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Rui Moreira Rio

O Rui Moreira confunde a sua vontade com a vontade da cidade do Porto. Felizmente, e como todos sabemos, já existia Porto antes do Rui Moreira e, curiosamente, também já existia PCP antes do Rui Moreira. O PCP está a favor da cidade do Porto, como sempre esteve, embora esteja contra o Rui Moreira. Por incrível que isso possa parecer, ao presidente da CMP, há quem não concorde ele. Chama-se democracia e foi por isso que o PCP lutou anos e anos na clandestinidade, embora isso possa parecer estranho a quem representa, encapotadamente, os dois partidos que são herdeiros da outra senhora.



Rui Moreira, tão defensor da independência do Porto e do norte, confundindo os dois tantas vezes, deveria recordar qual foi e é o partido a favor da regionalização, aquele que efectivamente fez campanha por ela e aquele que mais contesta, na AR e fora dela, a divisão na atribuição de fundos europeus. Ao contrário de outros, o PCP diz ao povo do Porto o que diz ao povo do país. Não faltarão casos, como Rui Moreira bem saberá, de deputados de outros partidos, eleitos pelo círculo do Porto, que distribuem sorrisos nas ruas da cidade e se esquecem dela no parlamento.

Por fim, sobre este assunto,utilizar um espaço de divulgação da CMP, pago por todos nós, incluindo os comunistas, para ataques políticos, é de um baixo nível atroz, até mesmo para uma cidade em que o baixo nível se mede pela escala Rui Rio.

O presidente, que até escreveu um livro sobre a TAP e o Porto em tempo recorde, ganhou simpatia por defender a cidade contra a companhia. Esqueceu-se, no entanto, que a raiz do problema está na privatização da TAP, que os seus amigos do PSD e CDS tentaram e que o PS não teve coragem para afrontar, optando por uma solução que não é sim nem sopas.



Sobre a privatização da TAP, Rui Moreira foi claro: “A TAP não é estrutural para o Aeroporto Francisco Sá Carneiro nem para região, nem a região parece ser estrutural para a TAP. Não dramatizo essa situação, é um problema do Governo, não é um problema nosso“.



Obviamente, como o PCP afirmou e previu, transformou-se numa questão estrutural para todos. A menos que o livro editado tenha sido só para gastar papel e rasgar as vestes, que até levou a ataques a regiões e autarquias galegas, com quem o Porto tem e deve ter uma ligação profunda.

O tempo dirá quem beneficiou com o silêncio do presidente da CMP durante a discussão da privatização da TAP e se, directa ou indirectamente, estavam ligados à Associação Comercial do Porto. O PCP cá estará para ver. E a cidade também.

Crónica dos dias negros

As eleições foram há um mês e um dia. Falou o povo, o PS decidiu responder ao apelo da esquerda e, entretanto, meteram-se ao barulho o Cavaco, os banqueiros, a direita mais conservadora e saudosista, comentadores e opinadores, no Expresso e no Observador, com particular incidência, com as suas três mãos: duas agarradas à cabeça e uma a bater no peito, em defesa dos superiores interesses da nação.
Nas televisões, a generalidade dos comentadores avisa para a desgraça dos mercados, a fragilidade de um possível acordo do PS com a esquerda e meia-dúzia de maluquinhos criam eventos no facebook para darem as mãos e saírem à rua contra qualquer coisa que ninguém sabe muito bem o que é.

Cavaco entrou em pânico e convidou a minoria parlamentar a formar governo, mesmo sabendo que será chumbado, deixando de lado a estabilidade política e os mercados – outra vez os mercados. Paulo Rangel, de braço dado com o seu colega no Parlamento Europeu, Francisco Assis, vão lançando avisos para as tempestades que se avizinham.

Pelo meio, Cristas levanta-se e revela-nos que foi buscar inspiração a Jesus para ser ministra e Calvão da Silva – valha-me deus, que a chuva no Algarve é o criador a colocar-nos à prova – de fato completo e galochas. Foi obra do senhor, que ainda chamou um octogenário para a sua beirinha, tão bom e misericordioso, e o pé-de-meia para um segurozinho, talvez a piscar o olho à ala de ressabiados do PS, que devemos ter sempre algum de lado para uma necessidade, como se o nosso quotidiano não consumisse toda a nossa necessidade.

O dono dos jornais diários de Viseu, Leiria, Coimbra e Aveiro assina um editorial em que avisa para o perigo comunista e assume o combate aos vermelhos, que medo, que nos vêm tirar tudo. Bem vistas as coisas, só tem medo que lhe tire alguma quem tem alguma coisa para ser tirado. E a esmagadora maioria da população não tem.

A direita pinta os dias negros, a comunicação social faz-lhe eco, ou oco, como preferirem, contra tudo aquilo que devia ser o jornalismo. Ontem mesmo, lia-se por todo o lado que os refugiados que chegarão a Portugal terão médico de família e isenção de taxas moderadoras. Os jornalistas, sem conhecerem ou procurarem conhecer a lei de asilo e o estatuto do refugiado, e nós, o povo, pequeninos que somos, enchemos o peito de brio para os que são ainda mais pequenos que nós e dizemos que não pode ser, e os nossos, os nossos pobres, que ainda há uns dias eram os malandros que viviam à custa do rendimento mínimo, sem quererem trabalhar, malandros, a viver à custa de quem trabalha, como eu.

Sem percebermos que nós é que estamos mal, que aceitamos não ter médico de família como se fosse normal, e pagamos tudo e mais alguma coisa porque nos dizem que tem que ser assim, que pagamos ou temos o abismo, quando o Ricardo Salgado, coitado terá a sua reforma aumentada para o triplo. O mesmo Salgado a quem o agora ministro Calvão da Silva, valha-me deus, atestou a idoneidade.

Ao final do dia, o Expresso titulava que, caso o PS forme governo, os funcionários públicos seriam aumentados quatro vezes no próximo ano, quando o que deveria dizer é que os roubos nos salários de que foram vítimas seriam repostos, ainda que sem retroactivos.

Que PSD e CDS entrem em pânico por perderem os lugares, mesmo apesar das nomeações em catadupa que surgiram antes das eleições, para boys e girls de toda a espécie e feitio, é uma coisa; que haja órgãos de comunicação social que se prestem ao seu serviço, é vergonhoso, mas, ao que parece, também e coisa que não abunde por aqueles lados.

Que PSD e CDS pintem os dias de negro, é uma opção, que a comunicação social esteja, descaradamente ao seu serviço, é um negro diferente, um negro triste, um negro cinzento tão pobre, tão sem nada que faz lembrar os anos em que só à força do lápis azul era possível travar a verdade. Os tempos são outros, os lápis são cinzentos, como são cinzentos e negros os interesses que se movem em alguns meios dos nossos órgãos de comunicação.

Botas cardadas com pezinhos de lã

Ui, que lá vêm eles com mania da perseguição queixar-se da cobertura mediática. Não é nada disso. Trata-se apenas da constatação de um facto que os últimos dias de incerteza governativa ajudaram a deixar claro. A direita-se pela-se de medo da esquerda e qualquer convergência que envolva o PCP é um ataque à democracia. Se isso se tornou evidente em todos os canais de televisão, jornais e rádios, no mundo complexo dos jornais regionais locais o caso é ainda mais grave. Num caso que não me recordo de alguma vez ter visto, surge o mesmo editorial, letra por letra e linha por linha, em quatro jornais locais: Diário de Coimbra, Diário de Leiria, Diário de Aveiro e Diário de Viseu. A vantagem destes em relação a outros órgãos de informação, neste caso os de carácter nacional, é que estes assumiram abertamente o seu combate à esquerda e ao PCP em particular, com referências tolinhas ao PREC e à desgraça que seria ter os comunistas no poder. Caiu a máscara a tantos e pode ser que isso ajude a clarificar aquilo que acusam de ser uma cassete.

Todos os artigos são assinados por Andriano Callé Lucas, director dos quatro jornais:

“Todos os que vivemos os tempos conturbados do processo revolucionário de 1975 (o PREC de má memória) nos lembramos bem dos desmandos e dos grandes prejuízos causados ao País, quando os comunistas estiveram no poder. Desde logo quando tentaram suprimir as liberdades individuais, a começar pela Liberdade de Imprensa ao tomarem de assalto quase todos os jornais, incluindo o “República”, do próprio Partido Socialista, no intuito de silenciarem os opositores, visando a implantação de uma ditadura ao estilo soviético.
A bem do País, e da confiança dos agentes económicos indispensável ao crescimento e à criação de emprego, esperamos que impere o bom-senso no Partido Socialista, que esta associação perversa com a extrema esquerda não venha a concretizar-se e que não se repita em Portugal o triste exemplo a que assistimos este ano na Grécia com o Syrisa, que agravou o empobrecimento do povo grego.
O Diário de Viseu manter-se-á fiel aos princípios do seu Estatuto Editorial e não deixará de combater este cenário tão negativo para o País se o mesmo vier a concretizar-se. Continuaremos na mesma linha, ao serviço dos nossos leitores, assinantes e anunciantes, que são a nossa única razão de ser, a quem agradecemos a preferência e o apoio que nos têm dado”.


A todos o nosso Bem Haja.


Isto explica, em parte, porque é que dá tanto trabalho ter uma militância activa num Partido como o PCP. Não são só os grandes grupos de media que distorcem, cortam e subvalorizam o que são as posições do PCP. A nível local, conseguir uma notícia em jornais propriedade de gente como esta, é uma tarefa hercúlea. Por isso é que tenho a firme convicção de que eleger um deputado do PCP numa Assembleia de Freguesia, numa Câmara ou numa Assembleia Municipais ou na Assembleia da República, provoca mais receio nos fazedores da opinião dominante do que eleger mais cinco de outro partido qualquer. Porque sabem que não foi através deles que conseguimos, não foi pela sua simpatia ou condescendência, mas sim que cada voto é conquistado através do esclarecimento directo, olhos nos olhos.

Mas, convenhamos, há um gostinho especial em ver vermes como este a espernear:

“(…) defensor de causas que interessam às suas gentes, da Liberdade de Imprensa, da livre iniciativa privada, da economia de mercado e da sã concorrência, do combate aos monopólios, à burocracia, ao centralismo do Estado e a quaisquer ideologias colectivistas, totalitárias, fascistas, comunistas ou outras, que alienam e escravizam os seres humanos. Defendemos a regionalização do País bem como a plena integração e unificação europeia, numa Europa federada, numa Europa das Regiões e dos Cidadãos, dado estarmos convictos que é na Europa e na partilha dos seus valores (de democracia, de liberdade, de economia de mercado, de moeda única, de defesa comum, entre outros) que a grande maioria dos portugueses se revê, como cidadãos europeus de pleno direito que também somos, conforme tem sido expresso nos diversos actos eleitorais”.

Ei-los que chegam*

São esquisitos, baixos e com bigodes e barbas. Chegam, na esmagadora maioria, homens. Elas, quando vêm, cobrem os cabelos com panos e não usam saia acima do joelho. Muitas são proibidas pelos maridos de cortarem o cabelo. Por vezes, eles ameaçam-nas com uma chapada ou um murro; elas, subservientes, baixam a cabeça e colam as mãos ao ventre. Trazem com eles uma paixão fervorosa pela religião. Usam colares com o símbolo das suas crenças e são capazes de dar mais do que têm para que o seu local de culto, na sua terra natal, tenha um relógio ou um telhado novo. Rezam, pelo menos, de manhã e à noite. Se puder ser, ao final da tarde, cumprem mais um ritual.

Chegam sem falar uma palavra da nossa língua. Parece que fogem de uma guerra qualquer lá no país deles, da fome e da miséria. Não têm, por isso, noção de amor à nação. Fogem em vez de defenderem o seu país e lutarem por uma vida melhor lá, na terra deles, vêm para aqui sujar o nosso país com a sua imundície. Atravessam países inteiros a pé ou à boleia para chegarem aqui. Pagam milhares para saírem do seu país e vêm ficar na miséria. Alguns têm muitos filhos, muito mais do que aquilo a que estamos habituados. Deixam-nos sozinhos ou com os irmãos mais velhos, que não vão à escola. Mas são muito trabalhadores.

Bem, na verdade, não roubam exactamente o nosso trabalho, porque aqui há leis que não nos permitem trabalhar 18 horas diárias, embora isso exista e dê jeito a alguns patrões. Mas de certeza que nos roubam qualquer coisa. São diferentes de nós e isso causa-nos má impressão.

Não são muito limpos, cospem para o chão e as suas maneiras em público deixam muito a desejar. Vivem em bairros de lata que mais parecem campos de refugiados. Não sei como conseguem. Se é para viverem na miséria, mais valia ficarem na terra deles.


Diário de um Parisiense,1969

*Embora pudesse ser um relato verdadeiro, demonstrativo da nossa estupidez colectiva, este
texto é ficção. É da minha autoria. Não está em mais lado nenhum que não no
blogue nem é excerto de coisa alguma.



* Foto de  Gérald Bloncourt (http://bloncourtblog.net/2014/07/l-immigration-portugaise.html)

Da (Ca)vacaria ao curral das comendas

Parece que o costureiro da nossa cavacal primeira-dama, Carlos Gil, foi ontem condecorado com a comenda de Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique. Confesso que não percebo muito de comendas. Mas a verdade é que uma pesquisa pelo site da Presidência me leva a ficar a saber que a “Ordem do Infante D. Henrique destina-se a distinguir quem houver
prestado serviços relevantes a Portugal, no País e no estrangeiro, assim como serviços na expansão da cultura portuguesa ou para conhecimento de Portugal, da sua História e dos seus valores”. Não vamos entrar pelo caminho frágil de discutir a expansão da nossa cultura que é levada a cabo pela Maria Cavaca. Bem sabemos que, em grande parte, as distinções presidenciais deste tipo têm critérios subjectivos e são muitas vezes arbitrárias. Mais ou menos como se escolhe a vaca para abate. Narciso Miranda é comendador, por exemplo.

Não me choca nada que um estilista ou costureiro ou lá o que é seja comendador. Eu próprio condecoraria a minha mãe. Costureira durante décadas, quando ainda havia indústrias em Matosinhos, vejam lá aos anos que isto vai, desdobrava-se entre as linhas de produção, os quatro filhos e ainda voltava a costurar ao chegar a casa. Ora para fazer as nossas roupas, ora para fora, para ganhar mais algum. Foram anos difíceis lá em casa, com o fecho da FACAR, que empregava centenas de trabalhadores e o seu fecho fica no currículo do comendador Narciso. Na altura, falava-se que os terrenos serviriam para construção, sempre desmentido, pelos pensamentos recuados de alguns.Anos mais tarde, no mesmo local, nasceram as famosas torres de Leça.

A minha mãe tinha uma máquina de costura de dar ao pedal, uma Refrey. Era espectacular. Eu encaixava-me por baixo da mesa da máquina e brincava aos carros. A roda que, ao girar, fazia andar a agulha por aqueles quilómetros de tecido era perfeita, mesmo à medida do volante de um carro imaginário. Mesmo apertadinho, ainda cabiam lá os meus dois amigos imaginários.

A minha mãe vestia-nos. Mais às minhas irmãs, que vieram seguidinhas, com um ano de diferença. Família pobre, sem televisão. A vida da minha mãe nos têxteis marcou-me. Não perdoo à indústria o início de AVC que lhe provocou à entrada dos 40, acho eu, que levou lá a casa a Doutora Prazeres. E a luz apagada, porque incomodava a mãe, e aquele escuro assustava-me. Anos mais tarde, as minhas irmãs também passaram pela fábrica, nas férias.

A minha mãe fez-me o fato da primeira comunhão, as fantasias de Carnaval, camisolas, calças, o meu blusão “à-risca-na-manga” azul e branco sujo, que eu adorava por ser igual ao do meu pai. Fez-me equipamentos para o futebol. Aquela Refrey fazia magia e ainda hoje faz.

Os trabalhadores da indústria têxtil são dos mais mal pagos no país. Eram-no então e continuam a ser hoje. Quem não se lembra da desgraça que ia ser o aumento do salário mínimo de 485 para 505 euros mensais? E a fortuna que são os 2,40 euros de subsídio de refeição? Toda a gente sabe que se come por 2,40 euros.

Parabéns, então, a este costureiro. Que eleva o nosso nome ao Olimpo, ao contrário dos comuns mortais, que trabalham de cabeça baixa para não coserem um dedo. Que têm encarregados que a única coisa que permitem que se ouça nas linhas de produção é o trabalhar automático das máquinas de corte-e-cose. Que são pressionados até à exaustão para que a produção saia de acordo com os prazos estipulados, sem direito a horas extraordinárias. Sem poderem parar para ir ao quarto-de-banho, ou com horas certas para o fazerem. Parabéns, rapaz, que vestes tão bem a cavacal senhora.

Este lixo que nos asfixia

Andar pelas ruas é, nestes dias, um exercício de coragem. E não estou a falar do mau tempo primaveril que fez o favor de levar tudo e mais alguma coisa pelo ar. É do ar que se respira nas ruas mas nem é da poluição. É do lixo. Não o da Moody’s, que disse recentemente que já somos menos lixo do que éramos. É do outro lixo. A forma como nos tratam todos os dias, as conversas com amigos e menos amigos. Isto está bastante irrespirável e começa a dar cabo da virtude da paciência. A foto ao lado foi tirada no Porto durante a tarde. Uma pessoa a vasculhar um caixote do lixo, à procura de um bocadinho de qualquer coisa que lhe permita respirar melhor. Não há como andar na rua e falar com as pessoas. Pessoas mortais, que não elogiam o Dias Loureiro e para quem a democracia não é anacrónica. Pessoas para quem sobreviver é um desafio de todos os dias, mais ou menos escondido ou, neste caso, às claras. Ontem foi um dia complicado, foi. Mas nem foi pelo mau tempo.

O governo PSD-CDS, amigo dos reformados, pensionistas e afins publicou uma lei que aumentará as rendas de forma substancial às famílias que vivem em habitações sociais. O efeito poderia ser atenuado caso as autarquias pudessem interferir no processo e proceder a alterações mediante situações concretas, que é o que importa. É o concreto, não é o que está no papel, é a vida das pessoas. Haverá casos em que o aumento será de 13 euros, noutros será de 5, noutros será de 140. Pega-se no famoso excel e faz-se um cálculo. E lá somos nós outra vez tratados como lixo.

Ontem, fizemos uma distribuição a alertar para a nova lei num bairro social, não importa onde. Contactámos com pessoas que ficaram surpreendidas pelos cálculos, mas que confirmaram já ter sido notificadas para se deslocarem à empresa municipal que gere as habitações.

À porta de um dos prédios, uma senhora abriu caixa do correio, com a neta pela mão. “Deixa ver se tem alguma coisa… Não tem. Amanhã, o meu neto não vai à escola outra vez”. Olhei para a senhora porque notava-se que ela também queria falar:

– Ó filho, em minha casa sou eu, dois filhos e dois netos. Os meus filhos estão desempregados e já recebem só o mínimo, a minha filha está doente. Sem receber os 181 euros do rendimento mínimo, não tenho dinheiro para o passe. – E não terá para pagar o aumento da renda.

E o que é que se responde a estas palavras? Que vai ficar tudo bem, não é? Pois vai. Vem aí a privatização dos transportes públicos e este miúdo vai poder ir para a escola, não é? E as greves? Esses bandalhos que fazem greves contra as privatizações; fossem mas é trabalhar. E aquele gangue que se vê todos os dias no telejornal a dizer que está tudo melhor? Caramba, aquilo é que deve ser um mundo bom. Mas vai ficar tudo bem, porque temos de viver a trabalhar para sobreviver até morrer, «mesmo matando aquele que, morrendo, vive a trabalhar”.

É isto o nosso futuro, não é? A miséria como forma de vida, lado a lado com as fotos para os postais por sermos os melhores do mundo em tudo e mais alguma coisa. Não, não é. Chega destas inevitabilidades. Já não basta dar um murro na mesa e disparar para todos os lados, porque são todos iguais. Não são. Não somos. Se é para disparar, que seja na direcção certa. Metaforicamente, claro está. Ou então, não.

Vista grossa no Aleixo

A foto é antiga. Aqueles edifícios castanhos que se vêem na imagem, tirada a partir de Gaia, mostram o que era, antigamente, o Bairro do Aleixo. Bairro de má fama, mais ou menos como o comum mortal vê a Comporta para os ricos, estão a ver mais ou menos a dimensão da coisa? Hoje restam três torres, se não me falha a memória do fim-de-semana.

Que havia problemas no Aleixo é inegável. A começar pela forma guetizada como foi concebido, como foram a maioria dos bairros sociais e como são ainda hoje alguns bem recentes. Mas o problema do Aleixo nunca foi só o tráfico de droga. Isso combate-se, quando e onde se quiser, desde que haja articulação entre apoios sociais. As demolições do Aleixo tiveram uma causa simples: uma vista daquelas sobre o Douro e sobre as caves do lado de Gaia não é para gente pobre. É uma vista toda grossa, cheia das curvas do rio e a transbordar da beleza das pontes.

Os condomínios fechados que começaram a cercar o bairro ajudam a provar isso mesmo. Seguranças à porta e tudo trancado a sete chaves, separados do ambiente que os rodeia, numa espécie de brasileirização social. Pobres de um lado do muro, ricos do outro.

Um pobre não pode ter uma vista bonita a partir da janela de casa.Isso paga-se. Paga-se com favores, claro está, porque quando acabarmos nós de pagar esta onda de choque nos bancos – e a manter-se a actual crença de que o problema é da supervisão e não do sistema – eles voltarão com toda a força. É cíclico.

Vem aí mais dinheiro da UE e o país do betão baterá outra vez à porta, agora com menos alcatrão, que já há pouco espaço no litoral para mais autoestradas. Daqui a dez anos estaremos a lamentar a forma como foram utilizados os fundos, os coveiros lamentarão as quotas de pesca e da agricultura, as derrapagens nos orçamentos e tudo o que já vimos.

O Aleixo foi demolido porque um pobre só pode ter outras janelas na frente das suas, ou paredes de armazéns, ou vistas para autoestradas. Um pobre tem de ter as vistas curtas, em todos os sentidos. Por isso nos roubam a educação, a saúde, a segurança social. Para estarmos todos com as vistas curtas, demasiado ocupados a sobreviver para nos preocuparmos com outras coisas. É a puta da necessidade que é maior do que a moral.

Um pobre tem de olhar para a reportagem da TVI sobre o caos nos hospitais e acreditar que é inevitável. Ouvir um filho da puta de um secretário de Estado dizer que estava tudo normal, com imagens que lembram a Síria, e fechar os olhos àquelas palavras, porque amanhã tem mais um dia para sobreviver.

Evidentemente que a demolição do Aleixo teve nada a ver com o tráfico de droga. Até porque não o resolve; deslocaliza-o para outros bairros e para outras zonas. Toda a gente sabe isso. Pode é querer ou não dizê-lo. O Aleixo teve o azar de ter uma vista linda, de dar algum alento aos pobres, num país melhor onde as pessoas estão pior, seja isto o que for.

O eclipse da sociedade

Onze de Agosto de 1999, o advento de um eclipse total solar, porventura o último do milénio, e com observação parcial em Portugal (62%-77%, Faro-Bragança) é motivo de grande euforia para a população em geral. Oportunidades destas, embora não tão raras como se possa pensar, representam a altura ideal para a divulgação da ciência, aqui em particular da astronomia. Esta ciência natural que estuda os corpos celestes encontra-se entre as mais famosas para um público leigo, ainda que seja muito mais provável (leia-se muito x10^13) encontrar tretas inventadas sobre astrologia do que um bom texto sobre astronomia em qualquer jornal ou programa de televisão. Tal interesse é patente na antiguidade que a astronomia tem, pela força da observação no grande observatório que é a Terra e a sua influência directa sobre as nossas vidas (falo das marés, estações do ano, etc. e não do destino traçado para um desgraçado caranguejo com ascendente em Marte!), não fosse mesmo culturas pré-históricas terem deixado inúmeros artefactos e construções (Stonehenge por exemplo) relacionados com a observação da movimentação dos corpos celestes, mostrando como é antiga a vontade de perceber o que se passa na esfera celeste.

Desta euforia nasceram inúmeros debates, exposições, campanhas, encontros, entre outras acções com o intuito da divulgação científica, por um lado, e da preocupação em torno das precauções que se devem ter quando se observa um fenómeno desta natureza, por outro. O Sol é uma estrela igual a muitas outras que observamos no céu nocturno, tendo no entanto a particularidade de se encontrar extremamente perto da Terra quando comparada com as outras (a seguinte mais próxima encontra-se a uns longínquos 40.000.000.000.000 quilómetros (=4×10^13 km), denominando-se assim por Próxima Centauro) estando por isso reservada a enormes cuidados na sua observação, sob risco de se danificar de forma permanente os olhos. Uma extensa campanha de informação, a par da iniciativa de se vender em todas as farmácias óculos de observação directa (que se devem utilizar por períodos inferiores a 30 segundos seguidos de descanso ocular de 3 minutos), permitiu que o eclipse fosse observado por muitos, com riscos mitigados para a saúde pública. Saúde pública é isto mesmo, prevenção! Um serviço nacional de saúde deve ter como aposta fundamental a promoção da saúde e a prevenção da doença. Divulgação científica é também isto, garantir à população em geral acesso grátis e continuado de conteúdos científicos.

Vinte de Março de 2015, o advento de um eclipse total solar, com observação parcial em Portugal (62,3%-71,7%, Faro-Bragança), é um facto ignorado pela população em geral. A Direcção Geral de Saúde não considerou prioritário a massificação do esclarecimento dos riscos de saúde que acarretam a observação directa do Sol, muito menos a disponibilização dos tais óculos de protecção. Os meios de comunicação encaixotam as notícias em notas de rodapé, fazendo aliás um grande favor à DGS que pede para que a notícia não se espalhe, não vá o diabo tecê-las, e descobrir-se a sua negligência grosseira. Da sociedade em geral vê-se mais um sinal da, já por demais, evidente destruição do tecido que a compõe, resignando-se as várias instituições à cultura do pobrezinho, tão cara a Passos, Portas e restante governo. Já vejo Pires de Lima a comentar, quando inquirido sobre o eclipse, que o que era bom era pôr astrónomos nas empresas para produzirmos mais eclipses, ou Passos a dizer que não comenta, pensando que mais uma vez se pergunta sobre o eclipse das suas contribuições fiscais e obscurantismo das declarações de rendimentos, ou Portas a afirmar que a Remax dá mais emprego que Observatório Astronómico de Lisboa…

Para trás fica a pertinência, em centenário da teoria, e passados 10 anos do centenário do annus mirabilis de Einstein, de se explicar como foi durante um eclipse solar que uma das mais significativas previsões da teoria da relatividade geral de Einstein foi verificada, ou como Copérnico apresentou o seu modelo matemático heliocêntrico, já levantado como hipótese 1800 anos antes mas abafado pelo pensamento dogmático religioso. Dois momentos históricos para o conhecimento humano!

Este eclipse é bem um sinal dos tempos, embora sem qualquer significado divino ou interpretação esotérica, põe a nu o empobrecimento geral a que estamos votados pela opressão das inevitabilidades. O que dizer de uma sociedade que podendo erguer a cabeça e observar o astro-rei “coberto” em mais de metade da sua superfície pela Lua, anda distraída a olhar para o chão?