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BE ataca Venezuela

«Não me custa nada condenar a falta de democracia na Venezuela.» afirmou, hoje, no JN, Mariana Mortágua, deputada do BE. Há uma semana, quando o PCP apresentou votos de solidariedade com os povos da Venezuela, Brasil e Colômbia, o deputado bloquista Paulino Ascenção afirmava que o seu partido rejeitava “qualquer abuso da força ao nível interno ou através de ingerência externa” e que condenava “qualquer limitação à liberdade de expressão e à livre determinação do povo da Venezuela”. Ou seja, o BE alimentava o peditório de que o governo venezuelano abusa da força e limita a liberdade de expressão.

Num momento particularmente grave na Venezuela, a par do Brasil, em que se tenta legitimar o derrube de Nicolás Maduro, o BE sobe ao muro da traição para dar força aos que já executaram um golpe fascista, entretanto derrotado pelo povo, em 2002. No parlamento europeu, os eurodeputados do BE aliaram-se à direita e abriram caminho à invasão na Líbia e, desde então, tentam repetidamente convencer-nos de que não fizeram nada disso. A haver uma agressão contra Caracas legitimada por uma opinião pública contaminada pelas Marianas Mortágua e Paulinos Ascenção de todo o mundo que saibam os deputados do BE que o criminoso não é só o que dispara. É também o que aponta.

É também curioso que os que dizem defender o legado de Salvador Allende conseguem ao mesmo tempo condenar a revolução bolivariana e Nicolás Maduro porque são, supostamente, os responsáveis pelo caos económico na Venezuela. É que quem tem pelo menos dois dedos de testa e um conhecimento mínimo da história sabe que também houve caos económico no Chile durante o governo da Unidade Popular fruto da mesma estratégia de sabotagem, desabastecimento e bloqueio promovidos pelos grandes grupos económicos, em conjunto com a direita e os Estados Unidos.

Também curiosamente, o BE continua calado sobre a maior deportação de seres humanos desde a 2ª Guerra Mundial que leva o carimbo do Syriza. A polícia de choque do regime grego desaloja milhares de refugiados dos campos e nem uma só palavra sobre o assunto dos amigos do peito de Alexis Tsipras.

Não passarão.

O fascismo é um recurso do capitalismo, não é um elemento exterior ao sistema que dele se apodera quando menos se espera. É por isso com apreensão mas sem surpresa que muitos de nós vêem o ressurgimento de forças partidárias de extrema-direita explícita em vários países, dentro e fora da Europa. Perante as circunstâncias do contexto, diferentes na Europa face a vários países da América Latina onde o fascismo ganha garras, o capitalismo não hesita em libertar o seu velho cão raivoso. Foi assim nos anos 30 do século passado.

O crescimento eleitoral de forças políticas-partidárias da extrema-direita assumida, com destaque para a Frente Nacional em França e agora a AfD alemã, não espantará aqueles que desde há muito avisam para os riscos de uma política desastrosa por parte de instituições nacionais e supranacionais, que abre portas à afirmação de dirigentes “pós-políticos” (geralmente eleitos com um discurso anti-partidos e céptico face a elementos determinantes de qualquer sistema democrático), que se afirmam acima dos interesses que na verdade lhes dão corpo, e que deles beneficiarão caso ditaduras terroristas do grande capital cheguem novamente (ou pela primeira vez) ao poder nos países onde ganham força.

Discursos populistas, racistas, misóginos e excepcionalistas, como aqueles protagonizados por boa parte dos candidatos republicanos na corrida à Casa Branca, ganham noutras paragens formas diferentes, entroncando em estratégias golpistas, como aquelas que são evidentes no Brasil e na Venezuela. Trump é aprendiz de reaccionário quando comparado com Capriles. E o lumpemproletariado que em parte enche os pavilhões – e os bolsos – das campanhas da extrema-direita norte-americana está a milhas da disponibilidade golpista daqueles que desfilam pelas ruas de Brasília e do Rio de Janeiro com o braço estendido “à romana”, denunciando vinculação ideológica de má memória.

O fascismo é a ditadura e a guerra e o capitalismo é a maternidade do monstro fascista que lhe pede todos os dias que o liberte, para melhor o servir. Na última vez que isso aconteceu, em larga escala, foram precisos muitos anos, muitas lutas, milhões de mortos e a destruição inteira de gerações para decepar a cabeça à besta. É também por isso que importa denunciar desde já as campanhas golpistas em curso em países como o Brasil e a Venezuela, custe o que custar.

Contra o fascismo não pode haver descanso, não podem ser concedidas tréguas.

Não passarão.

Terramoto eleitoral na Venezuela

O pior dos cenários foi confirmado, na Venezuela, pelo Conselho Nacional de Eleições. De forma esmagadora, a direita conquistou mais de dois terços dos lugares disponíveis na Assembleia Nacional. A derrota das forças revolucionárias e progressistas era uma possibilidade assumida entredentes nas fileiras chavistas mas a hecatombe eleitoral que acabou por dar-se surpreendeu a própria Mesa da Unidade Democrática (MUD). A oposição vai ter à disposição 112 deputados com a possibilidade, entre outras coisas, de reformar a própria Constituição, de destituir o vice-presidente e os ministros de Nicolás Maduro. Num acto eleitoral em que a afluência dos venezuelanos às urnas foi superior à de há cinco anos, tudo leva a crer que o resultado, mais do que uma aposta no programa da direita, expressa o protesto contra a degradação das condições de vida, a corrupção e a burocracia. Foi de tal forma surpreendente que a oposição conseguiu, inclusive, ganhar no bastião do chavismo, em Caracas.

O que aconteceu no bairro 23 de Enero ilustra algumas das debilidades e contradições da revolução bolivariana. Depois da direcção do PSUV ter apostado nas primárias por Zulay Aguirre, mãe do deputado assassinado Robert Serra, em detrimento de Juan Contreras, que o havia substituído e que é um histórico militante daquele baluarte da esquerda venezuelana, a direita conquistou o deputado a eleger por aquela zona. Apesar de Juan Contreras se ter empenhado de forma comprometida na campanha ao lado de Zulay Aguirre, houve muitos habitantes que se recusaram dar o seu voto a uma candidata sem qualquer outro atributo que o de ser mãe do jovem mártir. Mas as críticas não são de agora.

Em 16 anos, a única vez que as diferentes forças que apoiam a revolução bolivariana foram derrotadas eleitoralmente foi em 2008. Por uma margem mínima, os eleitores venezuelanos rejeitaram em referendo um conjunto de propostas de alteração à Constituição que teriam aprofundado o carácter progressista do sistema político e económico inaugurado por Hugo Chávez. Foi esse revés que levou o comandante a falar de impulsar novamente a revolução através dos três “R”: rectificação, revisão e reimpulso. O facto é que nenhum deles foi levado à letra e o empenho em fazê-lo nunca foi verdadeiro. Não admira, pois, que, agora, se volte a falar em levá-los à prática como solução para sair do atoleiro em que o chavismo está metido.

Seria injusto, e pouco honesto, entender esta derrota unicamente como causa das contradições das forças revolucionárias e progressistas. Obliterar que a revolução bolivariana esteve desde o primeiro momento sob a mira do imperialismo norte-americano e europeu seria fazer o jogo da reacção. Mas esconder as falhas, as vacilações e os recuos do governo liderado primeiro por Hugo Chávez e, depois, por Nicolás Maduro é precisamente o que rejeitam os milhares de venezuelanos que se têm reunido em assembleias, comícios e manifestações por todo o país. Não admira, pois, que o vice-presidente Jorge Arreaza se tenha dirigido à conhecida esquina caliente, onde se concentram diariamente dezenas de chavistas junto à estátua de Simón Bolívar para debater a realidade política. Já em frente ao palácio presidencial de Miraflores, Nicolás Maduro saltou para uma camioneta e falou com a multidão que ali se havia concentrado. Poucos dias depois das eleições, a direcção do PSUV convocou uma reunião extraordinária com quase um milhar de delegados onde o presidente da Venezuela pediu que se falasse sem receios. Não tardaram as críticas de militantes inflamados sobre as falhas em diferentes regiões do país. Um dos militantes acusou, inclusive, de que às vezes a crítica é vista como contra-revolucionária.

O certo é que este é o corolário das tensões que se geraram após a morte do histórico comandante da revolução bolivariana. As barricadas, os ataques a edifícios e a pessoas, o açambarcamento de produtos, a diminuição brutal dos preços do petróleo, a especulação, as filas à porta das lojas e a manipulação mediática foram produto de uma estratégia imperialista cujo objectivo nunca foi outro que o de gerar o descontentamento geral da população e intensificar as contradições internas dos partidos e organizações que sustentam o processo bolivariano.

Hoje, está claro que só a saída da actual situação poderá evitar o triunfo da direita. Como há 40 anos, em Portugal, a oposição tratará de recuperar o tempo perdido e destruir a Constituição. Mas está tudo em aberto. As forças armadas bolivarianas continuam a representar um sólido pilar da revolução e os trabalhadores e o povo podem ainda travar as ofensivas institucionais através do combate nas ruas e nos locais de trabalho usando as inúmeras ferramentas conquistadas ao longo desta década e meia. Entre elas, estão os Conselhos Comunais que, segundo a legislação, “são instâncias de participação, articulação e integração entre as diversas organizações comunitárias, grupos sociais e os cidadãos e que permitem ao povo organizado exercer directamente a gestão das políticas públicas e projectos orientados para responder às necessidades e aspirações das comunidades na construção de uma sociedade de equidade e justiça social”. A criação de estruturas paralelas ao Estado pode, precisamente, abrir um caminho para romper com a institucionalidade burguesa. Importa saber como vão querer responder as forças revolucionárias e progressistas a este momento que tem tanto de decisivo como de perigoso e que recolhe as atenções e preocupações de uma parte importante dos povos latino-americanos e do mundo sobre o futuro do primeiro governo que depois do fim da URSS ousou falar em revolução, socialismo e ruptura com o capitalismo.

A luta é o caminho!

Há muitas décadas atrás, o povo venezuelano levantou-se e derrubou o seu ditador. Depois de algumas transformações democráticas, o poder político ficou refém dos três partidos que representavam os interesses da oligarquia e dos Estados Unidos. No mesmo ano em que o fascismo foi derrotado, as três forças partidárias – AD, Copei e URD – reuniram-se em Punto Fijo e assinaram um pacto com esse nome. O puntofijismo foi o denominador comum que fez convergir esses três partidos em torno da exclusão do Partido Comunista da Venezuela e da partilha do poder num regime de alternância ao sabor das urnas e do sistema mediático.

Em Portugal, o processo revolucionário que impôs a derrota ao fascismo e que produziu grandes transformações no país foi travado desde cedo por PS, PSD e CDS-PP. O poder político é refém há quase 40 anos por forças que representam os interesses dos grandes grupos económicos e financeiros e das potências europeias. Não houve um pacto assinado. Mas é certo e todas estas organizações se gabam de terem evitado um ruptura com o modelo capitalista. Há quase 40 anos que no jogo da alternância dividem os cargos nos grandes bancos e empresas, submetem o Estado ao interesse privado e vendem a soberania nacional.

A espiral neoliberal que atingiu a Venezuela nos anos 80 e 90 devia ser familiar ao povo português. Sob as políticas impostas pelo FMI à pátria de Simón Bolívar, a miséria alastrou nas grandes cidades e deu-se o Caracazo. A explosão popular foi esmagada pelo exército e foram assassinados milhares de venezuelanos. Três anos depois, dando corpo à revolta, Hugo Chávez comandou um golpe para derrubar o governo. Foi derrotado e encarcerado. Quando saiu da prisão, anos depois, era um herói. O levantamento popular de 1989 e o golpe militar de 1992 foram julgados nas eleições presidenciais de 1998 em que o povo sentenciou e aclamou Hugo Chávez como presidente da República.

Neste processo, o partido venezuelano Acción Democrática (AD), membro da Internacional Socialista e partido irmão do Partido Socialista, foi declarado morto pelos trabalhadores e pelo povo. Durante décadas, um partido que se dizia de esquerda praticava políticas de direita, representava os interesses dos grandes grupos económicos e aprovava as directrizes do FMI e dos Estados Unidos. Convenhamos, o destino das cópias é desaparecerem em detrimento do original. Na Grécia, o PASOK colapsou sob o peso do seu historial de traição. No Estado espanhol, o PSOE não consegue assumir-se como a alternativa ao PP apesar da tragédia social com que se debatem os povos que vivem do outro lado da fronteira.

Portanto, Portugal não é excepção. O PS mais do que o PSD e o CDS-PP precisa de recorrer à mentira. Principalmente, para esconder que é a direita que se diz de esquerda. Apesar da perda de votos da coligação Portugal à Frente, o PS já não é o de outros tempos e não conseguiu alcançar a dianteira. O descrédito de se ter aliado aos partidos do actual governo para assinar o memorando com o FMI, a UE e o BCE roubou-lhe potenciais votos e deputados. Não espanta, pois, que importantes figuras deste partido insistam num acordo para viabilizar Passos Coelho e Paulo Portas. Os mesmos que antes das eleições diziam que votar na CDU ou no BE era dar força à direita são os que equacionam estender a passadeira vermelha aos que nos trucidaram nos últimos quatro anos.

O resultado da CDU solidifica a presença dos comunistas e dos verdes na Assembleia da República. Em momento algum se pode falar de derrota sobre um partido que resistiu a 48 anos de fascismo e que conseguiu mais votos e mais um mandato. Abrem-se perspectivas para que a luta nos locais de trabalho e nas ruas possa abrir mais brechas no próximo governo. Durante quatro anos, as sucessivas acções de protesto, das mais pequenas às maiores, apesar do muro de indiferença, arrogância e autoritarismo, evitaram maiores recuos. É, pois, hora de voltar a fazer das nossas avenidas enchentes de dignidade. É esse o elemento central e decisivo para a derrota da hecatombe social que mais do que estar condicionado pela agenda eleitoral deve estar orientado para a ruptura.

Da Telesur às ruas: A revolução será transmitida?

Caracas, Bairro 23 de Enero, bastião da revolução bolivariana

No passado mês de Fevereiro, o governo bolivariano da Venezuela denunciou um plano golpista. Na denuncia, o mandatário, Nicolás Maduro, revelou à imprensa os detalhes desta estratégia elaborada pelos “sectores mais fascistas da oposição, vinculados ao imperialismo norte-americano”. O presidente afirmou que queriam bombardear o palácio presidencial de Miraflores, o Ministério da Defesa e a Telesur.


Davide Angelilli
Bruno Carvalho

Informar para transformar.


A Telesur é uma ferramenta mediática que se define como “um canal multimédia de comunicação latino-americana de vocação social orientada para a liderança e a promoção dos processos de união dos povos do SUL. Um espaço e uma voz para a construção de uma nova ordem comunicativa que procure dar um espaço aos que não são ouvidos pelas grandes cadeiras de noticias”.

Somente um antes da criação da Telesur é que o governo da Venezuela e da República de Cuba haviam formalizado a criação da Aliança Bolivariana para os povos da Nossa América: a ALBA, que hoje em dia reúne doze países membros na região latino-americana e caribenha e a três países observadores. Os governos da ALBA – especialmente, a Bolívia, o Equador e a Nicarágua, para além dos que a fundaram – partilham a vontade de alcançar a soberania através da integração regional na América Latina.

No primeiro encontro, na Cimeira de Havana, os governos ratificaram a necessidade de defender “a cultura latino-americana e caribenha e (…) a identidade dos povos da região, com particular respeito e fomento das culturas autóctones e indígenas”. Dentro do mesmo ponto, anunciaram a “criação da Televisão do Sul (Telesur) como instrumento alternativo ao serviço da difusão das nossas realidades”.
Mas qual a necessidade de vincular o processo de integração regional à criação de um meio alternativo de comunicação? Diferentes estudos definem o sector latino-americano da comunicação como um “latifúndio mediático” enfatizando a forte concentração dos meios de informação nuns poucos conglomerados empresariais. O grupo mexicano Televisa, o grupo Cisneros da Venezuela, a Globo, no Brasil e, para dar mais um exemplo, o grupo Clarín, na Argentina, são os principais donos da industria da comunicação latino-americana.

Em consequência dos processos económicos e políticos vinculados à globalização do modelo neoliberal, estes grupos – da mesma forma que as principais corporações mediáticas a nível mundial – estão caracterizados pela primazia da lógica comercial sobre a ética e a política. Por outro lado, estes grupos mediáticos latino-americanos são dependentes, como outros sectores económicos do continente, de poderosos agentes económicos de origem estrangeira. Como escreve Ramírez em “América Latina, o grande latifúndio mediático”: “a concentração e a dependência, como outras tantas vezes na história do continente, encontram-se aqui também para desenhar outra faceta da globalização”. Noutros termos, estes grupos dependem de latifúndios maiores, de monopólios estrangeiros, principalmente, localizados na América do Norte. Por exemplo, 18% das acções do grupo Clarin, da Argentina, são propriedade do banco norte-americano Goldman Sachs.


É por isso que o projecto bolivariano de romper com a dependência regional através da integração entre os países latino-americanos choca de frente com os interesses das grandes corporações mediáticas, vinculadas aos poderosos protagonistas económicos multinacionais com origem e dependência fora da região. Mas não se trata apenas de geopolítica já que em destaque está a oposição das oligarquias à emancipação dos povos.

A democratização dos meios de comunicação na Venezuela

“Este é um dos maiores problemas da revolução: não comunicamos, não sabemos comunicar”, foi desta forma que o comandante Hugo Chávez se expressou poucas semanas antes do Golpe de Estado, em 2002. Saber fazê-lo é fundamental, dizia, para neutralizar a campanha dos meios de comunicação privados contra a revolução. Nessa altura, o monopólio mediático era esmagador. Dar voz ao povo e democratizar a comunicação social foi uma das conquistas do processo bolivariano. E se é verdade que parte da campanha mediática dos meios internacionais se concentra em fazer passar a ideia de que o governo bolivariano monopoliza e censura a comunicação, os dados contradizem essa falsa realidade.

Pelo contrário, é verdade que a direita tratou de fechar os meios de comunicação estatais durante o Golpe para impor ao povo venezuelano uma só versão dos acontecimentos. Também é verdade que o tratamento mediático dos meios privados foi de tal forma escandaloso que levou à saída de Andrés Izarra, um dos principais responsáveis da estação de televisão RCTV. E outra dura verdade é que apesar da radicalização do processo como resposta institucional e popular à tentativa de derrubar o legítimo presidente da Venezuela, o retrato actual dos meios continua a ser favorável ao sector privado. A maioria dos venezuelanos tem televisão por cabo e acede a centenas de canais privados. Para além disso, a audiência indica que os canais privados são os mais vistos ainda que ao longo dos anos os canais públicos tenham vindo a ganhar cada vez mais telespectadores.

Na imprensa escrita e na rádio, não há dúvidas. Os meios nacionais mais lidos e as emissoras mais ouvidas estão nas mãos de grupos privados. No ámbito televisivo, em sinal aberto, o Estado tem cinco canais: TVes, Telesur, VTV, ANTV e Avila TV. Por outro lado, os canais privados são seis, entre os quais se destacam a Globovisión, a Televen e a Venevisión, que representam outro “latifúndio mediático” dentro do mercado venezuelano de comunicação. Por exemplo, a empresa de comunicação Venevisión faz parte do já referido Grupo Cisneros, com uma importante participação, além do sector cultural, na área da tecnologia, dos bens e serviços. Como lembrou Geraldina Colotti num artigo para o jornal italiano “Il Manifesto”, Gustavo Cisneros está entre os quinhentos multimilionários do mundo e muitos consideram-no o principal protagonista por trás da tentativa de Golpe de Estado contra Hugo Chávez em 2002.

Estes grandes meios privados de comunicação estão preocupados com a consolidação do horizonte socialista do chavismo. Para fazer frente à oposição destas oligarquias, a estratégia do governo bolivariano tratou de construir uma hegemonia mediática. O governo trabalhou em duas linhas principais: a “reorientação” dos meios de propriedade pública e a criação de um sistema de informação comunitário e alternativo, com o consenso popular.

É dentro desta estratégia anti-oligarca e emancipadora que se situa a Telesur cujo conteúdo se caracteriza por ir mais além do noticiário. Para além da informação, transmite-se e publica-se conteúdo formativo: opiniões, análises políticas e sociais, videos e material audiovisual, em geral, produzido por artistas, realizadores de cinema e jornalistas latino-americanos. Tudo segundo uma visão de integração entre os povos do sul. Sul que a página oficial define como um “conceito geopolítico que promove a luta dos povos pela paz, autodeterminação, respeito pelos direitos humanos e pela justiça social”.

Nos termos gramscianos, a Telesur seria uma ferramenta para construir o consenso em torno do projecto bolivariano de integração entre os países da região e em torno do processo de transformação estatal. Segundo o pensamento de Gramsci, nas sociedades modernas, é fulcral a questão da hegemonia cultural. O pensador italiano partilhava com Marx a primazia das relações económicas e sublinhava o papel estratégico da comunicação para a manutenção ou alteração das relações sociais que derivam de um determinado modo de produção. Baseando-se na dominação de um bloco social sobre outro, já não somente a coerção mas também a “construção do consentimento” popular. Nesse sentido, há que deixar claro que a Telesur é apenas mais um tijolo na estratégia mediática do governo bolivariano, especialmente a nível nacional.


Os meios comunitários e alternativos de Caracas

Nos últimos anos, tem sido cada vez mais frequente a aposta pela criação e consolidação de uma rede de meios alternativos e comunitários, muitos deles apoiados pelo Estado, que procuram criar um sistema de informação auto-gestionado pelos movimentos sociais. É fundamental destacar que o processo de democratização da informação na Venezuela é caracterizado pela redistribuição do peso mediático a favor das comunidades e que se vai desenrolando a par da consolidação do poder político popular.

No ano 2000, a Lei Orgânica de Telecomunicações foi alterada, o que representou um primeiro passo para a implementação de uma rede de meios alternativos e comunitários. Desde então, multiplicaram-se estas experiências e deram-se importantes avanços a pesar da forte oposição da oligarquia. O que preocupa à direita venezuelana e internacional não é só que o Estado assuma nas suas mãos ferramentas para comunicar. Preocupa-lhe que, cada vez mais, o povo ganhe poder de forma comunicativa. Quando já está em cima da mesa um projecto-lei para abrir caminho aos meios alternativos, populares e comunitários, a oposição reclama.

Por que protestam os representantes dos grandes grupos económicos e financeiros perante a vontade do governo de dar ao povo ferramentas mediáticas que lhe permita fazer ouvir a sua voz? É compreensível se pensarmos que foi longo o silêncio embrutecedor em que viviam os pobres nos bairros e nas localidades esquecidas do interior da Venezuela.

Hoje, ao mesmo tempo que se organizam, constroem projectos comunicativos de televisão, rádio, imprensa escrita e digital. Uma realidade tão distante daquela em que vivem europeus e norte-americanos – cujo modelo económico e político é seguido pela oposição venezuelana – deveria fazer-nos pensar sobre quem é que vive de verdade numa democracia mediática e sobre quem é que vive numa ditadura na qual não mais imprensa que aquela que transmite os interesses de uma minoria privilegiada.

A emisora Al Son del 23, localizada no bairro caraquenho 23 de Enero, é um dos exemplos de empoderamento de um sector popular historicamente comprometido com as ideias da revolução. Com todo o simbolismo que isso representa, a rádio foi construída num antigo quartel desde o qual a policía disparava contra os blocos de edifícios do bairro. Ali, onde centenas de activistas foram detidos e torturados, é transmitida a programação que dá voz aos que antes eram marginalizados. Informação, política, desporto e a cultura dominam a frequência hertziana que ocupam. O produto final faria inveja a muitas das principais emissoras europeias, preocupadas mais com os lucros do que com os conteúdos que emitem. Por exemplo, Aló 23 – que é um programa dirigido por Gustavo Rodriguez, um velho combatente guerrilheiro e prestigiado vizinho do bairro – é um importante espaço de análise política. Assim, as classes populares aproximam-se dos temas da actualidade política com uma orientação alternativa e desde as bases. O irmão de Victor Jara, a filha de Luís Carlos Prestes, entre outras e outros testemunhos históricos da rebeldia latino-americana, passaram por este importante meio auto-gestionado. Mas também reitores universitários e directores de institutos públicos passam pelo Aló 23. Assim, o conhecimento teórico dos intelectuais sai das academias para que seja socializado nos bairros populares.

Às vezes, a vontade de armar-se com ferramentas que lhes permita comunicar faz com que os povos utilizem a sua imaginação e criatividade. É o caso da rádio Favela. Inspirados pelo filme brasileiro com o mesmo nome, um colectivo do bairro El Valle decidiu montar colunas por todas as ruas. Rompendo com a necessidade de um emissor, os jovens construíram uma emissora artesanal cuja programação não se escuta nas casas com equipamentos de rádio mas, sim, nas ruas.

Mas para lá das emissoras de rádio e televisão, diferentes colectivos diversificam as formas de combate ao que chamam a guerra mediática. Para contrastar o que dizem os meios da direita, criam alternativas audiovisuais através da internet como El Arañero. O enchem as paredes e os muros do país de cartazes e murais. Por exemplo, o Comando Creativo é um colectivo de artistas que se expandiu por toda a Venezuela. A sua filosofia é levar as mensagens do processo bolivariano às paredes das cidades venezuelanas. Neste momento, há muitas instituições públicas que pedem o apoio deste grupo de artistas revolucionários para difundir os valores socialistas nos bairros urbanos. Assim, por exemplo, na cidade onde nasceu Ali Primera apareceu um enorme mural que recorda ao povo a história do cantor revolucionário venezuelano. Noutra ocasião, precisamente um dia depois da ratificação das sanções norte-americanas contra a Venezuela apareceram desenhos com Obama em várias paredes. Numa delas, o presidente dos Estados Unidos foi retratado com uma mala cheia de misseis sob a legenda “a diplomacia do império”. Marco Pérez, do Comando Creativo, contava que um dia organizaram uma oficina em Caracas e que visitantes de distintas cidades. Semanas depois, um dos participantes ligou-lhe a contar que havia conversado com os seus camaradas da fábrica onde trabalhava e que haviam decidido criar um núcleo do Comando Creativo. Todas as semanas, depois do trabalho, percorriam as ruas da cidade para dar-lhes voz. Neste momento, a fábrica em que trabalham tem um espaço para apoiar as actividades deste núcleo.

Noutros casos, é o apoio institucional que põe em marcha a comunicação popular. Um conhecido rapper, Truko, é um dos responsáveis pelo estúdio público de gravação que o Instituto Municipal de Juventude de Caracas oferece a todos aqueles que não têm um sítio para gravar. No mesmo edifício, há oficinas de serigrafia e promovem-se actividades para incorporar a juventude na participação democrática. Ou seja, que possam exercer uma cidadania que vá mais além de votar a cada quatro anos e que implique a transformação social e política da Venezuela através da construção de bases para uma nova forma de organização. Truko é parte de uma nova geração de rappers emergentes que entram dentro da nova estratégia comunicativa no país caribenho. As suas letras cantam o que os meios privados de comunicação historicamente silenciaram ocultando a maioria social. O hip hop, como toda a cultura underground das novas gerações venezuelanas comprometidas com a revolução, recorda as correntes do neo-realismo europeu. Através das expressão artística, transmite-se ao povo uma visão real da sociedade assim como dos valores para a transformar.

Contar objectivamente – e não de forma neutral – a complexidade da realidade e dos processos por que passa a Venezuela requer uma perspectiva que vá além dos âmbitos governamentais. Requer a participação em que os movimentos e as organizações sociais sejam protagonistas, tanto nas comunidades urbanas como nas rurais. E é esse um dos reptos que enfrenta a revolução bolivariana.