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Exaustão médica: Realpolitik VS. A Puta da Realidade

Quando vamos ao médico queremos ser atendidos bem, rapidamente e de preferência sair de lá curados. Calculo que todos os profissionais que nos atendem no SNS e no privado desejem o mesmo, Hipócrates assim obriga. Certamente que, como em todas as profissões, haverá melhores e piores profissionais, é o que é, não há grande volta a dar. Mas no caso dos médicos e médicas, quando há um erro é grave, é mais grave do que em quase todas as outras profissões. E não são poucas as notícias que nos chegam de possíveis negligências médicas ou de consultas que demoraram meses a acontecer e depois foram despachadas em minutos.

E se devemos continuar a exigir que principalmente no SNS a excelência, a paciência, a simpatia, o profissionalismo, a dedicação, sejam as únicas bitolas possíveis, o que fazer quando nos deparamos com um clínico que não dorme há mais de um dia inteiro? Que tem o cansaço de anos totalmente estampado no rosto? Que é obrigado a fazer horas extraordinárias sem fim e sem pagamento? Que aceita tudo isto porque Hipócrates assim obriga e porque o SNS tem de fazer tudo para ser eficaz, para combater as listas de espera, para combater a desorganização provocada pela falta de médicos, enfermeiros, auxiliares e administrativos.

E de repente ficamos a saber que “quase metade dos médicos da zona centro do país apresenta sinais de exaustão emocional, um fenómeno também conhecido por burnout. Um estudo agora divulgado pela secção centro da Ordem dos Médicos revela que um em cada quatro clínicos sofre de depressão. Os médicos mais jovens e os do sexo feminino são os mais afectados.

É ver a reportagem e perceber que na verdade toda a gente sabe disto. Nós, utentes, nós, profissionais de saúde, nós, directores hospitais e regionais de saúde, nós, governantes que tutelamos a saúde, nós, governos. Nós, todos nós, sem excepção sabemos desta realidade, nós, todos nós, sem excepção somos responsáveis por ela. Seja por convicção, por decisão, por escolha ou por omissão.

Devemos começar a aceitar os erros e a negligência médica propositada ou involuntária? Claro que não, devemos continuar vigilantes e denunciar todo e qualquer caso que se configure como tal.
O que não podemos é continuar a fingir que os cortes na saúde – o tal racionamento…- não têm consequências dramáticas, não colocam utentes e profissionais do SNS em risco. Não podemos continuar a fingir que o corte é de dinheiro, é de vidas que falamos.

Aqueles de nós que querem destruir o SNS para beneficiar o privado estão no seu direito, é uma escolha ideológica ou simplesmente uma escolha que trará aos próprios benefícios financeiros. Aos outros de nós, aos que não aceitam a destruição do SNS nem dos direitos laborais dos seus profissionais, contribuindo para a degradação do atendimento, é que cabe fazer de contra-peso, fazer toda a força para que a balança penda para o nosso lado.

Realpolitik vs. A Puta da Realidade

É o não há dinheiro, é o é preciso fazer cortes para não salvar o que ainda temos, é o a banca não pode colapsar porque senão vem aí o apocalipse. É a realpolitik dos números, das percentagens, das novas e belas teorias económicas que brincam com a tua fome, com o teu desemprego, com a tua mente insana em corpo doente.

E a puta da realidade? É a tua, a de todos os dias. A do teu pai que morreu à espera de ser observado, da tua mãe que podia ter sobrevivido se houvesse mais uma ambulância do INEM, da tua filha que se tivesse sido observada por médico bem acordado não tinha piorado o seu estado, dos teus dias de médico ou enfermeiro que te fazem falhar mesmo quando fazes todo o esforço para que isso não aconteça.

A IVG e os direitos da mulher – o muito que ainda há por fazer

Imagina que engravidas.
Imagina que decides fazer uma IVG.
Imagina que vais ao hospital fazer a consulta.
Primeiro, fazem-te uma ecografia, para aferir o tempo de gravidez.
Depois, marcam-te para uma semana depois, para a consulta com o/a médico/a.
Agora imagina:

Entras. Perguntam-te as habilitações académicas. Dão-te um papel. Não te explicam nada. Perguntas como é o procedimento.
«Está no papel que lhe dei».

Não percebes bem o que se está a passar.

«Quer falar com um psicólogo? Tem que esperar obrigatoriamente três dias» – Não tem, a lei da direita foi revogada. Esta sim dizia:  c) A obrigatoriedade de acompanhamento psicológico, durante o período de reflexão; »

Contudo, em 2016 foi repristinada a sua redacção anterior que diz que a informação devem proporcionar o conhecimento sobre:

a) As condições de efectuação, no caso concreto, da eventual interrupção voluntária da gravidez e suas consequências para a saúde da mulher; 
b) As condições de apoio que o Estado pode dar à prossecução da gravidez e à maternidade; 
c) A disponibilidade de acompanhamento psicológico durante o período de reflexão; 
d) A disponibilidade de acompanhamento por técnico de serviço social, durante o período de reflexão. 

Pagaste taxa moderadora – mas afinal não tens que pagar porque como a lei da direita foi revogada, é aplicável o Decreto-Lei 113/201, de 29 de Novembro (repristinada pelo art.º 3.º da Lei n.º 3/2016, de 29 de fevereiro), logo estás isenta.

«E agora o que se segue, eu não sei quais os procedimentos!» – Estão no papel.

Quando posso então voltar cá? «Quando houver consulta. Nós ligamos».

Levantas-te e trazes um papel contigo em que a médica assinalou, por ti, em como foste esclarecida e informada e terás que assinar esse papel.

O meu conselho foi: regista tudo. No fim, faz uma participação da médica e do hospital por violarem a lei e desrespeitarem, desta forma tão aviltante, quem se dirige a uma consulta destas.

Não foi para isto que lutei tantos anos. Estive lá, de corpo, de alma, anos seguidos até conseguirmos a alteração da lei. Mas a igualdade e a dignidade não se impõem por decreto e ainda há muito a fazer. E a julgar por este exemplo, muitas mulheres estarão a ser maltratadas por profissionais de saúde que não têm o direito de julgar ou tratar mal quem quer que seja.

Que sirva de alerta e que todas denunciem estes comportamentos.

Quem matou David Duarte?

A morte do David Duarte não tem outro nome. É um assassinato. E quando assim é, a culpa não é só de quem dispara. É também de quem aponta e de quem dá a ordem. É de quem o encaminhou para um hospital sem recursos humanos, é de quem deu a ordem de limitar o financiamento à assistência hospitalar e é de quem a executou. É, principalmente, do anterior ministro da Saúde que, antes, havia sido administrador de uma seguradora e que seguiu os interesses dos grandes grupos económicos e financeiros na gestão do Serviço Nacional de Saúde. É de Passos Coelho e de Paulo Portas que nos chamaram piegas e exigiram que aguentássemos a tragédia sem protestar.

Este é o retrato de um país esmagado pelas políticas impostas por PS, PSD e CDS-PP a mando do FMI, da UE e do BCE. Se a raiva que nos corre nas veias é a mesma de quando vemos os corredores hospitalares cheios de macas como se tivesse havido um terramoto, se é a mesmo de quando vemos os nossos idosos pedir esmolas pelas ruas, se é a mesma de quando as entradas das lojas se enchem de sem-abrigo ou de quando os aeroportos são a porta de saída dos nossos familiares, se é a mesma de quando temos, uma e outra vez, de deixar de alimentar decentemente os nossos filhos para pagar a dívida dos bancos, se é assim, então, não temos de nos espantar quando outros povos arrastam violentamente do poder os carrascos que os conduzem ao abismo. É urgente romper com o capitalismo.

Eles moem e matam

“Eu vou dar-lhe os números”. Foi desta forma que Paulo Macedo respondeu numa audição parlamentar, pedida pelo PCP, sobre o estado das urgências. O agendamento teve de ser potestativo para que Paulo Macedo se dignasse a ir ao Parlamento dar explicações aos deputados. De outro modo, continuaria calado, mudo, que é como eu o ouço quando vem com as frases feitas que ouvimos todos os dias do gangue de criminosos que nos governa. “Eu vou dar-lhe os números”, disse ele. Entretanto, as urgências continuam caóticas. Os tratamentos para o cancro em modo de espera e o medicamento para a hepatite C está a ser sonegado a cerca de 4.000 pessoas que dele necessitam para sobreviver.

Se é inegável que a indústria farmacêutica funciona numa espécie de máfia, talvez o lobby mais poderoso dos nossos tempos, a verdade é que morreu uma doente com hepatice C que poderia ter sido salva. O governo está a negociar, ao que parece, porque o fármaco custa 40.000 euros.

Seria importante saber a partir de que valor o governo considera que vale a pena salvar uma vida. 40.000 euros, pelos vistos, é demasiado. Assim, deixou morrer. Dito de outra forma, matou. Matou aquela mulher como matou muitos outros que chegam ao SNS depois de contarem os tostões para saber se podem pagar as taxas moderadoras. E demasiado tarde, com certeza, não raras vezes.

“Eu vou dar-lhe os números”, disse o Paulo Macedo, que continua ministro. O ministro de um governo que faz tanta questão de assinar de cruz tudo o que a Troika mandou, de braço dado com o PS, está agora a negociar a vida das pessoas. Contas feitas por alto, de acordo com o governo, para os 4.000 seres humanos que precisam do medicamento, incluindo os cerca de 160 que precisam dele urgentemente, 16.000.000 de euros é um preço demasiado alto. São 16 milhões de euros, 1000 vezes menos do que estamos a pagar para resgatar bancos, propriedade dos amigos dos sucessivos governos.

É evidente que é preciso encontrar forma de travar a indústria farmacêutica, que joga com a vida das pessoas da forma que for mais rentável. Mas isso faz-se consistentemente, com um plano de acção que não é só nacional, não se faz quando as pessoas estão a morrer porque o governo se recusa a dar-lhes assistência.

“Eu vou dar-lhe os números”, disse ele, com a maior naturalidade. O problema está aqui, como sempre esteve. Quando se fala de números há quem esqueça que estamos a falar de pessoas, de seres humanos, de gente que tem de ter acesso aos direitos mais básicos numa sociedade que se auto-intitula desenvolvida.

“Eu vou dar-lhe os números”, digo agora eu. Dou-lhe o 1.000. 1.000 vezes criminoso, 1.000 vezes incompetente, 1.000 vezes assassino.

O mata-oito – até agora

Há 14 dias, escrevia-se aqui que Paulo Macedo continuava sem se demitir, após duas mortes em salas de espera de hospitais. Hoje, o número chegou a oito e continua a não haver notícias de demissão. Nem notícias do ministro, que apareceu há cerca de uma semana a dar umas desculpas esfarrapadas, em jeito de “vamos apurar” e “vamos investigar”. Esta espécie de país está assim. A morrer aos bocadinhos, à espera, ao abandono, às mãos de criminosos, às vontades que já não são obscuras – são clarinhas como água – de um bando. Não é um gangue porque a intimidação é mais subtil e surge através de taxas moderadoras que de moderadas têm quase nada.

Estávamos todos ocupados a ser o Charlie que nunca fomos nem seremos enquanto estas pessoas foram morrendo aqui ao lado. Mais os outros milhares na Nigéria, que surgem em fotografias como retratos da nossa hipocrisia.

Dias antes do início desta vaga de mortes, que a imprensa, púdica e pouco charlieana apresenta como “alegadamente provocadas por falta de assistência”, o governo esteve na inauguração de mais um hospital privado, desta vez em Vila do Conde.

Pelo meio, foram surgindo notícias de médicos que emigram, a juntar aos enfermeiros que lhes seguem os passos à procura de uma vida que os sucessivos governos lhes negam. A morte nas salas de espera deve ser das coisas mais indignas que este governo provocou. E o rol de indignidades é bastante grande. Isto não sucede por acaso. São demasiados acasos para o serem.

Vivem-se dias de caos nas urgências hospitalares e não há um responsável político que seja capaz de assumir que o caminho traçado está errado. Que as pessoas não são os mercados e menos ainda mercadorias. É o expoente máximo daquela frase que é todo um programa e, simultaneamente, um resumo do programa do governo: as pessoas não estão melhores mas o país está. E quando o país já não tiver pessoas será o paraíso; pagam os mortos, acharão eles.

Este bando de criminosos que está à frente dos destinos das nossas vidas – por muito que nos custe e a mim custa muito – é dos mais incapazes da história da nossa curta democracia. Ou não. Este é exactamente no caminho que interessa seguir. Acabar com o Serviço Nacional de Saúde e encaminhar tudo para os privados, aumentando os lucros de empresas como a extinta Espírito Santo Saúde, por exemplo. E sabemos todos como acabou esta história, não sabemos?

À hora a que acabo este post, Macedo continua ministro.