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Diz-me as tuas fontes e dir-te-ei se és parvo

Circula na internet um texto em que se acusa os EUA de estarem a patrocinar a vaga de refugiados que, durante estes dias, entra na União Europeia. Neste texto, pergunta-se como é que esses refugiados conseguem o dinheiro para pagar o passe e cita-se uma «fonte anónima» que confirma que existe uma estratégia norte-americana em curso para encher a Europa de «migrantes».

Mais tarde, esta noite, deparei-me com outro texto vergonhoso, que avisava que na «invasão silenciosa» de refugiados, estão a passar muitos «terroristas». Esta informação, por seu turno, não vinha acompanhada de uma «fonte anónima», mas de uma fotografia em que se pode ver um homem vestido com uma farda e, mais tarde, à civil. Prova indisputável.

A estupidez humana não conhece limites e, já se sabe, a Internet tem destas coisas, mas o tratamento que a Europa está a dar aos refugiados que, com a ajuda americana, foram obrigados deixar os seus países é demasiado grave para admitir que se equacione terrorismo com refugiados. Este é o argumento do fascismo, do racismo e dos que não questionam nem sabem pensar.

Mas vejamos, afinal, de onde vem esta informação. O artigo é assinado por sujeito chamado Pierre-Alain Depauw. Fui descobrir quem é e, a julgar pelos sites que divulgaram a sua prosa, conto ser o único.

Pierre-Alain Depauw é o pseudónimo de um padre fundamentalista católico, anti-semita, anti-comunista e de extrema-direita que escreve regularmente num site chamado medias-presse.info. Nos seus artigos, Pierre-Alain Depauw dedica-se a:

Bem, agora que já sabemos, por esta pequeníssima amostra, quem é o autor do artigo que está a ser divulgado como a «fonte confiável» de alguns sites de esquerda, deixemos claras três conclusões:

  1. Quando trabalhadores estão a ser apedrejados, perseguidos, afogados e reduzidos a lixo, ninguém se deveria atrever a levantar suspeitas perigosas e infundadas, e por isso estúpidas, de que há terroristas escondidos entre os refugiados. Quem quiser procurar terroristas não precisa de ir procurar nas fronteiras, nos vagões dos comboios nem nos bairros pobres: eles estão nos governos, em Bruxelas, nas direcções dos bancos e nos grandes grupos económicos.
  2. Citar ultra-católicos fascistas não é só estúpido, é uma irresponsabilidade política que nasce de uma forma de pensar a política de uma forma linear e idealista em que associamos, de forma acéfala o que julgamos serem os interesses dos nossos inimigos à realidade observável.
  3. Antes de voltar a citar o medias-presse.info, vejam primeiro o canal de youtube, é bem mais divertido.

Migrantes, ciganos e untermensch


Pergunta para queijinho: que nome se dá a uma pessoa forçada a abandonar o seu país para fugir a uma guerra civil ou a outro tipo de catástrofe humanitária? Se «refugiado» foi a palavra em que pensou, está desactualizado. Dos autores de «colaborador» e «empreendedor», chega-lhe agora «migrante» a mais recente aquisição lexical da comunicação social da classe dominante.

A semântica da luta de classes é um dos termómetros mais fidedignos das estratégias em confronto. Quando as pitonisas da comunicação social dominante nos dizem que uma criança palestiniana morreu no «fogo cruzado», quando atirava pedras num «território disputado», o que no fundo querem dizer é que o valor da vida humana varia na proporção directa do lucro que possa gerar.

O aluvião deste novo termo, até aqui ausente do discurso mediático, pretende matar dois coelhos de uma cajadada. Por um lado, a expressão «migrantes» permite tratar os refugiados e os imigrantes como nómadas que decidiram migrar. Por serem migrantes como as aves não importa que morram cinco ou seis… afinal, já se sabe, não é por morrer uma andorinha que morre a primavera. São uma «praga», como lhes chamou David Cameron, inoportuna que vem aproveitar-se dos «benefícios» europeus. Por outro lado, estes «migrantes» são destituídos, pela palavra, do móbil da sua tragédia pelos demiurgos das guerras imperialistas que arrasaram a Síria e a Líbia, do saque capitalista que depreda a África oriental e do terrorismo islamita engendrado pelos EUA.


Mais sucintamente, o objectivo racista da palavra «migrantes» é ressuscitar o conceito nazi de untermensch, ou sub-humanos, equiparando os refugiados a «ciganos» e legitimando a barbárie ilimitada. Não se pode construir um muro no coração da União Europeia para impedir os refugiados de escapar à morte, mas pode-se fazê-lo contra «migrantes» que vêm de férias. Não se pode usar arame farpado para cortar a carne de bebés que morrem de fome, mas pode-se fazê-lo contra «migrantes» que chegam para «pôr em causa os nossos sistemas de segurança social». Não se pode enfiar refugiados em campos de concentração, mas pode-se fazê-lo contra os «migrantes» que vêm destruir os «costumes europeus».