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“Sou eu que vos pago o ordenado!”

… e outras tiradas do mesmo calibre. É isto que os trabalhadores do Estado têm de aturar. Nem todos, claro. No país do respeitinho (que é muito bonito!) os polícias estão acima de suspeita ou crítica. Mas são os únicos. Todos os outros são “chulos” e andam a “mamar na teta do Estado”. É mais ou menos esta a opinião publicada, reforçada até à exaustão pelos órgãos de comunicação social e por sucessivos governos que usam a estratégia de semear discórdia entre trabalhadores de diversos sectores como forma de fugir à contestação social.

“Há dois salários mínimos, um no público e outro no privado!”

Não, não há. Salário Mínimo Nacional há um, que é apenas 600€ porque o governo decidiu despachar a discussão desse valor para a Concertação Social, onde se sentam dois representantes dos trabalhadores, dois lacaios e quatro patrões. Na função pública o que há é uma base de tabela salarial de 635,07€ para a carreira de Assistente Operacional. Não há nem tem de haver qualquer relação entre os dois valores: uma coisa é o valor que o Estado burguês deixa que os patrões paguem. Outra é aquilo que através da sua luta os trabalhadores arrancaram ao patrão-estado.

“Também quero ter ADSE!”

Pois. E eu também queria entrar para o pote de Euromilhões daquela malta cheia de sorte. Mas não dá, a ADSE é um subsistema de saúde criado pelos trabalhadores e financiado na totalidade pelo desconto de 3,5% do salário dos trabalhadores do Estado. É um subsistema criado pelos trabalhadores do sector e para os trabalhadores do sector, resultado da forte sindicalização e unidade na luta.

“Trabalham menos horas!”

Verdade. Mas já trabalhámos todos o mesmo tempo. 7 horas de trabalho mais 1 hora de refeição. Entretanto os patrões do privado decidiram fazer o entendimento que o horário de 8h era de 8h de trabalho, e a hora de refeição deixou de contar. Uma vez mais, quem se sente injustiçado deve dirigir a sua indignação não contra os trabalhadores do Estado, mas contra os seus patrões.

“Trabalham pouco e ganham muito!”

A média salarial nas carreiras gerais da função pública é inferior à média nacional. E dentro das carreiras gerais, os mais mal pagos são os assistentes operacionais. O que significa que os trabalhadores que pior recebem no Estado são os gajos que asseguram que toda a gente tem água potável em casa bastando para isso rodar uma torneira. São os trabalhadores da varredura e da recolha de resíduos sólidos urbanos, que constituem a primeira linha de defesa da saúde pública. São os calceteiros, os pedreiros, os serralheiros, etc. Parafraseando o Galeano, são os gajos que fazem o mundo – ou que pelo menos fazem dele um lugar habitável.

“Os professores ganham bem e ainda se queixam!”

É verdade que têm uma remuneração média acima da média nacional. Mas também é verdade que são o sector profissional mais qualificado, levam trabalho para casa – os testes não se preparam nem se corrigem sozinhos – e que têm nas mãos a responsabilidade enorme de formar as gerações futuras.

E assim voltamos ao início: “Sou eu que vos pago o ordenado”

Não, não és. O nosso ordenado quem no-lo paga é o nosso trabalho. E o nosso trabalho é assegurar os serviços públicos e as funções sociais do Estado. De nada.

Esta deformação da opinião pública tem autores e tem objectivos. Semeando a discórdia, a classe dominante consegue que os trabalhadores do Estado percam a solidariedade dos restantes sectores. E sem essa solidariedade, pode ser adiada ad aeternum a regulamentação do subsídio de insalubridade, penosidade e risco. Podem cortar-se subsídios de férias e Natal. Podem congelar-se admissões e progressões. Podem privatizar-se serviços. Podem ser mantidos com baixos salários os trabalhadores de um sector com uma elevada taxa de acidentes de trabalho e doenças profissionais.

E pôde-se, no passado dia 10 de Maio, mas que mais parecia 24 de Abril, cortar-se a passagem a uma manifestação da Frente Comum com duas carrinhas do corpo de intervenção, “por motivos de segurança”, sem que nada o justificasse. Os representantes eleitos por milhares de trabalhadores foram até impedidos de montar um palanque e discursaram de cima de uma escada. Tudo isto na mesma semana em que o descongelamento dos 9 anos, 4 meses e 2 dias dos professores foi novamente recusado pela direita, em que se perdoaram 116 milhões de euros de dívida a um milionário, em que o pulha do Berardo foi à Assembleia da República por a nu a natureza de classe do Estado burguês.

Lucas, Abril imigrou com ele

Há histórias que contadas no Primeiro de Maio, ninguém acredita que já foi 25 de Abril: um patrão faz um contrato a um imigrante; explora-o da forma mais brutal durante um ano; quando esse trabalhador faz greve, o patrão chama a polícia e denuncia a existência de um «imigrante ilegal» que é lestamente detido. O Manifesto74 conversou com Lucas Nascimento, o protagonista de uma história sobre dignidade e coragem.

Lucas chegou legalmente a Portugal, há quase dois anos, então com um visto de turismo. «Comecei a trabalhar no restaurante Miradouro Ignez em fevereiro de 2018, então eu estava legal», explicou ao Manifesto74. «Só me faltava o número da segurança social para poder fazer descontos, mas para ter esse número é preciso que a empresa passe uma declaração indicando que o funcionário está a trabalhar e tem meios de ficar no país».

Mas a desejada regularização não fazia parte dos planos do patrão que responde pelo nome de Mário Gregório: «Ficou a me enrolar por muitos meses, até que finalmente fiquei ilegal no país. Não existe problema na lei: existem patrões que querem se aproveitar da fragilidade da nossa situação para tirar proveito e fugir a impostos», sentenciou.

O «proveito» a que Lucas se refere é um extenso rol de crimes e imoralidades próprias de um traficante de escravos do século XXI: «assédio moral, abuso de autoridade, negação de direitos básicos como subsídio de refeição, horas extras e nocturnas não pagas, horários sempre a mudar e desrespeito pelos prazos para adaptação».
Práticas e métodos que, garante Lucas, mostram como os trabalhadores portugueses estão mais desprotegidos que os brasileiros. «Eu nunca tinha trabalhado aos domingos e nos feriados sempre recebi a dobrar… Já aqui em Portugal é outra história… horários repartidos, o povo trabalha de domingo a domingo, aos feriados e noite dentro. Muitos trabalhadores não têm horários fixos: vivem à merce da vontade do patrão e das horas que ele quer que sejam feitas».

Durante anos, a estratégia de Mário Gregório para explorar ao máximo os trabalhadores do Miradouro Ignez assentou no medo e na divisão dos trabalhadores. «Quando os trabalhadores estão unidos, um patrão desonesto não tem hipótese. Mas com a casa dividida e brigas entre os funcionários, é fácil fazer a vida negra a quem ou mesmo despedir quem faz frente ao patrão». O medo, porém, provar-se-ia ineficaz com Lucas Nascimento.

«Venho de uma família desestruturada e sempre tive muitos conflitos em casa por conta dos vícios do meu pai. Tive de aprender a protestar e a combater desde pequenino. Como minha mãe e meus irmãos não conseguiam fazer-lhe frente, tinha de ser eu. Aos quinze anos consegui expulsá-lo de casa de uma vez por todas, mas esta postura, de não me render perante a injustiça, ficou para sempre».

Portugueses e imigrantes, unidos

A luta dos trabalhadores começou onde normalmente teria acabado: uma injustiça individual, contra uma trabalhadora que, sozinha nada podia fazer, «uma colega do Monte Ignez, que é muito boa pessoa e uma excelente profissional», faz questão de sublinhar. «No seu primeiro trabalho em toda a vida, se deparou com uma patroa que além de lhe pagar miseravelmente, ficou a dever-lhe meses salário. A colega recorreu a todas as instituições do Estado, mas acabou por não conseguir resolver nada. A coitada, já em desespero, foi parar ao Miradouro Ignez em 2017, mas o novo patrão mostrou-se logo tão ou mais desonesto que a anterior: não lhe pagava subsídios, feriados, horas extras e estava constantemente a mudar o horário de trabalho, não ligando se ela tem vida pessoal ou não… Perante essa falta de consideração por parte da entidade empregadora, fomos atrás dos organismos responsáveis do Estado, mas obtivemos sempre respostas do tipo “não há nada a fazer”. Então embarquei nessa luta, em conjunto com meus colegas para mostrar para ela que temos o direito de ter um trabalho onde somos respeitados pelo patrão, que o patrão só tem autoridade até onde a lei permite, e que deve começar por nós a reivindicação de direitos».

À medida que o embrião da luta gestava no restaurante, as velhas «brigas» entre trabalhadores davam lugar à solidariedade. Os portugueses aperceberam-se de que as ilegalidades cometidas contra os imigrantes serviam apenas para pressionar os seus próprios direitos. Estendiam-se pontes entre as exigências de cada um, cada qual descobria no outro a força que sozinho não tinha e, acima de tudo o resto, descobriram que a luta era o único caminho.

«Após ver que nos órgãos responsáveis as chances de mudar algo era quase nula, uma vez que a ACT já tinha autuado o local e nada tinha mudado, tentámos o sindicato, até porque nós não sabíamos quais eram nossos direitos como funcionários da empresa. Nessa altura estávamos muito desgastados e já sem esperança. Lá conhecemos a Albertina que nos recebeu com muita alegria, nos explicou muita coisa, e numa rápida votação, meus colegas me escolheram como delegado do Sindicato da Hotelaria do Norte (SHN).»

Seria o início de uma batalha heroica entre a dignidade e a prepotência, entre a lei e o dinheiro, entre explorados e exploradores.

«Após a chegada da carta do sindicato, a meio de Dezembro, tentaram me comprar. Como eu ignorei, tentaram me ameaçar com despedimento. Então, começaram a mudar o horário dos colegas sem dar prazo de adaptação e a marcar falta às pessoas que não aceitassem o novo horário. Na hora de pagar o salário de Dezembro, o patrão decidiu me pagar apenas o que ele achou que eu deveria receber, mesmo sabendo que eu fiz mais horas que todos na casa, quase todas elas noturnas. A outras duas colegas portuguesas que então estavam de férias, o patrão fez o mesmo e também só pagou o que quis. Quando eu lhe liguei questionando sobre o que tinha acontecido a resposta foi: “Tu não és meu funcionário. És apenas um prestador de serviços e o que recebeste está ótimo. Não entres mais ao serviço que não te quero mais aqui!” Eu respondi-lhe que se ele se quisesse livrar de mim tinha de me fazer chegar uma carta de demissão válida e que no dia seguinte eu estaria ao serviço. Daí para a frente o sindicato decidiu agendar reuniões no Ministério do Trabalho para ver se era possível algum diálogo com o homem».
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Sobre o SHN, que desta forma entrou para a liça, Lucas não poupa elogios: «Tem feito um trabalho incrível, nunca fui tão acolhido e defendido em toda a vida. O Sr. Figueiredo e o Sr. Nuno são homens exepcionais e altruístas», diz dos dirigentes sindicais com que tem contactado, «a luta deles é mesmo a luta de todos que trabalham na restauração».

Perante a absoluta intransigência do patrão, os trabalhadores do Miradouro Ignez avançaram para uma greve de dois dias, a 1 e 2 de Abril, exigindo o cumprimento da lei e o respeito pelos seus direitos. A greve foi um rotundo sucesso, mas a resposta do patrão surgiria depois, quando Mário Gregório despediria ilegalmente Lucas e outros dois trabalhadores imigrantes, chamando a polícia para o deter quando se apresentou ao trabalho.

A PSP confirmou à Lusa a detenção, «após denúncia de que um cidadão estrangeiro podia estar em situação de permanência ilegal no país».

Tanto o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) como a Autoridade para as Condições no Trabalho (ACT) vieram a terreiro desmentir Mário Gregório, que invocara falsamente estas siglas para justificar o despedimento ilegal. Mais ainda, o SEF fez saber que os três trabalhadores imigrantes estão em situação legal a ACT acrescentou que os três estão autorizados a trabalhar em Portugal. E, apesar de tudo isto, borrifando-se para a lei, Mário Gregório mantém o despedimento ilegal.

“Tu não és meu funcionário. És apenas um prestador de serviços e o que recebeste está ótimo. Não entres mais ao serviço que não te quero mais aqui!”

Lucas mantém a vontade de regressar ao seu local de trabalho, mas com mudanças. «Ele tem de perceber que não pode continuar tratar os trabalhadores desta forma» e espera que essas mudanças podem inspirar outros trabalhadores, «o meu caso e dos meus colegas é o caso da maioria dos portugueses que trabalham na área da restauração. Os trabalhadores precisam acordar e lutar contra as injustiças que esse setor promove», sublinha.

A um oceano de distância, Lucas não esconde «uma tristeza imensa» pela situação política do seu país natal e aponta o dedo à reforma laboral de Bolsonaro que «não está a gerar mais empregos ou riqueza, mas sim mais desigualdades», acusa. «O homem que eu via como uma piada está no Poder e aquele que eu admirava está preso. Não sei se sou eu que estou errado ou se é o mundo que está ao contrário».

Não, Lucas Nascimento nunca esteve ilegal em Portugal. Esta terra e a sua cidadania pertencem a quem nela vive e trabalha todos os dias. Já patrões como o dono do Miradouro Ignez, Mário Gregório, estão, eles sim, ilegais, por violar sistematicamente a lei do trabalho, assediar, ameaçar e aterrorizar os trabalhadores mais vulneráveis e explorar desumanamente os que vivem do seu próprio suor. Podíamos começar por denunciar Mário Gregório ao SEF. Pode ser que o deportem para o séc. XIX.

O outro lado da cortiça

Nasci, cresci e vivi grande parte da minha vida em Santa Maria da Feira. Ainda vivo espartilhada entre cidades, sendo que é ali o meu lar. No meu Partido, toda a vida, estive lado a lado com corticeiros. Era fácil saber quem eram mesmo sem lhes falar porque grande parte deles tinha marcado no corpo o seu saber. Literalmente. Uns tinham perdido um dedo na broca, outros parte de dedos.

Desde muito cedo, com eles, estive à porta das muitas corticeiras do nosso concelho. Hoje contam-se as que sobraram porque a maioria foi asfixiada pelo poder do Grupo Amorim. Não é raro ouvir que um pequeno empresário se suicidou por não poder pagar as dívidas. Mais uma família que fecha a sua pequena fábrica, estrangulada com os créditos dos amigos do BES (lembram-se daquela linha de crédito a micro, pequenas e médias empresas liderada pelo BES e apoiada pelo governo Sócrates?).

Foi à porta dessas empresas, onde todos os meses estávamos, que cedo tomei nota em primeira mão da discriminação salarial brutal entre mulheres e homens no sector corticeiro. Eram mais de cem euros para tarefas iguais. Ali, à porta, havia trabalhadores que timidamente aceitavam o papel do PCP e o escondiam para que não fossem vistos. Também muitos nos diziam que nunca iríamos ganhar nada porque o país precisa é dos engenheiros e doutores do CDS e do PSD, que os operários nunca chegariam a lado nenhum.

Eram locais difíceis onde, não raras vezes, os seguranças estavam muito atentos a quem queria receber um papel ou falar connosco.

Fazíamos, contudo, questão de parar os carros de alta cilindrada à saída para lhes entregar os documentos e fazer saber que ali estávamos e ali iríamos voltar.

Foram milhares de distribuições. Foram também milhares de vigílias junto à APCOR de cada vez que uma empresa fechava, deixando trabalhadores meses e meses sem salários e roubando as máquinas do interior da empresa. Marchas à chuva, concentrações ao sol, as ruas de Santa Maria de Lamas iam sempre dar aos patrões da cortiça.

Foi ali também que ouvi as histórias das mulheres que cuidavam dos pais e dos filhos, que trabalhavam desde os 10 ou 12, que não sabiam como iam cuidar da família: nenhuma falava de si. Foi ali que vi os natais (sempre os natais) que lhes anunciavam o desemprego.

Foi ali que conheci o Sindicato dos Operários Corticeiros, o Alírio, o Mota, o Germano (e tantos outros) e que vi como o Sindicato foi crescendo, sempre do lado certo. Como orgulhosamente tornou a igualdade salarial na sua prioridade apesar de, no parlamento, o Bloco de Esquerda insistir em culpar o sindicato acusando-o de assinar um acordo colectivo de trabalho ou a UMAR publicamente atacar estes (e estas!) trabalhadores, incluindo na queixa que apresentaram tendo por base o acordo colectivo. E lembro-me bem do que, à data senti: nunca os tinha visto em nenhuma destas concentrações ou vigílias, em reuniões, à porta de fábricas e, ainda assim, culpavam os próprios trabalhadores por uma desigualdade imposta pelos patrões com total alheamento de como funciona uma negociação colectiva de um acordo. Sem sequer entender porque é que tinham assinado o acordo e ignorado, deliberadamente, a luta de anos que vinham a desenvolver para acabar com as discriminações salariais.

Elas, eventualmente, acabaram no papel, por via do acordo tripartido e faseado celebrado com o Ministério do Trabalho e, escusado será dizer, já sabemos quem chama a si a vitória.

Mais uma vez, os corticeiros caíram no esquecimento porque já não saíam nos jornais.

Mas continuam a trabalhar ao dia, à semana, a perder partes das suas mãos nas brocas, a receber o salário mínimo, a ver empresas a fechar, a concentrarem-se à porta das empresas e da APCOR. O Alírio, o Armando, o Germano, lá continuam. E reencontrei-me com eles, na semana passada, em frente à Câmara Municipal da Feira, onde dezenas e dezenas de trabalhadores estavam em solidariedade com Cristina Tavares, a Cristina que para muitos de nós é a única Cristina de que falamos. A mesma que foi encontrar forças, ninguém sabe bem onde, para ultrapassar os actos violentos, humilhantes e degradantes que lhe infligiram porque insiste, insiste e insiste em manter o seu posto de trabalho.

Já conheço bem a sua história porque não há camarada que não ma conte, não há dirigente sindical que não a saiba, não há um sindicalista que não tenha estado numa acção promovida pela CGTP, não há uma mulher do MDM que não tenha já manifestado a sua solidariedade.

E não, não conheço Cristina pessoalmente nem faço gáudio disso para poder escrever um artigo de jornal apenas para dizer isso mesmo. Não preciso de conhecer porque cresci no meio de muitas Cristinas. Mas admiro-a. Profundamente. Não sei como se resiste a tamanha violência.
Naquela concentração ouvi Arménio Carlos dizer que já lhe ofereceram milhares de euros para que desistisse dos processos e se afastasse. Mas Cristina respondeu sempre a mesma coisa: não quero o vosso dinheiro, quero o meu posto de trabalho.

E sei bem como é difícil esta postura até ao fim. Muitos foram já os que vi não o conseguir fazer e de nenhuma forma critico quem ao fim de anos a ser violentado (há muitas formas de assédio), não aguente mais. Num só dia, já assisti à assinatura de 24 rescisões e despedi-me de um a um com lágrimas nos olhos. Já passaram três anos sobre esse dia e apenas um encontrou trabalho.

Esta postura de Cristina devia ser um exemplo para os governantes. Despedida uma e outra vez, não desiste. Mas o governo não quer saber. Os deputados do PS, do PSD, do CDS, do PAN não querem saber. Nestas concentrações, vejo sempre os «mesmos»: PCP, Bloco de Esquerda, Os Verdes. Sempre.
São os únicos que sabem quem é a Cristina. Ou que querem saber. Cristina não inspira as fotos das deputadas na assembleia da república. Não se juntam para lhe prestar homenagem. Não inspira as associações «feministas» a fazerem concentrações, vídeos para o instagram, posts para as redes sociais. Não inspira o entretainer Marcelo. Como nunca inspiraram as trabalhadoras da Triumph. Para esta gente, as operárias são talvez menores.

Há pouco tempo vi um filme sobre um advogado, activista, que sempre lutou contra o racismo,  pelos direitos civis dos negros. Um desajeitado, mal vestido que andava de autocarro. Não falava a linguagem da modernidade, ainda ouvia cassetes, não se ajeitou numa palestra da nova geração de activistas que rapidamente o descartou. E alguém diz «We stand on his shoulders. We stand on their shoulders».

E é isso que sinto de cada vez que revejo os meus camaradas corticeiros, de cada vez que leio notícias sobre a Cristina. Nós andamos sobre os ombros deles. São eles e a sua luta que nos sustentam, que sustentam a nossa luta. São eles que nos carregam. Eles e tantos outros. Invisíveis aos olhos do governo e da propaganda (sim, propaganda) feminista liberal.

Mas como dizia Big Jim Larkin, sindicalista irlandês, the great only appear great because we are on our knees, Let us rise. E quando o povo se levanta é sempre cedo.


*A 9 de Fevereiro a CGTP convocou nova concentração de solidariedade com Cristina Tavares, em Lourosa, Santa Maria da Feira.

Eventualmente, precários – Um abraço de Leixões até Setúbal

Foto de Carlos Santos – Global Imagens

Hoje foi o dia, mais um dia, em que o Governo do PS alinhou num plano para furar a luta de cerca de 90 trabalhadores, que o são eventualmente, num plano orquestrado em conjunto Operestiva. O pretexto é, como não podia deixar de ser, a Autoeuropa. A empresa que é o alfa e o ómega do que são as nossas exportações e, por isso, tem de valer tudo. Não podemos pôr as pessoas à frente do PIB, não vá o PIB atropelá-las, o PIB que vai subindo a toda a velocidade, rumo nos píncaros de todos os PIB, nos Himalaias dos PIB. A Autoeuropa e os seus trabalhadores, que também são um exemplo de união e luta e eram os melhores do Mundo até dizerem não à administração. A partir daí, passaram a ser uns irresponsáveis que, citando Camilo Lourenço “mereciam salário zero”.

O que indigna alguns comentadores e fazedores de opinião, não é haver um Porto com dimensão internacional que funciona com dez contratados e 90 eventuais. Não são precários, estão abaixo dos precários. Estão no nosso neorrealismo, na Seara de Vento, nos Gaibéus, nos Esteiros. Estão na praça virtual à espera de um SMS que lhes diga se trabalham ou não, se amanhã ganham ou não. Assinam contratos por turno. Dois turnos, dois contratos. Na era da WebSummit, do choque tecnológico, do minuto-ao-minuto, é o sistema que nos devia chocar a todos. São os estivadores, os trabalhadores da Efacec, os trabalhadores das corticeiras, dos têxteis. Sim, ainda há quem trabalhe agarrado a uma máquina de costura, horas a fio, sem poder levantar a cabeça, com batas sem bolsos para não poderem ter telemóveis. É assim o nosso século XXI.

Em Leça da Palmeira, acho que uma grande parte das pessoas da minha idade, pelo menos a norte da freguesia, passou por ser eventual. Era o nosso primeiro emprego, nas férias ou às sextas-feiras ou nos dias em que não tínhamos aulas, íamos para os transitários. Assinávamos a folha – o contrato – e trabalhávamos noite fora. No meu primeiro dia, entrei às 08h00 de sexta e saí às 09h00 de sábado. O último camião a ser fechado era amarelo e azul, já nem foi no cais, foi mesmo na rua, estávamos mortos. Ser eventual é isto.

Também há precariedade aqui ao lado, em Leixões, onde um sindicato conseguiu a proeza de, entre 1981 e 2017, manter exatamente o mesmo número de associados. Durante 36 anos, o sindicato manteve o monopólio dos trabalhadores com contrato. Talvez por isso haja a crença de que os estivadores ganham bem. Porque há um grupo de estivadores que vivem à custa da exploração de outros estivadores, com quem conseguem estar lado a lado sem sentir vergonha na cara. Sem qualquer arrependimento ou simpatia, fazendo o papel do capataz que mantinha os escravos debaixo de olho. Só que a História recusa-se a parar e há avanços positivos porque houve estivadores que não cederam às intimidações e ameaças. Esses sim, os trabalhadores.

Qualquer que seja o resultado desta greve dos estivadores, eles já ganharam. Ganharam a estima e solidariedade dos outros trabalhadores, ganharam o respeito de colegas que não são precários, ganharam a inveja daqueles que precisam de entrar escoltados, num autocarro com vidros escuros, que os esconde a eles mas não esconde a sua vergonha. Ganharam consciência de classe.

Bruno Dias, deputado do PCP, no piquete de greve

RSI


Conheço um gajo que chumbou na condução antes mesmo de provar quanto valia. Sentado no lugar do condutor, nariz ufano e sorriso enfatuado, meteu logo a caixa na primeira, pôs o boné em marcha atrás, prendeu forte as mãos ao volante, e atirando à direita um olhar de matador, anunciou grave e avisado ao pasmo examinador ao lado: «Agarre-se que esta merda vai voar».

texto e concepção: António Santos | ilustração: Julitos Koba | voz: André Levy | música: Ciças Beats

Maio é um país que quer ser gente

É Maio, maduro Maio, dia primeiro de todas as lutas que nos tornam gente: por salários de gente, porque neste país uma pessoa não tem direitos de pessoa com menos de 800 euros; por contratos de gente, daqueles que vêm com direitos de pessoas, como um futuro, uma família e, já agora, sonhos próprios; e horários de gente, e não de bestas mudas de carga alheia que só prestam para albardar. É dia de não trabalharem aqueles que trabalham os outros dias todos. É dia de vir aprender com os trabalhadores do Lidl a não sermos mais tomados por parvos e exigirmos o que por direito é nosso.

O Dia Internacional do Trabalhador é a assumpção da nossa História, dos mais altos voos aos mais fundos lodos, na primeira pessoa do singular: dizermo-nos sujeitos do devir como nos dizemos cantoneiros, professores, operários, vigilantes ou lojistas e ouvirmo-nos, sob o sol vernal da Alameda como nas antiquíssimas festas deste mesmo dia de plenilúnio pagão, a nossa voz colectiva, como um marulhar de povo por entre os prédios, ao ritmo das palavras de ordem que são literalmente palavras que dão ordens. «É mesmo necessário o aumento do salário», «igualdade salarial é urgente em Portugal», «emprego estável sim, precariedade não».

quem te quebrou o encanto, nunca te amou

Maio é a desobediência histórica de nos apercebermos iguais entre os da nossa condição de trabalhadores, de mulheres e homens que vendem a força do seu trabalho e recebem muito menos do que a riqueza que criam. E para onde vai o resto? Quem tem o resto? A velha pergunta ressoa nova como há cem anos e a Alameda prossegue a marcha, rumo à grande desobediência de nos sentirmos capazes de mudar tudo e sermos, finalmente, gente. Lembramo-nos de onde vimos e do que não vivemos: a minha avó paterna, operária e cinco vezes mãe de filhos que só mantinha vivos roubando, escondido na roupa interior, o esparguete que ela mesma produzia na Fábrica dos Leões, em Évora. Para, quase cem anos depois, os netos lhe descobrirem, com um orgulho que se chama «classe», a verdade simples de que não é possível uma mulher roubar aquilo que ela própria criou. A nós tudo pertence porque nós tudo criamos.

Se vives do teu trabalho, hoje é o teu dia. Afirma-o teu como se afirma a dignidade. Que a voz não te esmoreça a turba rompeu.

Os lugares onde Marcelo não vai


O dom de Marcelo é ir a todo o lado sem nunca estar em lado nenhum. Omnipresente na comunicação social, falta à chamada sempre que o interesse nacional coincide com os interesses da classe trabalhadora. Onde está Marcelo quando as populações se batem pelos correios do povo? Porque não dá os seus «afectos» às quase 500 trabalhadoras da Gramax? Meio milhar de operárias com meses de salário em atraso defendem a dignidade e os postos de trabalho de um processo fraudulento de insolvência. Quando, em piquetes de 24 horas, à chuva e ao frio, desafiando a fome, a incerteza e muitos dramas familiares, as operárias da antiga Triumph impedem o roubo da maquinaria estão também a impedir a destruição do aparelho produtivo português. Porque será que Marcelo, sempre tão palavroso sobre moda, jogos de futebol, restaurantes e exercício físico, nada tem a dizer sobre esta matéria? Porque será que o Presidente, incansável na sua digressão afectiva, não vai a Sacavém?

A resposta é que Marcelo só visita vítimas e voluntários, e as inderrotáveis mulheres de Sacavém não aceitam ser uma coisa nem outra. O que lhe sobra em «afecto», falta-lhe em solidariedade.

As operárias da Triumph são apenas um exemplo: podíamos falar dos operários da Seda Ibérica, neste momento em greve contra os horários desumanos, da Autoeuropa, que não abdicam do direito ao fim-de-semana e à família, dos professores, dos enfermeiros, dos trabalhadores da administração pública… Por mais elementarmente justa que seja a causa, Marcelo faz ouvidos moucos a quem luta.

A mão que tira a selfie

De costas para tudo o que aparece na selfie, Marcelo cultiva uma popularidade inventada, alimentada e dirigida há muitos anos pela comunicação social da classe dominante. Os afectos podem até ser genuínos, mas a mão que tira a selfie é da TVI. Por isso, a atenção mediática e a atenção presidencial que merecem as lutas dos trabalhadores estão sempre ao mesmo nível.

Isso é uma coisa, chama-se caridade, é um desporto competitivo semelhante ao golfe e fica sempre bem na selfie. 

Mas que ninguém pense que Marcelo está num concurso de misses. A sua popularidade não é um fim em si mesmo: são munições parcimoniosamente poupadas em Sacavém para, quando for mesmo preciso, disparar em defesa dos patrões. Até lá, Marcelo prefere causas menos problemáticas, ou «consensuais», como lhes chama. Marcelo comporta-se como os «famosos da televisão» que, quando se trata das operárias da Triumph, #AdoptamEsteSilêncio porque a TVI não lhes preparou uma campanha mediática, ou porque, coitadinhos, não sabiam, ou, simplesmente, porque fica mal a uma estrela andar metido em política. Uma coisa é alimentar os sem-abrigo, combater o desperdício alimentar, dar afecto aos pobrezinhos e todas as demais benevolências paternalistas, estritamente voluntárias, que em afectados movimentos ou i pê ésse ésses, aristocráticas e sempre descendentes, atirem um carapau enquanto escondem a cana de pesca atrás das costas. Isso é uma coisa, chama-se caridade, é um desporto competitivo semelhante ao golfe e fica sempre bem na selfie. Outra coisa são 500 famílias atiradas para a miséria que exigem (atenção, exigem) os postos de trabalho e os salários em atraso. Isso é política. E na carreira de apresentador de televisão, como na de Marcelo, não interessa.

Neste caso, interessava. A atenção de Marcelo contribuiria para alterar a postura do governo do PS que, ocupado a ajudar financeiramente os milionários da Uber e da Brisa, lava as mãos do crime que está a acontecer em Sacavém. Mas, já sabemos, o que Marcelo tem para oferecer aos trabalhadores são afectos e aquilo de que os trabalhadores precisam é solidariedade. De trabalhadores para trabalhadores, iguais para iguais.

O detalhe

Figura essencial do Portugal democrático. Génio. Implacável. Exigente. Visão de futuro. Estratega. Império. Riqueza. Começou do nada. Marcante. Determinação. Trabalho. Empenhamento social. Gerador de milhares de empregos. Têm sido estas as palavras ouvidas e lidas durante todo o dia sobre Belmiro de Azevedo. Uma pessoa maravilhosa, um dos 1.200 mais ricos do mundo. Independentemente de tudo, dizem, conseguiu criar uma enorme empresa.

Só que esse independentemente de tudo, é tudo o que importa, porque é a vida das pessoas e a sua sobrevivência. É esse detalhe. Vivemos num tempo estranho em que somos capazes de elogiar quem condena milhares à miséria, porque independentemente de. Lá fora é igual. O caso da Inditex, dona da Zara, e do seu administrador, um dos mais ricos entre os mais ricos, faz capas por isso. Mas utilizar mão de obra infantil passa a ser um detalhe. Esta reportagem da Visão sobre os trabalhadores dos supermercados, de Abril deste ano, diz quase tudo. Belmiro de Azevedo foi um explorador como outro qualquer:

Rui trabalha nos armazéns da Sonae há 17 anos. Leva para casa entre 540 e 560 euros, incluindo o subsídio de refeição. “Para viver com as condições mínimas, tenho de ter dois empregos: saio do armazém ao fim da tarde e aindavou dar aulas de basquetebol noite adentro.”

De facto, talvez tenha sido mais inteligente do que outros, até quando percebeu que investir num jornal que dá prejuízos trar-lhe-ia dividendos. E hoje, na sua morte, está a colher os dividendos disso mesmo, de ter quem ache que foi um benemérito, como se tivesse aberto um jornal para dar alguma coisa às massas incultas. Pensemos: o que leva uma pessoa com tanto tacto para o negócio, tão bem sucedido, a manter uma negócio que dá prejuízo? Por absurdo, imaginamos Belmiro a segurar o Continente durante anos, caso desse prejuízo?

Fala-se, hoje, do principal responsável pela desregulação dos horários do comércio, pela sua abertura aos fins-de-semana e feriados, pela consequente desregulação da vida de milhares de pessoas, até à vida dos milhões de hoje.

E porque há-de a morte de um empresário merecer um voto de pesar do Parlamento? De alguém que disse que só há competitividade com baixos salários? Expliquem lá o que há para agradecer ao certo? Quantos votos de pesar mereceram a morte de trabalhadores?

Isto é o verdadeiro politicamente correcto. Esta coisa de que todos são muito bons depois da morte e quem não se associar ao carpir generalizado é um monstro. É isto o politicamente correcto. E gente que se diz de esquerda escrever artigos do nível – ou falta dele – de Rui Tavares sobre o dono do Público, demonstra bem aquilo que disse atrás. Belmiro defendia que não há almoços grátis. Pois não.