All posts tagged: Ser no país da austeridade

Ser escritora no país da austeridade, por Ana Margarida de Carvalho

9 Série “Ser no país da austeridade”

Escrever em tempos de cóleras e outras pestilências

Parece que, na Grécia antiga, ir ao teatro era tão importante como um dever de cidadania. Por isso o estado atribuía subsídios para que ninguém faltasse. Dizia-se que os professores ensinam as crianças e os poetas os adultos.

Hoje o Estado facilita imenso o estado a que isto chegou. Esta tendência para a carneirada, para o seguidismo, esta cultura do facilzinho, da imitação, da repetição, da réplica, da náusea, da recapitulação, do volta atrás e toca o mesmo, do lugar-comum, do óbvio, do estafado, das descobertas da pólvora…

Mais uma corrida, mais uma viagem. Instituiu-se o «temos de dar ao povo, aquilo que o povo quer». Ouçam as massas. Sejam democráticos. Sejam indulgentes, acolham a apatia, nivelem por baixo, escrevam coisas que toda a gente perceba, com o vocabulário corrente, tricotem frases, alinhavem parágrafos, alinhem palavras, falem sobre amor e pores-de-sol, sobre areais imensos e águas retemperadoras, sobre gins à beira da piscina e sushis (a malta gosta imenso de ler sobre comida), e que não lhes falte o paraíso tropical. Não compliquem, que o povo não pode ser incomodado, nem sobressaltado, e na volta ainda acorda alvoroçado, como quem desperta de um pesadelo do qual não pediu para sair.

Por isso cuidado, muito cuidado para não acordar a malta, que ainda vos acusam de arrogância ou, muito pior, de elitismo. Ah, as piedosas intenções, pois é. Aquela ideia repugnante do «explica-me como se eu tivesse 5 anos». Infantilizem-nos, pois, que eles gostam. E tem óptimas repercussões eleitorais. Não vale a pena, são palavras difíceis, construções frásicas elaboradas, é muito complicado, faz dores de cabeça, dá trabalho, eles não vão perceber, não captam as referências, não têm bagagem intelectuais, os pobres.

Façam finais felizes, que para tristezas já bastam as da vida. Descubram mistérios, códigos, doenças, escrevam romances históricos, boa!, histórias de príncipes e princesas. Façam livros sexys, com pessoas bonitas e bem vestidas. As pessoas gostam é de histórias que acabem bem, de pares que se reencontram no alto do Empire State Building, e têm muito filhinhos para sempre…

Tentem perceber o que se vai usar literariamente na próxima estação. Façam capas vibrantes de cor e, viva a alegria, títulos com palavras românticas como «paixão» e «pétala», embrulhinhos de gaze e laçarotes. Já agora, se pudessem pôr um pouco de néon nas capas, ficava tão bem nas nossas montras, nos nossos escaparates.

E vocês, mulheres escritoras, não se esqueçam, escrevam sobre sexo, com muitos palavrões, não desiludam a gente. E andem aos grupinhos, escolham a vossa tribo, elejam bem os vossos rivais, auto-protejam-se, excluam-se, que o sistema gosta de vos ver assim engavetados, tudo no seu devido lugar, para não haver confusões, encolerizados, roídos pela traça das invejas, cóleras e outras pestilências.

O nosso bem faz-vos tão mal. Vejam como, se a gente quiser, é possível ser escritor uma vida inteira na ausência total de talento, vejam os clubinhos, os lobizinhos, isto funciona tudo bem, é tudo tão conveniente…

E, depois, lá vem complacênciazinha. E os escritores que escrevem umas banalidades, tão medíocres como quaisquer outras, e são apaparicados, convidados, palmadinhas nas costas, milho aos pombos… E, quem sabe, assim, sejam aceites, como um cão tolerado pela gerência por não ser demasiado agressivo.

*Autora Convidada
Ana Margarida de Carvalho, escritora

Nota de referência:
A luta de classes é o motor da História, e por isso é preciso ir oleando a engrenagem. A luta do Manifesto74 é feita com palavras. É por isso que aqui não há colaboradores, empreendedores e empregadores. Escrevemos trabalhadores, empresários e patrões. Nesta luta temos o nosso lado bem definido. Estamos com os trabalhadores e as suas famílias, com os explorados e oprimidos. É para estas pessoas que escrevemos. São estas pessoas que queremos escutar. Publicaremos aqui uma série de textos de profissionais de várias áreas onde simplesmente lhes pedimos que nos falassem da sua profissão, do seu trabalho, do seu dia a dia. As palavras, as reflexões, as propostas, as denúncias, as exigências são de quem as escreve. Que os seus testemunhos sirvam para esclarecer e alimentar o debate. Que as palavras acrescentem força à luta e com eles se fortaleça.

Ser arquitecta no país da austeridade, por Joana Pereira

8 Série “Ser no país da austeridade”

É bom projectar a cidade, projectar o habitar, projectar cada espaço que serve o ser humano… para mim e para nós é uma função primordial, pois é presença constante em tudo no nosso quotidiano e que gera não só relações lógicas de vivência dos espaços, como também cria o património do amanhã.

É bom projectar, ser criativo e ter ideias para ajudar a solucionar problemas, as pessoas dizem; “oh arquitecto, como é que eu nunca me tinha lembrado disso antes?”, “oh arquitecto, era mesmo isto que eu queria”, “oh arquitecto precisava disto”, “oh arquitecto o que acha daquilo”. E é bom quando isso acontece, significa que de uma forma ou de outra o reconhecimento do nosso trabalho vai ganhando terreno. Mas infelizmente nem sempre isso acontece… e é então que me pergunto, porque continuamos nós sem uma tabela de honorários fixa e actualizada que possa defender estes arquitectos, que já vulneráveis às desculpas de uma suposta crise, não têm algo que os unifique e proteja… Desta forma, e desculpem a expressão, irão continuar a deitar-se muitas calças abaixo para que se consiga algum trabalho que coloque pão na mesa…

E esta é uma luta desleal, onde uma qualquer empresa de materiais de construção diz que faz “projectos de arquitectura” (que me fazem questionar se continuam a sair cupões na farinha Amparo, desta vez com cursos de arquitectura), mas mais grave são estes “arquitectos amparo” praticarem preços completamente inconcebíveis ou mesmo ditos gratuitos em forma de publicidade enganosa.

Esta é uma luta desleal, quando ainda há bem pouco tempo houve quem colocasse a possibilidade de nos tirar o direito a exercer alguns dos actos próprios da profissão, como a gestão e a fiscalização de obras. Já não basta a falta de condições em que grande parte dos jovens arquitectos trabalha hoje em dia, ainda lhes queriam tirar a oportunidade de poder fazer mais do que preencher burocracias de processos de camarários.

Felizmente tudo não passou de um susto e a coisa acabou por se resolver pelo melhor, mas o que vos digo, é que espero sinceramente que este seja um primeiro sinal de melhoras e de bom senso, para que a Arquitectura nacional consiga assumir o seu verdadeiro lugar em Portugal e com o valor que lhe merece ser dado! Por isso, se não queremos virar costas à Pátria temos de usar toda a criatividade para procurar alternativas e soluções à nossa própria condição, sem nunca nos resignarmos, numa constante procura de oportunidades, de fazer mais, melhor e diferente, lembrando-nos que apesar de todas as condições adversas que possam existir, os verdadeiros arquitectos, continuam a amar aquilo que fazem, a representar o país cada vez mais e melhor no mundo e isso ninguém nos pode tirar!

*Blogger Convidado
Joana Pereira, arquitecta

Nota de referência:
A luta de classes é o motor da História, e por isso é preciso ir oleando a engrenagem. A luta do Manifesto74 é feita com palavras. É por isso que aqui não há colaboradores, empreendedores e empregadores. Escrevemos trabalhadores, empresários e patrões. Nesta luta temos o nosso lado bem definido. Estamos com os trabalhadores e as suas famílias, com os explorados e oprimidos. É para estas pessoas que escrevemos. São estas pessoas que queremos escutar. Publicaremos aqui uma série de textos de profissionais de várias áreas onde simplesmente lhes pedimos que nos falassem da sua profissão, do seu trabalho, do seu dia a dia. As palavras, as reflexões, as propostas, as denúncias, as exigências são de quem as escreve. Que os seus testemunhos sirvam para esclarecer e alimentar o debate. Que as palavras acrescentem força à luta e com eles se fortaleça.

Ser técnico superior no país da austeridade, por Luís Capucha Pereira

7 Série “Ser no país da austeridade”

Sou o Luís, tenho 34 anos, e dizem que sou um privilegiado. É o que me fazem crer, e a realidade, muito sem eu querer, obriga-me a anuir – tenho trabalho, dos mais estáveis e dos que apresentam melhores condições. Nunca ganhei muito, mas o salário nunca atrasou.

No entanto, desde 2008 que não tenho aumentos. Um terço do meu salário esvai-se em impostos diretos. Já não era bom, mas tem piorado, fruto da sobretaxa de 3,5% em IRS, do aumento dos descontos para a ADSE, eu sei lá!, até tenho medo de olhar para o meu recibo de vencimento…
Como sou um privilegiado, impuseram que trabalhasse 40h semanais como os restantes trabalhadores portugueses, também eles privilegiados, mas um pouco menos. Como sou um privilegiado, impuseram que tivesse 22 dias de férias, e não 25, como os restantes trabalhadores portugueses, também eles privilegiados, mas um pouco menos. Como sou privilegiado, retiraram-me quatro feriados – um privilégio para todos os trabalhadores portugueses: esses privilegiados de grau diverso. (É preciso… pois!) Tenho a minha carreira congelada e, quando descongelar, sei que vou demorar 10 anos para progredir um pouquinho, para esperar mais dez anos para progredir mais outro pouquinho e, assim, de dez em dez anos, até à reforma cansada (com sorte e o colesterol controlado talvez dure além da esperança!).

Perdi, nos últimos cinco anos, 25% do meu poder aquisitivo. Sou o Luís, tenho 34 anos e dizem que sou um privilegiado porque tenho trabalho, dos mais estáveis e dos que apresentam melhores condições – se me portar bem, não tenho que emigrar. Trabalho numa Câmara Municipal.
Não conheço ninguém cujo sonho seja, ou tenha sido, trabalhar numa Câmara Municipal!

Mas… licenciatura em engenharia terminada (paga a sacrifícios familiares), perspetivas incertas como profissional de teatro, pouco useiro em anglicanismos e com pouco acesso a patrocínios para arriscar profissão de entrepreneur, dado a utopias emancipatórias que recusam a apropriação das mais-valias do meu trabalho, racionalizei – muito cá para mim – que trabalhar na função pública era trabalhar para todos e por todos e que o concurso para estágio profissional que decorria era uma boa oportunidade.

Concorri e entrei. Em 2007, trabalhar numa Câmara Municipal dava-me perspetivas. Em 2015, oito anos depois, ganho efetivamente menos do que quando entrei, como estagiário profissional; a perspetiva que tenho é a de que, quando me reformar daqui a trinta anos (?), possa ganhar aproximadamente mais 200€ do que aquilo que ganhava em 2007. De que serve mais um mestrado, mais uma formação avançada, mais uma e outra e outra formação, e a dedicação às populações que a autarquia serve? (Que me livrem e guardem de parecer mal-agradecido!)
————————————

Olho à minha volta: quantas vezes duvido que esta malta desmotivada e desiludida ainda saiba o que é sonho? O entusiasmo ao revés que advém do facto de, neste momento, trabalhar num município português talvez faça deste texto um exercício de escrita trágica e cansada. Sonho?
Somos o resultado dos sonhos enviesados dos que nos governam – o Soares sonhou e olhem para nós cá na Europa connosco lá; o sonho húmido do Sá Carneiro é a espuma bolorenta dos nossos dias… É o sonho deles que comanda a nossa vida, o que querem que diga? Como sonhar numa realidade que confunde a esperança e o futuro dos homens com um exercício de estatística? É mais fácil acreditar na minha estreia no D. Maria e na apresentação do meu mais recente livro na Feira Internacional de Paraty, que terei que conciliar com a preparação do dueto com o Leonard Cohen…
————————————

(Pronto: já me acalmei…) Esta crónica teve dezenas de começos e, agora que me aproximo do fim, ainda não sei se sei escrever sobre o que me propus. Sou o Luís, tenho 34 anos e chateia-me chamarem-me privilegiado porque trabalho numa Câmara Municipal. Mas vivemos numa sociedade de mínimos e de devoção às inverdades – enleiam-nos no discurso das inevitabilidades e é mais fácil culpar o funcionário público mais à mão, numa fuga para a frente que é a génese do ódio.

Não condescendo. E prefiro não atacar moinhos. Para toda a culpa há culpados e para todo o problema há solução. Não estou sozinho. Sim, resisto e resistimos. Sim, luto e lutamos. Sim, claro, há sonho em mim e há sonho em nós. Sim, há o desejo de fazer um bom trabalho, um trabalho digno, que facilite a vida aos munícipes, que lhes proporcione uma boa qualidade de vida, que enquadre a sua felicidade. Sim, queremos afirmar e reforçar os nossos direitos, pelos quais tanta gente lutou e que tanto custaram a conquistar. Sim, é uma tarefa hercúlea encontrar e inspirar motivação, mas faz-se – dia a dia. Sim, quero ser feliz e sonhar sempre. E não o quero fazer sozinho. Sou o Luís, tenho 34 anos e tenho o privilégio de trabalhar para todos e por todos numa Câmara Municipal.

*Blogger Convidado
Luís Capucha Pereira, Técnico Superior na CMVFX

Nota de referência:
A luta de classes é o motor da História, e por isso é preciso ir oleando a engrenagem. A luta do Manifesto74 é feita com palavras. É por isso que aqui não há colaboradores, empreendedores e empregadores. Escrevemos trabalhadores, empresários e patrões. Nesta luta temos o nosso lado bem definido. Estamos com os trabalhadores e as suas famílias, com os explorados e oprimidos. É para estas pessoas que escrevemos. São estas pessoas que queremos escutar. Publicaremos aqui uma série de textos de profissionais de várias áreas onde simplesmente lhes pedimos que nos falassem da sua profissão, do seu trabalho, do seu dia a dia. As palavras, as reflexões, as propostas, as denúncias, as exigências são de quem as escreve. Que os seus testemunhos sirvam para esclarecer e alimentar o debate. Que as palavras acrescentem força à luta e com eles se fortaleça.

Ser enfermeiro no país da austeridade, por Mário A. Macedo

6 Série “Ser no país da austeridade”

6H00. O despertador faz eco pelo quarto. Acordo num sobressalto, sem saber ao certo o que se passa. Faz já 3 semanas desde a última folga. O corpo já pede descanso, mas arrasto-me para fora da cama para mais um turno. Desde que a “crise” começou que somos cada vez menos, rara é a semana que não há notícia de mais um colega a fazer as malas e a emigrar para o Reino Unido, Irlanda, França, Suíça… Só no período 2010-2014 foram mais de 10.000 colegas a fugir de país que não oferece ordenado condigno, que não oferece carreira, que não oferece um trabalho… que não oferece um futuro! Destas dezenas de milhares de enfermeiros, apenas uma fracção foi substituída, cabe a quem fica trabalhar por 2 ou 3. Não deixa de ser incompreensível esta situação, uma vez que é na enfermagem onde encontramos uma das mais altas taxas de desemprego, superior a 50% entre os recém-licenciados!

Enquanto tomo café na mesa da cozinha, olho para o lugar reservado à minha mulher. Está vazio. Faz agora 48 horas que não a vejo. Também trabalha por turnos, também sofre da sobrecarga horária imposta. Ambos trabalhamos para o estado, mas não somos funcionários públicos. Há cerca de uma década que estamos no limbo. Não obstante, quando o patrão estado precisa de cortar, não tem prurido em vir aos nossos bolsos… Já quando se trata de ter as (que ainda resistem) benesses de ser funcionário público, nem por um canudo! Com a crise que nos foi imposta, o nosso agregado familiar perdeu cerca de 20% do rendimento. Para colmatar esta diminuição, coube-me a mim procurar e arranjar um trabalho extra. Neste extra, estamos todos na mesma situação. Apenas cerca de 10% da equipa é “da casa”, todos os restantes estão na mesma situação. Suportam um patrão com técnicas de gestão agressivas, sem o mínimo de respeito pelos trabalhadores nem pelos seus direitos de parentalidade, menos horas disponíveis para a família e para o descanso, a injustiça de ver o vencimento ser diminuído sem pré-aviso, ver colegas a ser despedidos com o nítido objectivo de meter medo a quem fica. E aguentam tudo isto não para ganhar mais, mas para ganhar o suficiente!

Depois de verificar onde faço o turno, enfio-me no trânsito com a preocupação de chegar a horas para render os colegas. Fazer noite é ingrato, nada saudável, e cada vez mais mal pago. Merece pelo menos ser rendido a horas. A afluência no serviço de urgências é enorme. Custa acreditar que há tanta gente doente. Mas este caos é de fácil explicação. Faltam recursos humanos, faltam cuidados de saúde primários, falta uma política de promoção de saúde; por outro lado temos uma população mais fragilizada por 7 anos de privações, em que até a comida e medicamentos foram alvo de cortes.

Somos poucos para tanto trabalho, andamos sempre a correr. Mal comum a todas as classes profissionais… Além de enfermeiros, faltam médicos, auxiliares e técnicos. Não faltam por não haver, faltam por falta de vontade em contratar.

Quem chega, vem a medo. Depois de anos a ouvir tantas notícias estranhas nos jornais é normal que assim seja. De facto a campanha para descredibilizar o SNS é muito bem feita, há que o reconhecer.

Ao fim de 8 horas de trabalho, perdi a conta do número de utentes que passaram por mim. Comi de pé em 10 minutos, bebi o café de penalti mal saiu da máquina e nem houve tempo para comentar o fim de semana futebolístico. O telefone toca, uma das colegas que viria para o turno da tarde afinal já não vem. Tem a filha doente. Como estamos nos mínimos, alguém da manhã vai ter que seguir turno. Como é óbvio, ninguém o quer fazer. Será a sorte a decidir. Fazemos papelinhos com os nossos nomes e o fado não me sorriu. Para cúmulo, logo vou ter que fazer noite no segundo trabalho, o que significa trabalhar 24 horas seguidas, e apenas voltar a ver a minha família 3 dias depois… Acho que me vou sentar para beber um café e respirar fundo!

*Blogger Convidado
Mário A. Macedo, enfermeiro

Nota de referência:
A luta de classes é o motor da História, e por isso é preciso ir oleando a engrenagem. A luta do Manifesto74 é feita com palavras. É por isso que aqui não há colaboradores, empreendedores e empregadores. Escrevemos trabalhadores, empresários e patrões. Nesta luta temos o nosso lado bem definido. Estamos com os trabalhadores e as suas famílias, com os explorados e oprimidos. É para estas pessoas que escrevemos. São estas pessoas que queremos escutar. Publicaremos aqui uma série de textos de profissionais de várias áreas onde simplesmente lhes pedimos que nos falassem da sua profissão, do seu trabalho, do seu dia a dia. As palavras, as reflexões, as propostas, as denúncias, as exigências são de quem as escreve. Que os seus testemunhos sirvam para esclarecer e alimentar o debate. Que as palavras acrescentem força à luta e com eles se fortaleça.

Ser técnico de manutenção de aeronaves no país da austeridade, por João Silva

5 Série “Ser no país da austeridade”

Nos hangares da TAP o ambiente é de apatia e descontentamento. Os trabalhadores cumprem as suas tarefas com o rigor de sempre (que ainda hoje garante que seja a terceira companhia aérea mais segura de toda a Europa), mas sem o empenho de outros tempos. À medida que a privatização paira sobre nós, a força e a união de todos aqueles que lutaram para defender esta empresa parece esbater-se, como se tudo o que foi feito ao longo destes anos tivesse sido em vão.

Entre os que trabalham connosco, mesmo entre os mais velhos, já não existem muitos que tenham vivido o 12 de Julho de 1973, quando a polícia de choque entrou pelos portões da empresa adentro: 5000 operários que se manifestavam pacificamente em prol dos seus direitos foram selvaticamente corridos à cacetada, num acto de desafio à ditadura, ainda 9 meses antes do 25 de Abril. Muitos há, no entanto, que se recordam do dia 29 de Outubro de 1993, quando trabalhadores da manutenção invadiram a pista do aeroporto na reivindicação de salários por pagar, sendo vulgarmente reprimidos pelos bastões da autoridade. Já não era Marcelo Caetano quem governava, mas sim Cavaco Silva, que quando entrevistado em Bruxelas sobre os acontecimentos defendeu a acção das forças policiais, preferindo “beber champanhe à união europeia” do que comentar em profundidade o sucedido.

O que ficou destes episódios para nós, os mais novos, foi como sempre foi forte a intervenção de todos os trabalhadores na luta pela sua empresa, de como nunca tiveram receio de dar o corpo e a cara pelos seus direitos mais fundamentais. Muitas vezes foram incompreendidos pela sociedade, acusados de fomentarem demasiadas greves, de fazerem demasiadas exigencias. Mas que outra forma existia de garantirem os seus (e agora nossos) direitos?

Hoje está tudo diferente. Um certo cinismo paira no ar, um sentimento de impotência perante a realidade esmagadora dos factos: de que apesar de todo o esforço e empenho dos que aqui trabalham, a privatização parece ser inevitável desta vez. Mas existem ainda muitos que não baixaram os braços, que ao longo de todos estes anos de austeridade não deixaram de participar nas greves nas quais se lutou contra a retirada dos direitos obtidos desde o fim da ditadura. Que apesar do sentimento inexorável de que a empresa será vendida, não deixam de participar em acções e movimentos que se opõem à privatização. Que, apesar das circunstancias, ainda não perderam o seu sentimento aguerrido de desafio, como no dia 27 de Janeiro de 2012, quando numa acção espontânea e não planeada, os trabalhadores da manutenção fecharam o portão da empresa durante mais de 8 horas como protesto contra a sequência imparável de cortes nos subsídios e direitos conquistados ao longo de tantas décadas de sacrifício e sofrimento. Com eles estive em todos esses dias nos últimos 6 anos, desde que lá comecei a trabalhar. E a todos eles saúdo, por nunca terem baixado os braços perante a injustiça e a opressão.

Não podemos adivinhar o futuro, poderiam eles dizer se estivessem a escrever este artigo comigo. Mas só lutando por ele no presente poderemos dar às gerações seguintes os mesmos direitos que nós sempre tivemos. Dentro ou fora da empresa, estendo-vos a mão, chamando-vos para este combate que não é só meu, nem da Manutenção da TAP, nem do resto da empresa, mas de todo um país: pois os tentáculos da austeridade atingem-nos a todos, seja qual for a nossa profissão ou empresa, sejam quais forem os nossos sonhos ou perspectivas para o futuro. A TAP poderá ser vendida, mas não vencida. Reestruturada, mas não quebrada. Lutaremos até ao fim.

*Blogger Convidado
João Silva, Técnico de Manutenção de Aeronaves, TAP

Nota de referência:
A luta de classes é o motor da História, e por isso é preciso ir oleando a engrenagem. A luta do Manifesto74 é feita com palavras. É por isso que aqui não há colaboradores, empreendedores e empregadores. Escrevemos trabalhadores, empresários e patrões. Nesta luta temos o nosso lado bem definido. Estamos com os trabalhadores e as suas famílias, com os explorados e oprimidos. É para estas pessoas que escrevemos. São estas pessoas que queremos escutar. Publicaremos aqui uma série de textos de profissionais de várias áreas onde simplesmente lhes pedimos que nos falassem da sua profissão, do seu trabalho, do seu dia a dia. As palavras, as reflexões, as propostas, as denúncias, as exigências são de quem as escreve. Que os seus testemunhos sirvam para esclarecer e alimentar o debate. Que as palavras acrescentem força à luta e com eles se fortaleça.

Ser arquitecto no país da austeridade, por Tiago Mota Saraiva

4 Série “Ser no país da austeridade”

 Fotografia de Cláudia Lima da Costa

Em Dezembro de 2015 passará vinte anos desde que comecei a trabalhar num atelier de arquitectura. Era estudante e nesse tempo eram poucos os estudantes que não acumulavam a escola com o início da profissão.
Terminado o curso, em 2000, decidi emigrar. Mas não foi um emigrar como os de agora, que mais parece um exílio. Como tantos outros colegas parti por uns anos na certeza de regressar no momento em que decidisse.

Preparado o portfolio enviei candidatura para oito ateliers de arquitectura e lancei-me num interrail pela Europa em que fui visitando amigos e fazendo entrevistas de trabalho.

Fiquei por Roma. Dois anos. Tive a minha dose de arquitecto-estrela. Projectávamos para todo o mundo com orçamentos galácticos. Fazíamos concursos de arquitectura como poucos, produzíamos como uma intensa fábrica de ideias, poucas eram as noites em que as luzes do atelier se apagavam – nunca mais consegui/quis fazer uma directa a trabalhar depois daqueles anos. Na fábrica vi passar muita gente. Quando anunciei o meu regresso a Portugal era o quinto arquitecto mais antigo da empresa (sim, tínhamos contratos!) e coordenava equipas de trabalho com gente com mais dez anos que eu. Estava com 25 anos.

Regressei para construir uma vida. Mas a tarefa não se afigurava fácil.

Na administração pública, a ministra das finanças Manuela Ferreira Leite, iniciava as primeiras investidas tendentes ao seu desmembramento tornando praticamente impossível o acesso a quem se apresentava com curriculum profissional na área. Nos ateliers imperava o trabalho precário, a recibo verde, com o qual fui adiando uma solução.

Chegado a 2003, com um conjunto de colegas de universidade e a partir de um trabalho promovido pela Experimenta Design – na altura, a EXD, era um autêntico viveiro de novos colectivos de arquitectura de Lisboa –, decidimos iniciar um atelier. Éramos cincos dos quais um, eu, sempre tinha afirmado que não gostaria de iniciar um atelier antes dos 50. Mas era uma questão de sobrevivência. Inevitável. Tratava-se de assumir o controlo sobre a nossa precariedade. Durou dois anos. Correu mal. Havia filosofias de vida e ideais muito diferentes. Inconciliáveis.

Entre quatro, decidimos avançar para outra plataforma – o ateliermob – que cumpre este ano dez anos.

O ateliermob é uma empresa, costumo dizer que usa a arma do inimigo. Começou por ter trabalho a partir de concursos públicos. De 2005 e 2008 cresceu sempre. Entre 2008 e 2010 abanou. Os dinheiros públicos concentravam-se nas escolas e centros de saúde e a encomenda era distribuída sem concurso. Um a um, os projectos que tínhamos sobre a mesa iam parando.

Mas é durante esses anos, a partir de uma profissão que pensa o futuro e que por isso está sob ameaça, que começámos a pensar um novo modelo de trabalho. Chamamos-lhe: trabalhar com os 99%.

A partir de comunidades que necessitem de serviços de arquitectura, mas que não tenham meios para os pagar (um universo cada vez mais próximo dos 99%), desenvolvemos um programa e uma ideia de trabalhos, calendarização e orçamentação. O tempo que outrora gastávamos em concursos, gastamo-lo na concepção destes documentos. Depois, com as populações, vamo-nos candidatando a financiamentos públicos ou privados, nacionais ou internacionais. Só quando o financiamento chega é que podemos começar o trabalho. Dizemo-lo sempre. Não somos voluntários, não fazemos caridade, não trabalhamos à borla. Temos contratos, prazos de execução e trabalhadores. Não somos arquitectos-bonzinhos, somos profissionais de arquitectura.

*Blogger Convidado
Tiago Mota Saraiva, arquitecto

Nota de referência:
A luta de classes é o motor da História, e por isso é preciso ir oleando a engrenagem. A luta do Manifesto74 é feita com palavras. É por isso que aqui não há colaboradores, empreendedores e empregadores. Escrevemos trabalhadores, empresários e patrões. Nesta luta temos o nosso lado bem definido. Estamos com os trabalhadores e as suas famílias, com os explorados e oprimidos. É para estas pessoas que escrevemos. São estas pessoas que queremos escutar. Publicaremos aqui uma série de textos de profissionais de várias áreas onde simplesmente lhes pedimos que nos falassem da sua profissão, do seu trabalho, do seu dia a dia. As palavras, as reflexões, as propostas, as denúncias, as exigências são de quem as escreve. Que os seus testemunhos sirvam para esclarecer e alimentar o debate. Que as palavras acrescentem força à luta e com eles se fortaleça.

Ser músico no País da Austeridade, por Tiago Santos

3 Série “Ser no país da austeridade”

Toda a gente sabe que os músicos são um empecilho para a sociedade, a não ser que alguém deles consiga fazer um bom dinheiro. São irreverentes, preguiçosos, e usam demasiados palavrões. Para muitos deles a vida só não é um cabaret porque são as suas próprias vidas que fazem mover o cabaret. Os risos, as palmas, o convívio, os ensaios, a dança, a orquestra que só respira quando toca ao vivo, a voz que só acorda para poder cantar.

Mas na música, para a maioria dos músicos o espectáculo fecha-se com a última luz. De trás do palco em diante, os acordes de canções, as palavras de amor e raiva, são substituídas pelo cansaço de uma vida de risco. Sim, sabemos que a crise e a precariedade sempre cá estiveram, mas que agora se agrava ainda mais com o desemprego e os cortes a assaltarem também as casas e as famílias, onde antes ainda se escondia alguma segurança.

Na música, existe uma sala e uma porta, onde tu entras para dar o teu melhor mas quando sais, só encontras uma percentagem da bilheteira que muitas vezes mal dá para a viagem de regresso. Mas é de paixão e nervo que é feita esta profissão e por isso levantamos a cabeça e seguimos. Mas seguimos sós, sem olhar para o lado, sem reforçar o nosso caminho de trabalhadores da música. Desunidos, somos uma classe profissional sem quaisquer direitos nem remuneração, um verdadeiro caso de exploração capitalista selvagem em pleno séc. XXI. É por isso urgente que os músicos se unam em torno dos seus sindicatos, se organizem e tomem partido, se mobilizem pela luta dos trabalhadores e pelos seus direitos ao trabalho, à remuneração e à cultura. Juntamente com estes problemas do valor trabalho e do sub-pagamento, os músicos vêem ainda as suas vidas penhoradas pela Segurança Social, enquanto o primeiro-ministro escapa impune a anos de fuga às suas obrigações. Os músicos sentem a falta de um estatuto do artista que os proteja num mercado selvagem que pratica o trabalho gratuito com a mera exposição como contrapartida, mas um trabalho que de facto fornece conteúdos, anima eventos lucrativos e constrói cartazes comerciais para quem desse trabalho se apropria sem retribuir.

A vida dos músicos está longe do glamour luminoso das imagens dos concursos de televisão. Muitos têm de optar por trabalhos alternativos, longe da música e da actividade que escolheram e para a qual se prepararam. Muitos perdem assim o ritmo do trabalho e desistem, outros perseguem um sonho que dia a dia se afasta à medida que o apelo constitucional do direito de todos à fruição e à criação culturais, se tornam vãs ilusões nos discursos dos partidos do arco do poder. Mas é na luta, é na recuperação da dignidade roubada, num país onde as desigualdades também aqui vencem e ganham terreno, que os músicos podem cantar novos hinos de esperança. Havemos de chegar ao fim da estrada, assim estejamos dispostos a dialogar, a lutar a unir esforços por uma política alternativa e de esquerda.

*Blogger Convidado
Tiago Santos, músico

Nota de referência:
A luta de classes é o motor da História, e por isso é preciso ir oleando a engrenagem. A luta do Manifesto74 é feita com palavras. É por isso que aqui não há colaboradores, empreendedores e empregadores. Escrevemos trabalhadores, empresários e patrões. Nesta luta temos o nosso lado bem definido. Estamos com os trabalhadores e as suas famílias, com os explorados e oprimidos. É para estas pessoas que escrevemos. São estas pessoas que queremos escutar. Publicaremos aqui uma série de textos de profissionais de várias áreas onde simplesmente lhes pedimos que nos falassem da sua profissão, do seu trabalho, do seu dia a dia. As palavras, as reflexões, as propostas, as denúncias, as exigências são de quem as escreve. Que os seus testemunhos sirvam para esclarecer e alimentar o debate. Que as palavras acrescentem força à luta e com eles se fortaleça.

Ser actriz no país da austeridade, por Luisa Ortigoso

2 Série “Ser no país da austeridade”

COISAS DO GLAMOUR

Quando aos 12 anos, numa reunião de família, me perguntaram o que queria ser no futuro, respondi com a certeza da adolescência: “Actriz, vou ser actriz!”. Toda a gente se riu. E eu resolvi que nunca mais ia falar sobre o assunto. E não falei.

O cheiro do teatro colava-se a mim de uma forma que tornava o caminho inevitável.

Quando aos 20 anos me estreei como actriz profissional, senti-me uma menina na véspera de Natal. Que emoção. Que felicidade. O teatro, as palavras partilhadas, os espectáculos, o público. A vida.

Tirando o facto de ter uma profissão que eu considerava “especial”, nada me separava de qualquer outro cidadão profissionalmente activo. Tinha um salário, os direitos de qualquer outro trabalhador (direito a baixa por doença, licença de parto, subsídio de desemprego em caso de necessidade…). Tudo estava certo.

Um dia houve um senhor (diz que agora é presidente da república) que acordou com uma ideia : “’bora lá dar recibos verdes a esta gente e eles que se desenrasquem!” . A ideia era tão boa que os recibos verdes, saíram azuis da tipografia…

Começou aí o nosso caminho para o calvário. Direitos, nenhuns. Deveres, todos. As passadeiras vermelhas escondem casas penhoradas, dívidas à segurança social, adultos que vivem com os pais, que não têm condições para terem os seus próprios filhos, que trabalham doentes para não perderem “aquele” trabalho, que trabalham 12 e 13 horas com cachés bastante inferiores aos que tinham há 15 anos, que (entre irs e segurança social) deixam ao estado mais de 50% do que ganham.

A minha “romântica” profissão, tornou-se numa luta diária pela sobrevivência para a maioria das actrizes e actores deste país.

O Estado (que devia ser de direito) tornou todos os trabalhadores de espectáculo em mentirosos militantes. Todos somos trabalhadores “independentes”, diz o estado (com letra minúscula, porque um estado assim não tem nada de grande em si, nem mesmo a letra).

Continuo a pensar que a Arte e a Cultura são um direito de todos (assegurado na Constituição da República Portuguesa. São um direito para quem usufrui e para quem faz da Arte e da Cultura a sua vida.

Continuo a querer ser o que sou. Mas quero os meus direitos de volta. Quero a minha carteira profissional de volta. Quero o meu estatuto profissional de volta. Quero a minha vida de volta.

*Blogger Convidado
Luisa Ortigoso, actriz

Nota de referência:
A luta de classes é o motor da História, e por isso é preciso ir oleando a engrenagem. A luta do Manifesto74 é feita com palavras. É por isso que aqui não há colaboradores, empreendedores e empregadores. Escrevemos trabalhadores, empresários e patrões. Nesta luta temos o nosso lado bem definido. Estamos com os trabalhadores e as suas famílias, com os explorados e oprimidos. É para estas pessoas que escrevemos. São estas pessoas que queremos escutar. Publicaremos aqui uma série de textos de profissionais de várias áreas onde simplesmente lhes pedimos que nos falassem da sua profissão, do seu trabalho, do seu dia a dia. As palavras, as reflexões, as propostas, as denúncias, as exigências são de quem as escreve. Que os seus testemunhos sirvam para esclarecer e alimentar o debate. Que as palavras acrescentem força à luta e com eles se fortaleça.