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«A Cova da Moura é uma prisão de grades invisíveis»

No dia 5 de fevereiro de 2015, vários jovens, reconhecidos mediadores deste bairro da Amadora, membros da associação Moinho da Juventude, dirigiram-se à esquadra da PSP para saber da situação de Bruno Lopes, detido nessa tarde. Entre eles estava Flávio Almada, conhecido como ‘LBC’. Foram algemados, espancados e detidos. “Não sabem como odeio a vossa raça. Quero exterminar-vos a todos desta terra”, disse-lhes um dos agentes. É o que consta da acusação do Ministério Público contra 18 polícias que já foram afastados daquela divisão e que estão no banco dos réus acusados dos crimes de tortura, sequestro, injúria e ofensa à integridade física qualificada, agravados pelo ódio e discriminação racial.

Qual é o seu trabalho no bairro?

Eu trabalho com jovens, dou apoio escolar e tenho algumas responsabilidade em diferentes frentes a nível institucional no Moinho da Juventude de cuja direção também faço parte.

Nasceu e cresceu em Cabo Verde. Em que medida isso influenciou o seu compromisso social e político?

Eu cresci na periferia da Cidade da Praia. Vivi em vários bairros: Eugénio Lima, Calabaceira e Safende. Era muito parecido com a Cova da Moura e até ganhou a alcunha de Chechenia. Havia gente também da Nigéria, do Gana e do Senegal. Bebi todas essas influências. E havia o marido da minha tia que me dava livros sobre o capitalismo. Na escola, éramos muito contestatários. Fiquei lá até aos 18 anos.

Como foi chegar a Portugal?

Eu vim para estudar sociologia na Universidade da Beira Interior mas não fiquei muito tempo por várias razões de ordem material. Então, vim para a Cova da Moura onde estava a minha mãe.

É a partir daí que começa a inserir-se no movimento social do bairro e a ganhar mais consciência?

Quando comecei a trabalhar na construção civil, aprendi bastante porque estava sempre a ouvir histórias. Foi um choque ver como a exploração era tão profunda. A emigração cabo-verdiana pintava a coisa de forma diferente. Eu trabalhava ali com pessoal mais velho que tinha trabalhado na J. Pimenta. e contavam-me histórias de luta. Era gente sem contrato. Falavam-me de várias situações. Sobre como os patrões fugiam no final do mês e ninguém recebia. Falavam-me de como tentavam fazer alguma coisa para melhorar a sua situação e a dos bairros. Isso para mim foi muito importante e acabou por me influenciar. Há edifícios que nós construímos, por exemplo, alguns hospitais, que eram privados, e quando ficamos doentes não podemos ir lá porque não temos dinheiro. É um paradoxo. As pessoas que construíram aquilo não podem lá entrar.

Isso acontece também com quem limpa escritórios e com quem cozinha em restaurantes.

Sim, lembro-me de uma senhora que limpava numa universidade. Ela limpava gabinetes e dizia que quando as pessoas entravam não a reconheciam. Era como se ela não existisse. O africano foi transformado num corpo que deve ser explorado através de um processo muito violento. O corpo negro e o escravo são a mesma coisa. E não é só na sociedade portuguesa mas também a nível mundial.

Isso explica a forma como a polícia se comporta convosco na Cova da Moura?
Eu acho que faz parte de uma lógica que é intrínseca à forma como a sociedade está organizada. Há uma excecionalidade. A forma como a polícia atua sobre pessoas que têm determinado corpo, isso faz parte de uma lógica. Por exemplo, a Cova, e os bairros em geral, são zonas de exceção. A polícia é só a face visível. Mas depois somos também os últimos a conseguir emprego e os piores empregos. E os primeiros a ser despedidos, claro. Depois há a forma como se ensina. Os materiais escolares refletem o ensino, o projeto político que se quer para a sociedade que não nos beneficia como não beneficia todos os outros que são explorados. O Estado não é neutro. Responde aos interesses de uma elite.

E a polícia responde a essa elite?

Sim, quem é que a polícia defende? No caso dos Estados Unidos ou do Brasil, a polícia nasceu para capturar escravos. Ou estás no gueto ou estás na prisão. E o gueto é uma prisão de grades invisíveis, com checkpoints.

Vocês têm regularmente cercos policiais?

Sim, mas agora diminuiu um pouco com o nosso caso mas lembro-me de um episódio para ver como as coisas estão relacionadas com o que se passa no resto do mundo e que demonstra também por que devemos estar solidários com todos os que resistem à opressão. Aquele miúdo que morreu há pouco tempo, que era rapper, o Puto G [faleceu afogado em junho no Luxemburgo], foi à Palestina e passou por um checkpoint. Quando alguém que ia com ele lhe perguntou a sensação, respondeu-lhe que era familiar. “É como no bairro”. São realidades extremamente diferentes mas ele ganhou mais consciência sobre a opressão que vivia na Cova da Moura.

O que significa viver num território de exceção?

Há que convencer a sociedade portuguesa de que há uma ameaça e quando se faz essa construção da narrativa para convencer a restante parte da sociedade portuguesa – porque nós também fazemos parte dessa sociedade – automaticamente é um apelo de que este sítio deve ser pacificado, que este sítio deve ser acantonado, que este sítio deve ser escrutinado, que nós representamos o elemento corrosivo da sociedade. E a sociedade reage e diz que nós devemos ser punidos. Devemos ser cercados. O medo que nos é lançado é também o medo que permite a elite estar no poder através da forma como as pessoas estão assustadas. Vivendo no bairro, naquilo a que se chama gueto, consegues ver o paralelismo com o que os imperialistas fazem porque ao assassinar a imagem de determinado espaço, cria-se a necessidade de que esse espaço seja invadido como o que aconteceu na Líbia ou na Síria. Isto numa lógica de pacificação e de civilização sobre alguém que eles disseram que é o outro, mas que até faz parte deles, criando uma fronteira artificial entre as pessoas.

Viver na cova da moura é como viver num apartheid?

Não é uma metáfora. Quando a polícia cerca o bairro, que é a face mais visível desse apartheid, cria-se a sensação de que tu não pertences à restante sociedade. Cria-se uma fronteira visível. Estás na estação da Damaia e consegues ver que não consegues entrar no bairro. Se um branco tentar penetrar neste espaço vão dizer que vem para comprar droga. Isso criou um problema porque essa espécie de apartheid se manifesta de várias formas. Se uma pessoa vai à procura de emprego tem receio de pôr o endereço no curriculum. Os taxistas recusam-se a transportar gente para cá. Se um jovem for abordado em Lisboa e lhe perguntarem a morada vai dizer que mora na Buraca e eu percebo porquê. Porque quando aparece o nome da Cova da Moura são automaticamente mobilizados uma série de referências e estereótipos que fazem dessa pessoa uma criminosa. A criminalização do bairro tem também um propósito imobiliário e um propósito político para criar clivagens sociais e abrir caminho a políticas securitárias, xenófobas, anti-imigração, restrição de direitos. Até para alimentar uma indústria de vigilância. Nada disto é acidental. Faz parte de uma lógica estrutural que teve como consequência a morte de vários jovens nos bairros da Amadora. O ‘Teti’ foi levado para dentro da esquadra, foi torturado e morreu no hospital [em 2004]. A polícia foi absolvida e isso significa que os tribunais validaram a morte dele. Como se não fosse uma perda, como se não significasse nada. Há uma cultura de impunidade. Ao ‘Kuku’ deram-lhe um tiro na cabeça a uma distância de 20 cm quando tinha 14 anos [em 2009].

É possível haver uma mudança com a mediatização do vosso caso?

Eu tenho a obrigação de tentar ser racional. A partir dos elementos que tenho, partindo da nossa história, não tenho grandes expetativas. Eu vou como [Amílcar] Cabral. Espero o melhor mas vou preparado para o pior. Nós não estamos só a lutar contra esses 18 agentes que estão no banco dos réus. Eles fazem parte do Estado que é uma estrutura que durante muito tempo legitimou essa prática de violência.

É uma luta contra a história?

Sim e eu não sei se vai haver uma viragem. Claro que o pessoal tem esperança que se faça justiça, que o terrorismo dos fardados acabe e possa ser a primeira vez que vejam algo que devolva à população a crença nesta justiça.

Neste julgamento estiveste cara a cara com os agentes?

Não, não estive, mas mesmo que estivessem lá eu ia ser honesto da mesma forma. No julgamento, chegou uma fase em que eu comecei a chorar e não tenho vergonha disso porque somos educados para reprimir aquilo que sentimos e não foi um sinal de fraqueza. Foi basicamente naturalizar a minha humanidade. Eu não sou obrigado a reprimir quando estou a sentir dor só para dizer que eu não sinto dor. E não foi porque me torturaram. Foram lágrimas de indignação pelo que fizeram a uma pessoa com mobilidade reduzida [Rui Moniz, um dos agredidos, que teve um AVC aos nove anos e tem o braço paralisado]. Isso é crueldade e ainda por cima eles tiveram prazer em fazê-lo. É cobardia. Foi isso que me indignou. Não é que tivesse pensado em desistir. Na minha cabeça, desistir não faz parte do meu vocabulário. Eu estou todos os dias aqui no Moinho da Juventude a fazer o meu trabalho com a comunidade. Decidi não aceitar validar o sistema que nos oprime. Eles escolheram torturar-nos e nós escolhemos resistir.

Entrevista publicada originalmente em A Voz do Operário. Fotografia de Buala.

Manuel Goucha Salazar, para que saibas: o fascismo e o racismo não passarão

Não vi o programa, não vou ver. MM participou na execução de um negro – Alcindo Monteiro, (na foto, morto por causa da cor da sua pele, com 27 anos, em junho de 1995, espancado até à morte) – esteve detido por posse ilegal de armas, apela repetidamente ao ódio e ao racismo. De quando em vez, lá vem um órgão de comunicação social dar-lhe palco. Li uma vez uma entrevista sua e bastou-me. Bastou-me a suástica que enverga para imediatamente me reportar à célebre cena de American History X, em que um nazi (com uma estética bem parecida ao dito cujo) esmaga o crânio de um negro no lancil de um passeio. E vejam-na com atenção porque foi isto que se passou na TVI.

A cada momento há sempre alguém que tenta reabilitar a imagem deste nazi, que cria partidos atrás de partidos e de movimentos, organiza contramanifestações ilegais e se passeia como se não fosse um ser absolutamente desprezível que pratica actos que à luz da lei são ilegais. Como é ilegal dar cobertura à propagação de ideologias fascistas e nazis.

Querem ver como não estou a inventar?

Artigo 240.º – Discriminação e incitamento ao ódio e à violência

       1 – Quem:
              a) Fundar ou constituir organização ou desenvolver atividades de propaganda organizada que incitem à discriminação, ao ódio ou à violência contra pessoa ou grupo de pessoas por causa da sua raça, cor, origem étnica ou nacional, ascendência, religião, sexo, orientação sexual, identidade de género ou deficiência física ou psíquica, ou que a encorajem; ou
              b) …
              …
       2 – Quem, publicamente, por qualquer meio destinado a divulgação, nomeadamente através da apologia, negação ou banalização grosseira de crimes de genocídio, guerra ou contra a paz e a humanidade:

              a) Provocar atos de violência contra pessoa ou grupo de pessoas por causa da sua raça, cor, origem étnica ou nacional, ascendência, religião, sexo, orientação sexual, identidade de género ou deficiência física ou psíquica;
              b) Difamar ou injuriar pessoa ou grupo de pessoas por causa da sua raça, cor, origem étnica ou nacional, ascendência, religião, sexo, orientação sexual, identidade de género ou deficiência física ou psíquica;
              c) Ameaçar pessoa ou grupo de pessoas por causa da sua raça, cor, origem étnica ou nacional, ascendência, religião, sexo, orientação sexual, identidade de género ou deficiência física ou psíquica; ou
              d) Incitar à violência ou ao ódio contra pessoa ou grupo de pessoas por causa da sua raça, cor, origem étnica ou nacional, ascendência, religião, sexo, orientação sexual, identidade de género ou deficiência física ou psíquica;
é punido com pena de prisão de 6 meses a 5 anos.»

Eu repito: “é punido com pena de prisão de 6 meses a 5 anos.”

Manuel Luis Goucha não foi de modas. Levou um nazi ao seu programa, visto por milhares de pessoas, lavou-lhe a alma e ainda fez isto:

Afirma que este nazi tem ideias polémicas – ideias que levaram à execução bárbara de Alcindo Monteiro – e faz uma sondagem sobre o regresso do fascismo que matou centenas de democratas, comunistas, que mandou para o exílio socialistas, comunistas e outros democratas, que torturou outras tantas centenas, que condenou o nosso país, durante décadas, à discriminação, pobreza e à escravização colonial.

Manuel Luis Goucha, também ele, cometeu um crime – publicamente, divulgou a apologia, negação ou banalização grosseira de crimes de genocídio, guerra ou contra a paz e a humanidade. Banalizou o racismo. Banalizou o fascismo. Relativizou a execução de um negro às mãos do nazi MM, banalizou as suas posições xenófobas e bárbaras.

A ERC já informou que estaria a investigar. E desengane-se quem acreditar que isto é um hino à liberdade de expressão. É criminoso. E não passará.

Sinhá Raquel e o seu marido (que até é brasileiro)

Já são recorrentes as viagens na maionese da marquesa, nome carinhoso atribuído pela sua mãe e revelado nas suas crónicas sobre si própria, o seu tema preferido. Desde cedo a sobranceria em relação à classe trabalhadora é demasiado evidente, como nos beijinhos e bolos que gosta de enviar aos piquetes de grevistas que estão ao frio a lutar pelos seus postos de trabalho enquanto se diverte em programas de televisão a veicular informações absolutamente desinformadas.

De quando em vez, lá nos brinda com um burnout causado pela perda de um lenço azul de seda ou comentários sobre como as leggins sexualizam as crianças, enquanto instituições do ensino superior a elevam a coordenadora de vários estudos (apesar de, ela própria, escrever muito pouco a não ser a excessiva verborreia nas redes sociais), são atribuídas bolsas à medida, é dado palco a quem raramente é reconhecida pela comunidade científica e académica (aliás, não raras vezes motivo de críticas severas) e, numa escalada abstrusa, tem vindo a proferir afirmações da mais profunda sobranceria relativamente às classes trabalhadoras, a grupos específicos de pessoas («asiáticos», camponeses, favelados … é grande, a lista).

E foi precisamente, arrogando-se no direito de falar em nome de outros, porque eles precisam e a maioria nem falar sabe que assumiu a sua posição de sinhá da roça, que quer os seus pretos por perto para servir de criadagem. Uma espécie de Isabel Jonet auto-intitulada de esquerda. Mas quase soando a Trump.

Leiam:

“Rezam antes de entrar no ônibus, e sonham que os filhos “não morram”, é isso mesmo, a depiladora onde vou, de quando em quando, tem como objectivo que os filhos estejam vivos. Até me dói o coração quando a oiço, sempre alegre, comentar, “estão vivos Minha Portuguesa!, estão bem!”.

“No Rio a minha depiladora, que não teve a coragem de uma Marielle, tem pavor dos ladrões e pavor da polícia.”

“é curioso virem ainda com a história “do lugar de fala” quando a maioria deles chega ao fim do dia e esteve 3 horas no transporte, e comeu açúcar e hidratos de carbono, está esgotado…até para falar.”

“A maioria aqui teve uma educação tão baixa que não consegue distinguir numa simples indicação de rua a esquerda da direita.

“A regra é que os trabalhadores das favelas precisam de ajuda de quem está fora das favelas.”

“Socialismo é isso, é dar coragem para que os mais frágeis sintam força, é lutar pelos mais pobres, dizer-lhes “estamos ao vosso lado”. Não é exigir-lhes a toda a hora que façam sozinhos o que não podem fazer.”

Naturalmente criticada, justifica-se com o argumento típico do preconceito:

Agora digo-vos, sou casada com um brasileiro filho de um negro, a minha irmã brasileira é negra, ou parda, cor de bronze na verdade, luz por todo o lado. A minha mãe, branquinha, de olhos esverdeados, recusou-se, com 18 anos, a mudar do passeio dos negros para o passeio dos brancos na África do Sul do Apartheid. Pela tenra idade dos jovens fascistas da causa negra que me ameaçaram tenho ainda a dizer o seguinte – estavam vocês a nascer estava eu a começar a escrever livros e a dar aulas (…)

O lugar de fala desta senhora devia ser o silêncio. Porque as suas afirmações são racistas, sobranceiras, elitistas, supremacistas e de um preconceito de classe que a devia retirar de todos os fora académicos e sociais. Não pode admitir-se que alguém com estas afirmações públicas continue impunemente a vender-se (e a ser altamente recompensada por isso) como defensora de uma qualquer minoria, muito menos dos trabalhadores. Alguém que acha que a pobreza é sinónimo de iliteracia, de necessidade de ajuda exerce a complacência típica de quem nunca reconhecerá o outro e o seu direito de representação e participação.

Não, sinhá Raquel. Não é este o seu lado. O seu lado é a direita conservadora e opressora. Por isso é que o capital continua a financiá-la. Para que tão bem continue o seu jogo. Nessa sua ficção de que é a salvadora sabe-se lá do quê.

Mas como afirmava ontem, nós somos muitas mais. E não estaremos do mesmo lado.

O medo não passará


O nazi Mário Machado, acabado de sair da prisão por discriminação racial, coacção agravada, danos e ofensa à integridade física qualificada, difamação, ameaça e coacção a uma procuradora da República e posse ilegal de arma de fogo, acaba de acusar um dos activistas da Cova da Moura de ser criminoso. A organização fascista Nova Ordem Social com membros acusados de tráfico de droga e participação em homicídios como o do Alcindo Monteiro publicou fotografias de Jakilson Pereira e pormenores da sua vida pessoal expondo-o como eventual alvo da violência da extrema-direita e da polícia. O seu trabalho na Cova da Moura no Moinho da Juventude, a sua actividade enquanto activista anti-racista, o seu papel como rapper no combate à exclusão e a sua militância comunista não são crime. Criminosos são aqueles que querem impor em Portugal um regime que foi derrotado pelos povos através da revolução de Abril e das lutas de libertação nacional nas ex-colónias.

O populismo racista tem proliferado a propósito da acusação sobre a totalidade dos agentes da polícia na esquadra de Alfragide que durante anos têm espalhado o terror entre os habitantes da Cova da Moura e outros bairros. O substrato mediático que alimenta este surto – como a boçalidade fascista do candidato o PSD a Loures – é o que possibilita que se possa impunemente e sem qualquer pudor publicar os dados de uma pessoa sem reflectir sobre as consequências que isso possa ter para a sua vida. O propósito é espalhar o medo. Recordemos uma vez mais que a Constituição da República Portuguesa não permite a existência de organizações que perfilhem ideais racistas e fascistas.

Sem justiça não há paz

“Simply because we were licked a hundred years before we started is no reason for us not to try to win.” [Simplesmente porque fomos derrotados cem anos antes de começar não é motivo para não tentar vencer.]A citação é óbvia. Atticus Finch é a razão pela qual muitos americanos proclamam a opção pela advocacia. Compreensivelmente, diria. Os crimes raciais são mais do que muitos e há uma altura que a impotência perante os vários sistemas inflige a necessidade de agir dentro desses sistemas. O assunto da semana levou-me a pensar cuidadosamente se deveria escrever algumas palavras sobre ele. Naturalmente, sobre a decisão, nada direi, aguardando cuidadosamente o rumo que tomará em tribunal. Em todo o caso, sendo esta a minha casa, não posso deixar de escrever algumas coisas que desde o início do processo me incomodaram e só agora emergiram.

A 5 de Fevereiro de 2015 a comunicação social foi chamada à esquadra de Alfragide e noticiou uma tentativa de invasão por jovens da Cova da Moura. A narrativa pegou e foi corroborada pelos agentes. Não obstante estarem 6 pessoas desfiguradas, com sinais físicos visíveis de agressão, rapidamente uma maioria se apressou a justificar tal estado com um «alguma coisa fizeram». Até os técnicos que os acudiram na esquadra tomaram por boa a versão policial da «queda acidental»: 6 pessoas, com hematomas, sangue, dentes partidos, ferimentos de bagos de borracha – «queda acidental». (vamos começar a contar os protagonistas – PSP, CMTv, INEM, bombeiros)

Multiplicaram-se os comentários generalizados: devem ir para a terra deles, criminosos, bandidos, ladrões, pretos de merda, vivem à custa do estado. Protagonistas? Qualquer pessoa com acesso à internet para escrever nas caixas de comentários. E não foram poucos.


No decurso dessa semana, muitas associações se solidarizaram, uniram esforços, organizaram uma manifestação contra a violência policial e a violência racista. Pretos e brancos, em voz una, contra uma história que se repete demasiadas vezes. Podíamos ler num dos cartazes «não quero ter medo da polícia». Não houve nenhum cartaz de ódio, de ataque, de generalização. Um protesto em frente à Assembleia da República, uma exigência clara de tomada de medidas para que estas situações não se repitam. Um silêncio aterrorizante do Governo, da Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género, da generalidade dos partidos com assento parlamentar, do Provedor de Justiça. A Direcção Nacional da PSP rapidamente, como sempre, não deu margem para dúvidas: correu tudo dentro da normalidade. Mais uma vez, correu tudo dentro da normalidade. A Inspecção Geral da Administração Interna abriu um inquérito. O Alto Comissariado para as Migrações prometeu uma comissão e trabalho de intervenção no bairro para aproximar polícias e moradores. (continuando a contagem: CIG, partidos, Governo, ACM, DN da PSP, IGAI, Provedoria da Justiça)

No dia da manifestação uma das vítimas disse-me que eles não eram ninguém mas se naquele dia eu estivesse no meio deles e mostrasse a cédula profissional, talvez já não tivessem sido torturados. Isto não me saiu da cabeça – a minha cor e a profissão seriam o meu escudo e isso era absolutamente normal. E disse-me, uns meses mais tarde, que a polícia ia reiteradamente ao bairro, de shotgun em punho, mas que havia uma coisa que o incomodava profundamente. Faziam-no às 3 e 4 da tarde, com as crianças na rua, aos gritos e a apontar as armas a toda a gente. «Eu entendo que eles têm que ir lá e fazer o trabalho deles, mas pelo menos podiam ir à noite, quando as crianças não têm que assistir a isto». Mais uma vez fiquei a pensar nisto: a normalização da violência é tal que entrar na rua onde se mora de shotgun em punho é aceitável porque «é o trabalho deles». Evidentemente, do alto do meu privilégio, nada disto me fez sentido.

E começaram a passar-se os dias e os meses. Já ninguém falava disto. Eles, contudo, lembravam-se todos os dias. E passaram dias e horas entre esquadras e tribunais. A prestar declarações, a fazer exames. A dizer aos seus patrões que tinham que ir à polícia e a por o seu emprego em risco. Com a qualidade processual de arguidos, a terem que dizer a todo o momento se iriam afastar-se da sua residência mais do que 5 dias, um deles com apresentações regulares e periódicas – tudo para que não se esquecessem que estavam a ser investigados e que, aos olhos da lei e das autoridades eram suspeitos de terem cometido vários crimes. Aos olhos da sociedade… basta ler as caixas de comentários. Um dos dias deparei-me com a necessidade de ter que ir à esquadra a propósito do processo. Não tive coragem. Pensei que no momento em que dissesse o número do processo poderia eventualmente ter o mesmo destino. Eu, que não passei nunca por nada daquilo. Eu que não moro no bairro. Não fui capaz.

No decurso destes dois anos, o ACM afirma que fez projectos de proximidade. Ninguém deu conta deles no bairro. A CIG permanece impávida perante tudo isto. A IGAI sem nunca nos ter deixado aproximar do processo está hoje sob a mira da opinião pública com os milhares de queixas. A PSP sabe que isto não pode acontecer e certamente sabe que tem que tomar medidas (e não, não são todos iguais). A PJ fez um trabalho irrepreensível. O INEM fala do dever constitucional de prestar auxílio quando confrontado com o facto de ter escrito «queda acidental». O Governo permanece em silêncio sendo certo que este assunto não se resume à decisão judicial, é bem maior e exige medidas executivas. A TVI e a CMTv demonizam os habitantes da Cova da Moura. Nós? Debatemos. Finalmente, debatemos diariamente o racismo.

Mas passaram dois anos. Se o despacho não tivesse esta dimensão teria sido uma «queda acidental». A IGAI não seria beliscada e os polícias permaneceriam na mesma esquadra, onde, aliás, estiveram nestes dois anos. Teria existido uma tentativa de invasão. Alguns jornais e televisões permaneceriam na difusão de estereótipos e preconceitos sem pejo nem agravo. E isto deve preocupar-nos. O Ministério Público não deixou passar. Desta vez. Mas todas as outras vezes que deixa? Todas as outras pessoas que não conseguem pagar e enfrentar os processos judiciais (que este só foi possível dada a solidariedade dos muitos que se juntaram)? Todas as agressões e abusos que se vão passando longe dos jornais mas presentes no quotidiano?

Bombeiros, INEM, IGAI, PSP, CIG, ACM, Provedoria de Justiça, comunicação social (CMTV e agora TVI), Governo – todos falharam, todos viraram as costas. Todos. A sociedade falhou. O Estado falhou. E não é porque todos falharam que vamos deixar de dizer a verdade e de tentar vencer. Mas a que custo?

Sem justiça não há paz.

Os teus vizinhos genocidas

Depois do trágico, criminoso e injustificável atentado terrorista de Londres, as caixas de comentários dos jornais portugueses encheram-se de centenas apelos ao genocídio de todos os muçulmanos.

Entre milhares de comentários racistas, que atribuíam os crimes à cor da pele, à nacionalidade (depois soube-se que era britânico) ou à religião do suspeito, o denominador comum era a exigência de um castigo, o mais severo possível, para «todos», leia-se «todos os muçulmanos», «todos os negros», «todos os árabes», etc. Mas o mais preocupante é constatar que as pessoas que apelam publicamente a genocídios e deportações em massa não são os habituais neandertais do PNR mas pessoas que podiam ser as nossas tias, sobrinhos, primos e colegas de trabalho.

Não vale culpar os trolls e fingir que nada disto está a acontecer. As ameaças de genocídio e os apelos à violência física contra as famílias dos quase 60 mil muçulmanos que vivem em Portugal, reclamam um debate, urgente e lúcido, sobre o racismo, a xenofobia e a nossa História.

Pode-se debater a utilidade de dar tempo de antena às organizações de extrema-direita, como é legítimo perguntarmo-nos quantas vezes se deteve a ascensão do fascismo ignorando-o. O que não é aceitável é assistirmos, impávidos e serenos, à incubação assistida do ovo da serpente.

Estes apelos ao genocídio, crime tipificado no nosso código penal, devem merecer o nosso mais aceso repúdio, a repulsa de todas as pessoas com princípios e valores. Não são aceitáveis. Não são toleráveis. Não são discutíveis. Aceitar discuti-los, aos crimes, às micro-organizações que os querem cometer ou aos académicos fascistas que os defendem, é colocar os crimes no mesmo patamar da política. Liberdade de expressão é uma coisa, a criminalidade é outra.

E, no entanto, urge discutir. Urge discutir o problema do internacionalmente disseminado mito de que os portugueses não são racistas, a mentira de que a nossa colonização foi branda, a forma como as piadas racistas são socialmente aceitáveis nos locais de trabalho, a origem do preconceito e da discriminação e a própria História de Portugal. Este último é desconfortável, porque fomos educados para não conceber que Vasco da Gama tenha ordenado massacres de inocentes, para não acreditar que Afonso de Albuquerque pudesse encher bateis com narizes e orelhas de infiéis, para não conhecer os crimes contra a humanidade do colonialismo português.

É necessário levar a luta contra o racismo às escolas, às televisões, às forças policiais e, sobretudo, aos jornais. Todas as fotografias que ilustram este artigo foram retiradas de comentários publicados nas caixas do Correio da Manhã. Os exemplos são às centenas e todos os dias é assim.

Quando, há dias, o Correio da Manhã, noticiou o tiroteio à porta da discoteca Luanda, multiplicaram-se as piadas racistas, ampliaram-se os desejos sádicos a todos os que frequentam o espaço, lamentou-se que ninguém colocasse uma bomba, houve quem pedisse a morte dos filhos das vítimas.

O Correio da Manhã, facilmente o pior órgão de comunicação social português, transformou-se numa estufa de racistas e não foi um acidente. O «jornalismo» que fazem aprendeu a depender dos piores instintos das pessoas e, por isso, irriga-os constantemente, a qualquer preço e quanto mais rápido melhor. Ao renunciarem completamente à mediação informada do jornalista, à contextualização e ao contraste das fontes, sobra apenas o açougue onde se mata todos os dias a liberdade e a democracia.

Violência policial na Cova da Moura: não esquecemos nem perdoamos

«A primeira coisa que me vem à cabeça é a negação da humanidade aos africanos. Para aqueles agentes fardados nós não éramos pessoas.»

5 de Fevereiro de 2015, jovens são brutalmente torturados numa esquadra em Alfragide.

Às vezes o telefone tocava a meio da noite e a minha primeira expressão não era a de preocupação com algum acidente ou algum problema de saúde. A primeira ideia era «alguém foi preso, aconteceu alguma coisa». A tensão social e particularmente a atitude musculada da polícia, tornava estes telefonemas frequentes. Noites à procura de pessoas detidas sem se perceber bem onde, violação de todas as regras e leis – impedindo contacto com advogados ou pessoas de confiança – detenções para identificação sem sequer permitir a identificação testemunhal no local, práticas que se tornaram normais e curriqueiras e que nenhum juiz ousou condenar quando as pessoas, justamente, se queixaram. «Práticas normais», dizem. Como se fosse normal ser encostado a uma parede porque se é preto e levado para uma esquadra, como se fosse normal ser-se identificado pela polícia porque se participa numa manifestação que exige aumentos salariais, como se fosse normal ser detido porque se conhece a lei e se exige que esta seja respeitada.

No dia 5, foi diferente. Estavam pessoas a ser torturadas numa esquadra. E nem sequer interessa se fizeram alguma coisa ou não  – e não fizeram – mas aparentemente a tortura é justificável quando se trata de «criminosos» (que o são porque são pretos e vivem na Cova da Moura, nada mais interessa). Deles só se soube no dia 5, quando finalmente puderam falar com a sua família e amigos (depois de uma breve presença do advogado na esquadra). Três dias sem se saber como estavam ou o que lhes estava a acontecer.

Se eu mandasse vocês seriam todos exterminados. Não sabem o quanto eu odeio vocês, raça do caralho, pretos de merda.

“Vocês têm sorte que a lei não permite, senão seriam todos executados“.

 «”Esse aí é português.” E outro: “Não, ele é pretoguês”.»

“Se eu mandasse vocês seriam todos exterminados. Não sabem o quanto eu odeio vocês, raça do caralho, pretos de merda.”

Mas, “a PSP actuou como o “previsto””.

A PSP, o Governo, o ACIDI (agora ACM) – todas as instituições falharam e continuam a falhar. Os mesmíssimos agentes acusados de tortura permanecem na esquadra e patrulham o Bairro da Cova da Moura. Cruzam-se com os que os acusaram. Com o mesmo ódio com que lhes marcaram a pele, o corpo e a vida em 2015. A polícia continua a invadir o bairro, a qualquer hora, de shotgun em punho, diante de crianças, de velhos – encosta à parede. É normal para eles e é normal para quem lá vive. Já me disseram que não se importam que lá vá a polícia mas que o faça quando não há crianças na rua. Já me disseram «que pena que não tenhas estado lá, eu não sou nada mas se calhar quando vissem que és advogada seria diferente, talvez não tivessem batido».

As associações falharam, deixaram de estar, de falar sobre o assunto. Todas as personalidades que se indignaram, à data, desapareceram. O Alto Comissariado para as Migrações nunca sequer lá pôs os pés para falar com ninguém ou intervir e se disser que o fez, mente. Todos viraram as costas, fingindo que não há racismo, não há violência, não há tortura. Serão talvez os primeiros a levantar a placa anti-Trump (pese embora justa, não deixa de ser vazia) e a autoproclamar-se bastiões da igualdade. Num mundo em que um jovem deixa de sair à rua porque não quer encontrar a polícia nem que que no bairro o acusem de por o bairro em perigo porque enfrentou a polícia. Num mundo em que um corpo fica desfigurado porque foi agredido, porque foram negados cuidados médicos (constando nos relatórios dessa noite que «caíram») e a marca é permanente. Num mundo onde dizem a um semelhante que deve ser exterminado, que não é pessoa.

Os que sempre lá estiveram, continuam a estar, lado a lado, numa luta que também é sua. Eu passei a estar apenas depois desse dia. E até hoje, de cada vez que os olho nos olhos, sinto-me esmagada pela sua resistência, pela sua capacidade de olhar em frente com esperança, pelo seu amor à vida, pela forma abnegada com que resistem, todos os dias, numa vida que ninguém devia ser forçado a viver. Não nestas condições, não desta forma abjecta. Em que centenas ainda vociferam que não há lugar para «aquela gente». Que ainda bem que aquilo lhes aconteceu. E de cada vez que ouço os relatos daquela noite, pergunto-me: que humanidade é esta que violenta, agride e se sente legitimada a tal, sem que nunca nada aconteça a quem exerce este domínio sobre o outro em razão da cor da pele, do sexo, da classe? Mas os olhos deles, quando contam novamente o que aconteceu, dizem-me que não desistem e não traem. Que não descansam. E que continuam a lutar.

Rosa, Chamam-te Rosa, minha preta formosa. E na tua negrura teus dentes se mostram sorrindo. Teu corpo baloiça, caminhas dançando, Minha preta formosa, lasciva e ridente Vais cheia de vida, vais cheia de esperanças Em teu corpo correndo a seiva da vida Tuas carnes gritando E teus lábios sorrindo… Mas temo tua sorte na vida que vives, Na vida que temos…Amanhã terás filhos, minha preta formosa E varizes nas pernas e dores no corpo; Minha preta formosa já não serás Rosa, Serás uma negra sem vida e sofrente Serás uma negra E eu temo a tua sorte! Minha preta formosa não temo a tua sorte, Que a vida que vives não tarda findar…Minha preta formosa, amanhã terás filhos. Mas também amanhã…… amanhã terás vida!(Amílcar Cabral)