OCDE: Que trabalhem os velhos

Nacional

Acaba de ser divulgado o pomposamente chamado “Economic Survey Portugal 2026”, um relatório de análise económica da OCDE sobre Portugal. Claro que estes relatórios não se cingem nunca aos números e aos factos, deixando as interpretações para a liberdade de cada um; trazem antes consigo um bom conjunto de «explicações», considerações subjectivas e parciais, que visam influenciar as decisões de quem governa. E são essas explicações, claro, que constituem «notícia». Sendo a OCDE um organismo instrumental que visa alimentar e promover a economia de mercado dentro da UE, é fácil perceber a quem serve e que reais objectivos visa. Deste último «relatório», emana um apelo extraordinariamente contundente e bastante claro por tão desavergonhado: para melhorar a vida da população e da economia, que trabalhem os velhos.

Nas palavras do porta-voz da dita organização, “à medida que a população envelhece e a proporção da população em idade ativa diminui será crucial mobilizar todos os segmentos da força de trabalho e impulsionar a produtividade para continuar a elevar o nível de vida da população”. Referindo que “gostaria de sublinhar muito bem este ponto” – note-se aqui a gravidade do assunto –, defendeu mais restrições no acesso à reforma antecipada – mesmo já estando em vigor cortes vitalícios na ordem dos 16% – por exemplo a pessoas com mais de 60 anos e em situação de desemprego de longa duração – esses privilegiados! – com o intuito de “fortalecer ainda mais o mercado de trabalho e reduzir as carências de mão-de-obra”.

Em boa verdade, aquilo a que a OCDE chama eufemisticamente de “prolongamento da vida activa” não é apenas um chicote sobre o lombo de gerações já de si sofridas e naturalmente cansadas de trabalhar. Não é apenas a insensibilidade de reconhecer as limitações naturais de quem já muito fez e muito trabalhou e que agora teriam direito a uma vida com o mínimo de tranquilidade e bem-estar. É também um ataque intergeracional, um entrave à renovação de muitos quadros e postos de trabalho, que atinge directamente os jovens à procura de emprego, promovendo como alternativas situações de precariedade – o sonho molhado do capital – e a emigração forçada. Por via destes e de outros “prolongamentos” legais, muitos desses postos permanecerão assim ocupados por pessoas cujo grande objectivo nesta altura da sua longa vida, por razões até de saúde e de incapacidade a vários níveis, é tão-só evitar cortes permanentes nas já de si baixas pensões ou reformas.

Ora, mas na prática, o que é que os trabalhadores portugueses podem e devem esperar a partir deste faustoso e até arrogante relatório da OCDE sobre Portugal? Muito simples: uma fácil adopção ou acolhimento das ditas «sugestões» por parte do actual governo de direita e com apoio parlamentar da extrema-direita. São «conselhos» que encaixam como uma luva nos propósitos de Montenegro e que vão servir na perfeição para «dar justificação» a medidas que visem o aumento da exploração e das injustiças sobre quem trabalha ou já trabalhou. Não, não basta o pacote laboral, esse hino criminoso à precariedade. É preciso ainda tocar naqueles que estão em situação de maior fragilidade porque é o trabalho deles, dos velhos, a salvação da economia. Aqui como sempre, só a luta vai poder travar este caminho.

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