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Tavarish e o seu pequeno mundo

“Por acaso, foi uma ideia minha”, dizia, em 2015, Passos Coelho sobre a utilização de fundos de pensões gregos para capitalizar a banca daquele país. Quatro anos depois, Rui Tavares, o Pequeno Gigante da Esquerda, revela, numa entrevista ao portal Notícias ao Minuto que, por acaso, “houve Geringonça porque fizemos muito trabalho para isso” e, numa entrevista à Lusa, no mês passado, considera-se mesmo pai espiritual da atual situação governativa: Rui Tavares assinala, porém, que os dirigentes do Livre sempre foram conhecidos como “os pais espirituais da geringonça.


Obviamente, o país esperava pela ideia de Rui Tavares e já imagino, nas reuniões bilaterais entre os partidos, os suspiros e agradecimentos a Rui Tavares, virados para os céus pelo envio do novo messias, para ser possível inverter o ciclo de miséria que estava a ser traçado por PSD e CDS. Importa relembrar que Rui Tavares saiu de um partido para fundar um partido para unir os partidos.

Na mesma entrevista, Tavarish afirma que “todos os partidos instalados na política portuguesa têm esse medo [do Livre]”. E é verdade. Há noites em que não se dorme, à espera que Tavarish volte a dar-nos, por exemplo, tarefas urgentes para antifascistas, porque andamos todos aqui à nora e isto é um fenómeno novo, nunca antes visto.

Tavarish vai mais longe e refere mesmo que “é verdade que outros que tentam empurrar o Livre para as boxes, que tentam que ele não seja ouvido, que tentam ele não possa falar ao grande público, têm muito medo disso”. Tavarish é dono de um partido que teve em 2015, em coligação com o Tempo de Avançar, 0,73% dos votos (39.340).

Em 2014, nas Europeias, valeu 2,18% (71.602 votos). E queixa-se Tavarish de que está subrepresentado na imprensa. O Rui Tavares sozinho tem mais presença mediática do que todo o PCP junto. Vamos ao absurdo de o facto de uma dirigente do Livre abrir um restaurante ter sido notícia, com o seguinte título: “Safaa Dib. A dirigente do Livre abriu um restaurante libanês“. Estão a imaginar o título “Manuel da Silva, o dirigente do PCP que abriu um restaurante”, não estão?

À boleia da TSF e do programa “Uma questão de ADN“, a mesma dirigente esteve, na passada semana, a falar sobre o seu projeto. Obviamente que o facto de ser candidata à Assembleia da República não tem nada a ver com este acompanhamento mediático e o seu lançamento. 


No entanto, Tavarish queixa-se e, mais grave, acha que mete medo seja a quem for, à esquerda. É esta bolha urbana de quem se move em determinados meios que não só prejudica a esquerda como, no caso, o meio da esquerda. Que acha que, mesmo com a presença mediática que tem, merece mais, porque é o Rui Tavares. É este o seu pequeno mundo, e os seus devaneios sobre uma espécie de federalismo europeu, que transpõe para aquilo que é a realidade que o rodeia. E só essa. Lá fora, o mundo é outro. Tavares segue e vai ao colo da imprensa sem perceber que não anda pelos próprios pés.

Tarefas urgentes para Rui Tavares

Rui Tavares acordou estremunhado, banhado em suores frios e percebeu que, afinal, está na hora de pegarmos em armas e combater o fascismo em todas as suas formas. Bem, não todas. Porque temos de escolher bem e combater o fascismo mas defender a UE. Já lá iremos. Um historiador estremunhado e assustado, nas manhãs de calor como as que temos vivido, pode ser um caso alarmante. Ao ponto de ser o próprio a referir que nunca pensou que “a versão atualizada [do fascismo] do século XXI viesse a ser tão caricaturalmente parecida com o original”. Um historiador como Rui Tavares, devia saber que a “História repete-se, pelo menos, duas vezes”, dizia Hegel, “a primeira como tragédia, a segunda como farsa”, disse Marx.

Apanhado de surpresa, Tavares esbraceja, alvoroçado, com o que está a passar-se em Itália, na Hungria, esquece Polónia e Ucrânia, Espanha, a vergonha do Mediterrâneo potenciada pelas intervenções externas a cobro – imagine-se – da UE nos países do Médio Oriente e norte de África, que Rui tavares tão bem conhece dos seus tempos de eurodeputado. Sem esquecer o tratado de extradição de refugiados assinado entre a progressista e europeísta Grécia e a Turquia.

Os aliados

Tavares começa a sua lista de tarefas, talvez ainda entorpecido pelo sono profundo em que está há anos, avisando que tem aliados em todos os quadrantes políticos contra a barbárie. As remelas talvez estejam a tolher-lhe o pensamento. O historiador está disposto a colocar de lado tudo o que faz com que haja, de facto, um ressurgimento do fascismo, para combater o fascismo. É neste labirinto de lençóis que Tavares se perde: “Discordarei com eles sobre a austeridade, o politicamente correto, o progressismo e o conservadorismo e todas as coisas sobre as quais já discordávamos antes. Mas se eles e elas sentirem a mesma urgência em fazer, em primeiro lugar, barragem contra a barbárie, estamos juntos”. Tanta ingenuidade chega a ser enternecedora, vinda de alguém que, dada a sua formação, conhece a História. O cronista propõe-se, assim, a tomar comprimidos para dormir mas afirma que vai lutar para ficar acordado. É este o cronista no seu labirinto.

A Torre de Marfim

Para Tavares, a austeridade e a miséria não são desculpas para que as pessoas se tornem racistas e “adeptos de tiranetes”. Esta é uma visão perfeitamente normal de alguém desligado da realidade – e, mais grave, da História – sobre aquilo que é a vida dos comuns mortais. Não sendo desculpa, parece-me evidente que é inegável. Mas, quem nunca teve a barriga vazia, não consegue perceber que a necessidade e o desespero são maiores do que a moral. Rui Tavares, historiador, posiciona-se assim contra a História e não aceita que as condições sociais influem, de facto, no surgimento de fascismos e no crescimento da extrema-direita. Ou melhor, aceita só um bocadinho. Podemos discutir isso, mas não pode ser o foco. Em suma, a História repete-se, mas não temos de encontrar formas para que não se repita. Depois vemos isso. Tavares não diz como contrariar isso, avança apenas com a “intransigência”. Portanto, a História mostra-nos e explica-nos o que está a acontecer, nada disto é novo, mas Rui Tavares está demasiado agitado para procurar a raiz e prepara-se para acabar com isto tudo, apostado que está em cortar canas de bambu com uma colher de sopa.

Isto é tudo nosso

O cronista afirma que não há tempo para discutir soberanias e não-ingerências. E nós sabemos bem, pelo exemplo do aval que deu à invasão da Líbia, que isto são questões de somenos. Os tempos são graves e assustadores. Rui Tavares acaba de acordar e Putin e a perigosa Rússia têm de vir à baila, ao lado de Trump, Órban e Salvini. Afinal, o historiador já decidiu que a Rússia adora interferir em eleições. Portanto, avancemos para fazer tudo exatamente da mesma forma que fizemos até aqui para que tudo fique na mesma.

Mais UE, quando o rei vai ONU

Outra das tarefas urgentes é, evidentemente, salvar a UE. Não seria dia se não fosse assim. Salvar as mesmas instituições que nos trouxeram até aqui. A UE, o colchão a que Tavares se agarra com unhas e dentes, após acordar apostado em acabar com o fascismo, a UE da austeridade, que fecha fronteiras, que vende refugiados à Turquia, a UE da França e da Alemanha, do Tratado de Lisboa e tudo o mais. Rui Tavares não percebe que é a política da UE e a ineficácia da ONU que nos trazem aqui. A ONU das sanções, das resoluções que valem menos que zero, um instrumento de controlo político de Estados soberanos. Ah, sim, a soberania não é para aqui chamada. Temos é que salvar a UE, que tem dado tão bons resultados.

Por fim, “errei”

A terminar, somos lembrados de que Rui Tavares escreve sobre a Hungria desde 2010. E nós aqui, desatentos, só agora, com o historiador acordado, conseguimos perceber que ele anda a escrever sobre a Hungria desde 2010! Ele, que até acreditava que o fascismo voltaria, mas mais fofo. Sem “tanta desfaçatez e arrogância”. E, veja-se, surpreendido porque o fascismo é fascismo.

TPC para Rui Tavares

Vamos então ajudar Rui Tavares e dar-lhe cinco tarefas para que possa ser um antifascista:

1 – Perceber que nem todos são antifascistas porque discordam da política de Órban ou Trump. Este é antes o modelo ideal para que as pombas brancas que sobrevoam os sonhos de Rui Tavares possam passar a abutres, como bem vimos no pós-guerras mundiais, nos Balcãs ou no Médio Oriente e no norte de África ou na América do Sul. Esta é uma lição importante para o Rui que, talvez por querer andar com tanta e tão variada gente, acabou num partido reduzido a um grupo de amigos com tempo de antena.

2 – O Rui sabe que os maiores conflitos da História se deram depois de grandes convulsões sociais provocadas pela Economia neoliberal, defendida pela UE, que o Rui também defende. Por isso, vamos lá colocar a cabeça no lugar e perceber que este parágrafo da sua lista de tarefas é absurdo. Porque lateraliza o que são as questões centrais. É mais ou menos como combater incêndios cortando a copa das árvores. Não dá. Vamos lá trabalhar este aspeto.

3 – Muito do que hoje se passa na Europa tem precisamente a ver com a perda de soberania, económica e não só, de diversos Estados. A imposição, através de ingerências externas, de mecanismos financeiros e/ou militares, em países soberanos, cujas populações, vá lá perceber-se porquê e como, não concordam com o Rui Tavares. Nós sabemos que, para o Rui, lutas só à escala planetária e, se for preciso, universal. Mas cada coisa no seu lugar. Temos de trabalhar melhor também esta matéria.

4 – A mais perigosa das fantasias é acreditar que a UE, com o fascismo cá dentro, é solução para alguma coisa. Não há muito mais a acrescentar.

5 – O “nosso jardim” – e a Eurovisão em Israel, que tal? – podia ser uma ilha de progressismo e democracia se não estivesse refém da UE e dos seus tratados e pactos, se pudéssemos pescar, cultivar e produzir, se fossemos nós a definir o nosso défice e como pagar a dívida, enfim, se tivéssemos soberania. Aquela coisa de que falámos lá em cima.

O detalhe

Figura essencial do Portugal democrático. Génio. Implacável. Exigente. Visão de futuro. Estratega. Império. Riqueza. Começou do nada. Marcante. Determinação. Trabalho. Empenhamento social. Gerador de milhares de empregos. Têm sido estas as palavras ouvidas e lidas durante todo o dia sobre Belmiro de Azevedo. Uma pessoa maravilhosa, um dos 1.200 mais ricos do mundo. Independentemente de tudo, dizem, conseguiu criar uma enorme empresa.

Só que esse independentemente de tudo, é tudo o que importa, porque é a vida das pessoas e a sua sobrevivência. É esse detalhe. Vivemos num tempo estranho em que somos capazes de elogiar quem condena milhares à miséria, porque independentemente de. Lá fora é igual. O caso da Inditex, dona da Zara, e do seu administrador, um dos mais ricos entre os mais ricos, faz capas por isso. Mas utilizar mão de obra infantil passa a ser um detalhe. Esta reportagem da Visão sobre os trabalhadores dos supermercados, de Abril deste ano, diz quase tudo. Belmiro de Azevedo foi um explorador como outro qualquer:

Rui trabalha nos armazéns da Sonae há 17 anos. Leva para casa entre 540 e 560 euros, incluindo o subsídio de refeição. “Para viver com as condições mínimas, tenho de ter dois empregos: saio do armazém ao fim da tarde e aindavou dar aulas de basquetebol noite adentro.”

De facto, talvez tenha sido mais inteligente do que outros, até quando percebeu que investir num jornal que dá prejuízos trar-lhe-ia dividendos. E hoje, na sua morte, está a colher os dividendos disso mesmo, de ter quem ache que foi um benemérito, como se tivesse aberto um jornal para dar alguma coisa às massas incultas. Pensemos: o que leva uma pessoa com tanto tacto para o negócio, tão bem sucedido, a manter uma negócio que dá prejuízo? Por absurdo, imaginamos Belmiro a segurar o Continente durante anos, caso desse prejuízo?

Fala-se, hoje, do principal responsável pela desregulação dos horários do comércio, pela sua abertura aos fins-de-semana e feriados, pela consequente desregulação da vida de milhares de pessoas, até à vida dos milhões de hoje.

E porque há-de a morte de um empresário merecer um voto de pesar do Parlamento? De alguém que disse que só há competitividade com baixos salários? Expliquem lá o que há para agradecer ao certo? Quantos votos de pesar mereceram a morte de trabalhadores?

Isto é o verdadeiro politicamente correcto. Esta coisa de que todos são muito bons depois da morte e quem não se associar ao carpir generalizado é um monstro. É isto o politicamente correcto. E gente que se diz de esquerda escrever artigos do nível – ou falta dele – de Rui Tavares sobre o dono do Público, demonstra bem aquilo que disse atrás. Belmiro defendia que não há almoços grátis. Pois não.

A cultura de Rui Tavares, o barão trepador

Em O Barão Trepador, de Italo Calvino, um jovem aristocrata trepa a uma árvore e recusa descer novamente à realidade. Rui Tavares, trepador de outras árvores de não inferior baronia, escreveu este artigo no Público, em que explica que a Europa não consegue sair da crise por culpa desta estúpida cultura de divisão, que vira os povos contra a Merkel, o Schaeuble e os seus banqueiros.

Para Rui Tavares «O que nos está a impedir é a percepção de quem é “preguiçoso” e quem é “autoritário”, quem viveu “acima das suas possibilidades” e quem viveu “à custa da miséria dos outros”». Segundo o líder do LIVRE, os que defendem este tipo de «preconceitos», têm uma cultura de «torcida de futebol». Tanto uns como outros: os banqueiros que acham que os portugueses vivem acima das suas possibilidades e os trabalhadores que acham que os banqueiros vivem da sua miséria. Como na história do Visconde Cortado ao Meio (que Rui Tavares também conta no seu livro A Ironia do Projecto Europeu, que pode ser comprado na Bertrand por apenas 14,31€), o problema da Europa não são os irreconciliáveis interesses das suas classes, até porque o que move a luta entre exploradores e explorados não é «o interesse próprio», mas apenas «a mundividência e as diferenças de identidade». Por exemplo, quando o teu patrão te despede porque pode contratar um estagiário à borla ou quando os banqueiros insistem em receber 21 milhões de euros por dia pelos juros da dívida portuguesa, é porque não nos estamos a compreender uns aos outros. Para Rui Tavares, é por isso que os pobres são cada vez mais pobres e os ricos cada vez mais ricos: não pelos interesses materiais de cada um, mas simplesmente pela «satisfação psicológica de quem vê os seus preconceitos confirmados».

A tese de Tavares, epítome exarado em aspas, pode até parecer bizantina e esdrúxula, mas somente a quem não conheça o personagem que a deu à estampa: o barão trepador português. O «anarquista» que dizia que a esquerda não existe trepou primeiro à árvore com a ajuda do Bloco de Esquerda a troco de uns quantos milhares de votos. E prometeu que nunca mais descia. Mesmo que para isso tivesse que integrar um grupo de direita, que apoia as intervenções militares da NATO, o Tratado de Lisboa, a Estratégia UE 2020, o aprofundamento do Mercado Único e o anti-comunismo. Mais tarde, continuou a trepar por outras árvores, saltando da «independência» para a «cidadania», para o seu próprio partido uni-pessoal até ao ramos mais altos, no regaço do PS. Mas agora, com este artigo, Rui Tavares traz-nos algo de novo: a sugestão encapotada da cultura corporativista à moda de Mussolini; a negação da luta de classes e a invenção de uma «identidade comum para toda a Europa».

Mas o nosso barão trepadaor está enganado. Não é a primeira vez que, com Varoufakis, «vemos alguém tentar fazer um diálogo para toda a Europa» e é assustador que um historiador o diga publicamente. A História do velho continente é profícua em «tentativas de diálogo» e construções de «identidades europeias». Gregos, romanos, católicos, fascistas e capitalistas foram protagonistas de várias «identidades comuns», à sua própria medida e, só no último século, ao preço de duas tentativas de suicídio. A verdade é que a única identidade comum útil à Europa é a única que Rui Tavares nega: a identidade baseada na realidade histórica e nas relações de classe. E essa está proposta há muito tempo, desde que dois alemães (e não dois gregos) escreveram «proletários de todos os países, uní-vos!».

Eis pois, a cultura de Rui Tavares: os direitos humanos de um ser humano abstracto; a celebração da identidade comum da vítima e do vitimário; o vaidosismo patológico; o desprezo pela coerência e pelos ideais. Desse António Costa a pasta da Cultura (qual pasta?!) a Rui Tavares e o nosso barão trepador não demoraria em pendurar a Joana Vasconcelos num museu homónimo, o Prémio Camões num Pedro Chagas Freitas e um sinal de «reservado» no Panteão. Deus nos LIVRE!