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Contra o alarmismo, pensar, pensar

Ontem houve um tiroteio na Ameixoeira. Certamente estarão a par da coisa, abstenho-me de a explicar. Duas famílias, caçadeiras, tiros e a PSP. Os directos televisivos não tardaram, as análises especulativas rapidamente se iniciaram e quando os factos foram chegando, as análises mantiveram a especulação utilizando a extrapolação, essencial ao preenchimento de 24 horas de informação repetida, mastigada, escarrada e com poucos minutos de verdadeira informação.

Detenho-me em dois momentos a que assisti.

José Alberto Carvalho, na TVI24, mesmo antes do intervalo, lança a seguinte pergunta (transcrição de memória): “Será que este episódio poderá levar a uma escalada de violência? É esta resposta que vamos tentar dar depois do intervalo.”
Fica o espectador a matutar no assunto, a preocupar-se com esta hipótese, a aumentar na sua cabeça a necessidade do aumento de segurança, de polícia nas ruas, etc, etc…

Francisco Moita Flores, na CMTV (a primeira a chegar em directo ao local, claro), diz o seguinte (de memória novamente): “Não quero fazer qualquer tipo de comparação com o acto terrorista a que assistimos na semana passada, porque isto não tem nada que ver com terrorismo… Mas a verdade é que a composição social deste bairro tem muitos pontos de contacto com os bairros belgas onde há terroristas.”
Francisco, quando não se quer comparar uma coisa com outra porque se acha que uma coisa não tem relação com a outra, é simples, não se compara.

Estas frases, estas situações, estas análises e interrogações servem para quê? E servem a quem? Não servem para nada que não seja ocupar tempo de antena com bacoquices, com especulações de café que alimentem um mercado televisivo notoriamente exagerado para o país que temos e altamente degradado pela concorrência da informação-espectáculo em que o “quase” de “vale quase tudo” já está muito esbatido.

Vivemos um período delicado que necessita de mais calma e distanciamento de análise do que uma vontade imensa de colocar todos os cenários em cima da mesa, principalmente os mais catastróficos. Toda a gente sabe que a paz e a tranquilidade são menos mediáticas que a violência, as guerras e o terror psicológico. Toda a gente sabe que, “o drama, a desgraça, o horror” (Albarran, onde andas?), vendem mais.

Outra prova disto é a estreia de ontem de “Aqui tão longe”, série da RTP que tem como mote um atentado terrorista a um avião que partiu de Lisboa com destino a Londres. A RTP, e bem, parece querer apostar na produção de séries nacionais de ficção e menos em novelas, mas não deixa de ser paradigmático que uma das primeiras séries desta aposta seja esta, especulando sobre um cenário alarmista.

Seleccionemos a informação e respiremos fundo. Contra o alarmismo, pensar, pensar.

O MRPP, Bataclan e a vergonha alheia

Para quem não acompanhe a sórdida e não menos entediante telenovela em que se transformou o MRPP, aqui vai um resumo rápido: o Garcia Pereira perdeu votos nas últimas legislativas e, como castigo, foi purgado por Arnaldo Matos com direito a humilhações públicas, insultos à família e uma média de quatro palavrões por editorial no jornal do partido.

Chega o educador da classe operária jubilado, Arnaldo Matos, expulsa a «cambada de catatuas» que dirigia o partido, decreta que Garcia Pereira é anti-comunista primário, social-fascista, traidor, entre outros epítetos, pondo em marcha uma lavagem de roupa suja que faria corar até o mais apolítico leitor. As semanas passaram e a verbosidade de Arnaldo Matos, sob vários pseudónimos, continuou a descer de nível: fraudes fiscais, exploração laboral, insultos de natureza sexual, muito ódio ao PCP, contínua condenação da CGTP, etc. Nada de novo para quem sabe o que é e sempre foi o partido de Durão Barroso.

Mas eis que no editorial deste sábado, Arnaldo Matos consegue deixar perplexos até quem julgava já conhecer o clube do MRPP. A propósito dos últimos atentados de Paris, Arnaldo Matos elogia a «espectacular coragem dos jiadistas» que, no passado dia 13 de Novembro, mataram 130 pessoas. «Não são fanáticos: são franceses patriotas em luta contra o imperialismo francês», acrescenta o líder do MRPP.

Mas o MRPP vai mais longe e diz-nos como entende a morte de uma centena de pessoas «que julgam ter o direito de se poderem divertir impunemente no Bataclan»: «atenção: não só não foi um massacre, como foi um acto legítimo de guerra».

Há muito sabemos que o MRPP não é um partido: é um instrumento para descredibilizar o símbolo que usurparam. Para o capital a utilidade do MRPP é directamente proporcional ao seus histerismo e obscenidade. Desta vez, ao elogiar o cobarde assassinato de trabalhadores franceses e das suas famílias, tenham, talvez, ido longe demais.

Um discurso intemporal – Chaplin, o grande ditador

Desculpem-me, mas eu não quero ser um Imperador, esse não é o meu objectivo.  Eu não pretendo governar ou conquistar ninguém.
Gostaria de ajudar a todos, se possível, judeus, gentios, negros, brancos. Todos nós queremos ajudar-nos uns aos outros, os seres humanos são assim. Todos nós queremos viver pela felicidade dos outros, não pela miséria alheia. Não queremos odiar e desprezar o outro. Neste mundo há espaço para todos e a terra é rica e pode prover para todos.


O nosso modo de vida pode ser livre e belo. Mas nós estamos perdidos no caminho.


A ganância envenenou a alma dos homens, e barricou o mundo com ódio; ela colocou-nos no caminho da miséria e do derramamento de sangue.


Nós desenvolvemos a velocidade, mas sentimo-nos enclausurados:
As máquinas que produzem abundância têm-nos deixado na penúria.
O aumento dos nossos conhecimentos tornou-nos cépticos; a nossa inteligência, empedernidos e cruéis.
Pensamos em demasia e sentimos bem pouco:
Mais do que máquinas, precisamos de humanidade;
Mais do que inteligência, precisamos de afeição e doçura.


Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido.


O avião e o rádio aproximaram-nos. A própria natureza destas invenções clama pela bondade do homem, um apelo à fraternidade universal, à união de todos nós. Mesmo agora a minha voz chega a milhões em todo o mundo, milhões de desesperados, homens, mulheres, crianças, vítimas de um sistema que tortura seres humanos e encarcera inocentes. Para aqueles que me podem ouvir eu digo: “Não se desesperem”.


A desgraça que está agora sobre nós não é senão a passagem da ganância, da amargura de homens que temem o avanço do progresso humano: o ódio dos homens passará e os ditadores morrem e o poder que tiraram ao povo, irá retornar ao povo e enquanto os homens morrem [agora] a liberdade nunca perecerá…


Soldados: não se entreguem aos brutos, homens que vos desprezam e vos escravizam, que arregimentam as vossas vidas, vos dizem o que fazer, o que pensar e o que sentir, que vos corroem, digerem, tratam como gado, como carne para canhão.


Não se entreguem a esses homens artificiais, homens-máquina, com mentes e corações mecanizados. Vocês não são máquinas. Vocês não são gado. Vocês são Homens. Vocês têm o amor da humanidade nos vossos corações. Vocês não odeiam, apenas odeia quem não é amado. Apenas os não amados e não naturais. Soldados: não lutem pela escravidão, lutem pela liberdade.


No décimo sétimo capítulo de São Lucas está escrito:
“O reino de Deus está dentro do homem”
Não um homem, nem um grupo de homens, mas em todos os homens; em você, o povo.


Vós, o povo tem o poder, o poder de criar máquinas, o poder de criar felicidade. Vós, o povo tem o poder de tornar a vida livre e bela, para fazer desta vida uma aventura maravilhosa. Então, em nome da democracia, vamos usar esse poder, vamos todos unir-nos. Lutemos por um mundo novo, um mundo bom que vai dar aos homens a oportunidade de trabalhar, que lhe dará o futuro, longevidade e segurança. É pela promessa de tais coisas que desalmados têm subido ao poder, mas eles mentem. Eles não cumprem as suas promessas, eles nunca o farão. Os ditadores libertam-se, porém escravizam o povo. Agora vamos lutar para cumprir essa promessa. Lutemos agora para libertar o mundo, para acabar com as barreiras nacionais, dar fim à ganância, ao ódio e à intolerância. Lutemos por um mundo de razão, um mundo onde a ciência e o progresso conduzam à felicidade de todos os homens.


Soldados! Em nome da democracia, vamos todos unir-nos!


Olha para cima! Olha para cima! As nuvens estão a dissipar-se, o sol está a romper. Estamos a sair das trevas para a luz. Estamos a entrar num novo mundo. Um novo tipo de mundo onde os homens vão subir acima do seu ódio e da sua brutalidade.
A alma do homem ganhou asas e, finalmente, ele está a começar a voar. Ele está a voar para o arco-íris, para a luz da esperança, para o futuro, esse futuro glorioso que te pertence, que me pertence, que pertence a todos nós.
Olha para cima!
Olha para cima!

Paris, e agora?

Paris, sexta-feira, 13 de Novembro de 2015, 7 actos hediondos abalam o mundo. Homens bombistas explodem junto do estádio onde decorria o França-Alemanha, onde famílias com os seus filhos assistiam a um simples jogo de futebol.

Numa sala de concertos, ouvia-se Eagles of Death
Metal
, como também eu já ouvi entre amigos, e entram pessoas que desatam a
disparar. E a matar.

Num restaurante janta-se e morre-se porque de fora estão pessoas a disparar furiosamente.

O ISIS reclama o atentado, justificando-o com o apoio de França ao armamento de tropas curdas. O primeiro atacante está identificado: é francês.

Sucedem-se as declarações de apoio a Paris, no meio do horror, as portas de todas as casas abrem-se para que ninguém fique na rua, os taxistas levam as pessoas gratuitamente para casa, as pessoas unem-se contra o medo e o horror.

«Pelas entranhas maternas e fecundas da terra/ Pelas lágrimas
das mães a quem nuvens sangrentas/ Arrebatam os filhos para a torpeza da
guerra,/ Eu te conjuro ó Paz, eu te invoco ó benigna,/ Ó Santa, ó talismã
contra a indústria feroz. (*Natália Correia)»

Há dois dias, Beirute.

As chamadas “Primaveras Árabes” ajudaram, juntamente com países como França e os EUA, a financiar e armar a chamada oposição Síria pelos poderes imperialistas, que resultou, entre outras coisas, na formação e alargamento da monstruosidade do “Estado Islâmico”, assim como a criação de uma enorme onda de refugiados, dentro do país (cerca de 10 milhões de pessoas) e também para países estrangeiros (principalmente para a Turquia, Líbano e Jordânia, onde vivem cerca de 2 milhões de pessoas que tiveram de sair das suas casas e, dessas, aquelas que podem tentam chegar a países Europeus).

É preciso lembrar que os países europeus estão – factualmente – a armar países na Europa e fora dela para uma guerra em larga escala em que todos nós somos potenciais vítimas e que o ISIS é financiado, treinado e armado por países como Israel e os EUA. Ou seja, estas potências são simultaneamente o atacante e o defensor.

Restamos nós como vítimas. E entre nós, apressam-se a surgir debaixo das pedras do obscurantismo, por detrás de títulos académicos ou comentários em redes sociais os que querem que a sociedade se volte contra si própria, vasculhando o vizinho do lado – todos somos potenciais criminosos. A nossa pele, a nossa religião, a nossa ideologia é a nossa culpa e a nossa arma e devemos ser julgados por isso. E multiplicam-se os comentários xenófobos e perigosos que exigem e clamam políticas securitárias, encerramento de fronteiras, controlo das comunicações electrónicas e telefónicas, todos somos suspeitos. Todas as prisões devem ser Guantamano. Todas as leis devem ser preventivas. Todos somos culpados.

O carácter de classe e as intenções das forças que estão envolvidas no conflito militar na Síria e no resto do mundo, a pretexto da ” guerra contra o terrorismo”, ou das “razões humanitárias”, ou da aprovação da ONU e, por isso, de acordo com a lei internacional. têm o selo do lucro capitalista, dos lucros dos monopólios e da competição desenfreada a desenvolver-se entre eles, sobre a divisão das matérias-primas, as rotas de transportes, os gasodutos e as acções bolsistas (convém não esquecer as riquezas naturais que estão em causa – o petróleo e as rotas comerciais – isto não é uma guerra religiosa).

Toda a solidariedade com as famílias e amigos das vítimas dos atentados de Paris e de Beirute. Toda a luta contra o racismo, a estupidez e a ignorância. Todo o combate às medidas de opressão, repressão. Toda a denúncia contra os assassinos de ontem e aqueles que lhes põem as armas na mão. Pela Paz.

Depois de Beirute, Paris

Só para lembrar que é dos responsáveis pelo banho de sangue em Paris que fogem os refugiados que abandonam a Síria, o Curdistão, o Iraque e a Líbia. Ontem, foi em Paris. Anteontem, foi em Beirute, onde mais de 40 muçulmanos foram assassinados pelo terrorismo do Estado Islâmico. Em Beirute, morreram árabes. Em Paris, morreram europeus. Todos vítimas dos mesmos carrascos. Não se esqueçam disso quando começar a campanha xenófoba nas televisões, rádios e jornais.

A barbárie nas ruas de Paris é perpetrada pelos mesmos que regaram de sangue o Afeganistão, o Iraque, a Líbia e a Síria. Os mesmos que receberam dinheiro e armas dos Estados Unidos, União Europeia, Turquia, Israel e Arábia Saudita para acabar com regimes nem sempre alinhados com o imperialismo e devolvê-los à Idade Média. E as vítimas, como sempre, somos nós, os trabalhadores.

Turquia, a nossa grande raiva*

De todos lugares do mundo para fazer explodir uma bomba, uma manifestação pela paz é, por ventura, o mais sórdido. Talvez por isso seja ainda tão difícil compreender o inenarrável manifesto de desumanidade que, este sábado, ceifou pelo menos 130 vidas em Ancara, na Turquia. Depois, atingiram-nos, perplexos, aquelas imagens brutais da polícia a bater nas famílias que choravam os mortos. Ligeira e sem mais perguntas, a comunicação social dominante tratou de abreviar conclusões: «o maior atentado terrorista da Turquia moderna teve a assinatura do Estado Islâmico», repetiram, «assunto encerrado. Já cá não mora o Charlie». Se, por acaso, se tivessem perguntado «quem beneficiou com este ataque», teriam sido obrigados a lembrar-se que, afinal, não foi este, mas outros, como o Massacre de Maraş, em 1978, o atentado mais mortífero da Turquia moderna. Nessa ocasião, foram precisos quase 30 anos para se apurar a autoria do governo, com a colaboração da CIA, na matança de quase 200 militantes de esquerda. Seja como for, há coisas que nunca compreenderemos, que não podem ser humanamente compreendidas. Talvez por isso, Adorno tenha escrito que depois de Auschwitz a poesia se tornara «impossível». Desviar o olhar é, contudo, o privilégio dos espectadores e Adorno podia até dar-se ao luxo de não ser prático, mas a poesia tem justamente o mérito de desvendar a essência dos cenários incompreensíveis. Sirvamo-nos pois, dos versos do poeta e comunista Turco, Nâzım Hikmet. (Hás-de saber morrer pelos homens/E além disso por homens que se calhar nunca viste/E além disso sem que ninguém te obrigue a fazê-lo/E além disso sabendo que a coisa mais real e bela é/Viver)

Para entender o ataque de Ancara há que olhar para o massacre de Suruç que, em Julho passado, fez 33 mortos. Então, em véspera de eleições, o governo também culpou o Estado Islâmico, mas foi contra a oposição turca e curda que disparou, prendendo mais de 600 comunistas e sindicalistas e matando centenas de guerrilheiros do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK). Para a comunicação social, tratou-se simplesmente de «operações anti-terroristas». (Ó luz dos meus olhos, luz dos meus olhos/os noticiários estão outra vez a mentir/para que o saldo dos exploradores feche com cem por cento de lucro./Mas quem voltou do banquete do Anjo da Morte/voltou com a sentença…)

Não é fácil, por isso, saber se na raiz do massacre esteve o governo, o Estado Islâmico ou o chamado ‘Estado profundo’ porque os três se tornaram num só: o Estado Islâmico vende petróleo sírio ao Estado turco; o governo já não sobrevive sem o aparelho terrorista do ‘Estado profundo’ que, por sua vez, dirige o terrorismo islamita na provocação de um Estado de sítio permanente. (Ambos sabemos, meu amor/ eles ensinaram-nos/ a ficar com fome, com frio/o cansaço de morte/e a estar separados./Ainda não fomos obrigados a matar/e não aconteceu sermos mortos./Ambos sabemos, meu amor/nós podemos ensinar/a lutar pelo nosso povo/e a amar/a cada dia mais intensamente/um pouco melhor)

A volatilidade política da Turquia revela, como uma radiografia, as fracturas do esqueleto nacional. A vertigem repressiva de Erdogan é o reflexo duplo de um Estado capitalista incapaz de apaziguar os anseios do seu povo e de uma cada vez mais tensa relação de forças entre o imperialismo estado-unidense e as potências regionais. Trata-se de um quadro comum a toda a região que, no mosaico turco encontra características subjectivas únicas e significantes variações quantitativas: saído das eleições de Julho numa situação precária, Erdogan convocou novas eleições para dia um de Novembro compreendendo que as ambições do emergente capital turco exigem virar o Estado em direcção ao fascismo. (O Outono está prestes a acabar /A terra vai entrar num sono profundo logo, logo/E nós vamos passar mais um inverno:/a aquecer-nos com o fogo da nossa esperança sagrada/e com a nossa grande raiva…)

Se internamente o Estado turco ganha contornos fascizantes, externamente é ainda mais violento na procura de uma redefinição geoestratégica de corte otomano. Tendo-se assumido como um eixo estratégico na desestabilização da Síria, os recentes retrocessos do imperialismo naquele país acarretam sérias consequências internas para a Turquia. Como recorda, num comunicado de dez de Outubro, o Partido Comunista, Turquia, «enquanto a polícia turca dá asilo aos assassinos em fuga do Estado Islâmico, o gang no poder (seguidores da sharia do AKP) ataca, receoso de uma derrota». (Eles são inimigos da esperança, meu amor/são inimigos da água corrente/da árvore que frutifica/da vida que se desenvolve./Porque a morte carimbou-lhes a testa/ dentes que apodrecem, carne que se deteriora/serão destruídos e nunca mais voltarão/E sem dúvida, meu amor, sem dúvida/a liberdade caminhará livremente neste país lindo/com a sua melhor roupa:/o uniforme de operário…)

*Versão parcial de um artigo publicado no jornal Avante! N.º 2185 de 15 de Outubro de 2015