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O Acordo Normal

O muito mediatizado – diria até festiva e apaixonadamente celebrado – acordo entre PS e PSD, não pode deixar de ser visto como um acto absolutamente normal. Mais do que possível ou provável, o encontro convergente entre os dois é acima de tudo ideologicamente inevitável. Mais tarde ou mais cedo, cairiam nos braços um do outro, alinhados sob qualquer pretexto de circunstância. Sabemos agora, de uma forma mais clara, que as declarações de António Costa sobre a “negação” ou “impossibilidade” da criação de um bloco central valem zero, e que a “possibilidade” de tal acontecer já não é sequer uma “possibilidade”: na verdade, ela já começou a ser construída.

Não é notícia que o acordo tenha acontecido. Notícia seria se ele nunca viesse a acontecer. Não é novidade para ninguém – e não era necessário o pretexto dos fundos europeus e de uma falsa descentralização que continua a ignorar a regionalização – que PS e PSD estão de acordo em quase tudo. Estão de acordo na forma como seguem submissamente os mandos dos directórios internacionais, na forma como encaram o mundo “intocável” da finança, na forma como desprezam os direitos laborais, na forma como privilegiam o sector privado em detrimento do público, na forma como ignoram a cultura e as artes, ou ainda, e sobretudo, na forma como pretendem garantir o seu rotativismo de “mudança para que tudo fique na mesma”.

Se a convergência PS e PSD era inevitável, inevitável terá também de ser a resposta dos trabalhadores e do povo português. A prática política deste governo PS, bem como as declarações nada inocentes de muitos dos seus responsáveis em particular durante as últimas semanas, têm indicado uma trajectória que inequivocamente afasta o partido das convergências que visavam uma mudança de caminho em face do do governo anterior, mas que, compreensivelmente, o aproximam agora e cada vez mais do seu destino e da sua verdadeira marca identitária.

Se o governo PSD/CDS acabou derrotado e derrubado pelo estado a que condenou o país, ao aproximar-se desse rumo, o mesmo acabará por suceder também ao PS. Saiba, porém, o PS que estes acordos nupciais não vão caindo em saco roto. Os sinais são lidos e interpretados. A mensagem é recebida e o seu teor “ilumina” os passos futuros. Que não restem dúvidas de que os trabalhadores e o povo saberão dar a rápida e enérgica resposta que esta “sintonia de direita” reclama.

PSD, o partido de sonsos

Fico sempre surpreendido com aqueles que acham que o PSD está a passar “por uma crise”. É preciso uma boa dose de ingenuidade, ou estar-se muito desatento, para se supôr que Pedro Passos Coelho está isolado numa qualquer demanda individual perdida e a lutar para “sobreviver politicamente”. Passos na liderança tem os dias contados desde que o PSD foi derrotado pelas suas próprias políticas, e ele, os militantes e os dirigentes do partido sabem-no melhor do que ninguém. A razão pela qual ainda não se demitiu, ou pela qual se arrasta penosamente contra os ventos e as marés negativas – o tal diabo que nunca chegou… – é algo que está muito para lá do calculismo e do imediatismo interno. Passos Coelho está, muito sonsamente, a cumprir um papel. Tal como Rui Rio.

É evidente que a “cama” de Rui Rio está a ser preparada. É evidente que Passos Coelho precisa daquele silêncio purificador de que beneficiaram os regressados Cavaco ou Guterres. O tempo de um e de outro precisa é de ser concertado, coordenado e conjugado, porque valores mais altos se levantam e a “clientela” – o capital – continua a precisar do PSD. Passos tem de aguentar o barco porque vem borrasca nas autárquicas; Rui Rio tem de esperar a noite de nevoeiro para aparecer de forma sebastiânica.

Ninguém no PSD estranha ou desconhece o esquema que está em curso. Não se ouvem, nem se ouvirão, críticas internas significativas a Passos Coelho, nem mesmo sobre esta sua recorrente pontaria de se enterrar todas as vezes que decide abrir a boca sobre o que quer que seja. A missão interna é muito clara: “ele tem de lá estar” e aguentar o embate inevitável das autárquicas. Tem de aguentar ainda o não menos violento embate do não-colapso do actual governo. E só quando o terreno estiver menos pantanoso, quando se achar chegada a ocasião política para novo “assalto” – e no caso do PSD é quase sempre literal – ao poder, lá virá Rui Rio e a sua carteira recheada de interesses fazer a “mudança” de que “todos precisavam muito”.

Este filme não é novo. Vimo-lo já no PSD, como vimo-lo já também no PS. Patrocinados e a reboque de certa imprensa, uns e outros mergulham oportunisticamente nestas tácticas sonsas e ludibriantes (para muitos). Um dia, tudo desembocará daquele que é, no fundo, o seu objectivo final. Com rostos aparentemente desavindos, aparentemente adversários, protagonistas de falsas lutas internas, todos acabarão por convergir naquilo que lhes é essencial: servir interesses, distribuir favores, cumprir promessas a banqueiros e a grandes empresários. Porque para estes, nunca o país esteve “tão bem” como quando para os trabalhadores esteve “tão mal”. E é preciso garantir que nada mude e tudo se “reforme”. Conforme.

Rui Moreira Rio

O Rui Moreira confunde a sua vontade com a vontade da cidade do Porto. Felizmente, e como todos sabemos, já existia Porto antes do Rui Moreira e, curiosamente, também já existia PCP antes do Rui Moreira. O PCP está a favor da cidade do Porto, como sempre esteve, embora esteja contra o Rui Moreira. Por incrível que isso possa parecer, ao presidente da CMP, há quem não concorde ele. Chama-se democracia e foi por isso que o PCP lutou anos e anos na clandestinidade, embora isso possa parecer estranho a quem representa, encapotadamente, os dois partidos que são herdeiros da outra senhora.



Rui Moreira, tão defensor da independência do Porto e do norte, confundindo os dois tantas vezes, deveria recordar qual foi e é o partido a favor da regionalização, aquele que efectivamente fez campanha por ela e aquele que mais contesta, na AR e fora dela, a divisão na atribuição de fundos europeus. Ao contrário de outros, o PCP diz ao povo do Porto o que diz ao povo do país. Não faltarão casos, como Rui Moreira bem saberá, de deputados de outros partidos, eleitos pelo círculo do Porto, que distribuem sorrisos nas ruas da cidade e se esquecem dela no parlamento.

Por fim, sobre este assunto,utilizar um espaço de divulgação da CMP, pago por todos nós, incluindo os comunistas, para ataques políticos, é de um baixo nível atroz, até mesmo para uma cidade em que o baixo nível se mede pela escala Rui Rio.

O presidente, que até escreveu um livro sobre a TAP e o Porto em tempo recorde, ganhou simpatia por defender a cidade contra a companhia. Esqueceu-se, no entanto, que a raiz do problema está na privatização da TAP, que os seus amigos do PSD e CDS tentaram e que o PS não teve coragem para afrontar, optando por uma solução que não é sim nem sopas.



Sobre a privatização da TAP, Rui Moreira foi claro: “A TAP não é estrutural para o Aeroporto Francisco Sá Carneiro nem para região, nem a região parece ser estrutural para a TAP. Não dramatizo essa situação, é um problema do Governo, não é um problema nosso“.



Obviamente, como o PCP afirmou e previu, transformou-se numa questão estrutural para todos. A menos que o livro editado tenha sido só para gastar papel e rasgar as vestes, que até levou a ataques a regiões e autarquias galegas, com quem o Porto tem e deve ter uma ligação profunda.

O tempo dirá quem beneficiou com o silêncio do presidente da CMP durante a discussão da privatização da TAP e se, directa ou indirectamente, estavam ligados à Associação Comercial do Porto. O PCP cá estará para ver. E a cidade também.