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As tragédias do nosso contentamento

Alan Kurdi. Sem ir ao Google, não serão muitos aqueles que se recordam de quem falo. Alan Kurdi correu mundo, parado, morto, num momento captado por um fotógrafo quando deu à costa da Turquia ao tentar escapar de Kobani, na Síria. Tinha três anos. Fugia dos horrores da guerra tentando atravessar ao Mar Egeu, num trajeto feito por milhares, como fazem outros milhares atravessando o Mediterrâneo. Alan Kurdi fugia da agressão à Síria, patrocinada pela UE, NATO e Arábia Saudita, cuja raiz do problema surge em 2009. Assad decide tornar a Síria uma plataforma de passagem de um oleoduto para abastecer a Europa. O projeto inicial deveria iniciar-se-ia no Qatar, passaria pela Arábia Saudita, Síria, Jordânia e entraria na Europa pela Turquia. Este era o plano inicial. No entanto, surgiu uma segunda proposta, que passaria pelo Irão, Iraque, Síria, Chipre e Grécia, que deixaria de fora Qatar, Arábia Saudita, Turquia e Jordânia. E foi a partir daqui que se iniciou, certamente, por mera coincidência, uma invasão de jihadistas ligados ao Daesh naquele país, depois da Primavera Árabe – prontamente apoiada por alguns setores supostamente progressistas – que se transformou num outono sem fim à vista.

Alan Kurdi morreu e a UE foi rápida a tomar medidas. Não abriu as fronteiras para quem morre a tentar fugir da morte, antes passou a pagar à Turquia – como se sabe, um país onde os Direitos Humanos são respeitados integralmente – para que os receba, a partir da Grécia, até ontem governada pelos radicais esquerdistas do Syriza, que afinal foram só mais do mesmo, a troco de dinheiro. 3.000.000.000 de euros para que a mercadoria de pele e osso siga da Grécia para a Turquia, afastando assim a tragédia para longe dos ossos olhos.

A nossa simpatia com Alan Kurdi demorou, mais coisa menos coisa, uma semana e meia. Todos partilhámos os cartoons, as primeiras páginas com a criança de cara colada na areia. Ela foi, afinal, mais um grão na engrenagem da Europa fortaleza que é o projeto europeu. Mas, como a onda que lhe molha a cara, a maré recua e, passados uns dias, já ninguém se lembra de Alan Kurdi. Porque alguém se lembra de dizer que resgatar refugiados que morrem no Mediterrâneo é ajudar redes criminosas de emigração ilegal e consta que, agora, o racismo e a xenofobia fazem parte do direito à liberdade de expressão. Ou ao politicamente incorreto, eufemismo repetido nos media para racismo e xenofobia.

Quando, aqui ao lado, avança a “Cara al Sol”, a maré de compaixão pela cara de Alan Kurdi colada na areia foi desvanecendo, mais ou menos como a espuma das ondas.

Surgiu, entretanto, o caso de Oscar Alberto Martinez e da sua filha Angie Valera, de dois anos. Morreram colados ao tentarem chegar aos EUA, fugidos de El Salvador, um dos países mais violentos do Mundo, também ele colado às Honduras e Guatemala, onde a miséria é pão nosso de cada dia. Morreram colados, de cara colada à lama, cobertos pela água que, mesmo turva, consegue ser mais clara do que o futuro que procuravam. Ali não há mar, há rios. E a água, que em tempos foi ponte, é agora poço sem fundo para milhares que enfrentam a morte para conseguirem viver. E voltamos a ver as caras coladas na lama, a foto partilhada nas redes, os cartoons, a incredulidade daquilo em que nos tornamos enquanto seres humanos. Mas passa. E passará cada vez mais rápido à medida que forem mais comuns. É a normalização destes casos. Do mesmo modo que as imagens de crianças, idosos, menos idosos, na Palestina, a serem assediadas, ameaçadas e mortas já não chocam ninguém. Porque as assumimos como normais, porque aquela zona do globo é assim.

Isto parece-nos tudo tão longe, tão distante, que o nosso choque só é emotivo porque há um impacto visual. Sem estas fotos, Alan Kurdi, Oscar Martinez e Angie Valera seriam anónimos, como outros milhares que tiveram a mesma sorte. Hoje mesmo, alguns países da Europa e da UE continuam a discutir o que fazer com estes peões no jogo político. Itália fecha-se, a Hungria envolve-se em arame farpado, a Bulgária banaliza a caça ao refugiado, a Polónia proíbe partidos comunistas, a Ucrânia saúda Bandera, os EUA aumentam muros – que já existiam antes de Trump, diga-se.

O sistema dominante precisa destes choques para que nos possamos sentir bem. Fazemos uns posts indignados, chocamo-nos e vamos dormir, com a cara colada na almofada até sabermos qual vai ser o assunto do dia seguinte. É a perceção de que fizemos a nossa parte, sem termos tempo – ou vontade ou, sobretudo, necessidade de pensar porque é que isto acontece. Porque se pensarmos que isto acontece porque todos nós permitimos que aconteça, o sistema tremerá mais do que o frio que estas pessoas enfrentam quando se fazem à morte à procura da vida. E, nessa altura, quando tremer, cairá.

A culpa é do sistema

Sérvia, Europa, Janeiro de 2017

Os agradecimentos aos construtores da União Europeia sucedem-se, nos últimos dias. Afinal, como não agradecer a quem nos atirou dinheiro a troco daquilo que, achávamos nós, era nada? Há melhor incentivo? Claro que não havia outro caminho, nunca há outro caminho. É aquele discurso das inevitabilidades que tão bem conhecemos. Ficámos com estradas que levam a lugar nenhum, porque recebemos dinheiro para modernizar as infraestruturas do país, mas ficámos sem ter o que transportar, porque também recebemos para não produzir, recebendo de fora o que produzíamos, mas não importa. Enquanto houvesse obras públicas, havia de haver emprego. Obra feita, pois claro. Nem pescas, nem agricultura, nem indústria, mas os gigantes da Europa fizeram o favor de nos dar dinheiro. Que agora pagamos com todos os juros, financeira e economicamente.

Ao que parece, para alguns sectores, não fosse a nossa entrada na UE e estaríamos todos desumanizados, uma Albânia ou uma Cuba atravancada no cu da Europa, entre Espanha e o Atlântico. Assim, felizmente, estamos no mundo desenvolvido. Temos tudo e, ao mesmo tempo, temos nada, porque o que temos é, na verdade, propriedade de quem nunca vimos e não passa de uma série de zeros e uns que circulam entre redes. Comércio livre! Temos é pouco para vender, a menos que comecemos a cortar os dedos.

Mas isso não importa, porque temos liberdade, que isto não é Cuba nem Albânia. A menos que seja em Espanha, por exemplo, onde se pedem dois anos e meio de prisão para uma jovem que escreveu, no Twitter, sobre o fascista Carrero Blanco. Ou na Hungria. Ou na Ucrânia. Ou na Polónia. Temos paz no continente e isso é relevante. Menos quando os terroristas, que a nossa humana UE patrocina, se mudam de malas e bagagens para o nosso mundo. Que o dos outros nós vemos na TV ou na Internet.

Estamos do lado certo da História, nem podia ser de outra maneira. Estamos na vanguarda do que são os Direitos Humanos, juntamente com os EUA, que perderam agora um presidente que fez toda a diferença. Tornou o Mundo um lugar seguro e menos desigual, apesar de ter conseguido a proeza de bombardear mais países do que o seu antecessor, mas tem swag, boa imagem, é engraçado e é negro, o que faz as delícias de alguns que acham que basta mudar o sexo ou a cor de pele do poder para mudar de políticas. Não é, Merkel?

Na foto, ali em cima, está o retrato do que é a UE em 2017 e que nunca poderia ser diferente. Porque foram sempre a economia e as finanças que estiveram na sua mira. A UE que vende refugiados à Turquia – também cheia de liberdades, humanismo e democracia – para que os arrume e os tire das nossas vistas, que a nossa liberdade também é isso. Afastar dos nossos olhos o que nos incomoda, fazer de conta que não existe. Porque Obama falhou em algumas coisas mas. E a UE falhou em algumas coisas mas. E vamos andando de falha em falha, de mas em mas, até que consigamos perceber que, nisto tudo, o que falha é o sistema predador em que vivemos, canibal numa primeira fase e, agora, autofágico.

BE ataca Venezuela

«Não me custa nada condenar a falta de democracia na Venezuela.» afirmou, hoje, no JN, Mariana Mortágua, deputada do BE. Há uma semana, quando o PCP apresentou votos de solidariedade com os povos da Venezuela, Brasil e Colômbia, o deputado bloquista Paulino Ascenção afirmava que o seu partido rejeitava “qualquer abuso da força ao nível interno ou através de ingerência externa” e que condenava “qualquer limitação à liberdade de expressão e à livre determinação do povo da Venezuela”. Ou seja, o BE alimentava o peditório de que o governo venezuelano abusa da força e limita a liberdade de expressão.

Num momento particularmente grave na Venezuela, a par do Brasil, em que se tenta legitimar o derrube de Nicolás Maduro, o BE sobe ao muro da traição para dar força aos que já executaram um golpe fascista, entretanto derrotado pelo povo, em 2002. No parlamento europeu, os eurodeputados do BE aliaram-se à direita e abriram caminho à invasão na Líbia e, desde então, tentam repetidamente convencer-nos de que não fizeram nada disso. A haver uma agressão contra Caracas legitimada por uma opinião pública contaminada pelas Marianas Mortágua e Paulinos Ascenção de todo o mundo que saibam os deputados do BE que o criminoso não é só o que dispara. É também o que aponta.

É também curioso que os que dizem defender o legado de Salvador Allende conseguem ao mesmo tempo condenar a revolução bolivariana e Nicolás Maduro porque são, supostamente, os responsáveis pelo caos económico na Venezuela. É que quem tem pelo menos dois dedos de testa e um conhecimento mínimo da história sabe que também houve caos económico no Chile durante o governo da Unidade Popular fruto da mesma estratégia de sabotagem, desabastecimento e bloqueio promovidos pelos grandes grupos económicos, em conjunto com a direita e os Estados Unidos.

Também curiosamente, o BE continua calado sobre a maior deportação de seres humanos desde a 2ª Guerra Mundial que leva o carimbo do Syriza. A polícia de choque do regime grego desaloja milhares de refugiados dos campos e nem uma só palavra sobre o assunto dos amigos do peito de Alexis Tsipras.

Se eu fosse a Joana Vasconcelos levava uma vergonha infinita

Se eu fosse a Joana Vasconcelos e fugisse da morte, não levava “todas as minhas jóias portuguesas” nem “os meus óclos de sol”. Não, se eu fosse a Joana Vasconcelos procurava antes ajudar esta gente a fazer as malas. Porque eles obviamente não sabem.

Dir-lhes-ia que se é para viajar assim, sem ler as críticas dos hotéis, sem “o meu caderno para poder fazer os desenhos”, sem dinheiro no cartão para gastar em Paris, mais valia ficar em casa.

Se eu fosse a Joana Vasconcelos e visse, como no poema de António Gedeão, “o sangue gorgolejar das artérias abertas e correr pelos interstícios das pedras, pressuroso e vivo como vermelhas minhocas despertas” e visse “as crianças de olhos lívidos e redondos como luas, órfãs de pais e de mães, andarem acossadas pelas ruas como matilhas de cães” e visse “o grande pássaro de fogo e alumínio cobrir o mundo com a sombra escaldante das suas asas amassando na mesma lama de extermínio os ossos dos homens e as traves das suas casas”, eu agarraria “nas lã e na agulha, para qualquer eventualidade” e faria uma obra de arte inócua: qualquer coisa não tivesse nada a ver com os vivos; qualquer coisa estéril e senil, como um naperom gigante ou um cacilheiro em filigrana ou uma pirâmide de plástico ou qualquer coisa que dissesse, assim bem alto “o meu reino não é deste mundo” ou, simplesmente, “estou-me a cagar”.

É que se eu fosse a coqueluche travestida de artista da direita neoliberal, não poderia, mesmo que quisesse, saber como é. Se a minha carreira artística tivesse sido um passeio de mãos dadas com os responsáveis pela destruição dos países de onde vêm os refugiados (que nem turistas sabem ser), eu levaria comigo uma absoluta indiferença pela vida de quem é obrigado a deixar tudo: a família, a casa, a segurança, e também os “óclos” de sol, “as lãs” e o i-pad, para saber o que se passa no mundo.

Se eu fosse a Joana Vasconcelos não poderia parecer solidária mesmo que o piano na música de fundo mo exigisse. Porque, se eu fosse a Joana Vasconcelos e fugisse da morte, saberia que só se pode ser solidário com quem partilha, por mais ínfima que seja a partilha, da nossa condição.

É que se eu fosse a Joana Vasconcelos nunca, nunca (!) estaria naquela condição porque estaria sempre do outro lado: do outro lado das jaulas de arame farpado onde dormem as crianças que não podem passar; do outro lado da linha mediática que separa, por classes, os refugiados, migrantes, os viajantes e os turistas; do outro lado da Europa fortaleza; do outro lado da Comissão Europeia; do outro lado da arte, com o bricolage anabolizante e hiperbolizante; do outro lado da barricada.

Se eu fosse a Joana Vasconcelos não valeria a pena pedir-me para, como no poema, “lutar até ao desespero da agonia” nem para escrever “com alcatrão nos muros da cidade ABAIXO O MISTÉRIO DA POESIA”. Mas, se eu fosse a Joana Vasconcelos e fugisse da morte, como, de uma certa forma mais demorada, todos nós fugimos, teria que levar comigo, para o resto da vida, uma vergonha infitina.

Ao sabor da brisa mediática

Até hoje, nas suas relações internacionais, jamais o BE havia tido um governo de um partido que coincidisse com a sua linha política. Timidamente e muito pontualmente, mostrou-se solidário com alguns governos que na América Latina avançavam com políticas progressistas. Nunca vimos este partido organizar actos contra o golpe na Venezuela, Equador ou Bolívia. Com Cuba jamais mostrou o mais pequeno gesto de empatia e não se sabe qual é a sua posição sobre o bloqueio contra a pátria de José Martí.

Nas suas posições sobre questões internacionais, o BE preferiu quase sempre deslizar ao sabor das marés imposta pelo mediatismo. Desde considerar simpática a candidatura de Barack Obama e de François Hollande, a não ter qualquer posição crítica sobre as manifestações em Kiev que levaram o fascismo ao poder com a consequente ilegalização do Partido Comunista da Ucrânia e a guerra contra a insurreição no Leste do país. Sobre a Líbia, é sobejamente conhecido o papel que tiveram os eurodeputados do BE na resolução que abriu as portas à agressão que conduziu aquele país à Idade Média e à brutalização das mulheres.

As críticas e o mal-estar gerado mudaram a sua postura em relação à Síria. Não apelou a uma intervenção externa e moderou o seu discurso em relação ao governo de Bashar al-Assad mas pouco ou nada ouvimos sobre o que pensa dos supostos rebeldes financiados e treinados pelos Estados Unidos, União Europeia, Turquia e Arábia Saudita. Entrevistou, há dias, em Lisboa, ao lado de um monumento com a estrela de David, uma investigadora síria que defende o derrube de Bashar al-Assad.

É curioso, pois, que quando chega ao poder, pela primeira vez, um partido da mesma família política do BE, se dá uma das maiores traições à esquerda das últimas décadas na Europa. O BE tinha apoiado e feito campanha pelo Syriza mas quando chegou ao governo e rasgou tudo o que havia prometido os portugueses tiveram de se retratar. Vários dirigentes que antes eram amigos de Alexis Tsipras fingiam distanciar-se. Os dirigentes do BE sentiram-se obrigados, por diversas vezes, a desmarcar-se das decisões políticas do Syriza mas, na verdade, nunca deixaram de estar ao lado do Syriza.

Esta semana, Marisa Matias voltou à Grécia para um encontro do Partido da Esquerda Europeia onde esteve presente o mesmo Alexis Tsipras que nos dias anteriores havia estado como observador num encontro dos socialistas europeus. O mesmo que aperta a mão ao genocida Nethanyau enquanto firma acordos com Israel. Uma vez mais, as palavras dizem uma coisa, as acções mostram outra. Foi assinado um documento conjunto contra a expulsão de refugiados da União Europeia ao mesmo tempo que Tsipras encabeça um dos governos que pede a deportação rápida de milhares de pessoas que fogem da guerra.

É certo que o BE não tem culpa pelo que decide ou não o Syriza mas este é o mesmo partido que tentou por diversas vezes obrigar o PCP a condenar o regime angolano. Quem conhece as posições do PCP sobre Angola sabe que nunca escondeu as diferenças que existem entre o que os comunistas portugueses defendem e aquilo que defende o governo angolano e o MPLA. Mas o respeito pela soberania do povo angolano sem ingerências externas é um princípio que o PCP defende de forma inquestionável.

Quando saltou o tema de Luaty Beirão para as manchetes dos jornais portugueses, o BE tentou aproveitar-se do caso e chegou a acusar uma vez mais o PCP de não estar à altura dos acontecimentos mesmo quando os comunistas haviam apresentados moções em defesa da salvaguarda dos direitos dos vários grevistas de fome. Sabendo que é forte a empatia ideológica entre o BE e o Syriza, a relação de proximidade de anos, os comícios conjuntos tanto na Grécia como em Portugal, a solidariedade mútua durante as campanhas eleitorais, sabendo de tudo isso, quando é que o BE vai condenar o regime grego pela expulsão de milhares de refugiados para a Turquia?

No dia internacional em memória das vítimas do Holocausto nazi-fascista.

Entre o discurso xenófobo e racista dos grupelhos de extrema-direita que se manifestam um pouco por toda a União Europeia e o cinismo dos burocratas de Bruxelas relativamente à situação das centenas de milhares de refugiados que aguardam por uma solução para as suas vidas em campos improvisados no leste e no centro da Europa a distância é muito mais aparente do que efectiva. Os fascistas querem impedir activamente a entradas dos refugiados na zona da UE; já a burocracia de Bruxelas vai adiando a solução que desde há muitos meses se impõe, talvez na expectativa de que iraquianos, sírios, líbios e afegãos se cansem das precárias condições em que se encontram aguardando uma mão que não se estende.

Na semana em que se celebra a libertação de Auschwitz pelo Exército soviético, a 27 de Janeiro de 1945, o parlamento dinamarquês aprovou legislação que envergonha o seu povo e que se destina a desencorajar quem foge da guerra, da destruição e da perseguição fanática a dirigir-se para aquele país por tantos considerado exemplar no quadro da União Europeia. A lei prevê o confisco de bens dos refugiados acima dos 1340 euros e dificulta o reagrupamento familiar, condição fundamental para o estabelecimento de famílias em países de acolhimento onde possam viver com dignidade e em paz. [1] É a versão elaborada do muro húngaro. Há até quem recorde a acção dos nazis face aos judeus, naqueles anos de má memória entre 1933 e 1945.

Perante a falta de vergonha dinamarquesa a Comissão Europeia assobia para o lado e aponta baterias à Grécia, que agora acusa de “negligenciar seriamente as suas obrigações” no que se refere à gestão de fronteiras. [2] Ironia das ironias, académicos de várias instituições (incluindo dinamarquesas) preparam a candidatura dos habitantes das ilhas gregas de Lesbos, Kos, Chíos, Samos, Rodes e Leros ao Prémio Nobel da Paz, como reconhecimento da sua acção de auxílio aos refugiados que todas as semanas chegam a solo grego. [3]

Das lágrimas de crocodilo de Barroso em Lampedusa ou das loas à senhora Merkel não restam memória suficiente para criar em torno da vergonha europeia face ao desinteresse a que estão votados os refugiados e imigrantes concentrados em campos uma cortina de fumo. Ao contrário do que se disse e escreveu no final de 2015 a palavra do ano não foi “refugiado” porque relativamente aos refugiados a atitude mais comum entre “nós”, “europeus”, foi a indiferença.

A 1 de Setembro de 2015 o PCP divulgou uma nota “Sobre a Situação dos Refugiados e Imigrantes na Europa” [4] na qual deixava clara a sua posição sobre as causas da crise humanitária bem como sobre a resposta a dar-lhe. Na referida nota podia ler-se, no seu ponto 4, uma observação respeitante à distinção entre “refugiados” e “migrantes” absolutamente justa a que poucos deram ênfase: (o PCP) “deplora a visão de total discriminação na resposta a dar aos problemas humanitários colocados a pretexto da distinção entre refugiados e migrantes e condena frontalmente as visões e declarações, nomeadamente de partidos políticos portugueses, que a pretexto do drama humanitário criado pelas políticas dos EUA, da NATO e da União Europeia apontam o caminho de novas aventuras militares no Médio Oriente e no continente africano.”.

Meio ano passou. Das várias dezenas de milhares de refugiados que desde o Verão de 2015 se foram concentrando na Europa à espera de resposta por parte dos governos nacionais e dos burocratas de Bruxelas apenas escassas centenas viram as suas situações resolvidas. A “Europa” é também isto. Não o é todavia em meu nome.

Notas:
[1] Imune às críticas, Dinamarca aprovou confisco de bens aos refugiados, Público, 26.01.2016.
[2] “Grécia negligenciou seriamente as suas obrigações” na gestão da sua fronteira, Público, 27.01.2016.
[3] Greek islanders to be nominated for Nobel peace priz, The Guardian, 24.01.2016.
[4] Sobre a Situação dos Refugiados e Imigrantes na Europa, 01.09.2015.

[imagem]

Depois de Beirute, Paris

Só para lembrar que é dos responsáveis pelo banho de sangue em Paris que fogem os refugiados que abandonam a Síria, o Curdistão, o Iraque e a Líbia. Ontem, foi em Paris. Anteontem, foi em Beirute, onde mais de 40 muçulmanos foram assassinados pelo terrorismo do Estado Islâmico. Em Beirute, morreram árabes. Em Paris, morreram europeus. Todos vítimas dos mesmos carrascos. Não se esqueçam disso quando começar a campanha xenófoba nas televisões, rádios e jornais.

A barbárie nas ruas de Paris é perpetrada pelos mesmos que regaram de sangue o Afeganistão, o Iraque, a Líbia e a Síria. Os mesmos que receberam dinheiro e armas dos Estados Unidos, União Europeia, Turquia, Israel e Arábia Saudita para acabar com regimes nem sempre alinhados com o imperialismo e devolvê-los à Idade Média. E as vítimas, como sempre, somos nós, os trabalhadores.

Hotline – Como Israel recebe os refugiados

Foi dos documentários mais difíceis (chamemos-lhe assim) desde que frequento o doclisboa. Demorei demasiado tempo a processar toda a informação que se recolhe quando a câmara se transforma nos nossos olhos e estamos nós diante de alguém que foi brutalmente torturado para chegar a um país e, aí chegado, só deseja voltar. O Estado de Israel mata. Não só na Palestina. Não só em Israel. Desumaniza. Priva. Tortura. E há quem combata esta realidade, com a certeza do seu lado da barricada, mesmo que a maioria das vezes embata violentamente contra os muros da intolerância e do racismo. Um documentário sobre Hotline for Refugees and Migrants – Israel que vale a pena ser visto.

Não envolve imagens explícitas (daquelas que têm feito as capas dos jornais sobre o tema e depois ganham prémios de fotografia), não envolve grandes organizações, não envolve ninguém conhecido.

A tarefa documental é simples, observar o trabalho de uma organização – a Hotline – em Telavive, numa zona mais complicada da cidade de Israel. Então, durante 99 minutos, Silvina Landsmann, a realizadora, guia-nos pelo dia-a-dia dos trabalhadores desta associação. E, pela primeira vez, do papel dos advogados que se envolvem, genuinamente, nas causas. Destaco e sublinho esta parte do documentário por moto próprio, por saber exactamente até onde alguns advogados vão (e são obrigados a ir) para defender direitos humanos e como essa parte da história nunca é relatada.

Pois bem, o Doclisboa’15 decidiu mostrar também esta parte da história.

Chade, Eritreia, Sudão, Egipto, ei-los que chegam a Israel à procura de uma vida melhor. E procuram-na porque nos seus países há fome, morte, guerra, perseguição. Algo que os israelitas supostamente deveriam conhecer bem e perceber ainda melhor (da Alemanha à Palestina, a história de Israel é feita de gente que ocupa e de ocupações). Para chegarem a Israel, suportam tudo – incluindo as torturas brutais no Monte Sinai – e estima-se, de acordo com os números da Hotline que sejam 57000 os refugiados.

O documentário inicia-se com uma sessão pública de esclarecimento, numa espécie de Assembleia Municipal, aos moradores da zona de Telavive onde estão a concentrar os refugiados, na sua maioria negros. Sigal Rozen, a porta-voz da Hotline, explica como não se pode, simplesmente, expulsar as pessoas da cidade, que são necessárias medidas urgentes para o acolhimento (e onde já ouvimos isto), intervenção imediata do Ministro do Interior para garantir que as comunidades vivem em harmonia.

Não os queremos cá.
São ladrões, bem vemos, têm todos iphones.
Temos medo de andar nas ruas.
Eles violam as nossas filhas.
Eles ficam com os nossos empregos.
Eles não podem ficar cá, que vão para a terra deles.
Devíamos marcá-los com sinais visíveis para toda a gente saber e ter cuidado. 

[Devíamos marcá-los com sinais visíveis para toda a gente saber e ter cuidado. Devíamos marcá-los com sinais visíveis para toda a gente saber e ter cuidado. Devíamos marcá-los com sinais visíveis para toda a gente saber e ter cuidado.]

E, logo assim, um povo que se sabe perseguido, marcado e torturado, propõe exactamente o mesmo aos povos que chegam ao sítio onde eles moram. Que por esse simples facto já se torna seu. Sigal Rozen não se resigna e vai a jogo até ao fim, sem nunca perder a calma, sem nunca deixar de perceber as razões do medo e as reacções que ele provoca, tentando sempre explicar porque é que o povo judeu deve acolher os outros povos, mesmo que a sua religião e a sua cor de pele seja diferente.

Ali, naquele local, a raiva nascia e manifestava-se contra a cor e contra a religião.

No Parlamento, a questão é diferente (e já lá iremos): dinheiro.

Desta cena partimos para o atendimento e o apoio diário que é possível dar aos refugiados em Telavive: ajuda com obtenção de documentos para poder permanecer no país, casas onde possam ficar, uma luta pelo direito a abrir contas em seu nome (apenas conseguida por decisão do Supremo Tribunal), para poderem trabalhar (outra, apenas conseguida por decisão do Supremo Tribunal). Alguma dificuldade, por vezes, na comunicação, e um sentimento que sai da tela de tão forte que é: a impotência total perante um estado que não quer refugiados e tudo fará para os expulsar.

Rapidamente se percebe que mal chegam os refugiados – chamados no Parlamento Israelita de infiltrados – obtido o visto, as autoridades não cumprem a decisão judicial e proíbem-nos de trabalhar, logo, todo o trabalho é ilegal e motivo de expulsão do país ou de prisão imediata.

No documentário vemos uma prisão: Saharonim. É lá onde está a maior parte dos refugiados. Não nos bairros, não em centros de acolhimento: na prisão. E nenhum fala sobre o tempo passado na prisão. A Hotline, com voluntários e advogados, visita regularmente a prisão para tentar libertar o maior número de pessoas possível. Então, as medidas agravam-se e é-lhes cada vez mais vedado o acesso.

Qualquer tentativa de libertação é um inferno burocrata em que os advogados recorrem a todos os meios para furar os esquemas (ilegais) montados para dificultar a libertação das detenções ilegais, até chegar a tribunais superiores (processos que demoram anos) e conseguir sentenças que, quando favoráveis, impõem cauções impossíveis e condições de uma quase prisão domiciliária. O motivo? Ser nacional da Eritreia, do Sudão, do Chade. Este é o crime destas pessoas.

A via institucional da luta pela alteração legislativa demonstra um parlamento e um ministro que não têm vergonha de assumir o que seja: Nós decidimos que Israel não cumpre a lei, afirma o Ministro do Interior. A lei e as convenções que obriga à atribuição do estatuto de refugiado. Em 57000, o estatuto terá sido atribuído a 20 pessoas.

Os outros, infiltrados, são proibidos de trabalhar e de ter contas bancárias (contra as decisões judiciais). Implementa-se um plano de encorajamento à saída: pagam os bilhetes de avião e podem sair com o dinheiro vivo que tiverem consigo. Para voltar à morte, tortura, fome e prisão certas.

A estratégia está de tal forma bem montada que ouvimos muitos refugiados a dirigirem-se à associação e a pedir para regressarem aos seus países. Porquê? Porque estiveram presos (e nada dizem sobre o que se passa em Saharonim), porque não podem ter uma conta bancária e assim não podem enviar dinheiro à família, porque não têm direito a trabalhar. Enfim, não têm direito sequer a existir, a ser pessoa.

É um documentário cru, real, sem manipulações. Ver o que nunca deveria ser visto, ouvir o que não deveria ser ouvido. Particularmente quando os sujeitos reproduzem os mesmíssimos comportamentos e pensamentos dos tempos mais ignóbeis da história do mundo. É sobretudo esclarecedor da natureza humana – dos limites que se ultrapassam em nome da vida, dos limites que se ultrapassam em nome do indivíduo, dos limites que não existem em nome da cor da pele, da religião e do dinheiro.

Texto originariamente publicado na webzine Arte-Factos.