Isabel Moreira, a ambidestra

Nacional

A tradicional descida da Avenida Morais Soares não foi tradicional . Foi uma avalanche história sem memória igual . Foi rua que parecia um país inteiro . Em cada janela uma pessoa a participar com o rosto e com os braços. Tropeçar, ali, foi tropeçar na emoção que não tinha espaço para tantos pés , até ter de ter, porque a rua fez- se país inteiro . Rumo à mudança . Sem um voto desperdiçado . Homens e mulheres de esquerda, votem em quem pode expulsar a direita . No dia 4, votar PCP ou votar BE, é votar na coligação de direita . Não é nem patriótico, nem de esquerda .

Esta foi já a segunda tentativa de Isabel Moreira. O primeiro post da sua página de facebook foi eliminado, assim como foram eliminadas centenas de comentários e bloqueados os respectivos autores, eu incluída. O primeiro post falava de uma «escolha radical» no dia 4 de Outubro. E dizia que «votar PCP ou votar BE é votar na direita».

Votar PCP ou BE é votar na direita. 

Disse-o Isabel Moreira, disse-o Carlos César e disse-o Marinho Pinto.

Por mais que tente agora apagar, reescrever (e, notem, já vai na terceira versão, embora eu já não possa sequer aceder), Isabel Moreira afirmou, com toda a sobranceria que lhe é característica, que votar PCP ou BE é votar na direita.

Faço então aqui uma pequena resenha das medidas do Governo PS de 2005 a 2009, para percebermos mais ou menos o que é votar em quê:

– Lei de Bases da Segurança Social – institui o factor de sustentabilidade que provoca reduções automáticas nas pensões que, com o passar dos anos, poderá atingir 56% de redução automática no ano da passagem à reforma; aumenta a idade da reforma; institui o plafonamento (ou seja, a limitação das pensões);

– Código do Trabalho – desaparece em definitivo o princípio do tratamento mais favorável do trabalhador, facilita a contratação a termo, legitima o trabalho temporário, determina a caducidade obrigatória das convenções colectivas, facilita (e muito!) os despedimentos, reduzindo substancialmente o montante das indemnizações;

– Alteração da fórmula de cálculo das pensões – em 2007 é alterada a fórmula de cálculo, passando a contar toda a carreira contributiva (sabendo-se que muitos que começaram a trabalhar desde os 14 anos nunca tiveram descontos, aliás, o sistema universal de descontos apenas surgiu no pós 25 de Abril) o que provocou reduções drásticas nas pensões, mesmo nas que estavam a pagamento. Tal levou a uma alteração posterior para corrigir, por exemplo, pensões de cerca de 200 euros que tinham passado para 90, mas foi temporária e hoje, as pensões, são cada vez mais baixas em função desta fórmula de cálculo;

– Congelamento de todas as pensões e prestações sociais;

– Introdução da «condição de recursos» reduzindo brutalmente o montante pago a título de abono de família, subsídio social de desemprego, rendimento social de inserção, entre outros;

– Redução do montante e tempo de atribuição do subsídio de desemprego levando a que, após a entrada em vigor desta legislação (2006) mais de metade dos desempregados ficassem sem qualquer subsídio;

– Cortes salariais na Administração Pública;

– Encerramento de centenas de escolas e maternidades;

– Destruição do vínculo público de nomeação na Administração Pública e instituição do Regime de Contrato de Trabalho em Funções Públicas que promove a precariedade;

– Publicação de um SIADAP ineficiente e que apenas serve para criar as condições para despedir pessoal na Administração Pública;

– Lei da água – permite a privatização da água pública;

– Privatização da ANA, CP Carga, REN, EDP….;

– Privatização das instituições do ensino superior, transformando-as em fundações.

Podia continuar e enumerar uma série de medidas da autoria do PS, o partido de Isabel Moreira, que afirma que votar no PCP e no BE é votar na direita. E que nem tem a honestidade de manter o seu texto, tal e qual o escreveu. Já sabemos do ódio de classe que alguns militantes do PS carregam contra os comunistas. É histórico. Mas também sabemos do efeito que têm estes espelhos. E de como lhes custa quando já nem ao espelho conseguem disfarçar.