainda estou para perceber como é possível sequer entrarem na casa da democracia.

O que é mais engraçado é que continuamos a fingir que isto são casos isolados, “bad apples” do sistema e das democracias e a ignorar que o capitalismo é corrupção em si mesmo, que o capitalismo é a institucionalização da corrupção e da promiscuidade. Dirão os mais atentos: “Ah e tal, mas no socialismo e nas experiências de construção do socialismo também há e houve corrupção” e di-lo-ão certo! A grande diferença é que no socialismo a corrupção é uma anormalidade, um elemento que mina o sistema. E no capitalismo, a corrupção institucionalizada, legalizada, normalizada, é o cerne do funcionamento do sistema.

É que, julgar a legitimidade pela lei não é bom critério quando são os criminosos que a escrevem.

As cartas de Marcelo

Um bufo da PIDE a Presidente da República?

Carta de 14 de Abril de 1973

“Acompanhei de perto (como Vossa Excelência calcula), as vicissitudes relacionadas com o Congresso de Aveiro, e pude, de facto, tomar conhecimento de caraterísticas de estrutura, funcionamento e ligações, que marcam nitidamente um controle (inesperado antes da efectuação) pelo PCP. Aliás, ao que parece, a atividade iniciada em Aveiro tem-se prolongado com deslocações no país e para fora dele, e com reuniões com meios mais jovens”

“Como Vossa Excelência apontou, Aveiro representou, um pouco mais do que seria legítimo esperar, uma expressão política da posição do PC e o esbatimento das veleidades “soaristas””

“O discurso de Vossa Excelência antecipou-se ao rescaldo de Aveiro e às futuras manobras pré-eleitorais, e penso que caiu muito bem em vários sectores da opinião pública”

Marcelo Rebelo de Sousa

“Cartas Particulares a Marcello Caetano”, de José Freire Antunes.

Marcelo: Som que se propaga no Vácuo

O candidato presidencial Marcelo Rebelo de Sousa deu por estes dias uma entrevista à SIC que teve, aparentemente, desde logo, o condão de não ter perguntas previamente combinadas. Não havia, aparentemente, temas “escolhidos” nem guião de conversa como acontecera noutros carnavais, onde de resto Marcelo “nadava” como outrora nas águas do Tejo. E, por isso, aconteceu o esperado: quando confrontado com aquela que é a sua experiência política ou com o seu passado partidário, Marcelo tropeçou em si próprio e conseguiu uma proeza que ultrapassa as barreiras da ciência e as leis da física: propagar som… no vácuo. Mas já lá vamos.

Marcelo é, foi, um desastre político em toda a linha. O seu percurso fala por si.

Há umas semanas escrevi aqui sobre a vacuidade política que é, por trás de toda a embalagem mediática, Marcelo Rebelo de Sousa. Apareceu de imediato, como seria de esperar, quem viesse defender o curriculum académico do reverente professor doutor de Coimbra. O problema é que essa defesa, por si só, não preenche o vazio político de que falávamos e que é factual e absolutamente incontestável. Marcelo é, foi, um desastre político em toda a linha. O seu percurso fala por si. Foram sucessivos e bastante sonoros do ponto de vista mediático até – e a má memória sobre Cavaco ameaçar repetir-se relativamente a Marcelo, embora num outro plano – os insucessos em todos os cargos – e não foram muitos – por onde Marcelo se passeou enquanto não o mandaram calar de vez. E essa evidência ficou uma vez mais realçada nesta última entrevista, curiosamente pela própria voz e pela própria atitude nitidamente incomodada do visado, quando se mexeu na incurável ferida do tempo.

Aconteceu então que, na fase final da entrevista, Rebelo de Sousa fosse interpelado, primeiro, acerca da sua relação com Ricardo Salgado e, depois, sobre o seu passado como dirigente do PSD. E em relação ao primeiro assunto, passaria a situação perfeitamente despercebida, não fosse dar-se o caso de Marcelo ter sentido a necessidade de asseverar que ele até “foi dos primeiros a criticar Ricardo Salgado”, a propósito de situações de “favor” (palavras dele), entre a Câmara de Lisboa e o BES. Acrescentou ainda que, a esse propósito, lhe haviam dito em tempos que só lhe faltava “a boina de Che Guevara”, tal a sua fúria revolucionária para com o seu amigo banqueiro. Logo a seguir, face ao seu passado enquanto líder do PSD, aí é que a porca torceu verdadeiramente o rabo. Com um ramalhete de “feitos” e “conquistas” de que não resta efectiva memória, lá veio Marcelo espalhar “som” onde só há “vácuo”.

Quando o entrevistador fala desta candidatura como a sua “última oportunidade política”, fazendo referência ao seu passado de candidaturas falhadas e à mediocridade da sua liderança do PSD, Marcelo quase pula da cadeira e desata a puxar de supostos e falaciosos galões. Respondeu, desesperado por se justificar, que “ganhou dois referendos” – é tão-só risível -, que “teve um óptimo resultado nas autárquicas” – como se a presidência do PSD interferisse de sobremaneira nas dinâmicas autárquicas –, que foi ele o obreiro da queda de Guterres e ainda, em não menor tom ridicularizante e ridicularizável, que “viabilizou uma revisão constitucional”. Tudo isto para tentar concluir que, contrariamente ao que parece e neste caso o que parece é mesmo, Marcelo até teve “uma grande presidência do partido”. Ou seja, até Marcelo sabe, embora tente disfarçá-lo com a sua mestria comunicacional, que o seu passado político abona tanto a seu favor como a relação de amizade que teve e tem com Ricardo Salgado. Logo numa altura em que o povo português quer ver-se livre de um presidente conotado com o poder financeiro, e numa altura em que está a ser chamado, directa ou indirectamente, a pagar do seu bolso, uma vez mais, os desmandos e abusos de um sistema financeiro proveitoso para as “boas famílias” e ruinoso para o país.

Posto isto, é preciso que Marcelo continue a falar, mas sem prévias combinações. Só assim se verá com maior nitidez que o que Marcelo tem a apresentar aos portugueses é toda uma vida política e partidária a roçar a mediocridade… e nada mais. Não há nada que lhe valha de substancial. Há, sim, uma imagem bem montada, bem construída, de aparato, de espectáculo e mediatismo, naquele que foi o mais longo tempo de antena da história da democracia. E, infelizmente, essa estratégia tem dado alguns frutos no nosso país. Quem domina os meios, domina a consciência. Quem domina a opinião, domina o voto. Não é novo, dura há muitos anos. Esperemos é que não dure por muito mais tempo.

É um avião? é um pássaro? É um “governo de esquerda”? Não… é um Governo PS.

Independentemente do que venha a ser o resultado institucional da rejeição do programa do PSD/CDS que até agora parece desenhar-se no horizonte, não está em cima da mesa, para já, a construção de um “Governo de Esquerda”.

Quando tal vier a ser uma realidade em Portugal, será certamente resultado de uma movimentação de massas consciente da necessidade de ruptura com o capitalismo e com a consolidação do processo de integração capitalista europeia e não apenas de resultados eleitorais. Mas para já o que está a parecer resultar das eleições legislativas de Outubro é uma derrota do PSD e do CDS, sem que exista necessariamente – como consequência directa – uma substituição automática das suas políticas por outras distintas e de “esquerda”.

A derrota do PSD e do CDS nas eleições e a constituição de uma maioria “atípica” numa conjuntura igualmente “rara” criam factualmente uma nova relação de forças institucional que permite materializar essa derrota na alteração dos protagonistas do Governo. Mas é também possível ir um pouco mais longe do que a habitual alternância sem alternativa. E havendo essa possibilidade, o PCP afirmou que o “o PS só não é Governo se não quiser” logo na noite das eleições e após a divulgação dos resultados. Isso significa que é preciso travar o passo ao PSD e CDS mas também que é possível construir uma política que, não sendo a proposta pelo PCP, nem pela CDU, é melhor para os portugueses do que a prossecução da actual.

A efabulação de que isso corresponde a um “governo de esquerda”,  a manterem-se as premissas conhecidas da política institucional portuguesa e a natureza dos partidos que a compõem, contribui mais para mistificar do que para esclarecer.

Não significa isto que não podemos vir a ter um Governo de Esquerda. Apenas que para já, tudo indica estarmos numa fase muito distinta dessa.

A construção da alternativa patriótica e de esquerda de que o país necessita não surgirá de reuniões entre partidos, mas emergirá da força do povo, da expressão da sua vontade inequívoca de mudar e ousar continuar os caminhos que ensaiou em Abril e que foram travados em Novembro. A direita está em pânico e fez baixar todo e qualquer padrão de dignidade que ainda pudesse ter. Há muito tempo que o grande patronato e o seu braço político (PS, PSD e CDS) não viam tão ameaçado o seu domínio.

E eis que o próprio PS se vê pressionado a definir-se sob pena de poder vir a ser considerado inútil no panorama da democracia partidária. Quem vos escreve não alimenta ilusões sobre de que lado se encontra o PS, mas também não alimenta simplismos. E uma coisa é um PS liberto para fazer o que quer e outra coisa é um PS que não pode fazer o que quer. Todavia, apesar de acossada e desvairada, a direita não está perdida. O grande capital não perde o norte tão facilmente.

Para situarmos a estratégia da direita é preciso compreender que ela se posiciona, neste momento, quase toda no plano das ideias e da ideologia, usando  a mentira, a chantagem, o terrorismo e a manipulação como instrumentos de pressão sobre o povo português, com o empenho descarado de Cavaco Silva.

É preciso compreender que PSD e CDS estão há meses a repetir a mentira do crescimento e a ladainha da recuperação económica, da diminuição do desemprego e do aumento das exportações e do investimento. Na verdade, toda essa construção é falsa e não corresponde à verdade. Na realidade, o país está mais pobre, está mais desigual, menos democrático e mais dependente – no financiamento e na produção. O país produz menos riqueza do que em 2011 e regrediu mais de 15 anos em muitos indicadores económicos.

Mas a insistência nessa mentira funciona como uma luz ao fundo do túnel para milhões de portugueses. E as ideias, não apenas a matéria, também moldam realidades.

Aceitar que o país está em rota ascendente é cair na primeira esparrela de PSD e CDS.

A segunda esparrela é aceitar a ideia de que estamos perante a emergência de um “governo de esquerda”. Porque, independentemente do governo que exercer funções nos próximos anos (ou meses) o país está factualmente asfixiado por uma dívida que foi contraída nos bancos e transposta para a dívida soberana, está factualmente depauperado e com o aparelho produtivo capturado pelos monopólios financeiros e económicos, está factualmente menos capacitado do ponto de vista social para lidar com a exclusão, a pobreza e a miséria, está igualmente depauperado no campo da investigação e desenvolvimento e da produção científica. Ou seja, essa realidade é que é o substrato da política institucional.

 E se um Governo PS tomar posse e entrar em funções essa realidade vai continuar a ser o verdadeiro cenário de governação. E PSD/CDS e o seu Presidente estão a fazer todo o caminho actual com os olhos postos no futuro: culpar a “esquerda toda”, o “socialismo”, pelos resultados do desastre que já aí está, mas camuflado pelas suas mentiras e propaganda.

O fio da navalha sobre o que caminhamos é demasiado estreito para equilibrismo – chamar “governo de esquerda” a um Governo liderado pelo PS, ainda que negociando algumas melhorias e medidas positivas para os trabalhadores com o PCP, é começar a tombar já para o lado errado.

*foto de obra da autoria de ± maismenos ±