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Como os nossos pais

Ao fim de vários dias de trabalho sufocantes não queria estar a perder tempo de descanso e arrastar-me dolorosamente até ao teatro. Não sabia ao que ia, o tema da peça, nada. Só sabia da minha exaustão e vontade de dormir.

Mal entro no D. Maria, em cima da hora, vejo o pequeno auditório cheio e uma sala com panos. Lembro-me então que a peça teria qualquer coisa a ver com operários. Mas não sabia o que estava para vir.

Todos aqueles nomes que sempre fizeram parte da minha vida: Coelima, as fábricas em Barcelos, o museu do têxtil. Vizela, Felgueiras, Guimarães, Pevidém, todos aqueles sítios onde a vida me levou e para onde a minha cabeça imediatamente se transportou. E, de repente, estava nos anos 90, em Santa Maria da Feira, a ouvir as sirenes de entrada da Lunik, da Huber Tricot, da Ecco, da Rohde.

À medida que a peça avançou, avançou a minha memória das vigílias intermináveis ao frio, durante o Natal, em frente à Rohde. Das caras das mulheres que na sua meninice estavam na mesa ao meu lado na escola. Das suas mães que estavam na mesma fábrica nas gáspias. Do ano negro de 2003 em que encerraram dezenas de fábricas. Das vigílias dos corticeiros. Da luta das corticeiras pela igualdade salarial que rapidamente se tornou em luta pelo pagamento de salários em atraso.

A história que Eu uso termotebe e o meu pai também conta é a história dos nossos pais, dos nossos avós, dos nossos vizinhos. O exemplar d’A Mãe de Gorki que envergam é o exemplar que tenho na minha estante e que quero deixar à minha irmã mais nova.

Imagino misturar a vida destes testemunhos de operários com a vida dos operários de A Mãe de Gorki. O que mudou desde 1907? Que verdade nasce destes testemunhos confrontados com as históricas lutas do trabalho? Que consciência nasce em mim [se fosse eu um narrador] à medida que a história avança? Talvez isto seja a chave para prosseguir. O operário e o seu espelho. Um espelho fictício mais real do que a realidade. Plagiar o real com a ficção. Como num auto retrato. Será que assim conseguimos roçar a verdadeira vida?

Esta é a pergunta que Ricardo Correia faz depois de ouvir dezenas de operários, de patrões e alguns sociólogos. Uma peça capta a essência da contradição do trabalho e do capital. A persistência da luta de classes e a necessidade da consciência de classe. Da nossa, de cada um de nós. Da repetição em espiral da história que está tão patente na corajosa luta das trabalhadoras da antiga Triumph. Nas citações dos operários que liam Marx, Lenine, Rancière, esses operários letrados que lutavam meses e meses pela jornada de 40 horas e pelo fim do trabalho ao sábado, lado a lado com aqueles que iam ganhando a consciência de classe na luta. E que termina como começou.

Esta é a camisola do avô, que passou ao pai, que passou ao filho para que um dia o que vier possa dizer que valeu a pena. Até lá, é à classe operária que cabe tomar nas suas mãos o seu destino.

Carta aberta – 1% salva mil cornucópias

Carta aberta – 1% salva mil cornucópias

Desta vez foi anunciado o fim do Teatro da Cornucópia. Naturalmente, não somos indiferentes a esta decisão e notícia, mas também não ficamos surpreendidos. É cada vez mais frequente vermos estruturas e projectos a encerrar ou a prosseguir à custa da descaracterização profunda do seu projecto artístico. Quem seguiu o trajecto de desinvestimento público na criação artística sabia bem que os actos resultariam em empobrecedoras consequências, o encerramento da Cornucópia é uma das mais visíveis.

Entre muitas declarações públicas, ouvimos o Presidente da República, debaixo dos focos da comunicação social, indagar o Ministro da Cultura sobre possíveis soluções para um caso concreto. Preferíamos que o Presidente da República se tivesse indagado publicamente sobre como foi possível, décadas a fio, sucessivos governos desrespeitarem a Constituição e terem activamente contribuído para o definhamento do tecido social da criação artística em Portugal. O esvaziamento contínuo da criação artística conduz a um consequente empobrecimento da sociedade e da sua capacidade de expressão. Contrariar este esvaziamento é garantir-lhe a liberdade a que tem direito.
É preciso manter abertas todas as portas de projectos e estruturas que trabalham por esse país fora e deixar abrir todas as outras que se fecharam ou estão por abrir. Em todo os lugares, em todas as áreas artísticas, os mais diferenciados projectos de criação independente caminham num fino e frágil arame que ao menor deslize se romperá com a garantia certa da irreversibilidade dessa ruptura. São muitos os programas que ficam por cumprir, os espectáculos que têm ficado por fazer, os filmes que não são produzidos, os projectos que não chegam a realizar-se. São muitos os trabalhadores e trabalhadoras que têm ficado sem trabalho, que têm emigrado, que têm desistido de fazer aquilo que sabem fazer. São milhões aqueles que ficam impossibilitados de ver, ouvir, experimentar e sentir de outro modo.

Quando um cada vez maior consenso insiste na necessidade de reforço substancial do financiamento da actividade artística, não o faz por mero capricho. Fá-lo porque sabe que essa é a única forma de garantir que a criação e fruição culturais, tal como o exige a letra da Constituição, são acessíveis a todas as pessoas neste país, independentemente da sua condição social, vivendo nos centros urbanos ou na mais recôndita aldeia, interessadas ou envolvidas nas mais diversas formas de expressão. E é por isso que as estruturas de criação são financiadas: para cumprirem a prestação de um serviço público de qualidade e para que a criação artística seja diversificada e não fique refém da sua mercantilização.

E por mais que haja quem diga que muito há a fazer para lá dos números – e há -, enquanto a questão primordial do financiamento não for resolvida, teremos sempre esse muro imenso a separar-nos da possibilidade de levar a cabo tranquilas e detalhadas análises de fundo que possam lançar as bases para decisões sustentadas e informadas sobre o serviço público de cultura que gostaríamos de ter.

O que nos une não são consensos sobre formas de gestão, muito menos sobre escolhas estéticas. Une-nos sim a complexa mas indispensável garantia da democraticidade e da diversidade cultural e artística. Une-nos a necessidade de manter abertas as portas das estruturas de criação existentes e de criar as condições para o aparecimento de outras portas. Porque são abomináveis os fins prematuros a que temos assistido e a que poderemos continuar a assistir, em que tanta e tanta gente não chega sequer a descobrir o tanto que tinha ainda por dizer.

O apelo que fazemos não é apenas dirigido aos diferentes órgãos de soberania e às entidades públicas que diariamente fazem o Estado funcionar. O apelo que fazemos é dirigido a todas as pessoas que ao lerem esta carta aberta se recusem a aceitar o fim prematuro de tantos projectos artísticos, para que exijam a possibilidade de ver nascer, crescer e consolidar todos os projectos que a arte deste país lhes puder oferecer. Que se recusem a aceitar que a precariedade, os baixos salários, o trabalho não-remunerado e a negação de tantos direitos laborais sejam a forma de sustentar a actividade artística. Que se recusem a aceitar que o país continue a querer desenvolver-se sem respeitar um dos vectores mais decisivos para a sua democratização, a Cultura.

Então, este apelo é simples:

Não há tempo a perder. 1% do Orçamento do Estado salva mil cornucópias. Lutemos por isto. Exijamos este compromisso.

SUBSCREVEM

Alexandra Diogo – actriz
Alexandra Lázaro – psicóloga clínica
Alexandra Lourenço – arquivista
Alexandre Alves – assistente de realização
Alex Cortez – músico
Alfredo Brito – actor e locutor
Alípio Padilha – fotógrafo de cena
Amarílis Felizes – economista
Ana Alves Miguel – funcionária da administração local
Ana Araújo – professora
Ana Brandão – actriz
Ana Caetano – bailarina
Ana Cláudia Serrão – músico
Ana Figueira – directora artística
Ana Filipa Martins – bióloga
Ana Jacobetty – pianista
Ana Lázaro – actriz, dramaturga e encenadora
Ana Nicolau – realizadora
Ana Moura – fadista
Ana Mourato – encenadora e actriz
Ana Paula Santos – professora
Ana Pereira – produtora teatral
Anabela Laranjeira – professora
André Albuquerque – actor
André Levy – biólogo e actor
André Vazão – estudante
Andreia Bento – actriz
Andreia Salavessa – arquitecta
Ângela Cerveira – técnica de cinema
António Amaro das Neves – historiador
António Durães – actor
António Sousa Dias – compositor e professor
Armando Possante – cantor e professor
Áurea Duarte Ferreira – professora

Beatriz Maia – estudante de teatro
Beatriz Peixoto – estudante
Bruno Raposo Ferreira – psicólogo clínico e investigador
Bruno Schiappa – actor e encenador

Camila Reis – ilustradora
Carla Bolito – actriz
Carla Veloso – actriz
Carlos de Andrade – economista
Carlos Borges – actor
Carlos Costa – dramaturgo, encenador e actor
Carlos Seixas – produtor musical
Carlos Vidal – professor universitário e crítico de arte
Carlota Lagido – coreógrafa, figurinista e bartender
Catarina Molder – cantora lírica, gestora cultural, apresentadora
Catarina Moura – cantora
Catarina Mourão – realizadora
Catarina Rôlo Salgueiro – actriz
Cátia Barros – cenógrafa e figurinista
Cátia Pinheiro – encenadora
Célia Machado – produtora executiva
Célia Williams – actriz
Cláudia Cláudio – professora
Cláudia Dias – coreógrafa
Cláudia Lucas Chéu – dramaturga e encenadora
Cláudia Marisa Oliveira – docente
Cláudia Silvano – produtora
Cristina Maria Figueiredo – professora
Cristina Planas Leitão – coreógrafa
Cristina Santos – professora de dança e gestora cultural
Cucha Carvalheiro – actriz
Custódia Gallego – actriz

Daniel Lima – músico
Daniel Moreira – artista plástico
Daniel Sousa – músico e professor
Deolindo Leal Pessoa – médico
Diana Costa e Silva – actriz
Dörte Schneider – assistente de realização

Edna Geovetty – estudante
Eduardo Carvalho Pacheco – produtor
Eduardo Costa – professor reformado e escritor
Eduardo Ribeiro – actor
Eliana Veríssimo – professora e pianista
Elsa Figueiredo – bibliotecária reformada
Elsa Valentim – actriz
Emanuel Arada – actor

Fátima Leal – assistente social
Fátima Rolo Duarte – designer
Fernanda Lapa – actriz e encenadora
Fernando Jorge – actor
Filipa Malva – cénografa e figurinista
Filipa Prates Coelho – produtora
Filipa Vala – bolseira de pós-doutoramento em divulgação e comunicação de ciência
Filipe Melo – músico
Francisco Rebelo – músico

Gil Cabugueira – direcção de produção
Graeme Pulleyn – encenador

Hugo C. Franco – técnico de luz e criador multimédia
Hugo Lemonnier – estudante

Idália Tiago – socióloga
Igor Gandra – director artístico e encenador
Inês Barbedo Maia – produtora de teatro
Inês Lago – actriz e encenadora
Inês Meira – estudante
Inês Gomes – estudante
Inês Gregório – produtora
Íris Reis – assistente de realização
Issac Achega – músico
Isabel Anastácio – reformada
Isabel Casimiro – professora reformada
Isabel Craveiro – actriz e encenadora
Isabel Medina – actriz e encenadora
Isabel Lebre – assistente de realização
Isabel Pereira – secretária
Isilda Sanches – locutora de rádio
Ivo Costa – músico

JP Simões – músico
Joana Almeida – actriz
Joana Brandão – actriz e encenadora
Joana Dourado – bolseira e cantora
Joana Gomes – cenógrafa
Joana Gusmão – produtora
Joana Lourenço Cardoso – directora de arte
Joana Manuel – actriz
Joana von Mayer Trindade – coreógrafa, bailarina e professora
Joana Providência – coréografa
João Barreiros – técnico de luz
João Cabrita – músico
João Castro – actor
João Gesta – programador cultural
João Hasselberg – músico
João de Mello Alvim – encenador
João Monge – autor
João Nuno Martins – produtor
João Paulo Janicas – professor
João Pedro Rodrigues – realizador
João Sotero – escultor
João Sousa – músico
John Havelda – professor universitário
Jonathan de Azevedo – designer de luz
Jorge Cadima – professor universitário
Jorge Ferreira da Costa – assistente de realização
Jorge Louraço Figueira – dramaturgo
Jorge Palinhos – docente
Jorge Silva – actor
José Arruda – antropólogo
José Carlos Faria – cenógrafo
José Carlos Nelas – enfermeiro
José Castela – professor
José Gusmão – economista
José Laginha – bailarino e director artístico
José Leite – actor
José Luís Ferreira – produtor e programador
José Luís Lopes – assistente de realização
José Nunes – encenador
José Peixoto – actor e encenador
José Russo – actor e encenador

Kimi Djabate – músico

Lara Li – cantora
Lígia Roque – actriz e encenadora
Lígia Soares – coreógrafa e actriz
Loubet Simões – técnico de conservação e restauro
Luciana Fina – realizadora
Luísa Ortigoso – actriz
Luís Castro – encenador e investigador
Luís Gaspar – actor
Luís Lopes – músico
Luís Pacheco Cunha – músico
Luís Pedro Madeira – músico
Luís Possolo – poeta

Mafalda Simões – directora de produção e comunicação
Manuel Gusmão – poeta e ensaísta
Manuel Loff – historiador
Manuel Mendonça – actor
Manuel Rocha – músico e professor
Manuela Pires – jurista
Márcia Lima – actriz
Margarida Madeira – animadora e ilustradora
Margarida Pinheiro – professora e cantora
Margarida Rita – produtora teatral
Margarida Sousa – actriz
Marlene Duarte – podologista
Maria Alice Samara – historiadora
Maria Anadon – cantora
Maria Gusmão – técnia superior da admin. pública
Maria Helena Alves – empregada sindical reformada
Maria João Fura – músico e cantora
Maria João Garcia – produtora
Maria João Luís – actriz e encenadora
Maria João Simões – directora técnica e de cena
Maria de Lurdes Nobre – produtora cultural
Maria Manuel Ferreira de Almeida – técnica superior FLUC
Maria do Mar – músico
Maria Sequeira Mendes – professora de teoria do teatro
Mariana Magalhães – actriz
Mário Afonso – bailarino e coreógrafo
Marlene Cavaco – conservadora restauradora
Marta Bernardes – artista plástica e de cena
Marta Carreiras – cenógrafa e figurinista
Marta Manuel – professora e músico
Marta Pinho Alves – professora do ensino superior politécnico
Marta Silva – bailarina
Matamba Joaquim – actor
Miguel Bonneville – artista
Miguel Gonçalves Mendes – realizador
Miguel Moreira – artista
Miguel Oliveira (MOLÉCULA) – rapper
Miguel Pires Ramos – director de programas tv
Mónica Calle – actriz e encenadora
Mónica Garnel – actriz
Mónica Talina – actriz e produtora cultural

Nádia Monteiro – assessora de imprensa
Nélson Duarte (Sr. Alfaiate/DJ Nelassassin) – dj hip hop
Nuno Almeida – assistente administrativo da CML
Nuno Góis – actor
Nuno Grácio – músico
Nuno Machado – actor
Nuno Pinto Custódio – encenador
Nuno Vieira de Almeida – músico

Octávio Gameiro – professor, autor e tradutor
Ofélia Libório – educadora de infância
Olga Roriz – coreógrafa
Orlando Santos – músico

Patrícia Calais Garcia – técnica superior da Seg.Social
Patrícia Santos Pedrosa – arquitecta e investigadora
Paolo Marinou-Blanco – realizador e argumentista
Paula Almeida Silva – assistente de produção
Paulo Capelo Cardoso – artista plástico e cenógrafo
Paulo Montez – produtor
Paulo Moura Lopes – actor
Paulo Raposo – antropólogo e docente universitário
Pedro Barbosa – produtor
Pedro Estorninho – encenador
Pedro Gil – actor
Pedro Jordão – arquitecto
Pedro Lamas – actor e professor de teatro
Pedro Madaleno – músico
Pedro Madeira – assistente de realização
Pedro Penilo – artista plástico
Pedro Pernas – actor
Pedro Pestana – músico
Pedro Pousada – artistas plástico e professor universitário
Pedro Rodrigues – produtor teatral
Pedro Sabino – argumentista
Pedro Sousa Loureiro – actor, encenador e artista plástico
Pedro Vieira – guionista

Rafaela Lacerda – bióloga e encenadora
Raquel Bulha – locutora de rádio e tv
Raquel Castro – actriz
Raquel Castro – investigadora
Renata Sancho – realizadora
Renato Azul – músico e videógrafo
Ricardo Alves – encenador
Ricardo Correia – encenador
Ricardo Neves-Neves – encenador e actor
Ricardo Pinto – músico
Ricardo Vaz Trindade – actor
Rita Cruz – actriz
Rita Maia – dj
Rita Namorado – pianista e professora
Rita Natálio – performer, escritora e investigadora
Rita Santos – produtora
Rita Saraiva Grade – bailarina
Rita Simões – professora
Rita Veloso – professora
Rodrigo Malvar – actor e artista sonoro
Rogério Nuno Costa – artista
Romeu Costa – actor e encenador
Romeu Runa – bailarino
Rui Alves – músico
Rui Ferreira – criativo
Rui Francisco – arquitecto e cenógrafo
Rui Galveias – músico e artista plástico
Rui Guerra – músico
Rui Júnior – músico
Rui Monteiro – desenhador de luz
Rui Pité (RIOT) – músico
Rui Valente – director técnico

Sandra Cristina Rodrigues – bancária
Sara Barbosa – encenadora e actriz
Sara Carinhas – actriz e encenadora
Sara Gonçalves – actriz e encenadora
Sara Trindade – assistente social
Sara Vaz – bailarina e actriz
Saúl Falcão – professor e músico
Sebastião Faro – publicitário
Sérgio Alves – designer
Sérgio Dias Branco – professor universitário
Sérgio Godinho – músico e escritor
Sérgio Machado Letria – gestor cultural
Sílvia Filipe – actriz
Sónia Arantes – produtora
Sofia Oliveira – directora de produção
Sofia de Portugal – actriz
Sofia Reis – produtora executiva
Susana Bilou Russo – antropóloga
Susana Fonseca – decoração
Susana Moody – músico
Susana de Sousa Dias – realizadora

Tadeu Faustino – actor
Tânia Alves – actriz
Tânia Guerreiro – actriz
Tânia Guerreiro – gestora cultural
Teresa Almeida – administrativa
Teresa Carvalho – artista plástica
Teresa Coutinho – actriz
Teresa Faria – actriz e encenadora
Teresa Lopes – professora
Teresa Miguel – directora de produção
Teresa Sobral – actriz
Thomas Walgrave – director artístico
Tiago Baptista – conservador de cinema
Tiago de Lemos Peixoto – dramaturgo
Tiago Mota Saraiva – arquitecto
Tiago Santos – músico
Tiago Silva – montador de som
Tomás Pimentel – músico
Tó Trips – músico

Vanda Cerejo – actriz
Vânia Couto – cantora, coordenadora de projectos e professora
Vânia Rovisco – coreógrafa e performer
Vasco Araújo – artista plástico
Vasco Nogueira – médico
Vasco Paiva – engenheiro florestal
Vasco Peres – maquinista de cena
Vasco Pimentel – director de som
Vera Marques – produtora
Vera Moura – estudante
Vera Silva – perchista
Vicente Alves do Ó – realizador
Vítor d’Andrade – actor
Vítor da Glória Silva – bancário reformado
Victor Pinto Ângelo – assistente de produção

Zézé Gamboa – realizador
Zillah Branco – socióloga

A última viagem de Lénine

A Associação Cultural Não Matem o Mensageiro representa neste Portugal dominado por visões niilistas e mercantilistas da arte uma lufada de ar fresco, um regresso renovado a um teatro feito por gente comum para pessoas comuns, sem medo de assumir o comprometimento político e social que o contexto exige. Assim foi com a peça “Marx na Baixa” e depois com “Homem morto não chora”. Agora o teatro politicamente comprometido volta à cidade com “A última viagem de Lénine”, peça encenada por Mafalda Santos, com base no texto original de António Santos e interpretação de André Levy.

“A última viagem de Lénine” sugere-nos um cenário hipotético baseado numa última viagem do homem que liderou os bolcheviques russos naqueles dias de Outubro de 1917, com destino à cidade de Lisboa. Lénine desembarca de um comboio que circula com um atraso de 90 anos e 63 dias, e é na cidade que viu florescer a Revolução de Abril que procurará abordar aqueles com quem se vai encontrando.

Tive o privilégio de assistir a uma das primeiras leituras do texto original, há alguns meses atrás. Tive também a hipótese de perceber como um grupo de pessoas extraordinariamente ocupadas, que não conseguem fazer do teatro o seu sustento, conseguem concretizar um projecto amador de uma forma profundamente profissional. E por isso apoiei desde a primeira hora esta obra cuja concretização me pareceu e parece absolutamente necessária.

A figura de Lénine é nos dias que correm quase totalmente desconhecida da maior parte de nós. É por isso desconcertante perceber que, se alguns confessam a sua ignorância face ao pensamento e à acção de Lénine, outros ostentam orgulhosamente um pesado lastro de ignorância, preconceito e demagogia. Ora, em “A última viagem de Lénine” é o homem, que integra e transcende o grande líder revolucionário russo, quem se apresenta através de múltiplos episódios da sua vida pública e íntima, resultado de um estudo profundo de múltiplas fontes biográficas. E tudo isto a escassos meses da celebração dos 100 anos dos “dias que abalaram o mundo”.

“A última viagem de Lénine” não é apenas uma obra notável; o que a Associação Cultural Não Matem o Mensageiro leva a cena nas próximas semanas é um contributo inestimável para a cultura e a memória das coisas do mundo real, cada vez mais ausente da irrealidade virtual em que se parece ir transformando o dia-a-dia das comunidades humanas.

A não perder.

“A última viagem de Lénine”
Comédia/Drama – 90 min. – Encenação de Mafalda Santos – Interpretação de André Levy – Direcção Técnica de Cláudia Rodrigues – Texto Original de António Santos – Cartaz de Miguel Gomez
13 a 23 de Outubro – Teatro da Trindade, Lisboa (Qua. a Sáb. às 21:45 Dom. às 17:00)

PETIÇÃO – DGArtes: financiamento 2017

Nas artes performativas temos boas e más notícias. As boas é que finalmente se irão rever os critérios e regulamentos dos concursos aos apoios da DGArtes. As más é que corremos o sério risco de manter um nível de financiamento similar ao de 2016. Querendo potenciar as boas notícias e tentando eliminar, ou pelo menos minorar as más, o CENA e o STE tomaram a iniciativa de lançar uma petição pública com algumas exigências.

A diversidade de agentes do sector que aceitaram ser primeiros subscritores e os que agora têm vindo a assinar, mostram que há uma convergência de preocupações muito grande em torno dos financiamento mas também do combate à precariedade e da valorização social das estruturas de criação artística.

É preciso assinar esta petição, dar-lhe força. Depois é preciso continuar a trabalhar para que as exigências nela contida se vão cumprindo. Mas vamos ao primeiro passo, ler e assinar. Ah, e depois divulgar por todos os meios e mais alguns. Vamos a isso?

DGArtes: financiamento 2017

Estar de cabeça limpa é o que todos desejamos quando realizamos o nosso trabalho. Ter a tranquilidade mental e a saúde física para desempenhar as funções que nos são exigidas da melhor forma possível. Para isso, são necessárias condições de trabalho, condições para sermos profissionais.

Não é novidade nenhuma que o meio das artes do espectáculo tem sofrido enormemente com a degradação destas condições.

A precariedade laboral tem levado a que muitos trabalhadores vejam as suas contas e as suas vidas penhoradas, ao serem empurrados para um regime contributivo da Segurança Social que não conseguem sustentar. A inexistência de contratos de trabalho coloca-os em situação de desprotecção social gritante, principalmente quando falamos das profissões que utilizam o corpo como instrumento de trabalho vital. Os baixos salários e o alastramento do desemprego impedem projectos de vida planeados.

Também as estruturas de criação têm visto degradadas as suas condições de produção e divulgação. É evidente a redução do número de apresentações. É evidente a produção de espectáculos com menos trabalhadores, limitando assim a liberdade de criação, sendo esta situação contornada, por vezes, com recurso a estagiários, muitas das vezes de forma ilegal ou com prejuízo da solidez artística. Para as estruturas (poucas) que têm espaços próprios, é cada vez mais difícil mantê-los, para as que não têm, o aluguer de salas de ensaio e/ou apresentação, tem-se tornado cada vez mais oneroso, cortando a possibilidade de crescimento destas estruturas.

E o cenário de 2017 não se afigura risonho. Estamos perante a possibilidade de serem suspensos os concursos plurianuais da DGArtes e de estender por mais um ano o apoio às estruturas que deles estavam a usufruir. É certo que a intenção de reformular os regulamentos dos concursos é de louvar, mas não podem os trabalhadores e as estruturas ficar, outra vez, prejudicados por esta boa intenção.

Estender o apoio por mais um ano, com valores idênticos ou ligeiramente superiores aos de 2016, até se encontrar a nova fórmula concursal, mantém as estruturas já apoiadas e os seus trabalhadores a viver abaixo do limite mínimo aceitável, impede que novas estruturas possam ser contempladas com apoios que lhes permitiriam solidificar o seu projecto artístico e empregar mais trabalhadores. É imprescindível que as verbas disponibilizadas pela DGArtes cresçam de forma exponencial, retomando valores já alcançados no passado.

Assim, o CENA, o STE e os trabalhadores, estruturas e espectadores que subscrevem este documento, exigem:

a) no próximo ano, um acréscimo significativo do apoio concedido às estruturas financiadas pelos plurianuais anteriores, garantindo que todas vêem o seu contrato estendido para 2017;
b) a abertura imediata de concursos pontuais, anuais e de internacionalização para 2017, com um reforço significativo de verbas, nunca inferior ao dobro do valor de 2016, garantindo o acesso de mais estruturas ao financiamento;
c) que, como já foi anunciado, se cumpra a intenção de ouvir todos os agentes do sector para a reformulação dos regulamentos dos concursos de apoio às artes;
d) que se regulamentem mecanismos simples e eficazes de combate à precariedade laboral no sector;
e) que as estruturas de criação artística vejam reflectida na sua carga fiscal a relevância que têm como agentes de dinamização artística, cultural e social.

ASSINAR AQUI

PRIMEIROS SUBSCRITORES

CENA – Sindicato dos Músicos, dos Profissionais do Espectáculo e do Audiovisual
Sindicato dos Trabalhadores de Espectáculos
PLATEIA – Associação de Profissionais das Artes Cénicas
Amarelo Silvestre
Artistas Unidos
Carlos Costa – actor/encenador
CENDREV
‘dobrar
Erva Daninha
Escola da Noite
Escola de Mulheres
Filipa Malva – cenógrafa
Festival Internacional de Marionetas do Porto
Inês Barbedo Maia – produtora
José Leitão – encenador
Julieta Guimarães – produtora
Manifesto em Defesa da Cultura
Máquina Agradável
Miguel Boneville – artista
Musicamera Produções
Pedro Carvalho – actor
Rodrigo Francisco – encenador
Sérgio Dias Branco – professor de Estudos Fílmicos, Universidade de Coimbra
Sónia Baptista – artista
Teatro Art’imagem
Teatro das Beiras
Teatro de Ferro
Teatro do Eléctrico
Teatro Extremo
Teatro Praga
Tenda
Teresa Arcanjo – actriz
Umbigo
Vasco Gomes – artista circense

VI Lénine, a caminho de Lisboa

Antes de morrer, em 1924, o revolucionário russo Vladimir Ilitch Ulianov, também conhecido como Lénine, foi vítima de terríveis alucinações. Febril e quase paralisado, recorda a sua irmã Maria, chegou a pedir veneno a Stáline para acabar o suplício. Até aqui tudo é histórico.

Segundo o próprio, em Janeiro desse ano, o médico mandou-o apanhar um comboio para Lisboa, onde deveria ser examinado por um médico famoso. Contudo, ao chegar a Lisboa, Lénine depara-se com um mundo estranho que, dizem os jornais, é 2016. Confuso e frustrado, depois de uns dias a vaguear pela cidade, o líder comunista decide regressar à Rússia. É à espera do comboio, em Santa Apolónia, que o encontramos, humano, lúcido, intempestivo e a lutar para compreender quem é que afinal, no meio desta realidade surrealista, está mesmo a alucinar. É esta, grosso modo, a história da peça de teatro «A Última Viagem de Lénine», que a associação Não Matem o Mensageiro estreia em Outubro, no Teatro da Trindade, quando a revolução russa celebra 99 anos.

Por que razão trazer Lénine a Lisboa? O que diria o revolucionário russo se os fios de Clio se enlaçassem e o comboio o largasse nos nossos dias? Admitiria que a viagem é apenas um delírio febril ou, pelo contrário, diria é o nosso mundo que está louco?

Quando Lénine escreveu as «Teses de Abril», em que defendia a tomada de todo o poder pelos sovietes, o revolucionário Alexander Bogdanov disse tratar-se do «delírio de um louco». A sua própria companheira, Nadejda Krupskaia, escreveu: «receio que Lénine possa ter enlouquecido». E, no entanto, seis meses depois, os bolcheviques tomavam o poder e começava a mais heroica aventura da História humana. Lénine não estava louco.

Os grandes protagonistas da História não são os indivíduos, mas as classes sociais. Mas para que esta apreciação materialista nos seja útil é necessário imprimir ao estudo da vida social, único critério da verdade histórica, um dispositivo dialéctico que analise a relação entre as classes e os indivíduos que as lideram. Da mesma forma que a realidade pode e deve ser estudada de forma dialéctica, de fora para dentro, do superficial para o complexo e do aparente para o sistemático, também o papel do carácter e da personalidade dos líderes históricos deve ser considerada da classe para a família, da consciência para a acção, da atitude individual para as contradições entre a atribuição e desempenho de papeis político-sociais.

Esta proposta exige necessariamente a capacidade de desligar a avaliação política da avaliação histórica (quantos políticos anti-comunistas agradecem, mesmo que secretamente, a Estaline pela derrota do III Reich?) e as considerações morais das considerações sociais (quantos anti-comunistas reconhecem que a pobreza aumentou na Roménia desde o fim do socialismo?).

Longe da citação gratuita e descontextualizada e da cor de bronze das estátuas rectilíneas, há um ser humano extraordinário, cujo génio reduz ao ridículo o encómio, a edulcoração e a calúnia. Na sua vida como na sua obra tudo em Lénine é verdadeiramente revolucionário, avançado e destemido.

Mas não precisamos só da obra de Lénine, precisamos da sua maneira de ser. Precisamos do homem extraordinariamente humilde, que gostava genuinamente de falar com os trabalhadores e de aprender com eles. Precisamos do homem que era capaz de criticar rispidamente os seus adversários e vencê-los pela palavra. Precisamos do homem capaz de trabalhar simultaneamente com Stáline, Kollontai, Trótsky, Radek, Zinoviev, Kamenev, Bukharin e Luxemburgo.

Precisamos do homem de sensibilidade fina, que chorava a ouvir Beethoven e que memorizou o Germinal de Zola. Precisamos do homem que ia «caçar» e não disparava porque, admitia, «a raposa era demasiado bonita». Precisamos do homem que, em 1917, legalizou o casamento de pessoas do mesmo sexo e empossou um ministro assumidamente homossexual. Precisamos do homem que uma noite dançou na neve porque a Revolução tinha vivido mais um dia que a Comuna de Paris.

Precisamos de um homem que, como todos, também cometeu erros. Precisamos do homem que os companheiros tiveram de segurar, porque chorava tanto que quase desmaiava, no funeral de Inessa Armand.

Precisamos do refugiado e do preso político que desprezava o luxo e que, conta Gorky, mesmo nos momentos mais duros era capaz de se rir da vida à gargalhada.

Precisamos do homem que admoestou o funcionário que um dia lhe aumentou o salário e que, quando um outro dia, o segurança, que não o conhecia, lhe pediu a identificação, obedeceu e foi a casa buscar o cartão de Presidente do Conselho.

Precisamos do homem que compreendeu quando a tarefa imediata não era construir o socialismo e quando a tarefa era tomar o poder. Precisamos do Lénine que viveu mesmo, do Lénine que vive e do Lénine que viverá. Precisamos do Lénine humano.

A peça que chega em Outubro é um texto original e um trabalho biográfico singular sobre o fundador da URSS que obrigou ao estudo das principais biografias e obras do personagem histórico. Num texto cómico e acessível, confundem-se mais de cinquenta citações da sua obra e de dezenas de cartas, inéditas em Portugal e recentemente divulgadas aquando da abertura dos arquivos do PCUS.

Como se trata de um projecto sem financiamento público, em breve voltaremos a pedir a solidariedade de todos.

Sê bem-vindo a Lisboa, Volodya.

Dia Mundial do Teatro

Celebra-se hoje, 27 de Março, o Dia Mundial do Teatro, tradição iniciada em 1961 pelo Instituto Internacional do Teatro, que nesta ocasião convida uma figura a partilhar as suas reflexões sobre o tema do Teatro e uma Cultura de Paz. E que melhora forma de comemorar este dia indo ao Teatro.
A Mensagem deste ano é do encenador Russo Anatoli Vassiliev:

Precisamos do teatro?

Esta é a questão que colocam milhares de profissionais desapontados com o teatro e milhões de pessoas cansados dele.

Para que precisamos dele?

Nos anos em que a cena é tão insignificante em comparação com os quadrados urbanos e as terras estatais, onde se deselaçam as tragédias autênticas da vida real.

Que é ele para nós?

Galerias e balcões dourados nas salas de teatro, cadeirões de veludo, alas sujas dos palcos, as vozes bem polidas dos actores — ou vice-versa, algo que pode parecer aparentemente diferente: caixas negras, manchadas com lama e sangue, com um monte de raivosos corpos nus lá dentro.

Que é capaz de nos dizer?

Tudo!

O teatro pode dizer-nos tudo.

Como os deuses habitam nos ceus, e como os prisioneiros definham em esquecidas cavernas subterrâneas, e como a paixão nos pode elevar, e como o amor pode arruinar, e como ninguem precisa de uma boa pessoa neste mundo, e como a decepção reina, e como pessoas vivem em apartamentos, enquanto crianças murcham em camps de refugiados, e como eles têm todos de regressar ao deserto, e como dia após dia somos forçados a afastar-nos dos nossos entes queridos, — o teatro pode contar tudo.

O teatro tem sido sempre e permanecerá para sempre.

E agora, nos últimos cinquenta ou setenta anos, é particularmente necessário. Porque se olharmos para todas as artes públicas, podemos ver imediatamente que apenas o teatro nos dá — a palavra de boca a boca, o olhar de olhos nos olhos, o gesto de mão em mão, e de corpo para corpo. Não precisa de qualquer intermediário para funcionar entre seres humanos — constitui o lado mais transparente da luz, não pertence ao sul, ou ao norte, ou ao este, ou oeste — não, é a essência da própria luz, brilhando de todos os quatro cantos do mundo, imediatamente reconhecível por qualquer pessoa, quer seja hostil ou amistoso para com ele.

E nós precisamos de um teatro que permaneça sempre diferente, precisamos de um teatro de muitos tipos diferentes.

Porém, penso que entre todas as formas e feitios do teatro, as suas formas arcaicas serão agora as mais procuradas. O teatro das formas ritualizadas não deve estar artificialmente oposto ao das nações “civilizadas”. A cultura secular está agora cada vez mais emasculada, a chamada “informação cultural” substituiu gradualmente e empurra para fora entidades simples, assim como a nossa esperança de eventualmente as encontrarmos um dia.

Mas eu posso vê-lo claramente agora: o teatro está a abrir as portas amplamente. Entrada livre para tudo e todos.

Mandem os dispositivos e computadores ao inferno — vão ao teatro, ocupem filas inteiras nas plateias e galerias, oiçam a palavra e olhem as imagens vivas! — é teatro diante de vós, não o negligenciem e não percam a oportunidade de participar nele — talvez a mais preciosa oportunidade que partilhamos nas nossas vãs e apressadas vidas.

Nós precisamos de todos os tipos de teatro.

Há apenas um tipo de teatro que seguramente ninguém precisa — refiro-me ao teatro dos jogos políticos, o teatro das “ratoeiras” políticas, o teatro dos políticos, o teatro fútil da política. O que certamente não precisamos é o teatro do terror diário — quer seja individual ou colectivo, o que não precisamos é o teatro de corpos e sangue nas ruas e praças, nas capitais ou nas províncias, o teatro falso de conflitos entre religiões ou grupos étnicos…

A marrar contra as paredes

Desenho retirado da reportagem gráfica do blogue,Carbono e Outros. 1, 2, 3, 4

“Aleksei: “É o fim da propriedade privada: vai ser maravilhoso!” Pobres de nós, os bandalhos de terceira! Já que estamos privados do único bem terrestre – a propriedade –, então dá jeito cantarem-nos essas cantigas. Mas mesmo em sonhos continuamos aferrados ao que é nosso: “a minha trouxa, as minhas peúgas, a minha Maria”! O “meu”, que lá nisso nós somos iguaizinhos aos animais. Estás a ver, vocês andam a fazer propaganda a animais! Querer mudar os homens é como marrar contra uma parede: estão à espera de enganar quem?

Comissária: Achas que contra o “eu” e contra o “meu” não há nada a fazer?

Aleksei: O bem-estar egoísta, a propriedade privada, o salário, o pilim, o bónus, o lucro! Desde que o Homem é Homem que esbarramos contra esse muro! Por todo o país hão-de ser sete cães a um osso! Matilhas de proprietários engalfinhados a espumarem por um frango raquítico. Trazemos este fado dentro de nós.

(Cala-se de repente, como se tivesse sido arrancado a uma visão.)

Comissária: Muito bem, a Humanidade é ainda imperfeita – e é melhor assim. Só quer uma coisa: ter um pouco menos de fome. Basta uma galinha para virar os homens uns contra os outros. Fecham-se em casa, barricados com a sua galinhita bem segura… E não vêem as manadas de vacas gordas que lhes passam mesmo diante do nariz. E tu vês isso tudo e não queres saber. Deixas andar e ainda te gabas. É preciso gritar aos ouvidos de cada um: “Estás a ficar sem a tua parte! Estás a ser roubado!”. E se mesmo assim ele ainda não entende, então é preciso agarrá-lo pelo toutiço, a esse piolhoso, levantar-lhe a cara da lama e dizer-lhe: “Queres viver e comer melhor? Queres lavar-te pela primeira vez? Queres desenvolver os miolos? Queres amar?… Então levanta a cabeça, porra! Enfrenta o inimigo, olhos nos olhos, até à morte, se for preciso. Entra no combate – e respira! Percorre a Terra: ela pertence-te! Abandona a noite em que te fecharam e grita, a plenos pulmões: “Viva o sol, e viva a vida digna que eu, enquanto Homem, posso ter!”.

(Silêncio)”

Excerto do texto de “A Tragédia Optimista”, de Vsevolod Vichnievski, tradução de António Pescada. Em cena no Teatro Municipal Joaquim Benite, em Almada, até ao próximo dia 31 de Janeiro.

Nota: ontem, domingo, dia de eleições, a parede do Teatro tinha sido pixada. Alguém escreveu, “Podem limpar a História mas não podem apagar a nossa memória. Viva a Anarquia!”
Acho que é a primeira vez que participo num espectáculo em que alguém se deu ao trabalho de mostrar publicamente que o nosso trabalho o fez pensar e reagir.
Como actor, sinto que não pode haver maior felicidade e até finalidade no nosso trabalho do que esta.

Na luta de classes não há espectadores

A Associação Cultural Não Matem o Mensageiro, que levou às salas de teatro o projecto Marx na Baixa, está a trabalhar em duas novas produções: Homem Morto Não Chora e A Última Viagem de Lénine.

Com estreia marcada para Março no Teatro da Comuna, em Lisboa, e sem quaisquer apoios públicos, Homem Morto Não Chora é um gesto de militância e activismo dos actores (o André Levy e o André Albuquerque) e da encenadora, a Mafalda Santos. Trata-se de uma peça política com o propósito declarado de levar a mais trabalhadores a coragem necessária para lutar. Cremos que, desde o 25 de Abril, não se levantava nenhum grupo de teatro político e de classe. Não é fácil, já se adivinha, fazer teatro politizado quando os teatros estão a fechar. Mas é uma necessidade. Uma necessidade de todos.

Se a arte e o entretenimento amplificados pelos grandes grupos económicos nos indigna pela intenção de estupidificar e alienar, devemos, num gesto de indignação, ajudar a criar a resistência. E também nos palcos se resiste.



É por acreditarmos que faz falta um projecto de teatro para dar mais força à luta que pedimos o teu contributo e a tua solidariedade. Podes fazer o teu contributo, a partir de um euro, com segurança através desta conta do PPL. O prazo para apoiar o projecto é o princípio de Fevereiro.

Homem Morto Não Chora

«Privatize-se tudo, privatize-se o mar e o céu, privatize-se a água e o ar, privatize-se a justiça e a lei, privatize-se a nuvem que passa, privatize-se o sonho» E se algum ministro não tivesse percebido que o desafio de José Saramago era só uma provocação? E se já não tivéssemos nada a perder? E se perdêssemos o medo? E se encontrássemos, num segredo antigo ou na breve coragem do momento, a coragem para mudar tudo, virar o jogo e começar de novo? E se não fossemos os únicos? Esse ministro existe. Aceitou uma derradeira entrevista, com o propósito declarado de responder a tudo, sem saber ainda que terá que responder por tudo. Mas não faz mal, Homem Morto não Chora.



Nervoso como uma fera enjaulada, o ministro demissionário espera o jornalista, seu antigo aluno. Será a sua última entrevista, a derradeira oportunidade para se justificar perante o país que o viu nascer. Mas entre a culpa e a redenção levantam-se obstáculos formidáveis: um jornalista imprevisível, a sombra do verdadeiro poder e a luta de um povo inteiro. Rapidamente a entrevista deixa de o ser, exaltam-se os ânimos, o entrevistador passa a entrevistado, trocam-se acusações e um terrível segredo ameaça ser revelado.

“Homem Morto não Chora” é o primeiro original da equipa que levou Marx na Baixa a mais de 3000 espectadores em mais de 20 cidades e também ao Brasil. Com encenação de Mafalda Santos e actuações de André Levy e André Albuquerque, Homem Morto não Chora é o original mais antecipado do teatro político português. Comédia de humor ácido como o ar democraticamente rarefeito que Portugal respira, as actuações de “Homem Morto não Chora” destilam a tensão aguda entre duas personagens que, malgrado a ansiedade de se reencontrarem na humanidade comum, não podem habitar o mesmo espaço ético e olham-se, incomunicados, de classes irreconciliáveis.

“Homem morto não chora” é uma peça de teatro sobre a corrupção sem a demagogia, um espectáculo político único, porque os políticos não são todos iguais, mas é também um elogio à coragem e à dignidade da verdade, cujo mérito é levar-nos dos bastidores da corrupção passiva para a linha da frente da resistência activa. Num momento em que o descrédito dos governos e das instituições atinge a embriaguez do opróbrio, “Homem Morto não Chora” é um urgente ensaio sobre a nossa lucidez colectiva, que vem soprar actualidade nos palcos e esperança na plateia.

Pelo caminho, fica uma inquietante discussão sobre o estado de coisas e as coisas do Estado, que enquanto as máscaras vão caindo e os telefones tocam, nos pergunta se a corrupção é intrínseca à política ou se a culpa é do capitalismo; se vale a pena lutar ou se, como dizia Unamuno, somos um povo suicida. E afinal de contas, vale a pena defender a esperança? Obviamente que sim, responde “Homem Morto não Chora”. E que tempos são estes, já Brecht perguntava, em que é necessário defender o óbvio? Porque em Portugal o único incorruptível é o povo português, é para ele este espectáculo surpreendente.

A caminho dos palcos portugueses chega esta peça ousada e arrebatadora, que promete revolucionar o público e pular a cínica fronteira onde acaba a política e começa a arte. É por isso que “Homem Morto não Chora” não nos deixa indiferentes, porque os seus propósitos não se esgotam no palco nem o seu efeito se extingue quando cai o pano. O poeta Paul Valèry uma vez escreveu que uma obra de arte nunca se acaba, abandona-se. E “Homem Morto não Chora” não acaba aqui.