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Sem justiça não há paz

“Simply because we were licked a hundred years before we started is no reason for us not to try to win.” [Simplesmente porque fomos derrotados cem anos antes de começar não é motivo para não tentar vencer.]A citação é óbvia. Atticus Finch é a razão pela qual muitos americanos proclamam a opção pela advocacia. Compreensivelmente, diria. Os crimes raciais são mais do que muitos e há uma altura que a impotência perante os vários sistemas inflige a necessidade de agir dentro desses sistemas. O assunto da semana levou-me a pensar cuidadosamente se deveria escrever algumas palavras sobre ele. Naturalmente, sobre a decisão, nada direi, aguardando cuidadosamente o rumo que tomará em tribunal. Em todo o caso, sendo esta a minha casa, não posso deixar de escrever algumas coisas que desde o início do processo me incomodaram e só agora emergiram.

A 5 de Fevereiro de 2015 a comunicação social foi chamada à esquadra de Alfragide e noticiou uma tentativa de invasão por jovens da Cova da Moura. A narrativa pegou e foi corroborada pelos agentes. Não obstante estarem 6 pessoas desfiguradas, com sinais físicos visíveis de agressão, rapidamente uma maioria se apressou a justificar tal estado com um «alguma coisa fizeram». Até os técnicos que os acudiram na esquadra tomaram por boa a versão policial da «queda acidental»: 6 pessoas, com hematomas, sangue, dentes partidos, ferimentos de bagos de borracha – «queda acidental». (vamos começar a contar os protagonistas – PSP, CMTv, INEM, bombeiros)

Multiplicaram-se os comentários generalizados: devem ir para a terra deles, criminosos, bandidos, ladrões, pretos de merda, vivem à custa do estado. Protagonistas? Qualquer pessoa com acesso à internet para escrever nas caixas de comentários. E não foram poucos.


No decurso dessa semana, muitas associações se solidarizaram, uniram esforços, organizaram uma manifestação contra a violência policial e a violência racista. Pretos e brancos, em voz una, contra uma história que se repete demasiadas vezes. Podíamos ler num dos cartazes «não quero ter medo da polícia». Não houve nenhum cartaz de ódio, de ataque, de generalização. Um protesto em frente à Assembleia da República, uma exigência clara de tomada de medidas para que estas situações não se repitam. Um silêncio aterrorizante do Governo, da Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género, da generalidade dos partidos com assento parlamentar, do Provedor de Justiça. A Direcção Nacional da PSP rapidamente, como sempre, não deu margem para dúvidas: correu tudo dentro da normalidade. Mais uma vez, correu tudo dentro da normalidade. A Inspecção Geral da Administração Interna abriu um inquérito. O Alto Comissariado para as Migrações prometeu uma comissão e trabalho de intervenção no bairro para aproximar polícias e moradores. (continuando a contagem: CIG, partidos, Governo, ACM, DN da PSP, IGAI, Provedoria da Justiça)

No dia da manifestação uma das vítimas disse-me que eles não eram ninguém mas se naquele dia eu estivesse no meio deles e mostrasse a cédula profissional, talvez já não tivessem sido torturados. Isto não me saiu da cabeça – a minha cor e a profissão seriam o meu escudo e isso era absolutamente normal. E disse-me, uns meses mais tarde, que a polícia ia reiteradamente ao bairro, de shotgun em punho, mas que havia uma coisa que o incomodava profundamente. Faziam-no às 3 e 4 da tarde, com as crianças na rua, aos gritos e a apontar as armas a toda a gente. «Eu entendo que eles têm que ir lá e fazer o trabalho deles, mas pelo menos podiam ir à noite, quando as crianças não têm que assistir a isto». Mais uma vez fiquei a pensar nisto: a normalização da violência é tal que entrar na rua onde se mora de shotgun em punho é aceitável porque «é o trabalho deles». Evidentemente, do alto do meu privilégio, nada disto me fez sentido.

E começaram a passar-se os dias e os meses. Já ninguém falava disto. Eles, contudo, lembravam-se todos os dias. E passaram dias e horas entre esquadras e tribunais. A prestar declarações, a fazer exames. A dizer aos seus patrões que tinham que ir à polícia e a por o seu emprego em risco. Com a qualidade processual de arguidos, a terem que dizer a todo o momento se iriam afastar-se da sua residência mais do que 5 dias, um deles com apresentações regulares e periódicas – tudo para que não se esquecessem que estavam a ser investigados e que, aos olhos da lei e das autoridades eram suspeitos de terem cometido vários crimes. Aos olhos da sociedade… basta ler as caixas de comentários. Um dos dias deparei-me com a necessidade de ter que ir à esquadra a propósito do processo. Não tive coragem. Pensei que no momento em que dissesse o número do processo poderia eventualmente ter o mesmo destino. Eu, que não passei nunca por nada daquilo. Eu que não moro no bairro. Não fui capaz.

No decurso destes dois anos, o ACM afirma que fez projectos de proximidade. Ninguém deu conta deles no bairro. A CIG permanece impávida perante tudo isto. A IGAI sem nunca nos ter deixado aproximar do processo está hoje sob a mira da opinião pública com os milhares de queixas. A PSP sabe que isto não pode acontecer e certamente sabe que tem que tomar medidas (e não, não são todos iguais). A PJ fez um trabalho irrepreensível. O INEM fala do dever constitucional de prestar auxílio quando confrontado com o facto de ter escrito «queda acidental». O Governo permanece em silêncio sendo certo que este assunto não se resume à decisão judicial, é bem maior e exige medidas executivas. A TVI e a CMTv demonizam os habitantes da Cova da Moura. Nós? Debatemos. Finalmente, debatemos diariamente o racismo.

Mas passaram dois anos. Se o despacho não tivesse esta dimensão teria sido uma «queda acidental». A IGAI não seria beliscada e os polícias permaneceriam na mesma esquadra, onde, aliás, estiveram nestes dois anos. Teria existido uma tentativa de invasão. Alguns jornais e televisões permaneceriam na difusão de estereótipos e preconceitos sem pejo nem agravo. E isto deve preocupar-nos. O Ministério Público não deixou passar. Desta vez. Mas todas as outras vezes que deixa? Todas as outras pessoas que não conseguem pagar e enfrentar os processos judiciais (que este só foi possível dada a solidariedade dos muitos que se juntaram)? Todas as agressões e abusos que se vão passando longe dos jornais mas presentes no quotidiano?

Bombeiros, INEM, IGAI, PSP, CIG, ACM, Provedoria de Justiça, comunicação social (CMTV e agora TVI), Governo – todos falharam, todos viraram as costas. Todos. A sociedade falhou. O Estado falhou. E não é porque todos falharam que vamos deixar de dizer a verdade e de tentar vencer. Mas a que custo?

Sem justiça não há paz.

Violência policial na Cova da Moura: não esquecemos nem perdoamos

«A primeira coisa que me vem à cabeça é a negação da humanidade aos africanos. Para aqueles agentes fardados nós não éramos pessoas.»

5 de Fevereiro de 2015, jovens são brutalmente torturados numa esquadra em Alfragide.

Às vezes o telefone tocava a meio da noite e a minha primeira expressão não era a de preocupação com algum acidente ou algum problema de saúde. A primeira ideia era «alguém foi preso, aconteceu alguma coisa». A tensão social e particularmente a atitude musculada da polícia, tornava estes telefonemas frequentes. Noites à procura de pessoas detidas sem se perceber bem onde, violação de todas as regras e leis – impedindo contacto com advogados ou pessoas de confiança – detenções para identificação sem sequer permitir a identificação testemunhal no local, práticas que se tornaram normais e curriqueiras e que nenhum juiz ousou condenar quando as pessoas, justamente, se queixaram. «Práticas normais», dizem. Como se fosse normal ser encostado a uma parede porque se é preto e levado para uma esquadra, como se fosse normal ser-se identificado pela polícia porque se participa numa manifestação que exige aumentos salariais, como se fosse normal ser detido porque se conhece a lei e se exige que esta seja respeitada.

No dia 5, foi diferente. Estavam pessoas a ser torturadas numa esquadra. E nem sequer interessa se fizeram alguma coisa ou não  – e não fizeram – mas aparentemente a tortura é justificável quando se trata de «criminosos» (que o são porque são pretos e vivem na Cova da Moura, nada mais interessa). Deles só se soube no dia 5, quando finalmente puderam falar com a sua família e amigos (depois de uma breve presença do advogado na esquadra). Três dias sem se saber como estavam ou o que lhes estava a acontecer.

Se eu mandasse vocês seriam todos exterminados. Não sabem o quanto eu odeio vocês, raça do caralho, pretos de merda.

“Vocês têm sorte que a lei não permite, senão seriam todos executados“.

 «”Esse aí é português.” E outro: “Não, ele é pretoguês”.»

“Se eu mandasse vocês seriam todos exterminados. Não sabem o quanto eu odeio vocês, raça do caralho, pretos de merda.”

Mas, “a PSP actuou como o “previsto””.

A PSP, o Governo, o ACIDI (agora ACM) – todas as instituições falharam e continuam a falhar. Os mesmíssimos agentes acusados de tortura permanecem na esquadra e patrulham o Bairro da Cova da Moura. Cruzam-se com os que os acusaram. Com o mesmo ódio com que lhes marcaram a pele, o corpo e a vida em 2015. A polícia continua a invadir o bairro, a qualquer hora, de shotgun em punho, diante de crianças, de velhos – encosta à parede. É normal para eles e é normal para quem lá vive. Já me disseram que não se importam que lá vá a polícia mas que o faça quando não há crianças na rua. Já me disseram «que pena que não tenhas estado lá, eu não sou nada mas se calhar quando vissem que és advogada seria diferente, talvez não tivessem batido».

As associações falharam, deixaram de estar, de falar sobre o assunto. Todas as personalidades que se indignaram, à data, desapareceram. O Alto Comissariado para as Migrações nunca sequer lá pôs os pés para falar com ninguém ou intervir e se disser que o fez, mente. Todos viraram as costas, fingindo que não há racismo, não há violência, não há tortura. Serão talvez os primeiros a levantar a placa anti-Trump (pese embora justa, não deixa de ser vazia) e a autoproclamar-se bastiões da igualdade. Num mundo em que um jovem deixa de sair à rua porque não quer encontrar a polícia nem que que no bairro o acusem de por o bairro em perigo porque enfrentou a polícia. Num mundo em que um corpo fica desfigurado porque foi agredido, porque foram negados cuidados médicos (constando nos relatórios dessa noite que «caíram») e a marca é permanente. Num mundo onde dizem a um semelhante que deve ser exterminado, que não é pessoa.

Os que sempre lá estiveram, continuam a estar, lado a lado, numa luta que também é sua. Eu passei a estar apenas depois desse dia. E até hoje, de cada vez que os olho nos olhos, sinto-me esmagada pela sua resistência, pela sua capacidade de olhar em frente com esperança, pelo seu amor à vida, pela forma abnegada com que resistem, todos os dias, numa vida que ninguém devia ser forçado a viver. Não nestas condições, não desta forma abjecta. Em que centenas ainda vociferam que não há lugar para «aquela gente». Que ainda bem que aquilo lhes aconteceu. E de cada vez que ouço os relatos daquela noite, pergunto-me: que humanidade é esta que violenta, agride e se sente legitimada a tal, sem que nunca nada aconteça a quem exerce este domínio sobre o outro em razão da cor da pele, do sexo, da classe? Mas os olhos deles, quando contam novamente o que aconteceu, dizem-me que não desistem e não traem. Que não descansam. E que continuam a lutar.

Rosa, Chamam-te Rosa, minha preta formosa. E na tua negrura teus dentes se mostram sorrindo. Teu corpo baloiça, caminhas dançando, Minha preta formosa, lasciva e ridente Vais cheia de vida, vais cheia de esperanças Em teu corpo correndo a seiva da vida Tuas carnes gritando E teus lábios sorrindo… Mas temo tua sorte na vida que vives, Na vida que temos…Amanhã terás filhos, minha preta formosa E varizes nas pernas e dores no corpo; Minha preta formosa já não serás Rosa, Serás uma negra sem vida e sofrente Serás uma negra E eu temo a tua sorte! Minha preta formosa não temo a tua sorte, Que a vida que vives não tarda findar…Minha preta formosa, amanhã terás filhos. Mas também amanhã…… amanhã terás vida!(Amílcar Cabral)

Contra o alarmismo, pensar, pensar

Ontem houve um tiroteio na Ameixoeira. Certamente estarão a par da coisa, abstenho-me de a explicar. Duas famílias, caçadeiras, tiros e a PSP. Os directos televisivos não tardaram, as análises especulativas rapidamente se iniciaram e quando os factos foram chegando, as análises mantiveram a especulação utilizando a extrapolação, essencial ao preenchimento de 24 horas de informação repetida, mastigada, escarrada e com poucos minutos de verdadeira informação.

Detenho-me em dois momentos a que assisti.

José Alberto Carvalho, na TVI24, mesmo antes do intervalo, lança a seguinte pergunta (transcrição de memória): “Será que este episódio poderá levar a uma escalada de violência? É esta resposta que vamos tentar dar depois do intervalo.”
Fica o espectador a matutar no assunto, a preocupar-se com esta hipótese, a aumentar na sua cabeça a necessidade do aumento de segurança, de polícia nas ruas, etc, etc…

Francisco Moita Flores, na CMTV (a primeira a chegar em directo ao local, claro), diz o seguinte (de memória novamente): “Não quero fazer qualquer tipo de comparação com o acto terrorista a que assistimos na semana passada, porque isto não tem nada que ver com terrorismo… Mas a verdade é que a composição social deste bairro tem muitos pontos de contacto com os bairros belgas onde há terroristas.”
Francisco, quando não se quer comparar uma coisa com outra porque se acha que uma coisa não tem relação com a outra, é simples, não se compara.

Estas frases, estas situações, estas análises e interrogações servem para quê? E servem a quem? Não servem para nada que não seja ocupar tempo de antena com bacoquices, com especulações de café que alimentem um mercado televisivo notoriamente exagerado para o país que temos e altamente degradado pela concorrência da informação-espectáculo em que o “quase” de “vale quase tudo” já está muito esbatido.

Vivemos um período delicado que necessita de mais calma e distanciamento de análise do que uma vontade imensa de colocar todos os cenários em cima da mesa, principalmente os mais catastróficos. Toda a gente sabe que a paz e a tranquilidade são menos mediáticas que a violência, as guerras e o terror psicológico. Toda a gente sabe que, “o drama, a desgraça, o horror” (Albarran, onde andas?), vendem mais.

Outra prova disto é a estreia de ontem de “Aqui tão longe”, série da RTP que tem como mote um atentado terrorista a um avião que partiu de Lisboa com destino a Londres. A RTP, e bem, parece querer apostar na produção de séries nacionais de ficção e menos em novelas, mas não deixa de ser paradigmático que uma das primeiras séries desta aposta seja esta, especulando sobre um cenário alarmista.

Seleccionemos a informação e respiremos fundo. Contra o alarmismo, pensar, pensar.

A PSP, os lesados do BES e seus chutos e pontapés

Zapping matinal. Num dos canais de informação passavam imagens dos “lesados do BES” em manifestação em frente à sede do defunto banco, renascido como Novo Banco. Barulho, algumas pessoas, entrevistas semi-audíveis. Cinco minutos disto e continuação do zapping. De repente chego à CMTV, que continuava em directo do local. A temperatura subia, vertiginosamente. Manifestantes que tentavam entrar na sede do Novo Banco empurravam, insultavam e berravam aos ouvidos dos agentes do Corpo de Intervenção da PSP. Bastões à vista: zero. Resposta da PSP: pacífica, apenas mantendo a posição.

Cinco minutos disto e continuação do zapping. Volto à CMTV – entretanto só a TVI24 voltava ao directo por breves momentos. O que parecia uma dispersão da manifestação, transformou-se num corte do trânsito da Avenida da Liberdade. Pelo meio, um carro da PSP que tenta cruzar a Avenida furando por entre os manifestantes, é parado. Há quem se sente na bagageira, há quem insulte os agentes que estão no interior e há quem decida dar uns valentes sacolões ao carro. Bastões à vista: zero. Resposta da PSP: zero. Entretanto o carro segue o seu caminho.

No momento em que deixei o directo e vim escrever este texto, não se via nenhum polícia no eixo central da Avenida tentando repôr a normal circulação.


Tal como na última manifestação do tipo que houve em Lisboa promovida por este movimento, a resposta da PSP é aquela que não vemos em nenhuma outra situação. Pacífica, mantendo posição, não reagindo e portanto não aumentando a tensão que acaba por se desvanecer.
Fora esta uma manifestação que pedisse, por exemplo, a demissão do governo, mais justiça e menos discriminação racial nos guetos que existem pelo país , o fim da presença de Portugal na NATO ou um piquete de greve geral, e fosse este o comportamento dos manifestantes e é garantido que bastões seriam mais que muitos, algemas sairiam ligeiras dos cintos, encontrões, pontapés e outro tipo de agressões da Polícia seriam constantes e justificadas com “a reposição da ordem pública”.

Como duvido que este movimento tenha marcado concentração ou desfile pelo eixo central da Avenida – facto que pode ser comprovado pela inexistência de acompanhamento policial na dita faixa de rodagem, prática obrigatória nestas ocasiões -, mais uma vez percebemos que o comando da Polícia e os seus superiores hierárquicos deram ordens bem claras aos agentes no terreno: permitir uma ocupação ilegal da via pública e proteger com unhas e dentes, mas com calminha, uma propriedade privada de um banco que, até prova em contrário, não só enganou um país inteiro como foi literalmente aos bolsos de milhares de pessoas que perderam assim as poupanças de uma vida.

Nestas coisas, a malta do dinheiro e os partidos que os amparam, não deixam nunca os seus créditos em mãos alheias.

No meio disto tudo há sempre quem se manifeste sem nenhum tipo de razão, porque sabia exactamente o que era papel comercial e os riscos associados, mas isso era outra história.

Uma coisa é certa, quem quiser vingar-se das bastonadas que leva no seu bairro só por causa do tom da sua pele, dos pontapés que leva pelas costas em comemorações desportivas, dos encontrões valentes que leva em piquetes de greve, basta aparecer numa manifestação dos “lesados do BES”.

Entretanto, e tentando perceber se os outros canais davam as imagens, ironia das ironias, a ministra da Administração Interna dava uma conferência de imprensa sobre os fogos. Certamente que ao final do dia dará nova conferência em que justificará porque é que a PSP não teve ordens imediatas para conter um corte ilegal de estrada. Ou então não.

De pequenino se torce o bastão extensível

A esmagadora maioria dos fenómenos sociais, económicos, culturais e até pessoais, são mais claros e mais bem explicados quando analisados à luz da luta de classes. Mas há alguns que saem desta esfera de análise e pertencem a algo milenar: a estupidez humana.

Isto a propósito da celebração do Dia Mundial da Criança em Portalegre. Achou por bem a câmara municipal, presidida por Adelaide Teixeira, independente do movimento CLIP – os independentes, esse milagre da evolução democrática -, e a PSP local integrar a simulação de uma manifestação nas comemorações da data. Um mini-corpo de intervenção contra um mini-grupo de manifestantes. Crianças armadas com pequenos escudos e bastões a serem atingidas por bolas de papel que simulam pedras da calçada arremessadas por outras crianças.

Parece que não mas estamos no séc. XXI. Parece que não mas estamos num país onde a discussão em torno das cargas policiais tem existido frequentemente, e onde, apesar de muitos tentarem escondê-lo, a violência policial é mesmo um problema. Parece que não mas esta actividade foi aprovada e/ou assistida por oficiais da PSP, autarcas, professores, auxiliares da acção educativa e provavelmente pais.

Esta é daquelas que mói a cabeça e me deixa sem palavras. Por isso mesmo, e porque diz tudo o que é preciso, cito o pequeno texto que o meu camarada de blog, Bruno Carvalho, escreveu no seu mural de Facebook:

“Há 68 anos, em plena ocupação nazi-fascista, um grupo de crianças
napolitanas não pôde brincar aos polícias de choque e aos manifestantes.
Os «scugnizzi», meninos de rua, órfãos e miseráveis, pegaram em armas e
juntaram-se à insurreição que o povo napolitano protagonizou e que
expulsou pela primeira vez as forças ocupantes de uma grande cidade
italiana. 

Há 58 anos, durante a ocupação francesa, o pequeno Omar foi
assassinado pelas tropas paraquedistas, em Argel, quando o combatente
da FLN, Ali La Pointe, o tentava proteger. Catarina Eufémia estava
grávida e tinha um filho ao colo quando a assassinaram. 

Na obra de
Soeiro Pereira Gomes, Esteiros, o escritor comunista dedicou o livro aos
“filhos dos homens que nunca puderam ser meninos”. Foram gerações e
gerações de crianças submetidas ao trabalho infantil, à miséria e à
guerra, foram décadas de luta para que fossem reconhecidos os direitos
dos meninos à paz, à liberdade, aos estudos, às brincadeiras e ao
convívio social para que venha uma autarca embebida dos mais râncios
valores inculcar-lhes a ideia de que o protesto merece a brutalidade das
forças policiais. 

Num país normal, Adelaide Teixeira mereceria o
desprezo absoluto e não teria outro caminho que a demissão.
Mas não é novidade. No mesmo dia, o
Estado levou centenas de crianças ao Pavilhão Atlântico para assistirem a
exercícios e manobras policiais. No fim, como durante o fascismo,
cantaram em coro o hino nacional.

Depois de ler o Bruno continuo a achar que isto é mais estupidez humana que outra coisa, mas caramba, a luta de classes está lá sempre. Às vezes bem camuflada, mas está.

Esta polícia que bate

Agora que passou na televisão, repetidamente, foi partilhado em todas as redes sociais e envolve crianças, talvez possamos falar de violência policial.

As imagens que ontem geraram indignação geral são, infelizmente, a repetição do comportamento policial em muitos bairros, em manifestações, em piquetes de greve e, ficámos a saber, em festejos de campeonato no Marquês.

Sem apelo nem agravo, um polícia,  subcomissário, comandante da esquadra de investigação criminal de Guimarães, agride brutalmente uma pessoa com uma arma que não se consegue identificar (o bastão está no cinto). Que é, aparentemente, um bastão extensível. A pessoa agredida, afasta com um empurrão o seu filho para que este não seja agredido também e, enquanto isso, o mesmo agente agride um senhor que estava ao lado, diante de outra criança. Estão vários agentes a assistir e nem um intervém no sentido de parar o agressor.

A criança, em pânico, grita pelo pai e pede aos polícias que parem (quem, pergunto eu, vai apagar da memória da criança esta cena?) e quando a câmara se foca novamente no pai, ele está no chão, sem oferecer qualquer resistência, e continua a ser brutalmente agredido e é detido e levado para a esquadra. Detido e levado para a esquadra.

Entretanto, os polícias ameaçam pessoas que estão a registar o momento e aparentemente chegaram mesmo a pedir os dispositivos móveis para apagar gravações.

Ora, é frequente, por exemplo, entrarem patrulhas em bairros e os agentes insultarem os habitantes (muitos que estão na rua, com as suas crianças), deterem-nos, agredirem-nos, em frente a seja quem for. Mais frequente é quando esses bairros se chamam, por exemplo, Cova da Moura.

O que acontece a estes agentes? Pode existir um processo disciplinar, levado a cabo pela Inspecção Geral da Administração Interna. Demora meses e os resultados são confidenciais. Eventualmente sabe-se que um agente pode ser suspenso, mas é o máximo que se saberá desses processos.

A Direcção Nacional da PSP normalmente (até hoje, em casos que me passaram pelas mãos, foi invariavelmente esse o desfecho) afirma que os agentes cumpriram as normas e ficam-se por ali. Os processos crime que eventualmente existam contra esses agentes são arquivados (e, via de regra, a quantidade de provas manipuladas é considerável, além de, perante uma autoridade judiciária, a palavra de um polícia valer bem mais do que a palavra de qualquer um de nós).

O Ministério Público teve acesso às imagens que todos nós tivemos e não há nota, dos muitos casos que já foram mediáticos, que alguma vez tenha avançado com queixas crime. E muita gente não avança porque, naturalmente, tem medo de eventuais retaliações das forças policiais.

Estas actuações, como disse, não são raras. Um trabalhador num piquete de greve, um manifestante, um adepto, um pobre, provavelmente todos estes já passaram por situações semelhantes. Eu passei. E assisti a demasiadas, já.

O que aconteceu ontem não é da responsabilidade de um só polícia. Estavam vários. E há cadeias de comando. O que aconteceu ontem não pode ficar-se pelo «castigo» de um agente. A questão é muito mais séria do que isso.

Entretanto:

IGAI – Inspecção Geral da Administração Interna, Rua Martens Ferrão, 11 – Pisos 3, 4, 5 e 6, 1050 – 159 Lisboa, Portugal, Telefone: +351 21 358 3430, E-mail: geral@igai.pt

Direcção Nacional da PSP – Largo da Penha de França, 1, 1199-010 Lisboa, 21 811 1000, contacto@psp.pt