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Para populismo, populismo e meio

Pela boca morre o peixe, pelos actos – ou pela falta deles – morre o populista. Como qualquer inveterado militante do CDS, gente sempre muito sonora na demagogia e no ataque fácil, cai-lhe como uma luva estar isolado no topo da irresponsabilidade e da pura malandrice política. «Nuno Melo ocupa o último lugar dos portugueses na lista de participações em votações nominais nos plenários do Parlamento Europeu». Este campeão das «baldas», que deve estar quase a ser vice-presidente do seu partido, prefere andar em passeatas de campanhas eleitorais pertinho de casa do que estar a trabalhar, como devia, no lugar e na função para a qual fora – infelizmente, diga-se – eleito. Porque no PE não falta trabalho, o que falta é gente com vontade de trabalhar. Porque o mal do PE não é quem trabalha, é quem vive de dinheiros públicos e anda “de costas ao alto pelos cafés”. É que para populismo, populismo e meio.

É bem verdade que, relativamente a deputados do espectro direitista e populista nunca nada está tão mau que não possa piorar. E se conhecíamos até aqui a postura do estridente Marinho e Pinto, na senda dessa casta moralista-conservadora do “olha para o que eu digo e nunca para o que eu faço”, observamos agora o marimbismo altamente patriótico de Nuno Melo. “Ó Abreu dá cá o meu” e siga para bingo, que a remuneração é farta. Para populismo, populismo e meio. E para quem neles vota, ou tem votado, que aprenda definitivamente a lição. É que “não andamos a brincar aos políticos”, o que fará se andássemos…

Nota: Entretanto, tal como a direita temia, parece que este país está mesmo entregue a comunas e esquerdistas em geral. Consta que Jerónimo de Sousa, na qualidade de líder partidário, vai inaugurar um equipamento do Estado. Sim, vai.

No dia internacional em memória das vítimas do Holocausto nazi-fascista.

Entre o discurso xenófobo e racista dos grupelhos de extrema-direita que se manifestam um pouco por toda a União Europeia e o cinismo dos burocratas de Bruxelas relativamente à situação das centenas de milhares de refugiados que aguardam por uma solução para as suas vidas em campos improvisados no leste e no centro da Europa a distância é muito mais aparente do que efectiva. Os fascistas querem impedir activamente a entradas dos refugiados na zona da UE; já a burocracia de Bruxelas vai adiando a solução que desde há muitos meses se impõe, talvez na expectativa de que iraquianos, sírios, líbios e afegãos se cansem das precárias condições em que se encontram aguardando uma mão que não se estende.

Na semana em que se celebra a libertação de Auschwitz pelo Exército soviético, a 27 de Janeiro de 1945, o parlamento dinamarquês aprovou legislação que envergonha o seu povo e que se destina a desencorajar quem foge da guerra, da destruição e da perseguição fanática a dirigir-se para aquele país por tantos considerado exemplar no quadro da União Europeia. A lei prevê o confisco de bens dos refugiados acima dos 1340 euros e dificulta o reagrupamento familiar, condição fundamental para o estabelecimento de famílias em países de acolhimento onde possam viver com dignidade e em paz. [1] É a versão elaborada do muro húngaro. Há até quem recorde a acção dos nazis face aos judeus, naqueles anos de má memória entre 1933 e 1945.

Perante a falta de vergonha dinamarquesa a Comissão Europeia assobia para o lado e aponta baterias à Grécia, que agora acusa de “negligenciar seriamente as suas obrigações” no que se refere à gestão de fronteiras. [2] Ironia das ironias, académicos de várias instituições (incluindo dinamarquesas) preparam a candidatura dos habitantes das ilhas gregas de Lesbos, Kos, Chíos, Samos, Rodes e Leros ao Prémio Nobel da Paz, como reconhecimento da sua acção de auxílio aos refugiados que todas as semanas chegam a solo grego. [3]

Das lágrimas de crocodilo de Barroso em Lampedusa ou das loas à senhora Merkel não restam memória suficiente para criar em torno da vergonha europeia face ao desinteresse a que estão votados os refugiados e imigrantes concentrados em campos uma cortina de fumo. Ao contrário do que se disse e escreveu no final de 2015 a palavra do ano não foi “refugiado” porque relativamente aos refugiados a atitude mais comum entre “nós”, “europeus”, foi a indiferença.

A 1 de Setembro de 2015 o PCP divulgou uma nota “Sobre a Situação dos Refugiados e Imigrantes na Europa” [4] na qual deixava clara a sua posição sobre as causas da crise humanitária bem como sobre a resposta a dar-lhe. Na referida nota podia ler-se, no seu ponto 4, uma observação respeitante à distinção entre “refugiados” e “migrantes” absolutamente justa a que poucos deram ênfase: (o PCP) “deplora a visão de total discriminação na resposta a dar aos problemas humanitários colocados a pretexto da distinção entre refugiados e migrantes e condena frontalmente as visões e declarações, nomeadamente de partidos políticos portugueses, que a pretexto do drama humanitário criado pelas políticas dos EUA, da NATO e da União Europeia apontam o caminho de novas aventuras militares no Médio Oriente e no continente africano.”.

Meio ano passou. Das várias dezenas de milhares de refugiados que desde o Verão de 2015 se foram concentrando na Europa à espera de resposta por parte dos governos nacionais e dos burocratas de Bruxelas apenas escassas centenas viram as suas situações resolvidas. A “Europa” é também isto. Não o é todavia em meu nome.

Notas:
[1] Imune às críticas, Dinamarca aprovou confisco de bens aos refugiados, Público, 26.01.2016.
[2] “Grécia negligenciou seriamente as suas obrigações” na gestão da sua fronteira, Público, 27.01.2016.
[3] Greek islanders to be nominated for Nobel peace priz, The Guardian, 24.01.2016.
[4] Sobre a Situação dos Refugiados e Imigrantes na Europa, 01.09.2015.

[imagem]

A vanguarda. A do povo e a do polvo.

É sempre bom quando as coisas ficam à tona de água e se esclarecem de uma vez por todas, ou pelo menos se vão esclarecendo. François Hollande quer criar um governo transnacional para a Zona Euro. Mas um governo inclusivo e que tenha em conta a opinião dos 19 países da moeda única? Nada disso, uma “vanguarda” composta pelos “países fundadores da União Europeia: França, Alemanha, Itália, Luxemburgo, Holanda e Bélgica”.

E o que tem sido até agora a governação da União Europeia se não uma união fictícia de nações e de economias sob a capa da democracia e da solidariedade? A atitude que esta mesma UE, particularmente os países da Zona Euro, teve com o povo grego, sem quaisquer problemas políticos, éticos e morais, utilizando a chantagem e o autoritarismo como ferramentas de “diálogo”, demonstra bem que o tão exaltado espírito que os “pais fundadores” queriam dar a este polvo capitalista desgovernado e insaciável, só faz concessões quando a vida lhe corre bem. À primeira dificuldade, aos primeiros sinais de que uma das ovelhas tentam bater o pé ao pastor, o polvo irrita-se e sufoca a ovelha tresmalhada até aquele ponto limite em que mais um apertão significará a sua morte.

E depois há a palavra vanguarda. Mais uma daquelas que saídas da boca de um marxista-leninista cheira a mofo, mas que reutilizada por um social-democrata, um liberal ou um democrata-cristão, soa a novo.

Como diz o hino da CGTP-IN, também o povo tem a sua vanguarda, os operários, os trabalhadores, todos os trabalhadores. Que avance a vanguarda de Hollande, a vanguarda do capitalismo liberal. Apenas nos resta o seguinte: não ter medo das palavras e assumir a luta de classes dentro da União Europeia, e vencê-la.

E o polvo? O que lhe acontecerá no dia em que a primeira ovelha se deixar morrer nos seus tentáculos? E depois outra, e outra. O que acontecerá quando o polvo se vir rodeado de ovelhas mortas e sem mais nada para se alimentar?

O implacável rugir do motor da História

Implacável. Ainda mal arrefeceu o corpo da União Soviética e já o edifício do capitalismo europeu mostra brechas em todas as paredes: o ministro alemão das Finanças, Wolfgang Schäuble, que insiste em empurrar a Grécia para fora do euro à bruta, já choca com a chanceler Angela Merkel, que teima em fazer do povo helénico um engenho de escravos moderno, que por sua vez choca, aliás à guisa de todas as grandes guerras europeias, com a posição francesa, que já teme pelas consequências políticas de desligar a ficha do doente terminal, que não é a mesma da Comissão Europeia, que aposta forte num resgate usurário comparticipado por toda a UE, que choca com os interesses do capital britânico, que não quer o mesmo Euro que o Syriza deseja, que por seu turno foi partido ao meio, como as águas do Mar Vermelho, as esperanças do Bloco de Esquerda ou a coerência do Podemos, que também já veio dizer que não quer renegociar coisíssima nenhuma.

Há dez, vinte anos, quando os comunistas falavam da morte do Euro e condenavam a União Europeia, havia sempre algum imbecil, pós-moderno e bem-citado, que atirava um «anti-europeísta» e dizia qualquer coisa sobre o norte da Europa. Mas quem, neste ano do Senhor de 2015, veja o que vai pelo velho continente, não pode deixar de ouvir o implacável rugir do motor da História. É o som do fim da velha e caduca social democracia, do retorno do fascismo e também do regresso do socialismo, nos termos ousados em que Lenine o plasmou no mundo, como única solução para quem trabalha.

E, mesmo em Portugal, a percepção do mundo que o momento político está a parir não voltará nunca mais ao vocabulário de António Guterres: não se falará mais em «pelotão da frente» nem em «europeísmo», nem tão pouco em «democracia europeia». As ferida são demasiado profundas e já todos compreendemos que não se tira a carne da boca da fera com palavras mansas. O referendo grego provou-o taxativamente.

A Grécia abriu a caixa de Pandora: a confusão reina da direita neoliberal à esquerda social-democrata. As fracturas, que até agora pareciam superficiais tornam-se letais e violentas; o futuro tem a marca de uma incerteza violenta; os velhos nacionalismos vomitam novos fascismos: as premissas dos comunistas provam-se acertadas com os mais terríveis exemplos: é este, meus caros, o implacável espírito do tempo. É esta a luta final.

Este texto não é sobre a Grécia

Nem sobre Portugal, ou Alemanha. Também não é sobre austeridade, nem sobre resultados de referendos.

Na verdade, ao falar-se de União Europeia, excluem-se os povos que alimentam esse projecto imperialista, entre os quais o Grego, o Português, o Alemão. Porque falar de União Europeia não é falar de Europa, que é um continente, um vasto conjunto de países, que cá continuarão muito após o colapso do projecto de espoliação que é a União Económica e Monetária e a União Política.

Este texto não é sobre austeridade porque “austeridade” é a capa sob a qual se esconde o capitalismo. O capitalismo não é austero porque austeridade pressupõe rigor e contenção no uso de recursos. O capitalismo é o inverso disso: é a destruição dos recursos naturais e a exploração do trabalho, com desperdício incalculável. O capitalismo, que agora dá pelo pomposo nome de “austeridade”, faz produzir o dobro do que todos os habitantes globo inteiro necessitariam para viver, mas deita fora metade do que produz e mesmo assim um hemisfério do planeta morre de fome. O capitalismo esbanja os recursos para os concentrar nas mãos dos seus privilegiados. Enquanto metade da população da terra sofre de mal-nutrição ou carências no plano da saúde, higiene e acesso à água, uma outra metade consome o suficiente para suportar um planeta inteiro e ainda deita fora diariamente uma parte igual.

Dessa metade de privilegiados, em que nos incluímos apesar de não termos tido opção, apenas um punhado de indivíduos abocanha a riqueza gerada, vivendo na opulência obscena dos milionários a quem nenhuma fortuna satisfaz. Para que esses milhões se concentrem nas mãos de menos de 1% da população terrestre é preciso destruir os recursos comuns e apropriar-se do trabalho dos outros mais de 99%. Mesmo neste contexto, o capitalismo desperdiça milhões e milhões de trabalhadores, votando-os ao desemprego para garantir baixos custos de trabalho e a total precarização das relações laborais.

O capitalismo é desperdício. Austeridade é o eufemismo, tal como Estado Novo o era para o fascismo.

Ora, desde o princípio que a Benelux, a União do Carvão e do Aço, depois a CEE, agora UEM e a UE, são estruturas de mercados capitalistas, são tratados e acordos entre classes dominantes de diversos países que, por mero acaso, ocupam o solo europeu. Aqueles que agora dizem que a “Europa falhou”, que “a Alemanha destruiu a Europa”, como muito se lê por parte dos que, dizendo-se de esquerda, sempre defenderam a estrutura mais de direita que existe no continente: a União Europeia, estão na verdade, a cumprir o seu papel de sempre.

Em primeiro lugar, a “Europa” não é a “União Europeia”, porquanto um corresponde a uma soma de povos e a um espaço geográfico e outro a um conjunto de tratados entre capitalistas que usurparam estados e decidiram mercados.

Em segundo lugar, aqueles que agora vêm chorar pela “europa” (que é na verdade a “União Europeia”), estão apenas a absolver-se a si próprios de terem durante décadas dado a cobertura política “de esquerda” de que o capitalismo sempre precisou para seduzir os povos da Europa com uma União de liberdade, fraternidade e amizade quando na verdade ia impondo uma União de exploração e acumulação.

A derrota do Governo grego nas negociações com a União e o Eurogrupo não é uma derrota da união europeia (a que agora essa “esquerda” chama “Europa”), antes uma vitória dessa estrutura anti-democrática. A derrota do Governo grego é o triunfo dessa União Europeia, não é o triunfo da Alemanha, não é o triunfo da França, nem de qualquer outro país: é o do capitalismo.

Vir agora chorar pela “Europa” cumpre apenas o ritual da defesa da estrutura de direita que, passo a passo, vai fazendo marchar o capitalismo sobre os povos.

Dizer que a “Europa” perdeu, ou que a “Alemanha destruiu o sonho europeu” iliba o Governo grego ante as cedências que aceitou em prol dessa “Europa”;

Limpa o passado dos partidos “de esquerda” que sempre foram “europeístas” (ou seja, pró-capitalistas) porque ao invés de reconhecer que este é o projecto que sempre defenderam, afirmam estar derrotado esse “projecto” humanista e internacionalista que – como se vê – nunca existiu. Ou seja, não foram o BE, a SYRIZA, o PS, o PASOK e os seus semelhantes que andaram a mentir aos povos sobre a União Europeia, mas foi a União Europeia que, como se de repente, se converteu num feudo do grande capital;

Oculta igualmente o verdadeiro papel da União, colocando o problema no comportamento de um país ou de um ou outro líder, fazendo crer que o problema não é estrutural, mas conjuntural. Como se a União Europeia não fosse precisamente isto e como se não fosse precisamente para isto que foi criada: assegurar o aprofundamento da exploração do trabalho pelo capital, independentemente da geografia que lhe sirva de quartel-general.

Por todo o mundo – e aqui em Portugal não se vê excepção – os comentadores e fazedores de opinião, os dirigentes da “esquerda moderna”, da “esquerda livre”, da “esquerda de confiança”, da “esquerda democrática”, da “esquerda moderada”, se desdobram em desculpas esfarrapadas sobre uma tal “Europa” destroçada para não assumirem as responsabilidades de terem desde o início defendido afinal uma “união europeia de regressão, opressora, sem transparência, anti-democrática e absoluta e ferozmente neo-liberal”. Em nada moderna, livre, de confiança, democrática ou moderada.

Nem mesmo perante o colapso da mentira, a burguesia reconhece o falhanço do capitalismo, seja burguesia de “esquerda”, seja de “direita”.

Referendo em Portugal será em Setembro

Duas correcções face ao título: Cavaco ainda não marcou, mas final de Setembro/início de Outubro haverá eleições legislativas em Portugal, para eleger os deputadas na Assembleia da República; e não será um referendo como na Grécia com uma pergunta. Mas essas eleições comportam várias perguntas que devemos fazer-nos a nós próprios e aos programas das forças partidárias. E face ao carácter crescentemente federalista da União Europeia (UE), cabe-nos nestas eleições nacionais perguntar também que UE queremos, e qual a postura que queremos que o nosso governo nacional tenha perante as instituições internacionais, como a UE e o FMI. Queremos um governo submisso, que acatadamente procure cumprir o que lhe é exigido, subordinando a vida da maioria dos Portugueses e o futuro do país a regras que servem interesses do grande capital (estrangeiro e nacional)? Ou queremos um governo que seja capaz de ser assertivo e de defender os interesses nacionais? Queremos um governo que capitule a soberania nacional ou um governo patriótico?

A trabalho está-nos facilitado. O actual governo PSD/CDS-PP já demonstrou que governo quer ser: o menino bem comportado, que até vai além do exigido pelo professor, que levanta a mão antes de ir à casa de banho. Comportamentos aceitáveis por um pupilo, mas não entre Estados soberanos e independentes. O PS também já demonstrou que postura terá no Governo, pelas votações que tem feito relativamente à proposta de renegociação da dívida, elemento fundamental para garantir desenvolvimento a curto prazo em Portugal e evitar ainda mais degradação das funções sociais do Estado. Aliás a Troika nacional (PS, PSD, CDS-PP) tem sido clara na sua visão sobre a soberania nacional ao convergirem na sua aprovação, promoção e cumprimento dos múltiplos tratados e acordos da UE, incluindo na sua recusa de sujeitar ao escrutínio popular~quaisquer decisões supra-nacionais que têm vindo a destroçar a independência de Portugal. Recordem-se apenas o mais recentes:
– o Tratado de Lisboa e os decorrentes pacotes legislativos da Governação Económica (Six Pack e Two Pack)
– Tratado sobre a Estabilidade, Coordenação e Governação na União Económica e Monetária – também conhecido como Tratado Orçamental;
– o «Semestre Europeu»;
– a «União Bancária»;
– o Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento (o TTIP: «Transatlantic Trade and Investment Partnership»)
Tal é o colete de forças em que a troika nacional nos meteu, que pouco podem os seus partidos diferir nas suas propostas legislativas. Cavalo ou jumento, produzem muita merda e a de ambos cheira mal. Na campanha que se avizinha há que direccionar o debate político sobre fundamentos, e não nos deixarmos distrair com questões ilusórias, promessas que não tencionam ser cumpridas. É o futuro do país que está em jogo.

Bem-vindos ao «pelotão da frente»

Ano da desgraça de mil novecentos e oitenta e seis. No dia primeiro do mês Janeiro, Portugal é formalmente anexado a uma grande corporação capitalista, que para levar a cabo o seu desejo de domínio e monopólio europeu e mundial, necessita, como é normal neste ciclo, de fiéis serventuários. Atribuem-nos milhões para adoçar a boca e que são gastos como sabemos. Abate-se a produção nacional, sequestra-se a nossa capacidade económica, aniquila-se grande parte da nossa independência financeira, social e também política. Prometem-nos a «modernidade», a «solidariedade» e a oportunidade «imperdível» de entrarmos num «pelotão da frente» que, é preciso recordar a jactância, faria de nós «um grande, moderno e avançado país». Depois de anos de desbragada ilusão, o doloroso definhamento histórico salta à vista. Um retrocesso cujos indicadores sociais e políticos só encontram comparação em períodos de catástrofe, ou de pós-guerra. A realidade, essa teimosa, essa persistente, mostra-nos todos os dias – como o PCP na altura isoladamente afirmava – o grande sarilho, a grande tragédia, a grande farsa em que PS, PSD e CDS nos meteram.

É hoje bem mais nítido que esta União Europeia é tudo menos uma união «dos 27». É apenas uma união «dos 3». Do Deustche Bank, do BCE e do FMI.

A União Europeia presta-se hoje, perante o resto mundo, a um papel que a deveria envergonhar. Todavia, bem sabemos que o capital não tem moral, nem ética, especialmente quando agoniza. Como foi fácil, afinal, que ditames financeiros e económicos pusessem a nu a falsidade da apregoada solidariedade entre estados-membros. Como é fácil descartar um país e um povo inteiro, que, aparentemente, parece estar a cometer um “crime” de desobediência às regras definidas por burocratas da alta finança, só porque a vontade do seu governo difere da vontade de organismos não eleitos. Como é fácil manter os igualmente frágeis (como Portugal) aninhados e submissos, enquanto se espezinham os semelhantes que lutam contra a miséria que lhe querem impor. Difícil, senão impossível, é continuar a propalar a existência de “democracia” no seio desta União, feição ou característica que nunca teve, nem nunca terá.

É hoje bem mais nítido que esta União Europeia é tudo menos uma união «dos 27». É apenas uma união dos «3». Do Deustche Bank, do BCE e do FMI. Nada mais importa para além disso. As decisões, os mandos e desmandos partem da cúpula, sendo que os demais, em submissão, limitam-se a cumprir as ordens e a readaptar, se necessário, o discurso para esconder essa obediência. No meio de tudo isto sofrem os povos, sejam gregos ou portugueses, que com sacrifício continuam, sabe-se lá até quando, a alimentar um sistema que os ignora e maltrata. Uns sempre no topo, outros sempre de rastos. É esta a «modernidade». É este o «progresso». É este o chamado «pelotão da frente».

As avenidas do futuro

Bruxelas não é uma cidade especialmente agradável. Talvez a ideia de ser a capital da União Europeia não me tenha feito compreender o interesse na estátua ridiculamente pequena de uma criança a urinar água sobre um tanque. Caracas tampouco é bonita. Mas, para mim, é capaz de ser a mais bela das cidades feias. São as pessoas e não os edifícios que me conquistam a simpatia. A beleza dos bairros de Falls Road, Ardoyne e Bogside está naqueles que fizeram de Belfast e Derry capitais da resistência. É útil admirar a pomposidade parisiense? Absolutamente. Também Neruda se espantou com as enormes igrejas de Lisboa, grandes como empadões, enquanto pelas suas ruas corriam bandos miseráveis de crianças descalças. Era, então, a capital de um império decadente que se erguera à custa da colonização, da escravatura e da espoliação dos recursos roubados aos povos agrilhoados de África, América Latina e Ásia. O chileno era ainda um desconhecido poeta que fazia escala em Lisboa a caminho da Birmânia para chefiar o consulado de Rangum.

As decisões políticas europeias tomam-se nas sedes dos grandes grupos económicos e financeiros, formalizam-se em Bruxelas e em Estrasburgo e materializam-se nos bolsos vazios de quem trabalha. É mais ou menos assim. No pior dos casos, o imperialismo europeu bombardeia, directa ou indirectamente, as casas, hospitais e escolas dos líbios, sírios e ucranianos. É a barbárie humanitária e caridosa dos que, inexplicavelmente, continuam a conseguir convencer uma ingénua legião de gente que à esquerda acredita que a União Europeia é um espaço democrático. Ou que pode vir a sê-lo. O grande perigo é que, como sempre, pagamos todos. Pelos que assassinam de forma premeditada e pelos que o fazem de forma negligente.

Na capital da Bélgica, eram quatro da madrugada quando entrámos na Grand Place à procura de Karl Marx. Íamos portugueses, bascos, italianos, uma venezuelana, um porto-riquenho e um holandês. Eu engasguei-me com a cerveja quando um deles me contou que entendia que era tempo de revolucionar as definições. Que se encaixava melhor na nossa realidade o conceito de pobretariado que o de proletariado. Ali, à frente da placa que recordava a presença do autor do Manifesto do Partido Comunista, em 1847, disse-lhe: que se foda a redefinição de conceitos. Num momento em que se dá a proletarização das velhas profissões liberais – como os advogados e os arquitectos, por exemplo – agregando mais explorados às fileiras do proletariado, há quem acompanhe o capitalismo na senda de confundir.

Toni Negri é um dos heróis dos que acham que a luta contra o capitalismo é um jogo de palavras. É o palavriado. Uma nova velha classe que sempre existiu e que acha que é na reinvenção da forma que a revolução nos baterá à porta numa bonita manhã de Verão. O italiano diluiu o imperialismo – que considera ter deixado de existir – no conceito de império e não fala em classe trabalhadora mas em multidão. Curiosamente, tanto pobretariado como multidão ocultam a relação entre o que vende a sua força de trabalho e o que detém os meios de produção. É uma formulação bastante útil para esconder o que define a essência da exploração capitalista e que não estando à vista, naturalmente, se subtrai à hora de se teorizar para onde devem estar apontadas as nossas baterias.

Infelizmente, o imperialismo e o capitalismo não se compadecem com a poesia das palavras. Hugo Chávez, comandante da revolução bolivariana, não era particularmente imune a estas contradições mas costumava contar uma anedota a quem achava que chamando-se socialista às avenidas, padarias e estádios se moldava a realidade. Dizia que um dia chegou um padre espanhol a uma comunidade indígena numa sexta-feira santa e que indignado os teria proibido de comer o porco que estavam a assar. Depois, no rio, baptizou-os um por um dando-lhes nomes cristãos em vez dos nomes autóctones. Um ano depois, quando regressou, observou estupefacto que os indígenas voltavam a comer porco em dia santo. Mas os habitantes locais disseram-lhe que não se preocupasse. Antes de o assar tinham-no banhado no rio e baptizaram-no com outro nome. Já não era porco. Agora era chiguire.

Em sentido contrário aos que querem mascarar a realidade, milhares de participantes na Cimeira dos Povos, activistas das organizações e movimentos sociais da América Latina e Europa, uniram-se para condenar o imperialismo e rejeitar as agressões económicas e militares contra os povos dos dois continentes. Apesar de contradições e pontos de vista divergentes alinharam num posicionamento que de forma abrangente exige a retirada da proposta do TTIP, que protesta contra a ingerência externa em países soberanos como a Venezuela, Cuba e Equador, que se indigna com os milhares de imigrantes mortos no Mediterrâneo, vítimas do capitalismo, que recusa os programas económicos impostos pela União Europeia e FMI a vários países do Sul da Europa e à República da Irlanda.

Ainda pesa muito, e pesará durante muitos anos, o fim do socialismo no Leste da Europa. Pesará para os que resistem conscientes dessa importante derrota. Mas também pesará para os que rejeitando a herança histórica dos que forjaram os primeiros Estados operários da história da humanidade não conseguem compreender que a hegemonia da ideologia capitalista é hoje avassaladora. E não compreenderão que determinadas construções teóricas estão contaminadas e não servem o propósito do essencial que é o ganho da consciência de classe por parte dos explorados e, por conseguinte, a unidade e o fortalecimento das suas organizações. Por donde hão-de pulsar as avenidas do futuro. Então, sim, sem imperialismo nem capitalismo.