Basta que haja uma greve para ouvirmos zurzir a narrativa habitual: não faz sentido fazer greve, porque não resulta, porque os destinatários não são “prejudicados”, e que, portanto, os grevistas deviam era ir para a rua e de cartaz na mão “fazer o seu protesto” para o “sítio certo”. Sucede que quando se vai para a rua e de cartaz na mão, zurze nova narrativa, segundo a qual também “não faz sentido protestar na rua” porque “não é na rua que se resolvem os problemas”, é antes no parlamento onde “se fazem as leis”. Quando “no sítio onde se fazem as leis” se apresenta uma moção de censura e se quer o derrube do governo, também “não é por aí”, porque “não podemos andar sempre em eleições” e o que é “preciso é estabilidade”. Onde é que reside, então, o verdadeiro problema? Onde está o manual de instruções do protesto? Qual é o certo e qual o errado? Para a direita, é fácil. É nenhum.
Para entermos a lógica desses comentadores que nos entram em casa todos os dias e a todas as horas a verberarem contra os protestos e formas de luta, basta que nos centremos apenas e só nesta ideia: a direita não tem nenhum problema com o protesto. Desde que, entenda-se, o protesto não exista. A direita vai sempre esbracejar, maldizer, insultar, mostrar-se contra qualquer aspecto formal, contra qualquer grito mais alto, contra qualquer cartaz de papel, contra todo e qualquer método de insurgência por mais pacífico que seja, por mais legal que se apresente, seja por isto, seja por aquilo. A direita (toda ela) é acima de tudo, por natureza, visceralmente contra a ideia de um trabalhador que reivindica. A direita não suporta a ideia de um jovem que reivindica. A direita tem asco ao pobre que ousa gritar uma injustiça. A direita insulta gratuitamente o professor que faz greve. A direita odeia de morte o operário que se sindicaliza. Corre-lhe nas veias, palpita-lhe no sangue, a ideia de que a desgraça social do “outro” só pode ser culpa do próprio, e só do próprio, porque “bom e sério, no mundo, só eu”.
Porque a direita gosta da ordem, mas não de um qualquer estado “de ordem”. Gosta da ordem onde se sente dominadora e intocável, mesmo que oprima (pela força) o direito dos outros. Já não gosta da ordem jurídica que emana da lei fundamental, por exemplo, mortinha que está por dar cabo da Constituição, dos direitos, liberdades e garantias que o que resta da CRP consagra desde Abril de 1976, como se sabe. Já não gosta da ordem legal que autoriza manifestações sem necessidade de autorizações superiores. Já não gosta da ordem legal que obriga a respeitar o protesto. Já não gosta da ordem que confere ao estado o dever de ajudar quem precisa (porque nunca ninguém precisa e todos são malandros). Cheios de si, cheios de individualismo, cheios de ego e, frequentemente, cheios de ódio. Que fácil é para a direita berrar do sofá, onde nenhum bastão chega. E, no entanto, a luta continuará a fazer-se. Pelos que precisam agora, e também pelos que vão precisar um dia, ainda que, por enquanto, não o saibam.